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Materialidades e maternidades: Agencia distribuida e producao de copresenca em redes espaco-temporais de cuidado mobilizadas por estrangeiras na Penitenciaria Feminina da Capital (PFC)--SP.

Introducao

"Zelda played and lost. Arriving back home she now has a second chance with no criminal record in South Africa."

Enquanto a narradora pronuncia essas frases, nos instantes finais de uma materia em um popular programa jornalistico da televisao sul-africana, a camera mostra Zelda cruzar o portao de desembarque com um largo sorriso no rosto, em busca das pessoas que a recepcionariam no aeroporto. Sua filha, a primeira a aparecer no enquadramento, corre em direcao a mae e joga seu corpo contra o de Zelda, que logo se agacha para pegar a filha no colo e lhe dar um abraco apertado. Para alem da emocao da cena, chama atencao a intimidade e a familiaridade da recepcao de Zelda por sua filha, que, agora com cinco anos de idade, tinha apenas tres quando a mae foi presa em Sao Paulo. Durante seu aprisionamento, Zelda enfrentou diversas restricoes normativas para a manutencao do contato e do vinculo com sua filha. Como, entao, o vinculo foi mantido entre elas apos esse tempo de prisao em um pais exterior? Ou, de modo mais amplo: como maes estrangeiras e filhos se relacionam, se e que o fazem, quando separados por dois, quatro, cinco anos ou mais pelo aprisionamento em Sao Paulo? Como elas constituem tais relacoes?

Os vinculos familiares tem sido considerados centrais, nao apenas na manutencao da vida de quem esta dentro ou fora das unidades, mas tambem no proprio funcionamento do sistema prisional. Sao esses vinculos que indicam uma possibilidade de deixar a "vida do crime", sinalizam uma possivel "reinsercao a sociedade" (LIMA, 2013; CHRISTIAN, 2005), ou mesmo garantem mais facilmente progressoes de regime (CUNHA, 1994). E tambem por meio desses vinculos que presas acompanham e participam do desdobramento de seus processos judiciais; garantem sua nutricao material e afetiva por meio de "bens de consumo" (GODOI, 2015) e outras "substancias" (PADOVANI, 2015); recriam um territorio existencial; suportam o isolamento; participam, de alguma maneira, da vida que corre do lado de fora (BARBOSA, 2005). Mais especificamente para o tipo de material aqui trabalhado, e por meio desses vinculos que presas exercem a maternidade, (re)criam arranjos familiares (GRANJA, 2015), mantem a guarda dos filhos, os lacos afetivos com eles e atraves deles, ao mesmo tempo que se distanciam discursivamente da chave da marginalizacao imposta pela prisao (LAGO, 2014).

Esses vinculos sao, como em qualquer outro contexto, dinamicos e passiveis de mudancas ao longo do tempo (LEVERENTZ, 2006). Podem minguar diante dos impedimentos institucionais, das distancias a percorrer e da indisponibilidade de recursos familiares (CHRISTIAN, 2005; HAUGEBROOK et al., 2011; KANE-WILLIS, 2008; MUNRO, 2007); podem tambem enfraquecer com o aprisionamento de uma parcela das pessoas que compoem a rede de apoio (CUNHA, 2002; GOMES; GRANJA, 2015) ou com o "abandono" (ausencia) de uma das partes. Esse abandono e retratado mais fortemente em unidades femininas (LEMGRUBER, 1983; MOKI, 2005; PAZ, 2009; LAGO, 2014; NEGRETTI, 2015), podendo ter como foco a relacao conjugal com maridos e parceiros (FARRELL, 1997; DODGE; POGREBIN, 2001; PRADO, 2003) e/ou com os filhos (GURSANSKY et al. apud KARVELI et al., 2012). Quando o vinculo e assim comprometido, presas(os) tendem a sofrer ansiedade, tristeza e medo (GRIMBERG, 2009; KARVELI et al., 2012), com uma maior precarizacao da vida (material, afetiva e processual) dentro da prisao, com desconfiancas advindas de outras(os) presas(os) e maus-tratos por parte de funcionarios (LIMA, 2013), ou com avaliacoes negativas feitas pela unidade prisional, o que pode gerar atraso de beneficios/progressao de regimes (CHRISTIAN, 2005). Nota-se que os obstaculos a manutencao dos lacos familiares sao um fator determinante das dificuldades enfrentadas na experiencia de encarceramento e, mais ainda, na de encarceramento em um pais exterior.

No caso da Penitenciaria Feminina da Capital (PFC, Sao Paulo) (1) nao e diferente. As estrangeiras presas na PFC, das quais 76% declaram ser maes, enfrentam diversas restricoes para a manutencao do vinculo e da relacao com filhos e demais familiares: cumprem pena em regime fechado sem receber visitas de familiares; nao tem o direito de realizar nenhuma ligacao telefonica, sequer a cobrar, ao longo de toda a pena; e podem--ou melhor, puderam ate 2012--receber apenas dois telefonemas por ano, cada qual com duracao maxima de 20 minutos. Alem disso, nao tem acesso a internet e so podem se comunicar via correspondencias, que demoram semanas ou ate meses para chegar ao seu destino final. Diante dessa descontinuidade espaco-temporal criada na relacao com familiares e amigos pelas restricoes a comunicacao durante o aprisionamento, nao e de se estranhar que a experiencia prisional das estrangeiras tenda a ser vista pelos atores intramuros como um "parentese" (CUNHA, 1994) no percurso de suas vidas.

Fundamentados em uma pesquisa de campo junto a mulheres estrangeiras presas na PFC (2), desenvolveremos aqui, porem, uma perspectiva alternativa a essa, voltada para o emaranhado de relacoes sociais que vimos se constituirem atraves, e em torno, da relacao de maternidade. Isso pois, mesmo diante do notorio isolamento familiar vivido pelas estrangeiras presas no pais (SOARES; ILGENFRITZ, 2002; RIBAS; ALMEIDA; BODELON, 2005; ANGARITA, 2008; MATOS; BARBOSA, 2015), consideramos importante observar tambem a maneira como mulheres mobilizam artefatos, objetos tecnicos e outras pessoas na manutencao, por meio de redes espaco-temporais de cuidado, das suas relacoes familiares.

