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Mineralization and nitrification of nitrogen from poultry litter applied to soil/ Mineralizacao e nitrificacao do nitrogenio proveniente da cama de aves aplicada ao solo.

INTRODUCAO

A criacao de aves na regiao Sul do Brasil se caracteriza, predominantemente, pela producao em pequenas propriedades com mao-de-obra familiar. O residuo produzido na criacao de aves contem nutrientes e sua utilizacao como fertilizante pode diminuir os custos de producao e maximizar os lucros da atividade agricola (Pandolfo & Ceretta, 2008). Ao contrario dos fertilizantes minerais, que possuem composicao definida, a composicao da cama de aves e variavel visto que depende de fatores inerentes ao sistema em que os animais foram criados e do armazenamento da cama (Oliveira et al., 2004).

A eficiencia da cama de aves como fertilizante depende das condicoes edafoclimaticas e de caracteristicas do residuo (Nahm, 2005; Lourenco et al., 2013) que vao condicionar a capacidade de mineralizacao dos nutrientes contidos na fracao organica (Gordillo & Cabrera, 1997; Hartz et al., 2000; Sistani et al., 2008) uma vez que a quantidade disponibilizada as plantas da maioria dos nutrientes e inferior ao teor total contido no residuo (Arns, 2004; CQFS, 2004). O nitrogenio (N) presente na cama de aves tem sido objeto de estudo em varias partes do mundo haja vista que, quando este residuo e aplicado ao solo sem criterios tecnicos, este elemento apresenta grande potencial poluente (Bolan et al., 2010; Goss et al., 2013), uma vez que esta presente em quantidades significativas neste residuo e sua forma nitrica e bastante movel no solo (Dynia et al., 2006). Alem disto e por questoes de ordem pratica e economica, nao raramente os estercos sao adicionados ao solo em doses superiores a capacidade de seu suporte. Nessas condicoes, aumenta a probabilidade de transferencia do N para os mananciais hidricos.

A taxa com que o N amoniacal (N-N[H.sub.4.sup.+]) da cama de aves e oxidado a nitrato (N-N[O.sub.3.sup.-]) apos a aplicacao ao solo, e fator determinante do seu potencial poluidor. Isso porque o aparecimento precoce de N[O.sub.3.sup.-] no solo antes dos periodos de maior demanda em N pelas culturas, podera resultar em perdas significativas de N por lixiviacao, tornando-se um contaminante das aguas de superficie e tambem do lencol freatico (Minogue et al., 2012), visto que a aplicacao de cama de aves geralmente antecede a semeadura das culturas. Desta forma, e de grande importancia o conhecimento da magnitude das transformacoes microbianas do N presente nos residuos no solo, especialmente a rapidez da oxidacao do N amoniacal ate nitrato para que a aplicacao do residuo ao solo seja feita em sincronia com o periodo de maior demanda das culturas.

A forma de aplicacao da cama de aves ao solo pode afetar seu potencial fertilizante (Jn-Baptiste et al., 2013) e poluente (Adeli et al., 2011), em funcao das distintas condicoes ambientais do solo que influenciam as biotransformacoes do N, razao pela qual e interessante comparar diferentes situacoes em que a cama e adicionada ao solo, seja ela aplicada na superficie, como e feito no sistema plantio direto, ou uniformemente incorporada, como e feito no preparo convencional do solo.

A determinacao de doses de cama de aves para suprir adequadamente a demanda de N das culturas passa, impreterivelmente, pelo conhecimento dos teores de N e da capacidade de mineralizacao de seus compostos organicos. Pesquisas voltadas a este fim sao pouco frequentes no Brasil. Objetivou-se, no presente estudo, quantificar as formas disponiveis, a mineralizacao liquida e a nitrificacao do N da cama de aves, em funcao de doses aplicadas superficialmente ou incorporados ao solo, ao longo do tempo.

