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Motivational predictors of adherence to cervical cancer prevention among female college students/Preditores motivacionais de adesao a prevencao do cancer do colo do utero em estudantes universitarias.

O cancer e atualmente uma das principais causas de morbilidade e mortalidade, afetando populacoes de todos os paises e regioes (Forman, Ferlay, Stewart, & Wild, 2014). Evidencias recentes tem documentado aumentos nas taxas de incidencia e mortalidade do cancer do colo do utero em paises com niveis altos ou muito altos de desenvolvimento (Prat, Franceschi, Denny, & Ponce, 2014). Em particular, a populacao jovem-adulta (15-24 anos) tem sido descrita como um grupo potencial de risco, precisamente devido aos seus comportamentos sexuais, incluindo o inicio precoce, o uso inconsistente do preservativo, a curta duracao dos relacionamentos e a pratica de relacoes sexuais desprotegidas com multiplos parceiros. Tais condicoes aumentam a vulnerabilidade a transmissao sexual do Virus do Papiloma Humano (VPH); (Centers for Disease Control and Prevention [CDC], 2000; Inchley et al., 2016), responsavel, quase na totalidade dos casos, pelo desenvolvimento desse tipo de cancer (Moscicki et al., 2012). Enquanto os custos dos tratamentos do cancer atingem niveis incontrolaveis, a prevencao, aliada a adocao de programas eficazes de educacao para a saude, tem sido divulgada como a melhor estrategia para a reducao de casos de cancer e, especificamente, de cancer do

colo do utero (Sutcliffe, Moreno, & Trimble, 2014).

Como metodos de prevencao primarios, a vacinacao contra o VPH e o uso consistente do preservativo tem sido associados a reducao do risco de infeccao cervical e vulvovaginal em mulheres sexualmente ativas (Winer et al., 2006).

Uma vez o virus instalado, o cancer do colo do utero e, ainda assim, uma doenca evitavel, se detectada precocemente em condicoes pre-cancerosas, por meio de testes citologicos cervicais, como o exame de Papanicolau, um metodo de prevencao secundario mundialmente aceito e eficaz para reduzir a incidencia e a mortalidade da doenca (Al-Naggar, Low, & Isa, 2010). Contudo, o rastreio para o cancer do colo do utero tem diminuido em paises desenvolvidos, sendo o embaraco ou o medo de um resultado anormal e a percepcao de barreiras praticas (o horario de abertura da clinica e a disponibilidade dos profissionais de saude) algumas das razoes para a nao adesao ao exame de Papanicolau (Chorley, Marlow, Forster, Haddrell, & Waller, 2016).

Face ao exposto, a mera disponibilizacao dos recursos para a adesao a prevencao do cancer do colo do utero, sendo necessaria, parece nao ser suficiente. Na verdade, o processo de adesao constitui um fenomeno multifatorial, que depende de uma vasta gama de variaveis sociodemograficas e psicossociais (Casseb & Ferreira, 2012; Glanz & Rimer, 2005).

Varios modelos tem tentado explicar a natureza de diversas variaveis envolvidas no fenomeno da adesao e a sua influencia nos comportamentos de prevencao. Do ponto de vista sociodemografico, o nivel socioeconomico (Monnat, 2014) e o historico de cancer (proprio, familiar ou de amigos; Adlard & Hume, 2003) parecem ser fatores importantes na adesao a prevencao da doenca. Adicionalmente, o conhecimento sobre o cancer e seus fatores de risco tambem e uma condicao necessaria para a adocao de comportamentos de prevencao da doenca, embora nao suficiente (Werk, Hill, & Graber, 2016).

