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Metamorfoses guanabarinas: o Rio de Janeiro no raiar do seculo XX por Arthur Azevedo.

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O objetivo deste artigo e refletir, a partir do material literario de Arthur Azevedo (1), a questao da cidade como um locus de circulacao de ideias e de consolidacao de um novo estilo de vida urbano, que inclui codigos distintos de interacao social e formas de entretenimento. O crescimento das cidades no seculo XIX e a urbanizacao fizeram emergir na Europa, a partir do advento da grande industria, uma comercializacao da cultura como espetaculo, especialmente atraves do teatro (CHARLE, 2012). No Brasil, o teatro, sobretudo o teatro ligeiro musicado (2), tambem consistiu no lazer mais popular na virada para o seculo XX.

Arthur Azevedo (1855-1908), apesar de mais conhecido por sua producao teatral, escreveu contos e cronicas. Foi um jornalista atuante, colaborando nos principais periodicos de seu tempo. Como boa parte dos escritores da epoca, nao vivia so da literatura, trabalhava como funcionario publico no Ministerio da Viacao, na mesma reparticao que Machado de Assis. Embora pertencesse a elite letrada e fosse membro-fundador da Academia Brasileira de Letras, junto com nomes como Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Olavo Bilac, Aloisio Azevedo (seu irmao) e Coelho Netto, se popularizou pelas paginas da imprensa e pelas revistas de ano (3). As revistas de ano sao o genero de maior publico do teatro ligeiro musicado e, de forma satirica, apresentava os principais acontecimentos do ano anterior, assemelhados a cronica jornalistica (4). Arthur Azevedo escreveu 19 revistas de ano, e, mesmo sem ser o precursor do genero no Brasil, foi o primeiro a populariza-lo.

Arthur Azevedo escrevia para um publico heterogeneo, que abrigava desde as camadas populares e as camadas medias baixas, espectadores de suas revistas de ano, ate as elites letradas, que prestigiavam seus escritos "serios", feitos no padrao da "cultura erudita" (5). Tal amplitude de publico conferia a Arthur Azevedo feicoes de um "comunicador de massa" (6), por desempenhar importante "mediacao" (7), entre categorias culturais e sociais distintas, a partir de uma estetica associada ao popular: a comicidade (8).

Arthur Azevedo usava o cotidiano e o riso como os ingredientes principais de seus pratos literarios. Gerava empatia pelo humor, aproximava-se por retratar a vida das pessoas. Assim, entretinha, em consonancia com a aspiracao do publico pagante, do teatro ou da imprensa. Porem, ao atuar como um comunicador, dava voz aos multiplos modos de viver dos moradores do Rio de Janeiro na alvorada do seculo XX (9). E, mesmo que tais falas e tiradas de humor tivessem uma intencao moralizadora, voltadas para uma pedagogia civilizatoria, e que as revistas de ano se propusessem a inventar um Rio de Janeiro, como sublinhou Flora Sussekind (1986) em seu trabalho pioneiro sobre as revistas de ano de Arthur Azevedo, a apropriacao dessa mensagem por seus receptores nao produzia o "enquadramento" pretendido pelos autores. Assim, os tipos sociais e as falas das ruas, apresentados por Arthur Azevedo, produziam um efeito mais proximo a uma arena de discussao, a uma "cena aberta"--como definiu Fernando Mencarelli (1999), ao discutir a polifonia da revista de ano O Bilontra. Nao davam o conforto de uma "cartilha fechada", ao contrario, sugeriam ao leitor ou ao espectador um olhar caleidoscopico, com multiplas possibilidades de combinacoes e que (re)produzia as contradicoes proprias da experiencia humana. Era nesse efeito polifonico que residia o diferencial de Arthur Azevedo. Dai algumas de suas obras, mais especificamente, Guanabarina, ter sido eleita, neste trabalho, para "falar da sociedade" por tao bem representar esse carater caleidoscopico de uma cidade em transicao. Ressalto que parto de um recorte especifico, que privilegia o Rio de Janeiro, em um momento de transformacao urbana, e os multiplos discursos produzidos sobre tal experiencia. Guanabarina e outros textos de Arthur Azevedo, desse modo, constituem matrizes geradoras de praticas sociais (10) em dialogo com diferentes narrativas sobre o espaco urbano, como a charge.

