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Metamorfose urbana: a conurbacao Goiania -Goianira e suas implicacoes socio-espaciais.

URBAN METAMORPHOSIS: THE CONURBATION OF GOIANIA AND GOIANIRA CITIES AND IT'S SOCIO-SPATIAL IMPLICATIONS

RESUMO

Este artigo objetiva identificar vetores socio-espaciais do processo de conurbacao entre os municipios de Goiania e Goianira. A pesquisa constatou que a rodovia GO-070 em associacao com a forma do relevo direcionam a ocupacao do espaco no interim dos municipios. Esta ocupacao tem conteudo multiplo de acordo com a renda, tipos de moradia e usos.

Palavras-chave: conurbacao, regiao metropolitana, metropolis

ABSTRACT

This article aims to identify the social-spatial vectors of the conurbation process between the Municipality of Goiania and Goianira. The research evidenced that the highway GO-070 associated with the relief interfere on land use distribution between the two municipalities. This land use is diverse and varies in accordance with the income, types of housing and urban services.

Key-words: conurbation, metropolitan region, metropolis

1. INTRODUCAO

Vive-se o que se tem chamado de "mundo urbano", "civilizacao urbana" ou "cultura urbana". Fenomenos como a Cidade Mundial, Aglomeracoes urbanas, megalopoles, metropoles e constelacoes urbanas demonstram que a crescente urbanizacao e o crescimento territorial das cidades sao decorrentes do modelo de mundo que se efetivou no periodo contemporaneo. Esse modelo esta fundamentado numa logica espacial baseada na desigualdade entre nacoes, na desigualdade da distribuicao da populacao no territorio e na ma distribuicao social de capital, bens e recursos.

Desse modelo resulta a concentracao espacial de atividades, pessoas e simbolos em metropoles, ou em aglomeracoes urbanas que, por sua vez, cria zonas de conurbacao, processo comum em centros urbanos com alta expansao, vertical e horizontal (Anjos & Chaveiro, 2006; Maricato, 1996). Cidades como Nova Iorque, Sao Francisco, Sao Paulo, Recife, Salvador, Curitiba, Toquio e Hong Kong sao claros exemplos.

Na decada de 60, a Regiao Centro-Oeste iniciou um processo de mudanca de sua estrutura produtiva, impulsionada pela acao estatal atraves dos programas de incentivo a modernizacao agropecuaria e integracao da regiao aos outros mercados - elementos que tiveram importantes consequencias em sua dinamica demografica e no processo de redistribuicao espacial da populacao, deixando os pequenos nucleos urbanos e rural que nao estavam contabilizados neste projeto em uma condicao de baixa mobilidade e baixo fluxo economico, contribuindo para a migracao destes nucleos urbanos e rural, em direcao aos centros regionais mais proximos.

Esse processo fez aumentar significativamente a populacao no entorno das grandes cidades formando extensas periferias. Este crescimento urbano se deu praticamente durante a decada de 70. Este periodo foi tambem fundamental para compreender a estrutura produtiva e a urbanizacao do Centro-Oeste, ja que a regiao foi amplamente beneficiada pela "marcha modernizadora do oeste", provocando um intenso direcionamento dos fluxos migratorios para areas mais promissoras.

Dessa maneira, Goias se coloca no seio deste modelo, fazendo com que as transformacoes socioespaciais sejam alteradas a velocidades surpreendentes. O territorio goiano, apesar de possuir uma estrutura economica baseada na agropecuaria, se tornou fonte de atracao de imigrantes. Milhares de nordestinos que fugiam da pobreza migraram para construir Brasilia, muitos deles alojaram-se no territorio goiano, fato que contribuiu, a partir de 1970, para o crescimento significativo da populacao. Houve tambem politicas que alimentaram constantemente propagandas atrativas aos migrantes que, apos se fixarem temporariamente em Goiania, se realocavam em outras cidades da Regiao Metropolitana de Goiania (Anjos & Chaveiro, 2006). Goiania, considerada uma metropole regional, esta entre as grandes cidades brasileiras que mais recebe migrantes em todo o Brasil.