Os modelos mais compreensivos na area da Psicologia da Saude, como a Teoria Sociocognitiva (Bandura, 2004) e a Teoria do Comportamento Planejado (Ajzen, 2011), reconhecem o papel fundamental da motivacao na construcao da intencao e na regulacao do comportamento de saude. Nessa perspectiva, a literatura cientifica tem indicado que as expectativas de autoeficacia sao indicadores criticos na adesao a prevencao do cancer (Norman, Boer, & Seydel, 2005). Alem disso, a execucao desses comportamentos parece depender tambem do valor que lhes e atribuido pelos individuos, sobretudo quanto a relacao custo-beneficio (Abraham & Sheeran, 2015). Um terceiro fator e a norma subjetiva, isto e, a percepcao subjetiva acerca da influencia social para incentivar ou nao os individuos na execucao de comportamentos (Ajzen, 2011). Finalmente, a construcao da intencao de adesao, variavel predita pelos tres fatores psicossociais anteriores (Ajzen, 2011), tem sido destacada como um forte preditor do envolvimento efetivo em comportamentos de prevencao em saude (Espada, Morales, Guillen-Riquelme, Ballester, & Orgiles, 2016; McEachan, Conner, Taylor, & Lawton, 2011).

Considerando a necessidade de reducao de casos de cancer, bem como a variedade de fatores envolvidos na adesao a prevencao da doenca, como salientado, e as caracteristicas do comportamento dos jovens (pouca consciencia do risco de desenvolver cancer e envolvimento em comportamentos sexuais de risco; (CDC, 2000; Eiser & Kuperberg, 2007; Inchley et al., 2016), urge avaliar necessidades de informacao, mas tambem necessidades de motivacao dos jovens para a adesao, alem do papel relativo de cada um dos fatores referidos na adesao a prevencao do cancer. Apesar dos avancos no estudo dos fatores determinantes envolvidos no processo, a evidencia cientifica centrada no papel dos fatores motivacionais para a adesao a prevencao e ainda escassa, configurando um desafio significativo para a comunidade cientifica (Klein et al., 2014).

Nesse sentido, o presente estudo visa identificar os determinantes-chave da adesao aos principais comportamentos de prevencao do cancer do colo do utero em jovens do sexo feminino, examinando o papel que as variaveis motivacionais desempenham nesse processo. Para isso, pretende-se determinar se as variaveis sociodemograficas, o nivel de conhecimento sobre o cancer e seus fatores de risco, as variaveis motivacionais (tais como as expectativas de autoeficacia e os custos emocionais percebidos) e as influencias de familiares e de amigos sao preditores significativos da adesao a prevencao do cancer do colo do utero. No presente estudo, os comportamentos de adesao incluem os exames de Papanicolau, o uso do preservativo e a restricao do numero de parceiros sexuais (3). Analisam-se os preditores da intencao de adesao e do envolvimento efetivo para cada um desses comportamentos.

Preve-se que as variaveis motivacionais (em particular, as expectativas de autoeficacia) desempenhem um papel especialmente significativo no conjunto de preditores de adesao a prevencao do cancer do colo do utero, dada a sua relevancia nos modelos que explicam os mecanismos de mudanca e a persistencia do comportamento. A construcao da intencao de adesao devera tambem ser ela propria um preditor significativo do envolvimento efetivo nos comportamentos de adesao, devido a sua maior proximidade com a acao concreta na cadeia comportamental que leva da motivacao a acao.

Metodo

Participantes

Participaram deste estudo 399 estudantes universitarias do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 17 e os 24 anos, selecionadas por conveniencia e provenientes de duas universidades portuguesas. Excluiram-se da amostra as estudantes universitarias sem dominio da lingua portuguesa.

Instrumentos

As variaveis em estudo foram avaliadas por meio do Questionario sobre o Cancer do Colo do Utero (QCCU) (Pereira, 2015), um instrumento multidimensional de avaliacao dos determinantes de adesao a comportamentos de prevencao do cancer (versao cancer do colo do utero), construido para esse objetivo.

Do ponto de vista motivacional, componente central do Questionario, a expectativa de autoeficacia relativamente a cada um dos comportamentos de prevencao especificos (exames de Papanicolau, uso do preservativo e restricao do numero de parceiros sexuais) foi avaliada por seis itens ("Sinto-me capaz de [realizar cada um dos comportamentos de prevencao do cancer do colo do utero]"). Igualmente, os custos emocionais percebidos para cada um desses comportamentos foram avaliados por outros seis itens ("Sinto medo ao pensar em [realizar cada um dos comportamentos de prevencao do cancer do colo do utero]"). Ja as influencias modeladoras e incentivadoras de familiares e amigos foram avaliadas por quatro itens. Todos os itens foram medidos por uma escala de tipo Likert com cinco pontos, variando de "discordo totalmente" (1) a "concordo totalmente" (5).

