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Medidas repetidas de suporte familiar e saude mental em maes de criancas em UTI pediatrica.

Family Support and Mental Health in Mothers of Children in a Pediatric ICU

A qualidade das relacoes familiares esta associada ao ajustamento emocional e comportamental de seus membros. Os processos de relacoes interpessoais familiares devem ser avaliados, considerando o ambiente intra-familiar, o ambiente que a cerca (extrafamiliar) e as modificacoes sociais pelas quais a mesma passa (Hill, Fonagy, Safier & Sargent, 2003).

O conceito de suporte social e fundamental para definir a qualidade das relacoes familiares. O suporte social compreende um importante recurso que envolve transacoes interpessoais, relacionadas a conjuntura emocional, ao auxilio instrumental e as informacoes ou estimativas para a aplicacao de mecanismos de enfrentamento na reducao dos efeitos estressores negativos sobre os individuos envolvidos nessas interacoes, durante situacoes de conflitos diversas (Carlson & Perrewe, 1999). Nesse sentido, considera-se o suporte familiar como um dos recursos que compreendem a sistematica do suporte social. O suporte familiar apresenta-se como um construto de dificil operacionalizacao, em razao da falta de consenso dos termos e de embasamento teorico diversos utilizados em sua formulacao (Bray, 1995). De forma geral, pode ser considerado como um construto promissor no sentido de estar associado diretamente a saude mental e ao amortecimento de eventos negativos da vida (Harris & Molock, 2000; McCurdy & Daro, 2001; Jaccard & Ramey, 2001; Miller & Darlington, 2002; Baider, Ever-Hadani, Goldzweig, Wygoda & Peretz, 2003).

O suporte familiar pode ser compreendido por meio da constituicao das suas dimensoes, tais como comunicacao, conflito, resolucao de problemas, afetividade, vinculos, intimidade, individuacao, consistencia de regras, autonomia, dentre outras (Bray, 1995). Por essa razao, apresentam-se as descricoes das medidas de analise que constituem o Inventario de Suporte Familiar (IPSF) utilizado neste trabalho, para que se tenha a compreensao do construto de suporte familiar avaliado nesta pesquisa, denominado Inventario de Percepcao de Suporte Familiar (IPSF). Baptista (2005) define o suporte familiar de acordo com dimensoes encontradas no desenvolvimento de seu instrumento. A dimensao Afetivo-Consistente do IPSF e definida como o vinculo emocional que os membros da familia possuem uns com os outros, sendo composta por limites, coalizoes, disponibilidade de tempo em conjunto, tomada de decisoes, interesses e recreacoes, apresentando o carater da clareza nos papeis e regras dos integrantes da familia, bem como a habilidade nas estrategias de enfrentamento de situacoes-problema. A segunda dimensao Adaptacao Familiar refere-se a expressao de sentimentos positivos em relacao a familia, como inclusao, compreensao, sentimento de pertenca, dialogo, respeito, entre outros. A terceira dimensao, Autonomia Familiar, considera a percepcao de autonomia que o individuo tem de sua familia, o que denota relacoes de confianca, privacidade e liberdade entre os membros da familia.

O suporte familiar parece estar associado tambem a saude mental de cuidadores de individuos acamados. Miller e Darlington (2002) salientam a importancia da identificacao de quem presta suporte ao cuidador/familiar, caracterizando diversas relacoes, dentre elas: as parentais (pais, filhos); de outros familiares (tios, avos, etc.); amigos, vizinhos ou outros membros da comunidade e dos servicos formais de cuidado a crianca para a promocao de saude mental aos cuidadores. Quanto ao funcionamento familiar na area da saude, Ross e Mirowsky (2002) acrescentam que o suporte familiar tambem esta diretamente relacionado com o aumento do senso de seguranca para a sobrevivencia em individuos com constantes crises de saude. Tomandose como base a proposta do estudo em questao, acrescenta-se a relevancia da consideracao da saude mental do cuidador.

Johnson et al. (1995) afirmam a possibilidade da discriminacao de mudancas quanto aos papeis desenvolvidos e responsabilidades nos membros familiares durante um periodo de doenca critica, como a hospitalizacao de criancas em UTI. Board e Ryan-Wenger (2002) estudaram os efeitos a longo prazo da hospitalizacao em UTIP no que diz respeito ao funcionamento familiar. Para tal, compararam familias de criancas na UTIP, familias comcriancas hospitalizadas em unidades de cuidado geral e familias de criancas doentes mas nao hospitalizadas. As familias foram acompanhadas por um periodo de seis meses apos a doenca da crianca. Os resultados indicaram que o estresse dos pais dura bastante tempo apos a hospitalizacao e que as familias se percebem como mais disfuncionais que antes da hospitalizacao.

