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Manual pratico de latim medieval (II--textos escolhidos).

[TRADUCAO]

Feito isto, os habitantes de Benevento se comprazem tambem em acusar seu eminente irmao Siquenolfo, dizendo que ele queria apoderar-se, a qualquer preco, de seu principado. Quando o principe Sicardo entendeu este boato, imediatamente acreditou nele e tentou por todos os meios impedir que seu irmao chegasse a esta dignidade. Nao temos necessidade de contar os detalhes. Sicardo mandou prender Siquenolfo e o obrigou a se tornar padre. Outros pretendem que ele o elevou a forca a dignidade de diacono e o fez pregar o Evangelho na igreja; enfim, que ele o enviou acorrentado a Tarento, onde mandou joga-lo num horrivel calabouco que tinha sido construido para receber a agua de chuva, o que chamamos cisterna.

Depois o principe retornou com bom numero de seus fieis a seu dominio de Lavelo para se divertir e ir a caca. Eles permaneceram la embaixo; ele tinha feito vir sua mulher e ia muito amiude fazer exercicios com seus servicais. Ora, chegou um dia que a princesa, sentada em sua tenda, lavava os pes numa pequena bacia de prata. A sorte quis que um homem muito nobre passasse diante da tenda com seu servidor e que, voltando a cabeca, visse a princesa. Quando ela percebeu que ele havia visto seus pes nus, disse a seu marido: "Eu morrerei se nao me vingar disso imediatamente." O principe lhe disse: "Faca o que quer." Obtida esta permissao, ela enviou imediata e secretamente seus servidores a Benevento para trazerem em situacao vergonhosa a mulher do homem de que falamos. Feito isto, os servidores lhe arrancaram as vestes ate a barriga da perna e a conduziram ao lugar em que as tendas eram levantadas. Quando a princesa a viu, ordenou logo que a obrigassem a circular pelo campo. Quando ela foi levada la onde seu marido estava ocupado em jogar dados com seus colegas, seu irmao lhe disse logo isto: "Meu irmao, veja a desonra de tua mulher!". Mas ele nao respondeu nada, porque estava completamente absorvido pelo jogo de dados e nao a viu. Um outro dia, o principe saiu como de costume com seus cortesaos, levando consigo uns falcoes e atravessou varios pantanos para cacar passarinhos. Dizse que ele soltou seu falcao e surpreendeu um passaro de longas patas; depois do que, retornou-se ao campo. Quando o principe entrou em sua tenda, o homem cuja mulher tinha sido humilhada corria de um lado para outro para encontrar alguem que o ajudasse a vingar seu ultraje. Muitos estavam juntos a ele e debatiam o assunto entre si, quando eis que Naningo passou. Quando o viram, chamaram-no e lhe contaram tudo. Este ficou muito contente por entender isso e disse: "Se nao realizarmos o plano imediatamente, vou conta-lo a Sua Majestade." Logo eles seguiram para sua tenda, desembainharam da espada e o trespassaram de todos os lados. Alguns dizem que o principe gritou, quando viu Naningo entre os homens que entraram em sua tenda: "Tenha misericordia de mim, Naningo!" Mas este respondeu: "Que Deus nao me perdoe jamais meus pecados se eu te fizer alguma concessao!" Dito isto, tirou sua espada e lhe desferiu um golpe profundo e mortal. Eles conduziram sua mulher Adelquisa, de que falamos, coberta de vergonha, a seus pais em Benevento. E com razao. Ela e seu marido tinham, por sua violencia, cometido muitas injusticas contra os outros. Era inevitavel que cedo ou tarde eles proprios caissem numa infelicidade ainda maior.

4. Um hino composto por Paulo Alvaro de Cordova

Na metade do seculo IX, os cristaos da Espanha foram perseguidos por seus senhores muculmanos. A resistencia espiritual foi organizada pelo arcebispo de Cordova, Santo Eulogio, morto em 859, assim como por seu amigo Paulo Alvaro. Possuimos diversas obras escritas pelos dois amigos. Elas nos mostram que os espanhois viviam ainda da heranca de Isidoro e conservavam sua propria tradicao, embora a decadencia do ensino escolar fosse manifesta. Escolhemos aqui um hino em honra de Sao Jeronimo para ilustrar a latinidade espanhola dessa epoca. O hino foi atribuido recentemente, por razoes convincentes, a Paulo Alvaro. (1)

1. Christus est Virtus Patris, Sapientia (2), Cunctos qui replet spiritali gratia, Ut possint probe digerere normulam Et proximorum ilustrare opaca, Ut digne queant fruere celestia (3).

2. Ipsius dono perflatus egregius Olim hic vates nomine Iheronimus Omnibus notus doctrinarum fontibus (1), Cunctos inrigans ex almis dogmatibus Ut sol resplendet in ortu ignicomus (2).

3. Hic procul cuncta seculi negotia Precalcans (3) pede velut spurcissima Dedecorosa respuitque (1) rescula (2), Alens inopum egenaque viscera Sibi eterna adquirens stipendia.

4. Hic quoque vitam appetit monasticam Et sese valde strinxit ad regulam. Parentes, domos omittens et patriam Bethlem invenit (3) rura beatissima, In qua peregit consummata opera.