MATERIAL E METODOS

O experimento foi conduzido em casa de vegetacao, em Lages, SC, no ano de 2009. Foi utilizado um Cambissolo Humico alico, coletado na camada superficial de 0 a 30 cm em uma area com vegetacao nativa constituida predominantemente por gramineas. O solo possuia CTC a pH 7,0 = 12,5 cmolc [kg.sup.-1], P (Mehlich-1) = 4,5 mg [kg.sup.-1], K (Mehlich-1) = 63,0 mg [kg.sup.-1], materia organica = 55,0 g [kg.sup.-1], argila = 400 g [kg.sup.-1] e pH em agua = 4,3. O solo foi tamisado em peneiras com malhas de 2 mm e posteriormente aplicado calcario (MgO = 11%; CaO = 39%) para elevar o pH para 6,0 e incubado por 60 dias dentro de sacos plasticos para estabilizacao da atividade quimica e biologica.

A cama de aves usada foi proveniente de uma granja produtora de frangos de corte (4 lotes) que utilizou maravalha (aparas de madeira maior que a serragem) como material absorvente dos dejetos animais. Apos ser removida do aviario a cama ficou armazenada durante quatro meses em sacos de rafia amontoados e cobertos com lona. A amostra recolhida para uso no experimento foi secada em estufa a 65 [degrees]C e posteriormente moida e passada em peneiras com abertura de 0,5 mm. A amostra apresentou, com base na massa seca e de acordo com os procedimentos analiticos descritos em Tedesco et al. (1995): N-total = 2,55%, N-amoniacal (N-N[H.sub.4.sup.+]) = 0,24%, N-nitrico (N-N[O.sub.3.sup.-] + N-N[O.sub.2.sup.-]) = 0,001%, N-organico total = 2,30%; [P.sub.2][O.sub.5] = 3,9%, [K.sub.2]O = 5,0%, C organico= 38,0, relacao C/N = 14,9 e pH ([H.sub.2]O) = 8,3. Alem disto, tambem foi determinado o N total soluvel em agua (N-mineral + N-organico soluvel em [H.sub.2]O). Para isto, adicionaram-se 100 mL de agua destilada a 2,0 g de cama de aves cuja mistura foi agitada por 5 min seguida por um periodo de 5 h de repouso; na sequencia, foram retirados 10 mL do extrato e feita digestao sulfurica para determinacao do N, de acordo com o metodo descrito por Tedesco et al. (1995). O N-organico soluvel em agua foi calculado pela subtracao do N-inorganico (N-N[H.sub.4.sup.+] + N-N[O.sub.3.sup.-] + N-N[O.sub.2.sup.-]) do total soluvel em agua. A amostra de cama de aves apresentou 0,87% de N total soluvel em agua e 0,63% de N-organico soluvel em agua, o que corresponde a 34,1 e 24,7% do N total (N-organico + N-inorganico) respectivamente.

Os tratamentos consistiram de um fatorial 4 x 2, sendo o primeiro fator formado por tres doses de cama de aves (4, 8 e 16 Mg [ha.sup.-1]) e uma de ureia (204 kg [ha.sup.-] de N), e o segundo fator por duas formas de aplicacao (incorporada ao solo e sobre a superficie); alem disto, tambem foi utilizado um tratamento sem adubacao (controle). A dose de ureia foi calculada de modo a adicionar a mesma quantidade de N fornecida por 8,0 Mg [ha.sup.-] de cama de aves. As doses foram calculadas considerando-se a existencia de dois milhoes de kg [ha.sup.-] de solo, na camada 0 a 20 cm. Utilizaram-se o delineamento inteiramente casualizado e quatro repeticoes totalizando 288 unidades experimentais.

As unidades experimentais foram constituidas por potes plasticos transparentes com dimensoes de 13,4 cm de diametro e capacidade de 250 [cm.sup.3], contendo 180,0 g de solo umido, com 20,0% de umidade gravimetrica. Apos a aplicacao da cama de aves de corte, os potes foram fechados para evitar perda de agua e transferidos para a casa de vegetacao, sem controle de temperatura e umidade relativa do ar. Para minimizar a ocorrencia de anaerobiose nas amostras de solo foram feitos orificios nas tampas dos potes. O teor de umidade do solo foi controlado por pesagem semanal das amostras e, quando necessario, foi borrifada agua destilada nos frascos para manter a umidade inicial (200 g [kg.sup.-1] de agua ou 80% da capacidade de retencao de agua).

