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Masculinidades transgressivas em praticas de barebacking.

Transgressive Masculinities in Barebacking Practices

Primeiras consideracoes: o lugar do barebacking

Muitos dos desafios contemporaneos parecem apostar nos ganhos sensoriais dos encontros perigosos e do atravessamento das fronteiras que estabelecem uma determinada organizacao ou ordem social. Essa fronteira simbolica que demarca comportamentos e organiza os prazeres produz ao mesmo tempo medo e fascinacao, mostrando-se, portanto, de forma ambivalente, tenue e instavel, na medida em que o prazer e o risco entram em contato e, muitas vezes, se misturam. Existem, entretanto, diferentes aspectos ou dimensoes culturais mais amplas, do nosso tempo, que devem ser considerados quando analisamos esses novos contextos de fascinacao pelo desafio ou apostas nos ganhos sensoriais dos encontros perigosos. Como enfatiza Williams, (1) ser excessivo/transgressivo implica romper ou atravessar fronteiras postas pela cultura e historia. Nessa perspectiva, a transgressao e mobilizada pelo que e definido, percebido ou sentido como limite.

Essa relacao entre limite (perigo) e transgressao parece ser fundamental para compreender as novas praticas e sentidos do risco no contexto atual da epidemia de HIV/ AIDS. E o caso, por exemplo, do barebacking, geralmente definido como o engajamento consciente e deliberado em praticas de sexo anal desprotegido, conhecendo-se os riscos envolvidos. (2) O termo "barebacking", que significa, literalmente, cavalgar ou montar sem cela, passou a ser usado no contexto da comunidade gay norte-americana, em meados da decada de 1990, de forma analogica para designar o sexo sem preservativo. (3) Para alguns autores, representa uma estrategia de resistencia a um discurso normativo da saude em relacao ao sexo seguro. (4) Assim, o engajamento em comportamentos de risco (nao saudaveis) passa a ser problematizado como uma forma simbolica de independencia psicologica e resistencia, uma forma de rebeliao e transgressao dos valores sociais dominantes. (5)

Atualmente, a pratica do barebacking parece extrapolar as nuances de sua versao mais popular conhecida como bug chasing, quando um homem HIV negativo procura deliberadamente um homem HIV positivo para ser infectado. (6) Essa forma de interacao nao se apresenta de modo padronizado, ja que muitos barebackers aparecem como indiferentes ao status sorologico de seus possiveis parceiros (7) ou buscam parceiros soroconcordantes. (8) Por conseguinte, diferentes aspectos parecem estar envolvidos no barebacking para justificar ou motivar a emergencia dessa pratica. E o caso, por exemplo, quando os barebackers fazem referencia aos beneficios e prazeres obtidos no sexo desprotegido, principalmente no que concerne a maior estimulacao fisica e ao sentimento de estar emocionalmente mais proximo ou conectado com o parceiro. (9)

Vale ressaltar que inumeras experiencias desafiam discursos e padroes de comportamentos referentes ao sexo seguro. Essas experiencias sugerem novas perspectivas de investigacao, na medida em que 'driblam' ou mesmo contradizem as estrategias de prevencao vigentes. Nas palavras de Castiel, "multiplicam-se situacoes em que viceja o 'semsentido' ou, quando muito, perspectivas de significados frageis e transitorios". (10) As multiplas situacoes vividas por sujeitos de cultura poem em jogo alguns dos conceitos utilizados nas praticas biomedicas e politicas de saude, como as nocoes de cuidado, protecao/seguranca, perigo/risco. Os encontros marcados pela internet, incluindo a 'apologia' ao nao uso do preservativo em sites diversos, a interacao sexual em locais publicos com a iminencia do flagrante, o surgimento dos dark rooms, (11) sao algumas dessas diversas situacoes.

Faz-se salutar, portanto, compreender os novos discursos e sentidos que emergem sobre o risco, por exemplo, como risco-aventura, uma imponderabilidade que marca as experiencias cotidianas e sua gestao no espaco privado, (12) bem como discutir as praticas que os sustentam e parecem mobilizar formas plurais de resistencia, quer sejam de forma "espontanea", "selvagem" ou "planejada". (13) Essa concepcao positiva do risco refere-se a algumas iniciativas que se mostram ousadas diante de um futuro incerto ou problematico. (14)

Nessa direcao, busco apresentar alguns topicos ou dimensoes analiticas do barebacking, mais precisamente em torno da dinamica homoerotica e dos signos de masculinidade que marcam os encontros bare. Essa discussao e decorrente de uma etnografia on-line sobre a relacao entre risco e prazer nas praticas de barebacking, no contexto brasileiro, entre os anos de 2004 e 2007, (15) considerando as novas possibilidades da internet, de trocas de experiencias e encontros eroticos.

Algumas consideracoes metodologicas

Em 2006, apos uma pesquisa de reconhecimento do campo, no Orkut, (16) utilizando suas ferramentas de busca, encontrei algumas comunidades que discutiam as praticas do barebacking, bem como os aspectos positivos em relacao ao nao uso da camisinha. E importante esclarecer que a maioria dessas comunidades girava apenas em torno do sexo sem camisinha ou da preferencia por gozar dentro, muitas vezes destacando os aspectos negativos do preservativo. Na maioria delas, portanto, nao havia nenhuma referencia direta, na sua descricao, ao termo "barebacking". Para minha surpresa, cheguei a encontrar no Orkut algo em torno de quarenta comunidades mais genericas que valorizavam positivamente o sexo sem camisinha. Em contrapartida, foram identificadas, registradas na minha pagina pessoal e acompanhadas sete comunidades diretamente vinculadas ao tema do barebacking, uma delas posicionando-se contra o mesmo. (17)

No decorrer da minha trajetoria de pesquisa on-line, tambem acompanhei um grupo de discussao sobre o barebacking no Yahoo!Grupos, bem como foruns oriundos de um site de pesquisa do ISC/UFBA para homens que fazem sexo com homens (HSH), denominado de Projeto Convida. (18) A partir dessa minha insercao nas comunidades e grupos de discussao on-line, houve tambem a solicitacao (e participacao) de barebackers, usuarios do Orkut, para uma entrevista aberta on-line, utilizando o recurso do MSN Messenger existente para a conversa em tempo real.

Entre os usuarios da internet que me cadastraram no MSN, estabeleceram contato e conversaram comigo, busquei delimitar a pesquisa em torno de trinta homens, (19) de diferentes idades e regioes do pais. Desses contatos, 23 disseram praticar barebacking, incluindo aqueles que fizeram restricoes ao conceito, considerando algumas divergencias entre o que conheciam do barebacking e o que eles queriam com a pratica. Em relacao aos demais, destaca-se: um dos contatos frisou que faz sexo sem camisinha de vez em quando, mas nao sabia se isso o tornava realmente um barebacker; outros dois disseram nao ser praticantes do barebacking, mas ja terem feito ou esporadicamente faziam sexo sem camisinha; em contrapartida, quatro deles apenas se identificaram como curiosos ou terem vontade de praticar barebacking.

Para organizar melhor a distribuicao dos fragmentos e leitura dos textos produzidos, tentei adapta-los a um formato de escrita (narrativa) mais hibrido, trazendo, sempre que possivel, os estilos de linguagem dos meus interlocutores e da midia em que foram gerados. Alguns dos fragmentos de discurso on-line, como continuacao de uma resposta, foram postos no mesmo paragrafo, com o objetivo de tornar a leitura mais fluida. E possivel que alguns dos recursos ou signos utilizados para complementar ou construir enunciados, como imagens e simbolos disponiveis no proprio MSN, tenham se perdido no momento de transferi-los e salva-los como documento do Word. (20)

E importante esclarecer que todos os meus interlocutores do MSN foram chamados pelo codinome de Moscarda, uma referencia direta a personagem de Luigi Pirandello, do livro Um, Nenhum e Cem Mil, (21) atraves do qual busquei focalizar algumas das perspectivas e facetas identitarias de possiveis barebackers no cenario brasileiro. No que concerne a 'identificacao' desses Moscarda, ela ocorreu na forma de um endereco eletronico (e-mail) ficticio, trazendo apenas sua respectiva idade e regiao do pais de onde teclava, por exemplo, Moscarda29@hotmail.com, RJ, sempre com o objetivo de preservar o anonimato dos meus interlocutores. No decorrer deste artigo, muitas das construcoes narrativas, estilos e usos de linguagem desses Moscarda estarao destacados em italico.

