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Narrativa e identidade: contribuicoes da avaliacao no processo de (re-)construcao identitaria em sala de aula universitaria.

Introducao

A narrativa de historias e parte integrante de diversos contextos. Bruner (2002, p. 3) observa que "... estamos tao acostumados a narrativa que esta parece ser tao natural como a propria linguagem". Essa caracteristica da narrativa permite-nos considera-la uma pratica social que permite a elaboracao de experiencias pessoais e coletivas, atraves de diferentes interacoes em diversos espacos sociais, inclusive no ambiente pedagogico.

O presente estudo tem por objetivo analisar as narrativas de experiencias pessoais produzidas em sala de aula enfocando, principalmente, a contribuicao dos elementos avaliativos no processo de (re-)construcao de identidade. Com base na nocao de nos e outros (DUSZAK, 2002), igualmente objetivamos investigar como este processo de (re-)construcao identitaria e produzido, ou seja, e co-construido no contexto pedagogico. Tambem usamos o conceito de Taylor (1997) sobre a questao da identidade e moralidade para pontuar a influencia das escolhas morais no processo de (re-)construcao identitaria.

Tomando por base uma visao socioconstrucionista de narrativa (BRUNER, 1997 [1990]; SACKS, 1984; MOITA LOPES, 2001; BASTOS, 2005, entre outros), iniciaremos este estudo com uma discussao acerca da pratica narrativa e sua relacao com avaliacao, pratica social e identidade, propondo que estes elementos sao interdependentes. A analise das narrativas de experiencias pessoais sera realizada de acordo com uma metodologia qualitativa e interpretativa de analise, sendo as questoes propostas discutidas a partir da investigacao de dados coletados em uma turma de curso de pos-graduacao, em uma universidade do Rio de Janeiro.

1. Pratica Narrativa

Os estudos sobre narrativa foram introduzidos na area da Sociolinguistica pelos trabalhos dos linguistas Labov e Waletzy (1967) e Labov (1972). Segundo estes autores, uma narrativa pode ser definida como sendo "um metodo de recapitular experiencias passadas, combinando uma sequencia verbal de oracoes com uma sequencia de fatos que (infere-se) ocorreram de fato" (LABOV, 1972, p. 359).

Diversos outros trabalhos surgiram apos os estudos de Labov, trazendo uma nova proposta de narrativa, de acordo com uma visao socioconstrucionista (BRUNER, 1997 [1990]; SACKS, 1984; MOITA LOPES, 2001; BASTOS, 2005,). Esta nova concepcao nao mais entende as narrativas como forma de recapitulacao de eventos passados, mas sim como recontagens contextualizadas de lembranca de eventos. E com este posicionamento socioconstrucionista que a presente pesquisa se alinha, com o intuito de analisar como o processo de (re)construcao identitaria se revela atraves do relato de narrativas de experiencias pessoais produzidas em sala de aula universitaria.Com esta nova visao, a narrativa pode ser entendida muito mais como uma reconstrucao de experiencias (BASTOS, 2005, 2008; BRUNER [1990] 1997) do que uma mera representacao de eventos passados, ja que estamos sempre reconstruindo nossas historias em funcao da situacao na qual estamos envolvidos.

Dentre os estudos que defendem esta nova visao de narrativa destacam-se os trabalhos de Jerome Bruner (1997[1990]). Diferentemente da perspectiva laboviana, os estudos relacionados a narrativas propostos por Bruner tomam por base o contexto e a cultura das historias em si, bem como do local e situacao onde a narracao esta ocorrendo. Para Bruner (1997[1990]), a narrativa e, assim, organizadora da experiencia humana.

Neste trabalho objetivamos analisar essencialmente narrativas de experiencias pessoais e, portanto, tomamos como base a definicao proposta por Dyer & Keller-Cohen (2000, p. 287), que entendem a narrativa de experiencia pessoal como "uma recontagem oral de eventos passados, onde um narrador em primeira pessoa encontra-se envolvido." (1) Um fator de extrema importancia para esta analise refere-se ao aspecto de espontaneidade das narrativas, ja que consideramos ser este um elemento de diferenciacao entre narrativas de experiencias pessoais e diversas outras modalidades de narrar.

2. Narrativa e avaliacao

A investigacao dos elementos avaliativos na narrativa tambem teve inicio a partir dos estudos propostos por Labov & Waletzky (1967) e Labov (1972), que sugerem uma estrutura basica da narrativa. Tal estrutura compoe-se de seis elementos, a saber: resumo, orientacao, acao complicadora, avaliacao, resolucao e coda. Para o presente estudo, entretanto, apenas o elemento avaliacao sera relevante para discussao e analise.

Segundo Labov & Waletzky (1967) e Labov (1972), a funcao da avaliacao e informar sobre a carga dramatica e/ou emocional da situacao, eventos e/ou protagonistas da narrativa. A avaliacao e entendida pelos autores como a razao de ser da narrativa, ja que esta e o meio do qual o narrador se utiliza para indicar o porque de uma historia ser ou nao contavel (reportavel), bem como para indicar qual o ponto da mesma (isto e, o motivo pelo qual uma historia e contada).

