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Monopolizacao x Diversidade de Perspectivas na midia regional do Brasil.

Monopolizacao x Diversidade de Perspectivas na midia regional

O livro aborda os efeitos do avanco do maior conglomerado regional de midia do Brasil no principal mercado alem das capitais Sao Paulo e Rio de Janeiro--o Sul. Trata-se do detalhamento da compra do jornal A Noticia, pelo grupo RBS (Rede Brasil Sul de Comunicacao), e os impactos desta transacao para a imprensa de Joinville - maior cidade do estado de Santa Catarina. O trabalho suscita debates importantes para compreensao da midia brasileira: o controle da midia por conglomerados nacionais e regionais e os efeitos praticos disso para a sociedade e para os profissionais de comunicacao.

O texto monitorou as transformacoes ocorridas na empresa catarinense ao longo de dez anos, apos a incorporacao pelo conglomerado. Os argumentos foram divididos em tres eixos: a atuacao do grupo RBS em Santa Catarina, com enfase no "apequenamento" de A Noticia; as transformacoes profissionais ocorridas; no novo cenario, em constante mudanca, configurado a partir da nova vertente editorial do jornal.

O primeiro capitulo, RBS, oligopolio em expansao, contextualiza o leitor sobre a disposicao da rede de veiculos e inicia a narrativa sobre a compra de A Noticia. A afiliacao com o grupo Globo reforca as estrategias de eliminacao dos concorrentes locais, externamente, mas oferece pouca autonomia as afiladas, internamente. Em 2015 as empresas somavam oito jornais diarios, 25 radios, 18 TV's abertas, dois canais de TV comunitaria, um canal a cabo e dez portais de internet. Tem receita liquida, desde 2008, superior a R$ 1 bilhao. Em 2016, vendeu todos os veiculos do espaco catarinense para os empresarios Lirio Parisoto e Carlos Sanchez, que criaram o grupo de Nossa Santa Catarina.

A aquisicao de A Noticia, em 2006, por cerca de R$ 48 milhoes expoe como o conglomerado abordou o impresso regional de maior impacto no estado. O jornal de Joinville tinha a segunda maior tiragem, 31 mil exemplares, ficando atras do Diario Catarinense, do conglomerado gaucho, com 42 mil. A primeira mudanca significativa foi a troca do slogan "catarinense de verdade" por "traduz seu mundo". Ele fazia uma alusao ao concorrente da capital (da RBS). Em 2008 houve uma queda na circulacao de A Noticia para 21.605 mil jornais ao dia. Um dos possiveis reflexos da mudanca de posicionamento, de um jornal estadual/regional, para uma midia estritamente local. As demais coberturas externas ao Norte catarinense dependiam do conteudo produzido (e republicado) pelo antigo concorrente, e agora parceiro, Diario Catarinense.

Nesta etapa, os autores deixaram de contextualizar melhor o leitor de outras regioes sobre o cenario da midia catarinense. Dentre os tres estados do Sul, e o unico a nao sediar um conglomerado de radiodifusao - o que o torna terreno de disputa da RBS (Rio Grande do Sul) e da Rede Independencia de Comunicacao (RIC) (Parana), afiliada ao Grupo Record. Essas duas empresas "externas" controlaram (ate 2016) os tres jornais existentes na capital e alguns importantes veiculos no interior. Trata-se do unico estado na regiao no qual a principal cidade, em populacao, nao e a capital. Tal configuracao aponta uma autonomia de empresas no mercado fora da capital, afiliados a redes de referencia nacional e empresas independentes do mercado de Florianopolis.

O segundo capitulo, Um balanco das criticas sobre as mudancas editoriais, considera as modificacoes editoriais a partir do controle da empresa. Este passou de grupo da elite local para o conglomerado gaucho: "A aquisicao de A Noticia reforcou o poder monopolico do grupo RBS de arbitrar os precos de publicidade, em midias direcionadas aos mercados mais populosos do estado. Isso significa a possibilidade de ampliar a participacao do grupo no mercado de veiculacao publicitaria em Santa Catarina, que movimentou, em 2010, R$ 1,026 bilhao" (p. 58). Esse controle refletia ate nos valores cobrados por assinatura, tendo em vista que detem os maiores titulos do estado.

A seccao Um caso: a cobertura das eleicoes traz conteudo importante para entender atores politicos midiaticos no estado, alem de expor os interesses politicos das organizacoes midiaticas. Os autores identificaram a combinacao de um padrao de relacionamento mais formal com a RBS e um padrao politico de envolvimento com os outros diarios do interior na cobertura da gestao do governo de Luis Henrique da Silveira (2002 - 2010). Neste capitulo surge um questionamento que ecoa em outras partes do livro: qual controle e "melhor"? o do conglomerado ou de elites locais?