Finalmente, chamo atencao que nao ha garantia de uma imagem verdadeira na internet, ainda que essas imagens sejam mediadas por referencias socioculturais. Nessa perspectiva, as inscricoes sobre a dinamica homoerotica deve se pautar por criterios de verossimilhanca, mais do que por um criterio de 'verdade'. Na mesma direcao de Rios, (22) acredito que os fatos ficcionais sao potencialmente reais, na medida em que produzem efeitos, repercussoes ou multiplas respostas em seus ouvintes ou leitores. Para alem de qualquer pretensao representacionalista, talvez seja mais proveitoso admitir que as nossas 'descricoes' tem um efeito sobre o mundo, enfim, tambem produzem coisas ou versoes da realidade. (23)

O prazer do contato total no sexo entre homens

Quando comecei a acompanhar algumas das comunidades ou grupos de discussao on-line, havia uma infinidade de questionamentos que surgiam a cada leitura de texto, mensagem e participacao em um forum virtual. Sem duvida, um dos aspectos mais conflitantes diz respeito a propria definicao de barebacking, que, de modo geral, girava em torno da ideia de sexo sem camisinha, na maioria das vezes desvinculado do tipo de parceria (fixo ou ocasional). E importante esclarecer que essa pratica sexual desprotegida (entre homens) esteve ligada a penetracao anal (ativo ou passivo), dando-se enfase, principalmente, ao contato direto com o esperma. Nessa perspectiva, nos discursos sobre o barebacking, a referencia ao sexo anal desprotegido parece ser o ponto de partida para a analise, ainda que nem sempre exista clareza quanto a distincao entre sexo desprotegido de forma intencional (premeditado) e casual ou acidental. (24)

E preciso ressaltar que nao estou me referindo, necessariamente, a um tipo de reflexao, decisao ou intencao (racional) de abandonar 'definitivamente' o preservativo, inclusive porque existem aqueles barebackers que alternam entre momentos de uso e nao uso. Nao se pode negligenciar, portanto, o fato de que muitas decisoes sao tomadas a flor da pele, ou seja, no calor das interacoes sexuais, quando as pessoas parecem perder o autocontrole.

Distintas modalidades de barebacking (e barebackers) parecem, entao, coexistir atualmente, demonstrando que multiplos aspectos e situacoes estao implicados no sexo desprotegido. (25) Uma dessas modalidades diz respeito a sua forma mais extensiva e de maior contato, ou seja, as formas mais extremas ou transgressivas em busca de prazer, quando praticamente nao existem restricoes ao sexo desprotegido, havendo uma exposicao intensiva e extensiva (mais frequente) ao risco de infeccao. Nesse grupo, estara em foco uma situacao excessiva no contato com o outro (de valorizacao do esperma) e de contato com o risco.

Atraves da potencialidade transgressiva da internet,26 pude visualizar essa expansao (explosao) de um discurso que, aparentemente, segue na contramao da saude. Em varios foruns de discussao on-line, independentemente de estarem vinculados ao tema do barebacking, a camisinha aparece relacionada a uma dimensao mais artificial do sexo, mais fria, de perda de prazer e sensibilidade, principalmente quando impede o contato com a parte mais intima, essencial, ou preciosa do homem--seu semen ou esperma. Utilizo a qualidade de frio para designar tanto uma sensacao de artificialidade, da existencia de uma borracha (27) ou plastico que impede o contato natural, o calor e a pulsacao da pele (penis) no sexo de verdade, quanto a impossibilidade de sentir o leite quente do homem.

Nessa perspectiva, o penis carrega um excedente simbolico, podendo tanto instrumentalizar o prazer quanto carregar ou transmitir a essencia do homem--sua forca, seu ser, sua vida (e sua morte). Vale lembrar que esse aspecto, da vida e da morte, associado a perda do liquido seminal esteve presente entre os gregos antigos, (28) com o desenvolvimento de uma reflexao moral sobre o excesso e a passividade no uso dos prazeres. Para os gregos, o semen carregava parte essencial da existencia do proprio homem, capaz de transmitir a vida ou o proprio ser. A quantidade ou intensidade de liberacao do esperma podia levar, portanto, a morte do homem, pelo enfraquecimento de sua energia ou forca, inclusive impedi-lo de imortalizar-se via descendencia ou na geracao de coisas boas e belas.

Obviamente, existe toda uma problematizacao biomedica contemporanea sobre os males ou prejuizos que o semen pode, de fato, provocar, principalmente na forma das infeccoes sexualmente transmissiveis, como e o caso do HIV. Por outro lado, essa discussao adquire importancia antropologica, na medida em que a ideia de perigo dos 'fluidos sexuais', com sua carga simbolica, expressa tambem a distribuicao desigual do perigo entre corpos masculinos e femininos, refletindo uma determinada ordem ou hierarquia social. (29) Essa distribuicao diferenciada mostra o medo diante da perda de controle do corpo. Nessa perspectiva, os fluidos corporais aparecem como anarquicos, (30) na medida em que rompem fronteiras (dentro-fora, natureza-cultura, self-corpo). Nao e a toa que o corpo feminino e tido na nossa cultura ocidental como mais perigoso do que o corpo masculino, ja que se apresenta como mais permeavel, aberto, fluido, umido, incontrolavel, em oposicao as 'qualidades' do corpo masculino, controlado, contido, fechado, duro e seco. (31) Conforme destaca Lupton, (32) a ideia de perda de controle dos homens sobre seu corpo esta associada a emocoes de odio, repugnancia, humilhacao e horror. (33) Nao devemos esquecer que esses sentimentos se dirigem tambem a homens que fazem sexo com homens, considerados potencialmente mais promiscuos, instaveis, desregrados, descontrolados e perigosos do que outros homens heterossexuais.

E importante esclarecer que a troca de fluidos corporais, principalmente sob a forma de esperma (porra ou leite), tem sido uma das marcas dos discursos e praticas do barebacking. (34) Essa marca (excessiva) parece expor uma maneira de transgredir os limites impostos aos corpos, na medida em que o contato com o esperma pode significar maior risco de transmissao do HIV. Em varios outros relatos homoeroticos, o contato com a porra ou leite (semen ou esperma) do homem, nas acoes de "beber", "tomar", "engolir", "chupar", "sugar", "mamar", "sentir", "levar", "jogar", "jorrar", "meter", "encher", "rechear", "brotar", "vazar", "fuder", "escorrer", "derramar", "espirrar", "deixar", "esporrar" ou "gozar dentro", aparece como importante para a autorrealizacao sexual. Por outro lado, em algumas circunstancias, as praticas parecem exceder esse contato pela forma como ocorre e pela quantidade do liquido que e expelido, quando diferentes parceiros gozam dentro do anus de um mesmo homem, havendo encontro, mistura e abundancia de esperma, ou mesmo no ato de beber, tomar ou chupar o semen que sai do anus do parceiro. Vale ressaltar que existe todo um investimento erotico que nao se limita a porra ou leite quente do homem, mas tambem a outros fluidos corporais, como a propria urina. Essa discussao e altamente importante para mostrar a forma como os fluidos corporais masculinos estao (re)investidos e (re)valorizados eroticamente no sexo sem camisinha:
   PODER MAMAR EM UM CARALHO
   E SENTIR O GOSTO DE SEU
   LEITINHO, ENGOLIR TUDO.
   E E CLARO LEVAR PORRA
   NO CU E A MELHOR
   SENSACAO DO MUNDO
   (Participante do forum 'Algumas Boas Razoes para
   nao Usar Camisinha")

   Adoro
   nao vou ser hipocrita em dizer que sempre faco sexo
   seguro como tem muitos que dizem,sexo seguro e
   com qualquer um, independente se e parceiro fixo
   de longa data ou nao, o perigo e o mesmo ...
   eu adoro fuder um rabo cheio de porra, fico louco ao
   perceber que o cara ja ta recheado, uma vez comi
   um moleque de 17 anos num banheiro de um terminal
   daqui de Curitiba que ja tinha sido fodido por 07 sem
   camisinhas, o cu dele escorria porra e meu pau
   dancava dentro daquele mar de porra, gozei e ele
   ficou la, passou um tempo voltei la e ele ainda estava
   la'e ja tinha dado pra outros caras e estava mais cheio
   de porra, nao resisti e fudi ele de novo, o cara nao
   tava nem ai, dava pra qualquer um, do pivete cheirador
   de cola aos velhos tarados que entrava la ...
   (Participante do forum do ORKUT Adoro).

   Cara ... ontem fui num puteiro e levei porra no cu de
   uns 5 ou 6 caras.

   Um deles quase me rasgou qdo socou a rola. Muito
   grossa.

   O ultimo deu uma mijada dentro do meu cu. Delirei
   de tesao (Participante do forum do ORKUT VC DEIXA
   QUALQUER UM GOZAR DENTRO DO SEU CUZINHO).


No decorrer das minhas interacoes on-line, pude constatar tambem que o contato com o semen, mesmo para quem engole ou recebe o esperma, nao torna o homem, necessariamente, menos masculino ou o feminiliza. Ainda que muitos homens (machos ou masculos) nao queiram interagir sexualmente com outros homens considerados afetados, afeminados, bichas ou viados, e estejam orientados por imagens corporais especificas, principalmente pelo tamanho do penis, isso nao significa que organizem suas praticas e desejos sexuais de forma rigida, em torno da dicotomia atividade-passividade, masculinidade-feminilidade. Como tambem aponta o estudo de Braz, (35) ser passivo ou dominado (e possuido) nao afeta, necessariamente, a masculinidade dos parceiros envolvidos nos encontros e trocas sexuais. (36) Nesses novos arranjos interativos, as posicoes eroticas apresentam-se mais flexiveis, transgressivas e versateis, no que diz respeito a ser ativo ou passivo, receber ou dar a porra (ou mijo):

Sou masculo pacas mas se tem uma coisa que eu gosto e de deixar um macho me possuir e me lavar com seu leite quente (Participante do forum do ORKUT Gozar Dentro).

