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Metodo utopico, viagem cientifica: como descobrir uma ciencia utopica do social?/Utopian method, scientific journey: how to discover a Utopian science of the social?

Nao havia nenhuma felicidade a esperar de todas as luzes adquiridas;
era preciso procurar o bem social em alguma nova ciencia, e abrir novas
rotas ao genio politico. (Charles Fourier em 1808)


Uma ciencia utopica do social?

A pergunta que circunscreve as balizas e os termos do que este texto analisa e a seguinte: seria possivel pensarmos as condicoes de possibilidade de uma "ciencia utopica" dos fenomenos sociais? Essa pergunta nao diz respeito a uma ideia de ciencia sobre as utopias, ou seja, de uma forma de conhecimento que assuma a utopia como "objeto". Isso ja esta bem consolidado no interior de diferentes modalidades de conhecimento que compreendem esse dado a luz de sua historicidade. Desde meados do seculo XIX, essa perspectiva ganha corpo, notadamente, em autores como Marx e Engels, ja no Manifesto Comunista [2010] de 1848; Durkheim, em O socialismo [2016], compilacao de cursos ministrados entre 1895-96; ou com o menos conhecido Pierre Leroux, cuja "Carta ao Doutor Deville" [2000], de 1858, expoe uma introducao a historia do socialismo. Malgrado diferentes ambicoes teoricas e metodologicas, sobressai, nesses autores, uma fina interpretacao sobre as interlocucoes entre ciencia e utopia na aurora do socialismo e das ciencias sociais, notadamente em autores como Charles Fourier (1772-1837), Robert Owen (1771-1858) ou Saint-Simon (1760-1825), que escreveram o principal de suas obras nas tres primeiras decadas do seculo XIX. Essa perspectiva historicista, embora com diferentes modulacoes, ainda reverbera nas ciencias humanas. Que se recorde, a titulo de exemplo, abordagens diferenciadas como a sociologia historica dos tipos-ideias em Ideologia e Utopia (1986), de Mannheim, o capitulo sobre a "utopia" na historia dos conceitos de Koselleck, publicado no Brasil em Estratos do tempo (2014) ou o capitulo de Hobsbawm (1980) sobre a utopia pre-marxiana na historia do marxismo por ele projetada.

Este texto tambem se movimenta no campo da historicidade dos conceitos de ciencia e utopia, embora module sua questao a partir de um ponto de vista bem especifico: quando se diz, aqui, uma ciencia utopica dos fenomenos sociais--e quando se evocam, tenuamente, ecos kantianos sobre suas "condicoes de possibilidade", pretende-se abordar a utopia nao como objeto de conhecimento de diferentes modalidades historiograficas ou sociologicas, mas como forma de inteligibilidade do mundo passivel de se reconciliar com uma modalidade de conhecimento fundado sobre a verificacao experimental. Em outros termos, pode-se refazer a pergunta inicial do texto desta maneira: a analise positiva ou cientifica de fatos sociais e a antecipacao imaginativa ou utopica daquilo que ainda nao foi objeto de cognicao seriam inconciliaveis? Uma razao teoricamente orientada e uma imaginacao utopicamente constituida seriam faculdades excludentes? O que significaria, nessa segunda decada do seculo XXI, repensar a historicidade de uma intencao para o utopico no seio do proprio conhecimento cientifico? O que significa pensar as condicoes de possibilidade de uma ciencia que conheceria coisas para as quais nao existiriam experiencias ou dados empiricos adequados? Poderia ser chamada de ciencia essa singular forma de conhecimento?

Talvez essas questoes soem um pouco absurdas num contexto em que as utopias parecem rebaixadas em suas pretensoes imaginativas sobre outros mundos possiveis; em que o conhecimento cientifico ainda preserva seu veto as pretensoes de uma imaginacao nao subsumida as categorias do entendimento, veto que relega a faculdade de pensar por imagens e de configurar sentidos para alem de verificacoes empiricas ao campo da filosofia, da ficcao ou a recurso instrumental, as vezes apenas ornamental, na configuracao de narrativas cientificas. Ciencia e utopia dizem respeito, de fato, a uma dicotomia aparentemente irreconciliavel enquanto modalidades de conhecimento ou de interpretacao do mundo. E, nao poucas vezes, quando se buscou problematizar essa dicotomia, a tentativa nem sempre foi bem recebida.

O filosofo Martin Buber (2005), por exemplo, ousou propor isso, em 1928, num simposio de delegados socialistas animados pela versao ortodoxa do materialismo historico, que havia qualificado a utopia como quimera pre-cientifica, socialistas cientificos irmanados, curiosamente, com a ortodoxia positivista de Comte e de seus discipulos, cujo ideario tambem havia proscrito as utopias como forma possivel de pensamento e de conhecimento da realidade. Disse Buber (2005, p. 16-17) nesse encontro: "Nao se deve rotular de utopico aquilo em que ainda nao pusemos nossa forca a prova". Continua o autor: "Isso nao me impediu de ser alvo de uma observacao critica por parte do presidente [do simposio] que, simplesmente, classificoume entre os utopistas, encerrando, com isso, o assunto". Nao foi a primeira vez, nem seria a ultima, em que chamar alguem de utopista seria apenas uma maneira polida de encerrar o assunto.

Para nao encerrar o assunto sobre essa questao, este texto propoe, entao, abordar esse problema por um caminho especifico. Trata-se de examinar o momento historico em que o encontro entre imaginacao utopica e conhecimento cientifico foi nao apenas pensado como exercitado com pleno vigor, em que nao apenas uma ciencia social nascente se revestiu de intencoes utopicas, como tambem ambicoes cientificas se revestiram com a imaginacao de outros mundos possiveis. Mas, se esse exame poderia nos levar longe na historia--afinal utopia e ciencia tem importancia decisiva desde, ao menos, a Nova Atlantida de Francis Bacon, este texto dara um salto no tempo, para quase 300 anos depois da publicacao dessa obra especifica. Como sugerido anteriormente, foi no inicio do seculo XIX que um singular encontro entre uma nova ciencia positiva dos fenomenos sociais e a imaginacao utopica de uma alteridade radical foi pensado e, de certo modo, realizado por autores como Saint-Simon, Charles Fourier e Robert Owen.

Esses tres autores publicaram suas primeiras obras realmente importantes num curto espaco de 11 anos: em 1802, sai a Carta de Genebra de Saint-Simon; em 1808, Fourier publica o livro Teoria dos quatro movimentos; em 1814, Owen finaliza o opusculo Nova visao da sociedade, publicado dois anos depois. (1) Essas obras constituem o centro de analise deste texto. Com elas, talvez seja possivel apreender nao apenas as razoes de uma veia utopica na ciencia social nascente como tambem o vies imaginativamente cientifico de novas utopias sociais. Quando pouco, uma abordagem atenta a historicidade tanto das ciencias sociais nascentes como das utopias permite que se perceba, nos proprios criterios de cientificidade do inicio do XIX, intencionalidades utopicas.