Na capital do Estado, a ilegalidade na ocupacao do solo, com a promocao de imensos loteamentos populares foi iniciativa unica e exclusiva do Estado. Isolados da zona de influencia direta da cidade, esses "depositos de pessoas" marcados pelo abandono, sao produto de iniciativas populistas, bem sucedidas do ponto de vista eleitoral, mas que resultam numa tragedia em termos sociais, urbanos e ambientais (Anjos & Chaveiro, 2006).

A Lei Complementar no 27, de 30 de dezembro de 1999 criou a Regiao Metropolitana de Goiania, formada por 11 municipios, dentre eles estao o de Goiania e o de Goianira, que apresentam um crescimento concorrente ao longo da GO-070. De forma geral esta regiao abriga os rejeitados socialmente da metropole, devido ao seu alto custo, alem dos trabalhadores do Polo Industrial de Goianira, implantado em 2000.

Essa constatacao demonstra que a cidade nao deve ser analisada isoladamente no territorio. Nela relacoes de subordinacao e complementaridade sao exercidas com outras cidades. Um conjunto de cidades exerce relacoes entre si por meio do fluxo de bens, servicos e informacoes (Arrais, 2004). Neste trabalho busca-se a compreensao das causas dos varios deslocamentos populacionais, responsaveis pelas transformacoes socio-espaciais em curso na Regiao noroeste de Goiania a fim de compreender como se da o processo de espacializacao Goiania-Goianira.

2. AREA DE ESTUDO

A area de estudo abrange a regiao noroeste de Goiania, no sentido da GO - 070 em direcao a Goianira. Trata-se de uma area sobreposta transitorialmente, uma vez que as malhas urbanas das duas cidades se expandem.

[FIGURA 1 OMITIR]

3. REVISAO DE LITERATURA

Ha decadas ocorre um claro movimento de urbanizacao em diversas areas do planeta. Nos dias de hoje, o processo ocorre em menor intensidade, porem a capacidade de suporte de determinadas areas do globo terrestre tem sido tensionada ate quase o seu limite nas regioes metropolitanas (Rei & Sogabe, 2007).

No Brasil o processo de urbanizacao deu-se praticamente no seculo XX. Neste periodo a populacao urbana cresceu 34,4% entre 1940 e 1980. Entretanto, a mudanca de um pais predominantemente rural para um pais urbano ganhou velocidade a partir da decada de 60, se estendendo ate a decada de 70, quando domicilios situados nas areas urbanas chegavam a 58% (IBGE,1991). Um gigantesco movimento migratorio foi o principal responsavel por ampliar a populacao urbana em 125 milhoes de pessoas em apenas 60 anos (Maricato, 1996).

Esse crescimento deu-se principalmente por fatores como a expansao da economia brasileira, o crescimento demografico (Matos, 1995 e Maricato, 1996) e fundamentalmente, pela migracao decorrente dos grandes exodos das areas rurais para areas urbanas. Entre 1960 e 1980 houve uma insercao de quase 50 milhoes de pessoas nas areas urbanas; a migracao campo-cidade respondeu por cerca de 28 milhoes de pessoas.

O exodo rural representou, portanto, algo proximo de 57% do crescimento urbano no periodo (Martine, et al, 1990). A partir de entao a urbanizacao ampliou-se, ganhando complexidade e abrangencia, envolvendo cidades de diversos tamanhos, alem dos centros metropolitanos - em meio a um crescimento sem precedentes da malha viaria.

O dinamismo da urbanizacao, o crescimento demografico, as migracoes de tipo campo-cidade, a industrializacao e as mudancas no mercado de trabalho explicam boa parte das alteracoes territoriais ocorridas no pais como atestam, por exemplo, Santos (1994) e Correa (2005).

A expansao da urbanizacao em direcao aos muitos nucleos urbanos que se formaram no pais nas ultimas decadas favoreceram diretamente o surgimento de varias aglomeracoes urbanas nas regioes metropolitanas, contribuindo para a expansao dessa rede urbana.

Em Santos (1994), tem-se a confirmacao da tese do crescimento acelerado das Regioes Metropolitanas, com a constatacao de grande participacao do Rio de Janeiro e Sao Paulo, sendo estas responsaveis pela absorcao de mais de um quarto do total de incremento da populacao brasileira entre 1970 e 1980.

