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Manual pratico de latim medieval (II--textos escolhidos).

8. As sequencias

Nao necessitamos de estudar particularmente a prosa da epoca carolingia. Nas obras dos melhores autores, essa prosa e escrita a partir das regras gramaticais e, frequentemente, os escritores sao muito bem sucedidos em imitar a lingua e o estilo de seus modelos antigos. Mas nao podemos nos dispensar de dar aqui alguns exemplos de sequencias, as mais originais criacoes dessa epoca. A primeira poesia que estudaremos, o canto do cisne, que e escrita no estilo frances, encontra-se em manuscritos do seculo X, mas remonta, provavelmente, ja ao seculo precedente; a segunda e um exemplo da arte de Notker, o Gago (morto em 912); enfim, acrescentaremos um celebre exemplo do seculo XI, epoca em que a sequencia religiosa se transformou num poema com estrofes regulares (1).

A. A sequencia do cisne

1. Clangam, filii, Ploratione una

2a Alitis cygni b O quam amare qui transfretavit aequora. Lamentabatur, arida (1)

3a Se dereliquisseflorigera b Aiens: Infelix sum avicula, Etpetisse alta maria, Heu mihi, quid agam misera?

4a Pennis soluta inniti b Undis quatior, procellis Lucida non potero Hinc inde nunc allidor Hic in stilla (2). Exsulata.

5a Angor inter arta b Cernens copiosa Gurgitum cacumina, Piscium legumina, Gemens alatizo (3) Non queo in denso Intuens mortifera Gurgitum assumere Non conscendens supera. Alimenta optima.

6a Ortus, occasus, plagaepoli,b Sufflagitate Oriona, Administrate lucida sidera. Effugitantes (4) nubes occiduas.

7a Dum haec cogitaret tacita, b Oppitulata afflamine Venit rutila Coepit virium Adminicula (5) aurora. Recuperare fortia (1).

8a Ovatizans b Hilarata Iam agebatur Ac iucundata Inter alta Nimis facta, Et consueta nubium Penetrabatur (2) marium Sidera. Flumina.

9a Dulcimode catitans b Concurrite omnia Volitavit ad amoena Alitum et conclamate Arida. Agmina:

10 Regi magno sit gloria.

[TRADUCAO]

1. Eu cantarei, meus filhos, a lamentacao

2. do cisne que atravessou as ondas. O, como se lamentava amargamente

3. por ter deixado a terra florida e ter ganhado o alto mar. Ele dizia: "Eu sou infeliz passarinho. Ai de mim! Que posso fazer em minha infelicidade?

4. Esgotadas as minhas forcas, nao posso mais voar daqui na agua brilhante. As ondas me sacolejam e os golpes de vento me jogam de um lado para outro, longe de meu pais.

5. Entre as cristas das ondas que se batem, eu me apavoro; gemendo, eu bato as asas, quando vejo a morte sem poder me elevar nos ares. Vejo em abundancia as ervas que o peixes comem, mas, no movimento das ondas, eu nao posso alcancar esse excelente alimento.

6. O, Levante, ocaso, regioes celestes, mostrai as claras estrelas e convocai Orion para ajudar, expulsai as nuvens do ceu."

7. Quando ele se via livre desses pensamentos, a aurora ruborescente vinha em seu socorro. Reconfortado pela brisa da manha, comecou a recuperar as forcas.

8. Com gritos de alegria, levantava-se no meio de regioes bem conhecidas das nuvens e das estrelas. Cheio de alegria e de felicidade, atravessava as ondas do mar.

9. Cantando uma melodia deliciosa, voou para a doce terra. Vinde, vos todos, bandos de passarinhos, e cantai em coro:

10. Gloria ao rei supremo. b. A lamentacao de Raquel, de Notker, o Gago

1 Quid tu, virgo,

2a Mater, ploras, b Cuius vultus Rachel (1) formosa, Iacob delecta?

3a Ceu sororis aniculae b Lippitudo (2) eum iuvet! 4a Terge, mater, b Quam te decent (3) Fluentes oculos! Genarum rimulae?--

5a Heu, heu, heu, b Cum sim orbata Quid me incusatis fletus Nato, paupertatem meam Incassum fudisse? Qui solus curaret,

6a Qui non hostibus cederet b Quique stolidis fratribus, Angustos terminos, Quos multos, pro dolor, Quos mihi Extuli, Iacob adquisivit, Esset profuturus--

7 Numquidflendus est iste, Qui regnum possedit caeleste, Quique prece frequenti Miseris fratribus Apud Deum auxiliatur?

[TRADUCAO]

1. Por que choras, o virgem,

2. mae, bela Raquel, cuja face alegrou Jaco?

3. Como, se os olhos vermelhos de tua irma mais velha podiam ser-lhe agradaveis!

4. Enxuga os olhos lacrimejantes, mae! Pega mal teres as faces marcadas pelo pranto.--

5. Ah, ah, ah, por que me acusais de ter vertido lagrimas em vao? Quando me afastaram de meu filho, o unico amparo de minha pobreza, 6. que nao teria cedido aos inimigos o estreito dominio que Jaco me adquiriu e teria ajudado todos os seus irmaos estupidos que coloquei no mundo, ai de mim.--

7. Aquele que possui o reino celeste e que, por suas preces a Deus, constantemente ajuda seus miseraveis irmaos, precisa de chorar?

c. A sequencia de Natal, radiante de alegria

1a Laetabundus b Regem regum Exsultet fidelis chorus: Intactae profundit thorus: Alleluia. Res miranda.

2a Angelus consilii (1) b Sol occasum nesciens, Natus est de virgine, Stella semper rutilans, Sol de stella, Semper clara.

3a Sicut sidus radium b Neque sidus radio Profert virgo filium Neque mater filio Pari forma. Fit corrupta.

4a Cedrus alta Libani b Verbum, mens altissimi, Conformatur hyssopo Corporari passum est Valle nostra, Carne sumpta.

5a Isaias cecinit, b Si non suis vatibus, Synagoga meminit, Credat vel gentilibus Numquam tamen desinit Sibyllinis Versibus (1) Esse caeca. Haec praedicta.

6a Infelix propera, b Quem docet littera, Crede vel vetera. Natum considera. Cur damnaberis, gens misera? Ipsum genuit puerpera.

[TRADUCAO]

1. Que o coro fiel exulte de alegria, aleluia. O casamento da Virgem imaculada pos no mundo o rei dos reis, que maravilha!

2. O enviado do plano de Deus nasceu da Virgem, o sol do destino, o sol que nao se poe, a estrela rutilante sempre clara.

3. Como a estrela emite um raio da mesma natureza, assim a Virgem da o dia a seu filho. A estrela nao se altera pelo raio de luz nem a mae pelo filho.

4. O alto cedro do Libano se transforma em hissope em nosso vale, o Verbo, o pensamento do Altissimo, dignou-se tomar um corpo de carne. 5. Isaias o cantou, a Sinagoga se lembra disso, mas nao deixa de ser cega. Se ela nao cre em seus proprios profetas, creia ao menos que esse acontecimento foi anunciado pelos pagaos nos versos da Sibila.

6. Infeliz, apressa-te e confia na tradicao. Por que seras julgado pobre povo? Saiba que aquele de que fala a Escritura nasceu. A jovem mae o pos no mundo.

VERSIFICACAO.--Nas duas primeiras sequencias, o verso depende completamente da musica e nada tem a ver com a metrica dos Antigos. Do ponto de vista classico, trata-se de prosa solene, dividida em periodos e em cola. Sao os salmos e os canticos biblicos que se encontram na base desta forma de poesia, embora aqui as condicoes sejam diferentes por causa da musica. Se observarmos primeiramente a sequencia francesa um pouco mais detalhadamente, veremos que cada estrofe termina pela vogal -a e, frequentemente, tambem os versos do interior das estrofes. Ja tentamos explicar isto pela hipotese de que a sequencia francesa era executada, em geral, por um solista, enquanto o coro cantava alleluia com muitos melismos sobre a vogal -a. Notker, pelo contrario, nao se serve dessas rimas, possivelmente porque na Alemanha dois coros cantavam alternadamente as estrofes e as antistrofes das sequencias. A terceira sequencia e caracteristica do inicio do seculo XI, epoca em que os versos desta poesia comecaram a ser regularizados pelo modelo da poesia ritmica. Ve-se que a maior parte das estrofes e composta de dois versos: 4p (por exemplo Laetabundus) e 7pp (angelus consilii). Nao encontramos outros versos senao nas estrofes 1,2 (exsultet fidelis chorus = 8p), 6,1-2 (infelix propera = 6pp) e 6,3 (cur damnaberis, gens misera = 9 pp). Antes do fim do seculo XI, podemos encontrar sequencias que apresentam estrofes de uma formacao completamente regular. Essas estrofes imitam as dos hinos. Adao de Sao Vitor, um dos mais celebres compositores de sequencias, que vivia no seculo XII, emprega assim a estrofe ambrosiana em sua sequencia em honra de Santa Genoveva. Ele imitou os dois versos 7pp e 4p que encontramos em Laetabundus numa outra sequencia:
   Sexta passus feria Surgens cum victoria Die Christus tertia
   Collocat in gloria Resurrexit. Quos dilexit.


O verso de 10 silabas, 4 + 6pp, tao amado pelos poetas do seculo XII, e a base da estrofe que emprega na sequencia em honra de Sao Martinho:
   Gaude Sion quae diem recolis Hic Martinus, pauper et modicus, Qua
   Martinus, compar apostolis, Servus prudens, fidelis villicus,
   Mundum vincens, iunctus caelicolis Caelo dives civis angelicus
   Coronatur. Sublimatur.


Serve-se tambem de outros versos, mas, sobretudo do tipo seguinte, que se tornou o verso das sequencias por excelencia, depois dele:
   Ave, virgo singularis, Tola virgo sed fecunda, Porta vitae, stella
   maris, Casta corde, carne munda Ave decus virginum. Gignens
   Christum Dominum (1).


Em Adao, as rimas sao sempre dissilabicas; esta e a regra desde o fim do seculo XI.

9. A versificacao apos o ano 1000

Para ilustrar a tecnica dos poetas medievais, estudaremos ainda alguns exemplos de poemas compostos apos o ano 1000.

A. Quis est hic

O poema que comeca por estas palavras se encontra num comentario sobre o Cantico dos Canticos, escrito na Italia na metade do seculo XI. O autor e desconhecido; o ultimo editor tentou atribui-lo a Sao Bruno de Segni, mas a questao esta para se retomar (1)

A. QUIS EST HIC

1. Quis est hic qui pulsat ad ostium, Noctis rumpens somnium? Me vocat: "O, virginum pulcherrima, Soror, coniux Gemma splendidissima, Cilo surgens aperi, dulcissima!

2. Ego sum summi regis filius, Primus et novissimus, Qui de caelo in has veni tenebras Liberare captivorum animas, Passus mortem et multas iniurias."

3. Mox ego dereliqui lectulum, Cucurri ad pessulum, Ut dilecto domus mea pateat, Et mens mea plenissime videat, Quem videre Maxime disiderat.

4. At ille iam inde transierat, Ostium reliquerat, Quid ergo, quid miserrima facerem? Lacrimando sum secuta iuvenem, Cuius manus plasmaverunt hominem.

5. Vigiles urbis invenerunt me, Exspoliaverunt me, Abstulerunt et dederunt pallium, Cantaverunt mihi novum canticum, Quo in regis inducar palatium.

[TRADUCAO]

1. Quem e aquele que bate a porta e rompe o sono da noite? Ele me chama: "O mais bela das mulheres, minha irma, minha esposa, a mais brilhante das gemas, levanta-te imediatamente e abre-me a porta, o minha dulcissima amiga.

2. Sou o filho do rei supremo, o primeiro e o ultimo, que veio do ceu nessas trevas para libertar as almas dos prisioneiros, submetendo a morte e muitas injusticas."

3. Imediatamente deixei o leito, correndo ao ferrolho para abrir a casa a meu bem amado e para que minha alma veja claramente o que deseja ardentemente ver.

4. Mas ele ja se afastava, ja tinha deixado a porta. Que podia eu, infeliz, que podia eu fazer? Segui, chorando, meu jovem bem amado cujas maos fizeram o homem.

5. Os guardas da cidade me encontraram, me despojaram, tiraram meu manto para me dar um outro e me cantaram uma cancao nova para me introduzir no palacio do rei.

VERSIFICACAO.--O poema se compoe de cinco estrofes iguais. Observando as rimas, pode-se ver que o poeta dividiu cada estrofe em cinco versos com rimas aabbb. Todos os versos tem uma terminacao proparoxitona. O primeiro tem a forma 3+7pp, o segundo 7pp e os tres ultimos 4+7pp.

Neste canto ha uma tendencia muito clara para o emprego de rimas dissilabicas. Na primeira estrofe, as rimas em -ium e em -ima sao perfeitas, mas nas outras, encontramos frequentemente assonancias do tipo -ius: -imus; -ebras: -imas: -ias; -eat: -erat; -erem: enem: -inem; -ium: -icum em que a vogal da primeira silaba e quase sempre identica, mas nao as consoantes.

O poeta que tomou as imagens, por vezes ate os vocabulos do Cantico dos Canticos, introduz as seguintes personagens: a esposa que simboliza a alma do homem, seu bem amado que se identifica pelas palavras summi regis filius, primus et novissimus e cuius manus plasmaverunt hominem, e, enfim, os guardas da cidade, que sao os padres e os doutores da Igreja. O poema comeca por uma especie de drama. A cena da primeira estrofe, que comeca por um monologo, se passa durante a noite na cama da esposa. Ouve-se seu bem amado chamar de fora da cena. Mas na estrofe 3, o poeta abandona a acao dramatica e deixa a esposa contar o que se passou em seguida. Tendo a alma descoberto sua situacao, chora, converte-se e recebe o batismo das maos dos padres que a preparam para a vida celeste no palacio do rei. O poema se move, portanto, em dois planos, um plano simbolico, tomado dos Canticos dos Canticos, e um plano real, que se deixa entrever de vez em quando. Parece-nos que o efeito do poema depende de algum modo dessa mistura de simbolos e de realidades, assim como de alternancia estranha de monologo, de dialogo e de narracao. Notamos tambem bruscas mudancas no estado de espirito da esposa: revelada sutilmente, ela passa da alegria a dor, que se transforma logo em esperanca de ser introduzida no palacio do rei.

B. Hugues d'Orleans (Primas)

Durante a primeira metade do seculo XII, vivia ao norte da Franca um poeta erudito, original e de temperamento polemico, ao qual os contemporaneos davam o nome de Primas, titulo honorifico de que ele mesmo se serve de boa vontade. Exprime-se em hexametros e em versos ritmicos com o mesmo talento e a mesma destreza natural. Todos os seus versos sao rimados, dos quais damos aqui tres epigramas em versos leoninos (1).

Pontificum spuma, fex cleri, sordida struma, Qui dedit in bruma michi mantellum sine pluma (2).

"Hoc indumentum tibi quis dedit? An fuit emptum? Estne tuum?"--"Nostrum. Sed qui dedit, abstulit ostrum."

"Quis dedit hoc munus? "--"Presul michiprebuit unus."

"Qui dedit hoc munus, dedit hoc in munere funus. Quid valet in bruma clamis absque pilo, sine pluma?

Cernis adesse nives, moriere gelu neque vives."

"Pauper mantelle, macer, absque pilo, sine pelle, Si potes, expelle boream rabiemque procelle. Sis michi pro scuto, ne frigore pungar acuto. Per te posse puto ventis obsistere tuto."-- Tunc ita mantellus: "Michi nec pilus est neque vellus, Sum levis absque pilo, tenui sine tegmine filo Te mordax aquilo per me feriet quasi pilo. Si notus iratus patulos perflabit hiatus, Stringet utrumque latus per mille foramina flatus."-- "Frigus adesse vides."--"Video, quia frigore strides, Sed michi nulla fides, nisi pelliculas clamidi des. Scis quid ages, Primas? Eme pelles, obstrue rimas. Tunc bene depellam iuncta michi pelle procellam. Compatior certe, moveor pietate super te Et facerem iussum, sed Jacob, non Esau sum."

[TRADUCAO]

O espuma dos bispos, lia do clero, chaga hedionda, que em pleno inverno me deu um manto usado.

"Quem te deu esta roupa? Achaste-a? E tua?" "Sim. Mas a que lhe deu tem a purpura arrancada."--"Quem te deu esse presente?" --Foi um bispo."--"O doador te prejudicou com esse presente. Que valor tem em pleno inverno um manto sem la e sem pele? Ves que as neves estao vindo, tu morreras de frio e nao viveras mais."

"Pobre manto, tao magro, sem la e sem pele, se podes, afugenta o vento do norte e o furor da tormenta. Seja meu escudo para que eu nao seja trespassado pelo frio agudo. Espero poder resistir o vento, com tua ajuda, sem perigo." Entao o manto responde: "Nao tenho pele nem la. Estou usado ate a corda, sem la, e nao posso te proteger.

Nao seria por mim que o vento do norte te trespassaria como um dardo de arremesso. Se o vento em colera penetra atraves dos farrapos boquiabertos, ele te gelara inteiramente pelos mil buracos."-- "Ves que ja agora faz frio."--"Eu bercebo isto porque bates os dentes. Mas tu nao podes te fiar em mim para remendar o teu manto. Sabes o que deves fazer, Primas? Compra uns pedacos de pele, tampa os buracos. Enfeitado com pele, eu desviarei o vento. Bem seguro, eu te vejo com piedade, tocado de compaixao, e gostaria de te obedecer, mas sou Jaco e nao Esau."

VERSIFICACAO.--A disposicao das pausas no verso e sempre na quinta silaba e o corte rima sempre com o vocabulo final do verso. A tecnica das rimas e perfeita: todas as rimas sao dissilabicas, estabelecido que se leve em conta a pronuncia do latim na Franca. Primas pronunciou, por exemplo, a ultima parte de indumentum da mesma maneira que emptum. Em outros de seus poemas, encontram-se assim as rimas sanctum: disputantum; contemptu: conventu; velox: Pelops: celos; sancte: diligam te etc. Como no ultimo caso, ele se diverte, por vezes, brincando com os monossilabos. O monossilabo pode ser um pronome, como por exemplo: diverse: per se; teste: penes te; infixe: vix se; lite: pati te; pode ser um substantivo ursus: tegitur sus; cordis: honor dis; e e, por vezes, um verbo; cf. v. 19 fides: clamidi des e v. 23 iussum: Esau sum (1). Este exemplo mostra tambem que ele nao diferencia consoantes dobradas de consoantes simples para o que diz respeito a rimas. Uma vogal longa pode tambem rimar com uma vogal breve: nives: vives; puto: tuto; latus: flatus etc. E necessario observar que esta regra e valida mesmo quando esta diferenca de quantidade ocasiona uma diferenca de acentuacao (caso dos vocabulos polissilabicos; cf. v. 15 aquilo: pilo e noutros poemas de Primas retice: amice; laceret: queret; pueris: veris; lacrimas: primas).

C. O dilema do estudante

Os poemas liricos latinos apresentam as formas mais variadas a partir do seculo XII, diferenciando-se totalmente da poesia classica. Ilustraremos aqui a nova lirica por meio de um exemplo tomado das Carmina Burana (1).

1a Vacillantis trutine b Me vacare studio Libramine Vult ratio; Mens suspensa fluctuat Sed dum amor alteram Et estuat Vult operam Et tumultus anxios In diversa rapior. Dum se vertit Ratione Et bipertit Cum Dione Motus in contrarios. Dimicante crucior. O langueo; O langueo; Causam languoris video Causam languoris video Nec caveo Nec caveo, Videns et prudens pereo. Videns et prudens pereo.