5. Dum esset ferbens (4) calensque ingenio Gentiliumque summo cum studio Pro elegante lepore prosatico Opusculorum (5) reconderet animo, Tali meretur corrigi oraculo:

6. Nam, ecce, morbus invadit corpusculum (1), Iamque reclinis dolore in ferculo Ex more quippe funerum vulgalium (2) Obsequiorum, tantum ut spiritum Redderet polo et membra in tumulo

7. Reconderetur (3) repente, set concito Alta penetrans ducitur in spiritu; Sistitur nempe Principi ethereo, Cui adstabant miliarum legio Exequitantum illi (4) absque numero.

8. Mox Tonans verba feriendo (5) conquerit (6), Christique servum mox ut esse comperit, Non ita, verbis ut testatur, asserit. Cordis tesaurum iudicando aperit Tullianumque veraciter protulit.

9. Verbera iubet per membris (1) inducere, Corpore (2) densa flagella ingerere. Propere lingua ululando gemere Cepit, testare: Si umquam hunc legere Ausus fuero, te negabi, Domine.

10. Tunc Angelorum Adstantium milia Supplici prece flexa orat genua (3), Ut tribuatur postulanti venia. Sicque reversus dissicata corpora Cunctis ostendit, ut gesta veracia

11. Hoc probaretur, non falsa somnifera (1), De quibus sepe inludimur, inproba. Sicque correctus a divina gloria Ambit precelsa, celestia, deifica, Nec sibi affectat ultra mundialia.

12. Tanto doctrine fulget exhinc lumine, Tanto corusco iubar pollet floride, Instructu ut suo rutilet splendide Plebs Christi que est redemta a sanguine. Ipsius dono refice nos, Agie.

13. Tu noster splendor, tu nobisque destina (2), Per te clarescit ubique Eclesia; Tu preliator in fide catholica, Aries ingens, fortis es in dogmata Hereticorum dextruens maceriam.

14. Te invidorum insequitur actio, Te criminatur stultorum factio, Tibique cedit falsa commentatio, Minime valens lubrica intentio, Fribola quia revertit in nicilo (3).

15. Tibi resistens probatur hereticus Moxque reiectus deputatur inscius. Annuens tibi quisquis (1), hic catholicus Noscitur fore confestim, in hactibus Idoneus, probus doctrinisque profluus.

16. Tutareplebem hanc sanctis suffragibus, Corda perlustra ex celicis donibus (2), Ut solidata in pacis dogmatibus Floreant verbo, fecundi in fructibus Adsinstant cuncti in supernis sedibus.

17. Presta, tu Pater, Deus clementissime, Unus cum Prole simul cum Spiritu Sancto qui cuncta gubernas imperio Iugiter, Semper per evi spatio Per infinito seculorum numero.

[TRADUCAO]

1. Cristo e o poder do Pai, a sabedoria que enche todos os homens de sua graca espiritual, para que possam expor bem a lei e ilustrar os espiritos obscuros dos proximos, permitindo-lhes assim merecer o ceu.

2. Inspirado pelo dom de Cristo, nosso celebre pai Jeronimo, conhecendo todas as fontes da doutrina e levando a todos a onda vivificante dos dogmas, brilhou como o sol nascente, como a labareda de fogo.

3. Jeronimo enviou para longe de si todos os cargos desse mundo, comprimindo-os a seus pes, como coisas impuras e vergonhosas, para nutrir os corpos necessitados dos pobres e merecer assim uma recompensa eterna.

4. Jeronimo entregou-se a vida monastica e se submeteu totalmente a regra. Deixou seus pais, sua casa e seu pais e veio a Belem, bem-aventurada entre todas as terras, onde acabou suas obras.

5. Como ele era de espirito fogoso e vivo e estudava com o maior interesse as obras pagas por causa da elegancia de sua prosa, foi punido por esta revelacao:

6. Eis que a doenca invade seu corpo e, ja prostrado sobre um leito de dor, como para simples funerais, ia entregar a alma a Deus e os membros ao tumulo,

7. quando, subitamente, e conduzido espiritualmente ao mais alto dos ceus. Ele se ve colocado na presenca do Principe Etereo, perante quem se encontravam legioes inumeraveis, louvando a Deus.

8. Tomando logo a palavra o Todo Poderoso, abriu-se logo o interrogatorio e, quando compreendeu que o acusado se dizia cristao, afirmou que esse protesto nao tinha fundamento. Ele o julgou e revelou o tesouro de seu coracao, e o declarou inteiramente retorico.

9. Ele espancou seus membros e supliciou-se com chicote. Jeronimo soltou gritos de dor e protestou: "Se jamais tento ler esse autor, eu o reneguei, Senhor!"

10. Entao, as legioes de anjos que estavam presentes se prostraram, implorando a graca pelo suplicante. Assim ele pode voltar e mostrar a todos seu corpo dilacerado,

11. Para que fosse demonstrado que se tratava de coisas reais e nao desses falsos e ilusorios sonhos que frequentemente nos enganam. Aperfeicoado pela majestade divina, ele se consagrou aos mais elevados, celestes e divinos estudos e nao procurou mais imitar os livros profanos.

12. Doravante e tao grande a luz de sua doutrina, tao vasta e brilhante sua erudicao, que, gracas a seu ensinamento, um magnifico clarao ilumina o povo resgatado pelo sangue de Cristo. Senhor, reconfortai-nos por seu dom.