Literatura e cidade

Parto do pressuposto que as artes--seja literatura, musica ou artes plasticas sao atividades sociais, experiencias partilhadas, "acoes coletivas" (11), que envolvem multiplos agentes. A producao artistica encontra-se interligada ao dialogo do artista com o "campo artistico" de sua epoca, e, simultaneamente, parte e produtora da dinamica social. Esta amalgamada a propria experiencia, como sugere Thompson (1993, 2002). Assim, a obra e parte expressiva dessa sociedade, "fala" dessa sociedade e de suas varias performances, tornando-se, como nos sugeriu Becker (2009), um mapa muito interessante de apreensao sociologica.

As reformas urbanas empreendidas na capital federal, na gestao Rodrigues Alves (1902-1906), pareciam materializar os planos dos engenheiros e sanitaristas, que, desde o Segundo Reinado, aspiravam levar para a "capital do Imperio" as luzes do progresso. Dai a preocupacao com o apagamento das feicoes coloniais por meio de reformas urbanas e o desejo de transformar os costumes "coloniais" e "africanos" em habitos "civilizados". Por meio de decretos-lei, proibicoes na circulacao de ambulantes e repressao a praticas como a mendicancia, cuspir e urinar na rua, pretendia-se educar a populacao.

O Rio de Janeiro, a capital federal da Republica da alvorada do seculo XX, descrita por Arthur Azevedo, consistia em uma cidade complexa e heterogenea, com quase 1 milhao de habitantes (12), onde modos de vida e costumes, tradicionais e hierarquicos, coexistiam com ideologias individualistas e cosmopolitas (13). Atraves das reformas urbanas, pretendia-se apresentar a capital como "metonimia" (14) de um pais, o Brasil, que aspirava a seu lugar no comboio do progresso. Contudo, se a maior parte da elite letrada aderiu ao modelo, tal sentimento nao foi compartilhado pelas camadas populares urbanas, obrigadas a driblar os mecanismos do "processo civilizador" (15) e da "etiqueta" requerida pelo "estilo de vida cosmopolita" das elites.

Quando pensamos nas transformacoes urbanas experimentadas pelo Rio de Janeiro no inicio do seculo XX, algumas imagens sao mais vividas do que outras na "memoria coletiva" (16), como as das avenidas--Central e Beira-Mar cristalizadas nas fotos de Augusto Malta (17) e o louvor as reformas descritas na Revista Kosmos, por Olavo Bilac, que aplaudia a radical transformacao da cidade de "lagarta a borboleta" (18) e entoava loas as "picaretas regeneradoras", que iniciavam as demolicoes para a abertura da avenida Central.

No acervo coletivo da memoria literaria, menos conhecidos sao os discursos sobre as metamorfoses da urbs produzidos por Arthur Azevedo. Dessa forma, entender esses outros "lugares de memorias" (19) se faz importante na tentativa de apreensao dessa experiencia urbana. Nesse esforco de empreender uma "etnografia historica" (20) de Guanabarina e outros escritos da epoca, me inspiro principalmente nas ideias de Geertz (1989), combinadas as de Ginzburg (2007) e as de Darnton (1986). (21)

A inspiracao de Ginzburg aguca a sensibilidade na identificacao dos fios, dos rastros e dos indicios que permitem compreender a experiencia em outras epocas, alem de sugerir metodologicamente formas de decifrar enigmas suscitados pelo objeto de pesquisa. Navegar pela ideia do "paradigma indiciario" alerta para a montagem do "quadro final", possivel apos minuciosa investigacao de fragmentos aparentemente nao relevantes (22). De Darnton e Geertz, tomo de emprestimo a natureza interpretativa e semiotica do estudo da cultura. Para Geertz, o significado da cultura e publico e cabe ao antropologo interpretar os significados da acao humana. Darnton propoe um "distanciamento" para as investigacoes de historia cultural e sugere, como metodo, que se facam sempre novas perguntas ao material empirico. Pois, os valores e os codigos partilhados pelos que viveram em outras epocas sao distintos dos nossos e nao devem ser naturalizados.

