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Meanings of the Friendship among Transvestites: Construction of Interpretative Repertories/Sentidos sobre a Amizade Entre Travestis: Construcao de Repertorios Interpretativos.

Na busca por compreender o universo das travestis, mostra-se um risco prender o conceito do que seja "travesti" em um vocabulario natural e universal. Em diferentes contextos, seja o da militancia, o cientifico, ou o do senso comum, os discursos sobre as travestis estao diretamente vinculados aos discursos sobre transexuais, homossexuais, mulheres e drag queens (Leite Junior, 2008). Essas delimitacoes fluidas entre as nomenclaturas aparecem nos discursos auto referenciados por travestis em um movimento que implode uma identidade fixa, demonstrando a recriacao constante desse genero e das matrizes identitarias no seu entorno.

Historicamente, as travestis estao associadas a androgenia. Da antiguidade grega ate o periodo renascentista, a ambiguidade sexual relacionava-se diretamente a vivencia mitica, cujo transito entre feminino e masculino era tido com algo magico, poderoso e significativo culturalmente. Apenas no fim do seculo XVII, com a Modernidade, as travestis comecam a ser situadas no lugar do desvio patologico, o que reverbera ate a atualidade (Leite Junior, 2008). Na Classificacao Estatistica Internacional de Doencas e Problemas Relacionados a Saude--CID-10 (Organizacao Mundial de Saude, 2009) essas pessoas sao vinculadas ao diagnostico de travestismo bivalente (F. 64.1) e de travestismo fetichista (F. 65.1).

Ao mesmo tempo, as travestis demarcam hoje um lugar questionador por transgredir a logica do sexo naturalizado e por desejar e reinventar um feminino. Apesar da vulnerabilidade e da convivencia com o que Butler (2003) chama de abjecao, as travestis traduzem a vida numa busca pelo feminino, que segundo elas, dao sentidos as suas praticas (Benedetti, 2005). O conceito de abjecao remete as zonas inospitas em que se identificam os corpos que nao estao de acordo com a logica inteligivel do sistema binario de genero, ou seja, zonas que estao fora do "dominio dos sujeitos", termo que Pelucio (2007) associa as travestis apos terem seus corpos modificados. Nesse lugar (in)subordinado, as travestis buscam, desde 1993, uma organizacao politica no Brasil por meio de encontros nacionais e regionais. Em 2000, fundaram a Articulacao Nacional de Travestis, Transexuais e Transgeneros (ANTRA) com o objetivo de demarcar um espaco de dialogo e defesa dos seus direitos (Carvalho, 2011).

No campo cientifico, os trabalhos produzidos sobre as travestis, de forma geral, encontram predominantemente o dialogo com a Antropologia e o metodo etnografico, demonstrando a construcao do feminino travesti, os contornos da linguagem compartilhada (o Bajuba) e a prostituicao como marcador dessa categoria de genero (Benedetti, 2005; Kulick, 2008; Silva, 1993). O Bajuba ou "bate-bate" e a linguagem utilizada pelas travestis que mesclam palavras em portugues e, tambem, lexicos oriundos do ioruba-nago, lingua de origem africana. E dinamica e utilizada de forma restrita entre elas, apenas compartilhada e decifrada entre pessoas consideradas confiaveis e integradas ao grupo. A prostituicao aparece como um meio de sociabilidade marcante no processo de tornar-se travesti, ainda que nao se faca regra toda travesti ser profissional do sexo (Pelucio, 2007). Nesse contexto, elas encontram um espaco legitimo para o aprendizado da "montagem", para realizarem as modificacoes corporais e tambem por serem reconhecidas pelo grupo (Benedetti, 2005). No entanto, outras possibilidades para alem do complexo rua-travesti-prostituicao-aids ainda nao sao abordadas com destaque nas etnografias, dado o carater central e historicamente importante desse complexo.

A Psicologia, por sua vez, caminha timida no campo teorico sobre as travestis, sendo ainda marcante a visao psicopatologica das travestis e transexuais (Cardoso, 2005). A Psicologia Social tem, por outro lado, contribuido com as discussoes de genero de forma mais critica, especialmente desde o marco historico do texto de Unger (1979), que problematizou o uso que os psicologos faziam do termo genero, restringindo as diferencas sexuais as diferencas biologicas e estruturais. Conforme Nuernberg (2008), foi entre as decadas de 1980 e 1990 que se iniciou um processo de abertura do foco biologizante e biomedico prevalente na Psicologia para as analises simbolicas, historicas e sociais. No campo especifico da travestilidade, trabalhos como de Peres (2005) e Garcia (2009) merecem destaque por pontuarem recortes criticos sobre os diferentes modos de estigmatizacao nas expressoes de vida das travestis, bem como no enfrentamento da intolerancia sofrida por elas.

As etnografias (Benedetti, 2005; Kulick, 2008; Silva, 1993) ressaltam, de forma geral, uma gramatica compartilhada sobre as travestis em que o "barraco" e marcante, a rua e o espaco marginalizado e a prostituicao o destaque. Sao essas as praticas discursivas que comumente conformam e visibilizam as travestis.

Com a mesma enfase discursiva, buscamos direcionar este estudo para outras relacoes que parecem despercebidas nos textos academicos: um cotidiano que envolve a ida a padaria, ao servico de saude, a espacos de lazer, que abrange as escolhas de companhias para esses momentos, o retorno a escola, a parceria em situacoes de adoecimento e abandono. Interessados por esse contexto, e buscando demarcar outros jeitos possiveis de dizer sobre as travestis, investigamos as relacoes de amizade entre elas.