Ainda de acordo com estes autores, a avaliacao pode se dar de duas maneiras durante o relato de uma historia--de forma externa ou encaixada. A externa pode ser encontrada quando um narrador para o relato de sua experiencia para comunicar diretamente ao ouvinte qual o seu ponto de vista sobre o fato narrado. Na avaliacao encaixada, a carga dramatica da avaliacao seria dada de forma indireta, atraves de recursos linguisticos, tais como entonacao, alongamento de vogais, aceleramento ou diminuicao do ritmo de voz, aumentar ou diminuir o ritmo da voz e repeticoes. Deste modo, percebemos que a avaliacao nem sempre suspende o ato de narrar. Segundo Lira (1987), quando um narrador suspende a acao de narrar para informar sobre a carga dramatica ou clima emocional da situacao ou do protagonista (avaliacao externa), a avaliacao tem uma funcao estrutural e, quando isto nao ocorre, ou seja, no caso da avaliacao encaixada, a continuidade dramatica da narrativa e preservada.

O ponto central do estudo da avaliacao pode ser entendido, deste modo, como o elemento chave do narrador para enriquecer a narrativa, tornando-a mais interessante e, consequentemente, prendendo a atencao do ouvinte. E o que, segundo Reissman(1993, p. 20), pode ser entendido como a "alma da narrativa".

2.1. Narrativa, avaliacao e pratica social

Varios autores basearam seus estudos a partir dos pressupostos de Labov & Waletzky (1967) e Labov (1972). Dentre eles destacamos o estudo de avaliacao proposto por Charlotte Linde (1993, 1997). Expandindo a classica e ja comentada definicao de avaliacao proposta por Labov (1972), a autora analisa a estreita relacao entre avaliacao e pratica social, ao analisar a avaliacao como elemento de negociacao em interacoes sociais. Tal relacao torna-se essencial para o presente estudo, que se alinha fundamentalmente com esse conceito para estabelecer uma possivel relacao entre avaliacao e (re-)construcao identitaria.

Linde (1997, p. 152) entende avaliacao como um "fenomeno extremamente persuasivo." De acordo com a autora, podemos considerar como avaliacao "qualquer instanciacao produzida pelo falante que indique sentido social ou valor de uma pessoa, coisa, evento ou relacionamento" (op. cit., p.152). Tal posicionamento considera a avaliacao como fator relacionado intrinsecamente a dimensao moral da linguagem.

Ao ampliar a nocao de avaliacao, Linde (1997) propoe duas dimensoes avaliativas: referencia a reportabilidade e referencia as normas sociais. A primeira diz respeito ao fato de uma dada historia relatar eventos nao previsiveis e/ou esperados. Eventos totalmente esperaveis nao podem constituir a base de narrativas. Assim como para outros autores (BRUNER (1997[1990], SACKS, 1984 in GARCEZ, 2001, por exemplo), o criterio de excepcionalidade e essencial para Linde.

A segunda dimensao da avaliacao usada para estruturar a narrativa refere-se as normas sociais--aos comentarios morais ou percepcoes do mundo, ou de como este mundo deveria ser; quais comportamentos sao ou nao adequados, que tipo de pessoas falantes e ouvintes sao, ao criarem, juntos, uma forma particular de julgamento normativo. Para Linde (1997, p. 153), "uma avaliacao deste tipo compoe o coracao da narrativa; a narrativa oral e muito mais sobre como alcancar um acordo sobre significados morais de diversas acoes do que uma simples narracao destas mesmas acoes".

A pratica social de avaliar e entendida pela autora como fator essencial para a compreensao de uma determinada pessoa, de suas acoes e de seu contexto. A avaliacao nao e entendida por Linde (1997) como produzida por um so falante, mas esta deve ser negociada por todos os participantes.

Esta negociacao proposta por Linde (op. cit, p. 153) e ampliada neste estudo, quando proponho que a co-avaliacao, ou seja, a avaliacao realizada conjuntamente pelos participantes da interacao, pode ser entendida como esta negociacao.

3. Narrativa e identidade

Diversos tem sido os estudos que abordam a questao da identidade baseando-se na narrativa, que e considerada um dos possiveis locus para a (re-)construcao identitaria. Para Moita Lopes (2001), por exemplo, um dos papeis das narrativas relaciona-se a questao de processo de construcao de identidades sociais. Seu foco de interesse e, como ele mesmo reporta, "o papel que as narrativas desempenham na construcao de identidades sociais nas praticas narrativas onde as pessoas relatam a vida social e, em tal engajamento discursivo, se constroem e constroem os outros" (2001, p. 63). O relato de historias revela, na pratica de narrar, as identidades pessoais dos interlocutores. E a partir de nossas narrativas que dizemos quem somos, o que desejamos ou acreditamos, sempre nos reconstruindo a cada relato narrativo.

Mishler (1999) tambem analisa a narrativa como praxis e sugere que as narrativas de experiencias pessoais e as historias de vida nao devem ser entendidas apenas como acoes socialmente situadas, mas tambem como performances identitarias e como uma forma de fusao entre forma e conteudo. Se as pessoas tendem a explicar suas acoes para si mesmas e para os outros atraves de historias (EWICK e SILBEY, 2003, p. 1340), nada mais natural do que compreender a narrativa como forma de (re-)construcao constante de identidades sociais.

A narracao de historias, como ja dito, tem sido considerada importante por diversos autores. Nao apenas por serem estas possiveis representacoes de eventos passados, mas, igualmente, pelo que essas historias revelam a respeito do narrador como um agente social que modela a sociedade onde se encontra e, que ao mesmo tempo, e por ela modelado, conforme apontam Dyer & Keller-Cohen (2000, p. 28).