Outros estudos longitudinais, como os de Youngblut e Shiao (1993), Tomlinson Harbaugh, Kotchevar e Swanson (1995); Balluffi, KassamAdams, Kazak, Tucker, Dominguez e Helfaer (2004); Youngblut e Lauzon (1995); e, Board e Ryan-Wenger (2003), em ambientes de UTIP, demonstraram que pais de criancas hospitalizadas sofrem mudancas comportamentais fisicas e psicologicas, presumiveis diante do estresse vivenciado. Relacionam, dentre as variaveis para o controle desses comportamentos, o suporte social e familiar, o tempo de hospitalizacao, a gravidade do quadro da doenca da crianca e os dados sociodemograficos, entre outros aspectos.

Craft, Buckwalter, Nicholson e Megivern (1993) referem que a hospitalizacao de pacientes criticamente enfermos torna-se estressante para os familiares que por sua vez podem responder a este evento, apresentando uma crise.. A resposta do individuo em situacoes de crise, ou seja, a perturbacao apresentada neste momento pode envolver tambem, segundo Freeman e Dattilio (2004), respostas ou sintomas de ansiedade e depressao, ou seja, o comprometimento de saude mental, alem da fisica. Em reacoes consideradas como mais graves, pode ocorrer uma desorganizacao generalizada em termos de capacidade reduzida para solucionar problemas, como a confusao cognitiva (pensamentos distorcidos), comportamental (acao de modo aleatorio e nao habitual) ou emocional (labilidade).

Balluffi et al. (2004) avaliaram a prevalencia de desordens de estresse agudo e pos-traumatico em pais cujas criancas foram internadas em UTIP. Os resultados encontrados apontaram que 32% dos 272 pais avaliados preencheram os criterios para o diagnostico de estresse agudo e 21% dos 161 pais que foram avaliados um tempo apos a internacao preencheram os criterios para o diagnostico de desordem de estresse pos-traumatico.

Youngblut e Shiao (1993), ao avaliarem as reacoes da familia de criancas criticamente enfermas, em um estudo de levantamento com duas medidas durante 24 horas apos a admissao e apos a alta da UTI (duas a quatro semanas), acabaram por concluir que a admissao da crianca nesta unidade e estressante para pais, independente da gravidade da doenca. Os participantes deste estudo compreenderam nove maes e pais de criancas de cinco anos de idade e os resultados apontaram que a percepcao da mae sobre sua familia, como em relacao ao funcionamento e a coesao entre os membros da mesma, podem ser negativamente afetados, sendo que estes efeitos podem tambem afetar e comprometer a saude da crianca.

Segundo Baldini, Krebs, Ceccon e Vaz (1998), em uma revisao da literatura que realizaram em relacao as reacoes dos pais quanto a internacao da crianca em UTIP, foram observadas as seguintes fases e respostas comportamentais: primeira (aproximadamente doze horas apos a admissao)--passam por periodo de choque, acompanhado pelo sentimento de falta de esperanca, comportamentos de insonia etc.; segunda (continuidade da crise anterior), com repeticao destes sintomas por varios dias, aumentando os sinais de ansiedade e prejudicando o contato com o filho enfermo, e a terceira fase, denominada de expectativa, com duracao de horas ou dias que correspondem ao periodo no qual a crianca se encontra estavel, porem sem apresentar uma melhora clinica significativa. Durante todas as fases podem ocorrer sentimentos de raiva, reacoes hostis contra a equipe de saude em algumas familias e passividade em outras, alem da culpa e falta de esperanca, experimentados na primeira fase. Concluem que reacoes como as de pais que se apresentam reativos, dependentes, discordantes, hostis, autoritarios, exigentes, desconfiados e nao colaboradores, acabam por afetar a comunicacao entre os mesmos e a equipe medica, comprometendo ainda mais estas relacoes.