Na decada de 70, os estoques de populacao residente em areas urbanas ja eram muito expressivos. Maricato (1996) nos atenta para o crescimento urbano resultante desse intenso crescimento demografico que se fez, em grande parte fora da lei (sem levar em conta a legislacao urbanistica de uso e ocupacao do solo e codigo de obras), sem financiamento publico (ou ignorado pelas politicas publicas) e sem recursos tecnicos (conhecimento tecnico de engenharia e arquitetura). Sem alternativas, a populacao se instalou como pode, com seus parcos recursos e conhecimento.

Os nucleos urbanos se expandiram e favoreceram o surgimento das varias aglomeracoes urbanas nas regioes metropolitanas, grande centro populacional, que consiste em uma grande cidade central e sua zona de influencia. Em regioes metropolitanas e facil observar o surgimento de aglomeracoes urbanas, conurbacoes emprocesso de metropolizacao, formadas em areas urbanizadas da cidade central e da cidade adjacente, formando uma area de conurbacao.

A palavra Conurbacao, designa uma extensa area urbana decorrente do encontro ou juncao da area urbana de duas ou mais cidades. Ao longo do tempo os seus limites geograficos perdem-se em virtude do seu crescimento horizontal. Em geral, esse processo da origem a formacao de regioes metropolitanas. Essa zona de aglomeracao pode ser formada tambem por areas urbanizadas intercaladas com areas rurais.

O necessario e que as cidades que formam uma regiao metropolitana possuam relacoes de interdependencia entre si. Anjos e Chaveiro (2006) nos apontam que, desde o advento da industrializacao brasileira nos anos 1970, ha uma tendencia de ligacao fisica e funcional entre as cidades que formam as Regioes Metropolitanas (RMs).

Nessa dinamica socio-espacial, cada uma das cidades integrantes acaba por se eximir de certas atribuicoes socio-politicas e desenvolver outras hipertrofiadamente.

Milton Santos afirmava haver duas tendencias na urbanizacao brasileira: crescimento de RMs e de cidades medias. Assim, enquanto as RMs se adensavam populacionalmente nas decadas de 1980 e 1990, tambem as cidades de mais de 500.000 de habitantes cresciam e ainda mais as de 200.000 a 500.000 habitantes (Santos, 1994). Porem, a complexidade de uma Regiao Metropolitana apresenta-se ampliada ja que seu gerenciamento territorial nao esta unificado, gerando entraves ao cotidiano de grande parte de sua populacao.

As regioes metropolitanas do Brasil devem ser definidas por lei estadual, embora uma conurbacao possa ser chamada de regiao metropolitana. A finalidade de sua criacao e o interesse pela viabilizacao de sistemas de gestao de funcoes publicas de interesse conjunto dos municipios conurbados. Entretanto, no Brasil as regioes metropolitanas nao possuem personalidade juridica propria, nem os cidadaos elegem representantes para a gestao metropolitana.

O processo de formalizacao das Regioes Metropolitanas Brasileiras iniciou-se em 1973 quando foram instituidas as primeiras oito regioes (Sao Paulo - SP, Belem - PA, Fortaleza - CE, Belo Horizonte - MG, Porto Alegre - RS, Curitiba - PR, Recife - PE, Salvador - BA). Em 1974, foi instituida a do Rio de Janeiro -- RJ; no ano de 1995, a regiao de Vitoria -- ES; e, em 1997, a de Natal -- RN. Em seguida, em 1998, instituiram-se as de Maceio -- AL, do Distrito Federal e Entorno -- DF, de Sao Luis -- MA, do Vale do Aco -- MG, de Londrina -- PR, de Maringa -- PR, de Florianopolis -- SC, do Vale do Itajai -- SC, do Norte/Nordeste Catarinense -- SC, da Baixada Santista -- SP. Em 1999, foi instituida a Regiao Metropolitana de Goiania -- GO e, em 2000, a de Campinas -- SP. As ultimas tres foram instituidas no estado de Santa Catarina, em 2002: Foz do Rio Itajai, Carbonifera e Tubarao. Em suma, as 26 regioes metropolitanas brasileiras concentram 413 municipios, populacao de 68 milhoes de habitantes e ocupam area de 167 mil km2.

