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Media and Politics: Strategies for building the "symbolic capital" of political/ Midia e Politica: estrategias para a construcao do "capital simbolico" dos politicos.

Analisamos neste estudo (dissertativo) as narrativas de 14 atores politicos acerca dos fatos midiatizados que os envolve e como eles percebem esses fatos. Encontramos nas narrativas o jogo politico claramente demonstrado. Um cuidado nas assertivas, uma desconfianca em narrar/contar suas versoes e suas relacoes com os meios de comunicacao. Todo cuidado e pouco, no caso dos politicos que demonstram conhecer e usar a maxima "tudo o que disser sera usado contra voce" como uma realidade monstruosa acima de suas cabecas, lembrando-nos da lenda da Espada de Damocles --Se errares, pereceras pela espada.

Este artigo e parte de uma pesquisa mais ampla (1) cujo objetivo foi investigar como se estruturam as relacoes entre midia e politica e como as diferentes formas de visibilidade, viabilizadas pela midia, transformam-se em relacoes de poder. Em nosso corpus de pesquisa, contamos com 14 entrevistas com politicos, distribuidos nas esferas Federal, Estadual e Municipal, sendo 2 senadores da Republica, 6 deputados federais, 4 deputados estaduais e 2 vereadores. A filiacao partidaria foi assim delimitada: 6 integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT), 2 do Partido Progressista (PP), 2 do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), 2 do Partido do Movimento Democratico Brasileiro (PMDB), um do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e um do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Metodologicamente optamos pela Hermeneutica de Profundidade (HP), de John Thompson (2011), com suas quatro fases--analise sociohistorica, analise discursiva e narrativa, interpretacao/reinterpretacao critica. Isto nos possibilitou analisar de forma mais criteriosa como sao transmitidas e recebidas, em um determinado momento historico, as formas simbolicas comunicacionais.

As narrativas dos entrevistados sao carregadas de construcoes simbolicas complexas, que apresentam uma estrutura articulada. Elas convocam as analises discursiva e argumentativa entre as afirmativas ou assercoes, organizadas ao redor de certos temas, "buscando operadores logicos que demonstrem os argumentos de poder, especialmente utilizados pelos discursos politicos" (Thompson, 2011, p. 374). Ao interpretar e reinterpretar os dados e permitido explicitar a conexao entre o sentido do que e apresentado ou dito; e determinado e predeterminado atraves de um processo continuo de interpretacao da ideologia apresentada.

O objetivo deste trabalho e identificar as relacoes entretidas entre os politicos e os meios de comunicacao na construcao dos fatos politicos midiatizados. O intuito e fomentar a critica sobre o fenomeno comunicacional enquanto poder dissociado dos demais poderes constituidos legitimamente.

Para atender nosso objetivo, elegemos quatro etapas: 1) Primeiramente analisamos os meios de comunicacao como o novo espaco publico substitutivo da Agora Grega. Toda discussao no mundo da vida decorre daquilo que e midiatizado pelos diversos meios comunicacionais. 2) Em seguida, tratamos de examinar a politica e o politico, suas praticas, seus atos estruturantes e estruturados, que se desenrolam em um campo soberano da sociedade--o direito maior de liberdade de expressao. Analisamos o percurso social e historico da constituicao politica do povo brasileiro e, especificamente do Rio Grande do Sul, porque os entrevistados sao todos gauchos e suas trajetorias politicas nos remetem ao velho modo politico do sul: o caudilhismo. 3) Destes dois pontos surge a terceira etapa: o exame da visibilidade midiatica como pratica indispensavel a todo candidato a carreira politica, uma vez que o ver e o ser, vistos nos meios de comunicacao, geram a credibilidade entre seus pares e seus eleitores. 4) Nesta etapa examinamos a dissimulacao encontrada nas narrativas e que demonstrou ser uma das formas de ideologia. Ao finalizar os estudos, apontamos como os achados da pesquisa a demonstracao de que as relacoes da midia e da politica sao permeadas por acordos e parcerias realizadas distantes daquilo que os meios de comunicacao informam ao publico em geral.

Meios de comunicacao: transformacao da Agora em visibilidade midiatizada

Os meios de comunicacao, na contemporaneidade, transformaram-se na nova Agora. O local, onde se realizam os debates do espaco publico, onde os grupos organizados, minoritarios, a sociedade civil organizada ou nao, as instituicoes e o proprio Estado buscam dar visibilidade as acoes realizadas ou por realizar. Percebemos claramente essa transformacao na esfera publica (ou espaco publico), analisando as diversas manifestacoes midiaticas, levadas a efeito pelas comunidades que, se quiserem ver e serem vistas, necessitam que os meios de comunicacao mostrem suas acoes.

Ao olharmos os movimentos de rua, especialmente, os ocorridos no Brasil, em junho de 2013, encontraremos uma insatisfacao generalizada em inumeros segmentos sociais, que so alcancaram a proporcao que tiveram pelo efeito da visibilidade que os meios se obrigaram a dar. Os politicos, o Estado e os Governos foram surpreendidos com a forca demonstrada, recolheram-se aos acordos e sessoes restritas para tentar satisfazer os anseios populares.

O crescimento dos multiplos canais de comunicacao e informacao contribuiu significativamente para a complexidade e imprevisibilidade de um mundo ja extremamente complexo. Criando uma variedade de formas de acao a distancia, dando aos individuos a capacidade de responder de maneira incontrolavel a acoes e eventos que acontecem a distancia, o desenvolvimento da midia fez surgir novos tipos de interrelacionamento e de indeterminacao no mundo moderno.

Obviamente, dentro do campo de interacao mediada ha individuos que tem mais oportunidades de usar a midia para vantagem propria do que outros. A realidade, hoje, pode ser considerada como uma atmosfera social e cultural e isso

"porque cada um de nos, individual e coletivamente, esta cercado por palavras, ideias e imagens que penetram nossos olhos, nossos ouvidos e nossa mente, quer queiramos ou nao, e que nos atingem, sem que o saibamos, do mesmo modo que milhares de mensagens enviadas por ondas eletromagneticas circulam no ar sem que as vejamos e se tornam palavras em um receptor de telefone, ou se tornam imagens na tela de televisao."

(Moscovici, 2011, p. 33)

Uma das consequencias mais importantes, trazida pelas novas tecnologias e materializada pela midia, foi a transformacao da natureza do que poderiamos chamar de "publicidade" e, estreitamente ligada a ela, a transformacao das maneiras como as pessoas e acontecimentos sao tornados "visiveis" aos outros. E a partir dessas mudancas que a distincao entre o publico e o privado, com uma longa historia no pensamento social e politico ocidental, que pode ser remetida a Grecia classica e ao inicio do desenvolvimento do direito romano, sofreu profundas alteracoes.