2a Sicut in arbore b Sub libra pondero, Frons tremula, Quid melius, Navicula Et dubius Levis in equore Mecum delibero. Dum caret ancore Nunc menti refero Subsidio, Delicias Contrario Venerias; Flatu concussa fluitat: Que mea mihi Florula Sic agitat Det oscula; Sic turbine sollicitat Qui risus, que labellula, Me dubio Que facies, Hinc amor, inde ratio. Frons, naris aut cesaries. O langueo; O langueo; Causam languoris video Causam languoris video Nec caveo, Nec caveo, Videns et prudens pereo. Videns et prudens pereo.

3a His invitat b Nam solari Et irritat Me scolari Amor me blanditiis; Cogitat exilio. Sed aliis Sed, ratio, Ratio sollicitat Procul abi! Vinceris Et excitat Sub Veneris Me studiis. Imperio. O langueo; O langueo; Causam languoris video Causam languoris video Nec caveo, Nec caveo, Videns et prudens pereo. Videns et prudens pereo.

[TRADUCAO]

1a Com a incerteza de uma balanca oscilante, minha alma esta indecisa e flutuante quando, ansiosa, ela retorna sobre sua decisao e se divide em movimentos contrarios. Ah, estou perdido, vejo a razao de minha doenca, mas nao me vejo, com os olhos abertos eu me perco.

1b A razao exige que eu me entregue aos estudos. Mas quando o amor deseja outra coisa, estou aflito e sofro quando a razao e Venus se batem.

2a Sou como uma folha tremulante sobre a arvore, como um fragil barquinho sobre o mar que sem a ajuda de uma ancora e agitado pelos ventos contrarios. E assim que o amor e a razao me jogam de um lado e de outro para um vento mutante.

2b Eu peso na balanca e examino, hesitante, o que e melhor, o que me representa o prazer do amor, os beijos de minha pequena Flora, seus risos, seus labios, sua face, sua testa, seu nariz, seus cabelos.

3a O amor me convida e me tenta para essas delicias, e a razao me solicita e me atira para outros interesses,

3b porque ele quer me consolar, propondo estudos no estrangeiro. Mas, razao,va"t_en. O poder de Venus triunfa de ti.

versificacao.--O poema se compoe de tres pares de estrofes que se diferenciam umas das outras, o que quer dizer que temos aqui a repeticao progressiva caracteristica da sequencia. Embora os versos apresente um aspecto muito variado, eles nao sao livres como os das primeiras sequencias, mais ritmicamente reguladas. A primeira estrofe se compoe desses versos: 2 X (7pp,4pp), 7pp, 4p, 4p, 7pp; a segunda segue o esquema 6pp, 4pp, 4pp, 6pp+6pp, 4pp, 4pp, 8pp, 4pp, 8pp, 4pp, 8pp, e a terceira 4p, 4p, 7pp, 4pp, 7pp, 4pp, 4pp. O refrao, enfim, pode ser descrito como 2 X (4pp+8pp). Comparando essas formulas, ve-se que os elementos ritmicos de que se compoem os versos sao em numero limitado. Todos os versos sao ligados por rimas dissilabicas.

10. A prosa rimada

A retorica, da qual vimos como agiu sobre Adelmo e os autores gauleses da epoca merovingia, nao parou de exercer uma influencia, por vezes nefasta, sobre os espiritos. Caracteristica da ultima metade da Idade Media e a prosa com rimas dissilabicas e com um emprego generalizado do cursus ritmico. Selecionamos aqui algumas passagens de Benzon, bispo de Alba, na Italia, que e um dos primeiros prosadores a se servir, em principio sempre, de rimas dissilabicas. Pelo final do seculo XI, escreveu uma obra AdHeinricum IV, em que defende a politica italiana dos imperadores alemaes e ataca ferozmente o Papa Gregorio VII (1).

Quoniam de impiissima heresi Folleprandelli (2) volumus et debemus aliquid dicere, / oportet a superioribus paulisper incipere. / Constantinus igitur imperator, divina revelatione / sanctique Sil vestri digna predicatione / conversus ad culturam christianae religionis, / roboravit catholicam fidem multiphariam (1) multisque modis. / Postquam autem Romanam dignitatem et pene totam Urbem traxit secum ad apostolicae credulitatis fidem, / edicto constituit ut omnes in sacrae fidei professione sentirent unum atque idem. / Ea de causa reliquit Romae suum patricium / ad custodiendam rem publicam, / et de manu papae accipiens apocrissarium (2), / voluit ut esset Constantinopoli ob disciplinam aecclesiasticam; / quatenus presumenti garrire contra fidem fieret obvius apocrisarius, / et aecclesiae Romanae volenti iniuriam inferre contradiceret patricius.

Et quoniam electio papae fiebat in criptis (3) propter metum paganorum, / precepit ut deinceps celebraretur sollempniter (4) in conventu populorum. / Taliter quidem ut, si esset imperator eo loci quo per unum vel duos menses valuisset Romana legatio ad eum attingere, datis induciis interroganda foret per legatum eius elementia, / utrum placuisset sibi interesse corporali presentia. / Si vero moras ageret cesar in longinquis partibus orbis, / cis mare vel extra, / sedente patricio in sua horchestra (1), / vice imperatoris, / a clero, senatu et populo fiat secundum Deum coniventia huiusmodi electionis. / Consecrari denique nullatenus presumatur, / donec per se aut per suam epistolam imperialis consensus adhibeatur. / Quod a nullo violatum legimus, preter de Pelagio, qui suam non ausus est ad cesarem dirigere legationem, / propter Longobardorum circa Romam frequentissimam discursionem. / Cognoscens autem cesar veritatem rei per patricium, / non grave accepit quod non erat dolo comissum. / Preterea non ignotum credimus episcopis et sapientibus clericis, qualiter beatus Gregorius est inthronizatus, operante Germano patricio, / volente atque iubente imperatore Mauricio. / Usquequo vero hoc perduravit, cui est cura cognoscere, / librum pontificalem dignetur revolvere. / Illic inveniet, qualiter exarsit contra eos imperialis censura, / qui ausi sunt infringere sacrae constitutionis (2) intemeranda iura. / Nam neque temporibus Grecorum, / sive Francorum, aut Teutonicorum, / qui adepti fuerunt arcem Romani imperii, / evasit penas presumptor huius sacrilegii. / Tercius denique Otto, /cuius magnalia (3) predicantur in orbe toto, / super cuiusdam pseudopapae nefaria presumptione / ultus est in aurium, linguae nasique detruncatione, / simulque cum oculorum evulsione. / O vir virorum, / o imperator imperatorum, / cuius liberalitas erit memorialisper secula seculorum!

[TRADUCAO]

Como nao podemos dispensar de mencionar a heresia impia de Folleprandellus, devemos retornar um pouco atras. Quando, sob o efeito da revelacao divina e da nobre pregacao de Sao Silvestre, o imperador Constantino se converteu a religiao crista, ele consolidou a fe catolica de varios modos. Depois de ter arrastado consigo a aristocracia romana e quase toda a cidade a fe dos apostolos, ordenou a todos, por um edito, que nao houvesse qualquer divergencia nas materias desta santa religiao. Por esta razao e que deixou em Roma seu prefeito para defender o Estado e mandou para morar em Constantinopla o nuncio que o Papa lhe deu para a fiscalizacao da disciplina eclesiastica; desse modo, o nuncio devia opor-se a todas as pessoas que ousasse tomar a palavra contra a fe, e o prefeito devia combater todos os que quisessem fazer alguma injustica a igreja romana. Tinha-se o habito, por medo dos pagaos, de se eleger o papa nas criptas, mas ele ordenou que daquele dia em diante isso se fizesse solenemente na assembleia do povo. Se o imperador se encontrasse num lugar em que os comissarios do senado romano pudessem chegar em um ou dois meses, devia-se esperar e perguntar-lhe se ele queria estar presente pessoalmente. Mas, se o imperador estivesse em partes distantes do mundo, deste ou do outro lado do mar, o clero, o senado e o povo elegeriam conjuntamente o papa segundo a vontade de Deus, sob a presidencia do prefeito, que representaria o imperador. Mas, de nenhum modo, devia ser consagrado antes de obter, de viva voz ou por carta, a autorizacao do imperador. Esta estipulacao nunca foi violada por ninguem, pelo que sabemos, a excecao de Pelagio, que nem se atreveu a enviar delegacao ao imperador por causa das frequentes incursoes dos lombardos nas proximidades de Roma. Quando o imperador soube, atraves do prefeito, do que realmente havia acontecido, nao se ofendeu porque nao se tratava de uma conspiracao. Cremos, finalmente, que os bispos e os padres eruditos sabem como Sao Gregorio foi entronizado pelo prefeito germanico, segundo a vontade e sob a ordem do imperador Mauricio. Quem deseja conhecer a historia desse regulamento pode estudar o Liber pontificalis. Ali se aprendera como os imperadores puniram severamente os que tentaram menosprezar as leis inviolaveis desta constituicao sagrada. De fato, sejam gregos, francos ou alamanos os que ocuparam o trono do imperio romano, nenhum daqueles que cometeram esse sacrilegio escapou a punicao. Ultimamente, Oton III, cujos altos feitos sao proclamados no mundo inteiro, vingou-se da presuncao criminosa de um pseudo-papa mandando cortar-lhe as orelhas, a lingua e o nariz e arrancar os olhos. Ah, que homem, que imperador--sua nobreza sera lembrada em todos os seculos futuros.

11. A prosa narrativa

Ao lado da prosa em que os autores fazem ostentacao de seus conhecimentos de retorica, entre outros que terminam os periodos por cadencias ritmicas e, muitas vezes, por rimas, existe tambem na Idade Media uma prosa narrativa escrita num tom bem diferente e com uma sintaxe muito simples. Os autores desta prosa se inspiram frequentemente nos Evangelhos, que tem um estilo muito diferente do adotado pela prosa artistica paga, mas, para a maior parte dos autores, e sobretudo para os de lingua romanica, a lingua materna era a fonte principal de que eles hauriram o vocabulario, as construcoes, a ordem das palavras, o emprego da coordenacao ao inves da subordinacao etc. Em nossa opiniao, os escritores italianos sao os mestres desta prosa narrativa. Seu latim tem muito pouco em comum com a lingua de Cicero. Trata-se, na verdade, de um italiano ligeiramente latinizado, mas de um estilo vivo, claro e mesmo elegante, desde que nao se considere o latim classico como o modelo a partir do qual tudo esta para julgar. Para se dar uma ideia disso, escolhemos uma parte da cronica dos frades menores, composta por Salimbeno de Adao pelo final do seculo XIII (1).

Iste frater Henricus Pisanos fuit pulcher homo, mediocris tamen stature, largus, curialis (1), liberalis et alacer; cum omnibus bene conversari sciebat condescendendo et conformando se moribus singulorum, fratrum suorum gratiam habens et secularium, quod paucorum est. Item sollemnis (2) predicator et gratiosus clero et populo fuit. Item sciebat scribere, miniare (3) --quod aliqui illuminare dicunt, pro eo quod ex minio liber illuminatur--, notare, cantus pulcherrimos et delectabiles invenire, tam modulatos, id est fractos, quam firmos (4). Sollemnis cantor fuit. Habebat vocem grossam et sonoram, ita ut totum repleret chorum. Quillam (5) vero habebat subtilem, altissimam et acutam, dulcem, suavem et delectabilem supra modum. Meus custos fuit in Senensi custodia (1) et meus magister in cantu tempore Gregorii pape noni. Et tunc vivebat frater Lucas Apulus ex ordine fratrum minorum, cuius est sermonum memoria, qui fuit scolasticus et ecclesiasticus et litteratus homo et in Apulia in theologia eximius doctor, nominatus, sollemnis atque famosus; cuius anima per misericordiam Dei requiescat in pace. Amen.

Item iste frater Henricus Pisanus fuit morigeratus homo et Deo devotus et beate virgini et beate Marie Magdalene. Nec mirum, quia ecclesia sue vicinie Pisis habebat vocabulum huius sancte. In civitate etiam Pisana beata virgo vocabulum habet matricis ecclesie (2). In qua fui a Pisano archiepiscopo diaconus ordinatus. Multas cantilenas fecit frater Henricus et multas sequentias. Nam illam litteram fecit et cantum: "Christe Deus, Christe meus, Christe rex et domine ", ad vocem cuiusdam pedisseque, que per maiorem ecclesiam Pisanam ibat cantando (3): "Es tu no cure de me / e no coraro de te".

Item illam cantilenam fecit, litteram cum triplici cantu, scilicet: "Miser homo cogita facta Creatoris". Item cantum fecit in illa littera magistri Phylippi cancellarii Parisiensis, scilicet: "Homo quam sit pura / Michi de te cura".

Et quia, cum esset custos et in conventu Senensi in infirmitorio iaceret infirmus in lecto et notare non posset, vocavit me, et fui primus qui eo cantante notavi illum cantum. Item in illa alia littera, que est cancellarii similiter, cantum fecit, scilicet: "Crux, de te volo conqueri", et "Virgo, tibi respondeo", et "Centrum capit circulus ", et "Quisquis cordis et oculi".

Et in illa sequentia: "Iesse virgam humidavit" delectabilem cantum fecit, et qui libenter cantatur, cum prius haberet cantum rudem et dissonum ad cantandum. Litteram vero illius sequentie fecit Ricardus de Sancto Victore, sicut et multas alias fecit sequentias. Item in hymnis sancte Marie Magdalene, quos fecit predictus concellarius parisiensis, scilicet: "Pange lingua Magdalene", cum aliis sequentibus hymnis cantum delectabilem fecit. Item de resurrectione Domini fecit sequentiam, litteram et cantum, scilicet: "Natus, passus Dominus resurrexit hodie".

Secundum vero cantum, qui ibi est, id est contracantum, fecit frater Vita ex ordine fratrum minorum de civitate Lucensi, melior cantor de mundo (1) tempore suo in utroque cantu, scilicet firmo et fracto. Vocem habebat gracilem sive subtilem et delectabilem ad audiendum.

[TRADUCAO]

O irmao Henrique de Pisa era um belo rapaz, de estatura mediana, generoso, cortes, liberal e alegre. Sabia conversar bem com todo o mundo, descendo ao nivel de cada um, e era tao amado por seus confrades quanto pelos leigos, o que e muito raro. Era um notavel orador, muito famoso junto ao clero e ao povo. Sabia escrever, miniar--o que alguns chamam iluminar (ornamentar com iluminuras), ja que um livro e iluminado com minio--munir os livros de notas musicais e compor agradaveis melodias, seja medidas, em cantus fractus, seja em cantus firmus. Cantava muito bem. Tinha uma voz sonora e de grande volume, que enchia todo o coro, e tinha uma voz de falsete fina, muito alta e aguda, doce, deliciosa e infinitamente agradavel. Era o chefe de nossa ordem, na provincia de Siene (1), assim como meu professor de canto, na epoca do Papa Gregorio IX. Nesta epoca vivia o Irmao Lucas, o Apuliao, da ordem dos irmaos menores--ainda se conserva a lembranca de seus sermoes--um homem sabio, piedoso e letrado, que era um distinto, renomado, excelente e celebre doutor em Teologia em Apulia (na Italia). Que sua alma repouse em paz, pela misericordia de Deus, amem.

Mas, para voltar ao irmao Henrique de Pisa, este era de um bom carater, devotado a Deus, a Santa Virgem e a Santa Maria Madalena, o que nada tem de maravilhoso, visto que a igreja vizinha, em Pisa, levava o nome desta santa. Na cidade de Pisa, a catedral em que fui ordenado diacono pelo arcebispo de Pisa, foi nomeada, de pois, da Santa Virgem. O irmao Henrique compos muitos cantos e diversas sequencias. Ele compos, por exemplo, o texto e a melodia de Christe Deus, Christe meus, / Christe rex et domine, segundo a cancao de uma pequena serva que passeava na catedral de Pisa, cantando "Se tu zombas de mim, eu nao zombo de ti". Escreveu ainda o canto seguinte (o texto com tres vozes): Miser homo cogita facta creatoris. E compos a melodia para esse texto do maestro Filipe, o chanceler de Paris: Homo quam sit pura / Michi de te cura.

Quando era superior provincial e estava doente na enfermaria da Abadia de Siene, sem poder escrever notas musicais, ele me chamou e assim eu fui o primeiro a anotar esta melodia, a partir de seu canto. Alem disso, ele musicou outros textos do chanceler, a saber Crux de te volo conqueri, Virgo tibi respondeo, Centrum capit circulus e Quisquis cordis et oculi.

Pela sequencia lesse virgam humidavit, ele compos uma melodia deliciosa, que se canta com prazer, enquanto a antiga melodia era barbara e dissonante. E Ricardo de Sao Vitor que escreveu o texto desta sequencia, assim como as de muitas outras. Ele compos ainda uma bela musica para os hinos em honra de Santa Maria Madalena, do Chanceler de Paris acima nomeado, principalmente com base em Pange lingua Magdalene e noutros hinos. Enfim, escreveu o texto e compos o metodo da sequencia seguinte, sobre a ressurreicao do Senhor: Natus, passus Dominus resurrexit hodie.

A segunda voz desse canto, isto e, os contrapontos, e obra do irmao Vita, da ordem dos frades menores, da cidade de Lucques, nesta epoca o melhor cantor do mundo nos dois generos, cantochao e canto figurado, tinha uma voz aguda, sutil e agradavel aos ouvidos.

BIBLIOGRAFIA SUMARIA

A maior parte dos textos citados encontra-se nas seguintes grandes colecoes:

Analecta Hymnica = C. Blume, G. M. Deves, H. Bannister, Analecta hymnica medii aevi, I-LV, Leipzig, 1886-1922 (citamos os numeros dos poemas).

Corpus Christianorum, I-. Turnhout, 1953- DIEHL, E. Inscriptiones Latinae Christianae veteres, I-III. Berlim, 1924-1930.

MIGNE. Patr. Lat. = Patrologiae cursus completus. Series Latina. MGH = Monumenta Germaniae Historica, Auct. ant. = Auctores antiquissimi.

Dipl. karolin., I = Die Urkunden der Karolinger, I.

Epist. = Epistolae.

Leg. sect. = Legum sectiones.

Mer. = Scriptores rerum Merovingicarum.

PAC = Poetae aevi Carolini.

Script. = Scriptores.

THUROT, Ch. Notices et extraits de divers manuscrits latins pour servir a Fhistoire des doctrines grammaticales au moyen age. Paris, 1869.

WALTHER, H. Proverbia sentientiaeque Latinitatis medii aevi. Goettingue, 1963 Para os outros textos citados serao encontradas indicacoes bibliograficas suficientes nas notas de pe de pagina.

O lexico do latim medieval tem sido objeto de numerosos estudos. Citaremos os titulos dos dicionarios mais importantes nas notas das paginas 68 e 69, quando estaremos tratando do "latim medieval apos o ano 1000". Os manuais e tratados que mencionaremos mais frequentemente sao os seguintes:

BASTARDAS PARERA, J. El latin medieval hispanico, Enciclopedia Linguistica Hispanica, I. Madri, 1959, p. 251-290.

--. Particularidades sintacticas del latin medieval. Barcelona, 1953.

BECKMANN, G. A. Die Nachfolgekonstruktionen des instrumentalen Ablativs im Spatlatein und im Franzosischen. Tubingue, 1963.

BONIOLI, M. La pronuncia del latino nelle scuole dell'Antichita al Rinascimento, I. Turim, 1962.

BOURCIEZ, E. Elements de linguistique romane. 5a ed. Paris, 1967.