Os abismos criados entre as diversas areas que compoem as grandes regioes metropolitanas tem gerado serias divisoes sociais, fazendo com que as carencias sejam ressaltadas e induzam movimentos como ocupacoes desordenadas de terrenos, crescimento anomalo sem infra-estrutura e sequer planejamento primario, com consequente desequilibrio ambiental e possibilidade clara do surgimento de desastres sociais (Rei & Sogabe, 2007).

Maricato (1996) nos chama atencao para o crescimento economico do Brasil entre 1940 e 1980, ja que ele se deu por taxas muito altas e, embora a riqueza gerada por esse crescimento tenha sido muito mal distribuida, ainda assim proporcionou melhora de vida a grande parte da populacao, alem de resultar em uma respeitavel base produtiva.

No entanto, o pais nao tem politica institucional para as regioes metropolitanas, como se os indices de violencia, poluicao e miseria que elas apresentam pudessem ser resolvidos com politicas compensatorias pontuais.

Os espacos perifericos metropolitanos foram tratados, ao longo das decadas de 1970 e 1980, como regioes habitadas por populacao operaria, inserida muito precariamente na estrutura de renda e ocupacoes, que autoconstruia suas casas em terrenos ocupados ou localizados em loteamentos clandestinos/ irregulares, tinha acesso muito precario a equipamentos e servicos urbanos e tendia a gastar uma parte significativa de seu tempo livre em longas viagens em transportes publicos de ma qualidade. Essas condicoes seriam responsaveis pelas precarias condicoes de vida e saude encontradas nas periferias metropolitanas naquele momento (Marques & Torres, 2007).

O fenomeno novo e a perda de participacao relativa das RMs na ultima decada, ou seja, pela primeira vez no recente processo de urbanizacao do pais, parece estar ocorrendo uma reversao da concentracao da populacao urbana em favor principalmente de cidades de medio porte (Andrade & Serra, 2001).

Como veremos a frente, este fenomeno de reversao da concentracao pode favorecer uma menor pressao por infra-estrutura e ativos urbanos de tal forma a reduzir a incidencia de "fatores desaglomerativos" com a consequente reducao do custo urbano destas grandes aglomeracoes. Se confirmada essa tendencia, estariam abertas novas possibilidades de politicas publicas de planejamento urbano visando um crescimento metropolitano mais ordenado e equilibrado, mesmo que a maioria das RMs continue a crescer acima da taxa media de crescimento vegetativo da populacao do pais (em torno de 2%).

4. METODOLOGIA

A metodologia consistiu-se no levantamento de fontes teoricas e metodologicas a respeito das Regioes Metropolitanas, alem do levantamento metodologico de estudos e pesquisas sobre a Regiao Metropolitana de Goiania. Buscou-se tambem uma literatura relacionada a periferia urbana e a conurbacao, como categorias de analise.

Depois deste momento de leitura, reflexao e sintese das fontes bibliograficas acerca da tematica proposta, o proximo passo foi fazer uma caracterizacao minuciosa da area atraves de levantamento de dados censitarios retirados de Santos (1994) e IBGE (1991), para melhor representacao do objeto de estudo. Visitas exploratorias a campo, tambem foram utilizadas, com a finalidade de fazer um diagnostico para tracar os perfis existentes na area e identificar os fenomenos que nao apareceram no levantamento estatistico. Fotografias digitais foram tiradas ao longo da visita a campo a fim de captar momentos da paisagem e nos ajudar na analise socio-espacial e tambem auxiliaram na descricao da paisagem, como flagrantes de autoconstrucoes, construcoes populares, estrutura habitacional, margens da rodovia e a sua ligacao com os recentes loteamentos.

Durante o trabalho de campo, fizemos entrevistas com a populacao local: moradores do Residencial Triunfo. Foi realizada tambem uma analise da estrutura economica da micro-regiao de conurbacao entre Goiania e Goianira, alem da identificacao dos arranjos sub-regionais de cada municipio. Do nivel macro-politico a geracao da realidade pratico-sensivel e psico-social, pudemos encontrar vieses que nos indicaram vestigios do fato ocorrente.

5. RESULTADOS E DISCUSSAO

O processo de industrializacao das cidades brasileiras da decada de 70 muito contribuiu para o surgimento e aumento de periferias nas metropoles, para a juncao da metropole com outros municipios, assim como sua propria urbanizacao. Em Goiania, assim como em outras cidades, esse processo continua em andamento. Aparecida de Goiania, Trindade e Senador Canedo sao exemplos de cidades que estreitaram seus limites fisicos com Goiania por meio da explosao demografica, tais casos tem sido bastante estudados.