13. Tu es nosso esplendor, tu es nosso sustentaculo, gracas a ti a Igreja brilha por toda a parte, tu es o campeao da fe catolica, imenso cordeiro, por teus profundos conhecimentos dogmaticos, tu derrubas a muralha dos hereges.

14. Es tu que persegues a acao dos invejosos, tu que incriminas o partido dos loucos, tu que fazes ceder a exegese mentirosa, tentativa perfida, sem qualquer poder, porque vazia de sentido cai em seu nada. 15. O que te resiste e convencido de heresia, e, cedo refutada, passa por ignorante. Quem adota o teu conselho e reconhecido pouco depois como catolico, ativo, integro e erudito.

16. Defende nosso povo por teu santo auxilio, ilumina nossos coracoes com os dons celestes para que eles se alegrem nos dogmas da paz e que todos os homens tenham lugar nas celestiais moradas, fortalecidos por tuas palavras, gracas ao fruto de suas boas obras.

17. Atende-nos, Pai, Deus clementissimo, que, com o Filho e o Espirito Santo, regulas sempre todas as coisas por tuas ordens perpetuas, pela eternidade, por infinito numero de seculos.

VERSIFICACAO.--Este hino esta escrito em versos ritmicos que imitam a estrutura dos trimetros jambicos. O autor deve ter lido poemas como este de Braulio de Saracusa em honra de Sao Milao, que comeca por O magne rerum, Christe, rector inclite (Analecta Hymnica, XXVII, 87). E um hino escrito em trimetros jambicos segundo as regras classicas, segundo o esquema: [B.bar] L B L [B.bar] / B L [B.bar] L B L. Mas esses versos tem sido recitados com os acentos ordinarios dos vocabulos:
   O magne rerum, / Christe, rector inclite, Parent olympi /perpetim
   cui sidera, Tu vota festis / annuis faventia Largire nobis, / casta
   praebe et sobria, Placare possint / quae tuam clementiam.


Se esses versos sao recitados com acentos de intensidade e segundo as regras da prosa, nao se entende o esquema metrico, mas o ritmo seguinte:___'_ /____'__, isto e, um verso que se compoe de dois hemistiquios, dos quais o primeiro tem cinco silabas com uma cadencia final sempre paroxitona e o segundo sete silabas com um fim sempre proparoxitono. Designamos esse verso por 5p + 7pp. E um verso ritmico do tipo que Paulo Alvaro tentou escrever e que, no conjunto, foi bastante eficiente. Deste modo, respeita cuidadosamente o numero de silabas. Os hemistiquios 3,2 velut spurcissima, 4,2 strinxit ad regulam, 5,2 summo cum studio, 6,4 tantum ut spiritum, 12,3 rutilet splendide e 14,2 stultorum factio que parecem conter seis silabas, compoem-se, de fato, de sete, porque e necessario, na recitacao, acrescentar uma vogal protetica diante de sp e st: velut espurcissima etc. O pronome cui (7,4) deve ser lido com dierese, enquanto que deifica (11,4) e idoneus(15,5) sao trissilabicos. Duas vezes (11,5 e 12,3) o poeta admitiu uma elisao. No que diz respeito a acentuacao, o autor leu, provavelmente, com recomposicao, inrigans (2,4) e inopum (3,4), enquanto que fuero (9,5) e comparavel com o espanhol fuera (< latim fueram). Duas vezes parece ter fracassado: 1,4 inlustrare opaca e 8,1 feriendo conquerit, mas nao pode ser excluida a possibilidade de que ele tenha desprezado a prosodia desses vocabulos e tenha acentuado opaca e conquerit. De fato, em seus hexametros sao encontrados exemplos de uma prosodia extremamente incomum, como adequans, venerat, locorum, igneus ([and] = breve e' = longa). Notamos, enfim, que em cada estrofe, todos os versos sao rimados: -a e -am rimam frequentemente, assim como -o, -u e -um. Somente no verso 17,1 e que o poeta faz uma excecao a esta regra.

5. Aldelmo

Escolhemos Aldelmo (morto em 709) como representante da latinidade insular, beneficiado pelo ensino dos mestres irlandeses, assim como pelo dos emissarios do Papa Teodoro e Adriano. Em materia de gramatica, seu latim e correto, nao oferecendo oportunidades para muitas observacoes. Mas seu estilo e seu vocabulario sao muito particulares e revelam sua origem insular. Aldelmo compos, entre outras, uma obra chamada De virginitate que escreveu, segundo o modelo de Sedulio, primeiramente em prosa e depois em versos. A versao em prosa e, frequentemente, muito mais pomposa que os hexametros, como mostram os dois fragmentos seguintes, que tratam da vida de Santa Justina. (1)