Nesse enquadre, Foucault (2010) colabora e problematiza que a amizade e uma possibilidade de reinvencao estetica das relacoes institucionalizadas em nosso tempo, reconhecendo que o que existe no campo das relacoes esta "longe de preencher todos os espacos possiveis" (Foucault, 1981, p. 39). Nesse mesmo sentido, Ortega (1999, 2002), em uma leitura historica, mostra como a amizade sofre um declinio de problematizacoes na sociedade moderna por ser integrada cada vez mais a familia nuclear, com vistas a incorporacao do amor ao matrimonio, a medicalizacao da homossexualidade, bem como a passagem de um dispositivo de parceria para o da sexualidade e do erotismo.

A amizade, como um campo potencial de analise, convida a reflexao sobre a infinidade de relacoes que poderiam existir se fossemos capazes de encontrar suas proprias leis nao nas instituicoes, mas em outras logicas e em outras formas de producao de sentidos (Foucault, 2010). Tal apontamento ressoou neste estudo, que pretendeu a partir de um grupo especifico, no caso travestis, identificar formas de dizer sobre as relacoes de amizade num universo pouco investigado, onde os codigos e linguagens sao reinventados a todo o momento.

As travestis nao vivenciam o convencional, o que promove um constante movimento de questionar e legitimar as estruturas de familia, educacao, trabalho e genero. Assim, elas precisam, citando Foucault (1981, p. 38): "inventar de A a Z, uma relacao ainda sem forma que e a amizade". Nessa invencao, delimitada pelo encontro, as falas sobre amizade podem ser atravessadas por sentidos originados em diferentes momentos historicos e relacionados a diferentes retoricas, seja crista, amorosa, familiar, legitimando-as ou mesmo questionando-as.

Diante das contribuicoes teoricas ressaltadas, fomos convidados a revisitar as relacoes sociais entre as travestis, com o olhar que busca referencia-las pelos discursos de amizade. O objetivo deste estudo foi, de forma geral, descrever e analisar os sentidos da amizade entre as travestis. Alem disso, buscamos, especificamente: a) identificar criterios utilizados para a avaliacao dessas relacoes; e b) compreender as variacoes dessas relacoes nos diferentes espacos vivenciados por elas.

Metodo

Neste estudo, pautamos o entendimento sobre a sexualidade situado historicamente e distante de compreensoes que visam atribuir uma essencia estavel ou atribuir categorias patologizantes ao sexo. O recorte foi fundamentado no Construcionismo Social (Nogueira, 2001; Paiva, 2008; Weeks, 1999), o qual abrange uma abertura para a emergencia de sentidos, fundamentando-se em uma analise discursiva para a compreensao da sexualidade e da travestilidade. Pelo vies teorico escolhido, compreendemos que: as praticas discursivas constroem realidades; o conhecimento e constituido a partir de sua insercao cultural; ha uma enfase na interacao humana; e enfatiza-se uma postura reflexiva sobre as diferentes descricoes do mundo (Gergen, 1997). Nesse sentido, os discursos produzidos entre e sobre as travestis possuem efeitos na existencia dessa populacao.

Contexto de pesquisa

A regiao do Triangulo Mineiro, local onde o estudo foi realizado, ainda nao contabilizou oficialmente o numero de travestis residentes, mas e reconhecida como polo importante de confluencia dessa populacao (Teixeira, 2008). Em uma universidade local, foi constituido um Programa voltado para a promocao de saude, educacao e cidadania de travestis e transexuais, no qual atuamos como profissionais e colaboradores. As travestis participam dos servicos desenvolvidos pelo Programa, que abarcam oficinas, ambulatorio, visitas domiciliares e distribuicao de insumos. Em levantamento junto a 65 travestis participantes desse Programa, identificamos que elas se declaram numa idade media de 24 anos; 94% se identificaram solteiras; 47% declaram ser brancas, 40% pardas/morenas e 12,5% negras; quanto a condicoes de moradia, cerca de 75% comunicaram residir em casas com outras travestis, 15% com a familia e 2% sozinhas.

Passos na construcao do corpus e analise

Realizamos entrevistas individuais e semi-estruturadas junto a 10 travestis participantes do referido Programa. As entrevistas foram audio-gravadas, perfazendo um total de 15 horas e 30 minutos de gravacao. Elas foram transcritas na integra e abarcaram temas como: a) identificacao das participantes; b) relacionamentos interpessoais estabelecidos entre elas; e c) criterios para o estabelecimento das relacoes, em especial as de amizade. As participantes eram maiores de 18 anos, trabalhavam como profissional do sexo e moravam em uma pensao com outras travestis. O caderno de campo foi outra ferramenta metodologica utilizada como apoiador das analises.

O caminho escolhido para analisar o corpus se baseou na proposta de analise do discurso influenciada pelo Construcionismo Social (Potter & Wheterell, 1987). A partir dessa proposta, realizamos a identificacao de repertorios interpretativos, a qual seguiu o seguinte percurso: 1) transcricao das entrevistas realizadas, e identificacao das primeiras impressoes da analise do corpus; 2) leitura curiosa e atenta do material construido e do caderno de campo; 3) identificacao de repertorios interpretativos usados durante a entrevista. Os repertorios interpretativos sao "blocos linguisticos" utilizados pelas pessoas para construir suas versoes dos fenomenos que participam (Burr, 1995; Potter & Wheterell, 1987). Os repertorios sao marcados por termos, metaforas, sinais, figuras de linguagem e imagens que sao utilizadas na conversacao. Eles nao estao locados num nivel individual, mas sao compartilhados e estao disponiveis como um recurso social. As pessoas os utilizam para justificar alguma versao particular de um evento, para validar, ou questionar os proprios comportamentos, e para manter sua credibilidade na interacao (Potter & Wheterell, 1987). A identificacao dos repertorios favorece a possibilidade de categorizacao, dando maior visibilidade ao processo de producao de sentidos.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comite de Etica da universidade na qual se desenvolveu esta pesquisa. Ressaltamos que todos os procedimentos eticos foram respeitados e os nomes utilizados sao ficticios. Seguindo outros pesquisadores (Benedetti, 2005; Pelucio, 2007; Peres, 2005) e, respeitando a relacao cotidiana estabelecida com o publico, o estudo reitera o uso do artigo feminino para referenciar as travestis.