As aglomeracoes urbanas tornam palcos de uma espacialidade expressiva das desigualdades: periferia proletaria ou bolsoes de miseria, a quem Santos (1998) denomina de pobres da cidade. Essa periferia, conhecida por abrigar um grande contingente de fornecedores de mao-de-obra para o centro urbano e por englobar parcelas da populacao excluida do processo de integracao socio-economico, contribui para a construcao de diferentes lugares, de novas espacialidades. E tambem de dramas sociais e existenciais humanos.

No rol dos espacos urbanos conflitantes na Regiao Metropolitana de Goiania esta a espacializacao Goiania - Goianira, em que as malhas se sobrepoe transitoriamente. A pavimentacao da GO-070, entre estas duas cidades, facilitou os fluxos populacionais de uma cidade a outra e abriu caminho para a formacao, principalmente, de bairros populares ao redor da Rodovia.

Atualmente, essa zona de conurbacao compoe a Regiao Metropolitana de Goiania, tambem chamada de Grande Goiania. Essa regiao, em termos de ocupacao, se expande no inicio da decada de 1990, havendo uma maior intensidade uma decada depois, com o lancamento de varios loteamentos irregulares, ou seja, a margem da legislacao urbana em vigor.

Dois sao os loteamentos que surgiram na regiao conurbada entre Goiania/Goianira nas condicoes mencionadas acima: um na area denominada Fazenda Sao Domingos e o loteamento da fazenda Taperao. Quanto ao primeiro, foi ocupada em fevereiro de 2003 por um quantitativo de familias que varia, segundo as fontes informacionais, de setecentas a mil e duzentas familias, distribuidas pelos cinco alqueires (Anjos & Chaveiro, 2006).

Depois de algumas semanas, uma forca policial envolvendo seiscentos homens retirou da area os ocupantes, nao havendo por parte do poder publico nenhuma proposta de alocacao residencial para as familias. A mesma area, decorrido pouco mais de um mes, foi nomeada de Sollar das Paineiras e loteada pela proprietaria da area em tres etapas, ainda que sem averbacao da area, havendo ja vendido todos os lotes das primeira e segunda etapa. De acordo com o comandante do 2 Pelotao da Policia Militar/23 CIPM, Tenente Tarcisio R. de Carvalho, ha proposta de averbacao da area com a distribuicao das tres etapas entre os tres municipios (Anjos & Chaveiro, 2006).

A fazenda Taperao, no municipio de Goiania (Km 10 da GO-070), foi adquirida por uma sociedade do deputado estadual Jose Nelto com o deputado federal Luiz Bittencourt, alem de outros socios, em 2003, registrada em cartorio de Goianira como Residencial Triunfo, loteada e vendida em condicoes atraentes, ja estando quase completamente vendido e com mais de 30% dos lotes em construcao. Houve proposta de embargo pelo poder publico. Mas, logo no inicio do mandato de Iris Rezende junto a prefeitura municipal de Goiania, o caso foi arquivado. Em marco de 2006, ja estava a venda o bairro Residencial Triunfo II (Anjos & Chaveiro, 2006).

O municipio de Goianira conta ainda com a presenca recente de mais dois outros loteamentos proximos a rodovia GO-070, contiguos a capital. Trata-se de um prolongamento por mais um quilometro do ultimo setor da cidade (Cora Coralina), chamado Vila Adilair. Deve-se ressaltar que isso ocorre mesmo que a cidade tenha grandes propriedades nao loteadas, tanto ao longo da rodovia quanto no interior de sua malha urbana, e ainda grande quantidade de lotes vagos. Apos esse prolongamento, encontra-se um parcelamento destinado a classe media alta, seguindo a ideologia dos condominios fechados, chamado Villagio Baiocchi.

Esta zona conurbada se apresenta como uma alternativa para a implantacao de conjuntos habitacionais desde a decada de 70. Trata-se de uma area de fronteira da expansao urbana decorrente do crescimento da regiao noroeste de Goiania. Esta regiao apresenta um crescimento anual de 9%, perdendo apenas apara a regiao Sudoeste, com um crescimento anual de 14,5%. A Tabela 2 apresenta a movimentacao da populacao de Goiania na decada de 90, cujas regioes que apresentam os maiores ritmos de crescimento sao exatamente aquelas que nao se localizam na parte central da cidade.