Os teores de N mineral do solo (N-N[O.sub.3.sup.-] e N-N[H.sub.4.sup.+]) foram determinados no solo aos 2, 6, 12, 19, 26, 32 e 48 dias apos o inicio do periodo de incubacao, conforme a metodologia descrita por Tedesco et al. (1995), sendo os teores de nitrito considerados despreziveis. Por ocasiao de cada amostragem os potes foram pesados para determinacao da umidade e todo o solo presente em cada um foi transferido para uma bandeja e homogeneizado manualmente, sendo essas unidades experimentais posteriormente descartadas. A mineralizacao liquida e a nitrificacao foram avaliadas a partir da progressao das quantidades de N-N[O.sub.3.sup.-] e N-N[H.sub.4.sup.+] no solo. Os calculos do N mineral recuperado em relacao ao aplicado foram feitos subtraindo-se a quantidade de N mineral da testemunha (sem adicao de N) em todas as avaliacoes, de acordo com a equacao: %[N.sub.rec] = ([N.sub.min trat] - [N.sub.controle])/([N.sub.aplicado]) x 100; onde: % [N.sub.rec] = Percentagem de N mineral recuperado; [N.sub.min trat] = N mineral dos tratamentos com cama de aves ou ureia; [N.sub.controle] = N mineral no tratamento controle; [N.sub.aplicado] = N total aplicado ao solo.

Os dados obtidos foram submetidos a analise de variancia (5%) e a partir dos resultados utilizou-se analise de regressao para as variaveis quantitativas. Em caso de interacao usou-se o teste de Tukey (p < 0,05) para comparar o nivel de um fator, dentre os demais.

RESULTADOS E DISCUSSAO

A significancia dos efeitos de doses e as formas de aplicacao de cama de aves ao solo nos teores de N-N[O.sub.3.sup.-] e N-N[H.sub.4.sup.+] no solo foram dependentes da epoca avaliada. As doses de cama de aves afetaram os teores de N-N[H.sub.4.sup.+] em todas as epocas, porem apenas houve diferenca entre as formas de aplicacao em tres das sete epocas avaliadas (19, 26 e 32 dias), e em duas delas houve interacao entre dose e forma de aplicacao (26 e 32 dias). Referente aos teores de N-N[O.sub.3.sup.-] no solo, ocorreu interacao entre as formas e doses em todas as epocas, com excecao da ultima (48 dias), em que somente as doses foram significativas.

Os teores de N-N[H.sub.4.sup.+] no solo aumentaram linearmente com o incremento da dose de cama de aves em todas as epocas, independentemente da forma de aplicacao (Figura 1). Dois dias apos a aplicacao dos tratamentos, N-N[H.sub.4.sup.+] aumentou de 44 mg [kg.sup.-1], no controle, para 74 mg [kg.sup.-1] naquele em que foram aplicadas 16 Mg [ha.sup.-]; na ultima avaliacao, no 48[degrees] dia de incubacao, os valores diminuiram em funcao da nitrificacao e foram, respectivamente, de 13 mg [kg.sup.-1] e 19 mg [kg.sup.-1]. Quando houve diferenca entre as formas de aplicacao da cama de aves ao solo no teor de N-N[H.sub.4.sup.+] nas diferentes epocas avaliadas, este sempre foi maior onde o residuo foi aplicado na superficie do solo em relacao a incorporacao (Figura 1) o que se deve a menor taxa de nitrificacao do residuo aplicado na superficie em decorrencia do menor contato com os micro-organismos.

Em todas as epocas, a excecao da ultima (48[degrees] dia), e principalmente nas maiores doses adicionadas, os teores de nitrato foram maiores nos tratamentos com cama de aves incorporada ao solo (Figura 2) devido, provavelmente, a manutencao de valores constantes de umidade no interior do solo em contraste com periodos de umedecimento e ressecamento que ocorrem na superficie do solo (Cabrera et al., 2005). Por outro lado, a incorporacao com o solo promove maior contato entre as bacterias nitrificadoras e o N-N[H.sub.4.sup.+] presente na cama e facilita a difusao dos substratos soluveis entre os agregados do solo e ainda potencializa o desenvolvimento dos microorganismos nitrificadores (Giacomini, 2005). O tratamento com ureia apresentou a quase totalidade do N aplicado na forma de amonio desde a primeira amostragem (2 dias), indicando que o processo de hidrolise foi rapido (Longo & Melo, 2005) com consequente liberacao de N mineral para o solo e nao se observou diferenca entre as formas de aplicacao ao solo (Figura 3).