Resultados e Discussao

Repertorios Interpretativos sobre as Relacoes de Amizade entre travestis

Os repertorios de amizade aparecem em diferentes momentos na entrevista e, em geral, estao ligados as perguntas que exploram como se da a construcao das relacoes entre elas, os criterios para avaliacao dessas relacoes e tambem para referenciar as pessoas importantes na historia de vida. Por meio da analise realizada, foram identificados cinco repertorios interpretativos utilizados nas entrevistas, a saber: Amizade-babado, Amizade-batalha, Amizade-familia, Amizade-segredo e Amizade-uo. A seguir, apresentaremos cada um dos repertorios e suas implicacoes.

Amizade-babado

Esse repertorio e marcado por imagens e sentidos ligados ao agradavel, ao raro, a sinceridade, a confianca, a lealdade, a protecao e a liberdade. O termo "babado" e usado entre as travestis pelo Bajuba e se refere, em geral, a algo muito bom ou a uma novidade (tipicamente, boa). Esse repertorio remete ao sentido positivo do termo, de uma amizade que e dita em suas funcoes de reconhecer o vinculo construtivo entre elas. Ele e usado de diferentes formas, a saber: 1) ao dizerem de um criterio utilizado no inicio do processo de fazerem-se travestis, em um momento propicio para constituicao da amizade; 2) para contar dos meios de pertencimento e protecao mutua esse universo, em situacoes de dificuldade; 3) para falar de uma sociabilidade jocosa em que o humor e usado de maneira positiva e aceito.

O trecho a seguir aponta o primeiro uso do repertorio, para dizer daquela travesti referenciada como a que acompanha, que compartilha a fome e as dificuldades, que inicia junto o processo de se tornar uma travesti, apos o momento em que elas saem da casa da familia:

E: ... Como que foram construidos esses principais relacionamentos que ce tem hoje ...

M: Eu conheci duas gays ... eu conheci duas gays, a gente era bem novinha ...

E: Duas gays?

M: Dois gays.

E: Dois gays ...

M: Eu tambem era gayzinho na epoca, nos fomo pro Rio juntas, nos ficamos la, fomos morar juntas. Ai, fui morar no Rio com essas duas bicha, ai nos ficamos ... tivemos uma amizade maravilhosa ...

E: Elas eram de (nome da cidade de origem da entrevistada)?

M: Eram de (nome da cidade), somos de (nome da cidade).

E: Foi la que tudo comecou ...

M: Que tudo comecou pra nos tres ... Nos tivemos uma vida pra conta. Fomos pra Europa juntas. Elas foram primeiro depois eu fui. E dai ficou gravado na historia como a gente era companheira, como a gente era amigas... (Margarida)

No trecho, a interacao a partir das palavras "gay" e "bicha", bem como das negociacoes dos usos dos artigos masculinos para o feminino e vice-versa, marca o processo da construcao da travesti compartilhado pelas tres.

O sentido e de um aprendizado compartilhado, um processo que envolve nomeacoes e sentidos que caminham para a predominancia do feminino, passando pelo masculino. A travesti lanca mao do repertorio da Amizade-babado para valorizar aquelas que permanecem juntas no processo de transformacao.

Nesse outro trecho esta referenciado o uso da protecao significada entre as travestis, que referencia o proprio risco de vida e violencia em potencial, conformando uma rede de sentidos em que ser parceira nos momentos de perigo e ameaca e compartilhado:

J: Quando eu arrumo uma confusao assim, algum caso de briga, ou na morte, aquilo acola, ai todas tao em cima. Nao aceita, sabe? Mas tambem elas nao sao de ficar em cima, sabe? Mas elas tambem nao aceita as pessoas de fora fazer pouco da gente, ne? Nem eu aceito com elas e nem elas comigo. Ai nesse ai a gente tem uma coincidencia muito grande, sabe? Da ajuda ... nossa uma ajuda ... um problema, uma confusao, uma briga, todas tao em cima, vai da o pau pra quebrar e vai ... (Jasmin)

Esse repertorio conforma o sentido de uma grupalidade entre as travestis: "nem eu aceito com elas e nem elas comigo". Elas produzem um sentido politico diante da ameaca do outro que nao e comum, ou mesmo diante de uma situacao de perigo em que a morte e uma ameaca. Esses sentidos aparecem, comumente, no processo de construcao identitaria, e ressoam num significado de afirmacao e ate de rebeldia: "vai dar o pau pra quebrar", funcionando como um jeito de falar que mobiliza lacos de solidariedade umas com as outras, reafirmando um sentido de protecao frente a situacao de vulnerabilidade.

A uniao entre as travestis e significada quando uma delas e ameacada por alguem fora do universo. Mas o delimitador maior e mais valoroso para o uso do repertorio da Amizade babado e quando se trata de um problema com alguem do proprio meio. A amizade aparece confiavel quando e relatado que uma travesti se arrisca por outra, entre "iguais".

Destaca-se nesse outro trecho o uso do humor como terceiro uso do repertorio, por meio de brincadeiras no sentido critico, mas que por ser entre travestis que mantem um afeto positivo e respeitoso, ganham a autorizacao pela via do riso e da jocosidade:

F: Ai eu ja procuro brincar com aquela que ja me respeita. Como eu respeito. Aquela que eu sei que nao e ...

E: Como e que voce brinca?

F: Como e que eu brinco? Ai. Brinco com elas, e no modo de falar. Elas comeca a brincar comigo, ne?

