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Mental Terms in the Context of Telling Stories and Children's Theory of Mind/Termos Mentais na Contacao de Historias e a Teoria da Mente das Criancas.

O entendimento da relacao entre o comportamento das pessoas e o que se passa em sua mente e uma importante habilidade sociocognitiva chamada teoria da mente, a qual se desenvolve a partir da interacao e e considerada fundamental para o exito nas relacoes sociais (Maluf & Domingues, 2010). No campo da cognicao humana, Piaget e um dos precursores no estudo da teoria da mente por ja se interessar, no inicio do seculo XX, pelos conteudos mentais infantis (Piaget, 1923/1961). Um dos primeiros usos do termo teoria da mente ocorreu quando primatologistas investigavam se os chimpanzes possuiam a habilidade de atribuir estados mentais a outros chimpanzes. Atraves das pesquisas desenvolvidas, estes pesquisadores concluiram que o sucesso dos chimpanzes nas tarefas as quais foram submetidos indicava que eles possuiam uma teoria da mente (Baron-Cohen, Tager-Flusberg, & Cohen, 1994; Premack & Woodruff, 1978).

A avaliacao da habilidade de teoria da mente tem se centrado historicamente na investigacao da capacidade de atribuicao de crenca falsa. As tarefas de crenca falsa, elaboradas inicialmente por Wimmer e Perner (1983), avaliam a capacidade da crianca de compreender que uma pessoa pode ter uma crenca falsa, que nao condiz com a realidade, e que esta influenciara seu comportamento, o que seria sinal de aquisicao da teoria da mente.

A relacao entre teoria da mente e linguagem e uma questao bastante aceita pelos pesquisadores do campo de estudos da sociocognicao (Gallo-Pena & Maluf, 2013; Maluf & Domingues, 2010; Maluf & Gallo-Pena, 2011; Rodrigues, Pelisson, Silveira, Ribeiro, & Silva, 2015; Rodrigues & Pires, 2010). Ao associar-se a linguagem e a interacao social, o discurso parental, que envolve as conversas sobre pensamentos, desejos e sentimentos, surge como fator preponderante para que a crianca desenvolva o entendimento social e a teoria da mente.

Estudos precursores de tipo longitudinal, como de Dunn, Brown e Beardsall (1991), constataram a importancia do discurso familiar para o entendimento das emocoes de criancas pequenas. As pesquisadoras verificaram que o uso que pais e maes fazem da linguagem que envolve sentimentos e emocoes prediz o reconhecimento das emocoes pela crianca e a sua capacidade de compreensao emocional, tres anos mais tarde. Ja Ruffman, Slade e Crowe (2002) verificaram que a linguagem de estados mentais usada com as criancas pequenas prediz o sucesso destas em tarefas que avaliam a teoria da mente mais adiante.

Entre as trocas linguisticas, a atividade de contacao de historias e uma forma comum de discurso familiar entre pais e filhos que oportuniza descrever eventos e fazer reflexoes sobre a historia, sobre os pensamentos e os sentimentos dos personagens. Esse habito, conforme Rodrigues e Pires (2010), permitiria nao apenas a apropriacao de termos mentais, mas o desenvolvimento da teoria da mente.

Segundo Bruner (1991), as historias constituem-se em uma fonte valiosa de dados para a compreensao da mente porque elas nao sao independentes do que se passa na mente de quem delas participa. O autor afirma que as historias e narrativas apresentam um duplo cenario: um de acao, que e organizado em torno de um tema, com a emergencia de um problema; e um cenario de consciencia, o qual abarca os objetivos, as motivacoes, emocoes e crencas dos atores que realizam a acao. Os dois cenarios favorecem o contato da crianca com a linguagem mental e com a possibilidade de relacionar as acoes dos personagens com suas intencoes, motivacoes e sentimentos. As narrativas e historias, portanto, desempenham um importante papel no desenvolvimento sociocognitivo, pois atraves delas as criancas desenvolvem a linguagem, ampliam seu pensamento e a capacidade de compreensao do mundo, avancando na habilidade de relacionar estados mentais com o comportamento das pessoas.

Ao contar historias, Nelson (2005) observa que os pais costumam incluir diferentes fontes de conhecimento, a reflexao sobre experiencias proprias e dos outros, ou ainda, a distincao entre acontecimentos reais e imaginarios. Embora as criancas contribuam com poucas palavras, como ouvintes elas ja estao ingressando nas praticas de escuta, atencao e interpretacao da fala, formas de usar a linguagem como um meio de representacao. As narrativas expressam desejos, intencoes e pensamentos das pessoas em relacao ao que fazem e tambem os estados emocionais em resposta aos resultados de suas acoes. Ouvir historias, portanto, e um importante ato de passagem ao longo do caminho para a comunidade de mentes, metafora utilizada por Nelson (2005) para explicar o ingresso da crianca no mundo social e cultural.