Nesse contexto, falar de "maternidade" e falar da producao, pela mobilizacao de materialidades diversas (agentes humanos e nao humanos), de uma copresenca dificultada (mas nem por isso impedida) entre maes e filhos(as); uma presenca corporal defasada, estendida, mediada, que pode ser sentida onde o corpo biologico nao necessariamente esta. Abordaremos aqui alguns processos por meio dos quais "copresencas mediadas" (cf. CAMPOS-CASTILHO; HITLIN, 2013) sao produzidas, mantidas e transformadas a partir de imperativos relacionais--no caso, a maternidade. Argumentamos que a criacao, a manutencao e a transformacao de vinculos e relacoes entre pessoas que nao estao imediatamente copresentes estao diretamente ligadas ao esforco que essas mesmas pessoas investem na mediacao desses vinculos e relacoes, agindo indiretamente na vida uns dos outros. Um esforco para promover a circulacao de "substancias compartilhadas" (CARSTEN, 2004) pela mediacao material-indiciaria do toque, do cheiro, do olhar, do gozo, da degustacao, da fala e da escuta, evidenciando nao apenas a importancia da dimensao presencial no hiato imposto pelo aprisionamento num pais exterior, como a possibilidade concreta de media-lo.

Fotografias: Rastros de presenca

O album da colombiana Sandra esta preenchido com dezenas de fotos: imagens da mae, do pai e o novo namorado da mae; da irma, do cunhado e os filhos destes; do irmao e o sobrinho recem-nascido; e de seus proprios filhos, Paola e Diego. Imagens que, uma vez reunidas, dao vida aquelas pessoas, em arranjos ora solitarios, ora coletivos; ora sincronicos ora diacronicos. Paola e Diego sao os principais protagonistas, com fotografias desde o nascimento ate o momento atual. Os intervalos de tempo entre as fotos da menina, mais velha, sao maiores do que entre as do menino. Falando sobre essas fotografias, Sandra nos mostrou a importancia de seus filhos e dessas fotografias em sua vida:

"Eles sao minha vida, sao tudo para mim. Eu gosto de ficar olhando, fazendo carinho, e... depois, eu estou na cadeia, ne? E o jeito que eu tenho para ficar com eles. Vejo o tamanho deles, como eles estao, se estao fortes, bonitos! Sempre estao, ne?! [risos] A minha filha ja esta com os peitinhos crescendo, olha! E o unico jeito que a gente tem... eles nao estao aqui para me visitar. Eu quero acompanhar eles cresceeennddoooo! E...[pausa]. Voce pode me achar doida, mas tem dia, quando estou triste ou com saudades (esses dias que a gente passa aqui dentro!) ai eu fico com eles, faco carinho no rosto deles... chego a sentir a pele e o cheiro deles [risos]. E serio! Eu sinto mesmo!".

A fala de Sandra mostra que, para as estrangeiras na PFC, as fotografias nao sao meras imagens ou objetos de troca, antes se tornam parte constitutiva das relacoes transnacionais: elas mantem viva, na lembranca das deslocadas, uma vida familiar idealizada e temporariamente suspensa pela separacao transnacional; mantem vivas tambem as obrigacoes e responsabilidades dos familiares entre si. No caso das estrangeiras, essa agencia das fotografias esta diretamente relacionada a sua capacidade de corporificar os fotografados. Acompanhar, por meio das fotografias, o desenvolvimento fisico, fazer carinho, sentir a pele e o cheiro sao praticas de producao de presenca, na ausencia instaurada pelo aprisionamento e por uma serie de limitacoes comunicacionais; praticas realizadas por presas que, comumente sem qualquer chance de receber visitas, buscam tecer presencas dos familiares e amigas do lado de ca, e a sua propria presenca do lado de la.

Numa reflexao sobre a pragmatica do ato fotografico, Dubois abordou brevemente o "album de familia", no esforco de desvendar, na propria natureza desse artefato, aquilo que lhe imputa grande importancia:

"[O] que confere tamanho valor a esses albuns nao sao nem os conteudos representados neles proprios, nem as qualidades plasticas ou esteticas da composicao, nem o grau de semelhanca ou de realismo das chapas, mas sua dimensao pragmatica, seu estatuto de indice, seu peso irredutivel de referencia, o fato de se tratar de verdadeiros tracos fisicos [aqui chamados de "rastros"] de pessoas singulares que estiveram ali e que tem relacoes particulares com aqueles que olham as fotos" (DUBOIS, 2006, p.80).

Em contraste com icones e simbolos, que se vinculam a seus referentes por semelhanca ou convencao, a concepcao peirceana de indice adotada por Dubois (2006, p.61) implica uma "relacao de conexao real, de contiguidade fisica, de copresenca imediata [do indice] com seu referente (sua causa)".

Para alem da inegavel importancia dos conteudos representados nas fotografias para as estrangeiras no acompanhamento do desenvolvimento fisico dos filhos e da dinamica familiar, buscamos destacar aqui o seu estatuto indicial, i.e., a sua capacidade de corporificar e reunir os familiares por meio de seus tracos e rastros, de (re)compor a coesao familiar e de imprimir certa dinamica temporal (diacronica) a familia e a prisao. O recebimento de fotografias do exterior com alguma frequencia contribui decisivamente para essa concretizacao indicial de presencas remotas no contexto intramuros. No cotidiano repetitivo e macante da prisao, no qual a presenca dos familiares nao esta dada de antemao, mas precisa ser habilmente produzida, fotos antigas, quando desacompanhadas de atualizacoes por fotos mais recentes, podem intensificar a sensacao de abandono entre as presas--que, ja presas num espaco carcerario, se sentem aprisionadas tambem num tempo congelado que nao passa. Isso ficou muito claro no caso relatado pela bulgara Dorina quando estava deixando a PFC:

"As fotos sao muito importantes para quem esta presa e nao recebe visita, voce nao faz ideia. Eu fiquei sem ver meus filhos quase 5 anos, porque minha familia so me mandou foto antiga, do tempo em que eu ainda estava la. Ai, quando eles me mandaram uma dele com sete anos, ja no finalzinho da minha cadeia, eu quase morri! Eu nao podia acreditar: meu bebe que deixei com dois anos estava daquele tamanho! Chorei de alegria... e de tristeza tambem. Doeu muito ver que perdi toda essa fase da vida dele. Nao sei bem como explicar, mas vira uma companhia. Tem mulher que chega a sentir a pele, o cheiro da pessoa na foto! Nao foi meu caso. Eu so tinha foto antiga e acabava deixando as minhas guardadas. Ficava so com as cartas mesmo e olhava as fotos so de vez em quando. Mas era ruim. Elas me davam a sensacao de que minha familia tinha parado no tempo das fotos. Junta isso com o tempo na cadeia, que nao passa nunca ... ja viu, ne? Parecia que tudo estava parado. Todos os dias iguais aqui dentro, ai meus filhos sempre iguais nas fotos. Parecia que eles tinham me abandonado e eu so ficava com aquela lembranca antiga. Mas ai vinham as cartas e diziam que nao. Era muito ruim, da vontade de chorar so de lembrar. Por isso que eu guardei as fotos e nao vi mais".