Respostas comportamentais de membros familiares (uma amostra de conveniencia de 52 participantes) durante hospitalizacoes de pacientes com doencas criticas em UTI foram avaliadas pela escala Iowa ICU Family Sacale (IIFS), diariamente durante a primeira semana de internacao (Halm, Titler, Kleiber, Johnson, Montgomery, Craft, Buckwalter, Nicholson & Megern, 1993). Este questionario mede atividades em geral (de sono, comer, papel familiar, comportamentos de suporte) e os locais analisados foram: UTI Neonatal, UTIP, UTI Adulto-Cirurgica, UTI Adulto-Geral e UTI Cardiaca. Os dados obtidos advertiram para uma diminuicao dos comportamentos de comer, acrescimo de atividades nao habituais e diminuicao das habituais, surgimento de nausea e insonia, aumento do consumo de cigarros, bebidas alcoolicas e necessidades de medicamentos diversos, assim como passar a maior parte do tempo visitando o paciente ou esperando para ve-lo. Reacoes de estresse mantiveram-se altas desde o momento da admissao e atingiram seu pico no sexto dia de internacao. Concluem que a avaliacao dos familiares deve ser realizada, logo apos a admissao em unidades de cuidados criticos, pelo alto risco no comprometimento de sua saude mental.

Mudancas nos comportamentos de cuidadoras de criancas hospitalizadas em UTIP, de um centro terciario, foram investigadas por Tomlinson et al. (1995). A amostra compreendeu 20 familiares que foram examinados em relacao a relatos de mudancas fisicas, saude mental, papel e funcionamento social e alteracoes em comportamentos considerados saudaveis entre o terceiro e setimo dia apos a internacao e nove semanas apos a alta hospitalar, por meio do instrumento Medical Outcomes Study Short-Form-General Health Survey (MOS) para a medida de saude geral. Observou-se por meio das medidas um declinio nos escores da saude mental das cuidadoras, embora nas duas me didas os resultados indicassem comprometimento significativo deste aspecto avaliado. Nas mudancas de status de saude familiares, 70% dos participantes apresentaram condicoes de infeccoes, dores de cabeca, ulceras e problemas na pele, na segunda medida. Dentre as alteracoes nos comportamentos de saude dos familiares estavam mudancas no sono e alimentacao que apresentaram uma correlacao positiva com problemas na avaliacao de saude mental materna. Quanto ao funcionamento familiar e social nao houve diferencas significativas e os resultados apontam tambem que as mudancas na saude mental das maes tambem nao foram significativas quando comparadas a saude dos demais membros familiares, mas apenas quando associadas a cronicidade do quadro clinico das criancas. Sugere-se que o risco para a alteracao de comportamentos desta amostra possa estar relacionado a vulnerabilidade para problemas de saude em situacoes de cuidados criticos para com a saude.

Sendo assim, este estudo teve como objetivo avaliar a percepcao do suporte familiar e a saude mental de maes de criancas internadas em UTI pediatrica de um hospital-escola, em quatro momentos distintos. Desta forma, se tratou de um delineamento descritivo e longitudinal.

Metodo

Participantes

As participantes foram 14 maes que tinham seus filhos internados na UTIP do Hospital das Clinicas de uma universidade estadual do interior de Sao Paulo (Brasil), assistidas pelo Sistema Unico de Saude (SUS), residentes na regiao de Campinas, com as seguintes caracteristicas: 64% (n=9) da amostra compreenderam a faixa etaria dos 18 aos 30 anos; a media de idade entre todas as participantes foi de 30,85 anos; 71,6% (n=10) possuiam escolaridade do ensino fundamental completo/incompleto; 64,3% (n=9) apresentaram renda familiar mensal acima de US$ 540; e 57,1% (n=8) das participantes eram casadas ou amasiadas. A pesquisa iniciou-se com 35 participantes e finalizou-se com 14 participantes que responderam todas as medidas. O tempo de avaliacao das medidas correspondeu ha seis meses. A reducao do numero de participantes desde o inicio do estudo deveu-se aos criterios de inclusao (maioridade legal; alfabetizacao; vinculacao legal com a crianca; primeira internacao hospitalar em UTIP; tempo de hospitalizacao no setor nao exceder 12 dias e nao ser inferior a cinco dias; e residir na regiao, de acordo com o procedimento de aplicacao do estudo), criterios de exclusao (utilizacao, nos ultimos dois meses, de algum tipo de medicamento psicoativo e diagnostico psiquiatrico realizado por um profissional de saude no periodo) e aquelas que nao responderam todos os instrumentos (principalmente a ultima aplicacao, que era respondida via correspondencia).