Um expressivo numero de pesquisas mostra que e preferencialmente o discurso sobre estados mentais nas narrativas das maes que apresenta correlacoes positivas com o desempenho das criancas em tarefas de crenca falsa (Dunn,1991; Maluf & Domingues, 2010; Slaughter, Peterson, & Mackintosh, 2007; Rodrigues & Pires, 2010; Symons, Peterson, Slaughter, Roche & Doyle, 2005; Taumoepeau & Ruffman, 2006). Essas pesquisas avaliam a atividade de contacao de historias das maes, uma vez que esta e considerada uma situacao interessante para a alusao aos estados mentais. Na maior parte desses estudos, as maes sao convidadas a contar aos filhos historias de livros de gravuras, sem texto. As historias das maes sao, entao, analisadas quanto aos termos de estados mentais presentes, sejam cognitivos, emocionais ou perceptivos, e esses indices sao correlacionados com o desempenho dos filhos nas tarefas que avaliam a teoria da mente. A ideia presente nesses trabalhos e a de que a referencia aos estados mentais e a explicacao destes pode afetar o entendimento que as criancas tem da mente.

Seguindo esta linha, Symons et al. (2005) encontraram que comentarios especificos realizados acerca dos estados mentais dos personagens da historia pelas maes relacionaramse positivamente com o desempenho das criancas em tarefas que examinam teoria da mente. Adrian, Clemente e Villanueva (2007), por sua vez, investigaram, em atividades de contacao de historia, o uso de verbos cognitivos pelas maes, como saber e pensar, e a sua relacao com o entendimento da mente pela crianca. Os resultados indicaram que o emprego precoce desses verbos cognitivos pela mae, ao contar historias ao filho, correlacionou-se positivamente com o posterior entendimento deste dos estados mentais. Tambem Slaughter et al. (2007) encontraram, entre os resultados de seu estudo, que o desempenho das criancas em tarefas de teoria da mente correlacionou-se positivamente com o discurso materno sobre cognicao, quando este envolveu o uso de explicacoes, causalidades e contrastes e nao apenas a simples mencao aos termos cognitivos. Os estudos descritos, portanto, utilizam as historias como forma de acesso a influencia linguistica materna e afirmam a potencialidade das narrativas maternas no desenvolvimento sociocognitivo infantil.

Tendo em vista os resultados dessas investigacoes, aliado a carencia de investigacoes brasileiras com esse enfoque, o presente estudo teve por objetivo verificar a relacao existente entre o uso de termos mentais nas narrativas das maes em atividades de contacao de historias e o desempenho das criancas em tarefas que avaliam a teoria da mente.

Metodo

Participantes

Participaram deste estudo 25 duplas de maes e criancas, com idades entre quatro e cinco anos (M= 54,12 meses, DP= 4,94), sendo 12 meninos e 13 meninas, alunos de uma escola da rede privada de Porto Alegre, todos de nivel socioeconomico medio, segundo a classificacao de Hollingshead (1975).

Instrumentos e Materiais

Livros de historias infantis sem texto. As narrativas foram coletadas em tres sessoes de contacao de historias, utilizando-se em cada sessao um livro diferente, sem texto, somente com imagens. Na primeira e na segunda sessao foram utilizados, respectivamente, os livros "O aniversario de Carlos" (Day, 1995) e "Carlos, o bom cachorro" (Day, 1997), ja usados em pesquisas anteriores estrangeiras sobre teoria da mente. O livro "O aniversario de Carlos" apresenta como enredo a preparacao de uma festa surpresa para o cachorro da familia que acaba sendo descoberta pelo bebe e pelo proprio cachorro. Ja o livro utilizado na segunda sessao retrata uma situacao na qual a mae sai de casa e deixa o bebe sob os cuidados do cachorro. Na terceira sessao foi utilizado o livro "Truks" (Furnari, 1998), de uma autora brasileira, escolhido a partir de um estudo piloto realizado com criancas da mesma faixa etaria. O livro foi escolhido, entre outros da mesma autora, por suscitar maior alusao aos termos de estados mentais e apresenta a historia de uma bruxa que faz magias e transforma os animais a sua volta de forma atrapalhada.

Escala de tarefas em teoria da mente. As criancas responderam as seis primeiras tarefas de uma escala de tarefas de teoria da mente (cf. traducao de Domingues, Valerio, Pancieira, & Maluf, 2007), as quais apresentam, sinteticamente, o seguinte conteudo (uma descricao detalhada das tarefas podera ser obtida do primeiro autor):

Tarefa 1: reconhecimento de que as pessoas apresentam desejos diferentes acerca da mesma situacao.

Tarefa 2: reconhecimento de que as pessoas possuem diferentes crencas sobre o mesmo objeto.