As intencoes de envolvimento nos comportamentos preventivos especificos foram avaliadas por tres itens, medidos numa escala de tipo Likert com cinco pontos, que variavam do extremo grau de certeza de nao intencao ao grau maximo de certeza de intencao. O envolvimento efetivo nesses tres comportamentos foi avaliado por outros tres itens, medidos numa escala dicotomica de "sim" ou "nao".

O conhecimento sobre cancer do colo do utero foi avaliado por 23 itens, que incluiam afirmacoes sobre epidemiologia, comportamentos de prevencao, diagnostico e tratamento, medidos numa escala tricotomica com "sim", "nao" ou "nao sei". Os itens incluiam ainda afirmacoes sobre causas e fatores de risco, medidos numa escala de tipo Likert com cinco pontos, sendo que a correta identificacao dos fatores era medida pelo grau de concordancia com as afirmacoes propostas (4 = "concordo" ou 5 = "concordo totalmente"). O somatorio das respostas corretas constituiu um resultado global da variavel, em que o nivel mais elevado correspondia a um maior nivel de conhecimento.

O Questionario incluia ainda variaveis sociodemograficas que tem sido associadas com a adesao a prevencao na area da saude: idade, nivel socioeconomico do agregado familiar (calculado com base na profissao e nivel de formacao da mae) e nivel de proximidade com o cancer. Essa ultima variavel foi avaliada pelo somatorio de seis itens que representam uma proximidade com o cancer progressivamente maior (1 = Amigo/a; 2 = Familiar; 3 = Amigo/a proximo/a; 4 = Familiar proximo/a; 5 = Parceiro/a; 6 = Proprio/a), podendo variar entre 0 e 21.

O instrumento continha opcoes de resposta relativas a possibilidade de as participantes preferirem nao responder ou de o item nao se aplicar a seu caso individual.

Procedimentos

O estudo foi aprovado pela Comissao de Etica da Faculdade de Psicologia e de Ciencias da Educacao da Universidade do Porto. Trata-se de um estudo transversal em que a coleta de dados foi realizada coletivamente em contexto de sala de aula, apos obtencao de um termo de consentimento informado, livre e esclarecido, garantindo-se a confidencialidade dos dados obtidos.

Para a analise estatistica dos dados usou-se o programa International Business Machines Statistical Package for the Social Sciences 23.0 (IBM SPSS Inc., Chicago, IL, Estados Unidos). Calcularam-se as estatisticas descritivas das variaveis em estudo e avaliou-se a consistencia interna das escalas (por meio do indice Alfa de Cronbach). Para avaliar as variaveis preditivas da intencao de adesao a prevencao do cancer do colo do utero, utilizou-se a analise de regressao linear multipla hierarquica. Para analisar as variaveis preditivas da adesao comportamental efetiva, utilizou-se a regressao logistica binaria com metodo hierarquico.

Relativamente a insercao das variaveis nos modelos de regressao hierarquicos, incluiram-se, cumulativamente, (a) o nivel socioeconomico, no primeiro bloco; (b) a proximidade com o cancer, no segundo bloco; (c) o conhecimento, no terceiro; (d) a expectativa de eficacia para o comportamento de prevencao especifico, no quarto; (e) o custo emocional percebido para o comportamento preventivo respectivo, no quinto; e (f) as influencias modeladoras e incentivadoras de familiares e de amigos, no sexto. Quando a variavel dependente se referia ao comportamento efetivo, adicionou-se ainda, no setimo bloco, a intencao de realizacao do comportamento especifico. Com base nesses resultados, selecionaram-se as variaveis estatisticamente significativas, ajustando-se novos modelos significativos usando o metodo enter. Admitiu-se, para a analise dos dados, um nivel de confianca de 95%.