Denique Iustina, iustitiae bernacula (1), ab orthodoxis non contemnenda virago (2), cum Dioclitianus imperii sceptris infeliciter fungeretur, quanta vel qualia apud Antiochiam (3) pro virginitate servanda pertulerit, quis mediocri fretus ingenio expedire se posse gloriatur, ni cuncta signorum et prodigiorum gesta, quae litterarum apicibus inserta leguntur, diligenter didicerit (4)? Quam neque procus ab integritatis arce detrudere nec magica maleficorum ne cromantia ullatenus vincere valuerunt, sed omnis praestigiarum scena, quam callido fantasmate falsi nebulones scematizarunt, ut famus evanescens disparuit, ut cera liquescens emarcuit, ut umbra fatescens (1) dicto citius dissolvebatur. Hanc, inquam, cum Cyprianus, qui per idem tempus aruspicum celeberrimus et post Soroastren et Simonem magorum praestantissimus fuisse memoratur, adhibitis Leviathan (2) argumentis strofosique deceptionum muscipulis ad thalami copulam et maritale consortium flectere nequiret, ilico per castissimam Iustinae virginitatem, qua omnes contrariarum virium machinas exterminans eliminaverat, invictum Christi tropeum et ineluctabile bravium licet paganus prudenter intellexit ita prorsus, ut actutum ecclesiastico exorcismo catacizatus (3) et parturientis gratiae vulva in baptisterio regeneratus, ubi seni vel bis terni gradus (4) collocantur, catholicorum coetibus adscisceretur, quate nus, qui magorum molimina funditus everteret et medullitus amitteret, versa vice supernorum sacramenta caelitus cognosceret et efficeretur impavidus praedicator, qui fuit pervicax fidei refragator, sicque per septenos ecclesiae gradus paulatim proficiens ad summum pontificatus apicem feliciter perveniret.

Iustina vero non solum integritatis gloria fine tenus favorabiliter praedita permansit, verum etiam ad capissendam (1) passionis palmam adamante durior diversis tormentorum cruciatibus macerata non cessit, quia invictae mentis fundamina nequaquam arenosis (2) sablonum glareis ultro citroque nutabundis subdiderat, sed editam aulae structuram, ut ille sapiens, quem evangelicum describit oraculum, robustissimae petrae imposuit. Quae dum crudis nervorum flagris truciter caederetur et crebris palmarum contusionibus exalaparetur, tandem in sartaginem ferream sevo et pice crepitantem, ut in tanto tormento tenerrima virgo torreretur, scandere iussa est. Sed Christus clementia sua solita, qua mediocribus consulens et contritis corde ultro misereri scit, flammantis foci (3) potestatem compressit et ad inclitam nominis sui gloriam virgineos artus ab ingruenti sartaginis exitio potenter protexit. Postremo Claudio Caesare ultroneos Dei martires ergastuli squaloribus cruciante et edictis crudelibus ad delubrorum caeremonias cogente sententiam decollationis accipiens una cum Cypriano non iam necromantia freto, sed pontificatu praedito sacrosancto cruoris ostro purpurescit.

[TRADUCAO]

Enfim, foi sob o reino fatal do imperador Diocleciano que viveu Justina, a servidora da justica, uma virgem que os ortodoxos nao devem negligenciar. Que homem comum poderia gabar-se de explicar tudo que ela suportou em Antioquia para guardar sua virgindade, a menos que tenha tomado por base tudo que se pode ler na literatura sobre sua vida plena de milagres e de prodigios? Seu noivo nao pode fazer cair a cidadela de sua castidade, nem a necromancia dos malfeitores vence-la, mas toda a encenacao fantasmagorica que os charlataes mentirosos tinham montado com uma astuciosa imaginacao desapareceu como a fumaca que se desvanece, afastou-se como o cirio que derrete, dissipou-se, em menos tempo que o necessario para dize-lo, como a sombra que se desfaz. Cipriano (segundo a tradicao), o mais celebre feiticeiro desta epoca e o mais habil magico depois de Zoroastro e Simao, nao sendo bem sucedido em conduzi-la aos lacos do matrimonio e a uniao conjugal, apesar dos argumentos de Leviata e as sedutoras bruxarias do Maligno, a castidade virginal de Justina, gracas a qual ela havia afastado e destruido todas as maquinacoes diabolicas fe-lo compreender, enfim, embora fosse pagao, que o trofeu de Cristo era indestrutivel e que sua vitoria era fatal. Assim, imediatamente libertado pelo exorcismo da Igreja, e introduzido numa nova vida pelo canal da graca fecunda, no batisterio aos seis, ou duas vezes tres graus, foi admitido na assembleia dos catolicos, de modo que, invertendo inteiramente as maquinacoes diabolicas e enxotandoas do mais profundo de si mesmo, aprendeu em contrapartida as verdades religiosas sob a inspiracao celeste; ele que havia recusado obstinadamente a fe, torna-se um pregador audacioso e escalando pouco a pouco os sete graus da Igreja, teve a gloria de chegar a dignidade suprema do episcopado.

Quanto a Justina, nao somente conseguiu perseverar ate o fim em sua gloriosa virgindade, mas ainda obteve a palma do martirio: mais dura que o aco, ela nao cedeu as mil torturas que lhe impuseram, porque nao tinha colocado os fundamentos de sua alma invencivel num terreno arenoso e instavel em todos os sentidos, mas tal qual o sabio de que fala o Evangelho, ela construiu sobre a rocha a mais solida arquitetura de sua casa. Depois de ter sido cruelmente fustigada por rudes golpes de chicote e esbofeteada numerosas vezes, recebeu a ordem para descer numa caldeira de ferro, toda crepitante de sebo e pez, para que, a tenra menina fosse torturada por um tormento tao grande. Mas o Cristo que em sua clemencia habitual tem piedade dos humildes e dos aflitos sufocou as chamas e preservou por seu poder, para gloria de seu nome, o corpo virginal da morte que a esperava na caldeira. Enfim, quando o imperador Claudio torturava os martires voluntarios de Deus em sua horrivel prisao e os forcava por editos crueis a participar das cerimonias dos templos pa gaos, ela foi condenada a ser decapitada, quando Cipriano ja nao era feiticeiro, mas bispo, sendo pintada de vermelho pela santa purpura de seu sangue.
   Sic quoque Iustinam modulabor carmine castam (1) Aurea virgineo
   lucrantem regan pudore, Quae terrena tori disrupit vincla iugalis
   Florida mundanae calcans commercia vitae. Huic procus illustris
   pravo succensus amore Nectere non cessat verborum retia frustra, Ut
   sibi forte foret dotalis virgo per aevum, De qua posteritas esset
   ventura nepotum. Sed cum tale nefas gestiret mente malignus