Tarefa 3: reconhecimento de que pessoas que nao tem acesso a determinada informacao, possuem uma ideia ou pensamento diferente daqueles que tiveram acesso a informacao.

Tarefa 4: a crianca avalia a crenca falsa de outra pessoa sobre conteudo de um recipiente caracteristico, quando a crianca ja conhece o conteudo do recipiente.

Tarefa 5: esta e a tarefa classica que avalia a crenca falsa. A crianca deve avaliar onde determinado personagem ira procurar um objeto, sendo que o personagem apresenta ma crenca equivocada sobre o local no qual esta inserido o objeto.

Tarefa 6: a crianca deve avaliar como uma pessoa se sente diante de uma crenca equivocada.

Materiais ludicos e graficos. Foram utilizados bonecos, desenhos e tambem outros objetos necessarios para a realizacao de cada tarefa de teoria da mente.

Questionario de dados sociodemograficos. O instrumento foi empregado para a caracterizacao do contexto familiar.

Delineamento e Procedimentos de Coleta de Dados

Utilizou-se um delineamento longitudinal para avaliar a associacao entre as variaveis do estudo: uso de termos de estados mentais nas narrativas maternas e desempenho das criancas na escala de tarefas de teoria da mente.

Os participantes foram selecionados atraves do procedimento de amostragem por conveniencia (Salkind, 1997) sendo que, apos a aceitacao da pesquisa, por parte da escola, a pesquisadora participou das reunioes de pais da faixa etaria escolhida para explicar a pesquisa e convida-los a fazer parte do estudo. Com as familias que aceitaram participar da pesquisa, foi agendada a data para a realizacao das atividades.

As sessoes de contacao de historias aconteceram com um intervalo de cerca de tres semanas, no ambiente escolar, em espaco reservado, sem a presenca da pesquisadora e foram integralmente filmadas. As maes foram convidadas a contar aos filhos a historia do livro especifico de cada sessao, orientadas a narrar do jeito como quisessem e da forma mais natural possivel, como se estivessem em casa. A primeira sessao teve ainda a finalidade de conversar sobre a pesquisa e preencher o instrumento de dados sociodemograficos.

A escala de tarefas de teoria da mente foi aplicada as criancas durante o horario de aula, em salas reservadas, com a utilizacao do material ludico pertinente. Para familiarizacao e formacao de vinculo com as criancas, a pesquisadora participou de atividades de insercao na rotina escolar antes do inicio da coleta de dados, durante o periodo de duas semanas.

O estudo foi aprovado pelo Comite de Etica do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob o no. de protocolo 2008/091 e todas as maes participantes concordaram com o estudo e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido no primeiro encontro com a pesquisadora.

Analise dos Dados

As filmagens das tres sessoes de contacao de historias das 25 duplas de maes e criancas foram transcritas na integra, perfazendo um total de 75 narrativas. Cada uma das narrativas foi analisada de acordo com a ocorrencia dos itens especificados abaixo.

Para o calculo da fidedignidade, dois juizes classificaram, separadamente, 20% das narrativas das maes quanto a referencia aos termos mentais gerais e aos tipos de termos mentais empregados (cf. explicitado abaixo). Os juizes classificaram os termos, separadamente, e suas classificacoes foram comparadas a da pesquisadora para o calculo da fidedignidade. Eventuais diferencas entre eles foram resolvidas por consenso. O indice utilizado entre os juizes foi calculado utilizando-se o ICC (Coeficiente de Correlacao Intraclasses), que gerou um indice classificatorio para cada um dos termos mentais.

Narrativas das Maes

As historias das maes foram analisadas quanto ao numero total de termos de estados mentais (referencia a sentimentos, percepcoes e sentimentos), numero total de termos de estados comportamentais (referencia a acoes) e numero total de termos de estados fisicos (referencia a aspectos fisicos da historia) de acordo com Symon et al. (2005).

Os termos de estados mentais foram classificados tambem em criterios especificos. Foram extraidas todas as falas que incluem conteudos mentais, as quais foram classificadas e quantificadas em relacao a frequencia dos criterios abaixo (cf. Slaugther et al., 2007):

Tarefas de Teoria da Mente das Criancas

Apos a aplicacao das tarefas, as quais contem duas questoes cada, as respostas foram analisadas. Para a resposta ser considerada correta, a crianca deve responder corretamente as duas questoes. A resposta correta corresponde a 1 ponto e a resposta incorreta corresponde a 0. Foram utilizados dois indicadores nessa escala: na tarefa 5, que corresponde a classica tarefa de crenca falsa, a presenca ou ausencia de acertos serviu como indicador da habilidade da crianca de atribuir crenca falsa ao outro; o outro indicador utilizado foi o numero total de acertos obtidos pela crianca, considerando todas as seis tarefas, que pode variar de 0 a 6.