No centro do palco: Guanabarina e sua metamorfose

Carrancismo:--Eu sou o Carrancismo. Esta (...) e a minha mulher, a Estupidez, e esta (...) nossa filha, a Ignorancia. (...) Satanas:--(...) Que motivos te trouxeram aqui? (...) Carrancismo:--Durante muitos anos fui feliz (...) Dirigi longamente a administracao municipal, fiquei nos ministerios (...) subi ate o trono! (...) Um dia tive um desgosto profundo (...) fizeram a lei de Treze de Maio (....) Depois de proclamarem a Republica, julguei morrer de despeito (...) mas logo em seguida, cobrei animo: eles comecaram todos a brigar uns com os outros (...) Quando ultimamente ... (chora) (...) apareceram la dois desalmados, um ministro das obras publicas e um prefeito, que entenderam transformar a cidade, fazer dela uma capital moderna (...) projetam melhor o porto ... (...) [vao] edificar um teatro (...) e uma biblioteca, e uma escola de belas-artes; (...) querem alargar e prolongar as ruas ... por jardins em toda a parte ... embelezar Botafogo e o Canal do Mangue (...) Enfim, vao estragar-me o Rio! (...) Quero que envies (...) um mau genio (...) que se oponha a todos esses projetos de melhoramentos...(...) que faca com que o Rio de Janeiro continue a ser a cidade das ruas sem sol, a capital da febre amarela e da tuberculose. (...) Os costumes reformam-se, comeca a haver sociabilidade. (...) Ja ha la dois ou tres automoveis (...) Senao fazes o que eu te peco, aquilo e capaz de civilizar-se (grifos meus) (Azevedo, 2002:977-1084).

Quais sao as pistas que a epigrafe nos sugere na compreensao da experiencia dos habitantes da capital federal em meio a reforma urbana, no inicio do seculo XX? A revista de ano Guanabarina, representada em 1906 uma retrospectiva do ano de 1905 por Arthur Azevedo em parceria com Gastao Bousquet--expressa bem as tensoes, as ambiguidades e os desejos da elite letrada em relacao a uma das primeiras e principais transformacoes do espaco urbano no Rio de Janeiro: o bota-abaixo.

Guanabarina tematizava a luta entre o progresso e o carrancismo (carranca, na linguagem popular era um sujeito apegado ao passado). Nela, os dois condutores da peca: Guanabarina, a comadre simbolo do progresso, e Andrade, o compadre carranca (23), apresentam as transformacoes na capital federal. Apos varias aventuras, Guanabarina transforma Andrade, e o progresso acaba por vencer o carrancismo, com a ajuda das "picaretas". O tom e otimista, materializado pela cena final apoteotica: a visao noturna da recem-inaugurada avenida Central, feericamente iluminada. Cena que, literalmente, representava as luzes do progresso, pois a avenida, assim como a Beira-Mar, fora uma das primeiras vias publicas a contar permanentemente com iluminacao eletrica (24), em substituicao ao gas.

O primeiro a entrar em cena e o carrancismo, simbolo das atitudes que atrasam a execucao dos melhoramentos planejados e conta com a politicagem no papel de vila. Carrancismo declara ter feito uma prodiga carreira no Rio de Janeiro, mesmo depois da abolicao da escravatura (seu primeiro golpe) e de proclamada a Republica (que no inicio se perdeu em meio a disputas politicas, por vezes sangrentas), mas agora pede ajuda a Satanas por ver seu reino ameacado pelos "desalmados" que entraram no poder--isto e Rodrigues Alves e sua equipe.

A alusao, na peca, e clara, Rodrigues Alves e a equipe sao desalmados para os carrancas, por promoverem melhoramentos e embelezamentos no Rio de Janeiro, com intuito de transformar a capital federal em uma cidade moderna e civilizada. No subtexto, os autores pareciam acreditar que remodelar a cidade nao seria mais apenas um sonho da elite letrada. Para eles a marcha do progresso era inexoravel e no bojo das transformacoes materiais viriam as morais.

No prologo da peca, Carrancismo pede providencias a Satanas, que envia ao Rio de Janeiro um genio, o Andrade, "com diabolicos intentos" de atrapalhar o ritmo do progresso. Para impedir o plano de Andrade, surge a fada Guanabarina. Juntos, eles transitam por toda a capital federal. Outro nucleo de personagens que aparece na peca e a familia Barroso, composta por ele proprio, sua mulher Joana e sua filha Clarinha. A familia Barroso se encontra de mudanca, em pleno bota-abaixo, pois sua residencia e negocio foram desapropriados pela prefeitura. Em meio a confusao, Joana conta ao marido ter recebido uma carta de D. Candoca, que conhecera em Cambuquira, avisando que ela e a familia viriam de Nossa Senhora das Dores do Indaia para visita-los.