Resultados

As caracteristicas da amostra e as estatisticas descritivas das variaveis em estudo estao apresentadas na Tabela 1. As participantes distribuem-se de forma aproximadamente equitativa entre o nivel socioeconomico alto, medio e baixo (cerca de 30,0% em cada nivel). Cento e vinte e sete participantes (percentagem valida = 34,8%) realizaram o exame de Papanicolau, 201 (79,4%) declaram usar o preservativo, e 240 (94,5%) referiram um numero restrito de parceiros sexuais.

Os resultados dos modelos finais ajustados de intencao para cada um dos comportamentos de prevencao sao altamente significativos, destacando-se como preditores a expectativa de autoeficacia de cada comportamento e as influencias modeladoras e incentivadoras de familiares e de amigos. Enquanto as expectativas de autoeflcacia predizem positivamente a intencao de realizar os tres comportamentos de prevencao, as influencias de familiares e de amigos predizem positivamente a intencao de realizar os exames de Papanicolau, mas negativamente a intencao de uso do preservativo (Tabela 2).

Os resultados dos modelos finais ajustados de comportamento efetivo para cada um dos comportamentos de prevencao sao altamente significativos, destacando-se como preditor positivo a intencao, e, como preditor negativo, o custo emocional de cada comportamento de prevencao. No que diz respeito a realizacao de exames de Papanicolau, a expectativa de autoeflcacia para esse comportamento e o nivel socioeconomico surgem tambem como preditores significativos (Tabela 2).

Discussao

Este estudo investigou os determinantes-chave de adesao aos comportamentos de prevencao do cancer do colo do utero em jovens do sexo feminino, com especial atencao ao papel das variaveis motivacionais.

Os resultados revelaram um nivel pouco elevado de conhecimento sobre o cancer do colo do utero entre essas jovens universitarias, reforcando evidencias de estudos previos (Cooper et al., 2016). Observaram--se niveis elevados de autoeficacia e niveis baixos nos custos emocionais percebidos associados a realizacao dos comportamentos de prevencao do cancer do colo do utero. Adicionalmente, familiares e amigos das participantes modelam e incentivam a realizacao dos comportamentos de prevencao. Esses valores sao semelhantes aos resultados de outros estudos (Moore de Peralta, Holaday, & McDonell, 2015).

Os resultados indicam ainda que, embora a intencao de realizar os comportamentos seja elevada, a sua realizacao efetiva e bastante mais baixa: cerca de dois tercos das participantes nao realizaram o exame de Papanicolau, ao passo que o preservativo nao era usado por cerca de 20% das participantes com vida sexual ativa. Esses resultados corroboram investigacao existente, que tem sugerido uma menor adesao recente aos exames de Papanicolau em paises desenvolvidos (Chorley et al., 2016) e uma percentagem media de 65% de jovens que usam preservativo (Inchley et al., 2016). Assim, a real adesao ao uso do preservativo deve continuar a ser um alvo de atencao, uma vez que se trata de uma populacao descrita como um grupo potencial de risco (CDC, 2000; Inchley et al., 2016), apesar de as jovens participantes terem, em media, um numero relativamente limitado de parceiros sexuais, o que reforca as evidencias do estudo de Nikula, Koponen, Haavio-Mannila e Hemminki (2007).

Considerando que o principal objetivo do presente estudo foi identificar os preditores-chave da intencao e do envolvimento efetivo na prevencao do cancer do colo do utero entre jovens universitarias, os resultados sugerem que as expectativas de autoeficacia sao os preditores mais significativos da intencao de realizar os comportamentos preventivos, apoiando as conclusoes ja sugeridas na literatura (Norman, Boer, & Seydel, 2005). As influencias de familiares e de amigos surgem tambem como determinantes significativos da intencao de realizar exames de Papanicolau e de usar o preservativo. Resultados semelhantes foram encontrados num estudo recente (Kim, 2014).