Tratamento estatistico

Foram utilizadas tecnicas estatisticas descritivas e inferenciais. A parte descritiva consistiu de tabelas de frequencia simples e medidas descritivas convencionais. Na parte inferencial, o tipo de tecnicas variou conforme as variaveis selecionadas. O coeficiente de correlacao de Pearson foi utilizado para mensurar o grau de associacao entre as variaveis das narrativas das maes (termos mentais gerais, termos comportamentais e fisicos, bem como os tipos de termos de estados mentais) e os indicadores de teoria da mente da crianca (escore na escala de tarefas de teoria da mente e escore na tarefa de crenca falsa). O teste t de Student foi utilizado para comparacoes entre criancas com ou sem pontuacao na tarefa de crenca falsa. Analises de regressao linear procuraram identificar relacoes de predicao e de explicacao entre as variaveis da narrativa da mae e a teoria mente da crianca.

Resultados

Os resultados sao apresentados em tres partes, com foco nos principais achados obtidos. Os termos mentais totais e os tipos especificos de termos mentais (cognicoes, afetos e percepcoes) compuseram cada um deles um so escore que foi composto pela soma de todos estes indicadores empregados pelas maes em suas narrativas nas tres sessoes de historias.

A Analise Descritiva das Variaveis: Termos Mentais das Maes e Teoria da Mente das Criancas

A tabela 1 mostra a frequencia media e o desvio padrao de termos mentais, comportamentais e fisicos encontrados nas narrativas das maes, nas tres historias utilizadas no estudo. A tabela mostra ainda a frequencia media e desvio padrao dos tipos de termos de estados mentais empregados pelas maes nas tres sessoes de historias e a media e desvio padrao dos totais de termos clarificados e dos totais de termos simples.

Os dados mostram uma grande variabilidade na utilizacao de termos mentais, comportamentais e fisicos pelas maes, durante as historias, assim como na atribuicao de diferentes tipos de estados mentais aos personagens da historia. O desvio padrao elevado evidencia esta variabilidade. As cognicoes clarificadas (M=13,80), seguidas pelos afetos clarificados (M=13,16) e pelas percepcoes simples (M=11,48) sao os tipos de termos mentais mais empregados pelas maes. Notase ainda que a utilizacao de explicacoes pelas maes (termos clarificados) apresenta uma media mais elevada (M=33,56) do que a simples mencao (M=20,36) aos diferentes tipos de termos mentais (termos simples).

No que concerne ao desempenho das criancas na escala de tarefas de teoria da mente, os resultados mostraram as seguintes frequencias: sete criancas acertaram seis tarefas da escala (28%); sete criancas acertaram cinco tarefas da escala (28%); quatro criancas obtiveram escores de quatro tarefas (16%); quatro criancas obtiveram tres acertos na escala (16%); uma crianca acertou duas tarefas (4%); uma crianca acertou uma tarefa (4%) e apenas uma crianca obteve escore zero (4%).

Quanto a frequencia de acertos na tarefa especifica que avalia a crenca falsa, do total de 25 criancas participantes deste estudo, verificou-se que 11 criancas (44%) nao obtiveram exito na tarefa e que 14 criancas (56%) acertaram a tarefa especifica da crenca falsa.

As Historias das Maes e a Teoria da Mente das Criancas na Escala de Teoria da Mente: Correlacoes e Regressoes

A tabela 2 apresenta a correlacao bivariada entre os escores das criancas na escala de tarefas de teoria da mente e o uso de termos de estados mentais nas narrativas das maes.

Foram encontradas correlacoes significativas entre o escore total das criancas na escala de tarefas de teoria da mente e a frequencia de uso de cognicoes clarificadas pelas maes. Alem disso, o uso de termos fisicos e de termos comportamentais pelas maes apresentou correlacao significativa inversa com o desempenho da crianca na escala de tarefas de teoria da mente: quanto mais frequente o uso de termos fisicos e comportamentais pelas maes, menor o escore das criancas na escala de tarefas de teoria da mente. Ainda, a simples mencao de termos cognitivos pelas maes nao apresentou correlacao significativa com o desempenho das criancas na escala; o mesmo ocorreu com relacao ao uso de termos afetivos e perceptivos, simples ou clarificados/ explicados, e a presenca da crenca falsa da personagem mae no final das historias.

Para verificar relacoes de dependencia e explicacao entre as variaveis das maes e das criancas, foi realizada uma analise de Regressao Multipla Stepwise. O objetivo foi verificar se as variaveis da narrativa materna (termos fisicos, comportamentais e cognicoes clarificadas) que apresentaram correlacao com o escore das criancas na escala de teoria da mente tambem seriam preditoras deste desempenho. A tabela 5 mostra o resumo do modelo de regressao realizado, tendo como variavel dependente o escore das criancas na escala de tarefas de teoria da mente e como variaveis independentes as cognicoes clarificadas das maes e a frequencia de emprego de termos fisicos por elas nas historias narradas.