   Nec tamen insontem posset pervertere fallax Virginis aut fibras
   caecis incendere flammis, Nititur egregiam magicis maculare
   venenis. Tunc famosus erat Cyprianus fraude nugaci Doctus in
   horrenda sceleratorum arte magorum, Qui tunc auxilium spondebat
   ferre potenti Plurima scematizans (2) sacrae molimina menti In
   tantum, ut diris certaret demonis armis. Quos (1) magus assidue
   strofosus misit ad almam, Ut pia pulsarent stimulis praecordia
   stupri. Sed cum virgo Dei sprevisset fribula carnis Lurida tetrorum
   confringens tela latronum, Credidit altithronum salvantem saecula
   Christum Ad dominum tota conversus mente fidelis: Poenituit (2)
   tandem magus idola spurca relinquens Expertus, virgo quid posset
   ferre pericli, Quae numquam valuit superari mille nocendi Artibus,
   incesti sedfugit crimen iniquum.


[TRADUCAO]

Celebrarei tambem em meu canto a casta Justina que ganhou o reino eterno por seu virginal pudor. Ela quebrou os lacos profanos do casamento, desdenhando a prosperidade de uma vida terrestre. Seu nobre noivo, inflamado por um amor impuro, insiste, sem sucesso, em lhe pedir que se decidisse a se tornar para sempre sua mulher, de quem nasceriam as geracoes futuras. Mas como esse homem perigoso, animado por seu desejo sacrilego, nao podia mesmo seduzir a inocencia da virgem por meio de suas mentiras, nem inflamar seu coracao de uma paixao cega, tenta corromper sua virtude por meio de bebidas magicas. Havia naquele tempo um bruxo famoso, Cipriano, instruido na arte horrivel dos magicos perversos. Sobre seu pedido, promete ajuda-lo e organizou varios atentados contra esta alma santa que teve de lutar contra as armas horriveis do diabo. O magico artificioso enviava sempre sedutores a santa para tentar suas piedosas resolucoes, incitando-a a relacoes culpaveis. Mas, como a virgem de Deus fugia dos prazeres da carne, pondo em ridiculo as armas lividas dos odiosos bandidos, ele creu em Cristo, o celeste soberano, salvador do mundo, e se converteu de todo o coracao ao servico do Senhor. O magico se arrependeu e abandonou os idolos imundos, quando viu os perigos que podia suportar a virgem que, sem nunca ter sido vencida por seus mil estratagemas, soubera escapar a injusta acusacao de libertina.

6. O juizo final

A celebre sequencia da missa de exequias Dies irae, dies illa, atribuida a Tomas de Celano, e em todo caso composto no seculo XIII, e justamente considerado como uma das obras primas da poesia latina da Idade Media. Esta sequencia e o resultado de uma longa serie de poemas: o assunto sempre tentou os escritores medievais. Ha, entre outros, em manuscritos de epoca carolingia, um poema que apresenta semelhancas surpreendentes com a sequencia. A versificacao desse poema e imperfeita, e seu latim pertence mais a barbarie merovingia do que a escola carolingia; mas e o fato de um verdadeiro poeta ter encontrado aqui o tom digno de um assunto majestoso, e a rudeza da versificacao e da lingua que destaca de modo feliz a austeridade do conteudo. Damos aqui o texto a partir de um manuscrito de Clermont-Ferrand que respeitou os originais, segundo nosso ponto de vista, melhor que outros testemunhos (1).

Qui de morte estis redempti (1) Et per crucem liberati, Pretioso comparati Sanguine filii Dei, Sursum corda sublevate Et Iesum desiderate.

Diem magnum formidate, Quando mundum iudicare Christus, imperator caeli, Venit, fulgens in virtute, Et in magna claritate Regnum sanctispreparare (2),

Cum, aperta astra caeli (3), Fulgorans ab arce patris Lucens vultus Iesu Christi Apparebit (1) mundo omni, Obviam volabunt sancti Suo pio redemptori,

Cum mundi rota (2) ab igne Tota coeperit ardere Sive flamma concremare, Caelum ut liber plicare (3), Sidera tota cadere (1), Finem seculi (2) venire,

Cum a voce regis magni Resurgent omnes defuncti Recepturi unusquisque Prout gesserat in carne, Et praesentabuntur omnes Ante thronum maiestatis.

Dies ille dies irae (3), Dies nebulae et caliginis, Dies tubae et clangoris, Dies luctus et tremoris, Quando tenebrarum ignis Supercadet (4) in iniquis. Qualis pavor tunc aderit (1), Quando rex iratus venit Et infernus apparebit Impiosque absorbebit, Sulphur, flamma atque vermes Cruciabunt peccatores?