Seria essa, porem, uma historia de coisas mortas? Ou ainda e possivel, com esses autores, reabrir a questao sobre as condicoes de possibilidade de uma ciencia imaginativa dos fenomenos sociais? Faria sentido, ainda hoje, articular projeto de conhecimento com um excedente utopico? Se essas questoes soam um pouco anacronicas, talvez se possa minimizar esse sentimento a luz de outras, retomadas, ainda que em novo contexto, do verbete "ciencia", escrito por Antoine Picon (2002, p. 207) para o Dicionario das utopias. Afinal, realmente faria sentido, lembra Picon, separar a ciencia moderna do campo da acao transformadora? Transformar a vida e a sociedade nao esta na base das modernas ciencias exatas e naturais, que de diferentes modos pretendem contribuir para o progresso da sociedade? E esse principio ativo tambem nao percorre ciencias humanas como a economia, a geografia, a sociologia e, por que nao, a propria historia? Diante dessas questoes, seria assim tao anacronico perguntar, ainda hoje, pela veia utopica de enunciados cientificos?

Este texto retoma essas questoes, nao para responde-las de maneira inequivoca, nem mesmo como pano de fundo para uma pretensiosa rearticulacao normativa entre ciencia social e imaginario utopico. Porem, mesmo concentrado naquele inicio do XIX, quando uma particular articulacao entre ciencia e utopia se desenhou nas obras de Saint-Simon, Owen e Fourier, nao se quer, aqui, fazer apenas uma historia de coisas mortas. Se o espirito que anima este texto e o de compreender, na aurora das ciencias sociais, as motivacoes e pressupostos de um vies utopico em enunciados cientificos, e porque sua nao compreensao pode deixar a ciencia social nascente prisioneira de enunciados ou tecnologias sociais verdadeiramente distopicos. Esse dilema esteve presente em autores como Saint-Simon, Owen e Fourier, mas estaria circunscrito, apenas, aquele inicio do XIX?

Socialismo, utopias e ciencia

Saint-Simon, Owen e Fourier sao classicos de um curioso canone, constituido, notadamente, a partir do forte impacto e difusao que o Manifesto Comunista teve desde 1848. Mais conhecidos do que propriamente lidos, tudo se passa como se o Manifesto e, mais tarde, o opusculo de Engels Do socialismo utopico ao socialismo cientifico (1a edicao de 1880) configurassem, para tal canone, um resumo adequado que tornasse prescindivel a leitura dos originais. De resto, ao menos dois eixos interpretativos, presentes nesses dois textos, passaram a definir boa parte da recepcao daqueles tres classicos do inicio do XIX, e nao necessariamente no interior da literatura marxiana.

O primeiro eixo reconhece Saint-Simon, Owen e Fourier como "predecessores". Autores revolucionarios, segundo a descricao de Marx e Engels (2010, p. 67), suas obras nao teriam rompido as condicionantes que a propria epoca lhes impunha. Embora inovassem na percepcao e interpretacao de uma nova forca historica com perspectiva universal--a industria moderna e sua capacidade de transformar vinculos societarios e formas de vida tradicionais--, um industrialismo ainda incipiente e conflitos de classe ainda nao inteiramente constituidos limitaram a identificacao e a compreensao de outra forca historica universal: o proletariado moderno como nova forca revolucionaria, como ator para a instauracao de um novo Estado ou de uma nova sociedade. Suas teorias, enraizadas nos fatos politicos e economicos da epoca, ainda se ligavam a ideias pre-existentes, notadamente ao materialismo dos enciclopedistas franceses em seus ensejos de justificar o "imperio da razao". Nesse sentido, faltava apenas que homens novos revelassem o caminho a seguir, e esses homens, resume Engels (1981, p. 63) no opusculo de 1880, "surgiram nos primeiros anos do seculo XIX."

Suas praticas e teorias, continua o autor, embora predecessoras do socialismo, ainda refletiam o estado incipiente da producao capitalista, ou seja, eram incapazes de apreender conflitos entre as classes geradas pela propria industria moderna, entre a nova forca produtiva e as novas relacoes sociais de producao. Se os tres autores eram dotados de intuicoes geniais --por exemplo, a intuicao de um novo conceito de classe social por Saint-Simon, que repensa vinculos societarios nao pelo conceito tradicional de ordens hierarquicas, mas pelo papel que os individuos cumprem na esteira da producao industrial--, enfim, embora dotados de "germes geniais de ideias" (ENGELS 1981, p. 65), buscavam implementa-las pela propaganda e pelo exemplo, como na experiencia cooperativa de Owen na industria textil de New Lanark, cuja direcao assumiu em 1800. Por isso, "esses sistemas sociais nasciam condenados a moverse no reino das utopias; quanto mais detalhados e minuciosos fossem, mais tinham que degenerar-se em puras fantasias" (ENGELS 1981, p. 65).

Enquanto o primeiro eixo de interpretacao dos tres autores diz respeito, pois, ao reconhecimento de "predecessores" (do socialismo, mas tambem se pode acrescentar: da propria ciencia sociologica, especialmente Saint-Simon, segundo Durkheim em Do socialismo), o segundo eixo, em boa medida complementar, diz respeito a inclusao desse canone nos quadros dos utopistas (como tambem ocorre no livro de Durkheim). O mais importante desse segundo eixo, porem, e que a inclusao dos tres autores na tradicao utopica e a critica dai decorrente sao feitas no opusculo de Engels do ponto de vista da elaboracao do materialismo historico e do proprio socialismo como ciencia (tambem Durkheim os analisara, com destaque para Saint-Simon, do ponto de vista da cientificidade da sociologia): "a concepcao materialista da historia e a revelacao do segredo da producao capitalista atraves da mais-valia--nos as devemos a Karl Marx. Gracas a elas, o materialismo converte-se em uma ciencia, que so nos resta desenvolver em todos os seus detalhes e concatenacoes" (ENGELS 1981, p. 94). Conhecer as leis da producao moderna e da sociedade de classes para controlar e intervir em seu curso, assim como o cientista natural conhece as leis da natureza para controlar e refazer seus processos, tal e o proposito de Engels nesse final do XIX. Qualificar uma obra de utopica e sua estrategia para retira-la do campo cientifico. E uma irredutivel diferenca entre utopia e ciencia que estava sendo, pois, constituida.

