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Microbiological monitoring of underground waters in cities of the Extreme West of Santa Catarina State/ Monitoramento microbiologico de aguas subterraneas em cidades do Extremo Oeste de Santa Catarina.

Introducao

A agua potavel nao esta disponivel igualmente para todas as pessoas em muitas sociedades; um quinto da populacao mundial (1,1 bilhao de pessoas) nao possui acesso a ela (1). Em paises desenvolvidos, as politicas sanitarias conseguem atender uniformemente as necessidades das suas populacoes, por meio de sistemas coletivos de distribuicao, levando agua potavel para todos. Apesar de no Brasil estar localizado 15% da agua doce existente no planeta, ou seja, 17 trilhoes de m (3) (2), parcelas significativas de sua populacao tem acesso precario a agua de boa qualidade (3).

A ONU, em relatorio do desenvolvimento humano, do ano de 2006 (4), cita, ainda, que 40% da populacao mundial nao dispoem de condicoes sanitarias basicas. Tendo em vista a falta de saneamento basico, pode-se dizer que essa parcela da populacao e uma fonte de contaminacao para os recursos hidricos, principalmente devido ao despejo direto de seus residuos sobre fontes de aguas superficiais.

A agua para o consumo pode ser obtida de diversas fontes. Uma delas e os mananciais subterraneos; esse e um recurso utilizado por uma ampla parte da populacao brasileira. Essas fontes podem ser de aguas profundas (aquiferos) ou pocos tradicionais com profundidades menores e com maior risco de contaminacao (5). As aguas subterraneas sao consideradas mundialmente uma fonte imprescindivel de abastecimento de agua para o consumo humano, para aquela populacao que nao tem acesso a rede publica de abastecimento e aquelas que tem um abastecimento, mas que nao e regular (6).

A poluicao das aguas e indicativo de que esta nao esta sendo utilizada corretamente e que ha descaso quanto aos cuidados necessarios (2). As fontes de contaminacao podem ser diversas: despejos domesticos, industriais, animais e chorumes oriundos de aterros sanitarios. Como exemplo, Turama (AM), onde esse escorre livremente contaminando o rio e tambem penetrando no lencol freatico (7).

Na agricultura, os residuos de agrotoxicos e de dejetos animais usados como fertilizantes sao carreados pelas aguas das chuvas ate os rios, o que alem do assoreamento tambem causa eutrofizacao, tornando essas fontes improprias, ate mesmo para lazer e dessedentacao animal (2).

Ja nas areas urbanas, a contaminacao das aguas subterraneas e tambem superficiais, por microrganismos patogenicos, parasitas, substancias organicas e inorganicas, esta relacionada ao destino final do esgoto domestico, industrial e postos de combustiveis e de lavagem (5). A maioria das grandes cidades nao alcanca 50% de tratamento dos seus residuos e o pais tem menos de 10% de municipios que tratam alguma parte de seus esgotos (8).

Em paises ricos, a poluicao das aguas deve-se a maneira como a sociedade consumista esta organizada para produzir e desfrutar de sua riqueza, progresso material e bem-estar. Em paises subdesenvolvidos, a poluicao e resultado da pobreza e da ausencia de educacao de seus habitantes (2).

Os problemas decorrentes de tal situacao implicam a persistencia de enfermidades que poderiam ser prevenidas, caso houvesse um suprimento adequado de agua de boa qualidade, condicao indispensavel para saude dos individuos (3,9).

No Brasil, por exigencia legal, a agua natural para consumo humano nao deve apresentar risco a saude do consumidor. Isso quer dizer que microrganismos patogenicos devem estar ausentes, especificamente, Escherichia coli e coliformes termotolerantes. Por se tratar de amostras unicas, coliformes totais nao sao tolerados (10).

Na regiao do Extremo Oeste de Santa Catarina, pocos comunitarios e particulares sao muito utilizados como fonte principal de captacao de agua, dita potavel. Neste aspecto, colocamos como objetivo principal avaliar a seguranca e o risco microbiologico desses pocos.

