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Mountain sinuosity front of the Ibitiraquire Range--Parana/Sinuosidade do front montanhoso da Serra do Ibitiraquire--Parana.

INTRODUCAO

A Serra do Mar e a feicao topografica mais destacada da borda atlantica do Brasil, estendendo-se de Santa Catarina ao Rio de Janeiro. No estado do Parana, apresenta-se dividida em blocos montanhosos, dos quais a serra do Ibitiraquire e o mais destacado, com picos que ultrapassam os 1700 metros de altitude, tais como, Pico Itapiroca (1754m), Pico do Ferraria (1734m), Morro do Tucum (1741m), Pico do Ciririca (1724m), Pico Caratuva (1856m) e o Pico Parana (1877m), montanha mais alta do sul do Brasil (figura 1).

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Ha diversas explicacoes sobre as origens de tal unidade de relevo. Maack (1942, 1947) teceu as primeiras observacoes sobre a geomorfologia da Serra do Mar, Ab'Saber & Bigarella (1961) e Bigarella et al. (1978) atribuiram um importante papel aos eventos erosivos no Terciario que elaboraram superficies aplainadas atualmente escalonadas na paisagem, conformando as superficies de erosao/aplainamento por eles denominadas de Pd3 (superficie Puruna), Pd2 (superficie Alto Iguacu) e Pd1 (superficie Curitiba), equivalentes a Superficie Sulamericana, Velhas e Paraguacu de Charles Lester King (King 1956). Almeida e Carneiro (1998) realizaram uma revisao do conhecimento sobre as origens da Serra do Mar, dando destaque aos eventos tectonicos e a dissecacao e erosao paralela das vertentes que ocorreram no Cenozoico, ao passo que Zalan & Oliveira (2005) destacam o tectonismo pos Cretaceo. Salamuni (2005) aponta para a influencia de tectonica recente na regiao.

Ha poucos trabalhos especificos que abordem a questao evolutiva da paisagem da serra do Ibitiraquire, sendo as contribuicoes de Reinhard Maack as mais importantes (MAACK 1942, 1947, 1972). Nestes trabalhos foram destacadas algumas caracteristicas geologicas e geomorfologicas importantes da regiao, dentre elas o fato de nao haver um limite de escarpa de borda de planalto na Serra do Ibitiraquiri, como ocorre em praticamente toda a Serra do Mar paulista. As observacoes preliminares da morfoestrutura e o papel de fraturas/falhas no condicionamento dos rios e da escarpa do front montanhoso da Serra, bem como os cumes sustentados por grandes blocos graniticos que se sobressaem cerca de 1000m na borda do planalto de Curitiba e mais de 1800m do lado litoraneo tambem foram destacados nestes trabalhos.

O papel de fenomenos tectonicos e denudacionais, na esculturacao de macicos montanhosos, pode ser mensurado por meio de datacoes de falhas, de paleosuperficies, assim como datacao de depositos correlativos dentre outros metodos. E possivel, no entanto, obter dados estatisticos, por meio de analises geomorfometricas que mensurem a relacao entre soerguimento e erosao. Para tal, uma tecnica de facil utilizacao no estudo de areas montanhosas escarpadas e Sinuosidade do Front Montanhoso (KELLER; PINTER, 1996). Tal tecnica e geralmente empregada em regioes de tectonica ativa, como foram nas montanhas orogenicas da California (FIGUEROA; KNOTT, 2010), nas montanhas falhadas do Sudeste da Espanha por Silva et al. (2002), nas escarpas litoraneas da Grecia (TSODOULOS et al., 2008), assim como em vales tectonicos do Himalaia (SINGH, TANDON, 2008).

