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Marginal system: the collection in Sara Ramo/Sistema marginal: a colecao em Sara Ramo.

Introducao

Este texto aborda a pratica da artista Sara Ramo, a partir da sua problematizacao sobre as tipologias dos objetos do cotidiano quando propoe outros arranjos formais, funcionais e simbolicos, como na serie "Como aprender o que acontece na normalidade das coisas" (2002-2005) e na instalacao "O jardim das coisas do sotao" (2004). Sara nasceu em Madrid, Espanha, em 1975, e desde crianca vive entre a Espanha e o Brasil. Iniciou sua formacao na Universidade Complutense de Madri e terminou na Universidade Federal de Minas Gerias, Belo Horizonte. Hoje vive e trabalha em Sao Paulo. Desde o final dos anos 90 tem criado instalacoes, videos, fotografias, nos quais

O mundo de Sara e um mundo de coisas: panelas, vidros e potes de creme, xicaras, camas, vasos de plantas, bacias de plastico; ou estatuetas de bichos, escorregadores, pedras, objetos descartados, cadeiras, poltronas de teatro. Sao coisas banais, com as quais convivemos no nosso dia-a-dia e nas quais ja nem prestamos mais atencao. Sara as desloca de seus lugares, agrupa, dispersa; as vezes faz delas um uso inusitado, ou entao se limita a isola-las, aponta-las (Senra, 2012).

A partir de Baudrillard (2002) com o conceito "sistema marginal" pretendese contextualizar a poetica, enquanto taticas de resistencia (Certeau, 2008), nas/pelas quais a artista rompe com os sistemas de significacoes da cultura e negocia outras configuracoes para as relacoes "objeto /habito" e "objeto/ tempo" (Baudrillard, 2002). Sem pretender escrever um estudo sobre a cultura material, aponta-se a problematizacao em torno do termo "funcionalidade", que compreendido como um aspecto da atuacao do homem no ambiente, valida-se na/pela modelizacao de comportamentos, construcao de distincoes sociais e criacao de representacoes simbolicas. Neste sentido, importa-nos apontar Miller (2010: 50), que com referencias em Goffman (1986) e Gombrich (1979) argumenta teoricamente sobre o que nomina de "the humility of things". Deixando de lado as evidentes/reconhecidas contingencias ou potencialidades das relacoes homem/objeto, o autor afirma que nossa constituicao/existencia cultural da-se na medida em que os objetos se apresentam familiares, nos habitam sem serem percebidos--tornam-se um habito, e portanto, invisiveis.

Assim, primeiramente, considerando o cotidiano expresso pelo habito, Sara Ramo, na serie "Como aprender o que acontece na normalidade das coisas" (2002-2005) (Figura 1 e Figura 2), contrapoe-se as representacoes herdadas ou ensinadas e desloca os objetos de um banheiro domestico de seus lugares, dispersando e organizando-os em outras disposicoes espaciais. A artista, enquanto acondiciona a materialidade das coisas e seus discursos, oriundos dos modos de usos, em outros formatos, desarticula os processos culturais de legitimacao em sociedade.

Em um segundo momento, ao escolher, ordenar e classificar, a artista, na instalacao "O jardim das coisas do sotao" (2004) (Figura 3), retirou todos os objetos descartados e empilhados no sotao do Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, Minas Gerais, e os organizou em funcao de suas caracteristicas formais/plasticas como um jardim. Sara negocia a temporalidade como acao subjetiva/potente e instala sua obra-colecao, questionando o espaco institucional e a sua pura acumulacao de objetos sem uso.

Para compreendermos estas modalidades de acao poetica, que derivam da constituicao dos gestos regulares no /do cotidiano para uma condicao instavel de outra orden--um movimento subjetivo de transfiguracao, indicamos a seguir os topicos "objeto /habito" e "objeto /tempo", baseados em Baudrillard (2002).

1. Objeto-habito na serie "Como aprender o que acontece na normalidade das coisas" (2002-2005)

Os objetos conformam a pratica na/da cultura, da mesma maneira que os comportamentos das pessoas configuram os modos de uso. Esta interdependencia sistemica evoca totalidades significativas, "o conjunto de relacoes de diferenca e similaridade, modelos e series" (Ono, 2006:37), que podem ser explicitadas por Baudrillard (2002) quando escreve,

Sem duvida os objetos desempenham um papel regulador na vida cotidiana, neles sao abolidas muitas neuroses, anuladas muitas tensoes e aflicoes, e isto que lhes da uma 'alma, e isto o que os torna 'nossos, mas e tambem isto que faz deles o cenario de uma mitologia tenaz, cenario ideal de um equilibrio neurotico (Baudrillard, 2002:98).

