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Manual Pratico de Latim Medieval (I-breve historia do latim medieval).

Portanto, e por causa da heranca da epoca visigotica que o latim literario dos espanhois mocarabes conserva certo carater escolar e livresco. A influencia da lingua falada e pouco consideravel entre eles. Tem sido assinalado que, na Espanha, o f intervocalico tende a sonorizar-se. Dai as formas versivicando por versificando na cronica de 754 e revociles por refociles, reveratur por referatur, provano por profano em Paulo Alvaro e seus contemporaneos, nos quais se encontra tambem escritas inversas como deforamur por devoramur, adprofemus por adprobemus, referentia por reverentia (4). Do mesmo modo, o desenvolvimento percontare > espanhol preguntar de que ha muitos exemplos na Espanha, parece indicar que isto e influencia do pela lingua falada que Isidoro escreveu praescrutare e que autores mais tardios admitiram prespicere, prespicuus, prestrepere, presistere etc (1).

Mas, nos diplomas e cartas, a situacao e completamente diferente. O latim que encontramos nesses documentos, cujos mais antigos remontam ao seculo VIII, nao se distingue, em principio, do latim merovingiano: e uma mistura curiosa de latim escolar, de formulas fixas, de tracos provenientes da lingua falada, de hiperurbanismos e de erros. Por uma analise detalhada e penetrante desses documentos, conseguiu-se tirar deles preciosos esclarecimentos sobre o desenvolvimento da lingua falada (2). Sabe-se que, na Peninsula Iberica, por exemplo, o acusativo da segunda e da terceira declinacoes se tornou caso unico: em espanhol, lobo, monte e lobos, montes funcionam como caso sujeito (lupus, mons e lupi, montes) assim como caso regime (lupum, montem e lupos, montes), enquanto que na Galia conservou-se, na Idade Media, uma declinacao de dois casos. E por isto que podem ser encontradas nos documentos espanhois frases como aras quas dedit mihi domino meo Petro; donatore sum; sumus filios Proelli et Juste (3). Um traco caracteristico do castelhano e o costume de se introduzir pela preposicao a o complemento principal, se se trata de uma pessoa. Desde o seculo X, encontram-se nos documentos espanhois, exemplos como prendiderunt ad Sancio et a Nunno Gomiz de Septemfiniestraspro illo agro qui est in lomba de Sabuco... in iudicio (1). Ha diferencas muito claras entre as diferentes partes da Peninsula. Assim, nos documentos da Catalunha, a preposicao cum e frequentemente substituida por apud; cf. a frase seguinte, tirada de um documento de Sao Cugato, do seculo X: omnia concessit ad uxori.. ut si in sua viduitate sinceriter permanserit, teneat et possideat apud filios suos. De fato, cum nao persistiu no catalao que, como no frances e no provencal recorreu-se a apud (2). Por outro lado, os documentos do oeste apresentam, por exemplo, eris no lugar de es, sedeat e sedere no lugar de sit e esse, formas que correspondem ao castelhano eres, sea e ser (3).

As glosas que se encontram nos dois manuscritos do seculo X, provenientes das abadias de Sao Milao de Cogula e Sao Domingos de Silos, mostram que, mesmo na Espanha, a lingua escrita so era compreendida nesta epoca pelos que a haviam estudado. A partir do ano 1000, na Espanha, a lingua culta se encontra praticamente na mesma situacao que na Italia. O isolamento cultural e substituido por contatos proveitosos com outros paises e a atividade intelectual dos espanhois contribuiu muito para a formacao da civilizacao medieval do Ocidente e para a criacao dessa nova latinidade de que vamos tratar nos capitulos seguintes. Mas, antes de retomarmos o caminho comum, e necessario um desvio por um pais nao romano.