E: Tipo falando o que? Da um exemplo da brincadeira?

F: Me chamam de vovo Piedade. Que a vovo Piedade bebe meio litro de conhaque na novela, ne? (risos)

E: Ahhh. Vovo Piedade. (risos)

F: Ai eu xingo elas tambem. Tudo brincadeira. Entendeu? A gente ri ...

R: Voce xinga elas de que?

E: Ai. As vezes de bicha monstro ... (Florinda)

Vale demarcar que o uso desse repertorio e comum na descricao da historia da travesti sem remeter a um espaco especifico para sua concretizacao, ou seja, demarca o inicio do processo de se reconhecer travesti e referencia um espaco de grupalidade/protecao/gratidao em uma situacao de risco e adoecimento. No entanto, quando a casa e a rua sao incluidas objetivamente como espacos de convivencia, a amizade ganha outros usos e contornos.

Amizade-batalha.

A Amizade-batalha e um repertorio identificado por imagens e sentidos associados a rua, ao companheirismo no trabalho, ao truque, a competicao, a negociacao, a fofoca, a prostituicao e tambem a convivencia na casa. O termo "batalha" e emico nesse universo e faz referencia ao trabalho das travestis, a ida a batalha, em especial, na prostituicao. Em geral, nesse repertorio, as travestis dizem de si mesmas, como vinculadas diretamente a prostituicao, sentidos que confundem a transformacao como travesti com a transformacao como prostituta. Os usos desse repertorio sao identificados quando: 1) contam do processo de escolha de outra travesti para um trabalho em comum; 2) para referenciar os limites da amizade a depender do contexto de vida; 3) quando as travestis apontam os dilemas da rua e da necessidade de mante-los velados.

O primeiro uso desse repertorio e identificado na descricao de quando uma travesti chama a outra para trabalhar junto em um programa. Essa escolha nao e feita, necessariamente, pela afinidade, confianca, ou por uma relacao dita leal. A Amizade-batalha e usada ao situar a criacao de criterios que comecam na convivencia em casa e influenciam uma parceria no trabalho. Para se referir ao contexto da rua, o sentido que prevalece e o da afinidade profissional:

E: Que ce consegue confia? Me conta um pouco dessa ...

M: Nao ... Nao ... que eu posso confia nao ... Eu tenho assim, a P. como mais intima de eu chamar ela pros lugares, da gente dormir junta, da gente faze uma suruba ...

E: Rola isso ne, tambem?

M: Rola ... Rola ... Porque tem travesti que me pega ... tem cliente que me pega, ai fala: "ai eu quero ve voce comendo uma amiga sua" ... Ai muita das vezes ele escolhe, cefala "nao meu amo ... Que eu ja conheco a bicha la de casa ... como ela e ... Ou ela e porca, ou ela e fresca, ou ela e cheia de tititi", ou ela vai briga com o cliente, entao antes que aconteca isso ... Apesar que a P. me deu o maior vexame na ultima vez que a gente saiu ... Chamei ela pra faze uma suruba, ela deu um escandalo com o cliente ... Ma e normal, eu ja conheco, eu ja conhecia... Ja vi que isso poderia acontece. [...] (Margarida)

O trecho a seguir permite analisarmos o uso do repertorio Amizade-batalha no esforco de justificar momentos que nao podem ser sinceras, a depender do contexto. Tal uso mostra que os sentidos variam no momento da entrevista segundo o espaco onde a amizade relatada e construida e mantida. As relacoes que poderiam ser potencialmente positivas, quando associados ao elemento "casa", sao descritas como ameacadas de alguma forma, em outros contextos. As travestis justificam esse uso pela dificuldade de construir uma amizade sincera convivendo com tantas travestis em diferentes espacos e na complexidade de temas associados a dinheiro, drogas, roupa e competicao:

E: Voce acha que e possivel ter amizade? Epossivel?

A: Nao. Tem muito coleguismo. Amizade nao.

E: E e por que? Acucena?

A: Queira ou nao queira, entre elas, a disputa e muito acirrada, uma querendo ser melhor que a outra, uma querendo vestir melhor que a outra, uma ganha mais que a outra, entao e um ambiente assim, que nao da pra ter amizade. Queira ou nao queira e um tipo de um comercio. Ali o dinheiro fala mais alto.

E: Entendi.

A: Entao nao tem afeto.

E: E quando tem? Voce esta me contando que tem, alguns momentos tem afeto ...

A: Tem nao, minha filha.

E: Ate nestas que voce confia?

A: Nao, ai nao, e diferente, entendeu? E (fala o nome da entrevistadora) ... Mas eu falo assim. Voce me perguntou em termos geral? Nao foi? (Acucena)

A negociacao em torno das descricoes sobre a amizade nesse repertorio engendra o estabelecimento de um criterio entre o que pode ser descrito no geral e o que e raro. O repertorio da Amizade babado e utilizado para se referir a um grupo restrito, composto por uma, duas ou, no maximo, tres travestis.

O repertorio Amizade-batalha tambem aparece quando as travestis descrevem os dilemas da rua e da necessidade de tornar velados esses dilemas. Associa diretamente as relacoes das travestis a uma caracteristica do grupo: "quem tem telhado de vidro nao joga pedra no vizinho". Ou seja, por meio desse repertorio, as travestis comunicam relacoes compostas por pessoas que, de forma geral, nao sao "santas", incluindo elas mesmas, e essa descricao cria um sentido de tolerancia diante do universo e entre elas:

E: X 9 e o que, Perpetua?

P: Ai, fofoqueiro. Tipo assim. Uma coisa que eu nao gosto. A gente ta na rua Rita, tipo assim, eu tenho teto de vidro ... eu tenho um teto de vidro igual qualquer uma.

E: Claro ...