No novo espaco mediado, "publico" significa agora aberto, ou acessivel a outros. O que e publico, nesse novo sentido, e o que e visivel ou observavel, o que e desempenhado diante de espectadores, o que e aberto para que todos, ou muitos, possam ver e ouvir, ou falar a respeito. O que e privado, em contraste, e o que e escondido da vista, o que e dito ou feito em segredo, ou entre um circulo restrito de pessoas. Nesse sentido, a dicotomia publico-privado tem a ver com "publicidade" versus "privacidade", com abertura versus sigilo, com visibilidade versus invisibilidade. Um ato publico e um ato visivel, desempenhado abertamente, de tal modo que todos possam ver; um ato privado e um ato invisivel, um ato desempenhado secretamente e atras de portas fechadas (Thompson, 2012).

O espaco publico tornou-se uma realidade comunicacional efetivada atraves dos meios de comunicacao, mas nao um espaco institucionalizado como esfera publica. Na afirmacao do proprio Habermas, "a esfera publica nao pode ser concebida como uma instituicao e certamente nao como uma organizacao (...) [ela] pode melhor ser descrita como uma rede para a comunicacao de informacoes e pontos de vista" (Bucci, 2002, p. 64).

Destarte, a politica, nas democracias liberais, esta ultrapassada em sua forma representacional das classes, das agremiacoes ou partidos politicos. Nao ha esfera de atuacao dos interesses comum de uma nacao, estado ou cidade. Pois a agora somente ocorrera quando e como os meios de comunicacao assim o desejarem, assim o agendarem ou assim o pautarem.

Os politicos estao conscientes que suas acoes e falas podem ser examinadas por jornalistas e ocasionalmente divulgadas nos diversos meios de comunicacao, e que eles podem se tornar assim visiveis dentro do campo politico mais amplo. Por conseguinte, os politicos tendem a monitorar de perto a cobertura da midia sobre suas acoes e falas, e, cada vez mais, buscam estrutura-las tendo cuidado com a informacao e as imagens que se tornam disponiveis, e fornecendo referencias para a interpretacao dos acontecimentos.

Um mecanismo informal que passou a desempenhar um papel central a esse respeito e o das pesquisas de opiniao. Sendo que o dialogo com os eleitores e necessariamente limitado e as eleicoes sao raras, as pesquisas de opiniao passaram a ser um mecanismo amplamente aceito para avaliar o apoio no amplo campo politico. Elas sao usadas nao apenas para construir as politicas, mas tambem para avaliar o impacto das mudancas de politicas e da popularidade dos governos, dos partidos, de lideres particulares, ou possiveis lideres. Frequentemente divulgadas pela midia e comentadas pelos jornalistas, politicos e outros, as pesquisas de opiniao tornam publicamente acessiveis e contestados indices de mudanca nas relacoes entre profissionais e nao profissionais no amplo campo politico, indices que sao monitorados de perto pelos politicos e usados por eles em suas lutas com outros no subcampo dos politicos profissionais.

O campo politico foi se constituindo cada vez mais como um campo midiatico--isto e, um campo em que a visibilidade midiatica dos lideres politicos se tornou sempre mais importante e em que as relacoes entre lideres politicos e cidadaos comuns foram crescentemente moldadas pelas formas mediadas de comunicacao (Thompson, 2008).

A crescente visibilidade dos lideres politicos, as mudancas nas tecnologias de comunicacao e vigilancia, a mudanca na cultura jornalistica e a mudanca na cultura politica contribuiram para a sempre maior prevalencia dos meios de comunicacao.

A politica e o politico: praticas e tensoes

Somos seres politicos por excelencia. "O homem e um animal politico", ja nos ensinava Aristoteles em 1253 (Politica, Livro I). Que politica realizamos hoje? Como fazemos politica? O que e politica? Questionamentos necessarios em mundo globalizado, onde inumeras formas de exercicio politico coexistem e transformam o mundo.

O conceito de politica deve ser diferenciado do conceito de politico. A primeira trata do arcabouco institucional, organizado, representativo. Como afirma Ranciere (2008), seria "politica/policia", necessaria, mas questionavel, e nao a unica dimensao da politica. O politico seria a politica como atividade que reconfigura os quadros sensiveis nos quais se definem as relacoes coletivas, sociais, e onde sao negociados seus objetos. A atividade politica rompe com a evidencia da ordem "natural" que destina os individuos, os grupos sociais ao comando e a obediencia, a vida publica ou a vida privada, a uma pre-definicao de espaco ou de tempo, a certas maneiras de ser, de ver e de dizer. Palavra e ruido. Retorica e barulho. Ambas sao dimensoes da politica. Assim, afirmamos que politica nao e exercicio do poder ou a luta pelo poder e que seu quadro nao esta definido pelas leis e instituicoes.

A primeira questao politica e saber que sujeitos concernem a essas instituicoes e a essas leis, que formas de relacoes definem uma comunidade politica, que objetos configuram essas relacoes, que sujeitos estao aptos a discuti-los. A politica entao e um paradoxo, onde a logica dos corpos no seu lugar dentro da distribuicao do comum e do privado, que e uma distribuicao do visivel e do invisivel, da palavra e do ruido, e o que propus antes com o termo de "policia".

A politica verdadeira praticada e identificada por praticas que rompem com essa ordem policialesca que antecipa as relacoes de poder. O politico, a atividade politica, mesmo nao institucional ou partidaria, acontece atraves da invencao de uma instancia de enunciacao coletiva que redesenha o espaco dos afetos (o que afeta o "nos"). O que une a politica e o politico e esse campo de tensao, ja mencionado por Arendt (2012), tanto a politica e a acao do homem que exerce sua liberdade. Liberdade de falar e, mais que falar, e poder dizer a sua palavra e ser ouvido, porque detentor do direito de ser humano. Quais acoes se exercitam hoje na esfera publica? Quem tem o direito de dizer a palavra e praticar a acao livre em nosso tempo? Temos mais perguntas do que respostas.

A organizacao politica diz respeito as fundacoes de um Estado estabelecido de modo definitivo num dado periodo de tempo, incluindo suas normas e leis escritas e nao escritas (costumes). As Constituicoes e os sistemas legais regulam o processo politico. As regras do processo politico encontram guarida nas formas de governo que, no Brasil, e a democracia. As democracias sao regimes politicos onde a origem do poder esta no povo, no cidadao. A distribuicao do poder e o controle do seu exercicio tambem estao nas maos do povo. Todos os membros da sociedade tem iguais direitos politicos. E esse valor politico que constitui a soberania popular, base da organizacao de um regime democratico.