Um excesso humanamente utopico

Se o opusculo de Engels e testemunho inequivoco da constituicao de uma diferenca entre ciencia e utopia, e e esse o ponto de vista que orienta seu recurso neste texto, a operacao que separa esses campos a partir da critica aos "predecessores" nao foi algo isolado no processo de constituicao das ciencias humanas ou sociais ao longo do XIX (como testemunha a obra durkheimiana). Mais ainda, essa operacao, na segunda metade do XIX, em boa medida refez polemicas ocorridas no interior mesmo dos "socialistas utopicos". Pierre Merckle (2001, p. 142-168), em sua tese de doutorado intitulada Socialismo, utopia ou ciencia?, chama atencao para um opusculo de Charles Fourier (de 1831) no qual ele proprio critica Saint-Simon e Owen como utopistas, ou seja, como incapazes de pensarem um novo sistema social adequado a natureza do homem. Antes de percorrer o argumento e a conceituacao de Fourier, interessa perceber, de inicio, que sua inclusao no canone dos utopistas por autores como Engels ou Durkheim foi feita a sua revelia, uma vez que ele proprio tambem opera uma nitida dicotomia entre utopia e ciencia com o intuito de justificar sua obra no interior de uma nova ciencia da sociedade. Como visto antes no episodio relativo ao filosofo Martin Buber, num contexto de disputas sobre os criterios mais legitimos de cientificidade, utopista e sempre o outro.

O titulo do texto de Fourier nao faz concessoes: "Armadilhas e charlatanismo de suas seitas: Saint-Simon e Owen, que prometem a associacao e o progresso". A epigrafe, retirada dos Evangelhos, talvez faca justica a Engels quando reconhece em Fourier um dos grandes ironistas do XIX: "sao cegos que conduzem cegos" (1831, p. 06). E o primeiro paragrafo ja enuncia o tom de imprecacao que se repetira ao longo do texto: "O espirito da associacao, o progresso da associacao!!! tal e hoje em dia o refrao de todos os sofistas. (...) Com o que se ocupa o mundo dos sabios, se ele negligencia toda pesquisa sobre a mais importante das ciencias?" (FOURIER 1831, p. 07). Carentes dos protocolos de uma ciencia experimental, ambos nao saberiam fazer uma associacao. Prova disso seriam tanto o fracasso da experimentacao pratica de Owen, entre 1824-29, nos Estados Unidos (a colonia de New Harmony, em Indiana, que pretendeu constituir como exemplo associativo), como o charlatanismo profetico de Saint-Simon, a comecar pela Carta de um habitante de Genebra, investida por um tom de revelacao ("na noite anterior eu ouvi estas palavras...") carente de demonstracao. Dotada de um saber sobre como as coisas sao feitas, a ciencia deve se distinguir das "utopias filantropicas" (FOURIER 1831, p. 14), mais proximas de seitas destituidas de saber objetivo e dos meios de execucao para associar os homens.

Qual um novo Colombo (FOURIER 1831, p. 14), Fourier pretende se emancipar das cadeias da tradicao e engajar seus leitores em rotas diferentes e desconhecidas, ou seja, no rumo de uma ciencia ainda inexplorada: uma ciencia social como verdadeira arte da associacao para um novo mundo, o qual consolidava a moderna industria como forca historica nova e universal. Entretanto, nao deixa de ser sugestivo que sua critica as utopias mobilize um personagem--Colombo--que, desde a obra fundadora de Thomas More, constitui um topos classico, como imagem pletora de sentidos do imaginario utopico: o da viagem rumo a um novo mundo. Ou talvez a sugestao desse topos tenha vindo da obra Astronomia nova (de 1609), de Johannes Kepler, um dos autores mais admirados por Fourier. Na aurora de uma nova interpretacao do movimento celeste segundo parametros mecanicistas, Kepler pede desculpas a seu leitor por seguir o mesmo exemplo de Colombo ou de outros navegantes portugueses, pois perder-se de rumos conhecidos seria condicao--Kepler fala: "metodo"--de novas descobertas (KEPLER apud ROSSI 2001, p. 27).

Algo sinuoso parece estar presente nesses jogos de identificacao em meio a descoberta de novos rumos para o conhecimento e de disputas sobre afirmacoes concorrentes de cientificidade, disputas que, como visto com Engels e apenas sugestivamente com Durkheim, se estenderiam pela segunda metade do XIX para determinar a inclusao deste ou daquele no campo das utopias--logo, sua exclusao do campo cientifico. Nesse sentido, talvez se possa seguir os caminhos daquele diagnostico de Engels, bem como o do proprio Fourier sobre Saint-Simon e Owen, como certeiros, embora desfazendo os propositos primeiros de ambos. Se criterios de cientificidade tem sua propria historia, a ideia de Engels de que utopistas como Fourier, Saint-Simon e Owen, ou apenas os dois ultimos para Fourier, constituiriam, na melhor das hipoteses, a infancia do pensamento cientifico, deve ser abordada nao como diagnostico inequivoco sobre as delimitacoes entre o que pode ser conhecido e o que pode ser apenas imaginado, mas como testemunhos de um campo agonistico sobre as correlacoes entre ciencia e de utopia (MERCKLE 2001, p. 168).

De resto, pode-se indagar: a leitura a contrapelo dos pressupostos teleologicos desse campo de disputas nao permitiria reconhecer a presenca de um excedente utopico em enunciados cientificos ou, quando pouco, nos proprios enunciados de fundacao sobre um novo continente para as ciencias? E como se a critica de Fourier a Saint-Simon e Owen, e mesmo a de Engels aos tres, fosse, ela propria, investida da forca de enunciacao de um novo continente para o conhecimento moderno que, porem, nao apaga a presenca desse excedente como sua propria condicao de possibilidade. Assim, mais do que separar inequivocamente os campos da ciencia e da utopia, a leitura daquele opusculo de 1831 nao permitiria perceber uma tessitura utopica percorrendo a ciencia social nascente? E o que ainda poderia ser encontrado se, antes de se ler esse tecido apenas como a infancia do verdadeiro pensamento cientifico, reconhecessemos uma forma de saber sobre os fatos sociais que, elaborada sobre as experiencias das revolucoes francesa e industrial, mereceria o nome de ciencia "se" (e nao "apesar de") dotada de um excesso humanamente utopico?

Conhecer e imaginar novos elos sociais

Transformar a natureza e mudar o homem, enquanto ambicoes presentes no exercicio das modernas ciencias experimentais, permitiram articular uma intencao para o utopico no ato de fundacao de um novo saber sobre os fenomenos sociais. No inicio do XIX, a ciencia social nascente trouxe aspiracoes potencialmente distopicas em seus sonhos de reorganizar a vida societaria. Porem, a descoberta da sociedade, vale dizer, de elos sociais cuja potencia seria capaz de submeter a propria economia e o Estado tambem fora fundamento, como lembra Polanyi (1980, capitulos 9-10) em A grande transformacao, de um ideal de cientificidade receptivo a imaginacao de modos de ser e existir para os quais as categorias da tradicao nao seriam mais adequadas. Saidos das revolucoes francesa e industrial, Saint-Simon, Owen e Fourier rejeitam uma sociedade de tipo tradicional (uma concepcao organica e hierarquica de ordens) e passam a investigar o que poderia constituir uma nova arte da associacao humana para alem da imutabilidade da divisao entre dominantes e dominados (ABENSOUR 2000, p. 14). Esses autores diriam: trata-se agora de investigar as leis da atracao passional entre os homens como fundamento das potencias da sociedade, leis analogicamente semelhantes as da atracao gravitacional da astronomia moderna, que jogou por terra a concepcao de corpos em movimento segundo lugares naturalmente hierarquicos--por exemplo: entre corpos nobres ou celestes, mais proximos de Deus, e corpos baixos e terrenos, afastados da perfeicao divina (ROSSI 2001, p. 248).