De acordo com a analise empregada, o valor de R (R= 0,702) mostra que a associacao entre as variaveis e forte e que se pode explicar 49,3% ([R.sup.2] = 0,493) das variacoes no escore total da escala de TM das criancas pela frequencia de uso de termos mentais cognitivos clarificados pela mae. Por outro lado, a diminuicao da frequencia de termos fisicos pelas maes tambem apresenta associacao com o escore das criancas na escala de teoria da mente (R= 0,523), mas explica apenas 27% das variacoes deste escore ([R.sup.2] = 0,273). O modelo e os coeficientes foram significativos ao nivel de 1% (p<0,01).

A Analise das Historias das Maes e o Desempenho das Criancas na Tarefa de Crenca Falsa

A tabela 4 mostra a comparacao das medias de variaveis da narrativa materna entre os grupos de criancas que tiveram presenca ou ausencia de pontuacao na tarefa de crenca falsa.

Os resultados indicam que houve diferenca significativa entre o grupo das criancas que acertaram a tarefa que avalia a crenca falsa e a frequencia de utilizacao de termos mentais, de cognicoes clarificadas e de afetos clarificados pelas maes. Comparativamente, no grupo que nao acertou a tarefa, as maes empregaram estes termos com menor frequencia em suas narrativas. Alem disso, o uso de cognicoes simples, afetos simples e percepcoes nao se diferenciou entre os dois grupos avaliados.

Discussao

O presente estudo propos-se a verificar a relacao existente entre o uso de termos mentais nas narrativas maternas, em atividades de contacao de historias, e a teoria da mente da crianca por meio de duas variaveis: o escore na escala de tarefas de teoria da mente e o escore em uma tarefa especifica de crenca falsa.

Os resultados do presente estudo mostraram que as maes das criancas pre-escolares diferenciaram-se na frequencia com que utilizaram os termos mentais em suas historias, no tipo de termos utilizados e no emprego de clarificacoes ou explicacoes a respeito destes. Elas utilizaram uma variedade de termos mentais em suas historias, tanto cognitivos, como afetivos ou perceptivos. A literatura da area (Adrian et al., 2007; Domingues & Maluf, 2013; Maluf & Domingues, 2010; Rodrigues & Pires, 2010; Slaughter et al., 2007; Taumoepeau & Ruffman, 2006) tem afirmado esta variabilidade no discurso materno quanto a referencia aos estados mentais, indicando que quanto mais frequente e o emprego dos termos mentais por parte dos membros da familia, especialmente das maes, mais avancada e a teoria da mente das criancas.

A Relacao entre o Emprego de Termos Mentais pelas Maes e a Teoria da Mente das Criancas

Os resultados do presente estudo mostram que as variacoes no discurso narrativo das maes quanto a utilizacao dos diferentes tipos de termos mentais (cognitivos e afetivos) estao associadas a diferencas individuais na aquisicao da teoria da mente das criancas. Os resultados das analises mostram correlacoes significativas e positivas entre os termos mentais empregados pelas maes, que no caso sao os termos cognitivos clarificados, e as duas medidas de teoria da mente das criancas, o escore total da escala de tarefas de teoria da mente e a tarefa especifica de crenca falsa. As criancas cujas maes apresentaram frequencia mais elevada de utilizacao dos termos mentais cognitivos clarificados demonstraram melhor desempenho na escala de tarefas de teoria da mente e, ainda, na tarefa especifica que avalia a crenca falsa.

Adrian et al. (2007) investigaram o emprego especifico de verbos cognitivos pelas maes durante uma atividade de leitura compartilhada de historia com seus filhos, em dois momentos distintos, com intervalo de um ano entre eles. Eles encontraram correlacoes positivas entre o entendimento de estados mentais pelas criancas e o uso de verbos cognitivos pelas maes, nos dois tempos do estudo. Alem disso, os dados forneceram evidencias longitudinais para supor que o uso de verbos cognitivos pelas maes, em idades precoces, constituise em um fator critico para o desenvolvimento posterior da teoria da mente das criancas. Outras investigacoes referendam esse resultado, isto e, de que sao as cognicoes, mais do que outros termos mentais que auxiliam as criancas no desenvolvimento e no avanco da teoria da mente (Adrian et al., 2007; Slaughter et al., 2007; Symons et al.,2005).

Entre os termos mentais, as cognicoes clarificadas mostraram-se ainda, no presente estudo, como o fator preditivo para o desempenho positivo na escala de tarefas de teoria da mente, que inclui a tarefa de crenca falsa, como assinalado na analise de regressao efetuada. Elas explicam grande parte da variabilidade no desempenho da teoria da mente das criancas. O mesmo ocorreu na pesquisa de Slaughter et al. (2007), cujos resultados mostraram correlacoes estatisticas significativas entre os escores de crenca falsa das criancas e o uso frequente de cognicoes clarificadas nas historias contadas por suas maes. Tambem no estudo referido, alem da correlacao entre as variaveis, as cognicoes clarificadas no discurso da mae contribuiram significativamente para explicar a variabilidade na teoria da mente das criancas.