A migracao intensa para a cidade desde a sua construcao estimula esse crescimento, que por sua vez impulsiona o crescimento da malha urbana municipal muitas vezes extrapolando-a. Foi o que aconteceu com o perimetro noroeste de Goiania, regiao com um forte crescimento populacional que se expandiu e conurbou com o municipio do entorno, no caso, Goianira. Tal movimento lanca nos municipios do entorno migrantes entusiasmados com os valores dos lotes, de modo geral baratos, advindos de varias partes do pais, em especial da nordeste brasileira, alem de cidades do interior do Estado de Goias.

O Plano Diretor Integrado de Goiania de 1992 (PDIG 92), tendo em vista a grande importancia ambiental da regiao Noroeste, impunha limites a esse prolongamento, chegando a considerar as Chacaras Recreio Sao Joaquim e Fazenda Primavera areas destinadas a ocupacao semi-urbana rarefeita. Nessas mesmas localidades, surgiram, no decorrer da decada de 1990, bairros de grande densidade populacional (setor Primavera e setor Sollar Ville), por acao direta e/ou indireta do poder publico.

Tal regiao se soma as estatisticas do crescente aumento das periferias em cidades grandes, repleta de bairros operarios integrantes de uma periferia proletarizada e capaz de incorporar massas que almejam oportunidades de trabalho, de acesso a educacao, a saude, ao saneamento basico, aos servicos, ao comercio e aos outros aportes oferecidos pelos nucleos urbanos.

Entretanto, nem sempre a consolidacao desses desejos e possivel, pois se trata de populacoes excluidas do processo de integracao economica e social, expostas a processos de degradacao ambiental, ao alto custo urbano e ao crescente processo de periferizacao. Este crescimento acelerado contribui para perda de identidade do municipio, que passa a ter a identidade da metropole, alem de receber as influencias do pensamento da metropole nao-periferica na edificacao de seus sonhos, valores, prazeres e mesmo na consolidacao destes. Chaveiro (2001) complementa que e um dos papeis essenciais da metropole e formar gostos, ajuizar maneiras de consumir, educar o individuo para o mundo que se tem, introjetar maneiras do individuo participar do concerto mercadologico.

Nas imediacoes da GO-070, na zona transitoria, ao mesmo tempo em que se ve loteamentos recentes bastante populosos, ve-se areas industriais e areas rurais. Trata-se de uma espacializacao em formacao, ainda confusa. Habitantes deste espaco segregado, fruto de um modelo de sociedade excludente, sao verdadeiros motores da economia goianiense.

As acoes sociais fundantes da periferia proletaria marcam o espaco por intermedio do mundo do trabalho, contribuem com os processos de subjetivacao numa perspectiva cultural, socio-espacial e coletiva. Contribuindo com a forma deste lugar esta a zona industrial, grande transformadora socio-espacial na sua insercao ao redor destes bairros perifericos ou mesmo na formacao de novos conjuntos habitacionais. Industrias sao atraidas para tal local devido a fatores como a boa localizacao, a razoavel infra-estrutura, como exemplo, a duplicacao da GO-070 e ao baixo valor da mao de obra. As pequenas propriedades rurais que ainda permanecem na area fazem parte desta forma espacial, talvez esta mais bucolica e mais isolada. Logo, esta paisagem, dara espaco a novos loteamentos ou quem sabe a uma nova fabrica para a regiao.

Tratando da privacao sofrida por habitantes de tal regiao, tem-se o exemplo do Residencial Triunfo. A populacao residente enfrenta a mais de um mes a falta de abastecimento de agua, que passa por um processo de racionamento, havendo corte da agua durante dois periodos do dia. Ha casos de pessoas que recorrem a represa mais proxima para buscar agua, para tomar banho e cozinhar.