P: Eu nao roubo, eu num faco nada de errado. A nao ser... eu to nessa colocacao (termo emico: uso excessivo de drogas). Se alguem comentar e a (dona da pensao) escutar nao vai ser novidade pra (dona da pensao) vai ser uma coisa pra me pegar. Mas eu nao quero esse constrangimento. Entende? Pra que eu vou falar de uma? Sendo que a outra tambem pode falar de mim. (Perpetua)

Por meio desse repertorio, as travestis falam de um reconhecimento dos proprios limites relacionais, nos contextos da casa e da rua. Ele abre espacos para dizer de relacoes que sao possiveis a partir da negociacao entre o que a outra faz, o que a propria entrevistada faz e qual o limite de comunicar isso ao grupo. Ou seja, no repertorio Amizade-batalha existe uma cumplicidade que nao se da pela idealizacao de um afeto, nem no sentido de pertencimento ao grupo, mas pela necessidade do contexto que abarca, ao mesmo tempo, sentidos de competicao, fofocas, trabalho e dilemas afetivos. Para tanto, a funcao desse repertorio e dizer dos conflitos, mas buscando sentidos adaptativos aos mesmos.

Amizade-familia

O repertorio da Amizade-familia e marcado por um vocabulario organizado em torno de palavras como mae, pai, cafetina, uniao, irma, irmao, casa, cama, conselhos, a casa-pensao. Esse repertorio e utilizado em momentos das entrevistas em que as travestis falam de suas relacoes associadas a formacao de uma "grande familia", incluindo o vocabulario da irmandade nessas relacoes. Os usos desse repertorio abarcam: 1) dizeres sobre a familiaridade e o sentido de lar atribuido a casa-pensao onde residem; 2) descricoes sobre a dona da pensao, ora na funcao maternal, ora contraposta a figura de uma autoridade sobre a travesti; 3) a construcao da nova relacao que muda da familia de origem para esse novo sentido inventado pelas travestis.

Por meio desse repertorio, a producao de sentidos sobre a amizade situa um espaco centrado na casa-pensao:

[...] assim, aqui eu me sinto a vontade, nesse ponto ... Olha que delicia, tipo assim, vamo la, E. (fala o nome da entrevistadora), senta na area da piscina ... Nao e meu ... Mas vamo falar assim, vamo coloca ... Eu nao sou dona da casa, mas sou filha da dona ... (Margarida)

Por meio da Amizade-familia, identificam-se jeitos de dizer sobre a figura polemica da dona da pensao. Essa relacao, muitas vezes ambigua, ganha aqui contornos de uma acao necessaria, educativa, estabelecida por meio de uma idealizacao dessa figura, que aparece bem sucedida, no sentido de um exemplo a seguir.

P: Ai tem aquele predio de apartamentos. Ai eu to na escadinha, tinha o po.... Ai ... olho pro lado so vejo o carro da (fala o nome da dona da pensao) virar. Ai meu Deus (risos). Ai, balancei!

E: Balancou ... (risos)

P: Ai ja levantei, e ja botei no meu short, ne? Levantei.

E: Pra nao perder tudo, ne, danadinha. (risos)

P: O que tava na mao joguei fora ... Ai eu fui la falar com ela. Ela nao viu.

E: Ai o que ela falou?

P: Por um pouco. Por um triz. "Que que tava fazendo ali sentada?" "Tava arrumando a minha sandalia". (risos) ... Ai!

E: Que que a (dona da pensao) representa?

P: Aiiii ... tipo assim ... uma mae, um pai, uma familia que, como se diz? Pega muito no pe do filho. Pro bem.

E: Voce sente assim?

P: Eu me sinto. Acho que todas tambem. (Perpetua)

O repertorio tambem e usado quando se apontam os criterios que mostram o que muda da familia de origem da travesti para esse novo sentido "inventado" pelas travestis, o qual marca positivamente o movimento de deixar a casa da familia, pelo reconhecimento de que nesse novo "lar" e possivel ser o que se escolheu.

E: E como e que e essas diferencas?

I: Aqui a gente tem ... ne? Porque a gente pode ... porque aqui a gente e do jeito que a gente e, ne? A gente fica a vontade. Entendeu? A gente anda pelada. Tira os peito pra fora, fica so de calcinha. Casa da mae nao. Por mais que seja a casa da mae, mas tem a mae, tem que ter respeito, tem o irmao. Eu acho que aqui e o lugar bem mais assim, pra nos morar. (Iris)

O repertorio da Amizade-Familia mostra um novo jeito de descrever as relacoes entre as travestis no espaco da casa-pensao, em especial, por incutir tambem a ideia de uma grande familia de travestis. Os problemas aparecem, principalmente, quando as travestis negociam os sentidos do que e permitido e do que nao e permitido na casa. Um dilema que e significado e construido por uma incongruencia: se dizem pessoas crescidas que tem autonomia e, ao mesmo tempo, tem que seguir ordens da casa e da cafetina, como, por exemplo, a de nao usar drogas.

Amizade-segredo

O repertorio identificado como Amizade-segredo remete aos sentidos sobre as relacoes de amizade que se desdobram em relacoes amorosas e sexuais entre travestis. As falas explicitam algo velado, que nao se resume a pratica profissional da "suruba". Ele e composto por imagens e palavras como: afeto, ciume, sexo, paixao, solidao, silencio, agressao e distanciamento. E um repertorio que requer um esforco para ser dito, portanto nao e um repertorio usado com naturalidade ou dito para qualquer interlocutor. Foi identificado em uso nas seguintes funcoes: 1) para dizer, com certo constrangimento, do "caso" e do "ficar" entre as travestis; 2) para descrever o ciume, com nuances de brigas, vinculadas a negociacao de um afeto positivo, demarcado pela paixao; 3) para explicar o porque dessas relacoes serem construidas, apesar de nao serem "aceitas".