Alem da associacao entre os termos mentais cognitivos empregados pelas maes e o desempenho das criancas na escala de teoria da mente e na tarefa de crenca falsa, os resultados do presente estudo tambem indicaram correlacoes entre o uso de termos mentais gerais e os termos mentais afetivos (1) clarificados das maes e o desempenho das criancas na tarefa especifica que avalia a crenca falsa. Isto e, o grupo de criancas que apresentou respostas corretas nessa tarefa teve tambem uma frequencia mais alta de afetos clarificados nas narrativas maternas, alem das cognicoes clarificadas. A esse respeito, apesar da importancia das cognicoes nos resultados de um numero expressivo de pesquisas, incluindo esta, ha outros estudos que sugerem que o discurso dos pais com emprego frequente de uma variada amplitude de termos mentais, incluindo as emocoes e desejos, alem das crencas, contribuiria nao somente para o sucesso das criancas na tarefa de crenca falsa, mas tambem para o exito em tarefas que avaliam o entendimento da emocao e de outros termos mentais (Adrian et al., 2007; Domingues & Maluf, 2013, Dunn, Brown, & Beardsall, 1991; Taumoepeau & Ruffman, 2006). Rosnay, Pons, Harris e Morrel (2004) ratificam essa afirmacao ao pontuarem que existe uma relacao difusa e compartilhada entre os diversos termos mentais do discurso materno e o entendimento emocional e cognitivo das criancas. Para esse autor, esses dois campos nao se constituem em dominios especificos, ou seja, nao e o discurso sobre emocao que promoveria o entendimento da emocao e o discurso cognitivo que levaria ao entendimento cognitivo. Ambos estao articulados e se influenciam mutuamente. Essa posicao de cautela com relacao a separacao entre cognicao e emocao e feita por Souza (2008), ao reproduzir as palavras de Astington (2003, p. 34): "compreender estados cognitivos, como perceber que alguem e ignorante ou esta enganado, e insuficiente para determinar como se comportar diante da pessoa. E preciso compreender tambem como eles se sentem em relacao a situacao".

Os resultados do presente estudo reforcam a posicao dos autores citados no que concerne ao papel dos dois tipos de termos mentais, cognitivos e afetivos, ja que ambos os termos, seguidos de clarificacoes, se associaram a teoria da mente das criancas (tarefa de crenca falsa e escala de tarefas). Assim como neste estudo, a literatura da area da importancia as clarificacoes, ao sugerir que a tendencia a explicitar os termos mentais, seja estabelecendo relacoes de causalidade ou contrastando diferencas entre as pessoas e/ ou a realidade, estaria mais associada ao desenvolvimento da teoria da mente do que a simples mencao a eles (Gallo-Pena & Maluf, 2013; Slaugther et al., 2007; Ruffman et al., 2002). Dunn (1996), na decada de noventa, ja havia encontrado que o uso de expressoes cognitivas com explicita diferenciacao entre estados mentais das pessoas, ou entre estados mentais e realidade correlacionou-se com o escore de crenca falsa das criancas. Ruffman et al. (2002) sugeriu tambem que conversas entre pais e filhos, ricas em explicacoes causais para os estados mentais, estariam intimamente relacionadas com a compreensao da teoria da mente das criancas.

Os resultados encontrados por Slaughter et al. (2007), similares aos previamente citados e a este, referentes as associacoes entre teoria da mente e uso de explicacoes para os estados mentais dos personagens, presentes nas interacoes linguisticas entre maes e criancas, mostram que as explicacoes ampliam a percepcao da crianca sobre diferentes perspectivas e pontos de vista, favorecendo o desenvolvimento sociocognitivo e da teoria da mente. Nas opinioes de Slaughter et al. (2007), Nelson (2006) e Astington (2001), e dificil para as criancas compreenderem pensamentos que sao discrepantes da realidade ou diferentes entre as pessoas, a menos que isso seja clarificado pelos pares, ao direcionarem sua atencao para estas questoes e para o entendimento dos estados cognitivos que nao sao observaveis diretamente. Por meio das clarificacoes/explicacoes, os pais podem favorecer estas compreensoes, explicando como os estados mentais relacionam-se ao comportamento, o que forneceria, portanto, suporte para a construcao de uma teoria da mente.