Alem de receber, as presas tambem podem enviar suas presencas em fotografias aos familiares. Foi numa foto com as parceiras que Sandra foi vista pela primeira vez por Ernesto, colombiano que cumpre pena na "penitenciaria do Itai", (3) unidade exclusiva para homens estrangeiros, localizada a cerca de 300 quilometros de Sao Paulo. Uma parceira de Sandra enviou ao namorado, tambem preso no Itai, uma correspondencia contendo uma foto sua com outras presas, dentre elas, Sandra. Essa imagem circulou pelas maos dos parceiros do namorado da moca, seguindo uma pratica do mercado de "casos e casamentos" (PADOVANI, 2015) entremuros. Ao ver Sandra, acha-la atraente e descobrir que ela era solteira e sua conterranea, Ernesto logo recrutou o casal de namorados para promover o contato dele com a colombiana, via cartas e telefonemas via celular. E funcionou. Sandra aceitou a investida do rapaz, a despeito do caso que ela mantinha com uma brasileira la dentro.

O pedido de casamento nao tardou a chegar, atrelado a promessa de o pretendente contribuir para o sustento dos filhos da moca. Foi a distancia entremuros que selou o matrimonio (4), relacao que estara a todo tempo condicionada, porem nao restrita, aos interesses da colombiana de sustentar os filhos no aprisionamento, e se fazer mae por meio desse sustento. E interessante observar como os mesmos muros prisionais que separaram Sandra de seu filho, agora, a religam a ele por meio de outros agentes: um amigo do seu novo marido, residente em Cali, passou a frequentar a casa da sua irma para entregar o dinheiro destinado aos custos dos seus filhos. Experimentando com as potencialidades das fronteiras prisionais e nacionais, dos arranjos afetivos-sexuais e maternos, Sandra conseguia afastar o tempo familiar e o prisional de seus estados solidos (de congelamento) a partir de fluxos intra, entre e extramuros. Fluxos desdobrados em mercadorias, dinheiro e fotografias; feitos de "ajudas", cuidados, deveres, direitos, interesses e afetos que, uma vez constituidos na separacao da prisao, recusaram-se a contencao; atravessaram os limites dos muros, das "coisas", dos corpos e das relacoes, e produziram presencas.

Carta: Copresenca espacial, com defasagem temporal

A sul-africana Maretha vinha recebendo ameacas brandas de outras sulafricanas em seu pavilhao, em funcao do fato de ter delatado, as justicas brasileira e sul-africana, um nigeriano e autoridades de seu pais envolvidos em seu aliciamento para o trafico. Muito embora a moca compartilhasse sua rotina e seus sentimentos mais intimos com a mae por meio de cartas digitalizadas enviadas por e-mail, (5) achou conveniente nao comentar essa tensao intramuros--ja bastavam as ameacas que vinham obrigando a senhora de quase 70 anos a mudar de casa, e ate de cidade. Mas a caligrafia de Maretha denunciava a sua mae seu estado emocional, independentemente do conteudo das mensagens. Se a escrita estava pequena e apertada, a mae sabia que ela se encontrava triste; se estava tremida e corrida, que ela estava nervosa ou apreensiva; e se estava bem arredondada, grande e simetrica, a mae ficava tranquila, a filha passava bem.

As cartas digitalizadas carregam indices: signos, tais como a caligrafia, que mantem uma ligacao material e existencial com a remetente. Indices que, ao atravessarem a distancia prisional transnacional e entrarem em relacao com a mae destinataria, tem suas informacoes transformadas em acao: atualizam a presenca da remetente diante da destinataria no momento em que esta le os indicios afetivos inscritos no conteudo e na caligrafia. Como em Gell (1998), a caligrafia se torna um indice mediador de agencias, um rastro indicial de materialidade corporal, um transdutor da acao efetuada por uma pessoa atraves de seu corpo sobre outras materialidades.

"Eu e minha mae estamos sempre juntas! Ela me manda e-mail e carta pelo menos duas vezes na semana, me liga, me manda sedex... sedex nem sempre, porque e muito caro. Eu tambem escrevo sempre, mando fotos de vez em quando, mas ela consegue me ver mesmo [nas cartas digitalizadas enviadas] nos e-mails. Ela me ve mesmo, como se estivesse olhando nos meus olhos. Eu sinto isso quando escrevo. Ai nem adianta eu mentir, porque ela sabe como eu estou so pela minha letra".

Muito embora seja a materialidade da carta a principal portadora dessa presenca indiciaria distribuida e acessivel aos sentidos (cf. PADOVANI, 2015), o seu pleno potencial mediador passa, via de regra, pela escrita e pela leitura. Por isso, quando cartas sao usadas para mediar interacoes com criancas nao alfabetizadas, alem de acionarem outros sentidos (e.g.: cheiro, textura, cor, desenhos, beijos, rabiscos etc.), elas ainda podem mobilizar outros familiares para a leitura. A colombiana Sandra, por exemplo, alem dos presentes comprados para os filhos em seu nome (maneira de se tornar, literalmente, "presente", sem depender da mediacao escrita), sempre destina para o menino uma parte das cartas escritas a sua mae, filha ou irma.

"Ele ainda nao tinha um ano quando eu comecei a fazer isso. Pedi a elas para chamarem ele de "gorducho" toda vez que eu mandar recado para ele e dizer: "a mamae quer falar com voce". Ai elas leem o que eu escrevi. O truque esta na familia, principalmente na minha mae. Eu tenho certeza que hoje ele sabe quem eu sou. Se eu encontrasse com ele na rua, ele me reconheceria. Como por que? Ora, eu sei a mae e a familia que tenho. Minha mae fica atras dele lendo as cartas, mostrando minhas fotos e dizendo 'esta aqui a mamae, e a mamae do gorducho'. Minha filha diz que nao aguenta mais ver a vo com uma foto na mao mostrando pra ele. Ela me contou que a Milagros [sua mae] colocou umas fotografias minhas e uns desenhos que fiz e mandei para ele na comoda perto da caminha dele. Ele acorda e dorme me vendo. Minha irma e outra que fica fazendo essas coisas. Ela adora inventar historinhas para ele e eu sempre apareco como uma das personagens. Pois e, Bruna, virei personagem de historia!".