Os teores de N-N[O.sub.3.sup.-] no solo aumentaram com o tempo de incubacao e com o aumento da dose de cama de aves (Figura 2). Eles passaram de 5,7 mg [kg.sup.-1] para 9,5 mg [kg.sup.-1], no 2[degrees] dia apos a adicao do residuo organico ao solo e de 85 mg [kg.sup.-1] para 112 mg [kg.sup.-1], no 48[degrees] dia, quando a dose de cama aumentou de 0 para 16 Mg [ha.sup.-], respectivamente. O aumento dos teores de N-N[O.sub.3.sup.-] se deu simultaneamente com a diminuicao dos teores de N-N[H.sub.4.sup.+], em decorrencia do processo de oxidacao do N amoniacal pelas bacterias nitrificadoras. A variacao dos teores de amonio e nitrato no solo no decorrer do periodo de incubacao foi caracterizada por uma curva sigmoide ascendente para o nitrato e outra descendente para o amonio (Figura 3).

A igualdade entre os teores de N-N[H.sub.4.sup.+] e N-N[O.sub.3.sup.-] no solo, determinada pela interceptacao das curvas desses ions, se deu aproximadamente no 16[degrees] dia de incubacao e cinco dias antes nos tratamentos em que a cama de aves foi incorporada (nas tres doses), comparativamente a aplicacao na superficial do solo (Figura 3) demonstrando, novamente, que a incorporacao do residuo aumentou a velocidade de conversao do N amoniacal para N nitrico. Para a ureia, aplicada tanto na superficie como incorporada, a igualdade se deu no 22[degrees] de incubacao (Figura 3). A rapida nitrificacao do N amoniacal presente nos residuos apos sua adicao ao solo pode ter consequencias negativas, com diminuicao do potencial fertilizante e aumento do potencial poluente (Gonzales et al., 2009). No entanto, os resultados deste estudo sugerem que poluicao do solo com N-N[O.sub.3.sup.-] proveniente da cama de aves so ocorreria com doses muito acima das atualmente recomendadas, uma vez que as quantidades de N-N[O.sub.3.sup.-] no solo foram bastante menores que no tratamento com ureia (Figura 4). A dose de 16 Mg [ha.sup.-] de cama de aves adicionou ao solo o dobro de N que a ureia porem apresentou aproximadamente apenas metade do nitrato da ureia ao termino do experimento, que durou 48 dias.

O N total mineral no solo (N-N[H.sub.4.sup.+] + N-N[O.sub.3.sup.-]) aumentou linearmente em todos os tratamentos no decorrer do periodo de incubacao indicando que ocorreu mineralizacao liquida de N ao longo do tempo. Por exemplo, os teores de N mineral do 2[degrees] para o 48[degrees] dia aumentaram de 66 para 112 e de 154 para 205 mg [kg.sup.-1] para a cama de aves (8 Mg [ha.sup.-]) e ureia, respectivamente (Figura 5). No tratamento controle o N-mineral aumentou de 50 mg [kg.sup.-1], no 2[degrees] dia, para 93 mg [kg.sup.-1], no 48[degrees] dia, correspondendo a uma disponibilizacao liquida de N no periodo de 43 mg [kg.sup.-1] (86 kg [ha.sup.-]). Esta elevada taxa de mineralizacao no tratamento controle pode ser atribuida ao alto teor de materia organica do solo e as melhorias das condicoes quimicas e fisicas do solo que favoreceram a atividade microbiana, como aumento do pH (Cardoso et al., 2011), a oxigenacao do solo, o aumento da temperatura e a manutencao da umidade em faixas ideais ao desenvolvimento microbiano (Rocha et al., 2008).