O processo politico baseia-se em uma serie de etapas, desde os primeiros interesses da sociedade (associacoes, agrupamentos religiosos, organizacoes comunitarias, etc.) ate a criacao dos partidos politicos que se encarregam de articular esses interesses em um conjunto mais amplo e mais abrangente de alternativas que serao implementadas nos sistemas politico e administrativo quando chegarem ao poder. Na medida em que se desenrolam as etapas, as posicoes vao sendo articuladas, mediadas, conduzidas em direcao a um consenso, transformadas e integradas a um processo de praticas coletivas, onde os objetivos mais importantes da acao a ser empreendida decorrem da identificacao conjunta de interesses e de persuasao do outro, transformando reciprocamente as posicoes defendidas anteriormente e dando forma a interesses e necessidades gerais, mesmo que ainda nao bem definidas.

O sucesso na politica nao se da pela adaptacao dos meios para atingir os fins previamente determinados, mas sim pela integracao de varias pessoas e de varios fins, juntamente com os acordos resultantes de discussoes que os acompanham de modo a encontrar solucoes reais para os objetivos comuns da sociedade. Resta claro que os ciclos politicos, relativamente longos no processo politico, nas democracias, sao sempre determinados pelo ritmo dos ciclos eleitorais. Estes delimitam o modo como as elites politicas eleitas irao calcular o tempo que lhes e permitido para atingir seus objetivos.

Ao analisar o banco de dados das entrevistas do projeto "Midia e Politica--Visibilidade e Poder", encontramos um universo restrito a atores politicos vinculados a partidos com posicionamento de esquerda; alem disso, todos os entrevistados sao oriundos do Rio Grande do Sul, onde comecaram sua carreira politica. Temos um aporte "caudilhista" muito forte onde o comando e focado em um chefe, independentemente do partido ou de seus pares, como nos exemplifica a trajetoria de Julio de Castilhos e Getulio Vargas. Os antepassados que ocasionaram mudancas significativas na politica nacional nasceram deste solo. As relacoes entretidas com os meios de comunicacao em epocas remotas anotam a parceria, a comunhao, os acordos como forma de comando e manutencao do poder. Viviamos em epocas de comando e dominacao do poder politico de poucos que se utilizavam dos meios disponiveis para exercer a direcao de muitos. A criacao de jornais como forma de debate e disputa politica era comum.

Caracteristicas reais em um periodo nao muito distante que possibilitou a um Governador da Provincia de Sao Pedro (2)--Julio de Castilhos, redigir e aprovar uma Constituicao elaborada por ele mesmo. Somos um povo aguerrido e bravo, mas tambem somos submissos a poderes instalados e estruturados por Politicos "a moda antiga". A historia politica do Rio Grande do Sul e permeada de esquecimento do povo, de seus direitos, de suas necessidades, de suas prioridades. Nossa politica necessita de mitos para seguir, adorar e submeter-se. As simpatias politicas sao pessoais e nao partidarias, agregamo-nos aos individuos e nao aos programas politicos partidarios. Isso gera um fenomeno chamado de apartidarismo, ocasionando uma instabilidade eleitoral que ancora o candidato e nao o programa. Somos duais por excelencia: situacao versus oposicao, maragatos versus chimangos, etc.

No Brasil, estas nossas caracteristicas foram bem marcadas. Na Era Vargas (19301945), apos o rompimento da politica do cafe-com-leite, se da a Revolucao de 1930, atraves da qual Getulio Vargas (gaucho) assume o poder. Nascem aqui as primeiras organizacoes partidarias com capacidade de mobilizacao das massas populares, a Acao Integralista Brasileira (AIB) e a Alianca Nacional Libertadora (ANL), dentre outras. Em 1937, Vargas da o golpe e entramos no Estado Novo, onde as atividades partidarias foram extintas.

Entretanto, e no Estado Novo que ocorre um significativo esforco no sentido de justificar o regime e difundir uma imagem positiva do mesmo junto as camadas populares. A preocupacao com a propaganda ficou evidente muito antes, ja em 1931, quando do surgimento do Departamento Oficial de Publicidade (DOP). O orgao conheceu varias mudancas ate que, em 1939, foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), diretamente subordinado a presidencia da Republica.

A Constituicao de 1937 considerou a imprensa servico de utilidade publica e lhe impos uma serie de restricoes. Jornalistas e jornais tiveram que se registrar no DIP e passaram a conviver com a figura do censor, que vistoriava cada uma das materias antes de sua publicacao. Varios matutinos foram encampados pelo governo, como A Manha (RJ) e A Noite (SP), ou sofreram intervencao, como ocorreu com O Estado de S. Paulo. As atividades do DIP, porta voz oficial do poder, incluiam a edicao de revistas, com destaque para Cultura Politica, que reunia importantes intelectuais, responsaveis pela justificacao ideologica do regime, Brasil Novo e Estudos e Conferencias, assim como a producao e publicacao de uma ampla gama de livros, desde cartilhas ate obras que justificavam o golpe de 1937, louvavam as realizacoes governamentais e a figura de Getulio. Vivia-se uma ditadura em todos os sentidos. Muito presente o personalismo politico caudilho.

Uma democracia liberal se instala no pais (1945-1964), caracterizando-se pela relevancia da conjuntura politica internacional para a analise da politica nacional (antevisao da globalizacao). Comeca a mudanca. A Segunda Guerra estava em seu fim trazendo consigo uma onda democratica contraria aos regimes totalitarios. No Brasil nasce o novo sistema partidario com uma nova lei eleitoral, preocupada em fortalecer os partidos politicos em nivel federal. Nesse momento, os quatro partidos mais relevantes eram o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), o PSD (Partido Social Democratico), a Uniao Democratica Nacional (UDN) e o Partido Comunista Brasileiro (PCB). O PTB esteve no Governo durante grande parte desse periodo em alianca com o PSD. O PCB era o representante da forca de esquerda no espectro politico brasileiro nessa epoca, entretanto foi extinto sob a alegacao de que seus principios contrariavam os valores democraticos durante o Governo Dutra.

Sob essa mesma alegacao deu-se o golpe militar (1964-1985), que levou a politica brasileira ao bipartidarismo forcado. Permitiu a existencia de um partido de oposicao (MDB) para dar uma aparencia de democracia. Tinhamos, entao, dois partidos criados pelo Ato Institucional no 2/65, a ARENA (Alianca Renovadora Nacional) e o MDB (Movimento Democratico Brasileiro). Mais uma vez o controle aos meios de comunicacao ocorreu como na primeira ditadura, o cerco aos meios de comunicacao foi brutal. A censura operou a favor do Governo, legitimando e informando somente as acoes "empreendedoras" no pais do "Ame-o ou deixe-o" e do "Pais que vai pra frente"; tempos escuros e obscuros que ainda necessitam estudos e muitas revisoes. O curso da historia no contexto politico brasileiro demonstra o ir e vir da batalha entre os politicos e os meios comunicacionais como forma de manutencao da dominacao de um povo. Sao fronteiras muito volateis.