A copresenca entre mae e filho e produzida, assim, pela leitura da carta pela avo. No ato presente de redacao da carta, Sandra interage com sua mae e seu filho, apesar de estes estarem situados, nao apenas em outro lugar, mas tambem em outro tempo, no futuro. Milagros, por sua vez, no ato presente de leitura da carta para seu neto, coloca este em interacao com uma Sandra que, apesar de palpavel nos indices materiais da carta, nao esta acessivel no presente, mas apenas como rastro passado. O presente do destinatario e o futuro do remetente, e o presente deste e o passado daquele, defasagem que inviabiliza uma interacao instantanea entre ambos. Assim como em Latour (2005, p.12), a tarefa de "rastrear associacoes" (i.e., de torna-las concretamente acessiveis a acao e a imaginacao) envolve a habilidade de "se mover

entre sistemas de referencia e retomar alguma forma de comensurabilidade entre rastros provenientes de sistemas se movendo a velocidades e aceleracoes muito diferentes" (6).

(Re)ler o conteudo, acompanhar o desenvolvimento fisico, fazer carinho, enviar fotografias e dormir com elas, dar e receber beijos, tocar a mao e sentir o cheiro, sao praticas de producao presencial entre la e ca. Praticas adaptadas para as estrangeiras na PFC criarem e manterem relacoes em torno, e atraves, da maternidade; praticas que ativam outros modos possiveis de presenca, para alem da contiguidade fisica direta; praticas que desempenham, pela mobilizacao de mediadores, e com periodicidade variavel, a presenca temporalmente defasada do remetente que deseja estar com o destinatario. Em suma, praticas que sugerem um modo de existencia epistolar do remetente, capaz de produzir uma especie de "presenca ausente" diante do destinatario--"como se fosse uma visita". (7)

"Sedex": Agencia distribuida

"Sedex" e o nome dado a um pacote cheio de mercadorias enviado as estrangeiras na PFC, geralmente por seus familiares, utilizando o servico homonimo dos Correios. A tailandesa Kanokwan, autoproclamada "rainha do sedex", nunca recebeu visita de familiares na PFC, mas vem tendo o privilegio de receber "sedex" da Tailandia. Ansiosamente aguardados, esses pacotes demoram cerca de dois meses para chegar e levam "coisas" raras para dentro da prisao; mercadorias de qualidades e de marcas dificilmente encontradas no comercio de Sao Paulo, que carregam em sua materialidade elementos do ambiente familiar da moca: langeries, chinelos, cadernos, canetas coloridas, shampoos, condicionadores, cremes corporais, balas de goma, alem da carta que as acompanha. "Coisas" que fazem chegar a penitenciaria cheiros, sabores, cores, imagens, texturas e lembrancas, fragmentos de sua vida pregressa; que carregam tambem a presenca e o cuidado da mae e da irma nas etapas de envio do pacote--desde a pratica de economizar o dinheiro, passando pela compra das mercadorias, o preparo e o envio do embrulho, ate o compartilhamento (via telefonemas, cartas ou e-mails) da alegria da destinataria presa, quando finalmente o recebe.

"Ah menina, toda vez que chega o sedex eu fico me achando. Me sinto a maior rainha. E nao e da cocada preta, nao [risos]. Fico me achando, porque... quantas estrangeiras tem esse privilegio? Eu fico pensando no carinho da minha mae e da minha irma comprando tudo, preparando tudo para mim, sabe? Eu sei que elas estao deixando de gastar com elas pra poder me mandar, essa e a parte triste. A minha familia nao e rica pra mandar sedex... e muito caro. Ai as meninas aqui ficam tudo puxando meu saco, sendo boazinha comigo para eu dividir com elas as coisas. Principalmente as tailandesas, ne, que querem usar as coisas do nosso pais".

Alem de garantir as estrangeiras uma posicao privilegiada na producao da estratificacao social interna a PFC, o "sedex" exprime tambem um meio de acesso (valioso e escasso) delas aos seus respectivos locais de origem. Em outros termos, o "sedex" produz uma dupla mobilidade: social, na forma de deslocamentos verticais nas hierarquias intramuros; e espaco-temporal, na forma de valiosos deslocamentos horizontais para alem dos muros da PFC. Mas mais importante ainda, os conteudos dos "sedex" desdobram multiplas presencas, relacoes, cuidados, afetos e lugares, compondo alguns nos do ambiente familiar distante.

Os pijamas, por exemplo, que embalam as noites de sono de Kanokwan ha anos, foram e continuam sendo um dos mimos costumeiros de sua mae, comprados sempre na mesma loja. Os chinelos la do mercado do bairro, apesar de vagabundos, sao tao confortaveis para ficar em casa que a tailandesa tinha uma colecao deles espalhados pelos comodos da casa. Ja os cadernos, vendidos em tudo quanto e canto, carregam em sua simplicidade ordinaria pedacos do cotidiano mais banal de Bangkok. Para nao falar dos cremes corporais, shampoos e condicionadores que, ao som da playlist de seu celular, compuseram o ritual domestico matinal em seus ultimos anos na casa de sua mae; sempre das mesmas marcas, trazem detalhes do banheiro e das reclamacoes da sua avo sobre a mistura de seus aromas. Por fim, as balas azedas de goma, seu vicio! Companheiras de todas as horas, marcaram os sabores e dissabores dos deslocamentos de Kanokwan pelos quatro cantos da sua "cidade dos anjos".

Porem, o ambiente familiar produzido no encontro de Kanokwan com seu "sedex" ja nao corresponde exatamente ao seu estado presente: a loja dos pijamas mudou de dono e endereco; seu quarto ganhou novos ares com a chegada da sobrinha; sua irma voltou para casa depois de uma separacao; sua mae envelheceu 20 anos de dores familiares; e seus avos partiram de velhice. Aquela Kanokwan de quatro anos atras nao esta mais la... nem ca! Ela vive num ambiente familiar que existe em suas lembrancas e nas materialidades dos rastros que as evocam. Assim como no caso das cartas, uma defasagem temporal e o preco pago pela contiguidade fisica dos rastros.