Em outros termos, Saint-Simon, Owen e Fourier operam com um principio analogico entre mundo natural e mundo moral, uma verdadeira ciencia das analogias, que apenas uma leitura anacronica e teleologica sobre a ciencia, alheia a sua compreensao como fenomeno social dotado de historicidade, conforme lembra Pierre Merckle (2001, p. 168), descartaria

como criterio de cientificidade proprio a primeira metade do seculo XIX e condicao de possibilidade para um novo saber sobre a sociedade. O principio analogico fora uma tecnica de racionalizacao do pensamento, "uma maneira de dizer que o mundo social e inteligivel tanto quanto, porque da mesma maneira, o mundo fisico" (MERCKLE 2001, p. 236). De resto, essa tecnica pertencera a propria aurora da moderna revolucao cientifica, lembra Paolo Rossi (2001), quando analisa a "filosofia mecanica" em O nascimento da ciencia moderna na Europa. Mesmo Newton recorrera a metaforas e analogias para compreender fenomenos ainda nao observaveis, como o calor, o magnetismo etc., a luz dos fenomenos observaveis, como a astronomia planetaria e a mecanica terrestre. Passar do observavel ao nao observavel: "e tarefa da imaginacao conceber esse segundo dado como semelhante de alguma forma ao primeiro. A ciencia obriga os homens a imaginar" (ROSSI 2001, p. 241).

Conhecer e imaginar as potencialidades humanas para uma vida melhor: nao e isso que estaria em jogo naquele inicio do XIX, quando todos os dados, todas as possibilidades sobre um "novo mundo cientifico" em gestacao ainda estavam sendo lancados, ou seja, em que as configuracoes daquilo que, mais tarde, iria se consolidar em diferentes modalidades de ciencias altamente especializadas - as humanas ou sociais, como a sociologia, a historia, a antropologia, a economia politica etc. e as novas ciencias naturais como a biologia, a geologia historica etc., ainda eram potencialidades abertas, caminhos que se multiplicavam nas mais diferentes formas de experimentacoes e interlocucoes? Os autores aqui nomeados estao justamente nessa encruzilhada, quando adentram pela atividade cientifica num mundo em plena ebulicao, ou seja, sob o impacto de uma revolucao francesa, que ainda nao encerrara todas as suas consequencias, e sob a ebulicao de uma sociedade industrial nascente, que revirava as configuracoes economicas e sociais da Europa. Formulada em meio as tensoes de um nascente sistema industrial, de reconfiguracoes politicas e economicas que inventavam novas formas de exploracao ou servidao ao mesmo tempo em que descobriam novas energias produtivas e emancipatorias, a ciencia utopica de Saint-Simon, Fourier e Owen, a despeito de diferencas especificas, pretendia emular essa realidade. Eles nao queriam outra coisa para a nova ciencia em gestacao que nao fosse catalisar essa forca transformadora para reordenar todas as formas do conhecimento humano, intervir na realidade e construir um mundo melhor.

Walter Benjamin (1989), no livro das Passagens, se interessou pelos aspectos e personagens excentricos do XIX frances. Ele bem percebera o que estava em jogo, quando nota o aspecto utopico dessa ciencia dos fenomenos sociais, que, entao, buscava fundar seus pressupostos sobre esse mundo em ebulicao. O desenraizamento seria constitutivo da experiencia de vida da primeira geracao dos novos trabalhadores fabris e dos individuos que fizeram a prova da revolucao francesa e de suas consequencias. Cortados da tradicao historica, de modos ancestrais de reproducao da vida e de ordenacao politica ou comunitaria, essa geracao seria formada por amplo contingente de pessoas receptivas a novas concepcoes de mundo, caracterizado por um "Estado novo, uma economia nova, uma moral nova", que correspondesse a novidade da situacao em que se encontravam (MICHELS apud BENJAMIN 1989, p. 641; W 4A, 2).

Saint-Simon, Fourier e Owen, e certo, foram criticos dos destinos tanto da revolucao francesa, notadamente do jacobinismo, que outorgara ao Estado a tarefa de organizar a vida em comum, como da nova era industrial, que multiplicava a pobreza na mesma medida em que novas forcas produtivas revolucionavam o mundo da producao. Porem, tambem reconheceram na energia passional de homens receptivos ao novo uma capacidade inedita de constituir elos sociais que pudessem sujeitar, a potencialidades emancipatorias, o despotismo politico e a miseria economica. Os utopistas, especialmente Charles Fourier, como lembrava Walter Benjamin, seriam verdadeiros dialeticos, criticos das revolucoes modernas nao para nega-las, mas para realizar suas virtualidades: a emancipacao da servidao politica e da miseria economica.

Era, pois, a edificacao de uma nova ciencia da sociedade, fundada na descoberta de elos sociais afeitos a energia passional dos homens, que os tres autores teriam depositado suas energias teorica e pratica. Talvez por isso Benjamin (1989, p. 647; W 8, 1) abordasse um autor como Fourier, mas talvez se possa dizer o mesmo de Saint-Simon e Owen, nos quadros do "materialismo antropologico". Afeitos ao mecanicismo moderno e ao materialismo filosofico dos enciclopedistas, esses autores teriam articulado a ciencia dos fatos sociais e a imaginacao dos possiveis atraves da energia passional de homens desenraizados. Seria pela via da multiplicidade das paixoes humanas, e nao pelo seu controle ou sacrificio, que se poderia repensar, em meio a modos comunitarios destruidos pelo capitalismo industrial nascente, elos novos para os quais a tradicao nao forneceria modelos ou experiencias inteiramente adequadas. E nesse sentido que a ciencia social entao nascente--ou o materialismo antropologico de que fala Benjamin--poderia ser pensada como uma ciencia utopica dos elos sociais, critica e descritiva do tempo presente para, nele, desvelar as energias emancipatorias. Havia um ela prometeico na ciencia social nascente. E ele nao teria se separado, inteiramente, do horizonte de universalidade do moderno materialismo filosofico.