Passado o periodo ditatorial, surge a abertura politica controlada, denominada de redemocratizacao, onde surgiram os grupos e agrupamentos da sociedade organizada --associacoes culturais, sindicatos, movimentos estudantis, grupos paroquiais, dentre outros, o que renasceu a pressao da opiniao publica fortalecendo a oposicao ao governo. O Governo Militar extinguiu o bipartidarismo, ocasionando o surgimento de alguns partidos num primeiro momento. O PDS (Partido Social Democratico) praticamente uma continuacao da ARENA (Alianca Renovadora Nacional), que, em 1995, passa a se chamar PPB (Partido Progressista Brasileiro) e que fara surgir de suas dissidencias o PFL (Partido da Frente Liberal); o PMDB (Partido do Movimento Democratico Brasileiro) que em suas discordancias fara surgir o PSDB (Partido Social Democratico Brasileiro), hoje denominado PFL (Partido da Frente Liberal); o PDT (Partido Democratico Brasileiro), organizado a politicos ligados ao trabalhismo varguista; o PT (Partido dos Trabalhadores), uma das construcoes mais singulares da politica brasileira, constituido de intelectuais, sindicalistas, marxistas, alas progressivas do movimento catolico.

Apos 1985, nao houve mais restricao a criacao de partidos politicos e passamos a assistir a uma explosao de partidos. Na decada de 80, do seculo passado, foram criados 8 partidos; na de 90, 16; em 2000 foram criados 3; e na decada em curso ate o presente momento ja foram criados 5. No Tribunal Superior Eleitoral encontram-se registrados 32 partidos politicos atualmente. Alguns partidos sao considerados apenas como legendas de aluguel para candidatos oportunistas em epoca de eleicao. A proliferacao de legendas partidarias nos remete a essencia da democracia, onde todos os grupos da sociedade devem, ou deveriam, se fazer representar. Entretanto, nao e o que assistimos no Brasil. Os acordos das liderancas nao atendem ou escutam as minorias partidarias, onde a legislacao disciplina o tempo de exposicao nas propagandas politicas de acordo com a representatividade partidaria na Camara e no Senado delimita a visibilidade e a oportunidade de dizer a palavra.

Visibilidade: uma moeda com valor inestimavel

A disputa pela visibilidade e crucial para os candidatos a qualquer cargo eletivo e em qualquer das instancias (Federal, Estadual, Municipal), e em qualquer das formas de eleicao: majoritaria ou proporcional. O que importa e como "vender-se" nos meios de comunicacao atraves de uma estrategia que possibilite o ganho do capital simbolico do politico: a credibilidade e a confianca pessoal no candidato.

Selecionamos a afirmativa do entrevistado E1 (3), do Partido Progressista, nos demonstra claramente esse entendimento. Afirma o narrador: "E a maneira de mostrar o trabalho que esta sendo realizado; os problemas enfrentados, os pontos positivos e negativos. Porque e atraves da midia, de uma forma geral, que as pessoas tomam conhecimento".

O posicionamento do partido, o programa partidario, os acordos politicos de legenda, as chapas multipartidarias sao secundarias porque o objetivo e personalizar o programa na figura do candidato ao cargo. Uma vez eleito, o candidato que atendeu aos requisitos da credibilidade pessoal e conquistou a confianca do eleitorado passase para a segunda etapa das candidaturas: observar e dispor os cargos na forma dos acordos efetuados na composicao da chapa. Mas isso nao e objeto de nosso estudo. Apenas reflexivamente o atinge.

Ao demonstrar como os partidos politicos foram se constituindo ao longo dos anos no Brasil, um pais jovem, com 514 anos de "descobrimento" e alguns poucos de democracia representativa, podemos observar que as relacoes estabelecidas com os meios de comunicacao demonstram uma forma de manipulacao de interesses alheios as necessidades da populacao e diversos daqueles que atenderia aos interesses da maioria. Restrita a poucos atores politicos e comunicadores.

Regionalizado o estudo, limitado aos partidos com concepcoes ideologicas de centro a esquerda, como apontado na introducao, nao podemos afirmar que o posicionamento e formas de entender os fatos politicos mediados, apontados pelos entrevistados, refiram-se a todos os politicos brasileiros, muito embora assim o pareca nestes tempos de acordos estranhos em materia de organizacao politica nacional e daquilo que vemos em noticiarios locais, regionais e estaduais. Entrevistamos 14 politicos riograndenses e, selecionamos, para este artigo, apenas tres narrativas que demonstram mais claramente as relacoes estabelecidas entre a midia e a politica.

Para o entrevistado E8, do Partido Progressista, "a midia e o quarto poder porque e um veiculo com uma estrutura que se comunica com todas as pessoas. E um veiculo de comunicacao. E que tem, justamente, muita capacidade de influenciar e orientar nessa comunicacao".

Nominando os meios de comunicacao como um poder diferente daqueles que constituem o Estado, o Executivo, Legislativo e o Judiciario, o narrador E8, reduz sua assertiva ao poder que a visibilidade consolidou na sua propria trajetoria politica:

"Eu me tornei uma pessoa publica por causa da midia [...]. E, quando eu digo que sou de um partido tal, ja ha uma interseccao, ja estou numa panela; e isso fecha muitas portas. Por exemplo: o que da ibope ou manchete na midia para os politicos? Tragedia."

Aparentemente, o entrevistado E8 nao coordena sua narrativa logicamente, pois se a midia e o quarto poder e ele deve sua carreira a esta midia, como condenar a forma de atuacao dos meios de comunicacao se ele proprio sabe como atuar dentro do jogo politico-midiatico? Resta claro em sua narrativa a falacia, o misterio, o apontar do erro alheio, mas reconhece a formula a ser usada para manter-se visivel, de forma a aumentar seu capital simbolico--a credibilidade, o ver e ser visto pelos seus eleitores politicamente incorretos. Na continuidade da narrativa, um pouco mais adiante, afirma o entrevistado E8:

"ao mesmo tempo em que tu tens a midia influenciando diretamente a politica, tu tens a politica monetariamente influenciando diretamente a midia. Aqui [...] nos temos a verba de publicidade, entao esta verba, muitas vezes, pode servir para calar a boca de quem esta recebendo a sua verba de publicidade. Vamos ser sinceros aqui, entao: uma coisa influencia a outra. A midia e a politica. [...] A politica interfere na vida das pessoas, e e obvio que ela vai interferir na midia, seja com verba de publicidade, seja com as acoes."