3.1 Nos e outros: uma forma de (re-)construcao identitaria

Os conceitos de nos e outros sao desenvolvidos a partir de nossos valores, crencas, estilos de vida, nossas experiencias e expectativas. Nossas afiliacoes e alinhamentos so podem ser construidos a partir da comparacao entre nos e outros. Enquanto estamos interagindo com outras pessoas, nos procuramos por sinais de proximidade (solidariedade) e distancia (DUSZAK, 2002). E atraves desse posicionamento em relacao ao outro que, ao nos alinharmos com alguns, nos tambem nos separamos de outros. Este fato proporciona o que chamamos de inclusao ou exclusao social, bem como gera posicionamentos sociais de ingroup e outgroup (2).

A linguagem e o maior indicador de relacoes sociais proximas ou distantes, possuindo inumeros recursos para sinalizar a distincao 'nos-outros', tornando-os relevantes para o entendimento de como individuos ou grupos se engajam em (futuras) interacoes. Uma das formas de construcao de ingroupness e o uso do pronome nos, estando sempre em oposicao ao eles (outgroupness). Nos e eles podem ser habilidosamente usados no discurso com o intuito de construir, redistribuir, ou modificar valores sociais de inclusao ou exclusao.

Atraves do contraponto entre nos e outros entendemos, como indicado por Tajfel (1981, p. 124 in DUSZAK, 2002, p. 2), que "nos somos o que somos porque eles nao sao o que nos somos".

3.2. Identidade e configuracoes morais

A questao da construcao da identidade moderna postulada pelo filosofo canadense Charles Taylor (1997) encontra-se entrelacada a nocao de moralidade, que esta embasada nos seguintes conceitos: configuracoes, nocao de avaliacao forte, pano de fundo, narrativa e articulacao. Neste trabalho serao utilizados somente os dois primeiros conceitos: configuracoes e avaliacoes fortes.

A moralidade para Taylor pressupoe a tese de que e impossivel a pessoa humana isentarse de configuracoes morais. Tais configuracoes se referem a um "conjunto crucial de distincoes qualitativas" (TAYLOR, 1997, p. 35) que "proporcionam o fundamento, explicito ou implicito, de nossos juizos, intuicoes ou reacoes morais (op. cit., p. 42). Nesse sentido, responder a pergunta "Quem sou eu?" significa compreender aquilo que tem importancia para nos; saber em que posicao nos colocamos; determinar o que e bom ou ruim, o que vale ou o nao vale a pena fazer, o que apoiamos ou desaprovamos, o que e trivial ou secundario (op. cit., p. 44).

Percebe-se que as varias faces da identidade moderna estao em nosso imaginario influenciando ou determinando nossas escolhas morais. Talvez por isso, Taylor tenha decidido ampliar o leque de concepcoes para aquilo que e normalmente descrito como "moral" (op. cit, p. 44). Alem de nossas nocoes e reacoes relativas a assuntos morais como justica e respeito a vida, ao bem-estar e a dignidade das outras pessoas, Taylor considera o que esta na base da nossa propria dignidade ou aquilo que torna nossa vida significativa ou satisfatoria. Em suma, Taylor (1997, p. 28) ressalta que a moralidade nao pode ser definida somente em termos do respeito ao proximo, das nossas obrigacoes para com os demais. Outras questoes tambem moldam nossa moral e, portanto, nossa identidade. Sao as interrogacoes de avaliacao forte, isto e, sao as questoes que:

(...) envolvem discriminacoes acerca do certo ou errado, melhor ou pior, mais elevado ou menos elevado, que sao validadas por nossos desejos, inclinacoes ou escolhas, mas existem independentemente destes e oferecem padroes pelos quais podem ser julgados (TAYLOR, 1997, p. 17).

As interrogacoes de avaliacao forte como, por exemplo, "o que e uma vida digna", determinam nossos modos de compreender o que significa uma vida plena. Decisoes cotidianas, como a escolha entre ir a praia ou ao cinema no domingo, nao sao escolhas qualitativas, pois nao tem a mesma importancia para a construcao identitaria. A identidade e construida a partir de avaliacoes fortes no espaco moral e e impossivel ao ser humano renunciar a tais avaliacoes. E importante ressaltar que o conceito de avaliacao forte nao se refere aos desejos fortes que a pessoa possa sentir, mas ao que se considera idealmente desejavel num dado contexto.

4. Metodologia

Este estudo insere-se em um paradigma de pesquisa qualitativa e interpretativa. Os dados foram coletados em uma universidade da zona sul do Rio de Janeiro, mais especificamente em uma turma da disciplina Pragmatica, de um curso de pos-graduacao em Estudos da Linguagem. Desta turma participavam uma professora e vinte alunos, dentre esses doze de curso de Mestrado e oito de Doutorado.

O corpus da pesquisa constitui-se de gravacoes realizadas durante cinco aulas, sendo cada uma delas com duracao de tres horas e os dados foram gravados em audio e video. Durante as aulas gravadas estavam ocorrendo seminarios de textos, quando apresentacoes estavam sendo feitas por diferentes alunos. Para o presente estudo, contudo, apenas uma aula foi selecionada e um unico fragmento foi escolhido para analise de um fragmento de narrativa pessoal.

Os dados foram analisados visando discutir as nocoes de avaliacao e identidade, bem como estabelecer uma relacao entre as mesmas. Por considerarmos a avaliacao um elemento lexicogramatical e tambem semantico, qualquer evento que indique um valor atribuido aos eventos narrados ou, de certa forma, ao narrador, aos protagonistas ou a situacao relatada, podera ser considerado como elemento avaliativo.

Reissman (1993) corrobora esta ideia ao entender que investigadores nao possuem acesso direto as experiencias de outros, postulando que o que fazemos e lidar com representacoes ambiguas das mesmas. Deste modo, nao podemos ser neutros ou objetivos, nem meramente representar (em oposicao a interpretar) o mundo (PELLER, 1987 in REISSMAN, 1993, p.8). Tais concepcoes revelam que, por muitas vezes, a presente analise podera ser uma decisao intuitiva (LIRA, 1987 p. 109).