No entanto, o presente estudo sugere adicionalmente que se, por um lado, essas influencias sao facilitadoras da intencao de realizar exames de Papanicolau, pelo outro, quanto ao uso do preservativo, elas podem ser dificultadoras. Tal resultado apresenta implicacoes importantes para os programas de educacao em saude nesta area, uma vez que parece sugerir a influencia preponderante que certas influencias sociais (tais como dos proprios parceiros sexuais) poderao ter no uso do preservativo (Brum & Carrara, 2012), funcionando como barreiras. Assim, este estudo aponta a necessidade de realizar intervencoes diretamente focadas na negociacao e no uso efetivo do preservativo nas relacoes sexuais, considerando que esse comportamento pode ser negativamente influenciado pelos parceiros sexuais.

Quanto ao comportamento efetivamente realizado, o custo emocional especifico dos comportamentos de prevencao assume um papel preditivo de relevo, como sustentam outros estudos recentes (Hahm, Lee, Choe, Ward, & Lundgren, 2011; Julinawati, Cawley, Domegan, Brenner, & Rowan, 2013; Sakhvidi et al., 2015). Esses resultados sugerem que, na passagem a pratica concreta dos comportamentos de prevencao, o custo adquire um papel dificultador determinante.

Confirmando a hipotese formulada, a intencao de adesao prediz significativamente a realizacao concreta dos tres tipos de comportamento de prevencao, indicando que a construcao da intencao de adesao e um passo fundamental da real adesao comportamental. Tendo em conta o papel da construcao da intencao, evidenciada em alguns estudos recentes focados em comportamentos de saude e frequentemente valorizada como um resultado positivo de programas de intervencao (McEachan et al., 2011), o presente estudo reforca a pertinencia dessa variavel para os comportamentos de prevencao do cancer do colo do utero (Espada et al., 2016; Jalilian & Emdadi, 2011). Este estudo sugere ainda que as variaveis que predizem a intencao (a autoeficacia e as influencias de familiares e amigos) acabam por influenciar tambem o comportamento efetivo de adesao (atraves da intencao). A confirmar-se, este resultado ofereceria suporte empirico a Teoria do Comportamento Planejado (Ajzen, 2011) aplicada a adesao a prevencao desse tipo de cancer, que define a intencao como mediadora da relacao entre os fatores motivacionais e a realizacao efetiva do comportamento.

Relativamente a realizacao de exames de Papanlcoiau, alem do custo emocional e da Intencao, tambem parecem determinantes significativos a autoeficacia para esse comportamento, como ja sugerido por Majdfar et al. (2016), e o nivel socioeconomico, como ja referenciado por Monnat (2014). Tais resultados sugerem assim uma especificidade particular desse comportamento preventivo, devendo esses dois determinantes (o nivel socioeconomico e a autoeficacia para a realizacao de exames de Papanicolau) merecer uma atencao particular nos programas de educacao para a saude nesta area.

Esses resultados confirmam as hipoteses delineadas e, em parte, corroboram os resultados encontrados em estudos previos, conferindo maior robustez empirica a consideracao de variaveis motivacionais nessa area. Por outro lado, os resultados deste estudo oferecem novas contribuicoes para o conhecimento da problematica da adesao a comportamentos de prevencao na saude. Precisamente, parece haver preditores especificos distintos para determinados comportamentos de prevencao. Destaca-se a influencia negativa dos familiares e amigos relativamente a intencao do uso do preservativo, sugerindo que esse comportamento pode requerer uma intervencao no nivel de competencias de comunicacao e de negociacao com o parceiro. No caso da realizacao efetiva de exames de Papanicolau, a expectativa de autoeficacia parece desempenhar um papel especialmente significativo. Finalmente, sera importante analisar futuramente as relacoes entre a adesao aos varios comportamentos de prevencao. Por exemplo, a restricao do numero de parceiros sexuais podera criar uma maior sensacao de protecao, sendo entao os outros comportamentos vistos como desnecessarios.