O Estado, a Republica, a democracia e a midia, em termos essenciais, "nao sao nada do que parecem ser", nem mesmo do que deveriam ou dizem ser. Estao muito longe do ideal para atender aos interesses reais da maioria da populacao. A midia visa, primeiramente, o lucro, e nao a verdade dos fatos ou uma analise intensa. A noticia e fruto de um filtro, cuja porosidade e permeada pelo equilibrio entre a verdade e o interesse comercial dos anunciantes, os interesses particulares dos politicos, dos financiadores, dos proprietarios dos veiculos de comunicacao. Enfim, "raras sao as pessoas que conseguem se livrar da matrix nossa de cada dia" (Reis, 2009, p. 308).

Percebemos na analise das entrevistas que a politica se assemelha ao teatro e se utiliza de suas maneiras de atuar para fazer crer aos assistentes (plateia/eleitores) que o apresentado no palco e a realidade. O jogo politico ocorre tanto nos bastidores como no palco. O que difere sua ocorrencia e a possibilidade de percepcao pela plateia. Nos bastidores sao realizados acordos e se tomam grandes decisoes que sao inacessiveis ao grande publico; o que e levado para o palco e um jogo de cena direcionado aos nao iniciados (o povo) e serve apenas para distrair a plateia, mantendo o sistema politico e o mito da democracia como governo para o povo.

A publicacao e a propaganda deste jogo revelam-se combinada tambem nos bastidores com o aval dos meios comunicacionais. A simbiose perfeita. A narrativa do Entrevistado 7, do Partido dos Trabalhadores, demonstra essa formula: "O processo legislativo e um processo absolutamente irracional; mesmo que siga todos os tramites e ficar pronto para ir a plenario, ele pode nunca ser aprovado. Pode ficar esperando 10 anos e nunca ir a plenario. Quando eles sao votados? Quando a midia puxa esse assunto para ser tramitado na politica".

O sistema mantem-se e convoca outros atores a participarem da cena, no caso, os meios de comunicacao que, dando visibilidade ao jogo encenado, estariam perpetuando o sistema politico vigente e atendendo aos acordos entretidos nos bastidores pelos dois agentes atuantes a servico de um terceiro implicado, mas nao revelado (poder politico, poder midiatico e o poder economico).

A dissimulacao como ideologia perpetuadora da dominacao

A dissimulacao (Thompson, 2011) e uma das formas de perpetuar relacoes ideologicas de poder, mantendo a dominacao, o status quo, atraves do deslocamento do real significado, imputando um carater forte e evocativo (medo) enquanto sentimento real, mas ao mesmo tempo afirma a necessidade (troca de informacao) de ver e ser visto, estando na midia. Desloca, distrai e desfoca para a cena aquilo que e comum nos bastidores. Necessitam da visibilidade como forma de aquisicao do capital simbolico, especialmente necessario para angariar a confianca e a credibilidade entre seus pares e com seus eleitores. Demonstram claramente entender que sao os meios de comunicacao os que mais os ajudam nesta tarefa, mesmo que a relacao entretida seja tensa, entendem o processo e praticam os atos necessarios para a criacao do fato politico que sera midiatizado. Talvez nao como pensassem, mas com absoluta conviccao que e somente desta forma que a publicacao lhes dara visibilidade, demonstrando a necessidade relacional intensa dos bastidores para atingir o palco.

Thompson afirma que a dissimulacao e uma das formas de ideologia que ele define "como o uso das formas simbolicas para criar, manter relacoes de dominacao" (2011, p. 76). Essa pratica, o uso figurativo e deslocado da linguagem, e uma caracteristica bastante forte no mundo socio-historico e, em certos contextos, o sentido aplicado e manter o poder, uma vez que a afirmacao mostra o contrario daquilo que se quer ocultar. E fazer-se desentendido do que realmente ocorre nos bastidores. Impossivel nao lembrar Fernando Pessoa em sua Autopsicografia "... e fingir que e dor a dor que deveras sente".

Nas tratativas dos bastidores, a "pactuacao" e livre e inclui todo jogo de interesses possiveis entre os atores principais (politicos, comunicadores, empresarios). Anotese que este espaco reservado e para poucos e muitos sao os candidatos que desejam ingressar neste espaco. E o que encontramos nas narrativas que seguem.

Para o Entrevistado 7, do Partido dos Trabalhadores, os encontros e acordos entre a midia e a politica e comum e sempre ocorre a margem do publicavel. Em sua narrativa fica demonstrado um escandalo politico que nao chegou ao publico por "causas estranhas e alheias" a uma Comissao Parlamentar de Inquerito ja instalada e atuante. Afirma o narrador:

"Eu tive um episodio muito forte com a imprensa quando eu fui da CPI que investigou o mensalao mineiro. [...] O que acontece, hoje, no Brasil, existe uma situacao, talvez pouco percebida por muitos, que envolve o Estado de Minas Gerais. O Estado de Minas Gerais e uma coisa impressionante o bloqueio que existe da midia e a protecao que existe ao Aecio Neves. E uma coisa nunca vista antes. Foi criado um movimento Minas sem censura. [...] Quando na CPI do Mensalao Mineiro, em uma oportunidade, eu recebi um deputado estadual de Minas Gerais, juntamente com outras pessoas, que me trouxeram toda uma documentacao comprovando, de maneira detalhada, todo aquele esquema do mensalao, que teve origem la, em Minas Gerais. Uma farta documentacao, com notas fiscais, com recibos de bancos. Nos nos reunimos em um restaurante la em Brasilia e estava conosco o Diretor de Politica da Isto E, [...] e dois reporteres da Isto E. Olharam aquela documentacao, que era forte, com autenticacao em cartorio e tudo o mais, pediram 48 horas para submeter aquela documentacao ao Perito da Unicamp. Voltamos a nos reunir 48 horas depois, com o laudo da Unicamp atestando a veracidade daquela documentacao, pediram exclusividade para eles pela importancia da materia e nos informaram que essa seria a materia de capa da Isto E, com sete paginas. Na sextafeira, o Deputado Estadual, esse de Minas Gerais, me ligou dizendo que nao ia sair a materia. Eu falei:--Nao, e impossivel, falei com o editor ontem, falei com o reporter, a materia, esta tudo certo. [...], liguei para o editor de politica em Brasilia e ele me disse:--Olha, ta tendo um problema, tu vais ter de ligar para Sao Paulo para falar com o editor. Liguei para Sao Paulo e falei com o editor que me falou da importancia da materia, repercussao; nos temos que ainda pegar o contraditorio de algumas pessoas, nos vamos antecipar a edicao da proxima semana, por causa da repercussao da historia. Bom, pra finalizar a historia, eu me lembro que eu peguei a Isto E, tinha quatro paginas do Governo de Minas Gerais e duas paginas pagas do Ministerio do Turismo, onde um dos acusados era [...]. Eles venderam seis paginas, quatro pro governo de Minas e duas pro Ministerio do Turismo e, ate hoje, nunca saiu uma linha da materia. Eu vi a materia pronta para ser publicada; eu vi isso, ninguem me contou. [...] Isso foi uma demonstracao, eu tava no inicio do mandato, do tipo de relacao que e estabelecida, especialmente por essas revistas de circulacao semanal do pais. Muitas materias sao feitas para serem vendidas. Fazem a materia e depois oferecem para a pessoa, se ela quer que seja publicada ou nao. Se pagar, nao e publicada."