Uma nova ciencia para a nova era industrial

Mas isso tudo nao fez de todos eles autores de sistemas fechados de pensamento. Owen comeca sua reflexao social a partir da experimentacao pratica na industria textil de New Lanark, na Escocia, que assume em 1800. Essa empresa foi o primeiro laboratorio de sua utopia. E a compreensao pratica da industria como nova forca historica e o fundamento de uma teoria da associacao esbocada em A nova visao da sociedade, seu primeiro opusculo de importancia. Mas sua obra posterior tambem preserva as marcas dessa experimentacao inicial. Se ela presta tributos ao materialismo filosofico e ao utilitarismo moderno de Jeremy Benthan (ABENSOUR 2016, p. 111-137), tambem e orientada e reformulada a luz de aventuras praticas cujo feito mais notavel, apos New Lanark, fora a construcao daquela comunidade utopica nos Estados Unidos, a "New Harmony". Nova visao da sociedade, nova harmonia: por meio de obras e de exemplo praticos, da experiencia e da demonstracao, algo novo deveria nascer (POLANYI 1980, p. 121-136).

Saint-Simon tambem reconhece no "industrialismo" uma nova forca criativa da sociedade, cuja observacao, segundo os metodos das ciencias naturais, e o chao de uma "fisiologia social" que encontrara em Auguste Comte seu discipulo mais notorio (BENOIT 1999, capitulo 1). Mas a obra saint-simoniana tambem preserva as marcas da experimentacao, lembra Regnier (2002, p. 203-207). Entre um tratado sistematico nunca inteiramente realizado e uma profusao de "Cartas", "Apontamentos", "Memorias" e "Opusculos", ele redesenha a "ciencia do homem" via conceitos inovadores como o de "classe social", capaz de indicar os novos lugares ocupados pelos individuos nas novas relacoes sociais de producao da industria moderna. Como ja visto, esse conceito ganhou desdobramentos especificos tanto na literatura positivista como na marxista, sendo uma das razoes de seu reconhecimento, por Engels e Durkheim, como "precursor".

Fourier, por fim, tambem nao deixa de reconhecer na forca industrial nascente um dos principais elas para se pensar e desenvolver uma teoria sobre a atracao passional entre os homens. Esse Colombo de um novo continente para as ciencias do homem tambem pretendera ser um Newton do mundo moral, capaz de estender para o campo das relacoes humanas a lei da atracao das ciencias naturais. Foi assim que esposou o sonho--tambem presente em Owen e em Saint-Simon--de reordenar o mundo social a partir de uma combinacao das paixoes. Sua compreensao da natureza polimorfa, ou melhor, plastica das paixoes tambem e fonte de uma compreensao do humano tocado por um excedente nunca inteiramente estabilizado. Razao pela qual buscou fundar sua ciencia social a distancia absoluta de postulados tradicionais sobre ordens sociais fixas e hierarquicas. Em outros termos, sua Teoria dos quatro movimentos efetua uma conjuncao da dimensao epistemologica com a politica (ABENSOUR 2000, p. 07-22), por onde se insinua a intencao para o utopico como ciencia dos elos sociais "entre" os homens e "com" os homens, e nao "sobre".

Mas, se um sistema fechado de pensamento e dificil de identificar na trajetoria dos tres autores, Miguel Abensour, que se interessou pela intensa floracao utopica do seculo XIX, tem razao em destacar, nos marcos da desejada cientificidade, um projeto de ordenacao do mundo exposto a novas empresas de dominacao. O proprio Fourier anotara esse risco naquele opusculo de 1831. Sua critica a Saint-Simon e Owen, de certo modo, antecipa a critica de Marx e Engels, no Manifesto de 1848, aos discipulos que transformam a obra critica e as intuicoes geniais dos fundadores em seitas reacionarias: "se em muitos aspectos os fundadores desses sistemas foram revolucionarios, as seitas formadas por seus discipulos constituem sempre seitas reacionarias" (MARX e ENGELS, 2010: 67). Investidas de sentimento religioso, esses discipulos e mesmo o proprio Owen em New Lanark (ABENSOUR 2016, p. 115-131) converteram a promessa de emancipacao em seu contrario, a saber, em projetos societarios dogmaticos e hierarquicos.

Porem, a singularidade dos autores aqui abordados e que os pontos de fuga de uma historia da dominacao se constituem nao as margens, como sugere Abensour, mas no interior mesmo das disputas em torno dos criterios de cientificidade da ciencia social nascente. Em outras palavras, ainda que este artigo tenha uma grande divida com a diversificada obra de Abensour sobre as utopias, que e atenta as regressoes do pensamento utopico quando submetido a vontade organizadora das ciencias, busca-se reconhecer, aqui, pontos de fuga desse traco regressivo nas proprias contradicoes da ciencia social nascente. (2) Essa, de resto, e a hipotese da ja citada tese de Pierre Merckle, embora este artigo tambem se afaste do excessivo zelo que impede Merckle de analisar o excedente utopico no ideal de cientificidade de Charles Fourier, que nao se filiara, abertamente, a tradicao dos utopistas. Entre Abensour e Merckle, cabe reconhecer, pois, como Fourier, Owen e Saint-Simon investiram a reflexao teorica e a pesquisa cientifica com uma forca de enunciacao e mesmo de revelacao profetica, como se uma ciencia utopica dos fenomenos sociais nao devesse se afastar das aspiracoes pelo infinito, pelo desconhecido e pelo indizivel (PICON 2001, p. 105). Se um sentimento religioso esteve na base da conversao, em seita, da ciencia social nascente, a critica ao dogmatismo, presente no interior mesmo dos debates entre os fundadores de uma ciencia social utopica, como testemunha aquele opusculo de Fourier de 1831, e notavel por sua feicao, pode-se dizer, dialetica. Tratava-se, ja em Fourier, de criticar o sentimento de seita, nao para negar os impulsos religiosos de sua base, mas para alterar a possivel rota sectaria da forca de enunciacao da nova ciencia social.

Ciencia, politica e sentimento religioso

Ainda que nao analise intencoes utopicamente emancipatorias no ideal de cientificidade da ciencia social em constituicao, Abensour (2013), em "A utopia socialista: uma nova alianca da politica e da religiao", investiga a tensao dialetica do sentimento religioso ali presente. Por religiao, lembra o autor (2013, p. 99-102), nao se deve compreender, entre os fundadores, um sistema de dogmas fadado a empresa da dominacao, mas uma especie de energia passional capaz de engajar os homens no mundo e de fazer com que seres finitos pensem o infinito, seres criados continuem a tarefa da criacao. De fato, uma ciencia utopica dos fenomenos sociais, embora fundada sobre experiencias praticas e sobre um ideal de cientificidade que pretende estender o modelo newtoniano para a investigacao dos elos sociais, articula os trabalhos da reflexao e da escrita a uma vontade de dizer o indizivel, de pensar o impensado e de fazer o improvavel. E isso se nota mesmo em Owen, que iniciou seu trabalho de reflexao a luz de sua experimentacao pratica na industria textil de New Lanark e, especialmente, sob o impacto do aumento da degradacao e da miseria concomitante ao aumento do rendimento e ao aperfeicoamento das novas forcas produtivas da moderna industria.