5. Analise dos dados

Durante a aula na qual a narrativa abaixo foi produzida, a aluna Vivi estava apresentando seu seminario sobre Atos de fala e cultura. Para tanto, a aluna se baseava no texto Different languages, different cultures, different acts. Polish x English de Anna Wierzbicka (1985).

Apesar de vinte alunos e a professora estarem presentes no dia de gravacao da aula em questao, apenas quatro participantes se relacionam diretamente a situacao narrativa escolhida para analise: a professora Carla e os alunos Fabio, May e Joana A aluna Joana e a narradora do trecho selecionado. Sendo casada com um ingles, Joana morou na Inglaterra, quando vivenciou a experiencia aqui relatada.

Antes que a narrativa de Joana tivesse inicio (linha 37), estava ocorrendo uma discussao sobre a questao de cruzamento cultural, quando algumas comparacoes entre diferentes culturas estavam sendo realizadas (linhas 27 a 36). Esta observacao e necessaria para que possamos entender o contexto no qual a narrativa de Joana foi produzida.

E baseada na fala da professora Carla (linhas 32 a 36) acerca das contribuicoes dadas pelo aluno Fabio sobre a cultura portuguesa, que a aluna Joana inicia sua narrativa (linha 37).

Podemos observar que Joana inicia sua narrativa fazendo um contraponto entre nos e eles, sendo o eles representado pela fala "isso na Inglaterra" (linhas 40-41) e nos por "brasileira pensando" (linha 46). Apesar da primeira fala poder ser vista como uma orientacao, considero as duas falas como elementos avaliativos, quando Joana estabelece duas categorias: ingroup ("brasileira pensando") e outgroup ("isso na Inglaterra").

Neste momento inicial, Joana parece estar procurando uma justificativa para o seu vexame, ja que, como brasileira, a aluna nao compreendia a forma de pensar e agir dos ingleses, no que diz respeito ao uso do sistema bancario. O posicionamento de Joana como brasileira tambem se torna claro quando ela descreve a forma de pagamento do servico a ser prestado de acordo com a cultura brasileira "eu vou ao banco vou fazer o deposito vou pegar um recibo vou mandar um fax pra eles saberem pra eles poderem vir na minha casa (...)" (linhas 46 a 49). Ir ao banco, fazer um deposito e passar um fax e uma atitude comumente tomada no Brasil como forma de comprovacao de pagamento. A nao compreensao de Joana de um fato cotidiano (uso do sistema bancario) aponta para o seu posicionamento como outgroup da cultura britanica e para a necessidade da (re-)construcao de sua identidade como brasileira.

Uma analise mais detalhada do trecho em questao nos leva a observar que, nesse momento, Joana parece estar realizando, simultaneamente, duas avaliacoes: da cultura britanica e de seu vexame. Podemos observar a presenca de sete usos do pronome eles (uma ocorrencia na linha 43, duas na linha 48, duas na linha 50--com o uso de deles--e linhas 55 e 59). Observamos claramente que as tres primeiras ocorrencias do pronome relacionam-se aos funcionarios da empresa que realizaria o servico na casa de Joana. Contudo, na linha 50 essa referencia sofre uma alteracao quando o pronome eles passa a se referir aos ingleses em geral, isto e, a cultura inglesa e, a partir desse ponto, eles passa a ser entendido como os moradores do contexto no qual Joana encontrava-se inserida. Fica claro, nesse momento, que o processo de avaliacao de Joana referese a cultura inglesa e nao ao seu vexame. Ja nas linhas 55 e 59, eles passa a se referir aos funcionarios do banco, integrantes da cultura britanica, atuantes em um sistema bancario diferente do conhecido por Joana. A partir desta avaliacao a aluna pode realizar seu processo de (re-)construcao identitaria, revelando uma intrinseca relacao entre avaliacao e identidade.

Mais um momento de (re-)construcao identitaria ocorre nas linha 45 e 46 ("eu sabia que tinha que ir ir ao banco") em oposicao ao trecho relatado entre as linhas 49 e 52 ("eu esqueci ne ou melhor nao quis acreditar que a a questao deles que e: eles acreditam na palavra da pessoa ate que se diga o contrario"). Joana mais uma vez avalia a cultura inglesa para poder organizar sua experiencia e entender o que aconteceu. A aluna age como uma brasileira, ja que diz que sabia que tinha que ir ao banco para fazer o deposito e pegar um recibo (mesmo isto nao sendo necessario na Inglaterra, como dito anteriormente). Para justificar sua atitude, Joana diz que nao quis acreditar nos valores morais dos ingleses quanto a acreditar na forca da palavra alheia, ja que em sua cultura ocorre justamente o contrario. Curiosamente, nao ocorre neste momento--nem nos seguintes, como veremos--nenhum tipo de critica a nenhuma das duas culturas. A (re-) construcao da identidade da aluna atraves da avaliacao acontece de maneira nao contestadora dos valores ou crencas das culturas inglesa e brasileira. Novamente, ao contrapor os dois contextos em questao, Joana posiciona-se como membro integrante da cultura brasileira (ingroup) e nao membro integrante da inglesa (outgroup). Na verdade, Joana reage de maneira a validar aquilo que seria correto em sua cultura como brasileira; ou seja, sair do banco somente apos ter a carta comprovando o deposito feito (linhas 59 e 60). Essa avaliacao forte (TAYLOR, 1997) determina sua escolha, o que corrobora para a sua (re-)construcao identitaria no contexto da historia, segundo suas configuracoes morais (e culturais). Constata-se, entao, que o contexto da narrativa e o contexto da historia encontram-se entrelacados no processo de (re-)construcao identitaria.