Apesar de a evidencia relatar a importancia da idade, do historico de cancer (Adlard & Hume, 2003) e do conhecimento (Werk et al., 2016) como fatores importantes na adesao a prevencao, tais variaveis nao se revelaram preditores diretos significativos nos modelos de regressao testados. Estudos de modelos de mediacao incluindo os varios fatores poderao esclarecer o seu papel no fenomeno da adesao a prevencao.

Este estudo apresenta algumas limitacoes, dentre as quais a amostra de conveniencia, selecionada por metodos nao probabilisticos, razao pela qual os resultados podem nao se generalizar a outras populacoes. Note-se, contudo, que os valores semelhantes obtidos entre o coeficiente de determinacao e o coeficiente de determinacao ajustado em cada um dos modelos sugerem a possibilidade de generalizacao dos resultados a populacoes similares (Field, 2013). Adicionalmente, os questionarios relacionados com adesao a comportamentos de prevencao sao marcados por desejabilidade social, de modo que futuros estudos podem se beneficiar com a inclusao de medidas diretas de comportamento.

Apesar das limitacoes, acredita-se que este estudo possa trazer contribuicoes praticas importantes no plano da intervencao, de tendencia multidisciplinar e baseada na evidencia, especificamente na medida em que revelou o papel central das variaveis motivacionais na adesao dos jovens a comportamentos de prevencao. Os resultados apresentados sugerem que a implementacao e avaliacao de programas eficazes de educacao para a saude nesta area devem ter em conta nao so aumentar os facilitadores (sobretudo, a autoeficacia e a construcao da intencao de adesao) da realizacao de comportamentos de prevencao, como tambem diminuir os dificultadores (mais precisamente os custos emocionais) presentes no processo. Os resultados deste estudo sugerem ainda que as expectativas de autoeficacia e os custos emocionais especificos de um dado comportamento emergem como determinantes-chave, razao pela qual as intervencoes devem focar-se em fomentar percepcoes especificas dessas variaveis (AbuSabha & Achterberg, 1997; Flake, Barron, Hulleman, McCoach, & Welsh, 2015).

Esta investigacao pode ser util para o entendimento dos processos de adesao a outras doencas e a outros tipos de cancer, ja que os comportamentos de prevencao dos varios tipos de cancer na populacao se focam majoritariamente em fatores de risco genericos, nao especificos de cada tipo de cancer (Puska, Khuhaprema, & Muwonge, 2014).

Em suma, este estudo avaliou um leque extenso de variaveis relacionadas com a adesao a prevencao do cancer do colo do utero e identificou as mais fortemente preditivas, realcando a natureza multifatorial e psicossocial do fenomeno. Os resultados apontam claramente para o papel central das variaveis motlvaclonals nos processos de adesao aos principais comportamentos de prevencao do cancer do colo do utero em jovens adultas. As expectativas de autoeficacia surgem como preditores fortes e significativos da intencao relativamente a todos os comportamentos de prevencao. As influencias modeladoras e incentivadoras de familiares e amigos desempenham tambem um papel determinante na intencao de realizacao de exames de Papanicolau e de uso do preservativo. Por sua vez, a intencao e os custos emocionais surgem como determinantes-chave da realizacao efetiva dos comportamentos de prevencao. Alem disso, a autoeficacia e o nivel socioeconomico surgem como determinantes importantes da realizacao efetiva do exame de Papanicolau. Esses fatores nao poderao ser negligenciados nos programas de prevencao do cancer do colo do utero.

Colaboradores

J.D. PEREIRA foi responsavel pela concepcao, desenho, analise e interpretacao dos dados e discussao dos resultados. M.S. LEMOS participou da concepcao, desenho, analise e interpretacao dos dados, discussao dos resultados e revisao e aprovacao da versao final do artigo.

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0275201936e170073

Recebido: maio 8, 2017

Versao final: outubro 5, 2017

Aprovado: dezembro 5, 2017

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JOSE DIOGO PEREIRA (1) [ID] 0000-0002-1870-1265

MARINA SERRA DE LEMOS (2) [ID] 0000-0001-5259-7935

(1) Universidade do Porto, Instituto de Investigacao e Inovacao em Saude. Porto, Portugal.