Quid acturi erunt mali, Quando ipsi trement sancti Ante tantam maiestatem Iesu Christi filii Dei? Et si iustus (2) vix evadit, Impius ubi parebit?

Ibi Angeli (1) timebunt Archangeli formidabunt, Throni atque Potestates, Principatus et Virtutes, Cherubim atque Seraphim (2) Sive Dominationes.

Tunc sedente Iesu Christo In aeternitatis throno, Adstante choro sanctorum Omnium patriarcharum, Prophetarum, apostolorum, Martyrum et confessorum,

Tunc videbunt omnes Christum Pro hominibus crucifixum. Quid aderunt tunc dicturi, Qui se nolunt emendare Et videbunt plagas ferri In corpore Iesu Christi?

Iam quod oculus non vidit (1) Neque auris audivit Nec in cor hominis ascendit, Quanta Deus preparavit Sanctis suis, quos dilexit Et de hoc mundo elegit.

[TRADUCAO]

Vos, que estais salvos da morte e libertados pela Cruz, resgatados pelo sangue precioso do Filho de Deus, elevai vossos coracoes e orai fervorosamente a Jesus.

Temei o grande dia em que o Cristo, o imperador do ceu, vira para julgar o mundo, resplandecendo em sua majestade, e para preparar o reino aos santos em sua gloria infinita,

quando o ceu se abrira e, refletindo o clarao da morada paterna, a face de Jesus Cristo aparecera em seu esplendor ao mundo inteiro, enquanto os santos se lancarao diante de seu redentor cheio de bondade,

entao o disco do mundo se abrasara e se consumira nas chamas, o ceu se dobrara como um livro, todas as estrelas cairao e vira o fim do mundo,

quando, ao chamado do grande rei, todos os mortos ressuscitarao para receber cada um o salario de sua vida terrestre, sendo todos conduzidos perante o trono de majestade.

Aquele sera um dia de ira, dia de tristeza e escuridao, dia de trombeta e clamor, dia de luto e terror, quando o fogo das trevas se abatera sobre os injustos.

Qual sera sua angustia, quando vier o rei em seu furor, quando o inferno aparecer para engolir os impios e quando o enxofre, a chama e os vermes roedores atormentarem os pecadores?

Que farao os maus, quando ate os santos tremerao diante da imensa majestade de Jesus Cristo, o Filho de Deus? E se apenas o justo escapa, onde ficara o impio?

Ali e que os anjos terao medo, ali e que tremerao os arcanjos, os tronos e as potestades, os principados e as virtudes, os querubins, os serafins e as dominacoes.

Entao, Jesus Cristo se sentara no trono da eternidade e o coro de todos os santos patriarcas, profetas, apostolos, martires e confessores sera reunido diante de si.

Entao, todos verao o Cristo, crucificado pelos homens. Que dirao, entao, os que nao querem se emendar, quando virem as chagas feitas a ferro no corpo de Jesus Cristo?

Tudo que os olhos viram, os ouvidos nao ouviram e nao chegou ao coracao do homem, Deus preparou para os santos, que Ele ama, selecionando-os deste mundo.

VERSIFICACAO -- A versificacao deste canto ritmico e muito simples. Cada estrofe se compoe de seis versos, cada um dos quais tem oito silabas e um final paroxitono (8 p.). O poeta acrescentou uma silaba aos versos 1,1; 10,5; 11,2 e 12,3 e duas silabas ao verso 6,2. Nos dois ultimos casos, e justificavel por causa da dificuldade de inserir citacoes literais da Biblia. E tambem por causa disso que o verso 6,2 apresenta um final proparoxitono. Mas, apesar disso, a versificacao e regular: filii (8,4) deve ser lido com sinerese, auris (12,2) com dierese, cadere, aderit e Seraphim sao acentuados na penultima (ver o comentario). Quanto a cadencia final, os acentos alternam quase sempre regularmente: et per crucem liberati, petioso comparati etc., mas o poeta nao se mortifica por escrever sanguine filii Dei (1,4), caelum ut liber plicare (4,4) etc. (ver 4,1; 4,5; 5,2; 6,2; 8,6; 9,2; 10,3; 11,6; 12,6); somente a acentuacao final e invariavel (com apenas uma excecao). O autor se serve da tecnica merovingia de rima ou de assonancia: caeli forma uma rima monossilabica com virtute, mundi com ardere, omnes com maiestatis, dicturi com emendare etc.; e, por vezes, somente as vogais da silaba final sao contadas; cf. caeli: patris, irae caliginis, maiestatem: Dei, Seraphim: Dominationes. Mas ha tambem versos em que a rima e dissilabica, como sublevate: desiderate etc.

7. A batalha de Fontenoy aos 25 de junho de 841

Apos a morte de Luis, o Piedoso, seus filhos comecaram imediatamente a intrigar uns com os outros. Carlos, o mais jovem, se viu obrigado a fazer alianca com Luis, o Germanico, para resistir aos ataques de Lotario. Os dois reis tentaram negociar com o irmao mais velho, mas, como Lotario se recusava a negociar, Carlos e Luis travaram com ele uma batalha em Fontenoy-en-Puisaye, ao sul de Auxerre, no dia 25 de junho de 841, onde o exercito de Lotario teve de se render. A batalha foi descrita num poema ritmico por certo Angiberto, que havia lutado no exercito de Lotario e que nos deu uma descricao detalhada dela (1).