No excerto 3, a seguir, podemos notar uma avaliacao do evento, do vexame sofrido por Joana e nao mais da cultura britanica, como analisado anteriormente.

O relato da historia de Joana provoca risos dos participantes da interacao, como notamos na linha 61. O riso, segundo Holmes & Marra (2002), e reconhecido como uma estrategia eficaz na construcao de coesao grupal, proporcionando solidariedade entre os membros do grupo social e auxiliando na construcao do "espirito de time". Neste artigo, o humor e considerado como uma possivel forma de avaliacao da historia de Joana e um demarcador de solidariedade entre ela e os outros participantes da interacao.

Entre as linhas 62 e 69, Joana realiza mais um momento de avaliacao. Usando tanto a avaliacao encaixada (uso de fala mais baixa (3) na linha 65 e alongamento da vogal i na palavra muito, na linha 65, por exemplo), bem como externa (quando reporta a fala do gerente do banco nas linhas 65 e 66), a narradora, mais uma vez, evidencia um momento de seu processo de (re-)construcao de identidade. Ao conseguir que o gerente fizesse o que desejava, ou seja, que lhe desse um recibo de seu deposito, Joana reafirma sua identidade no que se refere a sua nacionalidade, ja que tal recibo faz parte do sistema bancario brasileiro, de seu modo de agir e pensar, de seu pais. Observa-se tambem que as atitudes de Joana no espaco moral da historia revelam que e impossivel ao ser humano prescindir de suas avaliacoes fortes e que estas tambem estao intrinsecamente associadas ao processo identitario. A partir do proprio ato de narrar as suas escolhas morais, Joana reforca a importancia da moralidade no contexto da (re-)construcao identitaria, tanto no ambiente relatado quanto no contexto do relato.

No proximo excerto, na linha 69, Fabio realiza uma avaliacao da atitude de Joana. Esta co-avaliacao e importante para o momento de (re-)construcao identitaria de Joana. Ela segue sua avaliacao na linha a seguir, a partir da avaliacao realizada pelo colega de turma na linha anterior.

Por ser membro da cultura brasileira, Fabio pode afirmar que a empresa nada pediu a Joana como forma de comprovacao de seu pagamento. O aluno tambem se encontra em processo de (re-)construcao de identidade ja que, ao contribuir para o relato de Joana, isto e, ao co-narrar, Fabio tambem envolve-se nesse processo. Joana faz uso de recursos que funcionam como negacao enfatica, como a repeticao da palavra nao, e de fala mais lenta (linha 72); alem de informacoes paralinguisticas, expressas no gesto de tocar no rosto sinalizando que ficou de cara no chao. Tais recursos evidenciam o uso de avaliacao encaixada por Joana. Alias, como podemos observar ate o presente momento, a narradora parece fazer mais uso deste tipo de avaliacao em detrimento de avaliacoes externas o que, como comentado anteriormente, confere uma maior continuidade ao processo de narracao.

Outro tipo de avaliacao acontece no momento seguinte, quando a professora Carla faz uma avaliacao da historia de Joana.

Diferentemente das avaliacoes anteriores, Carla faz uma avaliacao do vexame de Joana de acordo com uma perspectiva teorica da pragmatica. Entretanto, atraves de tal analise, a professora alinha-se como brasileira quando diz na linha 74 "e eu acho que fala dessa diferenca ne pra pra nos da cultura brasileira que tudo tem que passar pelo texto escrito ne". O uso da palavra nos revela um momento de solidariedade, de alinhamento da professora com Joana: as duas sao brasileiras e fazem parte do mesmo grupo. Aqui, a professora tambem realiza um contraponto entre ingroup (Brasil) e outgroup (Inglaterra), explicando, atraves desta oposicao, nao apenas a atitude de Joana, mas o texto apresentado no momento de producao da narrativa analisada. Carla demonstra esta oposicao ao repetir duas vezes a palavra "cultura brasileira" (linhas 75 e 82-83),

O uso da historia de Joana como exemplo para o entendimento do texto apresentado pela aluna Vivi confirma o carater dual da narrativa (Bruner, 1997 [1990]), quando dois mundos estao sendo cruzados (o da historia relatada, e o do local onde a historia esta sendo narrada). Isto demonstra a importancia de narrativas de experiencias pessoais em contextos pedagogicos, ja que estas se mostram como potencias mediadores na construcao do conhecimento, sendo este relacionado nao apenas ao contexto pedagogico, no caso o texto relativo a cruzamento cultural, mas tambem ao entendimento de Joana da experiencia por ela vivida. (Nobrega, 2009)

Os turnos finais da narrativa de Joana referem-se a momentos de co-avaliacao de sua historia. Notamos que, na linha 86, uma aluna alinha-se com a atitude de Joana, tambem posicionando-se como ingroup da cultura brasileira.

Entre as linhas 87 e 89, Carla continua sua avaliacao tendo por base o conteudo pedagogico, procurando explicar a Joana sua propria atitude. Ao agir deste modo, Carla constroi a identidade de Joana como brasileira, bem como a sua. Simultaneamente, Carla tambem constroi a identidade dos outros; isto e, daqueles em cuja sociedade tais procedimentos nao sao necessarios devido a aspectos da moralidade materializados em uma atitude de respeito e credibilidade na palavra do outro.