Instrumentos

Ficha de Caracterizacao: Tratou-se de um roteiro de entrevista estruturado pelos autores deste trabalho, com questoes abertas e fechadas referentes aos dados sociodemograficos das participantes. Objetivou ainda, averiguar a compreensao das maes sobre o motivo da hospitalizacao e informacoes sobre a doenca.

Inventario de Percepcao de Suporte Familiar --O Inventario de Percepcao de Suporte Familiar (IPSF) foi desenvolvido e validado por Baptista (2005, 2007), possui 42 itens e tres dimensoes, a saber, Afetivo-Consistente, Adaptacao Familiar e Autonomia Familiar. As questoes, todas fechadas, sao respondidas em uma escala de tres pontos, modelo Likert de sentido e pontuacao crescente: 0 = "Quase Nunca ou Nunca", 1 = "As vezes" e 2 = "Quase Sempre ou Sempre". Quanto maior a pontuacao de todas as dimensoes desta escala, melhor e o suporte familiar na percepcao do participante. O IPSF possui validade de construto, por intermedio de analise fatorial, sendo que os itens foram selecionados com carga fatorial minima de 0,30, eingevalues acima de 1,0 e variancia total explicada de 41,43% nas tres dimensoes. Diversos estudos de validade de criterio foram desenvolvidos no Brasil com o IPSF e o inventario demonstrou discriminar as pontuacoes em grupos diversos, tais como presidiarios, drogaditos e universitarios (Baptista, Alves, Souza, Lemos, no prelo). O IPSF tambem demonstrou validade baseada na relacao com outras variaveis com o questionario de saude mental de Goldberg--GHQ (Souza, Baptista & Alves, no prelo); locus de controle e auto-eficacia (Baptista, Alves & Santos, 2008); depressao, personalidade, qualidade de vida, estilos paren tais (Santana, 2008; Dias, 2008), suporte social e autoconceito (Rigotto, 2006), dentre outras. Em relacao a confiabilidade, o IPSF demonstrou ter indices bastante aceitaveis, variando de 0,78 a 0,91 para as dimensoes e 0,93 para a escala total (Cronbach) e para teste-reteste variando de 0,78 a 0,97 (Spearman), (Baptista, 2007; Baptista & Dias, 2007).

Questionario de Saude Geral (GSQ)--Desenvolvido por Goldberg e adaptado e validado para a populacao brasileira por Pasquali, Gouveia, Andriola, Miranda e Ramos (1996), esse questionario indica a presenca e discrimina a severidade de disturbios psiquiatricos. E constituido por cinco dimensoes especificas de saude mental, quais sejam: stress psiquico, desejo de morte, desconfianca no desempenho, disturbios do sono e disturbios psicossomaticos. E composto por 60 questoes fechadas com quatro itens de respostas sobre sintomas psiquiatricos nao psicoticos, respondidas em uma escala de quatro pontos, padrao Likert e com sentido crescente: 1 = "Menos do que do costume" a 4 = "Muito mais do que de costume", com graus intermediarios. O ponto de corte entre o nivel sintomatico de disturbios psiquiatricos e o nao sintomatico, no sistema padrao de apuracao, se situa entre 39 e 40 pontos para a escala de valores zero, um, dois, tres. Compreende-se, desse modo, que quanto maior a pontuacao, mais comprometida estara a saude mental. O QSG possui validade de construto com uma amostra brasileira (N=902), com cargas fatoriais acima de 0,30, eigenvalues acima de 1,5, sendo que os 60 itens obtiveram um alfa de Cronbach de 0,95 e as dimensoes explicaram 44% da variancia total explicada.