DIAZ Y DIAZ, M. C. El latin de la peninsula iberica, Rasgos linguisticos, Enciclopedia Linguistica Hispanica, I. Madri, 1959, p.

153-197.

--. El latin de la liturgia hispanica, Estudios sobre la liturgia mozarabe. Madri, 1965, p. 55-87.

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HALVARSON, K. Bernardi Cluniacensis Carmina De trinitale et de fide catholica, De castitate servanda, In libros regum, De octo vitiis. Estocolmo, 1963.

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--. Der hibernolateinische Grammatiker Malsachanus. Upsala, 1965.

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--. Vermischte Studien zur lateinischen sprachkunde und Syntax, Lund, 1936.

MEYER, W. Gesammelte Abhandlungen zur mittellateinischen Rythmik, I-III. Berlim, 1905, 1936.

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NORBERG, D. Syntaktische Forschungen auf dem Gebiete des Spatlateins und des fruhen Mittellateins. Upsala, 1943.

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--. Introduction a l 'etude de la versification latine me dievale. Estocolmo, 1958.

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RICHE, P. Education et culture dans l'Occident barbare, VIe- VIIIe siecles. 2a ed. Paris, 1967.

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WESTERBERGH, U. Chronicon Salernitanum, A Critical Edition with Studies on Literary and Historical Sources and on Language. Estocolmo, 1956.

Traducao: Jose Pereira da Silva

Rio de Janeiro

CiFEFiL

2007

(1) Ver P. Riche, Education et culture dans l'Occident barbare, p. 131 e ss.

(2) Cesaire, Serm., LXXXVI, Corpus Christianorum, CIII, p. 353.

(1) Cf. nosso artigo A quelle epoque a-t-on cesse de parler latin en Gaule? Annales, XXI, 1966, p. 346 e ss.

(2) Cesaire, Serm., XIII, Corpus Christianorum, CIII, p. 64 e ss.

(3) quare... sumus. SINTAXE--O latim arcaico emprega, frequentemente, o indicativo nas interrogativas indiretas. Este uso ainda permanece vivo na lingua falada, apesar das regras da gramatica classica e dos textos tardios que apresentam numerosos exemplos. Nesse sermao, Cesario escreve assim a linha 45 videte qualis est e a linha 47 considerate si est. (Nos nos referimos diversas vezes as linhas em que determinados fatos se documentam, mas isto so sera possivel determinar num texto formatado para edicao impressa ou em formato protegido).

(4) scire... quia. SINTAXE--A oracao infinitiva, tao caracteristica do latim classico, foi cedo suplantada na lingua falada por uma completiva introduzida por quia ou quod (por vezes tambem quoniam). Esse tipo de oracao divulgada nos textos literarios de uma epoca tardia, sob a influencia da Biblia, na qual os tradutores se apoiaram na construcao grega correspondente. E assim que Cesario escreve aqui as linhas 26 videte quia, 55 credam quod, 61 denuntiantes quod, 68 dicite quia, 69 audivimus quod, 71 contestamur quia, a maior parte do tempo com o indicativo na oracao subordinada. Em nosso texto, Cesario emprega a oracao infinitiva somente apos agnoscitis (linha 57), videtis (linha 64), cognoveritis (linha 77).

(5) die dominico. SINTAXE--O uso antigo do adjetivo no lugar do genitivo possessivo se encontra em certas formulas como erilis filius = eri filius "le fils du maitre de la maison". Do mesmo modo, no latim dos cristaos, dominicus dies, dominica oratio etc. Para designar o domingo, emprega-se mais frequentemente a expressao inteira dies dominicus ou dies dominica. Mas tambem se chega a suprimir o substantivo, dizendo somente dominicus ou dominica. A variacao de genero se reflete nas linguas romanicas: frances le dimanche, espanhol el domingo, mas italiano la domenica. Emitiu-se a hipotese (G. Rohlfs, Die lexikalische Differenzierung der romanischen Sprachen, Munique, 1954, p. 25 e ss.) de que o feminino se reportou a vitoria nas partes da Romanica que estavam particularmente expostas a influencia do grego, cujo vocabulo correspondente e sempre feminino.

(1) ecclesiam. LEXICOGRAFIA--E evidente que o sermao de Cesario apresenta um bom numero de cristianismos lexicologicos. Alguns sao emprestimos tomados da lingua grega, como por exemplo, ecclesia, cuja acentuacao latina (ecclesia e nao ecclesia) parece indicar que o vocabulo passou ao latim antes do desaparecimento da quantidade das vogais. Podem ser destacados em nosso texto outros vocabulos de origem grega presbyter, diabolus, baptismus e scandalum, e e do hebraico que vem, por intermedio da Biblia, sabbatum. Mas, mesmo os vocabulos latinos que encontramos aqui estao carregados de um novo conteudo semantico. Peccatum nao significa mais qualquer erro, mas uma falta contra a lei divina, um pecado, e podemos mesmo constatar uma modificacao semantica devida a ideologia crista em vocabulos como infelix, miser, fideliter, paenitentia, oratio, indulgentia, devotio, salus, regnum. O novo significado salta aos olhos nas expressoes corpus et sanguis Christi, oleum benedictum, baptismi sacramentum, crux Christi, lectio divina, verbum Dei, que dizem respeito ao culto e aos ritos cristaos.

(2) verbosare. LEXICOGRAFIA--No latim tardio criou-se verbosari ou verbosare derivado de verbosus da mesma maneira que anxiari o e de anxius, e iucundari de iucundus. Ja chamamos a atencao para o fato de que os depoentes foram eliminados da lingua falada. Isto porque Cesario admite aqui a forma ativa, enquanto que manteve em outros lugares a forma passiva. In ecclesia stantes... nolite invicem verbosari, diz ele, por exemplo num outro sermao em que pretende que sao sobretudo as mulheres que se dao a tagarelar.

(1) fructiculis. LEXICOGRAFIA--Fructiculus, que parece ser uma criacao de Cesario, significa "pequeno fruto". Mesmo a uma data mais tardia, os diminutivos conservaram frequentemente seu sentido proprio, assim quando os ricos qualificam sua fortuna de pecuniola, acquisitulum, sorticellula etc.., ou quando os grandes autores qualificam suas obras de exiguitatis meae munusculum (Cf. T. Janson, Latin Prose Prefaces, Estocolmo, 1964, p. 146). Por outro lado, podem ser encontrados exemplos desde a epoca classica em que os diminutivos efetivamente perderam seu sentido original. Varrao, contemporaneo de Cicero, nao faz diferenca entre auris e auricula quando diz auriculis magnis. Esse e o uso do latim falado como o mostram, por exemplo, o frances oreille < auricula, soleil < soliculus, oiseau < avicellus.

(2) fuit-erat-fuerat. ESTILISTICA--Nao se ve por que Cesario escolheu ora fuit, ora erat. O emprego do mais-que-perfeito no lugar do imperfeito--uso que ja se encontra na epoca classica--provem, entretanto, de uma tendencia a terminar os periodos por certa clausula ritmica: fuerat iracundus da um cursus velox. Com efeito, constata-se com espanto que o bispo de Arles, depois de ter declarado que nao se ocupava da retorica dos letrados, procura exprimir-se numa prosa ritmica conforme as regras de sua epoca. Noutro texto, encontramos assim, diante de uma pausa marcada por uma pontuacao forte, 16 vezes um cursus planus, 10 vezes um cursus tardus, 16 vezes um cursus velox. Duas vezes somente, o autor empregou formas nao recomendadas: linha 38 loqui studeant e linha 68 baptismi sacramentum. Mas e bem possivel que Cesario tenha pronunciado loqui estudeant e tenha acentuado baptismi sacramentum e que se tratasse, em realidade, de duas formas regulares de cursus tardus e de cursus velox. Estudaremos mais adiante esses fenomenos linguisticos.

De um ponto de vista acentual, as clausulas de nosso sermao sao, pois, todos ou quase todos irrepreensiveis. Mas Cesario observou frequentemente a quantidade das clausulas. Ele formou, por exemplo, 10 vezes as clausulas de cursus planus de um cretico seguido de um troqueu: in fronte portamus etc., 6 vezes ele ultrapassou as regras da quantidade: observatione remansit (clausula heroica) etc. O cursus tardus e constituido 4 vezes regularmente de um dicretico, 6 vezes de formas ametricas, o cursus velox, 13 vezes de um ditroqueu precedido de um proparoxitono, 3 vezes de um dispondeu. Esses numeros sao insuficientes para permitir uma conclusao segura. Mas uma estatistica mais vasta--que nao temos necessidade de fornecer aqui--conduz ao mesmo resultado: veriamos em Cesario os restos do sistema quantitativo em vias de substituicao pelo sistema acentual ou ritmico da Idade Media.

(1) in concessu. LEXICOGRAFIA--Temos aqui duas antiteses: in itinere e o oposto de in domo, e in concessu deve, portanto, ser o oposto de in convivio e significar "na solidao". E um sentido desse vocabulo que nao se encontra nos lexicos, mas que se explica facilmente, visto que o verbo concedere pode substituit secedere. Santo Hilario de Poitiers escreve, por exemplo, in desertum concedit explicando Mateus 14,13 secessit inde in navicula in locum desertum seorsum.

(1) videantur infligere. ESTILISTICA--Na prosa tardia, o passivo videri e, frequentemente, um auxiliar sem valor proprio, que e empregado para formar clausulas. Aqui, os vocabulos videantur infligere dao uma excelente clausula (um dicretico = cursus tardus), mas na qual consiste o sentido, pois infligant teria sido suficiente. Noutros sermoes, Cesario prefere igualmente as cadencias rimadas successores esse videmur e similitudinem illarum molarum habere videtur (dois casos de cursus planus) as expressoes simples successores sumus e similitudinem illarum molarum habet. Noutros autores tardios se encontram, no mesmo emprego: nosci, dinosci, cognosci, probari, comprobari, monstrari, inveniri e ainda outros verbos.

(2) ballationes. LEXICOGRAFIA--O vocabulo ballare que e um emprestimo do grego BALLITSEIN apareceu pela primeira vez em Santo Agostinho, que se lamenta dos povos que vem as festas dos martires para "se embriagar, dancar, cantar cancoes indecentes e conduzir dancas de roda a maneira do diabo" (Augustin, Serm., CVI, 2). Vemos que estas sao as proprias supersticoes que persistiam na Galia a epoca de Cesario.

(3) pagani. LEXICOGRAFIA--Tentou-se explicar de varias maneiras a evolucao semantica do vocabulo paganus que adotou o sentido de "pagao". Alguns sabios pensaram que era necessario partir do sentido de "campones", que ja e uma explicacao de Orosio, que escreveu a Santo Agostinho, por volta de 418, que "os que nao pertencem a cidade de Deus sao chamados de pagaos (pagani) a partir das encruzilhadas e das aldeias do campo", ex locorum agrestium compitis etpagispagani vocantur (Orose, Hist., I, prol., 9). Outros pensam que e antes a oposicao entre milites Christi e pagani, "os civis", que forma o ponto de partida--suposicao bastante verossimil. Com efeito, paganus ja e empregado com certo tom pejorativo em Tacito, que diz em suas Histoires, III, 24: mox infensius praetorianis "vos" inquit "nisi vincitis pagani", "em seguida, ele se dirigiu aos pretorianos com censuras crueis: se nao alcancardes novamente a vitoria, sereis pequenos burgueses". O vocabulo ja tinha, portanto, um valor afetivo quando os cristaos comecaram a emprega-lo para designar seus adversarios (Ver E. Lofstedt, Late Latin, p. 75 e ss.).

(4) venerat orare. SINTAXE--Os verbos de movimento sao seguidos, frequentemente, de um infinitivo na lingua falada, fenomeno que aparece desde a epoca arcaica e subsiste ainda hoje como o mostra a frase de Plauto venerat aurum petere e sua traducao francesa "il etait venu reclamer son or" (ele veio reclamar seu ouro). A prosa classica recusava essa construcao, mas em textos tardios sao encontrados frequentemente exemplos do tipo vadam adhortare eos ou fuimus (isto e profecti sumus) visitare Romam (Lib. Hist. Franc., 15, MGH, Mer., II, p. 262,34, e Vita Landiberti, 24, ibid., VI, p. 377,2).

(1) Si interrogativo. SINTAXE--Considerate si iustum est e uma construcao absolutamente normal em baixo latim. Em Cicero, o emprego de si interrogativo e uma excecao, restrita a algumas frases particulares, sempre seguidas de um subjuntivo.

(2) quicquid vultis vobis fieri. ESTILISTICA--E no Sermao sobre a montanha que o autor recolheu esses vocabulos. As palavras de Jesus influenciaram, desse modo, o estilo de Cesario. A beati pauperes etc., correspondem em Cesario linha 74 infelices et miseri etc. Os preceitos de Jesus sao expressos por imperativos ou por nolite, assim como em Cesario.

(3) istas. SINTAXE--Sabe-se que havia no latim classico uma diferenca muito clara entre os pronomes demonstrativos. A epoca imperial, essas diferencas se tornam cada vez mais apagadas. Hic e ille se enfraquecem e tendem a substituir is como pronome anaforico; mais tarde, ille se torna pronome pessoal ou artigo definido na lingua falada da Idade Media. Iste e ipse tomam, frequentemente o sentido de hic, ipse pode tambem substituir idem. Em nosso texto, iste serve de demonstrativo da primeira pessoa as linhas 52 (istas duas sententias = has duas sententias) e 56 (de locis istis = "de nossa regiao").

(4) turpitudinem de annicula vel cervulo. LEXICOGRAFIA--A partir de anus,us "a velha", sao criados os diminutivos anula, anulla, anicula e anicilla. Podem ser comparados os derivados correspondentes de anus,i "anel": anulus e anellus. Sob a in fluencia de annus,i "ano" e do adjetivo anniculus, "de um ano", escrevia-se frequentemente annulus, annellus e mesmo annicula.

Compreendem-se melhor as palavras de Cesario, se se comparar um outro sermao sobre a festa de ano novo: "E possivel crer que ha homens de bom senso que se fingem de animais selvagens, tomando o aspecto de um cervo (cervulum facientes)? Uns se envolvem de peles, outros se cobre da cabeca dos animais... E ha algo mais vergonhoso do que ver homens vestir tunicas de mulheres?" No final do mesmo seculo, foi decretado num concilio de Auxere: Non licet kalendis Ianuarii vecola aut cervolo (isto e vetulam aut cervulum) facere ((4) Corpus Christianorum, CIV, p. 780 e ss., e CXLVIII A, p. 265,1. A leitura vecola, que o editor rejeitou, remonta ao arquetipo, sem duvida alguma. Para o desenvolvimento vetulus > veclus > italiano vecchio, frances vieux etc., ver V. Vaananen, Introduction au latin vulgaire, p. 44). Ainda no seculo VII, Santo Eloi pregou: nullus in Kalendas Ianuarii nefanda et ridiculosa, vetulas aut cervulos vel iotticos (talvez idioticos) faciat (Vita Eligii, II,16, MGH, Mer., IV, p. 705,13. Ver o artigo Romanischer Volksglaube um die Vetula em G. Rohlfs, An den Quellen der romanischen Sprachen, Halle, 1952), e a repeticao da mesma interdicao em outros autores mostra que essas crencas populares estavam profundamente enraizadas.

(1) obscuratur. LEXICOGRAFIA--Nao se trata do eclipse da lua, mas de seu declinio e dos ritos pagaos nas calendas para fazer voltar a nova lua.

(2) caraios. LEXICOGRAFIA--Nao ha etimologia segura desse vocabulo que se encontre em qualquer texto do fim da Antiguidade e da Alta Idade Media sob as formas de caragius, caragus e caraius. De qualquer modo, os caraii eram uma especie de bruxos, como os divini e os praecantatores.

(3) fylacteria, characteres, herbas, sucinos. LEXICOGRAFIA--Quando os padres pregam contra as supersticoes pagas, eles falam, as vezes, do uso de amuletos e de sinais magicos; Santo Ambrosio combate, por exemplo, os qui confidunt in phylac teriis et characteribus. Contra as doencas diversas, serviam-se tambem de talismas confeccionados com ervas ou ambar, como podemos ver em Plinio, o Velho.

(1) quinta feria. LEXICOGRAFIA--Na epoca imperial, os dias da semana eram chamados dies Solis, Lunae (ou Lunis por analogia com os outros nomes; cf. por exemplo, o espanhol lunes), Martis, Mercuri (ou Mercuris; cf. espanhol miercoles), Iovis, Veneris, Saturni (ou Saturnis), como podemos ver nas inscricoes (Ver E. Diehl, Inscriptiones Latinae Christianae Veteres, III, p. 311) e em outras fontes. Os bispos faziam grandes esforcos para extirpar este costume. "Nao digamos jamais 'mardi', 'mercredi' ou 'jeudi', mas o primeiro, segundo e terceiro dia da semana (primam feriam etc.)", escreve Cesario num sermao. Mas seu sucesso foi apenas parcial. Eles foram bem sucedidos em substituir o primeiro e o ultimo nome por dominicus (dominica) e sabbatum, mas os outros nomes permanecem ainda em toda a Romania, exceto em Portugal.

(2) dammandi sunt. SINTAXE--No latim tardio e medieval, a parafrase dammandus sum tomou o sentido de um futuro passivo. Esse uso pode ser ilustrado por um refrao de um Versus de poenitentia, em que se diz da alma do pecador: aeternis es torquenda cruciantibus. As vezes, o adjetivo em -ndus serve tambem de participio presente passivo. Isto porque se diz num outro refrao in terra ponendus eris para exprimir o sentido de futuro. (MGH, PAC, IV, p. 605,1 e p. 496,2).

(1) Didier entretinha uma correspondencia constante com os grandes homens de sua epoca, e possuimos uma colecao de cartas, extraida dos arquivos de Didier a epoca carolingia. A compilacao e composta de dois livros, o primeiro dos quais contem dezesseis cartas da mao de Didier, e o segundo vinte e uma enderecadas a ele por seus amigos. A carta que publicamos a seguir encontra-se no segundo livro.

(2) Patre. MORFOLOGIA--As terminacoes em -i e em -e sao confundidas no latim merovingio frequentemente. Assim o dativo da terceira declinacao termina frequentemente em -e, o ablativo, ao contrario, em -i: patre por patri, priori porpriore etc. Como o m finalhavia caido, chegou-se mesmo a escrever-se maiorem domus por maiori domus ou tenuem sermonem por tenui sermone. (Cf. o indice da edicao sobre Casuum formae).

(3) Elegius. FONETICA--As grafias Eligius e Elegius sao ambas frequentes. Em silaba aberta e acentuada, o i breve tinha tomado o mesmo timbre que o e longo; cf. na colecao a que pertence nossa carta, antestitem, iteneris I, 13,3 e II, 8, 9.

(4) quociens. FONETICA--Quociens, gracia etc., sao grafias que encontramos por volta de 50 vezes em nossa colecao de cartas. O erro inverso, benefitium, pertinatia etc., e muito mais raro; nossa colecao apresenta somente 11 exemplos dessa natureza.

(5) graciae vestrae. ESTILISTICA--Gratia vestra e aqui um titulo honorifico, assim como almitas, caritas, dignatio, magnitudo, pietas, sanctitas e, para os reis e os ministros dos reis merovingios (maires du palais), excellentia, eminentia, dominatio, celsitudo, culmen etc. Por outro lado, havia certo gosto em se designar por expressoes como nostra parvitas (veja-se aqui a linha 7), exiguitas, extremitas etc.