[...] A porra eu gosto porque sinto que perteco ao cara.... sabe sou super masculo dono total da minha vida.. enfim as vezes nen eu mesmo me aguento de tanto bater o pau na mesa ... ae quando parto pro sexo ... tem esta outra ponta ... que e me sentir ... sendo fudido.. e sendo deliciosamente usado por outro cara ... (Moscarda32@hotmail.com, SP).

E interessante enfatizar que grande parte dos meus interlocutores do MSN, praticantes do barebacking, destacou o prazer produzido no contato com o esperma, ainda que alguns tenham destacado o contato pele a pele como suficiente para justificar o sexo sem camisinha. Aqui, o semen ou esperma aparece tambem como signo importante da masculinidade. Como sugerem alguns relatos, existe uma sensacao de que a propria macheza e intensificada pela quantidade (e qualidade) da gozada de outro macho. No barebacking, portanto, atraves da valorizacao do esperma (circulacao e troca), existe um sentido de intercambio (e compartilhamento) da masculinidade, o que faz intensificar o prazer, principalmente por ser altamente transgressivo, quando homens (machos) sentem-se intimamente ligados, buscando dar e receber (excessivamente) o esperma. Essa discussao sobre a masculinidade tambem pode ser encontrada no texto de Ridge, (37) tratando dos significados e dinamica do barebacking entre jovens gays de Melbourne, quando um dos seus informantes diz que receber o esperma significa incrementar sua propria masculinidade. Halkitis, Parsons e Wilton (38) tambem destacam a ideia de que o barebacking afirma a masculinidade, alem de produzir os sentimentos de intimidade, maior contato entre os parceiros, incluindo a percepcao de um sexo mais "quente".

Dessa forma, conforme descrito em diferentes narrativas, nem sempre e possivel fixar os significados do sexo entre homens (e da propria masculinidade) em torno da polaridade ativo-passivo. O proprio poder (masculino) tambem nao esta, necessariamente, fixado, na medida em que homens "passivos", em circunstancias diversas, podem se sentir mais poderosos, por exemplo, quando conduzem ou direcionam a relacao sexual, permitem a retirada da camisinha, oferecem prazer ao parceiro, ou mesmo quando se sentem trazendo parte do parceiro para dentro de si. (39) Em um relato do ORKUT, pude, tambem, encontrar a ideia de producao (e acumulo) do poder masculino implicado no recebimento do esperma, principalmente quando e originario de diferentes parceiros:
   Eu ja
   uma vez numa nas pedras de uma praia no guaruja, eu
   deu pra um cara e ele gozou dentro, nao deu dois
   minutos e ja tava dando pra outro, nisso chegou um
   terceiro e me comeu tambem, bom no final foram sei
   gozadas dentro do meu cu sem camisinha, eu me senti
   o cara mais poderoso do mundo, o cu cheio de porra.
   Faco por que gosto, e acho que tem muito hipocrita
   achando que e a ultima bolacha do pacote, ams [mas]
   ele se esquece que a ultima bolacha ta senpre
   esfarelada (Participante do forum do ORKUT Bareback--eu
   ja).


Essa ressalva e importante, porque, em alguns discursos, esse poder (masculinidade) parece ser exclusivamente exercido por quem e o ativo da relacao ou quem penetra. Nao se deve esquecer que, para alguns homens, existe uma satisfacao maior por ser o macho de um homem, como se tivesse maior poder ou dominio sobre o outro. Por exemplo, um dos Moscarda que tinha duvida se praticava barebacking (porque ele nao sentia nenhum prazer por desafiar as doencas) dizia gostar do lance de gozar dentro do cara e possuir, ou seja, sentir-se o macho dele. Dizia ser ativo (95% das vezes) e nao gostava de se relacionar com homens afeminados (so curto meter sem se o cara for bem machinho). Explicava, tambem, que gostava de transar sem camisinha, mas so de vez em quando, nas situacoes de muito tesao, de desafio do momento:

Acho que rola mais ou menos como a mulher ... pra mulher, o homem e o macho dela. O cara goza na buceta, engravida, ela e a femea do cara. No caso de dois homens, quando ta com o tesao, rola isso tb. Ja vi carinhas pedirem pra mim ... Me faz um filho! Cara! Isso da um tesao FDP!

[...] O cara marcou comigo aqui perto da minha casa e quando eu encontrei ele, a namorada do cara acabou encontrando a gente! Ai me deu mais tesao ainda. Ele deu um jeito de despachar a garota, dizendo que era um amigo da faculdaDE, e eu trouxe ele aqui pra casa e meti sem pena nele (meu pau ja tava todo melado de tesao. Foi como o lance do desafio q te contei ... Deu mais tesao de eu imaginar ... porra ... eu to metendo num cara que mete numa buceta ... entao eu vou fazer ele sentir como e bom ser uma mulher e sentir um cara metendo no cu dele, gozando dfentro.,.. assim como ele faz com a namorada, entebdeu [entendeu]? (Moscarda34@hotmail.com, RJ).

Talvez exista aqui uma mistura de valores e significados diversos. Ainda que esse Moscarda queira colocar o parceiro (bem machinho) na mesma posicao de uma mulher, no sentido de ser penetrado, parece, tambem, sentir-se fascinado ou provocado por saber (imaginar) que esta metendo num cara que mete numa buceta. Uma imagem que o remete ao desafio de deixar sua marca, mostrar seu poder, como se fosse tambem uma questao de honra: mesmo sabendo que talvez vc nao encontre mais a pessoa pela frente, mas vc pensa: eu tenho que comer esse cu, eu preciso gozar dentro desse cara pra ele nunca se esquecer disso ... hehehe(Moscarda34@hotmail.com, RJ). Esse aspecto parece encontrar ressonancia na discussao de Bourdieu (40) sobre um tipo de capital simbolico que os homens trocam, acumulam e reproduzem na forma de virilidade, como principio de conservacao e aumento da honra.

Outro relato de um dos Moscarda (Moscarda37@hotmail.com, SP) da destaque a sensacao produzida no ato de receber o esperma. Para ele, existe uma autorrealizacao por (poder) fazer o macho sentir prazer. Seu proprio prazer esta implicado (ou mobilizado) na expressao de gozo do parceiro. Mais do que a euforia da penetracao, existe uma euforia (ou celebracao) produzida pelo recebimento do esperma, pela sensacao (e imagem) de 'continuidade' do parceiro dentro de si:

Sentir a rola direto dentro eh muito excitante, mas tem uma coisa depois de um tempo sendo penetrado, a euforia de ser penetrado passa ai fico pensando no gozo no cara e se nao acontece em breve eu paro..... mas se de repente ele goza, a coisa que mais lembro eh da porra que ele deixou e independe do tamanho da rola ... acho que eh op resultado de um intenso prazer, e no meu caso qdo estou sendo penetrado e sinto a porra dentro de mim....... sinto me realizado por poder fazer o macho sentir prazer e "expressar " gozando, ai a porra tem um gostinho tao agradavel.... eu nao chego a ejacular e nao me importo com, em grande parte das vezes, mas tenho uma excitacao em saber que o parceiro gozou (Moscarda32@hotmail.com, SP).

Nessa direcao, conforme destaca um dos meus interlocutores (Moscarda32@hotmail.com, RJ), o barebacking nao e simplesmente transar sem camisinha: em sua grande maioria, os barebackers sao fascinados por, desculpe a expressao, porra. No barebacking, entram em jogo desejos, fetiches, fantasias (nao e so o sexo em si). Esse meu interlocutor explicava que os barebackers gostam de beber porra, gozar dentro do cara e fazer o cara expelir a porra pelo "cu", e chupar em seguida. Moscarda nao sabia explicar o que havia de tao especial no esperma, apenas que exerce um fascinio sobre todos (inclusive sobre ele mesmo). Ele tentava traduzir esse fascinio atraves do seguinte lema: "NENHUMA GOTA DEVE SER DESPERDICADA". Segundo ele, os que gostam de transar sem camisinha sentem tesao no "pele a pele", o barebacker vai alem disso, existe todo um tesao na porra, e tb no mijo. E completava: num sexo bare, ou numa festa bare, existe a "ADORACAO PELA PORRA". Outro barebacker (Moscarda18@hotmail.com, SP) explicava que a sensacao obtida no contato com o esperma talvez fosse a mesma quando comia chocolate, ou seja, prazer, contentamento, a sensacao de que se sente "o gosto perfeito". (41) Nessa perspectiva, apenas o contato com a pele seria indiferente, ou seja, tem que estar lambuzado de algo escorregadio. Para ele, a penetracao sem gozar dentro nao tinha graca, a nao ser que o esperma seja engolido:

A sensacao de gozar dentro de alguem e gozarem dentro de vc (pra mim) e maravilhosa, nao tem nada a ver com contato de pele, e sim o esperma no final ... talvez a mesma coisa que eu sinto comendo chocolate (Moscarda18@hotmail.com, SP).