Entre as linhas 90-92, 95-97, 99-100 e 105, Joana torna a avaliar seu comportamento. Na linha 90, ao repetir mais uma vez as palavras, "timbrado, carimbo e assinado", bem como utilizar elementos extralinguisticos para reforcar sua acao, a narradora avalia de forma encaixada sua atitude. Alem disso, nas linha 91 e 92, a aluna cria um momento de inclusao social quando, ao dizer "nao e isso que a gente tem" reforca a nocao de identidade coletiva e de inclusao social de todos os participantes da interacao.

Outros momentos co-avaliativos ocorrem nas linhas 93-94, 98, 101-103, 107, demonstrando a ocorrencia de um processo de construcao identitaria em grupo, ou seja, de identidade coletiva que, segundo Duszak (2002, p. 2), "sao sentimentos de inclusao e exclusao social que se desenvolvem com base em nossos valores, crencas, estilos de vida, experiencias e expectativas.Apenas atraves da comparacao de nos mesmos com os outros podemos construir nossas afiliacoes e nao-alinhamentos."

Consideracoes finais

Este estudo teve por objetivo investigar a contribuicao dos elementos avaliativos no processo de (re-)construcao de identidade. Apos a discussao apresentada, acreditamos ser possivel que esta relacao possa ser confirmada.

Conforme visto, a avaliacao revelou ser um momento da narrativa de grande influencia sobre o processo de (re-)construcao identitaria. Em diversos momentos, a analise do fragmento selecionado evidenciou que, atraves da co-avaliacao do episodio ocorrido, nao so a narradora (re-)organizou sua experiencia, bem como (re-)construiu sua identidade como brasileira no mundo de sua historia. Foi igualmente constatado que as questoes de avaliacao forte, tambem moldam nossa moral e, portanto, nossa identidade.

O processo de (re-)construcao identitaria foi realizado de forma solidaria, com a contribuicao e participacao dos outros alunos e da professora, no contexto onde a historia estava sendo narrada--a sala de aula, a partir do contraponto entre nos e outros. Tal fato parece evidenciar a nocao de narrativa como pratica social e locus para o processo de (re-)construcao de identidade.
ANEXO I

Convencoes de transcricao

...                 pausa nao medida

(2.3)               pausa medida

.                   entonacao
                    descendente ou final
                    de elocucao

?                   entonacao
                    ascendente
                    entonacao de
                    continuidade

-                   parada subita

=                   elocucoes contiguas,
                    enunciadas sem
                    pausa entre elas

sublinhado          enfase

MAIUSCULA           fala em voz alta ou
                    muita enfase

*palavra*           fala em voz baixa

>palavra<           fala mais rapida

<palavra>           fala mais lenta

:ou::               alongamentos

[                   inicio de
                    sobreposicao
                    de falas

]                   final de
                    sobreposicao
                    de falas

()                  fala nao
                    compreendida

(palavra)           fala duvidosa

(())                comentario
                    do analista,
                    descricao de
                    atividade
                    nao verbal

"palavra"           fala relatada

[right arrow]       subida de
                    entonacao

[right arrow]       descida de
                    entonacao

hh                  aspiracao ou riso

.hh                 inspiracao


Convencoes basedas nos estudos da Analise da Conversacao (Sacks, Schegloff e Jefferson, 1974; Atkison e Heritage, 1984), incorporando simbolos seugeridos por Schiffrin (1987), Tannen (1989), Castilho e Petri (1987) e Gago (2002).
ANEXO II