(6) repperimus. FONETICA--Aqui repperimus e um perfeito, como o mostra a clausula vestrae repperimus. Entretanto, o latim tardio possui tambem uma forma do presente repperio com dois p, devida a analogia com o perfeito repperi. A maior parte do tempo, a geminacao das consoantes, como em ingerrere a linha 11, prae summo, possitus etc. noutras cartas, provem de uma reacao contra a tendencia da lingua falada a simplificar as consoantes dobradas, tendencia de que encontramos frequentemente exemplos do tipo sumus, misus, efectus etc.

(1) comolum. FONETICA E MORFOLOGIA--O u breve e representado pela letra o porque o u breve e o o longo sao confundidos na lingua falada nas mesmas condicoes que o i breve e o e longo. Confira em nossas cartas copio, Bitorige. Aqui cumulus se tornou neutro. O fenomeno inverso e mais frequente: os textos atestam a regressao do neutro na lingua falada; confira, por exemplo, synodalis concilius numa carta do rei Sigeberto, II, 17, 12.

(2) adcriscere. FONETICA--Na Italia e na Galia, as formas incoativas em -isco substituiram, em geral as formas em -esco. De fato, encontramos em nossas cartas adcriscere, floriscat e innotiscere. Frequentemente ha mais diferenca entre o incoativo e o verbo simples; confira linha 10 feniscere, isto efiniscere, no lugar de finire.

(3) cum salutationis officia. MORFOLOGIA--No latim da epoca merovingia, encontramos frequentemente, por exemplo, a plures, cum exemplaria, de litteras, de pueros, pro condiciones nostras e, por outro lado, ad ipsa civitate, adversus domno Desiderio, ante ipso domno, per vestro consilio etc. As expressoes do tipo cum eum, de salutem sao bastante raras e, no plural, os erros praeter his feminis, per omnibus etc., faltam totalmente em diversos textos. Como as terminacoes em -m e, no plural, em is e -ibus desapareceram cedo da lingua falada, sao, portanto, preferentemente, as formas do caso regime, conservadas no antigo frances e no antigo provencal, que encontramos nos textos latinos apos as preposicoes.

ESTILISTICA--Nossa carta esta cheia de tracos da retorica empolada da Baixa Antiguidade. A fraseologia de Eloi, de Didier e de outros bispos do seculo VII e mais ou menos a mesma que a de Sidonio, no seculo V. Realmente, nossa carta nao contem senao belas palavras e e necessario supor que o mensageiro de Eloi tenha sido encarregado de expor em viva voz uma tarefa que era, certamente, muito importante e muito delicada para ser confiada a uma carta que podia cair nas maos de um inimigo. A fraseologia epistolar pertencem as palavras cum salutationis officia que, noutras cartas, sao substituidas por expressoes como salute humillima effusa, salutationis obsequia praelata (acasutivo absoluto), officia salutationum persolvens, salutationum iura persolvens etc. (Ver a edicao, p. 14).

(4) propensius.--SINTAXE--O comparativo tem aqui o sentido de possessivo. Nos textos tardios, encontram-se, deste modo, frequentemente, os adverbios citius, celerius, frequentius, attentius, diutius, nuperius, subterius, superius, subindius etc., uso que arrastou ate os comparativos postius e antius. Postius que e atestado nos textos e o ponto de partida do frances puis, antius deu o antigo frances ainz. (Cf. E. Lofstedt, Late Latin, p. 50, e meus Syntactische Forschungen, p. 242 e 245)

(1) pre. FONETICA--Como o ditongo ae se havia simplificado em e aberto, depois de muito tempo, nada e mais comum do que a grafia e por ae. O erro oposto tambem e frequente; cf. linha 14 immensitatae por immensitate.

(2) quod nequaquam credo. SINTAXE--Pode-se parafrasear esta expressao em latim classico: Atque hoc quidem nequaquam credo, scilicet memoriam nostri in oblivium apud vos cadere posse, sicut ne memoria vestri quidem apud nos occidere potest. Teremos aqui, portanto, uma oracao introduzida por ut no lugar de quod ou quia substituindo uma oracao infinitiva depois de credo, construcao que se encontra, as vezes, nos textos tardios (Cf. mes Beitrage zur spatlat. Syntax, p. 114.).

(3) vita perpetuae etc. ESTILISTICA--Nessa frase, Eloi dispoe os vocabulos de um modo afetado: o ablativo immensitatae (= -tate) vem intercalar-se entre o genitivo Desiderii e os substantivos viscera mentemque, dos quais aquele e o complemento. Eloi tentou, sem duvida, dar alguma elegancia a seu estilo por meio dessa ordem rebuscada das palavras. O pensamento mais claro e: "Nada estimula tanto o espirito como a patria feliz da vida eterna e dos justos estimula o coracao e a alma de Didi er."

(4) mi unanimes etc. SINTAXE--Como pia viscera Desiderii e aqui uma parafrase de pie Desideri, Eloi colocou no masculino singular mi unanimes (isto e, unanimis), por uma especie de constructio ad sensum.

(5) corporalis coniunctio. ESTILISTICA--Nas cartas tardias, encontramos as nocoes absentia corporis e praesentia spiritus mil vezes opostas. Sao Paulino de Nola es creve, por exemplo, em sua Epist., 18: etsi regionum intervallis corporaliter disparemur, spiritu tamen domini... coniuncti sumus.

(1) quod exoratus fideliter etc. ESTILISTICA--Eloi abandonou aqui o estilo epistolar e tirou da eloquencia do pulpito a frase que termina os sermoes. Sao Cesario dizia no sermao que apresentamos aqui: quod ipse praestare dignetur, qui cum Patre et Spiritu sancto vivit et regnat in saecula saeculorum. Amen.

(2) Saluto te etc. ESTILISTICA--Mesmo na epoca merovingia, as cartas parecem ter sido escritas, frequentemente, por um secretario, mas o remetente acrescentava sempre, ele mesmo, uma ultima frase, diante da qual encontramos, de vez em quando, nas copias, os vocabulos manu propria (Ver a edicao das cartas de Didier, I, 2,20 e II, 1,30). Essa frase era, quase sempre, estilizada a partir de certas formulas, como Incolumem excellentiam vestram superna pietas tueatur, Annis multis vobis servire mereamur, beatissime papa ou Oratio me vestra sublevet, beate et venerabilis papa. Os reis podiam contentar-se com as palavras Syggibertus rex subscripsi. Quando encontramos em Palacio de Auxerre, um dos colegas de Didier, a frase final Palladius peccator hunc mandatum meum relegi et subscripsi, isto e um sinal da decadencia da cultura: Paladio confundiu os diversos generos e imitou o fim de uma carta do rei. Aqui, Eloi parece ter empregado uma frase mais livre, porque ele queria apresentar simultaneamente as gentilezas de Dadon (Cf. a edicao, p. 11 e 73.).

(3) fideles utrorumque sodales.FONETICA E SINTAXE--A terminacao -es substitui aqui -is. Utrorumque, a semelhanca de amborum, no lugar de utriusque, e um erro que aparece de tempos em tempos desde a epoca classica.

(1) Essas cartas estao conservadas no manuscrito 4627 do fundo latino de Biblioteca Nacional de Paris, aos folios 27v.-29r., que foram reproduzidas em fac-simile por G. J. J. Walstra, que da tambem uma edicao critica, uma traducao e um comentario historico e linguistico em Les cinq epitres rimees dans l'appendice des formules de Sens, Leide, 1962. O sabio holandes fornece tambem todos os esclarecimentos necessarios para um estudo aprofundado. Nossa interpretacao nao concorda sempre, entretanto, com a do Prof. Walstra; cf. nosso artigo Quelques remarques sur les lettres de Frogobert e d'Importun, Rivista di Filologia e di Istruzione Classica, XCII, 1964, p. 295 e ss.

(1) sanctorum meritis beatificando. ESTILISTICA--As cartas que datam da epoca merovingia comecam frequentemente por formulas do tipo seguinte: Domino sancto et meritis apostolico... Eufronio papae Fortunatus ou Domino sancto mihique in Deo peculiari patrono Eufronio papae Fortunatus (Veja-se Fort., Carm., III, 1 e 2.). Sao formulas desse genero que Frodeberto parodia, dizendo que a salvacao de Importuno dependia dos meritos dos santos.

(2) domno et fratri Importune. FONETICA--No latim tardio e medieval ha duas formas do vocabulo dominus: a forma original, empregada sobretudo para designar Deus, e a forma sincopada domnus, frequente como titulo honorifico. E necessario, entretanto, observar que o uso das duas formas nao esta submissa a regras rigorosas.

Na lingua falada da Galia, as silabas finais tendiam a desaparecer nessa epoca, e a pronuncia fraca contribuiu para a confusao dos finais nos textos. Aqui, escreveu-se Inportune no lugar de Inportuno, assim como na linha 5, tale anonae no lugar de talem annonam. Nesses dois casos, e possivel que o final das palavras precedentes, fratri e tale, tenha tido alguma importancia e que se tratasse, no texto, de uma especie de assimilacao das desinencias, ajudada pelo enfraquecimento da pronuncia.

(3) quod = "quanto ao fato de que". ESTILISTICA--As cartas comecavam, por vezes, por uma subordinada em quod, que expunha o motivo da missiva. Cf. o inicio da carta que Sao Didier remete ao rei Sigeberto por volta do ano 647: Quod nos pia sollicitudine litteris dignati estis consolare, insufficiens est mens nostra gratiarum iura persolvere, "quanto ao fato de que tivestes tido a cortesia de nos reconfortar por uma carta, nao sabemos como exprimir bem o nosso reconhecimento" (Epistulae Desiderii, I, 4,6.).

(4) recepisti. LEXICOGRAFIA--E dificil precisar aqui o sentido de recipere, mas um exemplo medieval, citado por Du Cange em seu Glossarium, VII, p. 43, pode nos ajudar: propter hoc debet recipere monachos in refectorio de pane et vino et fabis et piscibus et pimento in festivitate omnium sanctorum. Aqui, recipere parece ter aproximadamente o mesmo sentido e a mesma construcao que reficere. No latim medieval, frequentemente se tem estabelecido uma relacao entre as palavras cujos sons se assemelhavam. Assim e que o rei Chilperico empregou saltim no sentido de "por saltos", aproximando este vocabulo do verbo salire, num hino escrito por volta de 575: Armatus saltim currit aulis undique coetus gentium, "a multidao de pessoas armadas saltou de todos os lados contra a fortaleza" (MGH, PAC, IV, p. 455.). Num diploma de 775, Carlos Magno escreveu: sub Deo in rege manet potestas quomodo cuncta terrebilia debeant ordinari, "e o rei que, depois de Deus, tem o poder de organizar todas as coisas desse mundo" (MGH, Dipl. Karolin., I, p. 146,23). Evidentemente, ele fez terribilis derivar de terra. Do mesmo modo, pode-se encontrar irritare = irritum, facere, iterare = iter facere, rogus = rogatio, mentio = mendacium, ianuarius = ianitor, penetrare = perpetrare, properare = propinquare etc. (Ver E. Lofstedt, Late Latin, p. 157 e ss., que da tambem algumas informacoes bibliograficas.) Deste modo, Frodeberto confundiu aqui recipere "receber" e reficere "reconfortar". A construcao e recepisti nos (acusativo) dura annona (ablativo instrumental), "tu nos alimentaste com trigo duro". Pode-se tirar sem dificuldade o objeto direto nos, assim como o substantivo annona, da oracao seguinte.

(1) estimasti. LEXICOGRAFIA--Desde a epoca imperial, empregava-se aestimare por existimare, "acreditar", mas aqui estimasti significa de preferencia voluisti. E uma mudanca de sentido dos verba sentiendi que pode ser constatada frequentemente no latim tardio. Cf. vita Aniani, 1, MGH, Mer., III, p. 108, 21 illud... arbitror non tacere, "eu nao quero silenciar isto"; Vita Desiderii, 13, ibid., IV, p. 571, 21 ideo credimus eum merito ad sacerdotium provehere, "por causa disso, queremos promove-lo, com razao, ao episcopado"; Vita Trudonis, 8, ibid., VI, p. 281,21 vos autem ob vestimentorum ipsius qualitatem eum iudicare putastis, "mas vos quisestes julga-lo pela qualidade de suas vestes"; Gregorio de Tours, Hist. Franc., 2, 3 caecaverat eum cupiditas et virtutem Dei omnipotentis inridere perpecuniam aestimabat, "a avareza o cegou e, por dinheiro, ele se deliciava em rir da forca de Deus onipotente" (cf. mais adiante: Deum per pecuniam inridere volui); Gregorio, Glor. conf., praef., O rustice et idiota, ut quid nomen tuum inter scriptores indi aestimas?, "A ignorante, sem cultura, por que queres tu que teu nome seja inscrito entre os dos escritores?".

(2) largire. MORFOLOGIA--Sabe-se que os depoentes desapareceram cedo do latim falado. E por isso que os textos apresentam frequentemente formas ativas, como largire e dignetis em nossa carta, e mentis, mentit, sequis, gloriare nas outras cartas de Frodeberto e de Importuno. Os depoentes que ainda podem ser encontrados, como morimur, a linha 11 de nossa carta, sao muito frequentemente reminiscencias da lingua literaria: dizia-se sem qualquer duvida, muito tempo depois, morire e nascere; cf. PAC, IV, p. 497 vide ne male morias; ibid. p. 576 melius fuisset quod homo numquam nasceret.

(3) ad pretium. SINTAXE--A preposicao ad pode servir, na Idade Media, para introduzir o complemento de preco. Cf. Capitula Remedii Curiensis, MGH, Leg., V. p. 184, 5 fiat battutus aut redemat suum dossum ad VI solidos, "que ele seja batido ou livre suas costas por seis soldos" (Para um uso semelhante da preposicao in, ver J. Bastardas Parera, Particularidades sintacticas, p. 52).

(4) ad donum. SINTAXE--O latim classico ja conhecia o emprego da preposicao in diante do atributo; lemos, por exemplo, em Tito Livio, IV, 61,10 proditori... duarum familiarum bona in praemium data. Na epoca imperial, podem ser encontradas frases como habere aliquam in coniugem, dare aliquam in mulierem, eligere aliquem in regem. Nos textos da Idade Media, a preposicao ad substitui, as vezes, in nesta funcao; nota-se, por exemplo, habere aliquam ad mulierem, donare aliquid ad pro prium, suscipere aliquid ad beneficium (Cf. E. Lofstedt, Date Latin, p. 36, J. Bastardas Parera, op. cit., p. 41, Lex Alam., 2,1). Aqui, ad donum e o mesmo que "de presente".

(1) nec... nec... non. SINTAXE--A regra segundo a qual duas negacoes reunidas na mesma proposicao se destroem nao era valida na lingua falada, menos preocupada com a logica do que com a enfase, e este uso se introduziu frequentemente nos textos (Ver Hofmann-Szantyr, p. 803 e ss.). Cf. Gregorio, o Grande, Epist., V, 4 reliquis numquam praeponi non debuit; Vita Galli, 9, MGH, Mer. IV, p. 255, 12 non remansit eis nihil; Concilio de Chalons-sur-Marne (por volta de 644), 13, Corpus Christ., CXLVIII A, p. 306,1 ut nullus alterius clerico (= clericum) retenere non praesumat; Concilio de Auxerre (entre 561 e 605), 10, ibid., p. 266,35 non licet super uno altario in una die duas missas dicere nec in altario, ubi episcopus missas dixerat, prespyter in illa die missas non dicat.

(2) comentum. LEXICOGRAFIA--Se o vocabulo comentum, ou melhor, commentum (normalmente "comentario") nao esta aqui devido a um erro de escriba, deve ser explicado como fizemos acima em relacao a recipere = reficere. Frodeberto aproximou o vocabulo de comedere e lhe deu o sentido de "pao".

(3) si Dominus = sed Dominus. FONETICA--Na lingua falada, a conjuncao latina si nao tinha acento, passando a sH (com i breve) e, em seguida, a se. Importuno escreve, por exemplo, se vidis amico por si vides amicum, e em outros textos se encontram muitos exemplos desta forma que sobrevivem na maior parte das linguas romanicas. Entretanto, os escritores tem tido conhecimento, em geral, da diferenca entre a lingua falada e a lingua escrita com relacao a isto, tentando representar se pela grafia si. Em nossa passagem, Frodeberto pronunciou sedominus (= sed dominus), mas, num enorme cuidado para reencontrar o bom uso, ele escreve si dominus.

(4) imbolat formentum. FONETICA--Imbolare e, como o mostra o antigo frances embler, a forma da lingua falada para involare, "sobrevoar", "apoderar-se, roubar, tirar". Quanto a formentum, esta forma parece ser um cruzamento de fermentum, "fermento", com frumentum, "trigo". Na verdade, o portugues "formento", assim como algumas formas dialetais, exigem o desenvolvimento fermentum > formentum. (NOTA DO TRADUTOR: A palavra "formento" nao e corrente na lingua portuguesa nem consta de seus principais dicionarios. "Frumento" e palavra que significa "trigo selecionado").

(5) aforis, abintus. LEXICOGRAFIA--Os latinos da epoca imperial gostavam das expressoes compostas do tipo abante, "antes", depost, "desde", importantes para as linguas romanicas. E Plinio, o Antigo, quem primeiramente emprega a foris, expressao que em sua obra significa "de fora": in ulcuspenetrat iniuria omnis a foris. Mais tarde, a foris pode ter tambem o sentido de "externamente". Esta mudanca se operou de maneira semelhante aquela que fez com que a fronte, a tergo etc. respondam frequentemente a pergunta "ubi?". Em nosso texto, a preposicao ab perdeu todo o valor de separacao. Cf. o mesmo emprego de deforis e deintus, Vitae patrum 3,92: sicut sum deforis, ita sum deintus (Tratamos desse problema em Beitrage zur spatlat. Syntax, p. 76 e ss.).

(1) miga. FONETICA--A sonorizacao de c entre duas vogais se encontra tambem nos vocabulos parisiaga, iogo, pliga na correspondencia de Frodeberto e de Importuno.

(2) fetius. FONETICA--Tentou-se explicar a forma fetius pela queda do d intervocalico fetius por fetidus. Cf. G. J. J. Walstra, op. cit., p. 100, mas esta interpretacao e duvidosa, visto que ja no seculo IV, Firmico Materno emprega o adjetivo oriputius no lugar de oriputidus sob o modelo de outros adjetivos em -ius (Ver T. Wikstrom, In Firmicum Maternum studia critica, Upsala, 1935, p. 118 e ss.).

(3) apud. SINTAXE--Na Galia, a homonimia entre quomodo, tornado com, e a preposicao cum provocou o abandono de cum que foi substituido pela preposicao apud. Desde o seculo VII, encontram-se exemplos desse uso. Cf. Fredegaire, 2,40 apud eam (= cum ea) demicavit Pompegianus; Vita Goaris, 5, MGH, Mer., IV, p. 415,21 apud ipsud lacte linebat membra illorum; Passio Praeiecti, I, 12, ibid., V, p. 232, 11 cumque eum... Preiectus apud multa dolore tumulasset, cum merore redit (Cf. G. A. Beckmann, Die Nachfolgekonstruktionen des instrumentalen Ablativs im Spatlatein und im Franzosischen, p. 216 e ss., J. Bastardas Parera, Particularidades sintacticas, p. 95).

(4) oblata. LEXICOGRAFIA--Oblata, ae, f. (isto e, hostia) ou, raramente, oblatum, i, n. "pao oferecido pela eucaristia", "oferenda", emprega-se aqui no sentido geral de "pao".