A familia interiorana chega a capital federal a procura do antigo endereco dos Barroso. Aparecem Pimenta, D. Marciana (sua mulher), Candoca (sua filha), Menezes (seu genro) e Cazuza (seu filho mais novo) em meio a uma nuvem de poeira e escombros. A familia interiorana se assusta: "Quede casa? (...) Diz que mandarum bota as casa todas abaixo!". Perguntaram, aqui e ali, para onde tinha se mudado o seu Barroso. Sem sucesso. Menezes resume: "Que ideia! (...) Pensa que isso aqui e Nossa Senhora das Dores do Indaia? Aqui e uma Babilonia! Uns nao sabem onde moram os outros" (AZEVEDO, 2002:1013).

A frase proferida por Menezes e otima para se pensar as relacoes entre metropole e individualismo. As grandes cidades--e o Rio de Janeiro era assim percebido pelos que vinham do interior--possuiam formas especificas, seja na organizacao geografica de seu espaco, seja na forma de interacao entre os seus habitantes, que as diferenciava significativamente das cidades pequenas. Em uma metropole, vizinhos de porta nao poderiam sequer se conhecer, como a peca sublinha: "uns nao sabem onde moram os outros". O estilo de vida urbano acionava outros codigos de sociabilidade e de interacao social.

Aventurando-se pela cidade, os personagens interioranos encontram icones materiais da modernidade, como o automovel que assusta e impressiona: "Oto. Cumo e mesmo, Candoca? (..) E cumo se carro sem anima fosse mov[ee!])". Em 25 de novembro de 1905, dez dias apos a inauguracao oficial da avenida Central, o grande simbolo da gestao Rodrigues Alves, a revista O Malho traz em sua capa uma ilustracao de Lobao, intitulada "Vida Nova!". A charge e ambientada na recem-inaugurada avenida e poe em destaque um automovel com o presidente Rodrigues Alves, o ministro Lauro Muller e o engenheiro

Paulo de Frontin. Ao fundo, aparecem retratados Pereira Passos ("o Prefeito") e dois senhores ("Carranca" e "Ze Povo") que se encontram de pe, a conversar na avenida. Ao longe, sao mostrados edificacoes, postes de iluminacao e transeuntes elegantemente trajados.

Em meio a essas imagens, conforme ilustracao a seguir, Ze Povo diz:
   (...) Aqui o respeitavel mestre Carranca ainda nao viu nada! Daqui
   a uns cinco anos e que ele vera o que e um Rio de Janeiro a meter
   no chinelo todas as capitais da America do Sul e muitas do resto do
   mundo. Ah! Eu agora tomei o gosto do progresso e nao deixarei
   descansar nenhum governo ... E pra frente, sempre! Ou vai ou racha!


[ILLUSTRATION OMITTED]

Tres anos antes da publicacao da charge, em 15 de novembro de 1902, subia ao Palacio do Catete o presidente Rodrigues Alves, cuja meta de governo era o "saneamento da capital" e que, para isso, contou com o auxilio dos engenheiros Lauro Muller, Pereira Passos e do medico sanitarista Oswaldo Cruz. A avenida Central consistiu na vitrine da gestao de Rodrigues Alves. Sua construcao teve inicio em 29 de fevereiro de 1904 e contou com duas inauguracoes: a primeira em 7 de setembro de 1904, quando terminaram as demolicoes, e a segunda, oficial, em 15 de novembro de 190525. Note-se que as duas datas ajudavam a construir o imaginario de uma nacao, eram respectivamente independencia do Brasil e proclamacao da Republica.

Guanabarina, logo apos a inauguracao da avenida Central, traz a elegante via como a propria apoteose do Rio de Janeiro, em sua visao noturna, deslumbrantemente iluminada. A charge de Lobao propoe uma chave de leitura semelhante, "Ze Povo" ja previa como tal avenida lhe daria orgulho, pois tomara "gosto pelo progresso". Porem, como atestaria o demolidor de Guanabarina, "o mais dificil nao era colocar abaixo as paredes", "mas os preconceitos", ao menos na percepcao dos cronistas e chargistas, como Arthur Azevedo e Lobao.