Fragmento 1

1     Carla    nao necessariamente por exemplo no caso do outro
2              servindo la o outro *um molhinho* nao >(nos)
3              contextos com certeza< mas no caso do-do molho era
4              uma coisa mui:to micro muito localizada e como ele
5              faria um oferecimento [up arrow] quer molho?
               o india:no que
6              seria uma forma daquela uma entonacao daquele
7              jeito que pra nos pra nos nao pra eles =
8     Joana    [pra eles
9     Carla    [=inGLEses ((risos)) era
10             uma coisa autoritaria agressiva mas pra E:LES
11             daquele grupo nao era pros indianos nao era era
12             uma entonacao normal
13    Fabio    eu quando viajo (eu vou) de TAP e em relacao =
14    Alunos   ((risos e falas sobrepostas))
15    May      la vem historia
16    Fabio    ((risos)) e assim aqui no Brasil ela ((referindo-
17             se a aeromoca)) pergunta "o que voce gostaria de
18             beber?" la =
19    Carla    [isso
20    Fabio    [=e "o que [up arrow] vais beber?" e ai
               voce acha
21             aquilo muito grosseiro [up arrow] quem ela
               ta pensando que
22             ela e? ne agora se voce () se voce fizer uma
23             reclamacao se voce aumentar o tom de voz ela
24             NU:NCA vai responder a voce ai ela se coloca numa
25             posicao de sim senhor =
26    May      propositalmente
27    Fabio    [= quer dizer ela nao fala assim porque ela
28             ACHA que ela e superior ela fala assim >porque ela
29             fala assim< ((falas sobrepostas de outros
30             participantes)) mesmo achando que ela esta ali
31             para te servir ela fala assim
32    Carla    [e que o gostaria de novo a forma
33             indireta convencional ne? de (.) alguem ne fazer o
34             outro dizer o que que ele quer ne e  isso que ela
35             ta falando ((referindo-se a autora do texto)) ela
36             nao faz isso [down arrow] NOS fazemos isso
37    Joana    a gente ta falando em linguagem mas as vezes ha ha
38             ha lacunas mesmo culturais eu passei VARIOS
39             vexames mas o vexame que eu mais me lembro e
40             quando u eu contratei um servico e eu liguei
41             >isso na Inglaterra< eu liguei para a empresa e a
42             empresa "sim a senhora so faz entao um deposito
43             [up arrow] bancario" e ai isso era na segunda
               feira digamos
44             e eles iriam fazer o trabalho na minha casa na
45             quarta feira entao eu sabia que eu tinha que ir ir
46             ao banco >brasileira pensando< eu vou ao banco vou
47             fazer o deposito vou pegar um recibo vou mandar um
48             fax pra eles saberem pra eles poderem vir na minha
49             casa so que eu esqueci ne ou melhor nao quis
50             acreditar que a a questao deles que e: eles
51             acreditam na palavra da pessoa ate que se diga o
52             contrario entao quando voce vai ao banco eu tinha
53             conta bancaria mas eu nunca tinha atentado pra
54             isso voce faz um deposito nao existe um recibo
55             bancario o maximo que eles fazem  fazem um
56             carimbozinho no canhotinho ((gesticula)) uma
57             quizumba no banco porque eu queria o tal do recibo
58             e ai veio o gerente veio veio [up arrow] quase
               o dono do
59             banco falar comigo eu so sai eu so sai do banco
60             quando eles fizeram uma carta pra mim =
61    Todos    ((risos))
62    Joana    = e eu falava eu falava assim eu quero papel
63             timbrado com carimbo e assinado eu falava isso o
64             tempo todo papel timbrado carimbo e assinado *e o
65             gerente veio falar comigo* mui:to educado "sim a
66             senhora me diz exatamente o que a senhora quer que
67             eu ponha na carta" e eu falei exatamente e ele
68             botou papel timbrado carimbo e assinado
69    Fabio    (e ai a empresa nao te pediu nada) ((risos))
70    Joana    = nas ai ai eu liguei para a empresa e falei olha
71             eu ja fiz o deposito voce quer que eu mande o fax?
72             "<nao nao nao senhora nao tudo bem>" e eu assim
73             ((fazendo gesto de foi tudo em vao))
74    Carla    e eu acho que fala dessa diferenca ne pra pra nos
75             da cultura brasileira que tudo tem que passar pelo
76             texto escrito ne por exemplo na a-a ETS mesmo com
77             toda a influencia americana ela fez toda uma
78             campanha chamada paperless que era pra tentar
79             tirar mui:to papel de coisas que voce pode
80             resolver pelo telefone o que na cultura americana
81             e uma coisa que voce diz [up arrow] "olha
               voce pode me
82             mandar isso?" "ah ta eu mando" na cultura
83             brasileira a mesma cena e assim "voce pode me
84             mandar isso?" "posso sim entao mas faz o seguinte
85             pede <manda uma carta pedindo>" =
86    Maria    e voce tem que estar comprova:ndo tudo
87    Carla    [= entendeu voce tem que estar sempre
88             comprovando tudo e eu acho que voce reagiu assim
89             dentro desta cultura
90    Joana    [timbrado carimbo e assinado
91             ((fazendo gestos de carimbar e assinar)) nao e
92             isso que a gente tem?
93    May      [()po esta mulher nao sabe como e
94             que e as coisas funcionam?
95    Joana    [e a vergonha depois? isso era na
96             MINHA agencia bancaria entendeu e depois a
97             vergonha disso =
98    Maria    [la vem ela
99    Joana    = ()voltar la e ((tocando no rosto mostrando a
100            face))
101   Carla    [ele devia ter te perguntado "o que que a senhora
102            fez com a carta?" ((risos)) porque ele sabia que
103            eles NAO iam pedir a carta
104   Paulo    ()
105   Joana    eu devo ter ficado conhecida, ne?
106   Carla    ()
107   Fabio    [() OI gente tudo bem?
108   Carla    AH la o TURNO Vivi ((pedindo para a aluna Vivi
109            continuar sua apresentacao))it's yours((risos))


Referencias

BASTOS, Liliana C. Diante do sofrimento do outro--Narrativas de profissionais de saude em reunioes de trabalho. Calidoscopio v. 6, n. 2, p. 76-85, mai./ago. 2008.

BASTOS, Liliana C. Contando historias em contextos espontaneos e institucionais--uma introducao ao estudo da narrativa. Caleidoscopio 3(2), 2005. p.74-87.

BRUNER, Jerome. Atos de significacao. Porto Alegre: Artes Medicas, 1997[1990].

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MOITA LOPES, Luiz Paulo. Praticas narrativas como espaco de construcao de identidades sociais: uma abordagem socioconstrucuionista. IN: RIBEIRO, Branca Telles; LIMA, Cristina Costa; DANTAS, Maria Tereza Lopes (orgs.). Narrativa, Identidade e Clinica. Rio de Janeiro: Edicoes IPUB, 2001

NOBREGA, A. N. Narrativas e avaliacao no processo de construcao do conhecimento pedagogico [recurso eletronico] : abordagem sociocultural e sociossemiotica. Tese (Doutorado em Letras)--Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009. Disponivel em: < http://www.dbd.puc-rio.br> Acesso em: 27 abr. 2012.

REISSMANN, Catherine. Narrative Analysis. Newbury Park: Sage, 1993.

SACKS, Harry. On doing "being ordinary". In: Atikson, J. Heritage, J. (Orgs.). Structures of social action. Cambridge: Cambridge University Press, 1984.

TAYLOR, Charles. As Fontes do Self: A construcao da identidade moderna. Trad. Adail Ubirajara Sobral e Dinah de Abreu Azevedo. Sao Paulo: Editora Loyola, 1997.