Metodologia

As amostras foram coletadas no periodo de janeiro de 2005 a dezembro de 2006, em diferentes municipios da regiao extremo oeste de Santa Catarina. Foram analisadas 149 amostras, divididas entre catorze municipios. Foram coletados volumes de no minimo 100ml, utilizando um recipiente esteril que, apos a coleta, era fechado imediatamente.

As amostras eram acondicionadas em embalagem refrigerada e levadas ao laboratorio em tempo diminuto. A contagem de coliformes termotolerantes foi realizada atraves da tecnica de numero mais provavel (NMP), preconizada pela American Public Health Association, descrita no Compendium of Methods for the Microbiological Examination of Foods (11).

O exame bacteriologico de coliformes foi realizado atraves do metodo da fermentacao em tubos multiplos, em serie de tres, que consiste em exame presuntivo, confirmativo e completo.

Para o teste presuntivo, foram distribuidas porcoes multiplas decimais de 1ml da amostra em tubos de ensaio contendo caldo lactosado (SYNTH) e tubos Durham invertidos, incubados em estufa bacteriologica a 35 +- 0,5 [degrees] C por 24 - 48 horas, onde foi observada a producao de gas, considerado resultado positivo.

A confirmacao de coliformes foi realizada a partir dos tubos com resultado positivo do teste anterior. Esse resultado foi repicado para caldo verde brilhante (ACUMEDIA), incubado a 37[degrees]C por ate 48 horas, onde se observou tambem a producao de gas. E, por ultimo, os tubos positivos foram passados para caldo EC (ACUMEDIA) e incubados por 24 mais ou menos 2 horas a 44,5[degrees][+ or -]0,2[degrees] C, e observou-se como resultado positivo a producao de gas.

Resultados

Os resultados apontam para uma grande contaminacao das aguas de pocos do extremo oeste catarinense. Foi observado durante o ano de 2005 uma contaminacao de 54,7% das amostras, mais da metade analisada (Grafico 1). Em 2006, os resultados continuaram a preocupar, mostrando um aumento no numero de amostras contaminadas, 56,7% (Grafico 2).

Discussao

Tendo em vista a grande contaminacao encontrada na regiao pesquisada, observou-se que esses dados corroboram com o que Chagas et al. (12) afirmaram: que nao seria possivel pensar na elevacao dos padroes de vida de uma populacao sem vincular a esse fato o fornecimento de agua enquan to suficiente e de boa qualidade. Era visto que, com a explosao demografica e a industrializacao, os principais problemas seriam a falta de agua e, mais complexo ainda, a sua contaminacao.

Sardiglia et al. (13), em pesquisa realizada na mesma regiao desse trabalho, observaram dados semelhantes: averiguaram que 70% das suas amostras estavam contaminadas por coliformes termotolerantes, e desses, aproximadamente, 50% situavam-se no meio rural.

Freitas et al. (6) observaram, em pesquisa realizada em pocos no Parque Fluminense e no Corumba (RJ), contaminacao com altos indices de impotabilidade. O encontrado por eles confirma que a extensao do problema nao e so regional, mas toma proporcoes nacionais. Nas amostras do parque fluminense, do periodo de 1996 a 1998, 55,5% apresentaram presenca de coliformes termotolerantes. Enquanto que, no Corumba, 62% das amostras analisadas apresentavam-se improprias para o consumo humano devido a contaminacao por coliformes termotolerantes.

Em Lavras (MG), o quadro de contaminacao se repete. Barcelos et al. (14) observaram o NMP de coliformes termotolerantes em pocos rasos, minas e superficiais e tiveram como resultado contaminacao na maioria das analises. Os pesquisadores ainda observaram que ha um grande desconhecimento e despreparo em relacao as praticas higienicos-sanitarias quanto a destinacao do lixo, agua servida, objetos e embalagens utilizadas e, o mais preocupante, o descaso com a qualidade da agua a ser consumida.