No entanto, que cidade era essa que Arthur Azevedo ajudava a construir atraves de seus textos? Uma cidade que crescia em populacao (26) e expandia em area geografica ocupada (27). Uma cidade na qual, tomando de emprestimo Gilberto Freyre (2003[1936]), "a praca venceu o engenho, mas aos poucos", o que possibilitou certa mobilidade social, como o surgimento de uma camada media e de uma pequena burguesia. Tal expansao permitiu a circulacao e a emergencia de ideias europeias, de novos estilos de vida e modos de sociabilidade, que, em consequencia, afetaram os padroes familiares e as sensibilidades de seus habitantes.

E nessa urbe em transformacao que a rua vai se tornando "palco" da urbanizacao e, junto com a imprensa, torna-se uma das "musas" da esfera publica. Rua moderna que vai deixando de ser apenas o local de escoamento e circulacao de homens e escravos e passa a ganhar prestigio social, possibilitando, inclusive, maior liberdade feminina. Rua que retira a centralidade da casa e encena uma das tensoes candentes da modernidade: a clivagem entre o publico e o privado. Rua que permitia a emergencia de um novo estilo de vida: o "estilo de vida urbano" imbricado a modernidade (28).

Por essas ruas da cidade, Guanabarina e Andrade encontram diversos tipos urbanos. O primeiro a se apresentar e o "homem da moda", caracterizado por um personagem que "atravessa a cena de calcas claras, sapatos amarelos, chapeu-panama, em mangas de camisa", mas trazendo nos bracos o paleto dobrado. Explica para a plateia seu figurino:

Nos Estados Unidos ha muito que importantes personagens (...) andam nas ruas em manga de camisa com paletos em baixo dos bracos, como se fazia com os sobretudos (...). Agora, aqui no Rio, houve quem tivesse a felicissima ideia de lembrar isso a proposito da propaganda dos medicos em favor das toaletes leves. Eu homem da moda, nao hesitei! (...) E o progresso! (AZEVEDO, 2002:1022).

Outro "tipo urbano", ainda mais caracteristico da urbs, sao os mordedores, que faziam das ruas seu locus para dar golpes em conhecidos e desconhecidos, sempre a pedir dinheiro, para a compra de alimentos ou de medicamentos, sob o pretexto de historias tristes e inventadas: familia doente, desemprego, infortunios inesperados. Olavo Bilac, sob o pseudonimo Fantasio, descreve bem o oficio do mordedor em cronica publicada na Kosmos em agosto de 1906: "(...) Os mordedores sao legiao, e nao se trata dos que mordem por necessidade, mas dos que mordem por oficio, (...) dos que estudam teorica e praticamente a ciencia da dentada (...)".

Arthur Azevedo relata divertidos casos de mordedores em seus escritos. O "mordedor", conforme ironizava a fada Guanabarina, era um antigo "carranca" indestrutivel. "Nao ha reforma que o reforme ou que o faca desaparecer." Porem, nem todos os "tipos ociosos" (29) das ruas eram tao divertidos como os mordedores. Havia pelintras mais perniciosos.

A urbanizacao trazia o desenvolvimento, o progresso, mas tambem mostrava o seu lado perverso. Afinal, como nos mostrou Simmel (2005[1903]), a grande cidade produz as condicoes psicologicas de seus habitantes, que, ao contrario dos moradores das pequenas cidades, precisam lidar com uma quantidade infinita de estimulos e interacoes. Esse "carater blase", fenomeno adaptativo, tipico dos habitantes das grandes cidades, traduz uma indiferenciacao, que se cria diante da impossibilidade de reagir a tantas pressoes externas. Mostrar-se indiferente ao outro, de certa forma, nao deixa de ser um modo de preservar o self.