(5) qui. MORFOLOGIA--Na lingua corrente, qui, caso sujeito masculino, e quem, caso regime, tendiam a desbancar as formas femininas correspondentes, quae e quam. Lemos, por exemplo, nas formulas de Angers, p. 15,15 carthola qui, p. 15,9 epistola quem. Ao neutro subsistia uma unica forma pronunciada ke, mas transcrita de varios modos: que, quae, quem, quid, quod. O dativo cui tambem se conservou e concorreu com quem. Assim e na segunda carta de Importuno: cui amas, e provavelmente aqui, onde qui e a grafia de cui e a construcao deve ser: habeas gratum quem... voluisti donatum.

(6) tua potestate. LEXICOGRAFIA--Potestas e, aqui, um titulo honorifico "vossa autoridade".

(1) grande largitatis. FONETICA--Nessas cartas, ha alguns casos em que o s final foi suprimido: aqui, na linha 15, congregatio puellare, ao inves de congregatio puellaris, e na segunda carta de Frodeberto bracco tale para bracco talis. Isso nao esta de acordo com o desenvolvimento geral na Galia, onde o s final nao caiu. Mas algumas inscricoes e alguns textos fazem supor que, mesmo na Galia, em pontos esparsos, houve uma tendencia ao enfraquecimento do s final (Ver B. Lofstedt, Studien uber die Sprache der langobardischen Gesetze, p. 128 e ss.). Certamente, e por causa dessa tendencia que encontramos aqui, por uma grafia inversa, largitatis por largitatem (ou largitate). Mas e possivel tambem que estejamos diante simplesmente de um erro de copista.

(2) nobiscum. SINTAXE--Observamos acima que se trocava a preposicao cum por apud na lingua corrente da Galia. Aqui, e por reacao a este uso que Frodeberto escolheu cum, numa fase em que a lingua literaria se serve de apud. Cf. a antitese entre vos in domo et nobiscum (= apud nos).

(3) vos... homo. LEXICOGRAFIA--Nos textos cristaos, o vocativo homo e empregado muito frequentemente para por em destaque a condicao da vida humana. Assim, Cesario de Arles, num sermao, p. 614,14, diz o seguinte: O homo, audis... quia refugium non habet qui pauperi non dedit. Aqui, talvez Frodeberto se lembre de Mateus, 7,9 quis est ex vobis homo, quem si petierit filius suus panem, numquid lapidem porriget ei?.

SINTAXE--O emprego frequente de nos no lugar de ego e de vos no lugar de tu traz numerosas inconsequencias gramaticais, mesmo em escritores eruditos. Em nossa carta, a mudanca de numero nada tem de espantoso, nem aqui nem na frase seguinte: te rogo ut dignetis orare.

(4) presummo. FONETICA--Presummo por praesumo representa uma reacao a simplificacao das consoantes dobradas bem atestada na Galia.

ESTILISTICA--Nas cartas da epoca merovingia, pode-se encontrar a frase salutare non praesumo (isto e audeo) por exprimir a maior diferenca; cf. na correspondencia de Sao Didier II,14,5 salutare quidem non praesumo: II,3,13 salutare quidem non audeo sed deprecor sanctitatem vestram ut pro me, umillimum vestrum, in sacris orationibus vestris memores esse dignemini. E a esta frase que Frodeberto faz alusao quando diz ironicamente: satis te praesumo salutare etc.

(5) de illo pane. SINTAXE--No latim tardio, ja se exprimiu a nocao partitiva com a preposicao de em frases do tipo da mihi de drapo sancti Caesari (Vie de saint Cesaire, II,42. Cf. Lofstedt, Syntactica, I, p. 145 e ss.). Ille se tornou aqui um pronome anaforico com o mesmo valor enfraquecido que is tinha no latim classico. Esse en fraquecimento do demonstrativo e a origem do desenvolvimento do artigo definido. Desde a epoca imperial ha exemplos mais ou menos isolados que anunciam a evolucao futura. Assim esta em Vitae patrum, 6,3,4: Macarius ille Aegyptius (Ver E. Lofstedt, Syntactica, I, p. 358 e ss.). Mas nao e somente no seculo VIII que encontramos textos que, embora reflitam imperfeitamente o estado da lingua falada, fazem suspeitar que esta possuia um artigo. Cf., por exemplo, Vita Trudonis, 29, MGH, Mer., VI, p. 297,1 e ss.: dixit: "Ille peregrinus qui me persequitur scit quis ille sit qui illum thesaurum de hac ecclesia furatus est." Ille vero peregrinus cum constrictus esset indicavit illum latronem... ergo... ille latro suspensus est in patibulo, et illum thesaurum.. restitutum est. Maximam autem partem illius thesauri ille fur in terra recondidit.

(1) probato. MORFOLOGIA--O imperativo em -to, que e caracteristico do estilo das leis, emprega-se a epoca imperial somente nas frases feitas. Nas linguas romanicas, nem tracos dele existem.

(2) potis. FONETICA--Nada e mais comum nos textos merovingios do que a confusao de e e i nas terminacoes. Encontramos na correspondencia de Frodeberto e de Importuno fratre por fratri, vidit por videt e vidis por vides.

(3) liberat. SINTAXE--E evidente que liberat tem aqui o sentido de um subjuntivo, "que Deus livre". Do mesmo modo, Frodeberto escreve em sua segunda carta numquam respondes ei in mutto "nunca e necessario que respondas", e seu adversario, no inicio de sua segunda resposta: qui mihi minime credit, factu tuum vidit "que esse que nao acredita em mim, veja seus feitos". Em outros textos, e sobretudo na segunda pessoa do plural que o subjuntivo ou o imperativo e substituido pelo indicativo, como na celebre inscricao de Pompeia: itis, foras rixsatis, "Sai, tagarelai fora". Sabe-se que o imperativo frances chantez deriva da forma latina cantatis, [enquanto que o nosso provem diretamente do imperativo latino cantate].

(4) puellare. FONETICA--O adjetivo puellare concorda frequentemente com monasterium ou coenobium e puellare pode ser empregado tambem sozinho como substantivo com esse sentido. E possivel que a forma puellare no lugar de puellaris se explique por esse uso, mas nao se pode mais excluir a possibilidade de um erro de copista.

(5) refudat. FONETICA--Encontram-se outras palavras nesta correspondencia em que o t intervocalico tenha sido sonorizado, como em digido e pudore por digito e putore; exemplos de grafia inversa sao cauta e rotore por cauda e rudore.

(1) nostra privata stultitia. ESTILISTICA--Ja assinalamos que os bispos que ditavam suas cartas a um escriba tinha o habito de acrescentar ao fim uma saudacao de proprio punho. As saudacoes sao frequentemente precedidas de frases como Subscriptio domni episcopi ou Manu propria, e e uma frase desse genero que Frodeberto substitui pelas palavras ironicas: Nostra privata stultitia ad te in summa amiticia, evidentemente scribit hanc salutationem.

(2) amiticia. ORTOGRAFIA--Esta grafia deve ser comparada com amititias na segunda carta de Frodeberto. O final cia por -tia provem da assibilacao de ci e de ti diante de uma vogal, de que ja tratamos suficientemente. E mais dificil compreender por queci e substituido por ti diante de uma consoante: amiti-cia (pronunciado /amitsitsia/). Isto vem, sem duvida, da incerteza dos escribas em relacao ao emprego das letras c e t, cuja pronuncia era semelhante diante de i + vogal.

(3) Obto te semper valere. ESTILISTICA--Vem em seguida a saudacao que Frodeberto escreveu de seu proprio punho. Mencionamos acima algumas formulas que encontramos nas cartas de Sao Didier e de seus correspondentes. Frodeberto se serve primeiramente de uma formula usual, mas acrescenta com a ironia caracteristica de sua carta a proposicao: et caritatis tue iuro tenere "e espero que nao te esquecas de teus sentimentos de amizade".

(4) caritatis tue iuro. FONETICA--Iuro no lugar de iura pode ser explicada pelo enfraquecimento da vogal final, mas e possivel que se trate apenas do erro de um copista.

LEXICOGRAFIA--Na lingua epistolar, eram preferidas frases rebuscadas e preciosas. Ao inves de "minhas saudacoes", dizia-se salutationis officia (ou obsequia ou iura) persolvere, ao inves de "muito obrigado", podia-se escrever como o faz Sao Didier I,1 multiplices et ineffabiles vestrae beatitudini... gratiarum iura (= gratias debitas) persolvimus, falava-se tambem de caritatis iura, como Didier em sua carta I,13 vicissim iura caritatis glutinantur. Aqui Frodeberto quer dizer: opto te caritatem quam mihi debes tenere.

ESTILISTICA--Feita a abstracao do endereco, Frodeberto redigiu sua carta em membros, ou cola de desigual duracao, cujos finais sao claramente postos em relevo por uma rima ou uma assonancia dissilabica (uma vez trissilabica: stultitia : amiticia). As duas silabas finais dos vocabulos rimados sao quase sempre identicas: perire : largire, comentum : formentum, novella : bella etc. (do mesmo modo, sem duvida, potestate : largitate, escrita largitatis). Por tres vezes ha identidade de duas vogais, mas nao de todas as consoantes: crusta : fusca, pane : manducare, sancta : pasta. As vezes, apenas as vogais acentuadas que sao as mesmas: Inportune : dura, donum : anonae, palato : odoratus, fato que o ultimo editor atribui com razao ao enfraquecimento das finais na lingua falada.

E curioso constatar que as cadencias das cola formam 14 vezes um cursus planus regular: recepisti tam dura, de fame perire, voluisti largire, tale anonae, inde comentum, turpis est crusta, nimis est fusca, apud novella, oblata non bella, voluisti donatum, vidistis in domo, dignetis orare, semper valere, iuro tenere; 4 vezes a estrutura desta clausula e anormal: est in palato, habeas gratum, morimur homo, vivimus plane. Encontramos ainda 1 vez o cursus tardus: privata stultitia e 3 vezes o cursus velox: carissime Inportune, pretium nec ad donum, fetius odoratus. As outras formas ritmicas sao: imbolat formentum, tua potestate, grande largitatis, presummo salutare, potis manducare (estas sao as formas que se chamarao mais tarde de cursus trispondaicus) summa amiticia, de illo pane, de tale pane, puellare sancta, tale pasta. Nessa carta, Frodeberto empregou, portanto, 22 vezes os cursus planus, tardus ou velox e 10 vezes outras formas. Isto quer dizer que parece ter tentado terminar os membros dos periodos pelas clausulas recomendadas, embora nao o tenha conseguido sempre. Mas as clausulas sao ritmicas; imediatamente se ve que ele nao se preocupa demasiadamente com a quantidade das silabas: Inportune = --''', recepisti tam dura = ---'', fame perire = ''''''-'' etc., sao formas que a prosa metrica evita.

(1) O texto foi publicado por U. Westerbergh, Chronicon Salernitanum, p. 73 e ss. Nessa excelente obra encontra-se um comentario sobre todos os tracos medievais, com informacoes bibliograficas detalhadas.

(1) dum. SINTAXE.--Desde a epoca imperial, dum substitui frequentemente cum historicum.

(2) idipsum. SINTAXE.--A forma fixa idipsum de que provem o italiano desso e empregada na Cronica como objeto direto, p. 35,20 ingenti cursus (= cursu) idipsum nunciare studuerunt abbati. Mas o mais frequentemente, idipsum e um adverbio que pode ser traduzido por "assim mesmo", "alem do mais" e poe em destaque a identidade das pessoas, como aqui, ou das acoes, como por exemplo, a p. 151,30 dum hec et hiis similia presul predictus verba repeteret, idipsum et Beneventani exinde inter se susurrarent, patricius ille nefandiximus metu perculsus ceterique Argivi in fugam conversi sunt.

(3) concusare. LEXICOGRAFIA.--Frequentemente podemos constatar nos autores medievais uma incerteza, as vezes surpreendente, no emprego dos prefixos. Aqui concusare substituiu accusare, assim como escreveu aggregare por congregare, comperire por reperire, incumbere por occumbere, omittere por dimittere, proiectus por subiectus. Confira p. 92,33 cunctos suos optimates agregari iussit in unum; p. 138,15 Deus delicta illorum... omisit; p. 9,27 sibiproiectas provincias. Certos tipos de confusoes sao especialmente interessantes. Quando lemos na Cronica, p. 59,7 disponsavit puellam, trata-se de uma permuta dos prefixos de- e dis- que podemos observar desde a epoca classica ate o nascimento das linguas romanicas que tambem ocorrem por causa do parentesco de sentidos entre os prefixos e do desenvolvimento fonetico do latim tardio (Ver B. Lofstedt, Studien uber die Sprache der Langobardischen Gesetze, p. 294 e ss.). A expressao fortitudinem obmiserat por amiserat, p. 20,29, pode ilustrar a confusao de ab- e de ob- que, ela tambem, deixou tracos nas linguas romanicas (Cf. RecueilMax Niedermann, Neuchatel, 1954, p. 45 e ss., onde encontramos tambem exemplos demonstrativos de que os prefixos prae- e pro- foram confundidos). E por causa da semelhanca dos sons que o autor (ou o escriba) representou enormiter pela grafia innormiter, p. 106,30, adlata por ablata e abdicabat por addicabat, p. 30,5 e 130,6.

(4) satagens. SINTAXE.--O participio presente tem aqui a funcao de uma forma pessoal, traco caracteristico do estilo de numerosos autores medievais.

(5) qui. SINTAXE.--Na Cronica, e frequente o emprego pleonastico do pronome relativo. Cf. p. 11,18 Quod ille predictus rex Karolus talia cognoscens e, em nosso texto, l. 39 Quem cum eum vidissent, onde quod esta representado por talia e quem por eum.

(1) immo. LEXICOGRAFIA.--Immo tem perdido de vez em quando o seu sentido original por ser empregado como particula de ligacao. Aqui immo e apenas um ornamento do estilo.

(2) incuntanter. FONETICA.--O grupo nct, apos longo tempo, havia sido reduzido a nt, o que se reflete frequentemente no texto da Cronica. Tenctoria por tentoria, a linha 25, e uma grafia inversa.

(3) complehendi. FONETICA.--As formas complehendere, platum, fletum que encontramos na Cronica por comprehendere, pratum fretum sao tipicas do dialeto da Italia meridional.

(4) feruntque alii ut. SINTAXE.--O autor da Cronica usou um estilo literario, empregando frequentemente uma proposicao infinitiva apos os verbos que exprimem uma declaracao ou uma opiniao. Mas, por vezes, ele se equivoca e escreve, contra o uso classico, dicere ut e credere ut, hiperurbanismo de que temos aqui um exemplo; cf. ainda linha 19 cognovisset ut. Entretanto, tem-se podido constatar que seu uso e diferente quando ele faz os personagens falarem. Neste caso, ele prefere quia seguido de um indicativo, que e, de fato a construcao empregada ainda hoje no sul da Italia, onde quia sobrevive sob a forma de ca (Ver a edicao de U. Westerbergh, p. 279 e ss.).

(5) dyaconatum honorem. SINTAXE.--A construcao classica teria sido ad diaconatus honorem, mas nosso cronista que encontrou em suas leituras acusativos do tipo Romam ou domum omite a preposicao ad ou in mesmo noutras expressoes, talvez sob a influencia do uso mais livre da poesia (cf. Virg. Lavinaque venit litora, ibimus Afros etc.). Encontram-se nele expressoes como propria reverti, palacium venire, stabulum properare, urbem regredi, imperium elevari.

FONETICA.--O fato de que as consoantes finais m, t e s tinham desaparecido na lingua falada na Italia por essa epoca ocasionaram uma incrivel confusao de terminacoes nos autores que nao tinham aprendido sua gramatica classica. Aqui parece que o cronista tenha desejado dizer diaconatus honorem.

(6) silicet. FONETICA.--As grafias silicet, sedula, asenderat assim como as hipercorrecoes abscente, scitus etc., nos convencem de que, diante de e e i, sc e s eram pronunciadas quase da mesma maneira.

(1) custodia... qui. MORFOLOGIA.--Qui e quod parecem poder substituir qualquer forma de relativo. Cf. monasterium qui, ecclesia quod, semones quod, verba quod etc.

(2) ad receptum pluviale aqua. SINTAXE.--O autor poderia ter escrito ad recipiendum pluvialem aquam e e por analogia com esta construcao que acrescentou um objeto direto ao substantivo verbal receptus (pluviale aqua = pluvialem aquam).

(3) seperrime. LEXICOGRAFIA.--Na Cronica, encontramos as formas regulares sepissime e creberrime, alternando com crebrissime. Alem disso, o autor contamina essas formas, quando escreve frequentemente seperrime e crebissime.

(4) exercitandum... iret. SINTAXE.--Nos textos da alta Idade Media, de vez em quando e encontrado o acusativo do gerundivo ou o adjetivo em -ndus com sentido final. Cf., por exemplo, Vita Gaugerici, 11, MGH, Mer., III, p. 656,6 contigit ut curtis, quas ecclesia sua in terraturium Petracorico habebat, accederet visitandum; Cod. dipl. Long., 114, a.754 directus sum in exercito ambulandum cum ipso; Gregorio, o Grande, Epist., X, 14 cum sacerdos perscrutanda mysteria ad sancta sanctorum intrat. Cremos que esta construcao testemunha uma reacao contra o uso da lingua falada em que tinha sido substituido venio ad petendum, dare ad manducandum por venio ad petere, dare ad manducare. Este infinitivo preposicionado era sentido de novo como um vulgarismo que era necessario evitar a qualquer preco num texto, e e o que explica que se tenha chegado a escrever venio petendum, dare manducandum. E necessario buscar uma explicacao semelhante para a construcao surpreendente licentia ambulandum que encontramos de vez em quando nos texto da mesma epoca; cf. o Edit de Rothari, 186 mulier ipsa licentiam habeat... elegendum; Lois de Liutprand, 12 pater autem aut frater potestatem habeant... dandum aut spunsandum filiam aut sororem suam. No lugar de habeo licentiam ad ambulandum dizia-se habeo licentiam ad ambulare, mas por medo do infinitivo preposicionado, tem-se caido no erro oposto, escrevendo habeo licentiam ambulandum (Cf. meus Syntaktische Forschungen, p. 223 e ss.).

(1) principissa. LEXICOGRAFIA.--O sufixo i\-issa e empregado na Idade Media para formar substantivos femininos como comitissa, ducissa, principissa, abbatissa, condessa, duquesa, princesa, abadessa.

(2) factum est ut. ESTILISTICA.--E da Vulgata que o cronista tomou emprestado este torneio; cf. Lucas, 2,1 Factum est autem in diebus illis exiit edictum a Caesare Augusto; Geneses, 4,3 Factum est autem post multos dies ut offerret Cain de fructibus terrae munera Domino.

(3) denique. LEXICOGRAFIA.--Nosso autor gosta de inserir particulas como denique, quippe, nempe, nimirum, scilicet em sua narracao, particulas que, frequentemente, perderam aqui e ali o sentido original.

(4) talia. ESTILISTICA.--O emprego frequente das expressoes talia intimavit, promsit talia dicta etc., indubitavelmente provem do ensino escolar em que se tinha aprendido este torneio, caro aos poetas; cf., por exemplo, Virgilio, Aen., IX, 431 talia dicta dabat.

(5) exinde. SINTAXE.--Inde e exinde substituem frequentemente a preposicao de seguida de um substantivo ou de um pronome demonstrativo. Cf. na Cronica, p. 130,10 exiguum exinde sumpsit, p. 16,2 quid faciam exinde. E curioso que desses dois adverbios exinde seja muito mais frequente nos textos, enquanto que a lingua falada preferiu inde; cf. italiano ne, frances en.