Celular: Copresenca temporal, com defasagem espacial

A posse, o uso ou o fornecimento de aparelhos celulares, radios ou similares sao definidos como falta grave pela Lei 11.466 de 28 de marco de 2007. Tais atos podem acarretar a perda do trabalho e dos seus dias remidos, a permanencia de ate um mes no "castigo", a suspensao, durante os seis meses seguintes, dos possiveis pedidos de liberdade-condicional e de semiaberto e, uma vez ja progredido de regime, pode gerar o cancelamento deste e o retorno ao regime fechado. Em caso de ingresso, promocao, intermediacao, auxilio ou facilitacao da entrada desses aparelhos em unidades prisionais, sem a devida autorizacao legal, tais atos podem levar, de acordo com a Lei 12.012 de 06 de agosto de 2012, a uma pena de prisao de tres meses a um ano. Como se sabe, nada disso diminui a importancia dos aparelhos nas praticas e politicas vinculadas ao "mundo do crime" (cf. BIONDI; MARQUES, 2010; DIAS, 2011; FELTRAN, 2010; MALLART, 2014).

Nas prisoes femininas, o celular e usado, apesar de todos os impedimentos e implicacoes, para desempenhar, a distancia e na cadeia, a relacao imperiosa da maternidade. "O problemae que o governo brasileiro acha que o celular e usado so para PCC, crime, rebeliao", dizem as estrangeiras na PFC. Conforme constatado em Bumachar (2011; 2012), a mediacao de aparelhos celulares sempre em associacao com algum(ns) outro(s) rastro(s)--e fundamental para "se fazer mae" de dentro da prisao.

Entendemos que essa relacao intrinseca entre celular e maternidade se deve a importancia da producao da presenca mais direta, simultanea e espontanea possivel. Ou seja, se levarmos em conta que o cuidado presencial e amplamente considerado um dos pilares do exercicio da maternidade (cf. HAIRSTON, 2007; VEREA, 2007), compreendemos as motivacoes das estrangeiras na busca de meios capazes de produzir uma interacao mais sincronica e espontanea com seus filhos. A colombiana Sandra mostrou isso muito claramente:

"Tem coisas que so a mae mesmo resolve. Minha filha foi criada por mim, so eu e ela em casa. De repente ela fica sabendo que a mae esta presa, pensa que a mae e uma criminosa e que vai ficar na cadeia do Brasil sabe la por quanto tempo. Ah, Bruna, a revolta bateu! A menina ficou revoltada e eu sei que a culpa e minha. Minha mae me escreveu contando que ela tinha fugido de casa... vai minha mae buscar Paola na casa da amiguinha! Depois, decidiu que nao ia mais para a escola. Ai eu disse chega! Nao pensei em nada de castigo, de trabalho, de remissao. Tinha que resolver a situacao. Voce acha que voce resolve uma coisa dessa por e-mail, por carta? Claro que nao! As mensagens ajudam [...], sao muito importantes. Deus me livre ficar sem elas! Mas na hora do problema mesmo, a menina vai me esperar em casa para ler alguma coisa? Ai de noite, depois da tranca, contei para minha parceira a situacao. Eu nem precisei pedir o celular emprestado para ela. Ela ja me ofereceu em troca de uns macos [de cigarro]. [...] Ai, liguei para minha mae e pedi para falar com Paola. Ai falei para ela ir pro quarto e fechar a porta pra gente conversar em particular. Quando a gente acabou, pedi pra ela chamar a avo, colocar o celular no viva-voz pra gente conversar as tres. Ai pronto, problema resolvido! E criado tambem [risos]. [...] [P]orque tomei gosto pela coisa, tipo vicio. E, porque eu gostei mesmo, me senti sendo mae de verdade, sabe? Liguei no outro dia para saber como estava a situacao, depois mais outro, mais outro... ate que combinei com minha mae que eu ligaria pra elas todos os sabados de tarde, pra elas sempre ficarem junto com o celular nesse periodo. Porque e a gente que liga sempre, ne, daqui para la. Ai falava com os tres, era uma festa. Toda vez que eu ligava para falar com elas, minha mae colocava o gorducho na linha. Ela fez isso pela primeira vez quando ele ainda nao sabia falar nenhuma palavra, ficava so gritando e falando na lingua dos bebes, sabe? [Sandra imita o balbuciar dos bebes]. Minha mae segurava o telefone no ouvido dele. Eu falava com ele: 'filho, aqui e a mamae. A mamae ama o gorducho!'. Essas coisas, para ele conhecer minha voz. Minha mae ficava do outro lado dizendo: 'fala com sua mae, filho, fala! Alo, mamae! Fala com ela!'."

Sentimentos como culpa, impotencia, vergonha, tristeza e frustracao fazem parte do exercicio da maternidade entre presas (cf. BAUNACH, 1985; KARVELI et al., 2012; LOPES, 2004; MATOS; MACHADO, 2007; MORASH; SCHRAM, 2002). Isso tende a se potencializar quando os filhos enfrentam dificuldades do lado de fora e as maes nao conseguem assisti-los diretamente (GRANJA; CUNHA; MACHADO, 2013, 2014). Como vimos, no caso de Sandra, os aparelhos foram fundamentais para ela promover tal assistencia no exato momento do surgimento do problema, garantindo-lhe a atualizacao de sua identidade materna, e a solucao (sempre temporaria) da ambivalencia entre sua vida na prisao e a vida familiar no pais de origem.

Atraves dos telefonemas, Sandra conseguiu amenizar a culpa que aflige muitas presas diante do mau comportamento dos filhos (cf. CUNHA; GRANJA, 2014) e se sentir atuando como "mae de verdade". Tambem garantiu uma forma de sociabilidade materna e familiar mais sincronica--inacessivel a mediacao de cartas, e-mails e outros corpos que demoram dias, semanas ou meses para transpor a distancia espacial entre remetente e destinatario--, resolvendo assim o problema do mau comportamento de Paola e fazendo-se conhecer pelo pequeno Diego na dimensao vocal.

Temporalidades em conflito: Graus de presenca

A noticia chegou a sul-africana Nonhlanhla via e-mail: seu marido Anella e outros dois segurancas foram assassinados durante um assalto a casa de cambio onde trabalhavam. Ela ficou inconsolavel. Gritou, chorou e, por fim, silenciou. Era preciso aceitar a realidade: seu marido havia morrido e ponto final. Ponto final nao, reticencias... que se formavam a cada tres cartas semanais que ainda recebia dele.