O latim nas ilhas britanicas antes da epoca carolingia

Tratamos da evolucao da lingua falada e da lingua escrita na Galia, na Italia e na Espanha em diversas epocas em que as linguas populares se tornaram autonomas. E uma situacao completamente nova que encontramos agora. Na Irlanda e nas partes celticas ou germanizadas da Gra-Bretanha, o latim era um elemento estrangeiro que nao encontrava apoio na lingua materna da populacao. Somente alguns sabios tentaram servir-se do latim, com a ajuda de manuais e de conhecimentos adquiridos na escola. Tal foi a situacao na Irlanda desde o inicio. A grande ilha jamais fizera parte do imperio, os irlandeses jamais conheceram a administracao, a vida urbana nem a organizacao escolar dos romanos, preservando suas proprias tradicoes e sua lingua celtica. No entanto, se o latim teve um papel consideravel na civilizacao desse pais, isto se deve a sua conversao ao cristianismo no inicio do seculo V. No ocidente, o latim foi por toda a parte a lingua do oficio cristao e, quando o cristianismo expandiu alem das fronteiras do imperio, ninguem teve a ideia de substitui-lo por uma lingua indigena. Tambem se tinha necessidade do latim para ter acesso a Biblia e as obras dos Pais da Igreja. A conversao dos irlandeses levou a necessidade de ensinar o latim na ilha. Todavia, este ensinamento tinha uma finalidade limitada: nao visava a formar funcionarios ou retores, mas a permitir aos padres e monges o acesso a litera tura crista. Por isto, necessitava-se de um conhecimento elementar da gramatica e do lexico da lingua estrangeira, mas nao de um estudo aprofundado dos textos literarios da epoca classica. No continente, os centros de cultura eram as cidades em que os bispos assumiam cada vez mais os cargos dos antigos funcionarios imperiais. Na Irlanda, onde nao havia cidades, a vida eclesiastica e cultural se concentrou nas grandes abadias. Estudavam-se os textos sagrados sob a direcao do abade, consagrando-se a esta ascese severa pela qual os mosteiros irlandeses eram conhecidos.

Os mais antigos textos latinos escritos na Irlanda mostram claramente o que resultou desta situacao especial. De um lado, estao cheios de tracos barbaros e nao-latinos, doutro lado, tem um carater mais escolar que os textos contemporaneos escritos no continente. O aspecto barbaro aparece sobretudo na escolha de vocabulos. O autor continental ja possuia em sua lingua materna um vocabulario latino muito rico e, em geral, nao tinha dificuldade em escolher o termo proprio. Mas, para o irlandes, todos os vocabulos latinos eram igualmente estrangeiros, ele era obrigado a pesquisar nos glossarios para encontrar a expressao que procurava e, visto que as leituras eram limitadas, o valor estilistico dos vocabulos escapava-lhe totalmente. Encontramos, por exemplo, no antigo hino Altus prosator, atribuido a Sao Colombo de Jonas (morto em 597)1, vocabulos raros como prosator ao inves de creator, neologismos como fatimen e praesagmen derivados de fateor e de praesagio, helenismos com polyandria com o sentido de "sepulcros", hebraismos como iduma, "mao". O emprego de vocabulos gregos e hebreus nao significa que o autor tenha conhecido estas linguas. Ele os tirou dos glossarios, do mesmo modo que os vocabulos latinos.

No seculo VII e mais tarde, os irlandeses procuraram frequentemente vocabulos insolitos para as necessidades da rima, como no hino Sancte sator (1), onde lemos, entre outras coisas: A quo creta cuncta freta, / Quae aplustra verrunt flustra, / Quando celox currit velox etc. O autor desconhecido conseguiu recolher toda uma serie de extravagancias: creta por creata, aplustra, "vasos", flustra "aguas calmas", celox, "barco a vela". Parece ate ter tirado da gramatica de um compatriota o verbo geo, derivado de e-geo que era considerado como verbo composto: Christo Theo qui est leo /Dicam: Deo grates geo (= grates ago) (2).

O carater exotico desse latim provem, por vezes, da influencia exercida pela lingua materna dos irlandeses. Assim, e necessario explicar, por exemplo, as grafias staitim por statim, fleatus por fletus, diciabat por dicebat, manachus, Alaxander por monachus, Alexander (3).

Mas existe tambem uma corrente contraria, erudita e conservadora no latim da ilha. Os missionarios que levaram o cristianismo tinham aprendido o latim na Inglaterra romana, ou, talvez, na Galia. Eles sabiam ler, isto e, tinham frequentado as escolas romanas e levaram a Irlanda a pronuncia escolar empregada na Inglaterra e na Galia no seculo V. Nesta epoca, diversas modificacoes foneticas de que falamos mais acima ainda nao haviam ocorrido. E necessario tambem levar em consideracao o fato de que a pronuncia escolar e sempre mais pedante e mais tradicional do que a do povo. Como a Irlanda estava isolada do continente, foram preservados, deste modo, na ilha, certos tracos do latim que os proprios latinos haviam abandonado bem cedo.