(6) eamque. SINTAXE.--Os autores medievais abusam frequentemente do emprego da conjuncao que que, depois de muito tempo, desapareceu da lingua falada. Aqui eamque tem o sentido de eam, isto quer dizer que o uso da particula e absolutamente pleonastico. Semelhantemente, encontramos na Cronica idemque, ipseque, suusque, nullusque, omnisque, ceterique, ibique, moxque, simulque por idem etc. Parece evidente que a analogia dos pronomes quicumque, uterque, quisque contribuiu para esse uso.

De fato, o fenomeno oposto existe tambem no latim tardio e medieval. O rei lombardo Liutprand se serve assim de unusquis no lugar de unusquisque em sua lei, paragrafo 85, prospeximus ut unusquis iudex et sculdahis faciat mittere preconem. Quicum no lugar de quicumque se encontra, por exemplo, num poema merovingio, MGH, PAC, IV, p. 646 Nec pavescantfirma corda quecum hec audierint, e no historiador de Ravena, Agnello, 60 Quibuscum vero secularis cumversationis hominibus ecclesiastici iuris praedia... data sint,... ad dominium revocet ecclesiae (Ver meus Beitrage zur spatlat. Syntax, p. 92 e ss.).

(1) ficta, cernisset. MORFOLOGIA.--Ficta e empregada aqui por fixa, na frase seguinte cernisset e derivada de cerno. O autor tem empregado frequentemente o radical do presente para formar o perfeito; cf. depromi por deprompsi, sumerunt por sumpserunt, rumperunt por ruperunt, deluderunt por deluserunt, aurisset por hausisset. Mas tambem acontece que se adapte o radical do presente; annexere por annectere, poposcere por poscere, prostare por prosternere, attribere por atterere (Ver U. Westerbergh, op. cit., p. 324 e ss.).

(2) ad tabulam ludebat. SINTAXE.--Para o emprego instrumental da preposicao ad, cf., por exemplo, Liber pontif., 134 b 1 voluit totam Italiam ad gladio exstinguere (Ver G. A. Beckmann, Die Nachfolgekonstruktionen des tinstrumentalen Ablativs, p. 75 e ss.).

(3) huiusmodi. SINTAXE.--No lugar do genitivo que nao se prende mais aqui a um vocabulo principal, preve-se um ablativo hoc modo. Mas esse genitivo se fixou logo cedo na lingua literaria. Cf. Gregorio, o Grande, Epist., II,30 huiuscemodi innocentia eius evidenter enituit, Jordanes, Getica, 280 istiusmodi fluvius ille congelascit ut in silicis modum pedestrem vehat exercitum.

(4) ipsum. MORFOLOGIA.--Ja acentuamos a confusao dos casos proveniente da queda das consoantes finais. O autor esta acostumado, em sua lingua falada, ao novo sistema casual do italiano, mas tem, ao mesmo tempo, certa imagem visual das formas latinas e uma ideia muito vaga de seu emprego. Ele pode, por exemplo, dar aos antigos acusativos e ablativos a funcao de caso sujeito ou nominativo. Cf. p. 147,13 ne unam quidem stillam cecidit; p. 93,3 meum infantulum Siconem fiat (= sit) vobis commendatum; p. 159,27 immensam multitudinem Agarenorum... venerunt; p. 171,17, multos... interempti sunt; p. 44,28, famulis nostris illum sequantur; p. 98,21 statim calcaribus qui in pedibus episcopi erant innexi protinus in terra proiecti sunt.

Esta confusao de formas se choca tambem quando o nome tem outras funcoes. Notar-se-ao os exemplos seguintes, em que o caso regime e expresso de um modo ambiguo: p. 165,17 Dum Salernitanis locus ille liquisset (= dum Salernitani locum illum liquissent); p. 79,19 idipsum Sikenolfus valido exercitu (= validum exercitum) congregans; p. 31,14 Grimvald... undique muniri civitas ista (=civitatem istam) cepit; p. 59,28 ipsum Greculum ibidem negaverunt (=necaverunt) ceterisque (= ceterosque) illius sequaces. Esta confusao dos casos reto e obliquo (ou regime) nao se encontra nos textos latinos escritos na Galia, onde um sistema de dois casos e conservado na lingua falada da Idade Media.

(1) cum accipites. FONETICA.--Prever-se-ia cum accipitribus. O desaparecimento de r e comparavel com plausta, p. 141,3 por plaustra, sepulchum, p. 29,4 por sepulchrum.

(2) quaslibet. LEXICOGRAFIA.--Quaslibet tem aqui o sentido de aliquot. Pode-se notar que o cronista se serve, por vezes, de formas pronominais fixas; cf. p. 97,29 preclarissimum quidam (= quendam) Alonem episcopum elegerunt; p. 104,28 pro nullius (= nulla) alia re.

(3) micteret. FONETICA.--Na Cronica, encontramos frequentemente as grafias inversas mictere, lictera, actrivit assim como factus por fatus. A assimilacao que se operou no grupo pt causou a grafia inclipta por inclyta, mas tambem as mudancas entre ct e pt; cf. correctus por correptus, aptum por actum em textos da Italia. A reducao de ks em ss ou s apareceu nas formas luxtris = lustris, fexus = fessus, vidixet = vidisset, excitatione = haesitatione (Cf. U. Westerbergh, op. cit., p. 226.).

(4) temptorium. FONETICA.--O desenvolvimento de uma consoante transitoria nos grupos ms, mt e mn encontra-se na Cronica em vocabulos como dampnare, dompnus etc. (mas cf. a assimilacao caracteristica da lingua falada em contennissimus p. 114,34). Dai a confusao de vocabulos como contemptus e contentus ou a grafia temptorium por tentorium.

(5) invenire. FONETICA.--Lemos aqui invenire e, mais adiante, transire por inveniret e transiret. Na Cronica, as formas amare, amarem, amares, amaret, amarent foram confundidas, de modo que so o contexto pode ajudar-nos a interpretar o seu sentido.

(1) extimplo. FONETICA.--I por e numa silaba tonica so se encontra, segundo a sabia editora do texto, nos vocabulos extimplo, signiter e dinique.

(2) diccioni. FONETICA.--O vocabulo latino que o cronista tem em mente e dicio, "poder", "soberania". Cf. as grafias ecciam, donaccionem, monittionem.

(3) extincxit. FONETICA.--Como x era pronunciado s, era necessario inserir um c para tornar a pronuncia escolar ks em vocabulos do tipo strucxit, extrucxit.

(1) aliorum. SINTAXE.--No latim tardio, o dativo era substituido, por vezes, por um genitivo, ligado de uma maneira bastante livre a um substantivo principal. Cf. Vita Aniani, 10, MGH, Mer., III, p. 116,18 multorum Chunorum dederunt interitum, onde, do ponto de vista classico, teria sido mais natural escrever multis Chunis, dativo complemento do verbo. Em nosso texto, o genitivo aliorum e empregado desta maneira livre. Noutros lugares, sao principalmente os pronomes eius, huius, illius, eorum e illorum que encontramos na funcao de um dativo. Cf. na Cronica, p. 28,11 per omnia illius fidem servaret; p. 14,15 quidam homo eorum dixit; p. 163,9 iuraverunt quatenus illorum preesset. Sabe-se que os descendentes romanicos de illorum (italiano loro, frances leur) tanto desempenham a funcao de dativo quanto a de genitivo.

(2) peiora horum. SINTAXE.--O genitivo de comparacao desenvolveu-se no latim tardio sobretudo sob a influencia do grego. Expressoes do tipo maius omnium, minus omnium, peiora priorum, maiora horum sao frequentes nas antigas traducoes da Biblia, e dai se expandiram na literatura crista. De outro modo, o ablativo de comparacao segue por vezes um superlativo. Auspicio de Toul exorta assim o conde de Treves Arbogaste, no seculo V: sanctum et primum omnibus nostrumque papam Iamblichum honora; na admonitio Basilii ad filium spiritualem lemos ultimum se esse iudicat cunctis hominibus, e assim e frequentemente no latim medieval (Cf. Hofmann-Szantyr, p. 111 e 169, ALMA, XXII, 1951-1952, p. 15; P. Lehmann, Erforschung des Mittelalters, V, p. 233, linha 317).

(1) Ver a obra erudita de B. Thorsberg, Etudes sur l'hymnologie mozarabe, em que o hino e publicado e comentado as paginas 107 e ss.

(2) Christus est virtus patris, sapientia. FONTES.--O autor tomou emprestados esses vocabulos a Vulgata, I Corintios, 1,24 praedicamus... Christum Dei virtutem et Dei sapientiam.

(3) fruere celestia. SINTAXE.--O emprego de utor, fruor e de outros verbos com um objeto direto no lugar de um ablativo ja se encontra no latim arcaico e se torna muito frequente depois da epoca classica. No inicio da Idade Media, muitos verbos ordina riamente intransitivos foram utilizados com um acusativo. Segundo o modelo de regere, iuvare e docere, os verbos praeesse, subvenire e praedicare tambem receberam frequentemente um objeto direto. Cf. Vita Richarii 11, MGH, Mer, VII, p. 451,14 praeerat suos; PAC, IV, p. 487: 11,1,4 Iesus, clementer tribulantes subveni; Analecta Hymnica, XXIII, no. 133,2 onde se le sobre os santos martires: Qui in pace ecclesiae florentes more lilii praedicaverunt populum, ut replerent paradisum. Ainda mais surpreendente, do ponto de vista classico, e a construcao transitiva de verbos como crescere, perire, navigare, dos quais daremos alguns exemplos: Carmen ad regem, MGH, PAC, IV, p. 136:6 (Omnes sancti) regnum praesens vobis crescent, adquirent perpetuum; Fredegario 2,36 Felice raenante in Iudaeam, sedicio in Caesariam Palistine orta magna Iudaeorum multitudinem perit; Vita Honorati, Beiheft 32 zur Zeitschrift fur romanische Philologie, p. 1,25 Formidabat itaque mater plurimum, que virum induxerat ad errorem, ut infantulum deperiret; Vita Landiberti, 1,17, MGH, Mer., VI, p. 370,17 navigaverunt eum ad civitatem eius (Para outros exemplos, confira meu livro Syntaktische Forschungen, p. 132 e ss.).

(1) omnibus notus doctrinarum fontibus. SINTAXE--Notus seguido de um ablativo tem aqui um sentido ativo como ignotus nos exemplos seguintes: Ildefonso de Toledo, De virginitate, 1 Ignota semper coniugio, ignota amplexu, ignota tactu, ignota maritali collegio; Braulio de Saragoca, Renotatio librorum Isitori, Migne, Patr. Lat., LXXXII, col. 67 C Quod opus... quisquis crebra meditatione perlegerit, non ignotus divinarum humanarumque rerum scientia merito erit. Cf. tambem cognitus alicuius rei ao inves de peritus alicuius rei, Eulogio, Memoriale sanctorum, II,1,1 venerabilis memoriae Perfectus presbyter... plenissime ecclesiasticis disciplinis imbutus et vivaci educatione litteraria captus, nec non ex parte linguae Arabicae cognitus (Ver B. Thorsberg, op. cit., p. 117 e ss.).

(2) ignicomus. LEXICOGRAFIA--Virgilio parece ter forjado ignipotens, Ovidio ignipes e ignifer e os poetas do baixo-imperio contribuiram para esta formacao de adjetivos: ignicolor, ignicomans, ignicomus, ignifluus, ignivagus, ignivomus.

(3) precalcans. LEXICOGRAFIA--Nos textos de origem espanhola, tem-se notado, entre outras palavras, prespicere, prespicuus, prestrepere, prescrutator por perspicere, perspicuus, perstrepere, perscrutator e e este o mesmo fenomeno que encontramos aqui (Cf. B. Thorsberg, p. 65 e ss.).

(1) respuitque. SINTAXE--Os poetas medievais se servem frequentemente da particula -que para completar o numero de silabas do verso; assim ocorre aqui e no verso seguinte egenaque.

(2) rescula. LEXICOGRAFIA--O diminutivo rescula, ae f. nao e desconhecido dos autores tardios. Cf. Paulo Alvaro Epist., XIII,3 super solis sacerdotibus rescule dispertiuntur ecclesie. Mas, temos aqui, com a mudanca do genero resculum, i n. Cf. no latim dos mocarabes os neutros contumelium, infamium, copulum, excubium etc. (Ver M. C. Diaz y Diaz, El latin de la peninsula iberica, p. 172; B. Thorsberg, p. 25 e 160.).

(3) invenit. LEXICOGRAFIA--Invenit esta empregado aqui por advenit. Ja assinalamos a confusao dos prefixos que e caracteristica dos autores medievais.

(4) ferbens. FONETICA--Nada mais comum no latim tardio do que a confusao de b e v. No Appendix Probi se prescreve baculus non vaclus e, noutro lugar, vapulo non baplo. Esta confusao e atestada muito frequentemente nos textos espanhois (cf. mais adiante, na estrofe 9, negabi por negavi), onde o f intervocalico tambem e sonorizado: cf. reveratur, provano etc., ao inves de referatur, profano e, com uma ortografia hipercorreta, profeant, adprofemus etc. por provehant, adprobemus (Cf. B. Thorsberg, p. 76 e ss.).

(5) gentiliumque... pro elegante lepore prosatico opusculorum. SINTAXE--"Por causa da elegancia e da sutileza da prosa das obras pagas" e uma expressao muito facil de compreender. E necessario tirar o objeto direto subentendido do verbo reconderet, isto e hoc ou haec opuscula.

(1) corpusculum. LEXICOGRAFIA--E evidente que corpusculum perdeu completamente seu valor de diminutivo. Do mesmo modo se le num hino pascal, Analecta Hymnica, LI, no. 83: (Christus) cuius sacrum corpusculum in ara crucis torridum (evidentemente est).

FONTES--O sonho de Sao Jeronimo, que Paulo Alvaro conta na parte central do hino e tomado da famosa carta de Jeronimo a Eustaquio (Epist. 22,30, Corpus Scriptor. Eccl. Lat. 54).

(2) vulgalium. LEXICOGRAFIA--Vulgalis ao inves de vulgaris nao e um erro eventual, mas um uso bastante difundido, sobretudo na Espanha, na Idade Media.

(3) membra... reconderetur. SINTAXE--Na Idade Media, quando o sujeito e um neutro plural, o verbo vai, muitas vezes, para o singular. Cf. Gregorio de Tours, Mart., 4,45 quae nuper gestum fuit, edicam; Paulo Alvaro, Epist., IV,21 tanta est... eloquia; Carm., IX,114 secla recurrit e em nosso hino, 10: milia..., orat.

(4) miliarum legio exequitantum illi. LEXICOGRAFIA--O participio exequitantum (Exequitantum e uma conjectura infeliz de B. Thorsberg por exercitantum ou exercitatum dos manuscritos; vide sua edicao, p. 123.) se refere a miliarum, genitivo plural de milia: "uma legiao de milhares de homens, louvando a Deus. Encontra-se frequentemente sequitare e seus compostos no latim dos mocarabes.

(5) verba feriendo. LEXICOGRAFIA--De verba ferire, "falar", pode-se conferir em Isidoro, Etym., IX,1,8 omnes mediterraneae gentes in palato sermones feriunt.

(6) conquerit etc. LEXICOGRAFIA--Paulo Alvaro toma aqui a celebre passagem de Sao Jeronimo: Interrogatus condicionem, Christianum me esse respondi. Et ille qui residebat: Mentiris, ait, Ciceronianus es, non Christianus. Ele deu, portando, o sentido de "perguntar" ao verbo conquerere, sentido que encontramos tambem em suas cartas, por exemplo IV,25 ad ea de qua conquereris nihil confirmativa respondes.

SINTAXE--Se compararmos as fontes, veremos tambem que e necessario subentender o acusativo sujeito de infinitivo: Christi servum mox ut esse (evidentemente eum) comperit. E uma elipse que ja se encontra nos autores classicos. Do mesmo modo, a omissao de esse no terceiro verso da estrofe nao dificulta o entendimento da frase: non ita (evidentemente esse)... asserit.

(1) per membris. SINTAXE--Em nosso poeta, a preposicao per e seguida frequentemente de um ablativo; assim toto per mundo, longo per tempore, per seculis. Por outro lado, ele pode escrever pro nostras noxas, cum vetera (mella) etc. (Ver. MGH, PAC, III, p. 794.).

(2) corpore. MORFOLOGIA--Na Idade Media, as terminacoes -i e -e do dativo e do ablativo da terceira declinacao sao trocadas frequentemente uma pela outra.

(3) flexa genua. SINTAXE--Flexa genua e um nominativo absoluto ou um acusativo absoluto, construcoes cujo emprego e muito difundido desde o fim da Antiguidade. O nominativo absoluto se apresenta assim: Lex Visigothorum, V,14 si quid exinde libertus libertave distraxerit vel donaverit, modis omnibus invalidum erit, patronus eius scilicet aut patroni filii omnia sibi vindicaturi; Teofrido de Corbie, MGH, PAC, IV, p. 560:3 Adam plasmatus, prima aetas incipit; p. 633:14 Fortis in bello Iesus Neve filius rompheas iactans, civitates corruunt. Como exemplos do acusativo absoluto pode-se citar, entre outros, Analecta Hymnica, XII,486,3 Quem superatum (texto dos melhores manuscritos), fortiter tecum regnant feliciter; ibidem, XXVII,153,8 Episcopatum accepit, nolentes multos invidos; PAC, IV, p. 459:3 Debellatas multas gentes, venit ad Bethuliam.

(1) falsa somnifera. LEXICOGRAFIA--Estas palavras correspondem a frase Nec vero sopor ille fuerat aut vana somnia, quibus saepe deludimur de Sao Jeronimo, com o que se conclui que o poeta se serve de somnifera no lugar de somnia. Confira num outro hino mocarabe gubernans dicitur (evidentemente Sao Mateus) cuncta polifera = cunctum polum e num hino nupcial tambem composto na Espanha usurpant (evidentemente Adam et Eva) vetita ligni pomifera = vetita ligni poma (O problema foi tratado de modo detalhado por B. Thorsberg, p. 125 e ss.)

(2) destina. LEXICOGRAFIA--O sentido do substantivo destina e "coluna", "apoio". Cf. Braulio de Saragoca, Renotatio (Migne, Patr. Lat., LXXXII, col. 67 C): Quem (evidentemente Isidorum) Deus post tot defectus Hispaniae novissimis temporibus suscitans, credo ad restauranda antiquorum monumenta, ne usquequaque rusticitate veterasceremus, quasi quandam apposuit destinam.

(3) nicilo. FONETICA--Nicilum e uma grafia que se encontra frequentemente na Espanha, assim como mici, arcivum, macina etc. (Ver J. Bastardas Parera, El latin medieval hispanico, p. 268).

(1) annuens tibi quisquis (sc. est). SINTAXE--O participio presente com sum pode substituir o verbo simples no latim tardio, em que se diz frequentemente, por exemplo, sacrificans est por sacrificat. Alem disso, permite-se omitir est nesta frase, servindo-se do participio presente sozinho no lugar de uma forma pessoal. Este uso e encontrado em oracoes principais, mas tambem em subordinadas, sobretudo adjetivas e adverbiais temporais. Cf. Gregorio de Tours, Histoire des Francs, X,10 Multum se ex hoc deinceps rex paenitens, ut sic eum ira praecipitem reddidisset; VI,6 Dehinc mulier quaedam, quae, ut ipsa declamabat, tria habens daemonia, ad eum adducta est; Vit. Patr., 19,1 In quo (evidentemente viridario) ingressa dum intuens herbas loci deambulans, mulier eam... prospexit.

(2) suffagibus, donibus. MORFOLOGIA--A terminacao em -ibus, depois de muito tempo caiu em desuso, e aqui acrescida por uma especie de hiperurbanismo aos dois substantivos pertencentes a segunda declinacao.