Por fim, o fato de que as cognicoes clarificadas foram os termos mais empregados pelas maes nas historias narradas aos filhos e consistente com o desenvolvimento do entendimento da mente pelas criancas nesta faixa etaria. Como afirmam os pesquisadores (Deleau, Maluf, & Panciera, 2008; Lyra, Roazzi, & Garvey, 2008; Panciera, 2007; Roazzi & Santana, 1999; Rodrigues, Pelisson, Silveira, Ribeiro, & Silva, 2015; Wimmer & Perner, 1983), e em torno dos quatro e cinco anos que as criancas sao capazes de compreender que as pessoas possuem diferentes pensamentos, crencas ou ideias sobre os fatos e que estes aspectos governam seus comportamentos. As maes parecem tender a ajustar seu vocabulario a habilidade de entendimento das criancas, o que tambem ja foi assinalado por estudos anteriores (Adrian et al., 2007; Gallo-Pena & Maluf, 2013; Taumoepeau & Ruffman, 2006). Essas ponderacoes tambem podem explicar o fato de que, neste estudo, foram encontradas correlacoes negativas entre o uso de termos fisicos e comportamentais pelas maes em suas historias e o desempenho das criancas em teoria da mente. Ou seja, quanto mais as maes empregaram este tipo de termo, menos as criancas tiveram exito na tarefa de crenca falsa. Isso mostra que as maes da presente pesquisa ajustaram-se as necessidades das criancas que, neste momento, parecem necessitar discutir estados mentais para avancarem em seu entendimento da teoria da mente.

Conclusoes

Este estudo traz algumas contribuicoes. A primeira diz respeito ao importante papel desempenhado pelo emprego de termos mentais nas narrativas de maes para o desenvolvimento da teoria da mente das criancas. Os termos mentais gerais das maes se correlacionaram com a tarefa de crenca falsa. Todavia, quanto aos tipos de termos mentais, sao especificamente os termos mentais clarificados, tanto afetivos quanto cognitivos, que sao os responsaveis pela correlacao com a teoria da mente. Esse resultado tambem tem sido encontrado em estudos internacionais (Slaughter et al., 2007; Taumoepeau & Ruffman, 2008) e em estudos brasileiros (Gallo-Pena & Maluf, 2013) que observam que so a mencao aos termos mentais nao e suficiente para o avanco da teoria da mente das criancas, e importante que os termos sejam seguidos de explicacao.

Em especial, destaca-se o emprego das cognicoes clarificadas para o desenvolvimento da teoria da mente das criancas. Esses resultados, que tambem aparecem na literatura internacional (Adrian et al., 2007; Slaughter et al., 2007; Tamoepeau & Ruffman, 2008), fornecem subsidios para que se possa considerar a importancia das cognicoes clarificadas nas historias das maes como fator que pode favorecer e contribuir para a habilidade de compreensao dos estados mentais tambem em criancas brasileiras.

A contacao de historias pode ser considerada, de acordo com os resultados desta pesquisa, como uma ferramenta interessante para incentivar o desenvolvimento infantil da teoria da mente das criancas. Por ser um momento privilegiado para a discussao sobre termos mentais, a contacao de historias poderia ser estimulada nos principais contextos de educacao infantil, como a familia e a escola, a fim de favorecer o desenvolvimento sociocognitivo infantil.

Em termos metodologicos, e importante ressaltar o acerto no emprego de tres sessoes de historias, cada uma com um livro diferente, procedimento inovador, entre os trabalhos da area. As tres sessoes de historias permitiram o surgimento de resultados interessantes, pois houve maior possibilidade das maes se expressarem e, deste modo, aportarem um numero expressivo de estados mentais.

Uma limitacao deste estudo a ser superada em pesquisas futuras e a ampliacao do numero de participantes e o emprego de medidas de controle relacionadas ao desenvolvimento linguistico das criancas. Com esse procedimento, poderse-ia averiguar como os aspectos linguisticos interferem no desempenho na escala de tarefas de teoria da mente.

doi: http://dx.doi.org/10.1590/0102.3772e32427

Referencias

Adrian, J., Clemente, A. & Villanueva, L. (2007). Mothers' use of cognitive state verbs in picture-book reading and the development of children's understanding of mind: A longitudinal study. Child Development, 78(4), 1052-1067.

Baron-Cohen, S., Tager-Flusberg, H., & Cohen, D. (1994). Understanding other minds: Perspectives from autism. New York: Oxford University Press.

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(1) Na classificacao dos tipos de termos mentais utilizada no presente trabalho (Slaughter et al, 2007), os autores empregam o termo afetivo para designar emocoes, sentimentos, desejos e intencoes.