(2) Universidade do Porto, Faculdade de Psicologia e de Ciencias da Educacao. R. Alfredo Allen, s/n., 4200-135, Porto, Portugal.

Correspondencia para/Correspondence to: M.S. LEMOS. E-mail: <marina@fpce.up.pt>.

(3) A vacinacao contra o VPH sofreu alteracoes no Plano Nacional de Vacinacao de Portugal, as quais introduziram vieses incontrolaveis na interpretacao dos dados, motivo pelo qual nao foi considerada neste estudo.
Tabela 1

Caraterizacao da amostra de universitarias e seus comportamentos
de prevencao do cancer de colo do utero (N = 399)

Variaveis em estudo                          M      DP    Variacao
                                                          possivel

1) Variaveis sociodemograficas
  Idade                                    19,95   1,45    17-24
  Proximidade com o cancer                 3,95    2,91     0-21
2) Conhecimento sobre o cancer             12,29   3,31     0-23
  do colo do utero
3) Variaveis motivacionais
3.1) Expectativas de autoeficacia
  Exames de Papanicolau ([alpha] = 0,92)   4,29    0,83     1-5
  Uso do preservativo ([alpha] = 0,94)     4,34    0,86     1-5
  Parceiros sexuais ([alpha] = 0,96)       4,61    0,70     1-5
3.2) Custos emocionais
  Exames de Papanicolau ([alpha] = 0,83)   2,67    1,17     1-5
  Uso do preservativo ([alpha] = 0,78)     1,86    0,82     1-5
  Parceiros sexuais ([alpha] = 0,64)       1,59    0,79     1-5
3.3) Influencias de                        3,52    0,78     1-5
  familiares/amigos ([alpha] = 0,83)
4) Intencoes
  Exames de Papanicolau                    4,50    0,71     1-5
  Uso do preservativo                      4,52    0,85     1-5
  Parceiros sexuais                        4,73    0,60     1-5

Nota: M: Media; DP: Desvio Padrao.

Tabela 2

Preditores de adesao a prevencao do cancer do colo do utero em
universitarias (N = 399)

Variaveis em estudo                     [R.sup.2]        [beta]
                                       [([R.sup.2]
                                          .sub.
                                        ajustado)]

I) Intencao
1) Exames de Papanicolau              0,39 (0,39)***
  Autoeflcacia--Exames de                                0,51***
    Papanicolau
  Influencias de familiares/amigos                       0,29***
2) Uso do preservativo                0,56 (0,56)***
  Autoeflcacia--Uso do                                   0,75***
    preservativo
  Influencias de familiares/amigos                       -0,09*
3) Parceiros sexuais                  0,34 (0,34)***
  Autoeflcacia--Parceiros sexuais                        0,58***

Variaveis em estudo                         OR           [IC95%]

II) Comportamento
1) Exames de Papanicolau
  Nivel socioeconomico                    0,73*        [0,55-0,98]
  Autoeflcacia--Exames de                3,96***       [2,09-7,52]
    Papanicolau
  Custo emocional--Exames de             0,56***       [0,42-0,74]
    Papanicolau
  Intencao--Exames de Papanicolau         2,38**       [1,31-4,32]
2) Uso do preservativo
  Custo emocional--Uso do                 0,35**       [0,20-0,64]
    preservativo
  Intencao--Uso do preservativo          5,83***       [3,40-10,00]
3) Parceiros sexuais
  Custo emocional--Parceiros              0,33**       [0,17-0,62]
    sexuais
  Intencao--Parceiros sexuais             3,58**       [1,53-8,37]

Nota: *p < 0,05; **p < 0,01; ***p < 0,001.

OR: Odds Ratio; IC95%: Intervalo de confianca de 95%.
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Title Annotation:HEALTH PSYCHOLOGY: PSICOLOGIA DA SAUDE
Author:Pereira, Jose Diogo; de Lemos, Marina Serra
Publication:Estudos de Psicologia
Date:Jan 1, 2019
Words:5362
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