WIERZBICKA, Anna. Different languages, different cultures, different acts. Polish x English. IN: Journal of Pragmatics 9, 1985. p. 145-178.

Adriana Nogueira Nobrega (PUC-Rio)

Celia Elisa Alves de Magalhaes (PUC-Rio)

(1) Assim como as autoras, reconhecemos que narrativas tambem podem ser projetadas ao futuro, conforme apontado por Ochs, 1994 (in DYER & KELLERO-COHEN, 2000).

(2) Alguns termos foram mantidos em ingles por melhor representar as nocoes que denotam.

(3) As convencoes de transcricao se encontram no anexo deste artigo.
Fragmento 1

Excerto 1

27   Fabio   [= quer dizer ela nao fala assim porque ela
28           CHA que ela e superior ela fala assim >porque ela
29           ala assim< ((falas sobrepostas de outros
30           articipantes)) mesmo achando que ela esta ali
31           para te servir ela fala assim
32   Carla   [e que o gostaria de novo a forma
33           indireta convencional ne? de (.) alguem ne fazer o
34           outro dizer o que que ele quer ne e isso que ela
35           ta falando ((referindo-se a autora do texto)) ela
36           nao faz isso ?NOS fazemos isso

Excerto 2

37   Joana   a gente ta falando em linguagem mas as vezes ha ha
38           ha lacunas mesmo culturais eu passei VARIOS
39           vexames mas o vexame que eu mais me lembro e
40           quando eu eu contratei um servico e eu liguei
41           >isso na Inglaterra< eu liguei para a empresa e a
42           empresa "sim a senhora so faz entao um deposito
43           ?bancario" e ai isso era na segunda feira digamos
44           e eles iriam fazer o trabalho na minha casa na
45           quarta feira entao eu sabia que eu tinha que ir ir
46           ao banco >brasileira pensando< eu vou ao banco vou
47           fazer o deposito vou pegar um recibo vou mandar um
48           fax pra eles saberem pra eles poderem vir na minha
49           casa so que eu esqueci ne ou melhor nao quis
50           acreditar que a a questao deles que e: eles
51           acreditam na palavra da pessoa ate que se diga o
52           contrario entao quando voce vai ao banco eu tinha
53           conta bancaria mas eu nunca tinha atentado pra
54           isso voce faz um deposito nao existe um recibo
55           bancario o maximo que eles fazem fazem um
56           carimbozinho no canhotinho ((gesticula)) uma
57           quizumba no banco porque eu queria o tal do recibo
58           e ai veio o gerente veio veio quase o dono do
59           banco falar comigo eu so sai eu so sai do banco
60           quando eles fizeram uma carta pra mim =

Excerto 3

61   Todos   ((risos))
62   Joana   = e eu falava eu falava assim eu quero papel
63           timbrado com carimbo e assinado eu falava isso o
64           tempo todo papel timbrado carimbo e assinado e o
65           gerente veio falar comigo" mui:to educado "sim a
66           senhora me diz exatamente o que a senhora quer que
67           eu ponha na carta" e eu falei exatamente e ele botou
68           papel timbrado carimbo e assinado

Excerto 4

69   Fabio   (e ai a empresa nao te pediu nada) ((risos))
70   Joana   = nao ai ai eu liguei para a empresa e falei olha eu
71           ja fiz o deposito voce quer que eu mande o fax?
72           "<nao nao nao senhora nao tudo bem>" e eu assim
73           ((fazendo gesto de foi tudo em vao))

Excerto 5

74   Carla   e eu acho que fala dessa diferenca ne pra pra nos
75           da cultura brasileira que tudo tem que passar pelo
76           texto escrito ne por exemplo na a-a ETS mesmo com
77           toda a influencia americana ela fez toda uma
78           campanha chamada paperless que era pra tentar
79           tirar mui:to papel de coisas que voce pode
80           resolver pelo telefone o que na cultura americana
81           e uma coisa que voce diz t"olha voce pode me
82           mandar isso?" "ah ta eu mando" na cultura
83           brasileira a mesma cena e assim "voce pode me
84           mandar isso?" "posso sim entao mas faz o seguinte
85           pede <manda uma carta pedindo>" =

Excerto 6

86    Maria   e voce tem que estar comprova:ndo tudo
87    Carla   [= entendeu voce tem que estar sempre
88              comprovando tudo e eu acho que voce reagiu
89              assim dentro desta cultura
90    Joana   [timbrado carimbo e assinado
91              ((fazendo gestos de carimbar e assinar)) nao e
92              isso que a gente tem?
93    May     [()po esta mulher nao sabe como e
94              que e as coisas funcionam?
95    Joana   [e a vergonha depois? isso era na
96              MINHA agencia bancaria entendeu e depois a
97              vergonha disso =
98    Maria   [la vem ela
99    Joana   = () voltar la e ((tocando no rosto mostrando a
100             face))
101   Carla   [ele devia ter te perguntado "o que que a senhora
102             fez com a carta?" ((risos)) porque ele sabia
103             que eles NAO iam pedir a carta
104   Paulo   ()
105   Joana   eu devo ter ficado conhecida, ne?
106   Carla   ()
107   Fabio   [() OI gente tudo bem?
108   Carla   AH la o TURNO Vivi ((pedindo para a aluna Vivi
109             continuar sua apresentacao))it's yours((risos))
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Author:Nobrega, Adriana Nogueira; de Magalhaes, Celia Elisa Alves
Publication:Veredas - Revista de Estudos Linguisticos
Date:Jul 1, 2012
Words:7011
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