MATERIAL E METODOS

A Sinuosidade do Front montanhoso (Mountain Front Sinuosity) e um indice proposto por Keller & Pinter (1996) que mensura a relacao de energia entre o tectonismo e a denudacao. Este metodo foi primeiramente aplicado na California, nas montanhas proximas a falha de Garlock (KELLER; PINTER, 1996) e, conforme pode-se observar na Figura 2, faz uma relacao entre a "linha de falha" (que condiciona o front montanhoso) e o comprimento longitudinal de um vale que disseca a escarpa de falha (Lmf). O Lmf e medido a partir da linha de falha (Ls--linha de escarpa de falha) ate a cota maxima da cabeceira do rio. A Sinuosidade do Front Montanhoso (Smf) e definida pela seguinte equacao:

Smf = Lmd/Ls Equacao 1

O indice de sinuosidade reflete o balanco entre as forcas erosivas que tendem a dissecar as montanhas e as forcas tectonicas que tendem a soergue-las ou bascula-las. Isso significa que quanto menor for o valor do indice, maior a influencia tectonica e menor a influencia da erosao na esculturacao da paisagem.

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O modelo digital de elevacao (MDE) utilizado para a analise da Sinuosidade do Front Montanhoso da serra do Ibitiraquire foi confeccionado a partir dos dados do projeto Topodata (VALERIANO, 2004), com resolucao espacial de 30m, obtidos a partir da interpolacao dos dados do Projeto Shuttle Radar Topographic Mission (SRTM). Os dados cartograficos foram obtidos junto ao Instituto das Aguas do Parana, a Mineropar e ao IBGE. Os lineamentos estruturais foram interpretados sobre o MDE e integrados com os dados estruturais disponibilizados pela Mineropar.

Foi tracado o comprimento do vale que disseca o front montanhoso da Serra do Ibitiraquire (Lmf) e o comprimento do front montanhoso (Ls) segundo os seguintes parametros:

Lmf: extensao total do vale que disseca o front montanhoso que apresenta maior dissecacao da linha de falha. Sendo considerado na face Leste do macico analisado o Rio Cacatu (Figura 3) e a Oeste, o vale do Rio do Cedro.

Ls: extensao da escarpa montanhosa onde se situa o escarpamento principal da Serra do Ibitiraquire, auferida em mapa geologico (MINEROPAR, 2005) e verificado em campo. A Leste ela e delimitada pelo lineamento Morretes e a Oeste pelo lineamento Piraquara-Ferraria de direcao NE-SW (Nascimento, 2013) que delimita a escarpa entre as cristas dos picos do Ferraria ate o do Itapiroca.

RESULTADOS E DISCUSSOES

Na face Leste da Serra do Ibitiraquire, o front montanhoso (Ls) ocorre aproximadamente na cota de 300m e apresenta cerca de 8700m de comprimento (Figura 3). A montante da escarpa, Bigarella et al. (1978) identificaram a superficie Pd3 conformando uma ombreira do Pico Parana a 1600m de altitude. A superficie Pd1 e composta por cristas entre rios, que afluem para o rio Cachoeira, e os pedimentos P2 e P1 ocorrem no sope deste macico montanhoso. Os rios que dissecam o front montanhoso sao de Sul para o Norte: rio do Nunes, rio do Meio, rio Cacatu, rio Sem Nome, rio Mergulhao e rio Cotia, que correm para Norte, formando um canyon entre os picos do Caratuva, Taipabucu, Ferraria e do Parana. Devido a este vale do tipo canyon fica destacado na paisagem uma proeminencia de cerca de 1500m de altitude e um paredao rochoso de 600m de amplitude altimetrica.

Na face Oeste, ha a presenca de cristas alongadas com baixa declividade nos picos do Tucum, Itapiroca, Caratuva, Taipabucu e Ferraria consideradas remanescentes da superficie Pd3 (BIGARELLA et al., 1978). Ha coincidencias topograficas entre estas cristas, que se apresentam escalonadas mergulhando para Oeste em direcao a Bacia do Parana. Na superficie mais elevada, localidade conhecida como Morro do Getulio, ha em seu topo relevo de caos de blocos com a conformacao de tors a 1430m de altitude (Figuras 4 e 5). Em patamares inferiores, ocorrem crostas lateriticas nas cotas de 1350 e 1200m de altitude que Bigarella et al. (1978) definiu como superficie Iguacu. A quebra da escarpa do front se da numa altitude de 1038m. Os rios que dissecam estas cristas sao rio Cedrinho, ribeirao Grande, rio Tucum e rio do Cedro. Todos apresentam quedas d'agua no local onde cortam os 6300m de comprimento do Ls (Figura 5).