O trecho a seguir aponta o uso velado que marca um inteijogo de negacao e afirmacao para dizer da possivel relacao estabelecida:

E: Me conta um caso assim que voce lembra.

A: Foi ... eu dei um tapa na cara dela.

E: Deu um tapa na cara dela?

A: Tipo assim, a gente tinha um caso, entendeu?

E: E, voces namoraram?

A: Um caso ... Sei la se era fuleragem ou que que era, sei la ... Isso passa ... isso foi por causa de ciume, entendeu?

E: Entendi. Mas isso pode acontecer ...

A: E normal ... Eu ja falei pra voce, eu nao arrumo ninguem, eu sou muito possessiva, entendeu?

E: Hum hum. Mas voce tem ela ...

A: Nao, hoje eu nao gosto de ninguem ...

E: E, mas voces ja namoraram? Voces duas

A: Nao ...

E: Foi? (A: Gargalhada, fica sem graca)

E: Ai voce ficou com outro rapaz?

A: Nao, era tempo de rua, de programa, ela tinha ciume, eu tinha ciume, voce saia com homem entendeu? Aquela palhacada ... (Acucena)

O namoro nao e confirmado explicitamente, pelo menos, nao nomeado como tal, mas se revela na interacao, na busca por estabelecimento de sentidos entre a entrevistadora e a travesti. Vem explicitado, no caso, pela via da "fuleragem", um sentido que negativiza a vivencia.

O uso desse repertorio engloba, ainda, descricoes que remetem ao ciume, a brigas vinculadas a negociacao de um afeto amoroso, tambem demarcado no trecho anterior. Nao significam uma ruptura na relacao, mas um arranjo que pode ser dito via um movimento de condenacao da propria descricao, cheia de cuidado e ressalvas.

Os sentidos da Amizade-segredo sao permeados por uma negociacao que perpassa pelo valor de um sentido compartilhado de que travesti gosta de homem, mantendo uma "relacao heterossexual" com seus parceiros. Esse repertorio pode ser visto como uma denuncia que demarca a incoerencia ou algo ruim a ser praticado e que (re)dimensiona os sentidos do que seria aceito nas praticas relacionais entre elas.

Esse repertorio e usado, tambem para explicar o porque dessas relacoes serem construidas, apesar de nao serem "aceitas". Passa, assim, a compor os sentidos de afeto e as explicacoes em torno de como se da o processo de apaixonar-se por outra travesti:

E: Mas voce acha que seria possivel isso? O que faz passar de amizade pro amor?

P: Ai ... eu ... a solidao.

E: Acha?

P: Sim. A solidao. Falta de amor por alguem. Muito sozinha ... Ai ... quando de repente aparece aquela pessoa que ... preenche esse vazio que voce sente. Acaba sentindo amor mesmo. (risos)

E: E voce ja viu aqui na casa?

P: Ah so elas mesmo.

E: De amiga. Mas tem ...

P: Mas tem. E normal.

E: Humhum

P: Tem muitos casos. (Perpetua)

O repertorio Amizade-segredo torna possivel dar sentido a uma vivencia solitaria, que encontra ressonancias nas falas sobre os homens e as relacoes possiveis de serem estabelecidas com esses parceiros tidos como "ideais". A desilusao amorosa e os sentidos de descrenca frente aos relacionamentos romanticos com homens recaem como um fator que dificulta a possibilidade de encontrar a paixao que seria aquela reconhecida e valorizada entre elas.

A Amizade-segredo e usada como que pela impossibilidade de manter um vinculo com homens, inclusive com os clientes. Restringe-se a possibilidade de amar aqueles que predominantemente teriam o vinculo desejado e compartilhado nesse universo, travesti-homem heterossexual. Alem do uso desse repertorio, as travestis ainda associam que a prostituicao nao combina com amor, evocando uma dupla justificativa para nao viverem uma paixao: serem travestis e serem prostitutas.

O desgaste para falar da relacao de amor entre as travestis situa, por outro lado, os significados que atribuem a si mesmas. Se nao se significam, nesse momento, como pessoas que podem amar, prostitutas que poderiam ter afeto, como e plausivel duas impossibilidades juntas e apaixonadas? Esse repertorio traz uma relacao dita, mas compartilhada de maneira velada pelas travestis amantes, eroticas e tambem solitarias.

Amizade-uo

O repertorio Amizade-uo e composto por sentidos que traduzem os conflitos em torno das relacoes entre as travestis, e consigo proprias, ao longo da entrevista. Sao encontradas expressoes e imagens como: agressao, fuxico, sujo, mafia, briga, machucar, confusao, anormalidade, dinheiro, drogas, pecado, passar fome, doenca. O termo "uo" foi escolhido por ser emico na linguagem Bajuba e ser usado pelas travestis para referir a algo ruim e problematico. O repertorio e identificado nos seguintes momentos da entrevista: 1) naqueles em que as travestis falam das limitacoes e dificuldades dessa convivencia tanto no espaco da casa, quanto no da rua; 2) quando as travestis apresentam a si mesmas de forma desqualificada, questionando a existencia como travesti; 3) para demarcar um limite moral na convivencia, delimitando o que e bom e o que e ruim;

No trecho a seguir, a travesti apresenta a relacao entre elas marcada por adjetivos pejorativos sobre a convivencia:

F: Que a gente vive numa ... sei la. E ... e muito complicado pra mim falar isso. E e dificil. Mais ... a gente vive num meio hipocrita. Num meio, sabe? Muito ... sujo. A palavra correta e essa. Entendeu? Que por mais que voce faca ali uma coisa certa. Voce sempre e ruim.

E: Entendi. Mas como? Voce falou sujo, ne? Sujo como?