No terceiro capitulo, Os jornalistas observam a concentracao, a figura dos profissionais e enfatizada, por meio de entrevistas, e tem suas acoes e praticas interpretadas a luz do conceito de habitus - aptidao social variavel atraves do tempo, do lugar, das relacoes de poder -, de Bourdieu. Neste topico os autores problematizam o uso da metodologia da entrevista, pois os entrevistados dominam esta tecnica - a falta de transparencia do grupo RBS e a impossibilidade de uma observacao participante foram justificativas plausiveis para o uso desse recurso. A fala anonima de reporteres e editores ilustrou a tensao na qual trabalhavam. A melhoria de infraestrutura do jornal foi destacada em muitas falas, mas contrastava com o acumulo de tarefas em prol da sinergia dos veiculos: "O contrato e multimidia e o salario e monomidia (Reporter E)" (p. 95). A carga de tarefas aumentou com a demissao do quadro de profissionais.

O quarto capitulo, Monopolizacao e choques de cultura na empresa, discutiu a passagem de uma cultura de tradicao e propriedade familiar, com habitus profissional fragil (a presenca de um curso superior na cidade foi recente) para um modelo empresarial, caracterizado pelo profissionalismo. Neste ultimo, os jornalistas atendiam a metas de resultados e eram recompensados com participacao de lucros. Os autores apontam a cultura como estrategia de dominacao simbolica para modelar os profissionais.

Uma ruptura cultural significativa foi a mudanca na relacao com o Diario Catarinense -o jornal de Joinville passou a ser "subordinado" ao seu principal concorrente. Isso ocorreu quando o grupo deslocou a producao de A Noticia do ambito estadual para um hiperlocal como estrategia de reduzir a participacao do veiculo. Este processo foi criticado por profissionais. Houve reclamacoes acerca da supervalorizacao dos eventos produzidos pelo grupo gaucho nas paginas do jornal de Joinville. Tal conduta se assemelhava com a relacao que o antigo proprietario do jornal mantinha com politicos. Mudou o controle da midia, mas a prioridade de interesses permanece.

No capitulo Multifuncionais, superexplorados - e impassiveis, os autores trazem uma das principais contribuicoes do trabalho: o conceito de localismo de bandeira. Ele reflete a forma como a RBS elegeu para noticiar o estado e organizar a sua producao noticiosa de modo que ela fosse reaproveitada em outras midias. Essa multifuncionalidade reflete a consideravel baixa de funcionarios e a atribuicao de novas funcoes para atender uma cultura profissional de maximizacao de resultados. Joinville Florianopolis, Blumenau e Itajai foram as cidades escolhidas como polos noticiosos. A empresa delimitou temas fixos (bandeiras) de impacto social, economico e politico previamente escolhidas. Isso permitiria a valorizacao do local, mas silenciava temas relevantes a sociedade fora destes holofotes preestabelecidos.

O "apequenamento" dojornal foi ilustrado com a diminuicao dos profissionais (passaram de 65 para 23, em 10 anos), do tamanho dos textos, do numero de paginas, na diminuicao da escuta de fontes e do maior aproveitamento de textos entre as midias da RBS. Paralelamente houve uma valorizacao do site do jornal, o que tornou os jornalistas restantes em produtores de conteudo. Para os autores, esta logica so foi possivel pelo compartilhamento de conteudos entre as midias - todos os infograficos da RBS sao feitos em Porto Alegre (Zero Hora) ou em Florianopolis (Diario Catarinense) - e pelo amplo aproveitamento de releases de orgaos publicos.

A discussao do sexto capitulo, Os criticos se conformam, e sobre a reducao da pluralidade de coberturas e na diminuicao de diversidade de vozes impostas a esfera publica catarinense--sobretudo de economia e de politica - com a monopolizacao. Os autores destacam que este controle transformou o habitus dos jornalistas ao redefinir as dimensoes do campo e ao afetar suas estruturas, pela maximizacao do alcance de uma cultura corporativa" (p. 193). O dominio do mercado afetou tambem os jornalistas, que tiveram a sua cultura profissional apropriada e ressignificada pela empresa, convertendo os saberes em conhecimento privado. O conglomerado estimula expectativas nos funcionarios (de oportunidades no grupo), contrastando com a frustacao das rotinas multitarefas.

O livro e uma narrativa feita a quatro maos, costurada ao longo de uma decada de observacao e participacao, pois os autores trabalharam na redacao e puderam acompanhar as mudancas sobre as quais escreveram. O cenario de A Noticia pode ser lido como uma sintese das mudancas ocorridas no jornalismo brasileiro: conglomerados em expansao, precarizacao dos postos de trabalho, reducao de paginas dos impressos e, por fim, o avanco da internet junto aos leitores e internautas. O controle da midia e do mercado de jornalistas, seja por grupos economicos ou politicos, traz prejuizo a pluralidade de vozes, portanto, a liberdade de expressao.

Pamela Araujo Pinto

Autores: Jacques Mick e Joao Kamradt

Editorial: Insular, Florianopolis

Ano: 2017

Paginas: 218

ISBN: 978-85-7474-972-3
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Author:Kamradt, Jacques Mick e Joao
Publication:Chasqui: Revista Latinoamericana de Comunicacion
Date:Apr 1, 2019
Words:1699
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