Apos a aprovacao do projeto pelo Comite de Etica do hospital, o procedimento para coleta de dados teve inicio. O processo de levantamento de dados da pesquisa compreendeu quatro momentos de avaliacao, a saber: primeiro momento: apos a verificacao diaria das novas admissoes na unidade, por meio dos prontuarios das criancas hospitalizadas no setor, entrava-se em contato com as maes, a partir do segundo dia de internacao hospitalar de suas criancas. Nesse momento, as participantes eram convidadas para fazer parte da pesquisa e eram aplicados todos os instrumentos de medidas; segundo momento--as maes que permaneceram com seus filhos hospitalizados entre o quinto e o sexto dia de internacao na unidade eram novamente avaliadas pelo IPSF e o QSG; terceiro momento--ocorreu apos sete dias da alta hospitalar ou para as maes de criancas ainda hospitalizadas na enfermaria de pediatria; quarto momento--realizado apos o periodo de um mes de pos-alta hospitalar da unidade de terapia intensiva, por meio de correspondencia. Os criterios para o estabelecimento das avaliacoes realizadas no segundo e terceiro momentos foram discutidos com a equipe de saude do local, considerando-se o tempo medio de hospitalizacao no setor. Para as maes das criancas que tiveram alta hospitalar, nesse periodo, as avaliacoes ocorreram em suas residencias ou por correspondencias.

Resultados

Para a analise descritiva dos resultados utilizouse o programa SPSS (Statistical Package for Social Sciences) versao 13. Para o exame inferencial dos dados coletados foram utilizados os seguintes testes: Mann-Whitney (U) para comparacao entre dois grupos, Teste de Correlacao de Spearman (r) e teste de Friedman ([C.sup.2.sub.r]) para avaliacao da variacao das medidas nos momentos de coleta de dados, com nivel de significancia de p [menor que o igual a] 0,05.

Os dados coletados demonstram que todas as participantes tinham informacoes sobre a doenca, o motivo que levou a hospitalizacao da crianca e o tipo de tratamento ao qual a crianca estava sendo subme tida na UTIP. No tocante aos aspectos sociodemograficos avaliados, de acordo com o teste estatistico Mann-Whitney, observou-se nao existir diferenca estatistica entre a percepcao de suporte familiar e a saude mental quando associadas as seguintes variaveis relacionadas as maes: idade (menor que 30 anos / de 31 anos a 50 anos) mostrando-se limitrofe no IPSF (U=9,000; p=0,072), para o grupo de participantes mais velhas e QSG (U=11,000; p=0,125); escolaridade (ensino fundamental completo/incompleto versus ensino medio ou superior completo/incompleto) - IPSF (U= 18,000; p=0,777) e o QSG (U=14,000; p=0,396); renda familiar (ate US$ 361 e acima que US$ 361)--IPSF (U=19,000; p=0,641) e QSG (U= 18,500; p=0,593); estado civil (casadas, incluindo as amasiadas e solteiras, incluindo divorciadas e viuvas)--IPSF (U=6,000, p=0,280) QSG (U=13,000; p=0,205). O resultado da variavel estado civil demonstrou uma diferenca significante para autonomia familiar (U=8,000; p=0,05) e Afetivo-consistente (U=7,000; p=0,039) na percepcao de suporte familiar entre solteiras e casadas, observando-se pontuacao maior desta dimensao para as casadas.

Nota-se na Tabela 1 que em nenhuma das dimensoes do IPSF, tampouco quanto ao em seus resultados totais, houveram diferencas significativas para os momentos da coleta de dados. Desse modo, verificou-se que nao houve variacao na percepcao do suporte familiar ao longo dos periodos de avaliacao para essa amostra.

Observando-se o teste de variancia de Friedman na media das dimensoes do QSG, notou-se a ocorrencia de uma diminuicao dos escores nos primeiros momentos de coleta e, consequentemente, verificou- se uma diferenca significativa como demonstra a Tabela 2. Ressalta-se ainda, que houve uma acentuada diminuicao entre o segundo e terceiro momentos de avaliacao e um pequeno aumento da escoragem entre o terceiro e quarto momentos. Do mesmo modo, verificou-se que, entre as dimensoes do QSG, tambem ocorreu uma diferenca significativa para os escores apresentados pelos fatores de estresse psiquico, desejo de morte e disturbios psicossomaticos. Nao foram observadas diferencas estatisticas nas dimensoes falta de confianca no desempenho e disturbios do sono, apesar da tendencia nesta ultima.

Nao foram observadas correlacoes entre os escores do QSG e do IPSF nos quatro momentos (1 momento r=0,05, p=0,852; 2 momento r=0,11, p=0,716; 3 momento r=-0,04, p=0,898; 4 momento r = 0,07, p = 0,805). Cabe ressaltar que a media de suporte familiar nessa amostra foi relativamente alta e nao teve variabilidade quanto aos quatro momentos.