(1) Aldelmo, De virginitate, 43, MGH, Auct, ant., XV, p. 295 e ss. e a obra poetica do mesmo titulo, ibidem, p. 429-430, vv. 1842-1868.

(1) Iustina iustitiae bernacula. ESTILISTICA--Adelmo acrescentou a explicacao iustitiae vernacula para sublinhar a etimologia do nome proprio. Na Idade Media, apreciam-se os jogos de palavras desse genero. Cf., por exemplo, Analecta Hymnica, LI, no. 208,1 Ianuari, ianua caeli, LII, 161,1 O Clara luce clarior, 91,1 agnes, agna, quae in laeta agni domo habitas. FONETICA--Aproximou-se bernacula por vernacula a linha 33 sevo por sebo (sebum,i = sebo) e, no poema, no verso 20 fribula por frivola.

(2) virago. LEXICOGRAFIA--Popular na Idade Media, o vocabulo arcaico virago, derivado de vir, e condenado na poesia da epoca imperial e seguinte, assim como numerosas curiosidades.

(3) apud Antiochiam. SINTAXE--No latim falado, o locativo esta em vias de desaparecimento desde a epoca classica, porque e substituido quase sempre pelo ablativo ou por preposicoes, principalmente apud. Isto explica tambem a causa de ser o locativo empregado de maneira nova. A partir do modelo Romae, escreve-se, por exemplo, Italiae e Africae.

(4) diligenter didicerit. ESTILISTICA--O emprego frequente da aliteracao e caracteristica do estilo dos irlandeses e dos ingleses. Adelmo une frequentemente dois vocabulos que comecam pelo mesmo fonema: magica maleficorum, vincere valuerunt, fatasmate falsi, finetenus favorabiliter, praedita permansit etc.; as vezes as figuras sao mais complicadas: ut in tanto tormento tenerrima virgo torreretur. Ja assinalamos que nesta epoca os irlandeses e os ingleses pronunciavam ce e ci como ke e ki. Temos, portanto, um sistema de aliteracoes perfeito em 20 catholicorum coetibus, 40 caerimonias cogente, ou 21 versa vice supernorum sacramenta caelitus cognosceret. Alem do mais, v e f eram pronunciados da mesma maneira. Logo, parece que, no verso 4 do poema, florida mundanae calcans commercia vitae, ha duas aliteracoes porque as palavras florida e vita estao aproximadas. Expressoes como infeliciter fungeretur (linha 2), petrae im-posuit (linha 31) ou feliciter per-veniret (linha 24) nos fazem crer que Adelmo, as vezes, decompos os vocabulos, fazendo aliterar o som inicial do vocabulo simples com o vocabulo precedente ou seguinte. Posto isto, a sequencia de aliteracoes e absolutamente regular, inclusive na linha 20 magorum molimina funditus e-verteret et medullitus a-mitteret.

(1) evanescens, liquescens, fatescens. ESTILISTICA--Adelmo aprecia nao somente as aliteracoes, mas tambem os membros paralelos com que ele ornamenta frequentemente de rimas ou de outros artificios retoricos. Aqui e facil ver que os tres participios em -escens foram escolhidos para por em destaque o paralelismo; a linha 14 ad thalami copulam et maritale consortium, as duas silabas t(h)al e co foram repetidas em cada membro, a linha 16 invictum Christi tropeum (= tropaeum) et ineluctabile bravium (= brabium), o adjetivo incomum ineluctabile e acrescido por causa do paralelismo e da aliteracao.

(2) Leviathan. MORFOLOGIA--O nome hebraico que e indeclinavel deve ser interpretado aqui como um genitivo possessivo. Leviathan designa um monstro, aqui o diabo, que, paralelamente, e chamado strofosus (stropha = "pantomima", "peca que se prega nas pantomimas", "astucia").

(3) catacizatus. FONETICA--Pode-se explicar a forma catacizatus por catechizatus de duas maneiras: ou Adelmo foi influenciado pelas palavras que comecam por cata-, ou entao se trata de um traco de emprestimo tomado dos irlandeses, onde se revelaram formas como maladico, kalandas, idiama, Alaxander, ortagrafia, manachus (cf. irlandes Alaxandir, manach "monge" etc.) (Ver B. Lofstedt, Der hibernolateinische Grammatikker Malsachanus, p. 97, que sublinha tambem a existencia do fenomeno inverso: monochus por monachus, colophizo por colaphizo etc.).

(4) seni vel bis terni gradus. FONTE--A exposicao dos seis graus do batismo e dos setimo grau do episcopado e compreendida se se considerar a fonte de Adelmo, Isi doro, De officiis, II,25,4 Fons autem origo omnium gratiarum est, cuius septem gradus sunt: tres in descensu propter tria quibus renunciamus, tres alii in ascensu propter tria quae confitemur; septimus vero, id est qui et quartus, similis filii hominis, extinguens fornacem ignis, stabilimentum pedum, in quo omnis plenitudo divinitatis habitat corporaliter.

(1) capissendam. MORFOLOGIA--Parece que Adelmo confundiu as formacoes em essere e em -issere (capessere, incipissere), confusao bastante desculpavel, se for levada em conta a existencia das formas capescere e capiscere no latim medieval (Cf. B. Lofstedt, Studien uber die Sprache der langobardischen Gesetze, p. 32 e ss.).

(2) arenosis sablonum glareis. ESTILISTICA--Sabe-se que os vocabulos arena, sablo e glarea tem o sentido de "areia", "saibro" e "cascalho". Esta redundancia, caracteristica do estilo pomposo de Adelmo, corresponde a simples expressao biblica, Mateus 7,26 (vir stultus) qui aedificavit domum suam super arenam.

(3) flammantis foci. LEXICOGRAFIA--No latim falado, focus "lareira", tomou logo cedo o sentido de "fogo", como o mostram as linguas romanicas e numerosos textos, desde a epoca imperial. Aqui, sem duvida, Adelmo escolheu focus para fazer aliterar o substantivo com o participio flammantis. No latim insular, a mudanca de sentido de focus tomou os sentidos de "lar", "lareira", "casa", ao inves de ignis. Encontramse exemplos nas Hisperica famina, A 439, em Adelmo, Aenigmata, 52,5 e, ainda, em Beda, De psalmo LXXXIII,6 turicremo purgans crimina cuncta lare (Corpus Christianorum, CXXII, p. 449. Cf. tambem ibidem, p. 415:11,3 e p. 425:9,2).

(1) carmine castam. ESTILISTICA--Na maior parte dos hexametros, Adelmo emprega aliteracoes desse tipo. As regras que ja demos, podemos acrescentar agora que pode haver ai uma aliteracao entre duas vogais quaisquer. Cf. v. 14 doctus in (h)orrenda sceleratorum arte magorum em que ha uma correspondencia entre i, o e a (in horrenda arte). Exemplos mais seguros sao encontrados em Alcuino, MGH,PAC, I, p. 303:
   Te (h)omo laudet, alme creator, Pectore mente pacis amore: Non modo
   parva pars quia mundi est.


(2) scematizans. METRICA--Nos poetas classicos, sc e sp no inicio de um vocabulo, nao tornam longa por posicao, necessariamente, a silaba precedente. Do mesmo modo, Adelmo escreve, por exemplo, fastigi'a scandit, signed stupendus. Mas, ele vai mais longe, dispensando-se da regra da posicao ate mesmo entre vocabulos: r'estaurans, g'estat, r'estat, n 'esciat, permitindo-se que a prosodia scemat'izans seja um fenomeno analogo. Por outro lado, a silaba que precede qu e longa, por vezes, em Adelmo: calc-eque, qu-oque etc. Alem disso, podem ser notadas nesse autor as extravagancias seguintes: 'egrotum, lor'ica, clandestina, quintllis, rad'ice, Chald'ea regna, fid'ei, ind-olis (Ver a edicao de Ehwald, MGH, Auct. ant., XV, p. 754 e ss.).

Mesmo um autor erudito como Beda, o Veneravel, escreve Chald'ea, Iud'ea, form Ides, persev'erat, fid'ei etc., e encontramos casos parecidos durante toda a Idade Media (Ver Corpus Christianorum, CXXII, p. 408:12,1 e 2, p. 413:9,1, p. 414:5,3 e p. 425:14,3).

(1) quos. SINTAXE--Quos se relaciona com a expressao plurima scematizans molimina como se Adelmo tivesse escrito "ele enganou varios magicos".

(2) poenituit. SINTAXE--Expressoes impessoais do tipo me paenitet, me piget tendiam, desde o inicio da literatura latina, a ser suplantadas pelas construcoes pessoais paeniteo (na Idade Media, me paeniteo), pigeo. Cf. no latim medieval Visio Baronti, MGH, Mer., V, p. 388,9 multum... te penitebis; Vita Eucherii, prologo, ibidem, VII, p. 46,39 non pigeamus; PAC, IV, p. 205:234 presens tedet tibi vita; Concilium Matisconense a. 585,11 unusquis nostrum oportet... hortari.

O latim tardio tambem nos oferece exemplos do fenomeno inverso. Assim PAC, IV, p. 594:5,5 ipse te ammonebit quod debet facere, onde debet seguiu o modelo de oportet. Do mesmo modo se chega a conclusao de que se encontra o emprego impessoal de potest, dicit e de outros verbos (Cf. E. Lofsted, Vermischte Studien, p. 130 e ss.).

(1) Este poema foi publicado por K. Strecker, MGH, PAC, IV, p. 521 e ss. que, entretanto, prefere o texto de um outro manuscrito.

(1) redempti etc. FONTES--O poeta se inspirou em I Pedro, 1,18 e seguintes redempti estis... pretioso sanguine... Christi e no prefacio da missa: sursum corda. Nas estrofes seguintes, e sobretudo a narracao de Mateus, 25,31 e seguintes que inspira o poeta, acrescentando-lhe imagens e formulas tiradas das profecias do Antigo Testamento e do Apocalipse.

(2) iudicare... venit... et... preparare. SINTAXE.--Desde a Antiguidade, o infinitivo final e o gerundivo precedido da preposicao ad sao encontrados em concorrencia. Podia-se dizer venio petere ou venio adpetendum, do bibere ou do ad bibendum, facilis facere ou facilis ad faciendum. As duas construcoes sao influenciadas mutuamente e se comecou a dizer por um lado venio ad petere e de outro venio petendum. Na lingua corrente, e o infinitivo que conseguiu a vitoria. Isto se reflete frequentemente nos textos medievais em que encontramos exemplos como Analecta Hymnica, LIII, no. 73,11 ad monumentum videre properant; Vita Landiberti, 23, MGH, Mer., p. 375,15 concurrebat mixtus vulgus utriusque sexus... ad basilica (= basilicam) in honore ipsius sancti aedificare; Itala, Joh., 6,52 (cod. Verc.) carnem dare ad manducare; Vita Audoini, 12, MGH, Mer., V, p. 562,2 perlongum est ad enarrare (Para outros exemplos, vide meus Syntaktische Forschungen, p. 206 e ss.; J. Bastardas Parera, Particularidades sintacticas, p. 167 e ss.; M. Bassols de Climent, Glossarium Mediae Latinitatis Cataloniae, I, p. 29 e ss.; E. Svenberg, Lunaria et zodiologia Latina, Goteborg, 1963, p. 30, Mittellateinisches Worterbuch, I, p. 151,30 e ss.).

(3) aperta astra caeli. SINTAXE.--A imagem surpreendente torna-se facilmente compreensivel, desde que se de conta do fato de que astra e quase sempre sinonimo de caelum nos hinos. Aperta astra e um nominativo ou um acusativo absoluto.

1 fulgorans ab arce patris... apparebit. FONTES.--Parece que o poeta tenha-se lembrado do antigo hino Apparebit repentina, onde lemos, nas estrofes 4 e 6, MGH, PAC, IV, p. 508: De caeleste iudex arce maiestate fulgidus... aderit et Flamma ignis anteibit iusti vultum iudicis.

2 rota mundi. LEXICOGRAFIA.--Esta expressao e formada a partir de orbis terrae "o circulo do mundo".

(3) concremare, plicare, intr. SINTAXE.--Um participio presente como vertens pode ter dois significados: "girando (alguma coisa)" e "girando-se", isto quer dizer que se refere seja a verto, seja ao meio vertor "eu me giro". Este duplo sentido do participio presente ainda se observa na Idade Media, em que podemos, por exemplo encontrar tribulans e vexans como participios de tribulor e de vexor; cf. Gregoire le Grand, Epist., X,20, fraternitatis vestrae doctrina tribulantibus sit solamen; Vita Richarii, 12, MGH, Mer., VII, p. 452,5 illic vidimus daemoniacos nimis vexantes. Por causa deste uso dos participios presentes, tambem se tem empregado as formas conjugadas dos verbos ativos num sentido neutro ou intransitivo. Assim, vertere ja se emprega, na epoca classica por verti ou se vertere e, mais tarde, encontramos toda uma serie de verbos desse genero: minuere, mollire, recreare, sanare, siccare, iustificare, praesentare, coniungere, levare por se minuere etc. Cf. MGH, PAC, IV, P. 536 14,2 Beatus Victor... pro cuius laude hodie coniunximus; Vita Geretrudis, A, 5, MGH, Mer., II, p. 458, 33 Cum autem adpropinquasset, levavit magna tempestas. Portanto, e possivel dar ao infinitivo plicare o sentido de se plicare. Como os versos 2 a 6 da estrofe terminem por um infinitivo ativo com um significado intransitivo ou neutro, uma interpretacao parecida de concremare e tambem preferivel ("quando o mundo comecara a queimar-se pela chama"). Efetivamente, os verbos transitivos incendere, accendere, concremare, exurere sao empregados, as vezes, como intransitivos na Idade Media e, por outro lado, ardere se tornou, as vezes, transitivo. Eis alguns exemplos: Gregorio de Tours, Hist. Franc., 8,15 ex hoc mihi miraculi lumine animus magis accendit; Vita Sulpicii, A. 2, MGH, Mer., p. 373,14 casu contigit ut domus illius concremaret; Gregorio de Tours, Vitae patr., 8,11 At ille correptus febre, sicut vino, ita divino exurebat incendio; Andrade, 3, 232, PAC, III, p. 108:

Et gladio obtruncans bis denos caelicolarum, Septem germanos arsit pro nomine Christi (Cf. Hofmann-Szantyr, p. 295 e ss., e meus SyntaktischesForschungen, p. 195 e ss.).

(1) sidera tota cadere. LEXICOGRAFIA.--O uso de toti "todos", por omnes ja pertence a epoca imperial.

MORFOLOGIA.--Cadere deve ser acentuada, aqui, na penultima silaba, isto quer dizer que o verbo passa da terceira para a segunda conjugacao: cadere e o ponto de partida de todas as formas romanicas: italiano cadere, espanhol caer, antigo frances cheoir etc.

FONTES--E ao Apocalipse, 6,13, que o poeta tomou o conteudo desta estrofe: stellae de caelo ceciderunt super terram... et caelum recessit sicut liber involutus.

(2) finem seculi venire. SINTAXE.--Parece que o acusativo finem por finis resulta de uma confusao de construcoes: o poeta comecou com sujeitos no nominativo cum rota coeperit ardere, caelum plicare, sidera cadere, mas acrescentou um acusativo no fim, como se se tratasse de proposicoes infinitivas. O poema foi escrito realmente na Franca, onde sempre se conservou uma distincao clara entre o caso reto (ou caso sujeito) e o caso obliquo (ou caso regime).

(3) dies irae. FONTE.--O poeta teve sob os olhos a profecia de Sofonias, 1,15 Dies irae dies illa, dies tribulationis et angustiae, dies calamitatis et miseriae, dies tenebrarum et caliginis, dies nebulae et turbinis, dies tubae et clangoris.

(4) tenebrarum ignis supercadet. LEXICOGRAFIA.--A expressao tenebrarum ignis, isto e, inferni ignis, deve ser aproximada de Mateus, 25,30 inutilem servum eici te in tenebras exteriores, illic erit fletus et stridor dentium. O verbo supercado foi tomado do Salmo 57,9 supercecidit ignis et non viderunt (scilicet iniqui) solem.

(1) aderit. LEXICOGRAFIA.--Aqui a raiz de um verbo simples (ou primitivo) leva o acento: aderit. Na poesia ritmica, e possivel constatar frequentemente esta forma de recomposicao. Quando lemos Tunc videbit quidproderunt num verso em que o final e sempre paroxitono, e evidente que se deve ler proderunt. Dessa maneira se revelaram, entre outras, as acentuacoes abluit, concutit, detulit, induit, protegat, resonant, retulit, sustulit, invocans, circuitus, duodecim, exitus, invicem. A vogal do verbo simples (ou primitivo) e quase sempre reconstituida: resedens, depremit etc. (Ver MGH, PAC, IV, p. 1163 e ss.).

Alem disso, o verbo composto (ou derivado) tem aqui o sentido do verbo simples (ou primitivo), como na estrofe 11,3 quid aderunt tunc dicturi. Cf. Vita Gangulfi, 2, MGH, Mer., VII, p. 158,2 Quae licet nobilissimis adforet (= foret) orta natalibus, dissimilis tamen extitit moribus; Carmina Centulensia, PAC, III, p. 322:15 sollicitus, moneo, quapropter semper adesto (= esto). E bem conhecido o fato de um prefixo (preposicao ou particula) de um verbo composto nao modificar o sentido do verbo simples. Assim como re em frances perdeu sua funcao original em remercier, ou remplir, tambem o latim tardio emprega, por exemplo, repraesentare por praesentare, recludere por claudere etc.; cf. Ven. Fort., Vita Radegundis, 37,85 reclausa post se mox ianua (Cf., por exemplo, S. Blongren, Studia Fortunatiana, Upsala, 1933, p. 154 e ss.).

(2) et si iustus etc. FONTE.--Cf. I Pedro, 4,18 Et si iustus vix salvabitur impius et peccator ubi parebunt?

(1) angeli etc. FONTE.--Sabe-se que a "hierarquia celeste" e dividida em tres grupos, descritos em latim ja por Gregorio, o Grande, In evang., II,34,10 angeli, archangeli, virtutes; potestates, principatus, dominationes; throni, cherubim, seraphim. Aqui a ordem e modificada por causa da versificacao.

(2) Seraphim. FONOLOGIA.--Segundo a gramatica de Alexandre de Ville-Dieu, os nomes proprios de origem hebraica devem ser acentuados na ultima silaba, se estiverem indeclinados:
   Omnis barbara vox non declinata latine Accentum super extremam
   servabit acutum.


Ja muito mais cedo se havia prescrito a acentuacao Adam, Joseph, Jesus, Abraham etc., e se havia praticado esta acentuacao na versificacao. Cf., por exemplo, a estrofe seguinte de um guia bem conhecido de Pierre de Corbeil:
   Hic in collibus Sichen Enutritus sub Ruben Transiit per Iordanem,
   Saliit in Bethlehem, Hez, Sir asne, hez.


Mas, frequentemente os nomes hebraicos tem sido acentuados segundo as necessidades do verso. Maria, Iacobus, Gabriel, Hierusalem nao sao menos frequentes do que Maria, Iacobus, Gabriel, Hierusalem na poesia quantitativa, e a mesma alteracao se produz nos versos ritmicos. Cf. PAC, IVm o. 509:20,1 Urbis summae Hierusalem introibunt gloriam; p. 562:14,2 Quem rex Pharao adflixit in Egypto; Gautier de Chatillon, Poemes satiriques, publicados por Strecker, p. 40:2,4 Letare Ierusalem et conventum facite; p. 84:10,2 si tot plagis Pharao durum cor indurat (Ver Ch. Thurot, Notices et extraites, p. 400, e minha Introduction a l'etude de la versification latine medievale, p. 19.). A acentuacao Seraphim em nosso poema, nada tem de extraordinario para quem conhece a pratica linguistica da Idade Media.