Outro interlocutor (Moscarda23@hotmail.com, SP) enfatizava que nao ha prazer sem esse contato com o esperma (e por isso que fazemos sem). Para ele, sentir a porra e o extase da transa--isso e o que faz a gente transar sem, um quer sentir o outro. Nessa direcao, tambem havia, sempre, uma novidade a cada novo encontro: a novidade e que vc conhece sempre pessoas legais e pode manter relacao com elas livremente, o que e dificil por ai. De forma similar, outro Moscarda dizia gostar de sentir a porra (esperma), como se estivesse com parte do cara dentro dele (Moscarda32@hotmail.com, SP). Essa ideia de extase atraves do compartilhamento (e mistura) do esperma (e das pessoas) me remete a ideia de prazer extatico discutido por Conveney e Bunton. (42) E um tipo de prazer (ritualistico) que se produz atraves da liberacao e comunhao entre os participantes. Vale ressaltar que a experiencia sensorial, como e o caso do tesao, muitas vezes aparece tambem como dificil de descrever ou traduzir em palavras, principalmente porque diz respeito as diferentes maneiras (pessoais) de sentir prazer, mas possivel de ser vivida (coletivamente) no contato intimo com o outro:

O tesao dobra quando um cara diz que esta gozando dentro ou eu estou gozando dentro, e algo muito diferente ... no meu caso gosto de sentir quando o cara jorra dentro, e tao bom ainda mais se for mais de um, agora descrever e meio dificil porque sexo e tesao e cada um sente mais prazer em determinadas coisas, os barebackers sao assim [...] estes dias sai com um cara e na hora da transa eu queria logo que ele gozasse porque estava com muita vontade em minha cabeca fico pensando"vai goza eu quero sentir voce dentro de mim" ... pra mim isto se chama tesao mais nada (Moscarda23@ hotmail.com, SP).

Outro Moscarda (Moscarda29@hotmail.com, RJ) dizia buscar prazer sem limite no barebacking; prazer este que nunca vinha sozinho, sempre acompanhado de outras coisas: fistar, (43) mijar, dominar. Em relacao a sua preferencia por sentir o contato da pele ou gozar dentro, ainda que fosse dificil separar as duas coisas, dizia preferir a sensacao de meter sem borracha a de gozar dentro. De qualquer forma, no decorrer do ato sexual, esses dois aspectos pareciam se misturar, sempre havendo o contato do esperma com o anus: prefiro gozar na porta, comecar na porta e ir lambuzando e entrando, uma delicia. Para ele, o barebacking tambem e um sexo onde a gozada e valorizada, e nao deve ser desperdicada, e uma estetica tambem, sendo algo bastante masculino:

E algo bem masculino (hetero-masculino), o sexo hetero e sem camisinha, pelo menos num dado momento, sabe-se disso, ate por conta da reproducao, tanto q existem piadinhas tipo "te engravidei", entre os bbkers [barebackers] (Moscarda29@hotmail.com, RJ).

Quando esse Moscarda falava sobre essa valorizacao ou estetica do gozo (esperma) como algo bem masculino (hetero-masculino), entre homens, referindo-se a ideia de reproducao ou gravidez mediante o semen, trazia tambem uma dimensao erotica muito presente em outros discursos, que e a possibilidade de transgredir uma moralidade imposta atraves da pratica do barebacking. Essa ideia de transgressao girava, inclusive, em torno da posicao ativopassivo, quando os homens podem ser versateis: sou versatil, alias, o q e muito comum entre bares, raro ver alguem so ativo, embora existam os depositos, aqueles q sao so passivos, e q na orgia sao cercados por varios ativos leitadores (Moscarda29@hotmail.com RJ).

Alem de um prazer sensorial implicado no barebacking, falava-se tambem de um prazer intelectual (Moscarda29@ hotmail.com, RJ). Esse prazer intelectual estava ligado a um espirito hedonista ou pacto realizado entre homens, um estar junto em nome do prazer, quando todos compartilham, deliberadamente, uma mesma experiencia arriscada. Enfim, e intelectual na medida em que se sabe que as pessoas estao se permitindo (arriscando) juntas, e meio que um pacto de garotos. Esse meu interlocutor remetia o barebacking a imagem do bacanal (LITERALMENTE), da orgia, gangbang (sexo com muita gente). (44) Para ele, diferentemente do que quase sempre ocorre nas saunas e dark rooms, tudo e mais a vista e mais drastico nos encontros previamente estipulados para o barebacking: NUDEZ TOTAL, LUZ DIRETA, SEM INTERVALOS COMERCIAIS ... RS. Nessa perspectiva, Moscarda falava de um sacrificio coletivo (45) em nome do prazer. Essa entrega coletiva em nome do prazer, onde todos podiam ficar com todos sem distincao, e que produzia prazer (tesao):

CHEGRA [chegar] NUM LOCAL E VER Q TEM MUITOS HOMENS, ALGUNS COM QUEM VC HJAMSI (jamais) FICARIA, MAS Q SAO PUTOS COMO VC E DISPOSTOS A TUDO POR PRAZER, E ISTO E Q TE DA TESAO (Moscarda29@hotmail.com, RJ).

Vale ressaltar que, em alguns encontros (festas) de barebacking, a relacao entre machos parece ser mais requisitada e valorizada, quando a figura do afeminado perde em valor ou preferencia, portanto sendo menos requisitado. Por exemplo, um dos Moscarda (Moscarda23@ hotmail.com, SP) dizia sentir atracao por caras mais masculinos (que nao sao afeminados, tipo chamados de bichinhas): gosto de homens com jeito de homens, mesmo que sejam gays mas que saibam disfarcar bem. Segundo ele, a maioria dos frequentadores das festas de barebacking pensa o mesmo, nao curtem afeminados. Ainda que nao fossem proibidos de participar dos encontros, eram menos requisitados. Dizia tambem que os homens mais bonitos eram mais requisitados. No entanto, fazia questao de pontuar que todos acabam transando com todos e tudo termina com bastante gozo.

Moscarda (Moscarda23@hotmail.com, SP) ressaltava que as festas bare sao organizadas, geralmente, atraves da internet (a gente pega o msn um do outro pela net e faz uma festa geralmente e isso). (46) Ele havia participado de dois encontros. Seu ultimo aconteceu dias antes da nossa conversa, na casa de um amigo, com a participacao de oito homens (e rolou tudo, sem preservativo todos). Explicava que esse tipo de encontro tem de ser em um local discreto, onde nao chame muita atencao: porque pessoas nao entendem uma reuniao de muitos homens, dai fazemos as coisas bem feitas. (47) A cada novo encontro, existem alguns que ja se conhecem, mas tambem aparecem pessoas novas, dai sempre vem mais e mais gente. Na ultima festa, conhecia apenas dois homens, os seis outros eram novatos (nem deu tempo de transar com os conhecidos).

Outro Moscarda (Moscarda29@hotmail.com, RJ) dizia nao haver limite para o numero de participantes das festas de barebacking. Entretanto, esclarecia que a quantidade de pessoas era mais controlada nos apartamentos privados do que nas saunas e clubes, que e mais aberto. De acordo com o dono da festa, pode-se selecionar ou escolher os participantes por aparencia, tamanho do pau, ser bom de cama, enfim, so convidados, quando ja se sabe mais ou menos quem vai estar presente. Em relacao a idade dos participantes, frisava que, em geral, e gente com mais de 30 anos; mas ressaltava: se bem q tem uns garotos bem novinhos q ja vi na net.

No que concerne a importancia da aparencia dos participantes nos encontros ou festas bare, principalmente em relacao a imagem da AIDS materializada no corpo, fazendo uma referencia direta a imagem passada do "gay aidetico"--magro demais, fragil, debilitado--este mesmo Moscarda (Moscarda29@hotmail.com, RJ) esclarecia que essa aparencia afasta mais do que ser soropositivo em si. Pontuava que quem faz bare ta se lixando pra saber se o cara e positivo ou nao, e mais, ninguem pensa em se infectar na hora da foda. O que todos querem saber e se o cara e gostoso ou bom de cama (tanto que se o cara e gostoso e todo mundo sabe que ele e, todo mundo vai querer fuder com ele). E completava: ate porque, se o cara estiver debilitado e ter uma pica imensa, ele com certeza vai leitar muito. Nessa perspectiva, o que parece ser valorizado no barebacking e a imagem ou performance masculina: se o cara se mostra afim de fuder, virilidade, tamanho do saco, modo de se falar, etc (Moscarda29@hotmail.com, RJ).