Os coeficientes angulares (b) das equacoes lineares ajustadas entre N mineral do solo (N-N[H.sub.4.sup.+] + N-N[O.sub.3.sup.-]) e o tempo de incubacao, os quais indicam o acrescimo de N no solo (mg [kg.sup.-1] [d.sup.-1]), foram muito proximos entre o tratamento controle e os com cama de aves, independentemente da dose e da forma de aplicacao. Por exemplo, os coeficientes foram de 0,91, 1,06 e 1,09 para o tratamento controle, cama de aves (8 Mg [ha.sup.-]) e ureia, respectivamente (Figura 5). A pequena diferenca entre o tratamento controle e a ureia pode ser atribuido ao efeito "priming" (Scivittaro et al., 2000) promovido pela adicao de ureia o qual pode ter sido responsavel pela recuperacao de N maior do que a quantidade aplicada ([N.sub.rec] > 100%) (Figura 6A). Por outro lado, a pequena diferenca entre a cama de aves e o controle indica uma pequena taxa de mineralizacao liquida de N do residuo organico no decorrer do tempo, como e comprovado pelas pequenas quantidades de N mineral recuperado (Figura 6B). No entanto, cabe ressaltar que o metodo utilizado neste experimento nao da nenhuma informacao alguma relativa as taxas brutas de mineralizacao (Sorensen, 2001), pois quantifica apenas a quantidade liquida de N no solo nas datas amostradas. Os fluxos de N para formas gasosas (volatilizacao e desnitrificacao) e a retencao de N pela biomassa microbiana (imobilizacao de N) nao foram quantificados.

Nao houve diferenca entre as formas de aplicacao da cama de aves nem, tampouco, da ureia sobre as quantidades de N mineral recuperadas no decorrer do tempo, em todas as doses avaliadas (Figura 6B). Nao ocorreram aumentos crescentes na percentagem de N recuperado no decorrer da incubacao, como se supunha devido ao processo de mineralizacao, e os valores oscilaram dentro de uma faixa estreita de valores. O valor maximo de N recuperado ocorreu para todas as doses de cama de aves no 26[degrees] dia, sendo de 31, 22 e 19% para as doses de 4, 8 e 16 Mg [ha.sup.-], respectivamente. No ultimo dia avaliado a recuperacao de N diminuiu com o aumento da quantidade de cama de aves e passou de 22 para 15,7% quando a dose aumentou de 4 para 16 Mg [ha.sup.-].

Esses resultados de mineralizacao liquida diferem daqueles relatados na maioria das pesquisas. Agehara & Warncke (2005) encontraram duas fases durante a incubacao: uma de rapida mineralizacao do N organico, nas duas primeiras semanas, seguida de uma fase lenta com pequena taxa de acrescimo; do mesmo modo, Gordillo & Cabrera (1997) encontraram mineralizacao liquida do N organico de ate 59% no final da primeira semana e recuperacoes de 36 a 78% do N aplicado ao termino de 146 dias.

A quantidade de N mineral recuperado no solo (N-N[H.sub.4.sup.+] + N-N[O.sub.3.sup.-]) relativo a fracao do N soluvel em agua aplicado pelos fertilizantes foi maior no tratamento com ureia comparativamente a cama de aves (Figura 6A). O N soluvel em agua presente na cama de aves (N-mineral + N-organico soluvel em [H.sub.2]O), que correspondia a 34,0% do N total aplicado, nao foi recuperado em sua plenitude, diferentemente da ureia, em que a recuperacao foi total, desde a primeira avaliacao (2 dias). O valor maximo de N recuperado da fracao soluvel em [H.sub.2]O aplicada pela cama de aves foi de 77% (dose 4 Mg [ha.sup.-]). Quando os teores de N que ja se encontravam na cama de aves na forma mineral (9,4% do N total) antes da aplicacao foram subtraidos dos valores de N recuperado no solo, verificouse que o valor maximo da fracao organica soluvel em agua recuperado foi de 42%. Esses valores diferem dos obtidos por Qafoku et al. (2001), que realizaram um experimento de incubacao com 60 amostras de cama de aves objetivando correlacionar o N-organico soluvel em agua (N-total soluvel em agua--N-mineral) com o N potencialmente mineralizavel no solo. Os autores encontraram uma faixa de recuperacao do N organico total aplicado (N-organico soluvel em agua + N-organico insoluvel) de 24,5 a 78,6%, e do N total na materia seca (N-mineral + N-organico) de 44 a 75% e tambem verificaram que o N-organico soluvel em agua foi bom indicador do N potencialmente mineralizavel em curto prazo cuja fracao correspondeu, em media, a um acrescimo de 30% daquele que ja se encontrava soluvel.