[FIGURE 3 OMITTED]

[FIGURE 4 OMITTED]

[FIGURE 5 OMITTED]

Como Lmf, foram escolhidos os vales mais profundos que dissecam o front montanhoso, na face oeste, o rio do Cedro (2675m) e na face Leste o rio Cacatu (5980m). O comprimento do front montanhoso (Ls) na face Oeste e de 4800 metros e na Face Leste e de 6430m.

Para a face Leste da Serra do Ibitiraquire, o valor obtido do indice de sinuosidade do front montanhoso foi de 0,74 para a face leste e 0,76 para a face Oeste. Estes valores indicam uma predominancia maior do soerguimento sobre as acoes erosivas.

A paisagem resultante desse tectonismo e indicada pelo valor do Indice de Sinuosidade do Front e corroborada pela presenca de varias morfoestruturas na area de estudo. Observam-se na regiao estudada rios encaixados em falhas, anomalias de drenagens, capturas de drenagens, predominancia de encostas ingremes, facetas trapezoidais, facetas triangulares e paleosuperficies de erosao escalonadas que conformam as ombreiras das montanhas (Figura 6).

[FIGURE 6 OMITTED]

Salamuni (2005) aponta para existencia de modificacoes morfoestruturais na Serra do Mar do Parana por tensoes mais "... recentes do que antes se interpretava ...", provavelmente referindo-se a resultados de atividade neotectonica. Nascimento et al. (2012) e Nascimento (2013) assinala a existencia de determinacao morfoestrutural e morfotectonica do relevo da Serra do Mar no Parana, destacando feicoes geomorfologicas e estruturais tipicas de areas com tectonismo recente, tais como escarpas de linhas de falhas, depositos aluvionares segmentados por knickpoints, anomalias de drenagem, paleosuperficies deformadas entre outros.

CONCLUSOES

O baixo valor do indice de Sinuosidade de Front, tanto na vertente Leste, quanto na Oeste, se comparado com as montanhas do Vale de Garlock, entre 1,2 e 7,2 (KELLER; PINTER, 1996) provavelmente seja influenciado tambem pela resistencia diferencial dos Granitos da Serra do Ibitiraquire (GUALDA, 2001) em relacao aos litotipos meta-sedimentares das montanhas rochosas dos Estados Unidos. Outro fator relevante que confere um valor mais alto do indice nas Montanhas Rochosas, diz respeito, possivelmente, a alta eficiencia do clima glacial na erosao do relevo naquela regiao. Ja na serra do Ibitiraquiri a alta resistencia a erosao dos granitos comuns na Serra do Mar, mesmo quando submetidos a um clima umido, dificulta a erosao fluvial.

Salienta-se que tal indice estatistico nao configura um parametro de comparacao para montanhas que apresentam realidades geologicas e climaticas distintas, como e o caso da Serra do Mar e das Montanhas Rochosas. No entanto, o baixo valor obtido pelo Indice de Sinuosidade de Front Montanhoso da Serra do Ibitiraquire corrobora com a os trabalhos que apontam o tectonismo como fator determinante na historia evolutiva da Serra do Mar e justifica a necessidade de estudos que apliquem tecnicas mais indutivas que atestem esta hipotese.

Artigo recebido em: 10/10/2012.

Artigo aceito em: 24/09/2013.

REFERENCIAS

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Edenilson Roberto do Nascimento

Universidade Federal do Parana--UFPR

Pesquisador no Projeto Neotectonica do Brasil UFPR/UNESP

Curitiba, PR, Brasil

e-mail: edenilson1983@gmail.com

Pedro Augusto Hauck da Silva

Universidade Federal do Parana

Doutorando em Geologia--UFPR

Bolsista do CNPq

Curitiba, PR, Brasil

e-mail: falecom@pedrohauck.net

Eduardo Salamuni

Professor Adjunto do Departamento de Geologia da UFPR

Universidade Federal do Parana

Curitiba, PR, Brasil

e-mail: salamuni@ufpr.br
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Author:do Nascimento, Edenilson Roberto; da Silva, Pedro Augusto Hauck; Salamuni, Eduardo
Publication:Ra'e Ga
Date:Dec 1, 2013
Words:2196
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