Em contrapartida, outro Moscarda (Moscarda32@ hotmail.com, SP) admitia nao ter bula ou manuscrito estabelecido para seus encontros sexuais. Assim, e preciso enfatizar que nem todos os meus interlocutores, praticantes do barebacking, diziam participar (ou gostar) de surubas ou festas bare: meu negocio e olho no olho ... detesto este sexo performatico, sexo pra mim e troca de um monte d coisas (Moscarda32@hotmail.com, SP). Esse Moscarda tambem encarava a internet apenas como fantasia: ate conhecia caras pela net, mas na hora das vias de fato nao rolava. Dizia-se visceral, procurando seguir apenas seu instinto, preservar ao maximo seu lado bicho:

Gosto de ser primitivo quando o assunto e gente.. e o meu lado bicho que fala ... tem que bater nun monte d lugar.. no sexo no coracao no cheiro ... sei la nao determino.. nun tenho performace pronta ne [nem] modelo d gente estabelecido na minah [minha] cabeca;.. esta parte quem comanda ... e meu sexo e o meu coracao ... (Moscarda32@hotmail.com, SP).

Portanto, ainda que o barebacking apareca tambem relacionado ao uso da internet, na medida em que muitos dos encontros sao organizados e conhecidos de forma online, nao significa que esse fenomeno seja, simplesmente, um produto da rede de interacao on-line ou ocorra apenas atraves da mesma, mesmo porque as pessoas continuam frequentando os bares, boates, saunas, cinemas e outros lugares de encontro de parceiros potenciais para o sexo desprotegido; (48) havendo, assim, uma diversidade de espacos e abordagens de encontros de barebacking, atraves tambem de amigos e conhecidos. (49)

Seria uma visao estreita, simplista e mesmo incongruente pensar a internet apenas como propiciadora da epidemia de HIV/AIDS, ou fixa-la como contexto de praticas de risco. Em se tratando das relacoes entre internet, cultura e risco, talvez seja mais pertinente discutir a reciprocidade e os multiplos efeitos dessas interacoes. Conforme enfatizam Miller e Slater, (50) ha um relacionamento complexo e imbricado entre mundos on-line e off-line. Sao varios usos e interesses envolvidos entre os distintos atores, podendo ocorrer mutuas (e multiplas) transformacoes (da tecnologia, dos proprios usuarios e de suas culturas). Dessa forma, a internet nao pode nada mais fazer do que amplificar praticas ja existentes que sao ainda tabus nos espacos tradicionais de encontros face a face. (51)

Algumas consideracoes sobre o prazer do risco

No decorrer das multiplas interacoes sexuais desprotegidas, pode ocorrer um desdobramento de motivos para a realizacao do barebacking. Em outros relatos, a relacao entre prazer e risco mostra-se de forma mais direta ou explicita. Acompanhando esse deslocamento de acoes (e atores), e possivel tracar uma trajetoria que liga o prazer ao perigo, ainda que esse trajeto apareca, muitas vezes, de forma confusa, incerta ou desordenada. O tesao ou emocao vivida atraves do medo, da aventura, da possibilidade de contrair alguma doenca, da experiencia de entrega, maior intimidade ou contato com o parceiro sexual, muitas vezes desconhecido, o incomodo da camisinha, o contato com o esperma sao aspectos importantes que se deslocam nas praticas do barebacking:

Da mais tesao ...

O medo, a pele na pele, a camisinha machuca, e tudo e muito tesao. Faco ativo e passivo. Que delicia. Sem contar sentir a porra escorrendo ... (Participante do forum O que te leva a praticar bare back).

Creio que somente os que praticam conseguem compreender seu real significado que seria a mistura de: pele com pele x prazer incomensuravel x risco excitante que se corre ! o risco e um fator estremamente excitante, e como ao adeptos ao Sexo em locais publicos, o maior prazer esta na possibilidade de serem encontrados (Moscarda27@hotmail.com, SP).

Evidentemente, existe todo um discurso normativo sobre o sexo seguro, mas tambem um sentimento de instabilidade, fugacidade, desconfianca e incerteza no amanha muito presente na cultura contemporanea. Ha, portanto, dois aspectos aqui implicados: o limite imposto a troca de fluidos e contato intimo com o outro, pelo perigo que o ato pode representar, ao mesmo tempo que o sexo sem borracha mobiliza a curiosidade, a imaginacao e o sentimento de liberdade, maior contato ou intimidade entre as pessoas. Portanto, trata-se de um tipo de prazer ou gosto especial que a transgressao dos limites dos corpos parece produzir em tempos aparentemente frios, normativos e superficiais. Por exemplo, para um dos meus interlocutores, o sexo sem camisinha fazia aumentar seu prazer. Esse Moscarda dizia gostar de porra, sabia dos riscos, mas a coisa com camisinha nao era completa. Por outro lado, sentia-se tambem subversivo, indo na contramao da norma, da paranoia do risco de vida criada em torno do sexo, como se fosse a coisa mais subversiva do seculo 21:

Porque quando vc faz isto vc esta indo na contar mao (contramao) de algo que foi estabelecido como controle.. social.., veja bem numa epoca.. de sociedade vigiada. Por completo ... como esta que vivemos.. fazer isto ... e nao acreditar na paranoia criada em relacao ao sexo, sexo era prazer, ae virou risco de vida a partir do meio dos anos 80 (Moscarda32@hotmail.com, SP).

No decorrer dessa trajetoria arriscada, portanto, podese produzir tambem uma satisfacao ou realizacao pessoal por superar seus proprios limites ou parecer mais forte, resistente, em relacao ao HIV, ao discurso da AIDS e a propria morte. Nessa perspectiva, um dos Moscarda (Moscarda27@ hotmail.com, SP) tratou de enfatizar o prazer que se tem em correr risco, (52) principalmente diante de desconhecidos. Seus encontros de barebacking ocorriam muitas vezes em locais apropriados para rolar sexo, como cinemas porno, saunas, etc. Para ele, o barebacking nao era simplesmente transar sem camisinha, mas transar sem camisinha e sentindo o tesao do perigo aflorar sobre sua pele sem ao menos conhecer sobre a vida de seu parceiro. Dessa forma, o risco seria o tempero essencial do barebacking:

So existe o bare por conta do risco principalmente quando se transa com desconhecidos ou em locais totalmente escuro, nos quais (voce) nao tem condicoes de reconhecer seu parceiro (Moscarda27@hotmail.com, SP).

Para esse Moscarda, o que tornava o barebacking uma situacao especial era exatamente poder contornar o medo de morrer, ser superior a este medo. Ele explicava que seu interesse "neste risco" talvez fosse provar que era mais forte que ele e que sua vida era muito boa quando se tinha emocoes de medo. Em contrapartida, optar pelo risco era uma forma de (querer) ser livre no uso de seu prazer: prazer sem questionamentos, sexo livre. Nesse sentido, a camisinha seria mais ou menos como a cela de uma prisao.

Nos diversos encontros sexuais sem camisinha, existe tambem um investimento erotico que ocorre em torno das interacoes com homens anonimos, estranhos ou desconhecidos. Em varios contextos interativos, a imagem do desconhecido, do imediato e irracional, de uma sensacao de instinto animal que domina a acao ou racionalidade humana, parece produzir um estado de excitacao, sentimentos de curiosidade, medo e fascinacao; portanto, emocoes intensas que surgem de um movimento (irresistivel) em direcao ao perigo ou desconhecido. Por outro lado, e importante enfatizar que existe tambem uma atracao ou excitacao do momento provocada pelos atores que compoem as cenas sexuais, principalmente quando o homem e considerado gostoso (excesso de homem), interessante, bonito, malhado, irresistivel, ou simplesmente possuindo um penis valorizado (grande e grosso), ou uma bunda tesuda; momento este considerado dificil e complicado para o exercicio do autocontrole:
   Eu ja passei por situacao semelhante num dark room.
   Tinha um cara gostoso la, com as calcas arriadas, e
   com as maos na parede dando pra quem quiser.
   Depois que o cara gozava ele continuava la. Eu nao
   saia de perto, passava a mao nos musculos dele e
   estava bastante excitado. Meti o dedo no cu dele,
   estava bem meladinho, meti sem do e gozei muito.
   Nessas horas parece que surge um instinto animal
   dentro da gente e acaba acontecendo. Pra dizer a
   verdade, depois disso fiquei meio com a consciencia
   pesada. Mas foi uma gozada fenomenal (Participante
   do forum do ORKUT Apenas Penetracao Bare).


Ha um aspecto importante sobre as interacoes sexuais com desconhecidos que vale a pena discutir. Para um dos Moscarda praticante do barebacking (Moscarda37@ hotmail.com, SP) que costumava frequentar saunas, tudo acontece no escuro (darkroom), ja que no claro ninguem tem coragem. A oportunidade e o tesao faziam com que ele procurasse parceiros sexuais nos dark rooms. Naquele momento, vc tem o que alguem procura. Assim, dizia selecionar apenas a rola (se tiver dura e com vontade de meter). Segundo ele, o anonimato era o motivo pelo qual o dark room fazia tanto sucesso: nunguem [ninguem] precisa ser morqalista [moralista] dentro do dark room.... vc faz o que tem vontade de fazer, sem ter alguem que o reprove por. Reconhecia, entao, haver um tesao no anonimato, ja que podia ser receptivo (53) e avancar, ser desejado, independentemente de padroes de beleza:

[...] sentir que tem alguem penetrando em vc, nao importa a cor, se eh gordo ou nao, feio ou bonito, nada d importa, a unica parte que importa eh a rola e como o cara faz [...] eu sou bem inseguro comigo, tenho minha neuras, na maioria dos dias me sinto rejeitado, entao o dark room pra mim eh um lugar onde a rejeicao eh muito pouca, a maioria ali nao procura por principes.... vc nao precisa ser perfeito, eh sua atitude que vale ... vc poder se "servir" e ser "servido" por varios ao mesmo tempo, e nao ter de se preocupar se seu cabelo ta arrumado, se alguem nao gostou da cor dos seus olhos, ou da sua pele [...]. meu pensamento ali eh, nao sou de ninguem e sim pra todos ... sinto que estou sendo desejado ... me deixo levar ... (Moscarda37@ hotmail.com, SP).