(1) quod oculus non vidit etc. FONTE.--O poeta transcreveu literalmente I Corintios, 2,9 sed sicut scriptum est: Quod oculus non vidit nec auris audivit, nec in cor hominis ascendit, quae praeparavit Deus iis qui diligunt illum; nobis autem revelavit Deus per Spiritum suum.

(1) O poema esta publicado nos MGH, PAC, II, p. 138 e ss. Para a critica do texto, ver tambem K. Strecker, Zum Planctus Lotharii, Neues Archiv der Gesellschaft fur altere deutsche Geschichtsforschung, XLV, 1923, p. 360 e ss.

(2) primo mane. LEXICOGRAFIA.--O adverbio mane, que foi reforcado pela preposicao de numa epoca tardia: de mane (italiano domani, frances demain), pode ser tambem um substantivo indeclinavel, como aqui.

(3) sabbati. SINTAXE.--Aqui e necessario subentender dies. Semelhantemente se le na Regra de Sao Bento, 13 sabbatorum (sc. die), e Vita Caesarii Arelat., 2,48, MGH, Mer., III, p. 500,22postsancti Genesi (sc. festum que o editor inseriu a partir de um manuscrito interpolado) e assim frequentemente na Idade Media. Cf. tambem lunis, Martis, Mercuris etc. (sc. dies) > espanhol lunes, martes, miercoles etc. Em principio, esta elipse nao difere do tipo bem conhecido ventum erat ad Vestae (sc. templum) ou in Regnorum (sc. libris); ut Cato Originum (sc. in libris) ait etc. (Ver E. Lofstedt, Syntactica, II, p. 249 e ss.).

(1) Saturni dolium. LEXICOGRAFIA.--Destaque-se prioritariamente que o poeta conhecia bastante bem a mitologia antiga: ele sabia que Marte era o deus da guerra, que Cerbero guardava a entrada do reino dos mortos e que Saturno era um deus que exercia um poder sinistro. Noutros casos, podemos constatar que tudo isto havia sido esquecido, salvo que os nomes dos dias da semana remontavam a mitologia paga. Cf. Versus de Verona, MGH, PAC, I, p. 120:5 Fana et templa constructa ad deorum nomina: Lunis, Martis et Minervis (assim mesmo, ao inves de Mercoris) Iovis atque Veneris et Saturni sive Solis, que prefulget omnibus. Mas, o que e mais interessante em nosso poema, e a antitese entre Sabbati e Saturni. Parece que nesta epoca ainda concorriam os dois nomes do sabado. Sabe-se que o ingles conservou o nome pagao, em Saturday, enquanto que o alemao e as linguas romanicas cederam a pregacao dos bispos; cf. alemao Samstag, frances samedi (de sambati dies), italiano sabato etc. Seria esperada a expressao Saturni dies, mas o poeta recorreu a imagem do caldeirao do inferno, de que fala, entre outras, Valerio do Bierzo vereantur voraginis urnam sine fine urentem (M. C. Diaz, Anecdota Wisigothica, I, Salamanca, 1958, p. 113).

(2) nulla... nec. SINTAXE.--Uma das duas negacoes e superflua, pleonasmo que estudamos mais atras.

(3) pugnavitque. SINTAXE.--Na poesia, a conjuncao -que pode ser colocada longe do fim da proposicao. Cf. tambem 5,2 tuique = tui.

(4) foret = fuisset. SINTAXE.--Temos aqui uma construcao que pode ser interpretada como um hiperurbanismo. Nas linguas romanicas, em geral, e o mais-queperfeito do subjuntivo que substitui o imperfeito, e os textos tardios apresentam inumeros exemplos desse pleonasmo. Tem sido notados, por exemplo, em Lucifer de Cagliari: timui ne inter nos bella fuissent orta e hortatus... ut dignum fructum fecissentpaenitentiae (Ver H. Ronsch, Itala und Vulgata, Malburg, 1875, p. 431).

(1) rustice. LEXICOGRAFIA.--Parece-nos que rustice quer dizer "em lingua vulgar" ou "em frances antigo". De vez em quando tem sido lembrado o celebre canon do Concilio de Tours, em 813, segundo o qual os bispos deviam traduzir seus sermoes em rustica Romana lingua ou em alemao.

(2) ros et ymber nec humectet pluvia. SINTAXE.--O verso e inspirado em Paulino de Aquileia, De Herico, 8,3 Vos super umquam imber, ros nec pluvia descendant. O emprego consideravel de nec somente diante do ultimo membro (para nec ros nec imber nec pluvia) se repete na maldicao de 12,3, onde seria esperada a construcao nec iubar nec solis nec aurore crepusculum illustret sc. eum. Estudamos varias vezes esta construcao que reaparece frequentemente na Idade Media (Cf. Beitrage zur spatlat. Syntax, p. 105, La poesie latine rytmique, p. 102). Alem disso, confira a colecao de proverbios e sentencas, publicada por Walther, 9187a Femina quod fallit vos, est novitas neque mirum (= neque novitas neque mirum); 10687 herba nec antidotum poterit depellere letum (= nec herba nec antidotum).

(3) foras rivulum. SINTAXE.--Foras e aqui uma preposicao construida com acusativo = ultra; cf. o mesmo uso de foris e foris de = extra, Apulee, Met., 1,21,4 foris urbem prospiciunt; Gregorio, o Grande, Epist., IX, 128 foris de massa... habitare. Como outros adverbios tornados preposicoes, citemos subtus e desubtus (italiano dissotto, frances dessous), por exemplo, em Quirao, Mulomed., 455 desubtus pedes e retro, deretro (italiano dietro, frances derriere). Parte das novas preposicoes desenvolveu-se tambem a partir dos participios; cf. Lex Curiensis, 4,7 presente sacerdotes vel plebem; 8,5,1 a presente bonos homines; Gregorio de Tours, Hist. Franc., 5,14 excepto filiabus; Edit de Rothari, 78 excepto operas et mercedes medici. Enfim substantivos sao passados para a classe das preposicoes. Podem ser encontradas construcoes como in gyro, de latus e latus (antigo frances lez) seguidos de um acusativo; cf. Peregr. Eger., 3,8 in giro parietes ecclesiae; Gromatici, p. 324,3 de latus montem; ibid., p. 313,6 latus se. O substantivo litus tomava o mesmo valor, como mostra o Geografo de Ravena, IV,6 hae civitates litus maris Pontici sunt e IV,8 litus mare. Cf. o uso de ripa, Epist. Desiderii, II, 12,9 post ripa Reno pergit = postea secundum Rhenum pergit (Ver E. Lofstedt, Late Latin, p. 124 e ss., J. Svennung, Untersuchungen zu Palladius und zur lateinischen Fach- und Volkssprache, Lund, 1935, p. 332 e ss.).

(1) maledictus dies ille. FONTE.--Cf. Jo, 3,4 e ss. Dies ille... non illustretur lumine... Noctem illam tenebrosus turbo possideat; non computetur in diebus anni... Sit nox illa solitaria nec laude digna.

(1) Talvez esta forma de representacao dos pes longos e breves seja mais facil, apesar de nao ser a tradicional.

(1) Christianorum 3,2 deve ser lido com sinerese.

(2) Analecta Hymnica, L,3.

(3) Talvez esta maneira de representar os pes longos e breves seja mais facil de transcrever e de se decodificar.

(1) Esse poema esta publicado nos MGH, PAC, IV, p. 507 e ss. O mesmo autor compos, sem duvidas, o poema Alma fulget in caelesti, p. 512 e ss. Tem-se admitido a hipotese de que a regularidade desses hinos mostra que eles pertencem a epoca de Beda, anterior a de Hilario (J. Szoverffy, Die Annalen der lateinischen Hymnendichtung, I, Berlim, 1964, p. 176 e ss.). Mas isto e um engano absoluto sobre a situacao linguistica. Ninguem era capaz de compor uma poesia tao elegante a epoca merovingia.

(2) Para os problemas do setenario trocaico, cf. minha Introduction a Fetude de la versification latine medievale, p. 73 e ss.

(1) Para uma edicao critica dessas tres sequencias, ver Analecta hymnica, VII, 230, LIV, 2 e W. von den Steinen, Notker der Dichter und seine geistige Welt, Editionsband, Berna, 1948, p. 86.

(1) arida. LEXICOGRAFIA.--E da Biblia que se tomou arida por terra no sentido de "terra" (Ver E. Lofstedt, Vermischte Studien, p. 107 e ss.).

(2) lucida in stilla. LEXICOGRAFIA.--O poeta, que escreve num tom simples e que conhece muito pouco o latim literario, escolheu suas palavras, frequentemente, de uma maneira fora do comum, mas nao devemos avalia-lo a partir da poesia classica.

(3) alatizo. LEXICOGRAFIA.--Alatizo, "bater as asas", assim como v. 8 ovatizo, "soltar gritos de alegria" sao neologismos medievais, derivados de alatus, "alado", e de ovatus, "grito de triunfo".

(4) sufflagitate, effugitantes. LEXICOGRAFIA.--O verbo sufflagitare que nao esta registrado nos lexicos, parece significar "pedir socorro". Effugitare e tambem, talvez, uma inovacao do poeta anonimo, que o aproximou, nao defugio "fugir", mas de fugo, "afugentar", "enxotar".

(5) adminicula. LEXICOGRAFIA.--A forma adminicula, -ae, ao inves de adminiculum,-i, e devida, evidentemente, a tendencia a empregar formas em -a. Nas sequencias de origem francesa, os poetas mais atrevidos se permitem as trocas de ge nero. Empregam, assim, agmina, carmina, claustra, sollemnia e muitos outros plurais neutros como femininos; cf. Analecta Hymnica, VII, no. 220,1 En virginum agminapraecellit in gloria; 209,3 Vox aeterna et insignis est carmina; 133,11 Carceris claustra clausus horrida; 209,4 in hac sacra sollemnia. Menos escandaloso e o emprego feminino de neutros gregos em -a, como por exemplo 80,8 repleti omnes divina pneuma; 245,10 plasma redempta redit ad supera (Cf. L. Elfving, Etude lexicographique sur les sequences limousines, p. 26 e ss.).

(1) fortia. LEXICOGRAFIA.--Ainda e a necessidade de encontrar rimas em -a que levou o poeta a escolher fortia ao inves de fortitudo. Aqui, fortia ainda e um neutro plural; sabe-se, porem, que na lingua falada, esse substantivo, tornado feminino, deu origem as formas romanicas: italiano forza, italiano fuerza, frances force etc. Eis um exemplo latino deste emprego, tomada de um canto de Modene, MGN, PAC, III, p. 704,27 Te vigilante nulla nocetfortia.

(2) penetrabatur. MORFOLOGIA.--A forma depoente e devida, possivelmente, a analogia com proficiscor ou com vehor.

(1) Rachel. FONTE.--Notker encontrou o tema de seu poema em Mateus, 2,18 Rachel plorans filios suos et noluit consolari (= Jeremias, 31,15). Era costume celebrar como a festa de um martir a data de sua morte, isto e, o aniversario de seu nascimento para a vida celeste, e os hinos em honra dos martires descrevem, em geral, o triunfo do santo e a vitoria da Igreja. E uma originalidade de Notker ter partido do motivo contrario. Raquel, que chora seu filho martirizado simboliza a Igreja e e por isso que ela e chamada ao mesmo tempo de virgo e de mater.

(2) lippitudo. FONTE.--Cf. Genesis, 29,17 Lia lippis erat oculis, Rachel decora (= formosa) facie. Muitas vezes, na Idade Media, Lia simboliza a sinagoga.

(3) quam te decent. SINTAXE.--Quam tem um sentido negativo neste ponto: quam male te decent.

(1) angelus consilii. LEXICOGRAFIA.--Jesus Cristo e aqui chamado o enviado do designio de Deus; cf. a expressao "o enviado da vontade de Deus", angelus voluntatis suae, que se encontra ja nos Padres.

(1) Sibyllinis versibus. SINTAXE.--A construcao e: credat haec vel a gentilibus vatibus in versibus Sibyllinis praedicta esse. A Idade Media conhecia os versos da Sibila, sobretudo porque o diz Santo Agostinho, De civitate Dei, XVIII, 23.

(1) Ver. F. Wellner, Adam von Sankt Viktor, Samtliche Sequenzen, Munique, 2a ed., 1955, p. 76, 126, 294, 234.

(1) O texto se encontra em Migne, Patr. Lat., CLXIV, col. 1266 A. Cf. M. Lokrantz, L'opera poetica di S. Pier Damiani, Estocolmo, 1964, p. 214.

(1) Esses epigramas foram publicados recentemente por K. Langosch, Hymnen und Vagantenlieder. Bale, 1954, p. 184.

(2) sine pluma. LEXICOGRAFIA.--Para exprimir que o manto era usado e esfarrapado, o poeta se serve de imagens diversas e se compara a uma ave sem penas, sine pluma, a um animal sem pelos, absque pilo, ou sem pele, sine pelle, a um carneiro sem la, vellus. Todas essas imagens sao interpretadas ironicamente, como os vocabulos abstulit ostrum v. 4 "o doador retirou a purpura".

(1) Ver E. Lofstedt, Syntactia, I, p. 255 e ss.

(1) Ver Carmina Burana, ed. A. Hilka e O. Schumann, II, Heidelberg, 1941, no. 108.

(1) O texto se encontra nos MGH, Script., p. 670Bensonis Albensis Ad Heinricum IV, liber VII,2.

(2) Folleprandelli. LEXICOGRAFIA.--Benzon tenta designar seus adversarios por meio de nomes injuriosos. Assim, ele chama Hildebrando-Gregorio VII novus Antichristelus ou Prandellus ou, como aqui, Folleprandellus (italiano folle = louco), chama Rodolfo por Merdulfus e insulta os normandos, escrevendo Normanni qui melius dicuntur Nullimanni (Ver P. Lehmann, Die Parodie im Mittelalter, 2a ed., Munique, 1963, p. 65).

(1) multiphariam. LEXICOGRAFIA.--Multifariam parece ter, aqui, o sentido de "de diversas maneiras" e ser um sinonimo de multis modis.

ESTILISTICA.--A multifariam Benzon acrescentou multisque modis para obter uma assonancia dissilabica e uma rima monossilabica com religionis. As outras assonancias ou rimas imperfeitas que se encontram em nosso texto sao orbis: imperatoris: electionis (linha 28) e patricium: comissum (linha 28). Ao contrario, extra (linha 20), pronunciado estra, forma uma rima completa com horchestra, assim como Otto: toto (linha 38). Em geral, Benzon agrupa as rimas duas a duas e, algumas vezes, reata pela rima tres ou ate mais membros de frase (cf. linhas 9 e ss., 20 e ss. e 39 e ss.).

Benzon ainda nao tinha aprendido as regras do cursus ritmico que, no seculo XI, so eram praticadas por Sao Pedro Damiao e alguns beneditinos eruditos.

(2) apocrissarium. LEXICOGRAFIA.--A forma correta desse vocabulo hibrido, cuja raiz e grega e a terminacao -arius latina, e apocrisiarius, que ja se encontra nos textos do seculo VI para designar o embaixador do papa.

(3) criptis. LEXICOGRAFIA.--E dificil de precisar aqui o sentido do vocabulo cripta. Sabe-se que o vocabulo grego crypta > crupta esta na origem do italiano grotta e se questiona se Benzon esta pensando ou nao em catacumbas.

(4) Sollempniter. FONETICA.--A grafia sollempniter, que e usual na Idade Media, deve ter causado uma pronuncia escolar do p, mas notamos aqui alguns casos em que as rimas mostram que a letra p tinha uma funcao puramente ortografica.

(1) horchestra. LEXICOGRAFIA.--Orchestra e aqui preferida a tribunal por causa da rima.

(2) sacrae constitutionis. LEXICOGRAFIA.--O adjetivo sacer foi aplicado durante o baixo-imperio em tudo que dizia respeito a pessoa do imperador e a sua conversao ao cristianismo nao mudou esse uso.

(3) magnalia. LEXICOGRAFIA.--Magnalia "grandes coisas", "maravilhas", "altos feitos" foi introduzida no latim na epoca crista.

(1) Cronica fratris Salimbene de Adam, ed. Holder-Egger, MGH, Script., XXXII, p. 181 e ss.

(1) curialis. LEXICOGRAFIA.--Curia podia designar, na Idade Media, a corte pontifical ou a corte de um rei e, por conseguinte, curialis se emprega por tudo que diz respeito a corte, inclusive com o sentido de "cortes".

(2) sollemnis. LEXICOGRAFIA.--Salimbeno se serve do vocabulo sollemnis com o sentido de "eminente" aqui e na linha 8, onde ele chama Henrique de sollemnis cantor.

(3) miniare. Os dois verbos miniare e illuminare sao termos tecnicos para designar ilustrar manuscritos com desenhos. Nos mosteiros italianos, uma decoracao desse genero era chamada miniatura, vocabulo que conheceu um grande sucesso nas linguas europeias.

(4) cantus... tam modulatos id est fractos quam firmos. LEXICOGRAFIA.--Cantus firmus, italiano canto fermo, era o cantochao liturgico, cantus modulatus ou fractus, italiano canto fratto, o canto figurado, cujas medidas tinham um valor determinado.

(5) quillam. LEXICOGRAFIA.--Quilla e uma latinizacao do vocabulo quilio, "falsete", que se emprega, por exemplo, na expressao cantare in quilio. O texto de Salimbeno e cheio de vocabulos provenientes do italiano (ou do frances). Entre estes, encontram-se apodiare se, italiano appogiarsi, frances s'appuyer; passagium, potagium, italiano passagio, potaggio; ribaldus, italiano ribaldo, para nao falar de ravioli, p. 547,21 Comedi primo raviolos sine crusta de pasta.

(1) custodia. LEXICOGRAFIA.--Na ordem dos frades menores, as provincias eram divididas em custodiae, cada uma dirigida por um custodio. Salimbeno pertencia a custodia de Siene (Egito), como ele disse, na epoca do Papa Gregorio IX, morto em 1241.

(2) matrix ecclesia. LEXICOGRAFIA.--A catedral e frequentemente chamada matrix ecclesia ou, como se diz mais abaixo, maior ecclesia. Parece que Salimbeno tenha confundido aqui as seguintes proposicoes: ecclesia habet vocabulum beatae virginis e beata virgo ecclesiae nomen dedit.

(3) ibat cantando. SINTAXE.--No latim tardio, o ablativo do gerundivo pode servir de complemento de verbos como stare e ire. Cf. Venancio Fortunato, Carmina, V, 14,5 stat spargendo medelas; Leo, Alex., Alexander nihil aliud optatfacere nisi ire preliando et subiugando sibi gentes. Estas sao perifrases que se propagam nas linguas romanicas (Ver P. Aalto, Untersuchungen uber das lateinische Gerundium und Gerundivum. Helsinque, 1949, p. 75 e ss.).

(1) melior cantor de mundo. SINTAXE.--E facil reconhecer a sintaxe das linguas romanicas nesta expressao que o autor tomou da lingua falada (Os cantos de Filipe, o Chanceler, mencionados por Salimbeno, foram publicados em Analecta Hymnica, XX,89, XXI,12,14 e 168, L,363; a sequencia atribuida a Ricardo de Sao Vitor se encontra no tomo LIV,220.).

(1) Cidade do Alto Egito, famosa por seu granito vermelho.
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Title Annotation:p. S82-S116
Author:da Silva, Jose Pereira
Publication:Soletras
Date:Jul 1, 2006
Words:22370
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