Demonstra o entrevistado que a manipulacao das informacoes e uma das formas de publicidade comum entre os politicos brasileiros, pouco importando se o fato e real ou ficticio. O interesse maior e a credibilidade que esta visibilidade concedera aquele que permanecer na "vitrina" dos meios de comunicacao.

O eleitor nunca sabera desses acordos, pois travados em locais reservados aos olhares simples e desavisados da massa eleitoral. Um acordo comum apenas aos participantes desta relacao continuada, onde o objetivo e manterem-se no poder de comando. Sendo que esse poder visa apenas o capital lucrativo de materias vendaveis em seus veiculos comunicacionais. O poder economico e o Poder. Para corroborar a assertiva, o narrador E7, afirma:

"A imprensa paga, beneficia com o espaco os seus hospedes privilegiados, certo? Entao, no Brasil, a importancia dessas colunas politicas e muito grande. O painel da Folha de Sao Paulo, O Globo, a Veja, a coluna da (omitido nome). Uma colunista politica, nao e? Entao, como os politicos, digamos assim, tradicionais, eles se credenciam nesses espacos? Negociando informacao. Entao, se tu quiseres espaco na imprensa, tu vais trabalhar ele com informacoes internas do partido, do governo. Assim, hoje se estabelece esse jogo do dia a dia da atividade politica no Brasil."

Outros entrevistados referem-se a uma apreensao no trato com os meios de comunicacao, relatando cuidado excessivo na fala, nos escritos, enfim, naquilo que podera "nao agradar" o poderio da midia que, assim como alavancam carreiras, as destroem na mesma velocidade, atraves dos escandalos politicos. Nesta linha, a narrativa da entrevistada E10, do Partido dos Trabalhadores, e clara quando afirma:

"Eu sinto um grande medo da politica em relacao a midia. A perda do poder. [...] A grande midia pode mover iniciativas para uma censura existir, querendo ter o monopolio da informacao e porque os proprios eleitos, as proprias autoridades podem se sentir questionadas muito fortemente diante desta transparencia."

Para o entrevistado E9, tambem do Partido dos Trabalhadores, a supremacia dos meios de comunicacao influencia ate nos discursos das liderancas que se submetem a interesses variados. Vejamos a narrativa:

"[...] bom, o problema e que essa influencia que a midia exerce na pauta politica, nas iniciativas dos atores politicos, nao e so virtuosa, ha uma serie de outros temas que diz respeito a interesses privados, que diz respeito aos interesses da propria midia, que tambem passam a pautar a iniciativa e os discursos das proprias liderancas."

Tambem na linha dissimulada da questao ideologica surge a censura como forma de "escolher" o fato ou acontecimento que sera divulgado e que devera atender aos interesses empresariais do meio comunicacional. Neste sentido a narrativa do E2, do Partido dos Trabalhadores:

"Ha censura, ela faz uma selecao muito, muito criteriosa do que lhe interessa. A midia, tem alguns jornais que sao assim, ate mais escandalosos [...]. Eles dizem {...}: Quanto tu vais dar pra mim? Teve um dono ai que disse: 'Se tu deste tanto para o fulano' e 'ele deu tanto para mim', entao em quero mais tanto, senao vai sobrar para ti. O poder economico e sempre muito presente na midia."

Percebe-se nas narrativas dos entrevistados que as afirmacoes de medo, de censura, de submissao como forma de ligacao e de relacoes com os meios de comunicacao nao passam de dissimulacao das relacoes que eles mesmos demonstram conhecer.

Para demonstrar cabalmente a dissimulacao como forma de manter o jogo politico, elegemos a narrativa do E13, do Partido Socialista Brasileiro, que contem todas as etapas desde o comeco da carreira ate a eleicao como corolario do "dever bem cumprido" no atendimento aos ditames ideologicos.

Afirma o Entrevistado 13:

"Eu comecei minha atuacao e ja comecei com problemas; o Prefeito mandava os projetos, e mandava aprovar; e eu disse nao, [...] vamos discutir isso pra ver se e bom, acrescentar alguma coisa. Nao, nao, tu es da bancada do governo e tem que aprovar o projeto. Afirmei que nao concordava, votei contra uma, duas, tres vezes, e acabei respondendo processo etico do partido que queria me expulsar."

Para reforcar seu ponto de vista, o mesmo entrevistado relata um escandalo politico que envolveu a Camara de Vereadores da qual ele era parte integrante, com todos os detalhamentos do fato, bem como suas escolhas para efetuar a denuncia. Vejamos:

[...] O sujeito ja estava metido no meio de boatos de gravacoes de politicos, que politicos tinham feito isso, de roubo, de nao sei o que, pam, pam, pam. [...] Se nao pagassem R$ 15 mil, eles levariam as fitas pro Ministerio Publico. [...] Quando virou o ano e trocou a Presidencia, quebrou o elo de ligacao entre eles."