Nao se deve esquecer que, em muitas dessas situacoes, o medo parece caminhar lado a lado com o prazer. Por exemplo, esse mesmo Moscarda que costumava ir a saunas (Moscarda37@hotmail.com, SP) tinha medo de pegar alguma doenca, mas se ficasse pensando no risco na hora da transa perdia o tesao. Como em outras experiencias arriscadas ou de limite, e preciso nao ser paralisado pelo medo. (54) Nesse sentido, outro Moscarda, que dizia nao mais sentir prazer no risco (Moscarda18@ hotmail.com, SP), (55) e mesmo assim continuava a fazer sexo sem camisinha pelo prazer do contato com o esperma, fez referencia ao bungeejump, (56) colocando, de certa forma, a existencia do medo como elemento importante do prazer, na medida em que possibilitava que a experiencia de risco produzisse sentido ou efeito:

Eu AMO pular de bunguee-jump, oq e aquilo? a sensacao de que aquele pode ser seu ultimo minuto vivo. eu nao pularia de bunguee se eu nao tivesse medo da corda arrebentar, mas 90% das vezes eu nem penso nisso (Moscarda18@hotmail.com, SP).

Consideracoes finais

Finalmente, gostaria de focalizar um enunciado oriundo de uma mensagem on-line: tudo vale a pena quando a lama nao e pequena. (57) Para qualquer desavisado, o enunciado em questao seria uma leitura estranha de um verso famoso da literatura portuguesa. (58)

No lugar da alma, utiliza-se a palavra lama, que na lingua portuguesa significa mistura de terra e agua. E preciso, de antemao, esclarecer que essa frase foi escrita por um membro de um grupo do YAHOO para a discussao e realizacao de encontros de barebacking, momento este anterior a minha participacao nas comunidades do ORKUT. A apropriacao livre de um verso famoso de Fernando Pessoa apontou uma direcao importante que poderia seguir para compreender melhor alguns dos interesses e sensacoes produzidas no barebacking. Nao poderia esquecer que o verso original de Fernando Pessoa gira em torno das aventuras maritimas portuguesas. Lagrimas, perdas, mortes e dores foram necessarias para o enobrecimento de um povo. O perigo (do mar) aparece no poema como rota necessaria para se chegar a algo superior, incluindo a conquista de novas terras, riquezas e sonhos.

Entretanto, para alem dos perigos incontrolaveis da natureza, os riscos contemporaneos mostram outras trilhas que devem ser seguidas. Nao estamos mais, simplesmente, diante de situacoes em que a nobreza e a honra de um povo estao em jogo, tampouco diante de ritos sociais de pertencimento ao grupo. Diante das incertezas e fragilidades do mundo contemporaneo, colocar-se em risco aparece como uma forma importante de afrontamento do mundo (e da morte) para dar um novo sabor e sentido a propria vida. E o que argumenta Le Breton (59) quando fala sobre a paixao do risco em tempos de vazio, perda de referencia de sentidos e valores da cultura contemporanea. Nestes novos contextos, o proprio individuo passa a buscar um sentido para a sua vida desafiando, deliberadamente, os riscos. E uma maneira, portanto, de fabricar sentido atraves do afrontamento real ou simbolico da morte.

De modo geral, as diferentes motivacoes para o barebacking constituem uma regiao fronteirica de tensao entre o prazer do contato sensorial e o risco de infeccao. Nessa perspectiva, todos os praticantes parecem ter em comum um discurso sobre o prazer mais livre e intenso no sexo sem camisinha, ainda que, para alguns, esse prazer esteja estreitamente vinculado a uma experiencia mais excessiva ou transgressiva, inclusive por desafiar o virus, a doenca e os limites da propria vida. Dessa forma, busco nao estabelecer uma simples oposicao entre prazer do risco versus prazer do contato total, mas pensar essas dimensoes analiticas como processos que acontecem na fronteira. Gostaria, portanto, de ressaltar que a ideia de prazer do risco nao significa, necessariamente, movimento intencional (consciente) em direcao ao adoecimento ou contaminacao pelo HIV Estou reconhecendo que esse prazer esta intimamente vinculado a ideia de transgressao (ou violacao) de fronteiras, que incluem a separacao dos corpos. Essa possibilidade de transgredir ou atravessar esses limites mobiliza diferentes sentimentos e emocoes, entre eles, medo, ansiedade, preocupacao e culpa. Conforme destaca Lupton, (60) essa e uma atividade arriscada (e ambigua) porque coloca em questao as fronteiras conceituais ja aceitas ou estabelecidas.

Nessa direcao, podemos seguir uma perspectiva analitica que concebe as praticas eroticas intimamente ligadas ao risco ou perigo, principalmente quando o erotismo e visto como uma maneira de colocar em xeque a ordem e regularidade da vida ou a descontinuidade dos seres. (61) Se o erotismo e a aprovacao da vida ate na morte, e interessante problematizar o sexo desprotegido, mesmo quando ocorre de forma deliberada, como uma maneira de afirmar a propria vida, de senti-la mais de perto, sentir-se contagiado ou encantado novamente, compartilha-la com outros, enfim, restabelecer uma existencia precaria, ainda que de modo muito fragil e provisorio.

Vale a pena, entao, retomar a palavra lama supracitada. O sentido da palavra lama produz desdobramentos interessantes que remetem a valores e praticas sociais. Estou me referindo aquelas situacoes cotidianas em que ocorre a mistura, a brincadeira, a bagunca, a sacanagem, (62) vagabundagem, a sujeira, a desordem ou transgressao de habitos e costumes, do que e permitido ou aceitavel, do bom gosto e boas maneiras, enfim, uma situacao em que o grotesco toma forma e lugar, no sentido bakhtiniano de rebaixamento ou transferencia de tudo que e elevado, espiritual, ideal e abstrato, ao plano material e corporal, o da terra e dos corpos, em sua unidade indissoluvel. (63) Essa transferencia pode significar um perigo para a ideia de estabilidade e conformidade social. A pratica sexual desprotegida, principalmente em algumas situacoes mais especificas (e extremadas), apresenta-se como uma dessas formas grotescas e excessivas no uso do corpo, no momento atual em que e produzida uma infinidade de discursos sobre a boa forma, o corpo saudavel e o sexo seguro. Em varios momentos, estar na lama ou em uma situacao de perigo, ambiguidade, contradicao e ruptura com os bons modos e organizacao (fechamento) dos corpos significara satisfacao pessoal e suplemento do prazer, ainda que nem sempre isentos de conflitos morais:
   Por mais que a gente queira se cuidar, qdo o tesao (e
   o pau) e grande, dificil de segurar! E muito bom sentir
   o pau gozar leite quente dentro do cu ou na boca.
   Adoro chupar um leite bem quente e engolir. Adoro
   dar o cu sem camisinha (bareback) alem de fuder
   muito no mesmo dia pois adoro quantidade e
   qualidade. Qdo e um cara que nao me agrada, nao
   rola, mas se for interessante, deixo fazer o que quiser
   comigo. A vida e curta e acho que devo aproveitar
   com intensidade. Se vc souber de alguem que queira
   me dar um leitinho pode me escrever. Adoro ficar na
   madrugada na porta de casa, peladao e mostrar a
   bunda pra os caras que passam, seja a pe ou de
   moto. Sempre consigo tomar um leite na boca ou no
   cu. As vezes chegos a conseguir tres em uma so noite.
   Adoro estar com o cu cheio de porra e sentir o pau de
   outro cara metendo mais porra onde outro ja havia
   gozado, depois ir pra o banheiro ou sair peladao na
   calcada de casa e deixar sair do rabo aquele monte
   de leite quente. O maximo!!! (Participante do forum do
   Projeto Convida "Sem Usar Camisinha").


Conforme destacado acima, a consciencia do risco nem sempre repercutira ou encontrara uma resposta (racional) correspondente no campo das interacoes sexuais. As situacoes em que o tesao parece falar mais alto, principalmente diante de um outro que se apresenta de forma sedutora ou interessante, (64) em que o penis aparece a mostra, estendido para o outro, de forma avantajada, em que o corpo apresenta-se violentamente aberto e provocante, quando o abjeto, (65) na forma do semen (porra ou leite masculino), e (re)valorizado positivamente, sugerem que a acao de ultrapassar, invadir, perturbar ou desestruturar as fronteiras, morais e sociais, incluindo os limites que separam e distinguem os corpos (e identidades), e um elemento do prazer importante que estara presente em muitos dos encontros e praticas sexuais desprotegidas.