Foi o desejo de produzir uma interacao mais continua, sem os altos custos do celular, que motivou o casal a manipular o tempo, se escrevendo tres vezes por semana. (8) Dessa forma, passado o recebimento da primeira carta, o intervalo de quase um mes entre o envio e o recebimento foi suprimido pelo continuo fluxo das correspondencias conseguintes (cf. Figura 1). A modulacao da velocidade das cartas operada pela tecnica de envio modificou as percepcoes estabilizadas de um tempo unico, possibilitando aos dois a producao e o compartilhamento de um presente conjugal e familiar--nao pela sincronicidade intangivel produzida pelo celular, mas pelo engenhoso preenchimento da defasagem temporal da carta pela materialidade tangivel dos rastros epistolares, acessiveis nos atos de cheirar, ler, observar, tocar e carregar os papeis e tudo aquilo inscrito nele ou anexado a ele. Uma copresenca que ganha vida num tempo passado-presente, e num espaco dentro-fora, rearranjando estrategicamente parametros espaco-temporais, e explorando ao maximo as suas potencialidades de mediacao.

Figura 1--Esquema temporal da producao de copresenca entre [A] e [B], por meio de 3 cartas semanais, interrompida pela morte de [A] e pelo e-mail de [C]. O tempo corresponde ao cruzamento das setas paralelas verticais [A] e [B], pelas linhas paralelas horizontais, indo de [1] a [27], representando os instantes de envio e/ou recebimento das cartas: cada 3 linhas/cartas correspondem a 1 semana (de [S1] a [S9]); e cada 4 semanas a 1 mes ([M1, M2 e M3]). As cartas demoram 3 semanas para percorrer a distancia entre [A] e [B], e sao identificaveis pelo nome do remetente seguido do numero correspondente a linha do envio. Assim: a ultima carta enviada por [A] e a [A16]; e a primeira carta de [B] que nao foi mais recebida por [A], mas sim por [C], e a [B8]. O e-mail, seta pontilhada que sai de [C] em [16], demora 1 semana para chegar, indiretamente, a [B], em [19]. Podemos notar que: (1) existe um intervalo inicial de 3 semanas [S1, S2 e S3] entre o inicio do envio das cartas pelos remetentes e o inicio do seu recebimento pelos destinatarios; (2) a copresenca de [A] e [B] existiu, para [B], entre o envio das cartas [B10] e [B19], ao passo que, para [A], ela durou uma semana a menos, entre o envio das cartas [A10] e [A16]; (3) apesar de [C] ter recebido 12 cartas de [B] apos a morte de [A] (de [B8] a [B19]), apenas 3 delas foram enviadas por [B] apos a morte de [A] ([B17, B18 e B19]); (4) das 9 cartas que [B] recebeu de [A] apos sua morte, apenas as 3 primeiras ainda produziram copresenca ([A8, A9 e A10]), efeito que se inverteu nas cartas de [A11] a [A16], que chegaram a [B] depois do e-mail enviado por [C] em [16]. Este esquema busca ilustrar, de maneira abstrata e sem correspondencia temporal completa, aspectos do caso da producao epistolar de copresenca espaco-temporal entre Nonhlanhla e Anella.

As cartas de Anella estavam seguindo tranquilamente rumo a prisao, com a finalidade de concretizar a presenca dele junto a esposa presa, quando, de repente, foram tomadas de assalto pelo e-mail da irma da sulafricana. Com uma velocidade muito inferior a do e-mail, as cartas nao tiveram condicoes tecnicas para reagir a situacao--exatamente como Anella diante da municao do assaltante. Uma vez atingidas, perderam sua forca vital e nao puderam mais produzir presencas. Restou-lhes apenas levar para dentro da prisao os ultimos suspiros de uma vida conjugal passada.

Nessas duas associacoes paralelas, municao-Anella e e-mail-cartas, o futuro e o presente do casal foram aniquilados. Nao ha mais um futuro conjugal possivel no exterior da prisao, tampouco presente (epistolar) no seu interior; ha apenas passado. A vida de Nonhlanhla com Anella se torna preterita e invivivel, e a prisao, um "atraso de vida"--metafora intramuros bastante popular que ganha literalidade nesse episodio. Resultado: algo proximo da sucumbencia... se nao fosse seu filho, Sibusiso. Agora seria a vez de o menino dar vida a mae, ajudando-a a remendar seu corpo e sua existencia com fios sociotecnicos de afeto e cuidado. Sem o pai, como ficaria o menino? Com quem ele viveria? Como lidaria com a mudanca de casa? Seria melhor ele permanecer sob os cuidados de Phumeza, uma vizinha amiga da mae, ou morar com Khanyisile, a irma cacula da presa residente numa cidade proxima? Estas foram as primeiras questoes que ocuparam Nonhlanhla a alguns passos da completa sucumbencia. Ela precisava cuidar do filho e estar ao lado dele, nao poderia se render a sua dor e abandona-lo neste momento.

Sibusiso acabou permanecendo com a vizinha, tendo sua tia ficado responsavel por visita-lo ou leva-lo para sua casa aos finais de semana. Para isso funcionar, Nonhlanhla precisou intensificar o envio de e-mails semanais, e as chamadas telefonicas tiveram que se tornar quase diarias. O interessante aqui e como o extrapolamento do binomio mae-filho, negociado na distancia espaco-temporal, gerou uma situacao ambigua e inedita para Nonhlanhla: se, por um lado, o compartilhar das responsabilidades estendeu o grupo de parentesco a vizinha e, com isso, minimizou o medo materno de ter Sibusiso roubado ou maltratado; por outro lado, criou fofocas, intrigas e mal-entendidos entre suas tres responsaveis.

"Outro dia gritei com Khanyisile e desliguei o telefone na cara dela. Fui tentar resolver um problema dela com Phumeza, porque uma falava uma coisa de Sibusiso e a outra, outra, e acabei entrando na briga. Eu que sou a mae, que sempre cuidei dele. Eu que sei o que e melhor para ele. Mas as vezes ela nao entende isso, quer fazer tudo do jeito dela. Mas logo depois liguei de novo e deixei as coisas do jeito dela mesmo... que raiva! Nao posso ficar sem a ajuda dela...".

Como bem expressaram Granja, Cunha e Machado (2014, p.1223-4), se, por um lado, as maes presas "precisam permitir alguma autonomia aqueles envolvidos no cuidado cotidiano com seus filhos", por outro, elas "exigem manter seu papel como principais responsaveis por seus filhos, atuando centralmente em decisoes sobre seu comportamento, educacao e disciplina". De fato, embora Nonhlanhla reivindicasse seu papel de principal responsavel pelo menino, nao podia prescindir desse novo arranjo distribuido, composto com cautela e atencao as vontades e autoridades das cuidadoras envolvidas. A sincronicidade da interacao mediada por celular revela, na sua intangibilidade (nenhum rastro permanece, para as estrangeiras, ao termino da ligacao), a distancia espacial que separa os interlocutores. O corpo de Nonhlanhla definitivamente nao esta onde precisa estar, exceto por sua voz, que ela se esforca para torna-la presente.