1. Aurora cum primo mane (2) tetra noctis dividit, Sabbati (3) non illud fuit sed Saturni dolium (1). De fraterna rupta pace gaudet demon impius.

2. Bella clamant. Hinc et inde pugna gravis oritur. Frater fratri mortem parat, nepoti avunculus, Filius nec patri suo exhibet quod meruit.

3. Cedes nullapeior fuit campo nec (2) in Marcio. Fracta est lex christianorum, sanguinis hic profluit Unda manans, inferorum gaudet gula Cerberi.

4. Dextera prepotens Dei Protexit Hlotharium, Victor ille manu sua pugnavitque (3) fortiter. Ceteri si sic pugnassent, mox foret (4) victoria.

5. Ecce olim velut ludas salvatorem tradidit, Sic te, rex, tuique duces tradiderun gladio. Esto cautus, ne frauderis agnus lupo previus.

6. Fontaneto fontem dicunt, villam quoque rustice (1), Ubi strages et ruina Francorum de sanguine. Orrent campi, orrent silve, orrent ipsi paludes.

7. Gramen illud ros et ymber nec humectetpluvia (2), In quo fortes ceciderunt, prelio doctissimi, Pater, mater, soror, frater, quos amici fleverant,

8. Hoc autem scelus peractum, quod descripsi ritmice, Angelbertus ego vidi, pugnansque cum aliis Solus de multis remansi prima frontis acie.

9. Ima vallis retrospexi in collis cacumine, Ubi suos inimicos rex fortis Hlotharius Debellabat figientes usque foras rivulum (3).

10. Karoli de parte vero, Hludovici pariter Albescunt campi vestimentis mortuorum lineis, Velut solent in autumno albescere avibus.

11. Laudepugna non est digna, nec canatur melode. Oriens, meridianus, occidens et aquilo Plangant illos qui fuerunt tali pena mortui.

12. Maledictus (1) ille dies, nec in anni circulo Numeretur, sed radatur ab omni memoria, Iubar solis nec illustrat aurore crepusculum.

13. Nox et sequens dies illam, nox que dira nimium, Nox illa que planctum mixta et dolore pariter, Hic obit et ille gemit cum in gravi penuria.

14. O luctum atque lamentum! Nudati sunt mortui, Illorum carnes vultur, corvus lupus vorant acriter. Orrent, carent sepulturis, vanum iacet cadaver.

15. Ploratum et ululatum nec describo amplius. Unusquisque quantum potest restringatque lacrimas. Pro illorum animabus deprecemur Dominum.

[TRADUCAO]

1. Quando a aurora, no inicio da manha, dissipou os horrores da noite, este nao foi o dia de Saba, mas a caldeira de Saturno. O demonio impio se regozija com a ruptura da paz entre os irmaos.

2. A guerra uiva. Aqui e ali um combate sanguinolento se inicia. O irmao faz morrer seu irmao e o tio seu sobrinho, e o filho nao reserva a seu pai o tratamento que lhe deve.

3. Jamais houve massacre mais horrivel no campo de Marte. A lei dos cristaos e violada, o sangue corre em grande quantidade e Cerbero se alegra na porta do inferno.

4. A mao onipotente de Deus protegeu Lotario que fez pessoalmente uma bela resistencia. Se os outros tivessem lutado da mesma maneira, a vitoria teria sido conseguida imediatamente.

5. Mas assim como Judas outrora vendeu o Salvador, vossos generais, Senhor, vos trairam. Tomai cuidado para nao ser ingenuo, ovelha que anda diante do lobo.

6. Na fala dos camponeses, Fontenoy e uma fonte e uma aldeia onde os francos foram massacrados e cortados em pedacos. Os campos, as florestas, os proprios pantanos tremem de horror.

7. Que jamais caia orvalho, aguaceiro nem chuva sobre os prados onde os guerreiros mais exercitados no combate pereceram e foram chorados por seus pais, maes, irmas, irmaos e amigos.

8. Eu, Angilberto, vi com meus proprios olhos a realizacao desse enorme crime, que descrevi em versos ritmicos; eu me bati ao lado de meus camaradas, na primeira linha, e sou o unico que sobrevive.

9. Do cume da colina eu olhei a planicie, quando o corajoso rei Lotario resistia seus inimigos e os fazia fugir ate a margem oposta da torrente.

10. Do lado de Carlos e de Luis, tambem vi que os campos estao brancos das vestes de linho dos mortos, como no outono ficam frequentemente brancos de passarinhos.

11. Esta batalha nao e digna de ser celebrada num canto melodioso. Que o leste, o sul, o oeste e o norte chorem todos os que foram mortos deste modo.

12. Maldito seja aquele dia, que nao seja mais contado no circulo do ano, que desapareca de qualquer memoria, que nao seja iluminado nem pelos raios do sol nem pela alvorada matinal.

13. A noite do dia seguinte--Ah! aquela foi uma noite execravel, cheia de gritos de dor, quando um morria e outro gemia em grave penuria.

14. Que dor! Que miseria! Os mortos sao postos a nu, os abutres, os corvos e os lobos devoram avidamente sua carne, seus cadaveres jazem la rigidos, sem sepultura, abandonados.