Assinalamos mais acima, por exemplo, que o som representado pela letra c palatalizou-se diante das vogais e e i no seculo V. Esta mudanca ainda nao estava constituida de modo definitivo na Galia e na Inglaterra quando o cristianismo foi introduzido na Irlanda. Pronunciava-se, por exemplo, o nome do apostolo dos irlandeses Patrikius e nao Patritsius; os irlandeses, ainda hoje o chamam Patrick. Os missionarios ensinaram os irlandeses a pronunciar a letra c como um k, mesmo em vocabulos como caelum e civis. Esta pronuncia se tornou uma tradicao escolar na Irlanda. Por isso e que os escribas irlandeses nao escreviam ci no lugar de ti diante de uma vogal, como o fazem tao frequentemente os escribas do continente (1). O emprego da aliteracao entre os irlandeses e tambem muito significativo. Eles gostavam de ligar por este meio o maior numero possivel de vocabulos no verso, e temos aliteracoes perfeitas nos versos em que os vocabulos comecam por c: Clara caeli celsi culmina / Cinis, cautus, castus diligentia e Caeli conscendit culmina / Caritatis clementia (2). Ainda no seculo XII, os islandeses encontraram na Irlanda a pronuncia kelum e kivis, como o mostra o primeiro tratado gramatical da Edda (3). Nesse caso, portanto, guardou-se fielmente, na maior parte da Idade Media, na periferia do mundo, num pais nao-latino, um uso linguistico que remonta a Antiguidade.

Um ponto tao interessante como este e o tratamento das terminacoes na poesia rimada, em que a tecnica dos irlandeses difere da dos latinos. Na Romania, diferentes modificacoes foneticas e morfologicas se produziram nas silabas finais. Nao podemos retomar aqui a historia complicada dessas modificacoes. Basta-nos assinalar que o e u, e e i frequentemente se confundem e que a pronuncia dos finais se enfraquece, sobretudo no norte da Galia (cf., por exemplo, o lat. vinum > it. e espanhol vino, portugues vinho, frances vin; lat. sentit > italiano e portugues sente, espanhol siente, frances sent) (1). Quando os poetas comecaram a enfeitar seus versos por meio de assonancias monossilabicas, seguiram a pronuncia cotidiana e rimaram i breve com e e u breve com o. Assim, Venancio Fortunato fez sempre a assonancia nos dimetros iambicos de que se serve nos hinos Vexilla regis prodeunt e Agnoscat omne saeculum (2). E necessario considerar que, aqui, os vocabulos concinit e carmine, protulit e tempore, praesumeret e debuit, ordinem e ambiit, callido e invidum, redditum e prospero, cernitur e visio etc. formam assonancias perfeitas. Do mesmo modo, Eugenio de Toledo fez assonancias entre conplacet, delectatio e solacium, recogito e transeunt, e Teofredo de Corbio, por exemplo, principio e filium, sedibus e versiculos, geritur e gladio (3). A pronuncia popular se reflete tambem nas assonancias dissilabicas do tipo fides--crudelis, Christi--estis, adimpleretur--dictum que encontramos na poesia da epoca merovingia (1). Nada se pode encontrar de parecido na poesia latina dos irlandeses. Eles jamais confundem as vogais em suas rimas, o que resulta do fato de eles terem aprendido o latim, na escola, como lingua estrangeira, de a pronunciarem a seu modo e a empregarem segundo as regras escolares (2).

O carater exotico e ao mesmo tempo conservador da latinidade irlandesa e reconhecida, em certa medida, na antiga provincia romana da Britannia. A assimilacao espiritual e linguistica desta provincia periferica ainda nao tinha sido concluida no inicio do seculo V, quando os romanos chamaram de volta suas tropas para defenderem a fronteira italiana. Os anglos, os jutos e os saxoes, que nao tardaram a invadir o pais exterminaram a populacao romanizada das cidades e empurraram cada vez mais para oeste a populacao celtica dos campos. Na regiao ocupada pelos germanos, a civilizacao romana desapareceu completamente. Nos pequenos reinos bretoes do oeste, alguns restos da antiga civilizacao encontraram refugio nos mosteiros celticos, onde o ensino parece ter sido organizado da mesma maneira que na conquista da Inglaterra pelos barbaros. O estilo de Gildas (*500? [??]570) e empolado e precioso e e possivel que seja o mesmo Gildas que escreveu o poema Suffragare trinitalis unitas, em que a preciosidade vai ao extremo1. Nesta obra, o autor procura prevenirse, acumulando formulas de encantamento, de inspiracao mais paga do que crista. Ali se le, entre outras coisas:
   Meae gibrae pernas omnes libera, Tuta pelta protegente singula...
   Gigram, cephalem cum iaris et comas, Patham, liganam, sennas atque
   michinas, Cladum, crassum, madianum, talias, Bathma, exugiam atque
   binas idumas...