"De onde vem os pobres"? Essa questao fora central numa Gra-Bretanha que via a miseria se multiplicar na mesma epoca em que atingia sua grandeza economica (Polanyi 1980, p. 113). Owen, afirma Polanyi (1980, p. 135), teria recusado a leitura crista que fixava o carater do individuo e seu destino em sua propria responsabilidade moral, negando as influencias da sociedade. Em outras palavras, suas experimentacoes praticas a partir de 1800 em New Lanark levaram-no nao apenas a um projeto de transformacao da sociedade com os novos poderes da industria, como tambem a um novo pensamento sobre a origem social das motivacoes humanas (POLANYI 1980, p. 135), uma vez que a elaboracao de uma "ciencia das circunstancias" e o que estava em jogo. Atenta as condicoes praticas de formacao dos habitos e modos de vida, essa ciencia, delineada a partir de A nova visao da sociedade, assume a estatura de profecia sobre uma nova era. Mas profecia, afirma Abensour (2016, p. 111-114), num duplo sentido: o anuncio de um novo poder, o da industria moderna, exercendo-se sobre os homens; e a descoberta das potencialidades emancipatorias de uma economia passional e cooperativa gestada pela propria sociedade industrial.

Ja Saint-Simon, que em sua juventude esteve em regimentos que participaram da revolucao americana, adentra a cena publica francesa nem tanto a partir de experimentacoes praticas, como em Owen, ou atraves de um livro com ambicoes sistematicas, como a Teoria dos quatro movimentos de Fourier, mas pela enunciacao profetica do que deveria ser a ciencia de seu tempo. Essa ciencia, embora ja seguisse o sugestivo modelo newtoniano--apoiar-se em fatos empiricos para so entao generalizar e estabelecer leis por inducao, ainda carecia de fundamentacao teorica apropriada. Assim, o autor buscara sobrepor a essa carencia do modelo newtoniano uma "concepcao de etica cientifica que acentua nem tanto as virtudes prudentes da vida academica, mas uma amplitude de visao e de bravura necessarias para descoberta" (PICON 2001, p. 112). Seu modelo era uma concepcao de ciencia fundada sobre as exigencias de uma audacia teorica que nao se satisfazia em raciocinar apenas sobre fatos--como seu discipulo Auguste Comte faria, na sequencia, sob o modelo das ciencias biologicas (PICON 2001, p. 111-113).

A audacia de Saint-Simon era tentar remodelar a educacao cientifica e tecnica na Franca de seu tempo sob o primado da forca ativa e criativa da industria nascente, capaz, talvez, de recriar o mundo a luz da energia produtora de abundancia material--para todos. E foi assim que reinvestiu seu proposito pedagogico com a forca religiosa de uma anunciacao, ou melhor, de uma energia passional que faria o homem da ciencia
suportar sem pena as fadigas do estudo e da profunda meditacao, que da
a constancia necessaria para se ilustrar nas ciencias e nas artes. Com
o homem de genio o interesse pessoal e bem potente, mas o amor pela
humanidade e tambem capaz de lhe fazer criar prodigios. Que bela
ocupacao a de trabalhar pelo bem da humanidade. Que meta augusta! O
homem nao teria um meio de se reaproximar da Divindade? Nessa direcao
ele encontra nele mesmo potencias que o consolarao das penas que ele
provara! (SAINT-SIMON 1802, p. 08-09).


Fourier, por sua vez, teria criticado os revolucionarios franceses nao pela destruicao dos idolos religiosos--"repito: nao e com moderacao que se fazem grandes coisas" (FOURIER 2009, p. 311), mas por nao conseguirem fundar uma religiao civil que realmente engajasse os cidadaos na paixao pelo infinito e pelo indizivel. Sua preocupacao era nao deixar um sentimento religioso, inequivoco aos homens, presa facil de uma energia restauradora da tradicao organicamente hierarquica do pensamento catolico e de seus reinvestimentos mitologicos, como, por exemplo, o da restauracao monarquica. Para Fourier, "tudo depende da qualidade, da intensidade de energia e da forca queseapodera da religiao"(ABENSOUR2013, p. 101). Sua audacia teorica, em busca de um novo universo utopicamente cientifico--ou cientificamente utopico--nao se afasta, pois, do pensamento religioso de seus contemporaneos, como se nota na Teoria dos quatro movimentos.

De fato, formulada em meio as tensoes de um nascente sistema industrial, que inventava novas formas de exploracao ao mesmo tempo em que descobria novas energias emancipatorias, a ciencia utopica de Fourier, revestida de uma critica radical aos seus contemporaneos, tambem investe sua intencao para o utopico da energia passional da enunciacao de uma boanova. Certamente, a identificacao desses pontos nao faria da obra de Fourier a sintese apropriada de tudo o que estava em jogo naquele inicio do seculo XIX--ou do pouco que este texto discutiu ate agora. Mas, em meio ao percurso feito aqui, destacar a Teoria dos quatro movimentos talvez seja um bom caminho para se adentrar, de maneira mais concentrada, pelos dilemas e potencialidades da aqui nomeada ciencia utopica dos fenomenos sociais.

A distancia absoluta do objetivo e do imparcial

A Teoria dos quatro movimentos e um livro desconcertante, seja pela sua forma pouco linear, seja pela articulacao entre fatos empiricos e imaginacao dos possiveis, seja ainda pela multiplicacao dos seus temas--da critica ao casamento a critica a civilizacao industrial, passando por observacoes astronomicas e gastronomicas, sugestoes para um novo mundo amoroso e projetos de vida associativa emancipada de tres servidoes: ao altar (aos dogmas religiosos), ao trono (aos dogmas politicos), ao sistema industrial (ao tedio no trabalho). Sua obra foi a tal ponto heterodoxa que mesmo seus discipulos esconderam manuscritos radicais, a exemplo de O novo mundo amoroso, redescoberto apenas nos anos 1960 e publicado, pela primeira vez, em 1967. Sem lugar quando adentra a cena literaria em 1808, sua obra terminou, porem, ocupando espacos decisivos na historia da emancipacao moderna, da historia do socialismo critico-utopico as lutas pela emancipacao das mulheres (RIOTSARCEY 1998), da critica ao progresso feita por W. Benjamin (1993) a teoria da imaginacao dos surrealistas (BRETON 1995; NADEAU 1964).