Arthur Azevedo tambem mostra como os tipos urbanos comecam a criar suas "reservas". Na pequena peca Um moco bonito (30), de 1907, D. Basilia e a senhorita Bebe convidaram para entrar, em sua casa, um "moco bonito" que lhes deu carona de guarda-chuva, impressionadas com os bons modos e a boa aparencia do rapaz. Nisso chega a casa o marido de D. Basilia que ve o seu guarda-chuva, recentemente furtado nos correios, de posse do tal "moco bonito". Ao perceber que o rapaz fora o autor da subtracao, o marido avanca e o moco bonito foge. O marido aproveita para alertar a esposa e a filha sobre os casos de "mocos bonitos" que andam a furtar por ai, conforme jornais como A Noticia vinham publicando. E adverte: "Hoje no Rio de Janeiro e preciso ter muito cuidado".

A multiplicidade de contatos e a falta de referencias que fornecas seguranca e confianca nas interacoes sao retratadas na minipeca descrita. Pode-se, assim, concluir que adaptar-se psicologicamente aos estimulos e aprender a localizar-se na cartografia da cidade sao essenciais aos novos tempos.

Cai o pano

"(...) Bem sei que o proprio embelezamento da cidade se incumbira de fazer, aos poucos, uma revolucao nos costumes", escreve Arthur Azevedo em sua cronica "Palestra" em O Paiz em 15 de setembro de 1906. Tal vaticinio era consonante com o bordao "O Rio Civiliza-se", criado por Figueiredo Pimentel na coluna "O Binoculo" da Gazeta de Noticias (31). A coluna, considerada um dos primordios do colunismo social, flagrava o mundanismo carioca da rua do Ouvidor e das avenidas Central e Beira-Mar: as festas, as batalhas de flores, os corsos, as toilettes das damas e os figurinos dos smarts homens da moda.

E se, por um lado, na visao da elite letrada, da qual Arthur Azevedo fazia parte, a nova cidade convidava o homo urbanus a sociabilidade e ao voyerismo, tornando, dessa forma, o convivio social e a performance praticas essenciais a manutencao do mito da capital, como sublinhou Robert Pechman (2003), por outro angulo, podia-se vislumbrar que nem todos estavam satisfeitos com tais mudancas. Mesmo que ironizados de carrancas por boa parte dos homens de letra e chargistas, aparece sempre um elemento dissonante que sugeria que nem sempre esses novos tempos agradavam a todos. Era o caso dos populares, que perderam suas casas com o bota-abaixo e seus rendimentos como ambulantes, com a proibicao--em nome da higiene e dos bons costumes--da venda e circulacao de varias mercadorias. E tambem era o caso de outras pessoas, pertencentes as camadas medias, que nao se encantavam com tal progresso.

E o que nos diz o personagem Andrade na minipeca "Bons tempos" (32) em conversa com a vizinha D. Joaquina:

Andrade:--Esta entao tomando um pouco de fresco a janela? (...) Felizmente estes malucos que andaram a deitar a cidade abaixo e abrir avenidas nao alargaram esta rua! Dona Joaquina:--(...) se fosse um pouco mais larga, nao faria mal..

A.:--Nao diga isso, Sra. D. Joaquina. Os antigos quando fizeram essa rua mostraram muita sabenca. Com o nosso clima as ruas largas sao um absurdo! Pois ve a Avenida Central? Que desastre! Tenho tanta raiva que la nao passo... (...) Tudo nesta terra esta de pernas para o ar! (....) Chamamme rabugento, inimigo do progresso (...)

Mesmo que no final da minipeca Arthur Azevedo passe sua mensagem pedagogica ao ridicularizar Andrade, atraves da ironia de D. Joaquina, que insinua que a atitude do vizinho em relacao aos novos tempos e "burrice"; a resistencia de Andrade deixa entrever que nem todos consideravam bons os novos tempos.

D.J.:--Os tempos sao outros, Sr. Andrade: tudo mudou!... A.:--Tudo, sra. D. Joaquina, tudo! Pois se ja apareceu no Rio de Janeiro um homem cavalo! (...) Vi o retrato! Tem cabeca de homem e corpo de cavalo! (...) No nosso tempo, sra. D. Joaquina, nao havia homens cavalos! D.J.:--Mas havia muitos homens burros (Maliciosamente, bate de leve no ombro de Andrade). E deixe la: ainda nao desapareceram todos.