Agencia distribuida e producao de copresenca na distancia prisional transnacional

Como tornar presente o ausente? Como se fazer presente onde nao se esta? Sao questoes ligadas tanto a migracao transnacional quanto a experiencia prisional no exterior. Na literatura transnacional, por exemplo, termos como "long distance intimacy" (PARRENAS, 2005), "proximidade a distancia" (LOBO, 2006), "physical distance" (McKENZIE; MENJIVAR, 2011) e "care at a distance" (LEIFSEN; TYMCZUK, 2012) sao acionados para sugerir uma presenca/proximidade "digital" dos familiares, definida em oposicao aquela supostamente "real". Delineada nos limites do corpo/ organismo humano, essa presenca/proximidade digital e compreendida como capaz de conectar os individuos em comunicacao na distancia transnacional atraves de um intermediario, os artefatos ou objetos tecnicos. Aprofundando-se na questao, Madianou e Miller (2012) cunharam o termo "polimidia" para definir o ambiente no qual as "midias" medeiam as (e se definem a partir das) relacoes entre os individuos separados pela distancia transnacional.

Algo semelhante ocorre nos estudos prisionais quando, por exemplo, as cartas sao definidas como presencas "quase fisicas" (ROSA, 2008), "adaptadas" (BRITO, 2007) ou "substitutas do corpo" (COMFORT, 2007b). Tal como na literatura transnacional, essas tres expressoes questionam o isolamento das fronteiras espaciais (no caso, as prisionais), evidenciando como, atraves da circulacao das epistolas, remetentes e destinatarias(os) garantem certa mobilidade por entre os muros da prisao: o ex-general preso na ditadura militar consegue produzir uma presenca "quase fisica" diante da esposa leitora; maes conseguem exercer uma maternidade "adaptada" dentro da prisao; e maridos presos e suas esposas conseguem "substituir" seus corpos uns diante dos outros.

Assim, tanto no contexto prisional quanto no transnacional, as pessoas e seus limites sao entendidos como inquestionavelmente estaveis: as pessoas, que sao sempre individuos (de)limitados em seus corpos, acionam objetos intermediarios, tambem (de)limitados em suas formas fisicas, para se comunicarem entre si; o que varia sao os sentidos atribuidos pelos individuos a cada um dos agentes (destinatarios, remetentes e intermediarios). Fundamentados em criterios morfologicos de individuacao, tais estudos sugerem um ambiente povoado por "individuos possessivos" (MACPHERSON apud HARAWAY, 2011), pessoas com fronteiras totalmente definidas, que se comunicam atraves de coisas intermediarias ("midias") sem as alterar e nem serem alteradas por elas, como se os limites fisicos de umas jamais pudessem afetar nem serem afetados pelas materialidades, temporalidades e possibilidades de acao das outras. Em resumo, esses estudos tomam as pessoas como individuos fechados nos limites de seus corpos, e as coisas como intermediarios delimitados em suas materialidades e funcionalidades externas. E e justamente como alternativa a essa perspectiva que este texto apresentou casos concretos de agencia distribuida e producao de copresenca em redes espaco-temporais de cuidado.

Como vimos, no caso das mulheres estrangeiras presas na PFC, a realizacao do desejo de estarem presentes onde seus corpos nao estao (i.e., junto a seus filhos e familiares) e mediada por um conjunto diverso de rastros: fotografias, e-mails, cartas, telefonemas, dinheiro, mercadorias e outros corpos. Quando associados entre si na interacao com o destinatario, tais rastros efetivamente presentificam aspectos tangiveis do remetente para alem dos limites de seu organismo, i.e., sao "processos tecnicamente mediados de associacao" (FERREIRA, 2005) capazes de estender a presenca do remetente no hiato espaco-temporal que o separa do destinatario, proporcionando-lhes a producao efetiva de copresencas mediadas.

Os variados graus de proximidade, intensidade e simultaneidade envolvidos na producao da copresenca estao diretamente ligados aos possiveis modos de gestao sociotecnica das variaveis espaco-temporais. Como vimos, no caso das estrangeiras na PFC, essa gestao pode se desdobrar atraves de dois movimentos: a producao de copresenca espacial com defasagem temporal; e a producao de copresenca temporal com defasagem espacial. A producao de copresenca espacial e realizada por meio da circulacao de materialidades portadoras de rastros capazes de atualizar acoes passadas de um remetente-emissor nas acoes presentes de um destinatario-receptor (fotografias, cartas, objetos etc.). O tempo e transformado (passado, presente e futuro do remetente e do destinatario sao recombinados) para que o espaco possa ser compartilhado (contraido como rastro). Quando, por exemplo, a mae de Maretha entra em interacao com a filha em forma de carta, ha uma contracao da distancia espacial na forma de um rastro compartilhado, que atualiza o ato passado da escrita no ato presente da leitura. Escrevendo uma carta para sua mae, o "corpo articulado" (LATOUR, 2008) de Maretha inscreve sua presenca num suporte material capaz de ativa-la nas maos de sua mae, que cartografa sua caligrafia como se estivesse a olhar dentro de seus olhos.

No segundo movimento, a producao de copresenca temporal e realizada pela circulacao de materialidades portadoras de rastros capazes de atualizar acoes presentes de um interlocutor-emissor nas acoes presentes de um interlocutor-receptor (sinais eletromagneticos emitidos e recebidos por aparelhos celulares). Os telefonemas de Sandra para seus filhos, por exemplo, circulam muito mais rapidamente do que os e-mails, as cartas e os presentes, sendo um meio de comunicacao particularmente eficaz para ela conhecer e interagir com seu marido preso, com seu filho, bem como para solucionar as fugas residenciais e o abandono escolar da filha. Eficaz tambem para Nonhlanhla definir o paradeiro do filho apos o assassinato de seu marido, por meio de negociacoes com as duas responsaveis por ele (a irma e a vizinha). Em ambos os casos, o uso do celular ocorre em situacoes que demandam copresenca temporal, na espontaneidade da interacao sincronica, mais do que copresenca espacial na forma de rastros tangiveis.