E a narrativa prossegue:

"Recebo um pacote com fitas gravadas e as vejo em meu escritorio. Fico apavorado. Na primeira imagem que vejo e de um conhecido meu, chefe de um local onde trabalhei, e a imagem mostra um dialogo assim:--Po, ja veio tarde, tava demorando, ja veio em boa hora. Com um cafezinho na mao, ela pega o dinheiro que o outro passa da gaveta e coloca dentro do bolso. [...] Precisava mostrar aquilo pras autoridades que fossem competentes. Nao levei para as da minha cidade, porque eu tinha receio de que a policia e o ministerio publico estivessem contaminados pela politica local. Pensar como isso funciona; o Promotor tem estagiarios indicados pelo Prefeito, o Promotor pode ter um filho que seja Cargo em Comissao na Prefeitura, isso acontece em cidades pequenas. Entao, decidi levar para a Capital e, a partir dai, virei capa de jornal, por exemplo, Globo Reporter, foi uma coisa horrorosa, a minha vida virou de cabeca pra baixo, porque eu sai do Ministerio Publico Estadual ja com seguranca da Brigada Militar, que eram policiais a paisana, e que ficaram comigo durante anos, indo a todos os lugares, ate mesmo no banheiro. Imagina a loucura. [...] Noticiado o fato, processados os envolvidos, comecou uma articulacao para desestabilizar minha reputacao, utilizando minha profissao para criar o descredito e acabar com minha carreira na politica. A mesma imprensa que me deu oportunidade e visibilidade concedeu espaco para a difamacao e calunia dos meus oponentes que, em sua maioria, eram os mesmos atingidos pelo escandalo.

O desconhecimento alegado e o processo sofrido no comite de etica do partido revelam a inexperiencia e a rebeldia como forma de criar patrimonio cultural simbolico, as duas formas pretendem mostrar como os aspirantes agem para serem aceitos nos bastidores, um local de pura magia (para o bem ou para o mal). O Olimpo onde apenas alguns poucos eleitos podem transitar. Ironias a parte, percebemos na narrativa a fragmentacao do discurso como uma tentativa de mostrar que e capaz de praticar um desafio real ao grupo dominante. Uma tentativa de pertencimento ao rol daqueles que fazem acontecer, e estes sao aqueles que atuam nos bastidores.

O alvo objetivado sao instituicoes estruturadas na sociedade: o partido politico em que esta inserida, a casa legislativa onde exerce seu mandato, os adversarios partidarios (os outros, os inimigos), o fiscal da Lei (Ministerio Publico de sua cidade), o prefeito, a policia, todos sao perigosos, nao confiaveis. Estes alvos demonstram o que Thompson (2011, p. 87) chamou de "expurgo do outro" (a construcao do inimigo), uma das formas de fragmentar para dominar e manter as relacoes de poder. Tanto assim que, ao buscar a capital para a sua denuncia, resta surpreendido pelo imediato contato do jornalista ja sabedor do fato. Nesta etapa da narrativa se percebe claramente o objetivo da ascensao politica buscada atraves da justificativa da nao confianca nos poderes institucionais de sua cidade e que, em ultima tentativa, quer fazer crer ser tambem todo o sistema corrupto, corruptivel e praticante de relacoes espurias de poder.

Sao os jogos do poder pelo poder que movimentou o candidato-entrevistado a se utilizar das estrategias ideologicas como forma de aquisicao de capital politico para pertencer ao seleto grupo dos bastidores da elite dominante. A narrativa do Entrevistado E7, acima citada, mostra claramente como os jogos de bastidores ocorrem.

O narrador E7, a epoca, era componente de uma Comissao Parlamentar Mista de Inquerito (4), onde se apuravam fatos e informacoes definidos que, em tese, poderao constituir crime ou responsabilizacao civil que, como membro integrante de uma comissao teve acesso as "armadilhas" que os bastidores aprontam e perpetuam como forma de manutencao do poder constituido--a farsa do palco que obedece aos ditames dos bastidores. Tambem ele aspirante ao seleto grupo de "comando da elite", narra a trama comum que ocorre em restaurantes, garagens, gabinetes, salas, saletas, sempre distante do olhar publico.

A narrativa beira a falacia, entendida como afirmacao falsa ou argumento falso, por ma-fe, calculado para induzir em erro, porque se verificam da narracao o conluio, o acordo, a espera e a esperteza. Se os documentos eram importantes para a CPMI, por que o encontro ocorreu longe da Casa Legislativa e ausente seus pares na investigacao? Nao encontramos na narrativa qualquer resposta. Podemos perceber que a pratica e comum, e natural que assim ocorra. Ora, isso demonstra mais uma vez que os encontros e tratativas entre os tres eixos de dominacao (politico, economico e comunicacional) praticam a reificacao (Thompson, 2011) como uma forma de retratar uma situacao transitoria, historica, como se fosse permanente, natural, atemporal. Dai a ausencia de resposta, tampouco qualquer indagacao ou espanto da forma como se praticou o encontro. E natural que seja assim, faz parte da politica.

Essa e a pratica elitista que diz o que, o como e o quando, a massa popular de eleitores visualizara os acontecimentos dos bastidores. Essa pratica se direciona a manutencao da limitacao da participacao politica popular, porque reafirma e mantem a passividade inculcada no eleitor de que politica e "jogo sujo", os politicos sao todos "farinha do mesmo saco", a "politica e muito complicada", como apontamos em pesquisa anterior, divulgada no artigo "A Representacao Social da Politica" (2003). Nesse paper, identificamos que a falta de participacao politica e um grave problema, implicando em prejuizo para toda a estrutura social, e poderia ser chamada, aludindo a Freud, em a Psicopatologia da Vida Politica, onde poderiamos examinar a dinamica, as perturbacoes e patologias da vida politica.

Consideracoes finais

Conjugando o modo de fazer politica ancorada no personalismo, uma pratica que exige do candidato a qualquer cargo eletivo, a escolha de inimigos, dos maus que merecem ser atacados de todas as formas e, somando-se a isso, a necessidade de manutencao e criacao de credibilidade entre seus iguais, percebemos claramente nas narrativas a continuacao do modo de fazer politica como propriedade para poucos escolhidos e/ou iniciados: aqueles que aprendem muito bem o jogo dos bastidores e do palco. Essa propriedade pode ocorrer pela posse de bens economicos (dinheiro, imoveis, fortuna), de bens imateriais (titulos academicos, reconhecimento profissional, grandes pensadores, idealizadores, realizadores) ou da capacidade de adaptacao ao comando daqueles que detem o poder enquanto poder.

Desta forma, a pratica politica se distancia e muito da esfera publica, um lugar onde todos podem e devem dizer a palavra, manifestar suas preocupacoes, o local de excelencia do tensionamento de ideias entre detentores de um mesmo direito igual por excelencia legislativa e por direito humano de buscar a realizacao de suas necessidades materiais e imateriais. Enfim, um lugar que deu nascimento a politica, mas que a politica quer esvaziar de sentido e de pratica.

Impossivel nao perceber que as relacoes assimetricas de poder perpetuam a dominacao do povo, executando praticas antigas de esvaziamento e naturalizacao de valores introjetados na cultura popular: necessitamos de lideres e estes sao poucos. A dominacao se efetiva quando estabelecidas relacoes de poder sistematicamente assimetricas, isto e, quando grupos particulares ou restritos de agentes detem o poder de uma forma permanente e em grau significativo, permanecendo inacessivel aos demais, independentemente da base onde essa exclusao e levada a efeito. Temos a ideologia atuando de forma subliminar, imperceptivel e disfarcada de pratica politica naturalizada.