A audacia teorica de Fourier comeca ao nomear aquilo que esta sendo interpretado, neste texto, como uma ciencia utopicamente orientada: um saberetico nascido da sociabilidade real, algo para o qual seculos de filosofias e ciencias nao teriam avancado em quase nada (FOURIER 2009 [1808], p. 119-120). Os primeiros paragrafos de seu "Discurso Preliminar" sao enfaticos: as violencias e as regressoes politicas e sociais oriundas da revolucao francesa, bem como a fome e a miseria de amplas camadas da populacao criadas em meio a abundancia promovida pela revolucao industrial haviam dissipado todas as ilusoes das ciencias politicas e morais da tradicao:
Eu estava encorajado pelos numerosos indicios de distracao da razao, e
sobretudo pelo aspecto de flagelo que afligia a sociedade: a
indigencia, a privacao do trabalho, os sucessos das trapacas, as
piratarias maritimas, o monopolio comercial, a escravidao, enfim,
tantos infortunios dos quais eu cesso a enumeracao e que deram lugar a
duvida se a industria civilizada nao seria uma calamidade inventada por
Deus para punir o genero humano (Fourier 2009 [1808], p. 120).


Era preciso dar lugar a duvida. Fourier, pois, enuncia sua primeira "regra do metodo": a "duvida absoluta" (2009 [1808], p. 121), a qual, porem, opera num outro registro que a duvida de Descartes, pois "nao sao as incertezas e contradicoes do pensamento que a determinam, mas a infelicidade da ordem social", lembra Simone-Debout (1998, p. 162) em A utopia de Charles Fourier. Na Teoria dos quatro movimentos, a "duvida absoluta" e inseparavel do mundo das paixoes e da experiencia. Continuemos com o "Discurso Preliminar":
as ilusoes foram dissipadas (...). Desde entao deve-se entrever que nao
havia nenhuma felicidade a esperar de todas as luzes adquiridas; que
era necessario procurar o bem social em uma nova ciencia, e de abrir
novas rotas para o genio politico; pois era evidente que nem os
filosofos nem seus rivais sabiam remediar as miserias sociais, e que
sob os dogmas de uns e de outros veriamos perpetuar os flagelos os mais
vergonhosos, entre outros, a indigencia. Tal foi a primeira
consideracao que me fez suspeitar da existencia de uma ciencia social
ainda desconhecida, e que me incitou a tentar descobri-la (FOURIER 2009
[1808], p. 120).


Descobrir uma nova ciencia social a revelia de todas as ciencias entao conhecidas: Fourier enuncia aqui, de modo ceticamente orientado, sua segunda regra do metodo. Essa regra e a da 'distancia absoluta" (l'ecart absolu), que, desdobrando aquela primeira "regra do metodo"--ou seriam a duvida e a distancia apenas duas formulacoes de um mesmo principio? --, compoe o substrato de sua singular articulacao entre a descoberta de uma nova ciencia--a ciencia social--e a utopia. A "distancia absoluta" nao se confunde com o antigo principio da imparcialidade, segundo o qual caberia recordar ou registrar os feitos de gregos (ou romanos) e barbaros do ponto de vista de um estrangeiro de todas as patrias (LUCIANO 2009), nem antecipa o ideal positivista de objetividade cientifica, segundo o qual o observador dos fenomenos sociais adotaria uma atitude de distancia, ao seguir o curso dos eventos revelados pelas evidencias documentais (ARENDT 2003, p. 78-79). Fourier articula a "distancia" aos topoi do "desvio" (de rotas conhecidas) e da "descoberta" (de um Novo mundo amoroso, de uma Nova sociedade industrial, para citar o titulo de escritos que se seguiram ao livro de 1808).

De resto, relembre-se: "desvio", "descoberta" e "distancia" sao termos presentes na topologia das utopias, do modo humanamente utopico de figurar, na aventura pelo mundo, as inquiricoesdo real, desdeo livro fundador do imaginario utopico, a Utopia de Thomas More (1993), que ja se inscrevera sob o selo da transgressao dos limites. Foi um navegante luso que, na narrativa de More, descobrira, nos arredores do Novo Mundo, Outro Mundo, descoberta narrativamente modelada como um problema de enfrentamento com o desconhecido. Tambem ja foi visto aqui como esse topos ajudou a modelar as proprias regras do metodo de Kepler, cuja Nova astronomia pretendera fazer pelos astros o que a aventura exemplar de Colombo e dos navegantes portugueses fizera pela Terra: perder o rumo para descobrir rotas cientificas ate entao inimaginaveis. Entre metodo utopico e viagem cientifica, Fourier tambem modela sua teoria das ciencias sociais como um problema de descoberta cuja bussola seria a "distancia absoluta": "Eu presumo--diz o autor (2009 [1808], p.122)--que o melhor meio de chegar a descobertas uteis e se afastar, em todos os sentidos, das rotas seguidas pelas ciencias incertas". Talvez, assim, a ciencia social pudesse abordar problemas ainda nao discutidos e evitar os interesses do trono (inovacoes administrativas) e do altar (inovacoes sacerdotais). Nenhuma relacao alguma com a administracao e o sacerdocio, reitera o "Discurso Preliminar" (2009 [1808], p. 120-121). Uma ciencia social que, a distancia absoluta dos caminhos ja percorridos, nao se descobrisse imaginativamente utopica, talvez nem mesmo merecesse o nome de ciencia.

Por uma teoria excentrica do social

Talvez o que se fez nesses ultimos paragrafos, ater-se ao "Discurso Preliminar" da Teoria dos quatro movimentos, de Fourier, seja bem pouco e certamente o e diante de uma obra que, como apresentada anteriormente neste texto, espalhase por multiplas direcoes. Nao se abordou neste texto sua teoria dos "quatro movimentos", nem mesmo se descreveu a complexa teoria das paixoes de Fourier, fundamentos daquele "materialismo antropologico" de que falava Walter Benjamin. Em outro momento, esse mesmo filosofo, atento a leitura fourierista sobre a multiplicidade das paixoes humanas e sobre a articulacao entre trabalho e prazer, chega mesmo a falar, nas Passagens, em "materialismo hedonista" (BENJAMIN 1993, p. 642; W 5, 2).

De todo modo, nao gostaria de encerrar este texto sem lembrar, ao menos, interpretes como Michael Lowy (2018) e Leandro Konder (1998). Atentos a atracao passional e a ciencia analogica, ambos retornaram as proprias "passagens" entre Fourier e Benjamin como condicao possivel para ciencias "mais ousadas e mais criativas ao enfrentar o desafio permanente da autocritica, da revisao dos saberes tidos como adquiridos" (KONDER 1998, p. 69). Ou talvez fosse o caso de lembrarmos autores como Olgaria Matos (1993) e, mais uma vez, Miguel Abensour (2016), quando consideraram o desafio de fazer da utopia o caminho para se imaginar um mundo melhor, embora o fizessem num horizonte de espera sem previa determinacao do futuro. A razao que quer controlar o curso da historia, as utopias que, a direita ou a esquerda, se converteram em novas topicas do controle e do poder, os dois autores antepoem, pela via das Passagens benjaminianas, a nocao de "imagem dialetica", ou seja, a articulacao da evidencia racional do curso da historia (a dialetica hegeliana e marxista) a inseguranca do mundo das imagens (MATOS 1993, p. 68).