Discussao

Os resultados da analise estatistica para os grupos de estado civil apresentada apontam para uma diferenca significativa na percepcao da autonomia familiar e tambem na dimensao afetivo-consistente (IPSF), sugerindo que as pessoas casadas tendem a perceber uma familia mais suportiva e tendo mais autonomia. Jaccard e Ramey (2001) apontam resultados semelhantes aos da presente pesquisa confirmando a influencia da estrutura familiar, na relacao entre o suporte social recebido e o impacto positivo na satisfacao de vida, especialmente para mulheres casadas. Os autores afirmam que as mulheres casadas tambem possuem maior possibilidade de receber ajuda de outros familiares. Zabriskie e Mccornick (2001) complementam que os casais morando juntos geralmente apresentam maior satisfacao na interacao familiar. Hill, Fonagy, Safier e Sargent (2003) atestam que a qualidade das relacoes familiares esta associada ao ajustamento comportamental e emocional entre seus membros o que acaba auxiliando, quando adequado, no enfrentamento de situacoes de estresse e conflito, como no caso de doenca familiar.

No tocante aos demais aspectos socioculturais, como a idade, escolaridade das maes e renda familiar, diferenca alguma foi encontrada em relacao a percepcao de suporte familiar e a saude mental. Nota-se ocorrencia semelhante no trabalho sobre situacoes de crise, realizado por Zabriskie e Mccormick (2001), afirmando-se que as variaveis sociodemograficas nao se caracterizaram necessariamente como preditores significativos do funcionamento familiar, avaliado sob a perspectiva dos modelos de influencias familiares. Observa-se, em contraposicao, que Board e Ryan-Wenger (2000), apontaram que pais de criancas mais jovens e pais de idade maior apresentam maior probabilidade para escores altos e significativos em relacao ao estresse e menores para a saude mental, a respeito das hospitalizacoes em UTIP. Cabe ressalvar, no entanto, que no presente estudo observou-se uma tendencia limitrofe para uma melhor percepcao do suporte familiar por cuidadoras mais velhas (faixa etaria compreendida entre 31 a 50 anos) em relacao ao grupo de participantes mais jovens, demonstrando ser esse dado merecedor de avaliacao mais apurada em estudos futuros.

Para a nao associacao entre as variaveis sociodemograficas em relacao ao IPSF e QSG, com excecao do estado civil em relacao ao funcionamento familiar, sugere-se que, possivelmente, a afinidade dessas avaliacoes esteja relacionada ao baixo numero amostral. Alem disso, mostra-se concernente a essa explicacao, a recomendacao da agregacao dos altos escores obtidos na percepcao de suporte familiar das maes em geral durante todo o estudo, para os quais nao houve variacao significativa. Para Halm et al. (1993), o ajustamento das respostas de enfrentamento dos familiares em situacoes estressantes e dificeis depende da associacao positiva dos eventos ocorridos nessas ocasioes. Nessa discussao em particular, pode ser que tenham ocorrido eventos favoraveis durante os momentos de avaliacao, visto que as maes continuaram a perceber o suporte familiar, sem apresentar variacao, mesmo nos periodos de maior crise, como os da internacao hospitalar.

Pode-se pensar que, dentre os eventos positivos vivenciados pelas participantes durante a internacao hospitalar, esteja incluido, alem da percepcao de familiares de maior suporte, o apoio social fornecido pela equipe de saude local (medicos e enfermeiros), pois, para Tomlinson, Swiggum e Harbaugh (1999), esse ultimo se destaca como um dos fatores que pode diminuir o desgaste de pais em UTIP. Essa reflexao diz respeito as afirmacoes das participantes, na primeira medida do estudo, de que, em sua totalidade, estavam satisfeitas quanto ao atendimento prestados pela equipe de saude e cientes das informacoes fornecidas em relacao ao estado clinico de suas criancas.

Embora em relacao a renda familiar nao houvesse variacao em relacao ao IPSF e ao QSG no estudo em discussao, Lesesne, Visser e Withe (2003), na pesquisa que realizaram, apontam que maes solteiras, em condicoes sociais e economicamente desfavorecidas, experimentaram altos indices de problemas psiquiatricos. Os autores notaram, da mesma forma, comprometimento nos relacionamentos familiares na situacao de cuidados para com as criancas.