Estamos diante de um tempo em que e possivel focalizar multiplas possibilidades de vivencias do 'eu', posicoes identitarias mais flexiveis, corpos transgressivos, mistura e confusao dos papeis (sexuais e de genero), assim como novas formas de criacao de prazeres. Todas essas mudancas poem em xeque alguns modelos tradicionais sobre a moral sexual, sobre o modelo de self racional e a propria racionalidade implicada no discurso da saude. No momento atual, torna-se importante, entao, reconhecer que o modo como as pessoas respondem as regras sociais tambem e mediado pelas experiencias sensuais ou sensoriais vividas no corpo. (66)

Como destacam Levy e Vidal, (67) as teorias medicosexologicas, ao colocarem a sexualidade e a morte em lados opostos, parecem querer domar o processo erotico que e a busca de excesso e de prazer intenso, ultrapassando a individualidade e o sentimento de perda. Dessa forma, torna-se importante discutir os efeitos produzidos quando discursos e praticas buscam regular ou deslocar o prazer para longe do perigo e dos excessos.

[Recebido em julho de 2008 e aceito para publicacao em marco de 2009]

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(6) DeAnn GAUTHIER e Craig J. FORSYTH, 1999.

(7) Richard TEWKSBURY, 2003.

(8) Gordon MANSERGH et al., 2002; Perry HALKITIS, Jeffrey PARSONS e Leo WILTON, 2003.

(9) MANSERGH et al., 2002.

(10) Luis David CASTIEL, 2003, p. 82.

(11) Pode ser traduzido por "quarto escuro": espaco reservado de uma "boite gay", com pouca ou nenhuma luminosidade, onde os frequentadores podem interagir sexualmente com um ou mais parceiros.

(12) Mary Jane SPINK, 2001 e 2003.

(13) Michel FOUCAULT, 2001a, p. 91.

(14) Anthony GIDDENS, 2000, p. 142.

(15) Luis Augusto SILVA, 2008. Mais especificamente, este trabalho e decorrente de uma tese de doutorado, defendida em abril de 2008, no Instituto de Saude Coletiva (UFBA), sob a orientacao do Prof. Dr. Jorge Iriart. Parte deste trabalho foi desenvolvida durante meu estagio de doutorando no exterior, na UQAM (Canada), financiado pela CAPES, sob a orientacao do Prof. Dr. Joseph Levy. O projeto de tese foi aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa. Registro CEP: 025-07/CEP-ISC.

(16) Filiado ao Google, o ORKUT (www.orkut.com) tem se destacado no cenario brasileiro como uma rede social importante, permitindo por em relacao os amigos de amigos, ou simplesmente criar novas amizades e manter relacionamentos; propiciando a circulacao e discussao de temas diversos. Lancado em 2004, o Orkut atualmente e muito difundido entre os usuarios brasileiros. De acordo com Cleber MORAES e Diego ROCHA, 2005, em 2005, havia ja 71,8% de brasileiros de uma comunidade de 6,2 milhoes de pessoas.

(17) Praticamente, todas as comunidades criadas em torno do barebacking estavam descritas na categoria de Gays, Lesbicas e Bi (categoria do proprio Orkut). Ja em relacao as comunidades organizadas apenas em torno do sexo sem camisinha, vale ressaltar que muitas delas eram descritas na categoria de Romances e Relacionamentos, de Atividades, de Esportes e Lazer, de Pessoas, Outros, etc. (categorias estas tambem padronizadas e utilizadas pelo Orkut).

(18) No Yahoo!Grupos do Brasil, apenas encontrei uma comunidade de barebacking, que ja nao se encontra disponivel na rede. Esta minha participacao ocorreu entre os meses de junho de 2005 a julho de 2006, momento em que nao conseguia mais localizar o grupo no endereco correspondente. Em relacao ao Projeto Convida, do Instituto de Saude Coletiva (UFBA), sob a coordenacao geral da Prof. Dra. Ines Dourado, e com a minha participacao como coordenador das atividades de campo (off-line e on-line), gostaria de destacar que este projeto de pesquisa foi o ponto de partida para algumas das minhas reflexoes sobre o barebacking. Em parceria com uma agencia de pesquisa francesa em AIDS (ANRS), o Projeto Convida buscou produzir conhecimento sobre aspectos da sexualidade, modos de vida, praticas de risco e de prevencao de HIV entre a populacao HSH, leitora de revistas gays, usuaria de sites gays da internet e frequentadora de espacos GLBT, em Salvador, BA, formando uma base de comparacao com estudos similares na Franca e Holanda. O Projeto Convida tambem desenvolveu seu proprio site na internet, produzindo secoes de entretenimento, por exemplo, com foruns de discussao on-line, de pesquisa e informacao. O site ficou disponivel entre junho de 2003 e dezembro de 2005.

(19) Houve mais contatos, mas alguns ficaram off-line no decorrer da interacao, inviabilizando a analise de parte do material disponivel.

(20) No processo de organizacao e analise dos textos produzidos, foi utilizado o programa QSR Nvivo. Trata-se, basicamente, de um software especifico usado para o tratamento e armazenamento de dados qualitativos (formatacao, categorizacao, comparacao e organizacao dos segmentos de textos), referente aos documentos de pesquisa, por exemplo, entrevistas abertas e producoes discursivas dos foruns on-line. Utilizando essa ferramenta, foi possivel armazenar os textos produzidos, as conversas do MSN, mensagens e respostas dos foruns de discussao, bem como desenvolver e 'incorporar' categorias teoricas e derivativas (a partir da linguagem concreta dos informantes) durante o processo de leitura dos textos.

(21) Em Um, Nenhum e Cem Mil, de Luigi Pirandello, o protagonista, Vitangelo Moscarda, encontra-se em situacao inusitada ao descobrir-se nao ser aquele que ate entao acreditava ser. Por intermedio de outro, sua esposa, percebe que seu nariz pende para a direita. A partir de entao, mergulhado em duvidas e questionamentos sobre sua propria identidade, busca conhecer o estranho que nao e senao ele mesmo. Durante a trajetoria de rapidas transformacoes, o protagonista convive com a incerteza sobre si mesmo, um drama que se tensiona com a descoberta "dos cem mil Moscardas" nao so para os outros, mas tambem para ele proprio.

(22) Luis Felipe RIOS, 2003.

(23) Jonathan POTTER, 1997.

(24) E importante ressaltar que alguns praticantes do barebacking procuraram diferenciar o contexto ou situacao em que ocorre o sexo desprotegido, com o objetivo de delimitar melhor o conceito de barebacking (e o barebacker). Algumas dessas dimensoes analiticas dizem respeito a intencionalidade do ato, a extensao em que ocorre a pratica sexual desprotegida ou mesmo a polaridade prazer do risco X prazer do contato total entre os parceiros. No que concerne a este ultimo aspecto, alguns homens buscam dissociar sua pratica ou perspectiva de barebacking da ideia corrente de prazer que se tem em correr risco (SILVA, 2008).

(25) A partir das proprias definicoes e explicacoes sobre o barebacking que encontrei nos foruns de discussao on-line e entre os meus contatos no MSN, organizei a pratica do barebacking em torno de tres grandes modalidades: 1) mais extensivo e de maior contato; 2) em torno da soroconversao; 3) parcial ou com reducao de riscos (SILVA, 2008). Como nao e o escopo deste trabalho, as duas ultimas modalidades nao serao discutidas neste momento.

(26) Andre LEMOS, 2004; Joseph LEVY, Catherine GARNIER e Christine THOER-FABRE, 2006.

(27) Principalmente nos relatos sobre o barebacking, e muito comum a referencia a borracha no lugar da camisinha.

(28) FOUCAULT, 2001b.

(29) Mary DOUGLAS, 1991.

(30) Deborah LUPTON, 1998.

(31) Elisabeth GROSZ, 1994.

(32) LUPTON, 1998.

(33) Segundo Elizabeth GROSZ, 1994, p. 193-194, os fluidos corporais comprovam a permeabilidade do corpo, sua dependencia necessaria com o externo, a divisao perigosa entre o que esta dentro e fora, sua tendencia a se desmoronar no lado de fora, o que implica a propria morte. Nessa direcao, os fluidos corporais afrontam a aspiracao do sujeito a autonomia e autoidentidade, atestam certa sujeira ou repulsa irredutivel, um horror do desconhecido ou do inespecifico que penetra, esconde, prolonga, e ao mesmo tempo vaza do corpo ou vem a publico, um testemunho da fraude ou impossibilidade do puro e apropriado.

(34) Ver tambem o estudo de LEOBON e FRIGAULT, 2005, para o contexto canadense e frances.

(35) Camilo BRAZ, 2007.