Outro estudo feito visando avaliar a qualidade da agua para consumo humano foi realizado em Feira de Santana (BA). As amostras coletadas eram de origem subterranea e utilizadas para abastecimento em duas areas dessa cidade. Os resultados por eles obtidos corroboram com os nossos, pois a grande maioria (90,8%) das amostras se mostrava contaminadas por termotolerantes (5).

Amaral et al. (15) observaram a partir dos seus resultados que a agua utilizada nas trinta propriedades rurais, situadas na regiao Nordeste do Estado de Sao Paulo, pode ser considerada um fator de risco a saude dos seres humanos que a utilizam. Ele acredita que o desenvolvimento de um trabalho de educacao sanitaria para a populacao do meio rural, a adocao de medidas preventivas visando a preservacao das fontes de agua e o tratamento das aguas ja comprometidas, aliados as tecnicas de tratamento de dejetos, sao as ferramentas necessarias para diminuir ao maximo o risco de ocorrencia de enfermidades de veiculacao hidrica.

Outro grande problema relacionado a contaminacao da agua e o desenvolvimento de resistencia multipla a antibioticos pelos microrganismos. Hardwood et al. (16), em tentativa de discri minar a fonte da contaminacao fecal em aguas superficiais, observaram que, alem da contaminacao por patogenos, os microorganismos estao desenvolvendo resistencia aos antimicrobianos mais utilizados pela populacao, chegando a conclusao de que, quando a contaminacao tem origem humana, os microrganismos isolados apresentavam resistencia a ampicilina, amoxacilina e cefalotin.

No presente estudo, foram obtidos resultados alarmantes quanto a contaminacao hidrica do extremo oeste de Santa Catarina. Esses exibem fatores preocupantes, que sao de saude publica, nos municipios pesquisados, pois a agua desses pocos e utilizada no consumo humano e sem tratamento. Revelam tambem o descaso com os cuidados de preservacao da natureza, agua de pocos, rios, fontes entre outros.

Como sugestoes, para uma conscientizacao da populacao, a promocao de palestras comunitarias, cursos de extensao, enfatizando como sao importantes os cuidados basicos de destinacao de lixo e aguas residuais.

Colaboradores

F Rohden trabalhou na concepcao e pratica da pesquisa, metodologia e redacao final. EM Rossi e D Scapin trabalharam na pratica da pesquisa e metodologia. FB da Cunha trabalhou na concepcao e na orientacao da metodologia. CU Sardiglia trabalhou na concepcao, na orientacao da pratica e metodologia e redacao final.

Referencias

(1.) Organizacao das Nacoes Unidas. Agua para consumo humano. Relatorio do desenvolvimento humano 2006. Capitulo 2. Nova York: ONU; 2006.

(2.) Zampieron SLM, Vieira JLA. Poluicao da agua. [acessado 2007 fev 26]. Disponivel em: http:// educar.sc.usp .br/biologia/textos/m_a_txt5.html

(3.) Pontes CAA, Schramm FR. Bioetica da protecao e papel do Estado: problemas morais no acesso desigual a agua potavel. Cad Saude Publica 2004; 20(5):1319-1327.

(4.) Organizacao das Nacoes Unidas. O grande deficit de saneamento. Relatorio do Desenvolvimento humano 2006. Capitulo 5. Nova York: ONU; 2006.

(5.) Silva RCA, AraujoTM. Qualidade da agua do manancial subterraneo em areas urbanas de Feira de Santana (BA). Cien Saude Colet 2003; 8(4):1010-1028.

(6.) Freitas MB, Brilhante OM, Almeida LM. Importancia da analise de agua para a saude publica em duas regioes do Estado do Rio de Janeiro: enfoque para coliformes fecais, nitrato e aluminio. Cad Sau de Publica 2001; 17(3):651-660.

(7.) Santos IN, Horbe AMC, Silva MSR, Miranda SA. Influencia de um aterro sanitario e de efluentes domesticos nas aguas superficiais do Rio Taruma e afluentes - AM. Acta Amazonica 2006; 36(2):229-236.