Temos como util o alerta de Leal Filho (1997) ao analisar o poder da TV Cultura. Esse e um caso exemplar, pois a emissora tem expresso, em seus proprios Estatutos, que deve ser apolitica:

"Cabe anotar que, apesar dessa pretensa imunidade da RTC (Rede Televisao Cultura), sua programacao foi sempre subordinada a vontade dos governantes do momento. A imunidade garante a permanencia de um nucleo de poder inabalavel, mas esse nucleo se curva ante as ingerencias dos governantes ... mantem o poder de fato, mas cede na programacao. [...] atraves dessas evidencias, o carater apolitico da TV Cultura, expresso em seus estatutos, se desencanta. Quando e para garantir a manutencao do poder internamente contra a influencia direta do poder publico, o estatuto e erguido como barreira instransponivel. Quando se trata de adequar a programacao a vontade dos governantes do momento, o texto legal e docilmente esquecido.... Para aqueles que detem o poder, desde a sua implantacao, o que conta e o poder em si mesmo."

(Leal Filho, 1997, p. 59-60)

Os fatos politicos midiatizados sao exercicios de poder consensualmente planejados nos bastidores dos donos reais do poder. Nao nos surpreende que a classe politica entenda, pratique e reforce esse poder. Mudam-se as formas de governo, mudam-se os detentores dos cargos de comando, mudam-se os partidos no poder, mas o poder real continuara sendo exercido nos bastidores alheios aqueles reais donos do poder--o povo.

Eis a dominacao. Eis a ideologia. Eis o retrato permanente da casa grande e da senzala. O tempo historico muda, mas o fazer historia continua atrelado a raizes colonialistas: uns poucos mandam, outros tantos obedecem. Com clareza e argucia, o grande sociologo Herbert de Souza afirmava que o termometro que mede a democracia numa sociedade e o mesmo que mede a participacao dos cidadaos na comunicacao (citado por Rodrigues, 1996).

REFERENCIAS

ARENDT, Hannah. O que e Politica? Fragmentos das obras postumas compilados por Ursula Ludz. Traducao de Reinaldo Guarany. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

ARISTOTELES. A Politica. Traducao de Nestor Silveira Chaves. Classicos de Bolso Ediouro. ISBN 85-00-20190-8.

BUCCI, Eugenio. TV, Midia e Espaco Publico Mundial na Guerra dos EUA contra Bin Laden. In: BARROS FILHO, Clovis (Org.). Comunicacao na polis--ensaios sobre midia. Petropolis: Vozes, 2002.

GUARESCHI, Pedrinho A. (Org.). A representacao social da politica. In: Os construtores da informacao. Petropolis: Vozes, 2003.

LEAL FILHO, Laurindo Lalo. A melhor TV do mundo. O modelo britanico de televisao. Sao Paulo: Summus, 1997.

MOSCOVICI, Serge. A invencao da sociedade: sociologia e psicologia. Traducao de Maria Ferreira. Petropolis: Vozes, 2011.

RANCIERE, Jacques. Os paradoxos da arte politica. Paris: Ed. WMT; Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2008.

REIS, Heitor. A Contribuicao da Psicologia para a midia da resistencia. In: Midia e Psicologia: producao de subjetividade e coletividade. Brasilia: Conselho Federal de Psicologia, 2009. ISBN 978-85-89208-15-4.

RODRIGUES, C. Democracia: cinco principios e um fim. Sao Paulo: Moderna, 1996.

THOMPSON, John B. A midia e a modernidade: uma teoria social da midia. Traducao de Wagner de Oliveira Brandao. Petropolis: Vozes, 2012.

--. Ideologia e Cultura Moderna: teoria social critica na era dos meios de comunicacao de massa. Traducao do Grupo de Estudos do Instituto de Psicologia da PUCRS. Petropolis: Vozes, 2011.

--. A Nova Visibilidade. Traducao: Andrea Limberto. Revista Matrizes, n. 2, p. 15-38, abr. 2008.

NOTAS

(1) Midia e Politica: Visibilidade e Poder--Edital 02/2010, Ciencias Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas. Projeto Aprovado pelo CNPq sob no 400511/2010-0, coordenado por Pedrinho A. Guareschi.

(2) Provincia de Sao Pedro foi uma das provincias do Brasil Imperial, sendo criada em fevereiro de 1821, a partir da Capitania de Sao Pedro do Rio Grande do Sul (1807-1821). Com a proclamacao da Republica brasileira em 15 de novembro de 1889, tornou-se o atual estado do Rio Grande do Sul.

(3) Utilizamos o caractere "E" seguido de um numero como forma de apresentar a narrativa sem identificacao do politico entrevistado.

(4) Na Constituicao de 1988, as CPIs estao regulamentadas no Art. 58, Paragrafo 3: As comissoes parlamentares de inquerito, que terao poderes de investigacao proprios das autoridades judiciais, alem de outros previstos nos regimentos internos das respectivas Casas, serao criadas pela Camara dos Deputados e pelo Senado Federal, em conjunto ou separadamente, mediante requerimento de um terco de seus membros, para a apuracao de fato determinado e por prazo certo, sendo suas conclusoes, se for o caso, encaminhadas ao Ministerio Publico, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores.(grifo nosso).

Recebido em: 02 set. 2014

Aceito em: 10 out. 2014

Endereco dos autores:

Pedrinho A. Guareschi <pedrinho.guareschi@ufrgs.br>

Maria Isabel Lopes <mariaisabellopes50@gmail.com>

Faculdade de Psicologia da UFRGS

Rua Ramiro Barcelos, 2600--Bairro Santana

90035-003 Porto Alegre, RS, Brasil

Tel.: (51) 3308-5194

PEDRINHO A. GUARESCHI

Pos-doutor em Ciencias Sociais na Universidade de Wisconsin (1991); Pos-doutor em Ciencias Sociais na Universidade de

Cambridge (2002).

Professor Convidado do Programa de Pos Graduacao em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio

Grande do Sul.

Coordenador do Grupo de Pesquisa Ideologia, Comunicacao e Representacoes Sociais.

<pedrinho.guareschi@ufrgs.br>

MARIA ISABEL NUNES LOPES

Mestranda em Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

<mariaisabellopes50@gmail.com >
COPYRIGHT 2014 Editora da PUCRS
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Title Annotation:Comunicacao Politica
Author:Guareschi, Pedrinho A.; Lopes, Maria Isabel Nunes
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Date:Sep 1, 2014
Words:8178
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