(36) Vale assinalar que algumas leituras e autores importantes da atualidade tentam por em xeque a rigidez dos esquemas binarios, feminino-masculino, heterossexual-homossexual, bem como a naturalizacao e inevitabilidade do proprio sexo (Judith BUTLER, 2003). Destaco, aqui, a importancia da teoria queer quando contesta a heteronormatividade, enfatiza a performance, fluidez e dinamica das categorias identitarias (Joshua GAMSON e Dawne MOON, 2004), bem como a transgressao, ambiguidade e atravessamento de fronteiras (Guacira Lopes LOURO, 2001). Para Steven SEIDMAN, 1994, por exemplo, a teoria queer muda o debate de uma preocupacao exclusiva com a homossexualidade para o foco na heterossexulidade como um principio de organizacao social e politico, bem como da politica de interesse de uma minoria para a politica de conhecimento e da diferenca. O que e central na teoria queer e desafiar a crenca em um sujeito ou identidade homossexual percebido como estavel e unificado (SEIDMAN, 1994). A teoria queer deseja, enfim, desafiar o proprio "regime" da sexualidade, ou seja, o conhecimento que constroi o self como sexual e que assume a heterossexualidade e a homossexualidade como categorias que mostram a verdade dos "selfs sexuais", uma linguagem que forma o que nos conhecemos como corpos, desejos, sexualidades e identidades (SEIDMAN, 1994, p. 174).

(37) Damien RIDGE, 2004.

(38) HALKITIS, PARSONS e WILTON, 2003.

(39) RIDGE, 2004.

(40) Pierre BOURDIEU, 1999.

(41) Ele tambem nao sabia traduzir o que era esse gosto perfeito, apenas dizia que, se comparar ao chocolate, msm [mesmo] sem palavras esclarecedoras, fica facil pra muita gente entender (Moscarda18@ hotmail.com, SP).

(42) John CONVENEY e Robin BUNTON, 2003.

(43) Pratica sexual que utiliza a mao (punho fechado) para a penetracao anal.

(44) Sem meias palavras, Moscarda enfatizava que, nesses encontros, o sexo ocorre ate parar de ter um cu cheio de porra (Moscarda29@ hotmail.com, RJ).

(45) A ideia de sacrificio implicada na pratica do barebacking ocorria exatamente por saber que nao iria ter nenhum namorado firme, por abdicar de um relacionamento estavel, de um romance, no momento em que escolhia a putaria para fazer parte de sua vida.

(46) Vale ressaltar que esses encontros podem agregar homens de diferentes espacos geograficos, quando alguns deles saem de suas respectivas cidades para a participacao de uma festa bare, o que implica, portanto, considerar as condicoes socioeconomicas 'privilegiadas' de alguns de seus participantes. Por exemplo, um dos meus interlocutores, que morava no estado do Amapa, ressaltou a existencia de homens conhecidos na regiao, de maior poder aquisitivo, e de outros que vinham de fora do pais para participar desses encontros em sua cidade: tem uma sala da uol q todos na cidade marcam ... sempre tinha algm c[com] xacara distante do centro q [que] marcava na net ... entaum [entao] tipo eu marcava dez da manha e as oito da noite rolava.... a maioria tinha mais d [de] 40 anos ... eles nunk [nunca] deixavam ir c menos d dezoito ... tinha q mostrar rg [RG] e td! [tudo].... tem politico, empresario, fazendeiro,... ja veio ate caras da guiana francesa (Moscarda26@ hotmail.com, AP). Entre todos os Moscarda que conversaram comigo, este (Moscarda26@ hotmail.com, AP) foi um dos tres que se diziam HIV positivo. Em nenhum outro momento deste artigo, trouxe exemplos ou narrativas dos Moscarda positivos.

(47) Moscarda lembrava que os homens heteros, casados, que tambem aparecem as vezes, tinham de tomar mais cuidado ainda, porque podem ser seguidos pelas esposas.

(48) HALKITIS, PARSONS e WILTON, 2003.

(49) MANSERGH et al., 2002.

(50) Daniel MILLER e Don SLATER, 2004.

(51) Joseph LEVY et al., 2005.

(52) Esse Moscarda foi o unico que sustentou ou enfatizou, durante toda a conversa, a importancia do risco para a realizacao do barebacking. Em outras narrativas, o risco aparece misturado (diluido) com outros elementos, principalmente o contato com o esperma ou prazer sensorial produzido atraves do barebacking.

(53) A ideia, aqui, nao e de ser passivo, ainda que este Moscarda prefira receber o esperma. Neste caso, receptivo refere-se ao sentido de estar aberto ao outro, ser acolhedor ou disposto para o sexo.

(54) Stephen LYNG, 1990.

(55) Esse Moscarda ja se sentiu um bug chaser, ou seja, queria contrair o virus HIV. E interessante destacar que isso nao aconteceu. Moscarda dizia nao mais querer se infectar, ou mesmo morrer. Ele agora so pensava em sentir prazer.

(56) Tipo de esporte radical que consiste em saltar de grandes altitudes amarrado/a pelos pes a uma corda elastica.

(57) Eis a mensagem completa: Cara eu acho que tudo vale a pena quandoa lama nao e pequena. Eu acho uma hipocresia de quem diz que nao fiz ou aquilo. Me mostra quem nunca fez um banheirao e eu te mostro um mentiroso. O perigo trz prazer e muito prazer. Me diz se vc conhece alguem que nunca transou sem camisinha? Isso tudo e hipocresia e tentativa de formular uma imagem de certinho.

Eu tenho um amigo que frequenta a [estabelecimento Y] e falou que um carinha queria transar com ele sem camisinha. Ele so nao falou se fez. Mas, isso e engracado. Muita gente faz e diz que jamais faria e isso e muito normal (Participante do grupo barebackingbrasil@yahoogrupos).

(58) Mar Portugues (Fernando Pessoa, in Mensagem)

O mar salgado, quanto do teu sal Sao lagrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas maes choraram, Quantos filhos em vao rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, o mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma nao e pequena.

Quem quer passar alem do Bojador Tem que passar alem da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele e que espelhou o ceu.

(59) David LE BRETON, 2000.

(60) LUPTON, 1999.

(61) Bataille enfatiza a dinamica interdicao-transgressao como fundamental para entender a experiencia erotica. Para ele, somos seres descontinuos que tem nostalgia de uma continuidade perdida. O erotico implica um sentimento de continuidade profunda. Como Bataille explica, no erotismo esta em questao a substituicao do isolamento do ser. Implica um sentimento de violacao e excesso. Portanto, o erotismo e o campo da violacao/violencia. A vida descontinua nao esta condenada a desaparecer. Bataille e categorico ao afirmar que essa descontinuidade e posta apenas em questao, devendo ser perturbada e incomodada ao maximo: "o que esta em jogo no erotismo e sempre uma dissolucao das formas constituidas. Repito: dessas formas da vida social, regular, que fundam a ordem descontinua das individualidades definidas que somos" (Georges BATAILLE, 2004, p. 31).

(62) A palavra "sacanagem", tipicamente brasileira, pode ser usada com conotacoes variadas, de forma negativa ou positiva, significando desde a trapaca ou injustica, passando pelas brincadeiras entre amigos e conhecidos, ate sua conotacao erotica para designar um conjunto amplo de atos e praticas sexuais tidas como proibidas, inapropriadas, perigosas, incomuns, marginais, ou seja, que esteja associado a desobediencia a regras de decoro (Richard PARKER, 1991, p. 159).

(63) Mikhail BAKHTIN, 1970, p. 29.

(64) Em relacao a esse aspecto do corpo sedutor ou interessante, existe todo um discurso da boa forma que tanto pode provocar rupturas e produzir espacos de resistencia, quanto direcionar as interacoes sexuais segundo uma determinada convencao estetica.

(65) Do latim abjectu, que significa imundo, desprezivel, vil, baixo, ignobil. Utilizo o conceito de abjeto (abjecao) a partir das leituras de Mary DOUGLAS, 1991, e Julia KRISTEVA, 1982, para discutir as fronteiras que separam os corpos e identidades. Como explica Elizabeth GROSZ, 1994, p.192, Julia Kristeva utiliza as nocoes de pureza e perigo de Mary DOUGLAS, 1991, para criar uma 'teoria' da abjecao, que busca, basicamente, questionar as condicoes sob as quais o corpo apropriado e limpo (social) emerge e os custos de sua emergencia, bem como as funcoes que essa demarcacao do corpo (apropriado e limpo) tem para a transmissao e producao de tipos especificos de corpos. Nada e em si mesmo sujo ou perigoso (DOUGLAS, 1991), em outras palavras, imundo, desprezivel ou abjeto, ja que essas ideias dizem respeito ao que nao esta no seu lugar apropriado, que incomoda ou confunde a ordem (GROSZ, 1994). Como KRISTEVA, 1982, p. 4, explica, nao e a falta de clareza ou saude que causa a abjecao, mas o que perturba a identidade, o sistema, a ordem, e o que nao respeita fronteiras, posicoes e regras, enfim, diz respeito ao que esta no entre (in-between), ao que e ambiguo ou misturado.

(66) Chris SHILLING e Philip MELLOR, 1996.

(67) Joseph LEVY e Jonathan VIDAL, 1996.
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Author:Vasconcelos da Silva, Luis Augusto
Publication:Revista Estudo Feministas
Article Type:Report
Date:Sep 1, 2009
Words:12974
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