Podemos falar da producao de copresenca como um certo tipo de "vaso comunicante" (GODOI, 2015), operado por uma modulacao corporal que conecta o interior e o exterior da prisao, no mesmo instante em que atualiza uma separacao fundamental entre eles: presencas (indiciais) que medeiam ausencias (de organismos), e vice-versa. Distancia espaco-temporal a um so tempo instaurada e abolida, na producao de presencas pela conexao fisica e afetiva entre materialidades distintas de remetentes e destinatarios; ou, mais precisamente, por atos executados, tanto por remetentes quanto por destinatarios, sobre determinadas materialidades moveis e que, por isso, tornam-se articuladas aos corpos daqueles na articulacao com estes. Materialidades em ato, cujos sentidos criam, nutrem, cuidam, controlam, vigiam e normatizam as pessoas e seus corpos na distancia prisional transnacional. Em suma, trata-se de copresencas singulares e irredutiveis umas as outras, constitutivas e constituintes de um corpo que e multiplo sem, contudo, deixar de ser um (MOL, 2002).

E e a partir dessas copresencas que as estrangeiras na PFC buscam se fazer em torno e atraves da maternidade. Mulheres que se transformam para manter seus vinculos; que se transmutam numa rede sociotecnica (LATOUR, 1994) para preservar a responsabilidade sobre os filhos e manter o cuidado presencial materno sob o dominio predominantemente feminino; que rearranjam fronteiras espaco-temporais para multiplicar os fios constitutivos e constituintes da maternidade. E a partir desses rearranjos que essas mulheres criam cotidianamente condicoes espaco-temporais para nutrir (e tambem serem nutridas de) cuidados e afetos dos filhos e demais familiares numa nova "gramatica do pertencimento" (BELELI; MISKOLCI, 2015). Articulam-se em emaranhados compostos por agentes e unidades (familiares, estatais e nao governamentais) e diversas materialidades, para garantir os meios de execucao de certas praticas presenciais (maternas e domesticas) bastante corriqueiras, mas nada banais na distancia prisional transnacional. Criam estrategias para garantir melhores condicoes de vida e para sanar sentimentos como culpa, impotencia e solidao, produzindo um espaco de interacao entre o interior e o exterior da prisao a partir do qual lhes seja possivel atuar e se perceber como "boas maes" (CUNHA, 1994; BRITO, 2007) ou, como preferem dizer, como "maes de verdade".

DOI: 10.12957/irei.2018.35864

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Recebido em outubro de 2017

Aprovado em marco de 2018

Bruna Louzada Bumachar *

Pedro Peixoto Ferreira **

* Bruna Louzada Bumachar e doutora em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); e assessora de projetos e pesquisa do Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC). E-mail: brunabumachar@yahoo.com.br.

** Pedro Peixoto Ferreira e doutor em Ciencias Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); professor MS-3 do Departamento de Sociologia (DS) e do Programa de Pos-graduacao em Sociologia (PPGS) da Unicamp; e coordenador do Laboratorio de Sociologia dos Processos de Associacao (LaSPA) na mesma instituicao. E-mail: ppf@unicamp.br.

(1) A PFC e localizada na cidade de Sao Paulo. Tinha cerca de 800 presas na epoca desta Pesquisa (2008 a 2012), sendo quase metade estrangeiras. La se encontravam mulheres de mais de 60 nacionalidades, com perfis variados, falantes de mais de 30 linguas, mas que traziam em comum, em 95% dos casos, a causa do encarceramento: o trafico de drogas, na funcao de mulas. A massiva maioria se dizia primaria no sistema carcerario, residia anteriormente em seus paises de origem e nao falava portugues, unico idioma dominado pela quase totalidade de presas brasileiras e funcionarios. Quase nenhuma chegava com qualquer nocao das linguagens criminal e legal brasileiras, ou contava com visitas de parentes e amigos, o que dificultava a consolidacao de redes de apoio material e afetivo na capital paulista durante o cumprimento de pena. Por fim, todas estavam submetidas a leis, orgaos e procedimentos juridicos, nao raro, distintos dos das brasileiras, dependiam minimamente da assistencia de embaixadas e consulados (que nem sempre se faziam presentes) e contavam com a exclusividade dos servicos prestados pelo Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC), ONG que, dentre outras atividades, participa da mediacao da relacao de estrangeiras com seus familiares..

(2) Este texto e uma versao, muito reduzida e parcial, e com novas experimentacoes teoricoetnograficas, do capitulo 4 da tese de Bruna Louzada Bumachar. Os dados etnograficos foram obtidos a partir do trabalho de campo multissituado (intra, entre e extramuros), realizado, em grande medida, por meio do trabalho voluntario junto a organizacoes civis de direitos humanos, dentre as quais o ITTC.

(3) "Penitenciaria do Itai" e a forma como as estrangeiras na PFC se referem a Penitenciaria Cabo PM Marcelo Pires da Silva, localizada em Itai (SP).

(4) Lago (2014, p.76) narra algo bastante semelhante, quando uma de suas personagens Presas fala da dimensao produtiva dos muros em um "relacionamento que nao apenas se mantem a despeito das distancias criadas pela prisao, mas que se fortalece diante dessas mesmas distancias". Como notado por Ferreira (2005, p. 22): "Quando limites deixam de ser vistos como separacoes e passam a ser vistos como a producao mesma daquilo que separam, entao as relacoes que eles mediam deixam de ser relacoes entre dois polos que preexistem a propria relacao (...) e passam a ser relacoes entre outras relacoes que nao precisariam existir enquanto tais antes de serem relacionadas".

(5) Apesar de o uso da internet nas prisoes brasileiras ser legalmente proibido, a situacao excepcional de isolamento transnacional das estrangeiras na PFC permitiu que se desenvolvesse, para elas, uma forma mediada de correspondencia eletronica: semanalmente, agentes do Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC, organizacao civil de direitos humanos), digitalizam e enviam--por e-mail--cartas escritas por essas mulheres e lhes entregam, em forma impressa, as respostas recebidas.

(6) Bruno (2012) oferece uma importante releitura da concepcao latouriana de "rastro".

(7) A expressao "como se fosse uma visita", recorrente na fala de parte das estrangeiras Quando o assunto sao as correspondencias, indica que as missivas sao visitas, mas visitas mediadas por papel, que podem ser tocadas, cheiradas, beijadas, observadas e guardadas, mas que Nao interagem com a imediacidade da presenca fisica direta.

(8) A producao interacional, e nao tecnologica, de sincronicidade, foi demonstrada tambem em Rettie (2009).
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Author:Bumachar, Bruna Louzada; Ferreira, Pedro Peixoto
Publication:Intersecoes - revista de estudos interdisciplinares
Date:Jan 1, 2018
Words:9497
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