Tambem no que diz respeito a analise da variabilidade das medidas estudadas, notou-se que o IPSF, em seus escores totais para os quatro momentos avaliados, nao se modificou e pode ser que essa ocorrencia esteja relacionada as horas de crise, pois, geralmente, nesses momentos, as pessoas se aproximam parar dar apoio. Essa hipotese encontra-se mencionada por Seidman et al. (1997), a medida que verificaram que os pais eram assistidos de maneira mais proxima por seus familiares, durante e apos o processo de hospitalizacao de suas criancas em UTIP. Recomenda-se, alem disso, que talvez a percepcao do suporte familiar mudasse, caso a situacao de crise ou mesmo os estressores negativos como, por exemplo, o comprometimento do quadro clinico, perdurasse por mais tempo, visto que dessa maneira, os individuos considerados como suportivos, poderiam se cansar e se afastar nessa circunstancia. Acrescenta-se ainda, como dado importante, que, no relato das participantes, fora relacionada prevalentemente a percepcao de pessoas mais proximas e consideradas de maior suporte como, a mae da participante, seu companheiro marital e seus filhos, alem de outros. Dessa forma, entende-se que o suporte familiar percebido deu-se por pessoas mais intimas na convivencia das participantes, como seus familiares, bem como outros citados (amigos e vizinhos) que estiveram presentes ao longo do processo de internacao e alta hospitalar, sendo esse dado igualmente relevante na consideracao da melhora dos escores de saude mental dessas maes. Nesse sentido, como aponta Rigotto (2006), as pessoas podem considerar como provendo suporte familiar tambem as pessoas mais proximas que, nao necessariamente possuem um laco consanguineo, como encontrado no estudo atual.

Notou-se que, para todo o grupo de participantes, foi conferido durante os quatro momentos da pesquisa, uma variacao significativa nos escores totais do QSG e em algumas de suas dimensoes. Esses dados mostram-se de acordo com os achados de Halm et al. (1993) e Tomlinson et al. (1995), para duas medidas avaliadas em seus estudos (internacao na UTIP e alta hospitalar). Os resultados das pesquisas desses autores apontaram baixos indicadores de saude mental dos familiares de criancas hospitalizadas em UTIP no primeiro momento, sendo melhorada apos a alta hospitalar.

A maior modificacao para o teste de variancia no fator geral do QSG para as quatro medidas, em relacao a diminuicao dos escores observada, ocorreu entre o segundo e o terceiro momentos. Essa ocasiao corresponde a alta da UTIP, ou seja, ao periodo em que os estimulos altamente aversivos do ambiente foram retirados da convivencia das maes, notando-se no quarto momento, porem, um leve aumento nesses escores. Talvez essa ocorrencia seja, provavelmente, devida a volta para casa e rotina diaria, com modificacoes para os cuidados com as criancas ou aos problemas que surgiram durante este tempo fora do ambiente familiar. Essas hipoteses devem ser consideradas para estudos e analises futuras, sem deixar de levar em consideracao os aspectos cognitivos envolvidos na interpretacao na experiencia de uma situacao de crise.

Quanto a analise estatistica de Spearman, nao se constatou correlacao entre as medias totais do IPSF e as do QSG, durante o processo global de avaliacao dessas participantes. Tal fato pode estar conexo ao acontecimento do IPSF nao ter variado nos momentos de avaliacao, impossibilitando, dessa maneira, a sua correlacao com o QSG. Em estudos com amostras diferentes da utilizada nessa pesquisa, ou seja, com universitarios, Souza, Baptista e Alves (no prelo) encontraram correlacao entre a pontuacao total do IPSF com todas as dimensoes do QSG, variando de -010 entre o IPSF e os disturbios psicossomaticos ate a correlacao de -0,18 entre o IPSF e a severidade geral da doenca mental. O efeito teto observado na media de pontuacao do IPSF talvez tenha impedido a associacao entre essas duas variaveis nessa amostra em especifico. Como sugerem Craft et al. (1993), em locais de hospitalizacoes criticas, como a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), os familiares necessitam de suporte para o enfrentamento do estresse negativo que afetam possiveis mudancas comportamentais, como dormir menos, comer menos, entre outros. As equipes de saude necessitam entao se prepararem para dar suporte aos cuidadores, ja que, como visto, os indicativos de saude mental nesse periodo se alteram expressivamente. Como afirman Youngblut e Shiao (1993), as atencoes as reacoes emocionais apresentadas por familiares, durante o estresse do periodo de hospitalizacao, nao devem estar voltadas para a avaliacao apenas deste momento. Cuidados quanto a saude mental e fisica dos familiares apos a hospitalizacao tambem devem ser consideradas pela equipe de saude.