E provavel que a pequena taxa de mineralizacao encontrada em nosso estudo esteja relacionada ao manejo atribuido a amostra de cama antes de sua utilizacao no experimento, uma vez que ela ficou armazenada dentro de sacos de rafia por quatro meses, alem de ter sido secada previamente em estufa (65 [degrees]C), que acentua as perdas de N por volatilizacao de amonia. Segundo Hartz et al. (2000), a diminuicao do processo de mineralizacao de N ao longo do tempo pode estar relacionada a estabilizacao dos compostos nitrogenados em formas de dificil mineralizacao. Desta maneira, durante a armazenagem, os compostos organicos mais facilmente decomponiveis podem ter sido utilizados e modificados pela populacao microbiana, restando compostos organicos com alto indice de recalcitrancia (Marques, 2005). Por outro lado, verifica-se que neste experimento sequer foi recuperada a totalidade do N soluvel em agua aplicado pela cama de aves. Presume-se, com isto, que perdas de N pelo processo de desnitrificacao e indisponibilizacao temporaria de N pela imobilizacao microbiana tambem tenham ocorrido. As perdas de N por volatilizacao de amonia tambem podem ter ocorrido, principalmente na cama aplicada na superficie do solo (Sharpe et al., 2004); entretanto, mesmo quando a cama foi incorporada ao solo, em que as perdas por esta forma sao minimas, nao ocorreram aumentos significativos na quantidade de N recuperada.

Os resultados deste estudo sugerem, em funcao das baixas percentagens de N recuperado do total aplicado pela cama de aves, que o indice 0,5 (50% do N da cama disponibilizada no primeiro cultivo utilizado pela CQFS (2004) pode estar superestimando a disponibilidade de N para as culturas no cultivo subsequente a aplicacao do residuo. Essas informacoes sao corroboradas por Fioreze et al. (2012), que aos 56 dias de incubacao de cama de aves com solos de diferentes texturas do Rio Grande do Sul encontraram percentagem do N total aplicado na forma mineral de 29, 25 e 19% para solos com 238, 470 e 605 g [kg.sup.-1] argila, respectivamente. Porem, e interessante a realizacao de novos experimentos em diferentes condicoes de solo e com outros tipos de cama, para verificar se os resultados foram devidos a caracteristicas peculiares do experimento ou de ocorrencia generalizada em nossas condicoes de clima e solo, uma vez que experimentos deste tipo sao raros nas condicoes brasileiras.

CONCLUSOES

1. A taxa de nitrificacao do N da cama de aves foi maior para o residuo incorporado ao solo relativamente ao aplicado sobre a superficie; no entanto, independentemente da forma de aplicacao, entre duas e tres semanas apos a aplicacao ao solo mais da metade do N mineral recuperado foi nitrato.

2. A mineralizacao liquida do N organico da cama de aves foi baixa, independentemente da forma de aplicacao ao solo indicando que pequenas quantidades de N se tornam disponiveis nos periodos iniciais subsequentes a adicao ao solo.

3. O N contido na ureia foi rapidamente hidrolisado pois ja no segundo dia apos a adicao do fertilizante ao solo 97% do N aplicado foram recuperados na forma mineral.

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1807-1929/agriambi.v19n6p534-540

LITERATURA CITADA

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Douglas A. Rogeri (2), Paulo R. Ernani (3), Kesia S. Lourenco (4), Paulo C. Cassol (3) & Luciano C. Gatiboni (3)

(1) O artigo e parte da dissertacao de Mestrado do primeiro autor apresentada a Universidade Estadual de Santa Catarina

(2) FAI Faculdades. Itapiranga, SC. E-mail: douglasrogeri@hotmail.com

(3) Departamento de Solos/Universidade Estadual de Santa Catarina. Lages, SC. E-mail: paulorobertoernani@gmail.com (Autor correspondente); paulo.cassol@udesc.br; lgatiboni@gmail.com

(4) Programa de Pos-Graduacao em Agricultura Tropical e Subtropical/Instituto Agronomico de Campinas. Campinas, SP. E- mail: slkesia@hotmail.com

Protocolo 064-2014--26/02/2014 * Aprovado em 26/12/2014 * Publicado em 04/05/2015
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Rogeri, Douglas A.; Ernani, Paulo R.; Lourenco, Kesia S.; Cassol, Paulo C.; Gatiboni, Luciano C.
Publication:Revista Brasileira de Engenharia Agricola e Ambiental
Date:Jun 1, 2015
Words:4981
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