Recebido em 12.07.2013

Primeira decisao editorial em 14.02.2015

Versao final em 24.08.2015

Aceito em 31.08.2015

Greicy Boness de Araujo (1)

Tania Mara Sperb

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Helio Radke Bittencourt

Pontificia Universidade Catolica do Rio Grande do Sul

(1) Endereco para correspondencia: Av. Pirapo 206/202, Bairro Petropolis, Porto Alegre, RS, Brasil. CEP. 90470-450. E-mail: greboness@hotmail.com.
Tabela 1. Estatisticas descritivas das ocorrencias para as
variaveis das narrativas maternas (n=25)

Variaveis                         Media    DP

Total de Termos mentais           54,24   15,12
Total de Termos comportamentais   88,84   30,77
Total de Termos fisicos           44,32   25,56
Cognicoes simples                  1,96    1,65
Cognicoes clarificadas            13,80    7,27
Afeto simples                      6,92    4,22
Afeto clarificado                 13,16    5,01
Percepcao simples                 11,48    4,21
Percepcao clarificada              6,60    3,16
Crenca falsa final                 1,00    0,76
Total de termos mentais simples   20,36    6,72
Total de termos clarificados      33,56   11,65

Tabela 2. Coeficientes de correlacao de Pearson entre as
variaveis da narrativa materna e o escore total das criancas na
escala de tarefas de teoria da mente (n=25)

                                  Escore teoria da
                                   mente criancas

Escore teoria da mente criancas        1,000
T. mentais mae                         0,207
T. comportamentais mae               -0,437(*)
T.fisicos mae                        -0,523(**)
Cognicoes simples mae                  0,097
Cognicoes clarificadas mae            0,495(*)
Afetos simples mae                     -0,152
Afetos clarificados mae                0,160
Percepcoes simples mae                 -0,023
Percepcoes clarificadas mae            0,137
Crenca Falsa Final Historia Mae        0,001

Notas. * Correlacao significativa ao nivel de significancia de 5%
(p<0,05) ** Correlacao significativa ao nivel de significancia de
1% (p<0,01)

Tabela 3. Resumo da analise de regressao entre as variaveis da
narrativa materna e o escore total das criancas na escala de
tarefas de teoria da mente

Variavel Preditora            Beta      R      R2       P

Cognicoes Clarificadas Mae   0,469    0,702   0,493   0,005
Termos fisicos Mae           -0,499   0,523   0,273   0,003

Tabela 4. Teste t de Student para comparacao das medias das
variaveis da narrativa materna de acordo com a presenca ou
ausencia de pontuacao na tarefa de crenca falsa (n=25)

Variaveis                 N    Crenca   Media      DP      Valor
                               falsa                       de p

Termos mentais            11    Nao     47,730   11,680   0,046*
                          14    Sim     59,360   15,911

Cognicoes simples         11    Nao     1,910    1,221     0,894
                          14    Sim     2,000    1,961

Cognicoes clarificadas    11    Nao     9,000    4,405    0,002**
                          14    Sim     17,570   6,914

Afetos simples            11    Nao     7,090    4,482     0,862
                          14    Sim     6,790    4,173

Afetos clarificados       11    Nao     10,910   2,625    0,044*
                          14    Sim     14,930   5,784

Percepcoes simples        11    Nao     12,090   4,415     0,532
                          14    Sim     11,000   4,151

Percepcoes clarificadas   11    Nao     5,450    2,339     0,110
                          14    Sim     7,500    3,503

Crenca falsa final        11    Nao     1,090    0,831     0,608
                          14    Sim     0,930    0,730

Notas. * Diferenca significativa entre medias ao nivel de 5% (p<0,05)
** Diferenca significativa entre medias ao nivel de 1% (p<0,01)

Tabela 5. Classificacao quanto aos tipos de estados mentais (adaptado
de Slaughter et al, 2007)

Termos mentais             Definicoes

Cognicoes simples          Nomes, verbos ou adjetivos simplesmente
                           descrevendo atos mentais de pensamento ou
                           raciocinio, sem a elaboracao sobre os
                           conteudos ou causas para aqueles estados
                           mentais. Ex: ele pensou.

Cognicoes clarificadas     Frases ou sentencas esclarecendo estados
                           mentais cognitivos. Ex: ela nao viu o jogo,
                           assim ela nao sabera quem ganhou.

Afeto simples              Nomes, verbos ou adjetivos simplesmente
                           nomeando sentimentos, emocoes, desejos,
                           intencoes, sem explicar a respeito destes.
                           Ex: o bebe esta feliz.

Afeto clarificado          Frases ou sentencas clarificando estados
                           afetivos. Ex: ele esta feliz que mamae esta
                           finalmente em casa.

Percepcao simples          Frases ou sentencas descrevendo estados ou
                           processos relativos a percepcao ou atencao.
                           Ex: Ele viu pela janela.

Percepcao clarificada      Frases ou sentencas clarificando estados de
                           atencao ou percepcao. Ex: Olhou pela janela
                           para ver a mamae

Somatorio Termos Mentais   Somatorio dos termos mentais de todas as
                           tres historias.
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Title Annotation:ARTIGO ORIGINAL
Author:de Araujo, Greicy Boness; Sperb, Tania Mara; Bittencourt, Helio Radke
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Date:Oct 1, 2016
Words:6603
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