Para finalizar essa discussao, faz-se relevante ressaltar as limitacoes encontradas neste estudo e as sugestoes para trabalhos futuros. Como ja apontado anteriormente, o numero amostral, que correspondente aos seis meses de aplicacao desta pesquisa, parece ter implicacoes para os resultados deste trabalho. Aliada aos fatores tempo e amostra apontados, pode-se recomendar ainda a aplicacao da analise estatistica de regressao logistica, para um adequado entendimento de como diversas variaveis estao relacionadas e explicam a qualidade da saude mental, no caso de uma amostra maior. Por ultimo, para estudos posteriores no acompanhamento de familiares que acompanhem criancas hospitalizadas em UTIP, sugere-se a avaliacao das estrategias de enfrentamento dos cuidadres, particularmente relacionadas aos construtos cognitivos de locus controle e auto-eficacia, a fim de se avaliar se a saude mental esta associada a essas proposicoes.

Recibido: octubre 31 de 2007

Revisado: agosto 31 de 2008

Aceptado: septiembre 21 de 2008

Referencias

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* Articulo de investigacion

ROSANA RIGHETTO-DIAS **

Uniararas, Brasil

MAKILIM NUNES-BAPTISTA ***

Universidade Sao Francisco, Brasil

** Programa de Pos-Graduacao em Saude da Crianca e do Adolescente, Faculdades de Ciencias Medicas, Pediatria--Unicamp. Docente do Curso de Psicologia --Uniararas, Campinas, SP, Brasil. Correo electronico: rosanarighetto@uol.com.br, rosanadias@uniararas.br

*** Docente do Programa de Pos-Graduacao Stricto Sensu em Psicologia da Universidade Sao Francisco (USF), Itatiba, SP, Brasil. Bolsista Produtividade--CNPq. Correo electronico: Makilim.Baptista@saofrancisco.edu.brintroducao
TABELA 1
Analise de Variancia de Friedman ([C.sup.2.sub.r]) para IPSF em seus
dominios nos quatro momentos de coleta de dados e no total de escores

iPSF Dimensoes                         1 Momento    2 Momento

Afetivo-Consistente                    2,57         2,43
Adaptacao Familiar                     2,00         2,71
Autonomia Familiar                     2,32         2,54
Tot. Media das Dimensoes / Momentos    2,39         2,68

iPSF Dimensoes                         3 Momento    4 Momento    p

Afetivo-Consistente                    2,64         2,36         0,926
Adaptacao Familiar                     2,39         2,89         0,197
Autonomia Familiar                     2,68         2,46         0,824
Tot. Media das Dimensoes / Momentos    2,64         2,29         0,810

Nota. Participantes em cada dimensao por momentos (N = 14).

Fonte: elaboracao propria.

TABELA 2
Analise de Variancia de Friedman ([C.sup.2.sub.r]) para QSG Geral nos
quatro momentos de coleta de dados e por dimensoes de avaliacao

QSG Dimensoes                            1 Momento    2 Momento

Estresse Psiquico                           3,57         2,82
Desejo de Morte                             3,04         2,68
Falta de Confianca e Desempenho             2,68         3,04
Disturbios do Sono                          3,14         2,64
Disturbios Psicossomaticos                  3,07         3,04
Total Media das Dimensoes / Momentos        3,32         3,04

QSG Dimensoes                            3 Momento    4 Momento

Estresse Psiquico                           1,64         1,96
Desejo de Morte                             2,25         2,04
Falta de Confianca e Desempenho             2,36         1,93
Disturbios do Sono                          1,96         2,25
Disturbios Psicossomaticos                  1,79         2,11
Total Media das Dimensoes / Momentos        1,75         1,89

QSG Dimensoes                              p

Estresse Psiquico                        0,000
Desejo de Morte                          0,020
Falta de Confianca e Desempenho          0,115
Disturbios do Sono                       0,066
Disturbios Psicossomaticos               0,006
Total Media das Dimensoes / Momentos     0,001

Nota. Participantes em cada dimensao por momentos (N = 14).

Fonte: elaboracao propria.
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Author:Righetto-Dias, Rosana; Nunes-Baptista, Makilim
Publication:Universitas Psychologica
Article Type:Report
Date:Jan 1, 2009
Words:6727
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