As partes responsaveis alegam que o bairro cresceu de maneira inesperada, muito rapidamente e a infra-estrutura, por ser cara e de dificil locacao, demora a chegar. E interessante ressaltar que em apenas certas regioes da cidade tem-se tal tipo de problema. Talvez a falta de abastecimento da agua seja um problema que salte aos olhos, mas nao foram somados a falta de escolas, feiras, postos de saude, hospitais, iluminacao publica, area verde e policiamento. Tem-se tambem a falta de areas para o lazer comunitario como areas de convivencia, areas esportivas, pracas e jardins, entre outros.

Faltam centros que ultrapassem as fronteiras das igrejas evangelicas e dos bares, que sao inumeros na regiao. Alem da demora do onibus, seguida da falta de boa qualidade do servico oferecido, somado ao sacrificio corporal de atravessar uma rodovia perigosa e enfrentar logo pelo inicio da manha um onibus lotado. Trata-se de um problema cotidiano para simplesmente encontrar algum servico oferecido pela metropole, ou pior, para chegar ao trabalho ou a escola. Compreendemos assim que grande parte dos problemas sofridos pelas periferias urbanas em Regioes Metropolitanas esta ligada ao descaso do poder publico.

Nas imediacoes, porem, ja no perimetro urbano da cidade de Goiania, tem-se o bairro Jardim Primavera, com um comercio significativo caracterizado como um bairro polarizador dessa regiao. Nele, habitantes da area conurbada fazem compras de alimentos, levam os filhos para a creche e escola, vao ao banco e frequentam a igreja catolica, uma vez que esta e a mais proxima da regiao. Enfim, saciam parte de suas necessidades nesse bairro.

A renda media dos habitantes destes loteamentos populares situados as margens da GO-070 gira em torno de dois a tres salarios minimos. As caracteristicas das residencias situadas neste local sao bem simples, geralmente de pequeno porte, com terrenos de 200 [m.sup.2] - a medida minima de um terreno regularizado hoje pela prefeitura e de 250 [m.sup.2] -, com telhados de apenas uma agua, do tipo barracao.

Raramente, possuem mais que dois quartos, comportando 4 a 5 pessoas em media, podendo chegar a mais. A regra e: casas com iluminacao e sistema de ventilacao inadequados, sem pintura, sem muros, com solos expostos, entulhos lancados na porta da casa e falta de vegetacao, como se pode verificar na figura 2.

[FIGURA 2 OMITIR]

Essas casas sao construidas, em sua maioria, com ajuda de mutiroes entre membros da familia, e ate mesmo vizinhos, denominadas de autoconstrucao (vide figura 3). Grande parte destes moradores sao proprietarios de suas residencias, o que os torna orgulhosos e satisfeitos, mesmo estando longe das condicoes "ideais" de habitabilidade e conforto. O sonho da casa propria realizado parece tolerar outras deficiencias.

[FIGURA 3 OMITIR]

Outra caracteristica dessa area conurbada diz respeito ao valor do terreno, que apesar de possuir condicoes de pagamento acessiveis a populacoes de baixa renda, com inumeras prestacoes, com valores inferiores a meio salario minimo e baixo valor de entrada, o valor monetario de um lote no Residencial Triunfo e no Residencial Triunfo II, conseguiu uma valorizacao de 100%, num periodo inferior a tres anos.

As expectativas do setor imobiliario conjuntamente com os especuladores, ou "investidores", como tambem sao chamados, e que tal valorizacao e uma realidade. Nao ha misterios para desvendar os motivos pelo qual se da tal valorizacao, para tal fator temos a ligacao com Goiania atraves de vias de fluxo rapido, com duas pistas (GO- 070 e a Perimetral Norte), com ausencia de congestionamento de veiculos. Outros fatores sao a relativa proximidade as regioes centrais de Goiania e a topografia da regiao, que e bem plana. Alem da infra-estrutura ja implementada, como asfalto e saneamento basico, em alguns bairros, mesmo que deficiente.

Ensaios sobre a area que abrange os loteamentos do Residencial Paineiras, do Residencial Triunfo e do Residencial Triunfo II, que no momento pertencem a Goianira, esta passando pelos tramites juridicos a fim de se tornar seus bairros agregados ao municipio de Goiania. Os moradores afirmam nao haver muita diferenca para eles sobre este aspecto, apesar da maioria preferir que esta area passe a ser territorio goianiense, por questoes de valorizacao do terreno, e, principalmente, devido a estrutura que eles acreditam melhorar, caso a area passe a pertencer ao perimetro urbano de Goiania.