Neste sentido, conforme Miller (2002) afirma, a partir de Bourdieu e LeviStrauss, toda sociedade elabora suas praticas atraves de padroes manifestados em uma multitude de formas diversas, e os objetos mediam estas logicas formuladoras quando aplicadas em suas funcionalidades e consequentes modos de uso.

Para pensar o contexto proposto pela artista Sara na serie "Como aprender o que acontece na normalidade das coisas" (2002-2005) (Figura 2), enquanto objetos moduladores ativos da nossa percepcao de mundo, partimos de uma perspectiva fenomenologica para reconhecer a cultura material como agente desses processos. Retomamos Gombrich (1979) para afirmar que o olhar passeia rapidamente pelos elementos familiares (na serie fotografica os acessorios comuns de um banheiro domestico, como espelho, lixeira, toalhas, e produtos pessoais e de limpeza, como creme, shampoo, remedio, pacote de algodao) para deter-se e examinar as quebras, ou surpresas no padrao, e em seguida, absorvendo as diferencas, constituir/formar uma nova continuidade. Nesta operacao Sara direciona nosso olhar em objetos comuns, que deslocados nos surpreende, pois deixam de ser desapercebidos, pois guardados estavam.

Para a compreensao critica deste exercicio operativo, Baudrillard (2002:102) afirma "O habito e descontinuidade e repeticao--e nao continuidade como o emprego sugere. E pela divisao do tempo em nossos esquemas 'habituais' que solucionamos o que pode ter de angustiante sua continuidade e a singularidade absoluta dos eventos".

A artista, primeiramente, descreve um lugar especifico da casa--o banheiro --, explorando a intimidade/privacidade pessoal, historica e progressivamente determinada nas familias burguesas a partir do seculo XVIII. Para em seguida, desafiar com sutileza o leitor quanto a normalizacao desses habitos, assim como as possibilidades de controle pelo consumo, que conformam o nosso dia-a-dia.

1. Objeto-tempo em "O jardim das coisas do sotao" (2004)

Em um segundo momento, a artista escolhe, ordena, classifica, enquanto negocia a temporalidade como acao subjetiva e potente para instalar "O jardim das coisas do sotao" (2004). Esta pratica de reunir, conforme interesse pessoal, os objetos descartados pelo Museu, descreve o conceito de colecao, que segundo Baudrillard (2002:111-2) diferencia-se do ato de acumulacao, "tanto quanto por sua complexidade cultural, e pela falta, pelo inacabado que a colecao se separa da pura acumulacao".

Ainda que, se identifiquem e contabilizem os mesmos elementos, importa para a artista as regras, as logicas de codificacao, que, enquanto diferentes, desarticulam as estruturas do projeto inicial. Com o exercicio de propor uma outra normalizacao, Sara aponta um interesse formal--cores, texturas, formatos e tamanhos, da materialidade dos objetos para constituir o seu discurso, sem buscar esgotar a reuniao destes elementos (Figura 4 e Figura 5). Nesta organizacao do repertorio definido, sua dimensao sistematica e qualificada pelo tempo da escolha, da propria composicao, conforme Baudrillard (2002) escreve

O profundo poder dos objetos colecionados nao lhes vem com efeito nem de sua singularidade nem de sua historicidade diversa, nao e por este meio que o tempo da colecao deixa de ser o tempo real, e pelo fato de a propria organizacao da colecao substituir o tempo (Baudrillard, 2002:103).

Conclusao

Ao se apropriar subjetivamente dos codigos do local e de uso, a artista mobiliza a materialidade das coisas, para desarticular os modos estabelecidos e inventariar. Esses modos de agir--"formalidades das praticas" (Certeau, 2008: 92), explicitam as suas intencoes projetuais, na medida em que desviam as ordens e as relacoes de poder estabelecidas pelos modos de consumo e lugares institucionais. Neste sentido, Sara parece questionar a ordem museal, que elege e expoe justamente o consagrado como arte. "Uma instituicao que coleta e mostra esta especie de producao imaginaria que nossa sociedade chama de "arte" (Senra, 2012).