15. Mas eu nao quero descrever a choradeira e as lamentacoes. Que cada um retenha suas armas, se lhe for possivel. Rezemos ao Senhor por suas almas.

VERSIFICACAO.--O poeta nao faz qualquer diferenca entre as silabas longas e breves. Ele emprega, por exemplo, diante da pausa, dissilabos trocaicos como mane ou pirriquios (ou pariambos) e jambicos como fuit e suo indiscriminadamente. Nosso poema nao e, portanto, quantitativo, mas ritmico. No caso presente, deparamonos com uma imitacao do verso metrico que se chama setenario trocaico. Como esse verso pode ter estruturas diversas, o resultado da imitacao ritmica varia a partir do modelo que se escolheu. O tipo classico--------/------- (1) se encontra, por exem plo em Prudencio, que compos um hino conhecido que comeca assim:
   Da, puer, plectrum, choreis ut canam fidelibus Dulce carmen et
   melodum, gesta Christi insignia. Hunc Camena nostra solum pangat,
   hunc laudet l'yra.


Quando os versos sao lidos com os acentos da prosa, observase que eles se alternam de uma maneira regular no segundo verso, enquanto ha irregularidades no primeiro e no terceiro. A estrutura do primeiro hemistiquio Da puer plectrum choreis retorna no canto ritmico 14,1 o luctum atque lamentum e a acentuacao do segundo ut canam fidelibus nos casos seguintes: 4,3 mox foret victoria, e 2,2 nepoti avunculus, 4,1 protexit Hlotharium, 6,2 Francorum de sanguine, 8,2 pugnansque cum aliis, 10,3 albescere avibus, 12,2 ab omni memoria, 12,3 aurorae crepusculum, 13,3 in gravi penuria, 14,1 nudati sunt mortui. Os outros tipos de acentuacao correspondem da mesma maneira em Prudencio e em Angilberto. O hemistiquio de Prudencio et puer redemptor orbis e imitado em 1,1 aurora cum primo mane e, certamente, em 13,3 hic obit et ille gemit, 15,1 ploratum et ululatum; aquele edidit nostram salutem no verso 8,1 hoc autem scelus peractum; cf. ainda 8,3; ainda existe certa semelhanca entre Prudencio pangat hunc laudet l'yra e Angilberto 6,3 orrent ipsi paludes, 11,1 nec canatur melode, 14,3 vanum iacet cadaver. Aqueles sao os unicos versos do canto ritmico em que o final seja paroxitono.

Angilberto tentou tomar o esquema acentual que entendeu, lendo um poema quantitativo do tipo classico. De fato, a julgar pelas palavras 11,1 nec canatur melode, parece ter conhecido o poema de Prudencio de que falamos; cf. Prudencio dulce carmen et melodum. Alem disso, conheceu o hino pascal de Venancio Fortunato Pange lingua gloriosi proelium certaminis que tambem e uma poesia quantitativa do mesmo genero daquela de Prudencio (mas apenas com vocabulos proparoxitonos no final dos versos); cf. Ven. Fort. 20 sanguis, unda profuit e Angilberto 3,2 e ss. sanguinis hic profluit unda manans. A estrutura normal do poema de Angilberto e 8p + 7pp, mas, se nosso texto esta exato, afasta-se 6 vezes desse esquema: colocou 3 vezes um vocabulo paroxitono ao final do verso, como mostramos acima, e 3 vezes acrescentou uma silaba ao numero ordinario: 10,2 albescunt campi vestimentis = 9p (cf. tambem 14,2), e 13,3 cum in gravi penuria = 8pp (1).

Um outro tipo de setenario trocaico quantitativo se encontra em Santo Hilario de Poitiers, que compos um hino de que apresentamos a primeira estrofe (2):
   Adae carnis gloriosa et caduci corporis In caelesti rursum Adam
   concinamus proelia, Per quae primum Satanas est Adam victus in
   novo.


A metrica deste hino e arcaizante, isto quer dizer que Hilario segue uma doutrina escolar que admite que em todos os pes, salvo o setimo, o troqueu seja substituido por um espondeu: ------/----/--------. (3) Mas, o que e mais interessante, em nosso ponto de vista, e que o primeiro hemistiquio e sempre dividido em duas partes iguais por uma pausa secundaria. Como nao era permiti do colocar um monossilabo diante da pausa, segue-se, por causa das regras de acentuacao, que a alternancia dos acentos e efetivamente regular em Hilario: dae carnis / gloriosa / et-caduci corporis (indicamos por ' o acento secundario dos vocabulos). Esse tipo de metrica foi imitado, pouco tempo depois de Hilario (morto em 367) pelo autor anonimo do hino seguinte sobre o Juizo final, citado por Beda, o Veneravel (1):
   Apparebit / repentina / dies magna Domini, Fur obscura / velut
   nocte / improvisos occupans.


Ja nesses dois versos, ha muitos tempos fortes em silabas breves para que se possa tratar de uma poesia quantitativa: repentina, dies, domini, velut. Esta evidente que o poeta desconhecido seguiu de perto a estrutura acentual dos versos de Hilario, mas sem se preocupar com a metrica. Mais tarde, esse tipo de poema conheceu um enorme sucesso. (2)
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Title Annotation:p. S41-S81
Author:da Silva, Jose Pereira
Publication:Soletras
Date:Jul 1, 2006
Words:6124
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