Ha os que preferem que a situacao nao se altere, principalmente para que os impostos nao aumentem e tambem porque dizem nao acreditar nas possiveis melhorias quanto a infra-estrutura que Goiania poderia oferecer. Por outro lado, os especuladores, proprietarios da area tem muito interesse nesta mudanca, principalmente, para que a area atinja altos valores e viabilize a reproducao do capital num menor tempo. As prefeituras de cada cidade disputam a area a fim de recolher mais impostos.

A execucao da pesquisa, especialmente os trabalhos de campo, efetivado "in locus", possibilitou que enxergasse os dramas sociais dos moradores das zonas conurbadas. Alem disso, demonstrou o que tinha se levantando como hipotese: de que nao se deve pensar a metropole goianiense eximida de sua periferia, nem compreender a periferia do entorno fora da analise da metropole.

Alem desses elementos gerais, alguns especificos se tornaram notorios, a saber:

1 -- Ha uma tendencia a concentracao (produzida deliberadamente) de ofertas de produtos e servicos no municipio-polo da RMG, fazendo com que um fluxo crescente de populacao busque essa centralidade;

2 - A Regiao Noroeste da capital e um grande vetor de expansao da periferia de Goiania.

3 -- E clara a participacao conjunta dos setores imobiliarios e politico na expansao da periferia proletaria, o que e evidenciado no surgimento dos bairros Residencial Triunfo e Solar das Paineiras, assim como em toda a regiao noroeste da RMG, desde o final da decada de 1970;

4 -- A cidade de Goianira passa por um momento de profunda redefinicao socioespacial, tornando evidente um processo iniciado em meados da decada de 1980, com a ocupacao das margens da rodovia GO-070, hoje um eixo industrial e residencial-popular.

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Thais Moreira Alves

Universidade Federal de Goias -- Instituto de Estudos Socio-Ambientais - IESA thaistememeil@hotmail.com

Eguimar Felicio Chaveiro

Universidade Federal de Goias -- Instituto de Estudos Socio-Ambientais - IESA

eguimar@hotmail.com
TABELA 1 - EVOLUCAO DA POPULACAO URBANA

                  Populacao que se        % do aumento da populacao
                  instala nas regioes     nacional que se instala nas
                  Metropolitanas          Regioes Metropolitanas

1940-1950              3.052.907                   28,75
1950-1960              5.952.919                   32,62
1960-1970              8.596.874                   37,46
1970-1980             10.259.743                   43,37

Fonte: Santos (1994, p. 76)

Tabela 2: Goiania: Populacao Urbana segundo as Regioes - 1991 e 2000

                              Populacao
                                                Tx de Cresc. (%)
      Regiao             1991         2000           Anual

Central                 152.449      145.960          -0,5
Sul                     157.938      165.288           0,5
Macambira/Cascavel      100.163       93.000          -0,8
Oeste                    44.937       65.355           4,2
Mendanha                 47.077       56.393           2,0
Noroeste                 51.367      111.389           9,0
Vale do Meia Ponte       43.071       52.640           2,3
Norte                    44.652       63.840           4,1
Leste                    95.950      106.966           1,2
Campinas                123.338      123.530           0,0
Sudeste                  34.780       43.807           2,6
Sudoeste                 17.092       57.638          14,5

Populacao Urbana        912.711    1.085.806          1,9

                           Participacao (%)

      Regiao             1991         2000

Central                  16,7         13,4
Sul                      17,3         15,2
Macambira/Cascavel       11,0          8,6
Oeste                     4,9          6,0
Mendanha                  5,2          5,2
Noroeste                  5,6         10,3
Vale do Meia Ponte        4,7          4,8
Norte                     4,9          5,9
Leste                    10,5          9,9
Campinas                 13,5         11,4
Sudeste                   3,8          4,0
Sudoeste                  1,9          5,3

Populacao Urbana        100,0        100,0

Fonte: IBGE, Censos demograficos 1991 e 2000/Prefeitura de
Goiania-SEPLAM-DPSE
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Author:Moreira Alves, Thais; Felicio Chaveiro, Eguimar
Publication:Revista Geografica Academica
Date:Dec 1, 2007
Words:5926
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