Enfim, mesmo considerando o carater ficcional dos textos analisados, eles nos deixam rastros e pistas e sao bons para se pensar a experiencia de viver em determinada epoca. As contradicoes, os diversos modos de pensar, os conflitos na interacao, a coexistencia de mundos entre os personagens emergem do texto, produzindo, para o leitor, efeito de uma "Cena aberta", repetindo a feliz expressao de Mencarelli (1999). Afinal, como escreveu Joao Ubaldo Ribeiro, "a literatura, como a vida, nao e certinha", "mostra contradicoes, reflete dilemas, exibe defeitos, ilumina a existencia humana (...)" (33).

Recebido em

julho de 2012

Aprovado em

setembro de 2012

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SICILIANO, Tatiana Oliveira (2011) O Rio que passa por Arthur Azevedo: Cotidiano e vida urbana na Capital Federal da alvorada do seculo XX". Tese (doutorado em Antropologia Social), Pos-Graduacao em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, UFRJ.

SIMMEL, Georg (2005[1903]) "As grandes cidades e a vida do espirito". Mana, Rio de Janeiro, no. 11(2), p. 577-591.

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Tatiana Oliveira Siciliano, Doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro/Brasil); bolsista CAPES de pos-doutorado no programa de Pos-Graduacao em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciencias Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro/Brasil). E-mail: tatios@terra.com.br.

(1) Artigo adaptado da minha tese de doutorado em Antropologia Social, defendida no programa de PosGraduacao do Museu Nacional, em junho de 2011, sob a orientacao do prof. Gilberto Velho. Ver Siciliano (2011).

(2) Pode-se definir o teatro ligeiro musicado como espetaculos comicos e alegres, oriundos da Europa, que incluiam numeros de canto e danca, efeitos cenicos e cenas dramaticas (ver PRADO, 2008; MARZANO, 2010; MENCARELLI, 1999; FARIA, 2001 e PAVIS, 2008).

(3) Sobre a importancia de Arthur Azevedo, ver Araujo (1988 e 2009); Magalhaes Jr. (1966); Magaldi (2008); Merian (1977 e 1988); Prado (2008) e Seidl (1937).

(4) Sobre a revista de ano no Brasil, ver Ruiz (1988); Veneziano (1991 e 1996) e Paiva (1991). Sobre as relacoes entre acontecimentos no Brasil e as revistas de ano de Arthur Azevedo, ver Sussekind (1986); Mencarelli (1999); Prado (1986 e 2008); Faria (2001); Veneziano (1991); e Brandao (2008).

(5) E importante sublinhar que os termos "cultura popular" e "cultura erudita" sao arbitrarios, usados apenas como ferramentas analiticas. Se, por um lado, a "cultura popular" pode ser entendida como um sistema simbolico autonomo e tao legitimo como a "cultura dominante", por outro, esta sujeita as disputas, coercoes e trocas com a "cultura dominante" (Cf. CHARTIER, 1995).

(6) Considero "meios de comunicacao de massa" os canais utilizados na transmissao de mensagens para um grande numero de receptores heterogeneos. A imprensa, especialmente apos o advento dos folhetins, no seculo XIX, passa a ser um produto de cultura de massa--assim como o teatro de revista, a opereta e o cartaz -, por comunicar-se com um publico amplo, atraves de linguagem simples e nao ser produzida por aqueles que a consumiam (ver COELHO, 1980).

(7) Velho (2001) define o mediador como o individuo que transita por diferentes planos e consegue lidar com codigos distintos.

(8) Sobre o papel da comicidade na obra de Arthur Azevedo, ver Araujo, 1988.

(9) Tal discussao parte da premissa de que as culturas letradas e iletradas estao em permanente interacao, processo de acomodacao e disputa. Existem zonas de fronteira entre o erudito e o popular, permitindo alguns intelectuais de acionarem os dois codigos e exercerem o papel de mediadores (ver BAKHTIN, 2008; BURKE, 1980).

(10) Cf. Pesavento (1995 e 2005), a cidade, por ser um espaco privilegiado de construcao simbolica, partilhada e, ao longo do tempo, transformada por seus habitantes, pode ser lida tanto a partir das suas construcoes de concreto--como edificios, ruas e avenidas--como de seus produtos simbolicos como a literatura, a pintura, os projetos arquitetonicos, os discursos medicos etc. Todos se configuram em "matrizes geradoras de praticas sociais".