(8.) Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica. Pesquisa nacional de saneamento basico 2000. [acessado 2008 set 2]. Disponivel em: http://www.ibge.gov.br/ home/estatistica/populacao/condicaodevida/pnsb/ pnsb.pdf

(9.) Hagedorn C, Robinson SL, Filtz JR, Grubbs SM, Angier TA, Reneau RB Jr. Determining Sources of Fecal Pollution in a Rural Virginia Watershed with Antibiotic Resistance Patterns in Fecal Streptococci. ApplEnviron Microbiol. 1999; 65(12):5522-5531.

(10.) Brasil. Ministerio da Saude. Portaria n[degrees] 518 de 25 de marco de 2004. Estabelece os procedimentos e responsabilidades relativos ao controle e vigilancia da qualidade da agua para consumo humano e seu padrao de potabilidade, e da outras providencias. Diario Oficial da Uniao 2004; 26 mar.

(11.) American Public Health Association. Compendium of methods for the microbiological examination of foods. 4th ed. Washington, D.C.: American Public Health Association; 2001.

(12.) Chagas SD, Iaria ST, Carvalho JPP. Bacterias indicadoras de poluicao fecal em aguas de irrigacao de hortas que abastecem o municipio de Natal - Estado do Rio Grande do Norte (Brasil). Rev. Saude Publica 1981; 15:629-642.

(13.) Sardiglia C, Cunha FB, Rossi EM, Fetter K, Rohden F, Scapin D. Qualidade Microbiologica das Aguas Subterraneas na Regiao do Extremo Oeste Catarinense. In: Anais III Encontro Regional de Profissionais de Historia e Geografia; 2006; Sao Miguel do Oeste.

(14.) Rocha CMBM, Rodrigues LS, Costa CC, Oliveira PR, Silva IJ, Jesus EFM, Rolim RG. Avaliacao da qualidade da agua e percepcao higienico-sanitaria na area rural de Lavras, Minas Gerais, Brasil, 19992000. CadSaude Publica 2006; 22(9):1967-1978.

(15.) Amaral LA, Nader Filho A, Rossi Junior OD, Ferreira FLA, Barros LSS. Agua de consumo humano como fator de risco a saude em propriedades rurais. Rev. Saude Publica 2003; 37(4):510-514.

(16.) Harwood VJ, Whitlock J, Withington V. Classification of Antibiotic Resistance Patterns of Indicator Bacteria by Discriminant Analysis: Use in Predicting the Source of Fecal Contamination in Subtropical Waters. Appl Environ Microbiol. 2000; 66(9): 3698-3704.

Artigo apresentado em 17/10/2007

Aprovado em 19/08/08

Versao final apresentada em 29/10/2008

Francieli Rohden [1] Eliandra Mirlei Rossi [2] Diane Scapin [2] Fernanda Beron da Cunha [2] Cassius Ugarte Sardiglia [2]

[1] Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rua Ramiro Barcelos 2600/anexo, Bairro Santa Cecilia. 90035-003 Porto Alegre RS. francieli.rohden@bol.com.br

[2] Laboratorio de Pesquisa e Diagnostico em Microbiologia, Universidade do Oeste de Santa Catarina.
Grafico 1. Contaminacao da agua, observada na
regiao durante o ano de 2005.

Contaminacao em 2005

Propria     45,50%

Impropria   54,70%

Note: Table made from bar graph

Grafico 2. Contaminacao da agua, observada na regiao
durante o ano de 2006.

Contaminacao em 2006

Propria     43,30%

Impropria   56,70%

Note: Table made from bar graph.
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Title Annotation:ARTIGO ARTICLE
Author:Rohden, Francieli; Rossi, Eliandra Mirlei; Scapin, Diane; Cunha, Fernanda Beron da; Sardiglia, Cassi
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Article Type:Report
Date:Dec 1, 2009
Words:2174
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