Sara cria um jogo, uma certa resistencia ao "lugar ordenado pelas tecnicas organizadoras de sistemas" (Certeau, 2008:97). Enquanto a obra anuncia, a artista enuncia e formula seu fazer, nao coerente com a configuracao instituida /institucionalizada, mas com seus principios. Oscila entre o conhecer a ordem dos lugares e o espacializar, entre um ver e um fazer, capaz de organizar outros movimentos e caminhos. Como afirmam Edwards et al. (2006) o conhecimento na /pela pratica envolve a mobilizacao dinamica do corpo/mente dentro de um ambiente de objetos, que evocam diferentes possibilidades de uso.

A operacao poetica de Sara Ramo apresenta-se como "modalidade de acao" (Certeau, 2008:92) que sistematiza os objetos subjetivamente em um movimento de transfiguracao, que parte da regularidade dos gestos e do cotidiano, para uma condicao dialetica. Sara Ramo desvia, fabula, inventa.

Referencias

Baudrillard, Jean (2002) O sistema dos objetos. Sao Paulo: Editora Perspectiva. ISBN: 85-273-0104-0.

Certeau, Michel de. A invencao do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petropolis, RJ: Editora Vozes, 2008.

Edwards, Elizabeth; Gosden, Chris; Phillips, Ruth B. (2006) Sensible objects: colonialism, museums and material culture. Oxford, New York: BERG. ISBN: 978-184520-324-5.

Fortes D'Aloia & Gabriel (s.d.) Sara Ramo. [Consult. 2018-01-02] Disponivel em URL: http://fdag.com.br/artistas/sara-ramo/.

Goffman, Erving (1986) Frame analysis: an essay on the organization of experience. Boston: Northeastern University Press. ISBN: 0-930350-91-X.

Gombrich, Ernst H (1979) The sense of order: a study in the Psychology of Decorative Art. London: Cornell University Press. ISBN: 978-0-8014-1143-4.

Miller, Daniel (2010) Stuff. Cambridge, UK; Malden, USA: Polity Press. ISBN: 978-07456-4424-0.

Ono, Maristela (2006) Design e Cultura: sintonia essencial. Curitiba: Edicao da Autora. ISBN: 85-906446-0-X.

Senra, Stella (2012) Sara Ramo, ou o exercicio da liberdade. [Consult. 2018-01-02] Disponivel em URL: https://stellasenra. wordpress.com/2012/06/07/sara-ramoou-o-exercicio-da-liberdade/.

Artigo completo submetido a 4 de Janeiro de 2018 e aprovado a 17 janeiro 2018

LUISA PARAGUAI DONATI, Brasil, artista visual.

AFILIACAO: Brasil, artista visual, professora e pesquisadora. Afiliacao: Pontificia Universidade Catolica de Campinas (PUC Campinas), Faculdade de Artes Visuais, Centro de Linguagem e Comunicacao, Programa de Pos- Graduacao em Linguagens, Midia e Arte (LIMIAR). Campus I--Predio da Reitoria, Rodov'a Dom Pedro I, km 136m, Parque das UniversidadesCampinas--SP, CEP 13086-900, Brasil. E-mail: luisaparaguai@gmail.com

Caption: Figura 1. Sequencia fotografica da serie "Como aprender o que acontece na normalidade das coisas" (2002-2005). Fonte: http://www.inhotim.org.br/blog/sara-ramo-arte-vida-inhotim/.

Caption: Figura 2. Sequencia fotografica da serie "Como aprender o que acontece na normalidade das coisas" (2002-2005). Fonte: http://www.inhotim.org.br/blog/sara-ramo-arte-vida-inhotim/.

Caption: Figura 3. Instalacao "O jardim das coisas do sotao" (2004). Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte. Fonte: https://www.flickr.eom/photos/78866864@N00/ sets/72157622575866695/with/4059756859/.

Caption: Figura 4. Instalacao "O jardim das coisas do sotao" (2004). Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte. Fonte: https://www.fliekr.eom/photos/78866864@N00/ sets/72157622575866695/with/4059756859/.

Caption: Figura 5. Instalacao "O jardim das coisas do sotao" (2004). Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte. Fonte: https://www.flickr.com/photos/78866864@N00/ sets/72157622575866695/with/4059756859/.
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Title Annotation:2. Original Articles/Artigos originais
Author:Donati, Luisa Paraguai
Publication:Estudio
Date:Oct 1, 2018
Words:1763
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