F: Ai E. (fala o nome da entrevistadora) ... Tudo que vem de maldade do proximo, pra mim, que e falsidade, a fofoca, e intriga, e enxerto. (Florinda)

O uso do repertorio marca a negociacao de falas que incluem as outras e as proprias interlocutoras pela "(im) possibilidade de existir" de forma digna, forjando um conjunto de sentidos ligados ao que e ruim, ao pecado, a anormalidade, depreciando o genero travesti. A prostituicao e descrita por meio desse repertorio como uma pratica que colabora ainda mais para o negativismo dessas relacoes e delas mesmas. O trecho a seguir aponta o desafio de encontrar um sentido positivo sobre as travestis a partir do uso desse repertorio:

Ro: "Ehh traveco, ee Joao, que horas e o futebol?" meu Deus! Se gostosa e mil vezes, Joao e duas mil vezes. Ou seja, mais banaliza do que ... Mas ai tem esse movimento gay que a gente faz, a parada, que ajuda apaziguar um pouco.

E: Entendi.

Ro: A gente tenta tapar o sol com a peneira.

E: Voce acha que e tampar o sol ...

Ro: Eu acho que daqui. E um processo gradativo, daqui um tempo quem sabe possa amenizar um pouco o preconceito ... Mas nunca vai exterminar ele. Ele nunca vai ser extinto.

E: E, Rosa?

Ro: Eu acho que nao, porque isso ja vem de cultura, e logo mais porque voce, a gente cresce com religiao, e logico, e desenvolvido com religiao. E Deus ja fala la na biblia, tal, tal, tal, isso ja, voce ja e criado para aquilo, com aquela ideia: "Os afeminados nao herdarao o reino do ceu." (Rosa)

Por meio do repertorio da Amizade-uo, termos associados a ambicao, a maldade e a violencia tambem sao usados, mobilizando um estado de alerta na convivencia. Ele aparece em momentos da entrevista em que as travestis encontram um limite moral, por reconhecerem o que seria bom e o que seria o ruim na convivencia, prevalecendo o ruim:

C: Tem muita gente, tem bicha, que ela nao nega droga na rua mas nega comida em casa.

E: E?

C: Encontra na rua cheirando, te oferece e tudo. Mas se tiver lanchando voce pedir alguma coisa, fica louca... (Camelia)

O repertorio Amizade-uo pode indicar uma contradicao ao ser nomeado como amizade. Porem, a "Amizade" como termo idealizado positivamente nao se coaduna com a leitura que as travestis usam nesse momento. O que ressaltam e um jeito de nomear as relacoes por meio de um vinculo dificil de lidar. Assim, a amizade-uo envolve usos que legitimam os sentidos religiosos, pecaminosos, anormais de dizer sobre as travestis e suas relacoes. Ao mesmo tempo, ele traz o compartilhamento de um fardo entre elas e a busca por um entre-lugar: ser travesti mas nao ser a travesti que os outros (sociedade, religiao, psiquiatria) traduzem, apesar de legitimar tal visao em alguns momentos.

"Nem tudo e babado!": repertorios e existencias em questao

Nos repertorios interpretativos identificados se relacionam dois lugares discursivos: o primeiro, marcado pelos sentidos sobre as relacoes entre as travestis, e o segundo, pelos sentidos sobre si mesmas. A partir dos jogos que fazem entre esses dois lugares, as travestis legitimam suas relacoes de forma positiva ou as difamam.

Por meio do primeiro repertorio apresentado, Amizade-babado, sao destacados os criterios de amizade e as formas de convivencia nos momentos de coletividade, nos efeitos positivos e construtivos desses vinculos. Esse uso se associa ao que as etnografias (Benedetti, 2005; Silva, 1993) apontam como o inicio do processo de montagem, em que as travestis se inspiram umas nas outras, tanto para construirem o feminino, quanto para se fazerem travestis, nos gestos, nas falas, no corpo. O criterio da vulnerabilidade passa a ser um marcador importante de uniao.

No repertorio Amizade-batalha, a prostituicao aparece como um demarcador: ser prostituta e quase um sinonimo de ser travesti. O uso remete a importancia da prostituicao como espaco de sociabilidade e espaco de formacao da travestilidade (Kulick, 2008; Pelucio, 2007). Foi possivel identificar, de igual forma, o uso de um sentido adaptativo e criativo do vinculo, que nao idealiza o afeto entre elas e que reconhece os limites e os "deslizes" do grupo, possibilitando manter as relacoes sem expor a outra para, assim, nao se expor--uma "colegagem" mediada pelo contexto.

No terceiro repertorio, Amizade-familia, as travestis constroem um sentido de pertencimento e de compartilhar a vida junto a outras travestis. Os sentidos utilizados nesse repertorio sofrem influencia dos moldes modernos que tendem a comunicar os vinculos construtivos pelo vies da fraternidade (Ortega, 2002). Tal uso sustenta e legitima a nocao de familia na significacao de uma maternagem, nos encontros e festas de final de ano e de aniversario. Ao mesmo tempo, rompe com a nocao tradicional de familia, por ser possivel conviver com a transgressao de um genero sem o estranhamento do modo de vida escolhido. Portanto, configura uma familia-travesti, num espaco em que o modo familiar tradicional e situado fora, mas nao significa que e superado, constituindo dois modos validos de ser familia.

A Amizade-segredo, por outro lado, remete a sentidos em que a contradicao de ser travesti e amar uma travesti encontra um lexico limitado, que nao pode ser dito explicitamente. Aparece como um novo jeito de traduzir as travestis, agora nos seus relacionamentos amorosos. Conforme pontuou Foucault (1981, 2010), mais importante que permitir relacoes sexuais e o reconhecimento dos proprios individuos desse tipo de relacao, no sentido de legitimar novos modos de vida. A marca da impossibilidade de se relacionar com outra travesti reflete um lugar solitario, em que o amor entre elas e subvalorizado.