Nesse sentido especifico, o traco mais ousado e criativo da imagem dialetica seria o de liberar o imaginario utopico do teleologico e do "utopismo", ou melhor, da busca por prognosticos, cientificos ou nao, que, a revelia da propria etimologia da palavra utopia (ou-topos / nao lugar), fazem do "lugar"--o futuro ideal, o paraiso, a nacao, a raca, o lugar de fala particularizante--novas topicas do poder. Liberto do utopismo, talvez seja possivel, entao, reconsiderar a relacao entre ciencia, utopia e tempo num horizonte presentista, se se compreender por esse termo aquilo que Francois Hartog (2013) designa como um regime de historicidade atravessado pela crise de um esquema temporal orientado para o futuro. (3) Mas talvez seja melhor dizer: e possivel reconsiderar a utopia segundo o conceito benjaminiano de um "tempo saturado de agoras" (BENJAMIN 1987, p. 229)--ou tempo da "agoridade", para ecoar a sugestiva traducao do poeta Haroldo de Campos (1997, p. 269) para a expressao contida na tese 14 de "Sobre o conceito de historia". (4) Afinal, a articulacao entre utopia e agoridade, sob o selo da imagem dialetica, implica imaginar um futuro que, sem saber ao certo qual seria, termina por instaurar, aqui e agora, a experiencia da hesitacao.

Aos conceitos do entendimento que desejam conhecer quais senhores de um mundo desencantado, toda essa constelacao benjaminiana antepoe, pois, a aventura do conhecimento como uma experiencia hesitante. De resto, a distancia (ou duvida) absoluta de Fourier, tal como relida pelas Passagens, ja nao corresponderia, precisamente, a essa especie de hesitacao pensante? Quando pouco, do ponto de vista dessa hesitacao, as ciencias do inicio do XIX, plurais e contraditorias, parecem abrigar o passado perdido, em estado de crisalida, de uma fecunda experimentacao utopica. Por que nao pensar, pois, que sua redescoberta poderia ser a condicao de possibilidade para experimentar uma nova ciencia do social, tao excentrica quanto mais distante de saberes autocentrados?

Uma ciencia social utopica? Em Saint-Simon e em Owen, malgrado diferencas especificas, ela teria a forca de uma enunciacao religiosa, embora esse profetismo laico nao buscasse enunciar, simplesmente, um dogma de fe, mas preservar a insensatez de uma energia passional que articulasse invencao teorica, verificacao empirica e amor a humanidade. Ja em Fourier, a ciencia teria a forca de um ceticismo teorico e pratico, embora seu ceticismo, antes mesmo de desmobiliza-lo, o tenha predisposto a, na duvida, pensar o ainda nao pensado e a imaginar coisas absolutamente impossiveis ou excentricas --coisas tao excentricas como a ideia de que as mulheres teriam os mesmos direitos que os homens, a partir da qual critica o casamento como fonte de servidao ao chefe da casa, ou a absurda hipotese de que a miseria e as hierarquias sociais nao eram destino inelutavel. Em boa medida, todas essas ideias foram desqualificadas como impossiveis, logo, utopicas naquele inicio do seculo XIX por todos aqueles que, como os delegados socialistas do encontro com Martin Buber, queriam logo encerrar o assunto.

Haveria, de resto, toda uma analise a ser feita sobre o qualificativo pejorativo de "utopista". Usado, no seculo XIX, como contraponto a "ciencia", esse qualificativo tambem se espalhou no seio da reacao ora da aristocracia decadente que perdia privilegios tradicionais, ora de uma burguesia arrivista que aspirava monopolizar as riquezas da nova sociedade industrial (ABENSOUR 2000, p. 24-29). Utopistas eram aqueles que imaginavam elos sociais nao hierarquicos ou uma ordem industrial reconciliada com uma economia do prazer. Mas eu me encaminho para o fim deste texto sugerindo apenas isto: uma ciencia utopica dos fatos sociais poderia ser a designacao excentrica de uma logica da descoberta cientifica que, articulada a experimentacao teorica, contesta a timidez de quem acredita impossivel descobrir e conceitualizar novas rotas para as configuracoes societarias, rotas nao inteligiveis pelos conceitos da tradicao ou por formas de vida tradicionais. Para este texto, trata-se, ao menos, de sugerir que a esperanca por uma ciencia com destinacao humana redescubra seus tipos mais excentricos, tipos como Fourier, cuja utopia foi a de pensar, religiosamente, a distancia absoluta de conceitos apropriaveis, seja pelos interesses do trono e do altar, seja pelas paixoes egoistas de aristocratas decadentes e burgueses arrivistas.

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Henrique Estrada Rodrigues

https://orcid.org/0000-0001-8611-0398 [iD]

AGRADECIMENTOS E INFORMACOES

Henrique Estrada Rodrigues [iD]

henriqueestrada@hotmail.com

Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro

Brasil

RECEBIDO EM: 6/MAIO/2019 | APROVADO EM: 20/AGO./2019

(1) - Optou-se, neste texto, em citar os titulos das obras em portugues, mesmo quando consultadas apenas em frances ou ingles, com o intuito de facilitar a inteligibilidade, sem sobrecarregar o texto com informacao, o titulo original, que consta na bibliografia.

(2) - Sobre M. Abensour, especialmente quando destaca, na esteira de Pierre Leroux e Claude Lefort, saidas das regressoes do pensamento utopico via conjuncao entre utopia e moderna revolucao democratica, ver sua coletanea Le proces des maitres reveurs (2000).

(3) - Em outro contexto, preocupado com os efeitos do presentismo nas utopias e, sobretudo, nas distopias como uma especie de topos marcado pela "fusao de diferentes temporalidades", ver o livro Distopia, literatura e historia (BENTIVOLGIO; CUNHA; BRITO 2017, p. 8-10).

(4) - Ver, a respeito, o conceito de "pos-utopico" em Haroldo de Campos (CAMPOS 1997; RODRIGUES 2017, p. 75-76), conceito que nao indica fim das utopias, mas a tarefa de se repensar potencialidades utopicas num tempo saturado de "agoras", sem determinacao do futuro.

DOI 10.15848/hh.v12i31.1484
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Title Annotation:ARTIGOS: ARTICLES
Author:Rodrigues, Henrique Estrada
Publication:Historia da Historiografia
Date:Sep 1, 2019
Words:10119
Previous Article:Pensamento Social Brasileiro em perspectiva: historia, teoria e critica/Brazilian Social Thought and Historical Studies: a critical perspective.
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