(11) Ver Becker (1977).

(12) Conforme Censo de 1906 a capital federal possuia 811.443 habitantes.

(13) Sobre essa questao, ver Dummont (2000) e Velho (2003).

(14) Sobre a questao da capitalidade do Rio de Janeiro, ver Neves (1991).

(15) Expressao retirada de Elias (1994). A partir da analise de manuais de etiqueta, o autor percebe que o comportamento do homem civilizado no Ocidente, mais especificamente na Europa, nao e natural, mas fruto de um longo processo de transformacao, em curso desde a Idade Media, que moldou as sensibilidades atraves de um longo "processo psiquico civilizador". A intencao dessa elite brasileira era "moldar" atraves da educacao e, caso preciso, da repressao, os comportamentos da massa.

(16) Em A memoria coletiva, Halbwachs (2006) mostra como a memoria e construida na interlocucao das consciencias individuais e sociais. O testemunho individual so e possivel ser localizado e enunciado, quando situado no "quadro de referencias" coletivas.

(17) Fotografo da diretoria geral de Obras e Viacao da prefeitura. Cargo criado na gestao de Pereira Passos em junho de 1903.

(18) Ver cronica de janeiro de 1904.

(19) Nora (1984) afirma que, na sociedade ocidental, a memoria deixou de pertencer ao grupo, em favor da historia, que toma para si o legado de tornar os acontecimentos do passado publicos e lembrados, registrando-os e arquivando-os. Os lugares de memoria passam a funcionar como suportes e assim registros como cronicas, caricaturas, noticias de jornais, fotos tambem podem ser considerados "lugares de memoria".

(20) Termo que tomo de emprestimo de El Far (2004).

(21) A combinacao entre Ginzburg e Darnton foi sugerida pelo artigo de Neves (1994).

(22) O "paradigma indiciario" e inspirado no critico de arte Morelli e seu metodo de reconhecimento de um quadro falsificado pelos "pormenores mais negligenciaveis"; no pai da psicanalise Freud, que postula que a "verdade do sujeito" esta no inconsciente, e no personagem Doyle, Sherlock Holmes que desvendava seus crimes a partir da observacao de "indicios", esquecidos na cena do crime (ver GINZBURG, 2007).

(23) O compadre e a comadre, traducoes do frances compere e comere, sao fios condutores da revista de ano, aglutinam e dao sentido aos diversos quadros que compoem a revista (ver VENEZIANO, 1991).

(24) A partir de 1905. Embora a primeira aplicacao da luz eletrica tenha se dado na estacao Estrada de Ferro D. Pedro II, em 21 de fevereiro 1879, na presenca de sua Majestade (Cf. LESA, 2005; DUNLOP, 2008 [1957]).

(25) Cf. Rocha (1995); Santucci (2008); e Needel (1993).

(26) Vale destacar que o Rio de Janeiro explodiu demograficamente a partir do final do seculo XIX, aumentando o numero de habitantes em 56,3% entre 1890 e 1906. Em 1906, a populacao da cidade alcancava 811 mil habitantes. A razao dessa explosao populacional foi a imigracao estrangeira e a migracao de moradores de outros estados (Cf. DAMAZIO, 1996).

(27) A expansao das linhas de bonde e das estradas de ferro interligou varios bairros, possibilitando uma ampliacao na area ocupada em direcao ao suburbio e as regioes mais distantes (Ver Damazio, 1996).

(28) Cf. Velho (1995).

(29) E importante destacar que Arthur Azevedo partilhava de um etos burgues que valorizava o trabalho livre como fonte de progresso social. Um dos seus trabalhos em que a apologia ao trabalho, em negacao ao ocio, fica mais evidente e na revista de ano, O Bilontra (1886).

(30) Publicado em O Seculo, em 20 de novembro de 1907.

(31) Cf. Broca (1956) e Edmundo (2003[1938]).

(32) Publicada em O Seculo, coluna "Theatro a vapor", em 15 de outubro de 1908.

(33) Em "Por que nao reescrevem tudo?", publicado no jornal O Globo em 7 de novembro de 2010.
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Author:Siciliano, Tatiana Oliveira
Publication:Intersecoes - revista de estudos interdisciplinares
Date:Dec 1, 2012
Words:6042
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