A Amizade-uo, por sua vez, referenda esse nao reconhecimento das relacoes, por compor usos pejorativos das travestis ao dizerem das relacoes e de si mesmas. Elas pontuam o pecado, a violencia, a traicao, o que ressoa no destino marcado por assassinatos, por ausencia de uma adesao ao cuidado em saude ou mesmo no questionamento da efetividade do movimento social para a mudanca de suas realidades (Benedetti, 2005; Pelucio, 2007).

De forma transversal, alguns contextos aparecem como marcadores, compondo os repertorios, tais como os espacos da rua, da casa e da vizinhanca. A escola e outros espacos sociais, por outro lado, nao aparecem como uma marca em nenhum dos repertorios, deixando sobressair que ainda nao sao lexicos construtores ou influentes nas relacoes entre elas.

Vale ressaltar que o uso dos repertorios e variavel, ou seja, uma travesti pode vir a usar varios repertorios ao longo da conversa, uma vez que estao disponiveis socialmente e nao localizados na pessoa em especifico. Os repertorios estao associados ao processo conversacional, ou seja, mediante uma pergunta em dado contexto, as travestis podem usar um ou outro repertorio, cujos efeitos podem ser diversos ou mesmo opostos. Trata-se de uma leitura questionadora de uma perspectiva linguistica que pressupoe uma fala clara, logica e objetiva sobre as relacoes. Nao e possivel, pois, reduzir as relacoes a apenas um dos repertorios identificados. A miscelanea de seu uso e que possibilita diferentes jeitos de dizer sobre as relacoes entre travestis e, por consequencia, as diferentes implicacoes que carregam (Potter & Wetherell, 1995).

Diante dos resultados, resgata-se um questionamento central: considerando que sao os discursos hegemonicos de familia, namoro, amizade que sustentam um tipo de descricao de quem somos nessa sociedade e nesse tempo historico, como se daria isso para as travestis? As travestis, ao realizarem a mudanca no genero, acabam por afetar as estruturas de reconhecimento de si e, consequentemente, as relacoes de familia, namoro e amizade sao ameacadas. Nesse processo, referendar um jeito de vivenciar a sexualidade destoante implica em novas formas de estabelecer esse reconhecimento, nao necessariamente pela via de um apagamento da historia e das relacoes pregressas, mas por meio de uma "lacuna relacional" que e ressignificada e reconstruida.

Nessa lacuna, as travestis convocam umas as outras no processo de (re)conhecimento de si e das novas relacoes, atenuando a abjecao (Butler, 1999) e, ao mesmo tempo, legitimando-a, pois a mencionada convocacao nao se mostra suficiente para assegurar uma existencia reconhecida entre os demais sujeitos. Assim, na multiplicidade de sentidos, o universo se mantem num circuito marcado pela briga, pela conciliacao, pela morte e pelo renascimento. Sao vocabularios diversos, de aproximacoes e de rupturas, que escolhemos nomear como "amizade", mas que podem encontrar outros lexicos, por ser uma lacuna ampla e diversa que nao sera preenchida apenas com esse recorte.

Conclusao

O desenvolvimento do estudo baseado na identificacao dos repertorios interpretativos aponta os diversos sentidos de amizade vividos pelas travestis, da amizade babado a amizade uo, e permite associar os sentidos a formas de existencias variadas. A atencao a essa diversidade de sentidos, por parte das travestis e dos profissionais que trabalham com elas, e fundamental para se pensar que as travestis, ao se dizerem associadas ao pecado, ao sujo, ao desprezivel, se distanciam da possibilidade de reconhecimento quanto ao crescimento pessoal, a alteridade, ao cuidado em saude, a busca pelo fortalecimento de uma rede politica de garantia aos direitos e, por conseguinte, pela mobilizacao de mudancas em um processo de empoderamento. No entanto, se o foco discursivo comeca a destacar a legitimidade de outros repertorios que nao os que as colocam como pecadoras e monstros, outros jeitos de se portar, frente ao mundo e entre elas, podem aparecer e serem fortalecidos.

Assim, ao identificar os repertorios das relacoes de amizade, este estudo busca potencializar uma pratica politica e profissional que atente para a complexidade desse universo e que se responsabilize por tal complexidade. No ambito profissional, pela via da afirmacao de repertorios que visibilizem formas de vidas mais construtivas e legitimas para as travestis, amparando a (re)construcao de uma autoria marcada pela abjecao. Tal afirmacao pode se dar tanto em acoes desenvolvidas diretamente junto a comunidade travesti, como na formacao de profissionais que tratem de questoes relativas a esse grupo. Em termos politicos, promovendo uma interlocucao desses resultados com o planejamento e execucao das politicas intersetoriais voltadas a essa populacao, no sentido de perceber que os repertorios usados por elas interferem diretamente na frequencia as escolas, na adesao a saude, na defesa pelo uso do nome social e na busca por outras oportunidades de trabalho.

http://dx.doi.org/10.1590/0102-37722015021853239247

Referencias

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Recebido em 10.04.2013

Primeira decisao editorial em 20.11.2013

Versao final em 19.12.2013

Aceito em 02.12.2014

Rita Matins Godoy Rocha (1)

Universidade de Sao Paulo

Emerson Fernando Raseira

Universidade Federal de Uberlandia

(1) Endereco para correspondencia: Centro Universitario de Araraquara, Uniara, Coordenacao do Curso de Psicologia, Rua Carlos Gomes, 1338, Centro, Araraquara, SP. Brasil. CEP: 14.801-340. E-mail: ritamgr@usp.br
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Author:Rocha, Rita Matins Godoy; Raseira, Emerson Fernando
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Date:Apr 1, 2015
Words:7582
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