"Protegei, Senhor, todos os membros de meu ser, que teu escudo defenda e proteja tudo, a cabeca com os supercilios e os cabelos"... O autor fez o melhor possivel para compor um texto incompreensivel para quem nao e iniciado. Coloca nele vocabulos hebraicos, senna, "dente", iduma, "mao", e muitos vocabulos gregos, dos quais, alguns sao facilmente reconheciveis, como, por exemplo pelta, "escudo", cephale, "cabeca", enquanto que outros mudaram seu sentido, perna = "membro", ou sua forma, patham por spatham, "ombro", bathma por bathmos, "pes". Mesmo os vocabulos latinos aparecem sob uma forma mais ou menos estranha: liganam por linguam, madianum por medianum, talias por talos. Alguns vocabulos ainda ficam sem explicacao. Encontramos a mesma lingua exotica nas Hisperica famina que tambem parecem ter sido escritas no oeste da GraBretanha no seculo VI. Hoje se acredita que esta obra estranha se compoe de exercicios escolares, em que se tentava exprimir num tom elevado e retorico, amontoando vocabulos extravagantes colocados numa ordem incomum. Se esta teoria esta correta, o estilo "hisferico" e o ultimo traco da atividade dos retores romanos na Gra-Bretanha, mas a transplantacao nos mosteiros celticos resultou numa caricatura grotesca do original.

O isolamento cultural da Irlanda e da Gra-Bretanha celtica foi rompida pelas peregrinacoes dos celtas ao continente. Eles conservaram sua tradicao escolar, sua educacao gramatical e sua pronuncia do latim, mas ampliaram seu horizonte e comecaram a estudar a literatura classica, de que ja se encontram alguns tracos em Sao Columbano (morto em 615).

Diante desta evolucao, as civilizacoes celtica e romana se reencontraram e se bateram uma contra a outra na Inglaterra germanica. Caido nas maos dos barbaros, o pais foi logo cristianizado e reconquistado pela civilizacao por duas vias: pelos monges vindos da Irlanda e pelos missionarios romanos. No inicio do seculo VII, os irlandeses fundaram diversas abadias importantes, por exemplo, Lindisfarne e Whitby, ao norte, e Malmesbury, a oeste da Inglaterra. Nessas abadias foi dada aos anglo-saxoes uma educacao do tipo irlandes e estes se apropriaram e por longo tempo, da pronuncia irlandesa do latim. E provavel, por exemplo, que o veneravel Beda (673735) e Alcuino tenham pronunciado ce e ci como ke e ki. Podemos tirar esta conclusao de seu emprego da aliteracao. Beda se serve regularmente de duas aliteracoes em cada verso de seu hino que comeca pela estrofe (1):
   Adesto, Christe, cordibus Celsa redemptis caritas, Infunde nostris
   fervidos Fletus, rogamus, vocibus.


Temos uma aliteracao entre Christe e cordibus no primeiro verso, no segundo entre celsa e caritas, no terceiro entre in-funde e fervidos e no quarto entre fletus e vocibus, pronunciado focibus (ver mais abaixo). Quanto a Alcuino, ligou ele, em seu poema Nunc bipedali (1) os versos adonicos dois a dois por uma aliteracao desse tipo:
   Esto paratus ecce precamur Obvius ire omnipotenti Pectore gaudens.
   Pax tibi semper...


Portanto, e verossimil que ele tenha pronunciado kerte, do mesmo modo que kurva, nos dois versos: Curva senectus certe propinquat. Os anglo-saxoes conservaram esta pronuncia ainda no seculo X. Quando Abao de Fleury vivia no convento de Ramsay na Inglaterra, entre 986 e 988, compos um pequeno livro intitulado Quaestiones grammaticales, onde critica, entre outras coisas, a pronuncia ke e ki (2). Disse ele: Quod quam frivolum constet, omnibus vera sapientibus liquet. Para ele, a pronuncia tsivis, que havia aprendido na Galia na sua juventude era bonita e, como ele erra, kivis que ouvia na Inglaterra, era barbaro. Ele nao suspeitava que, na realidade, os barbaros conservaram um uso vindo dos antigos e que os povos latinos abandonaram.

Entretanto, a civilizacao anglo-saxonica jamais teria atingido o progresso esplendido da epoca de Beda e de Alcuino, se nao tivesse sofrido a influencia de Roma. Em 597, Gregorio, o Grande, enviou o monge Agostinho a Cantuaria para pregar o Evangelho aos barbaros, missao que mais tarde traria frutos extraordinarios. A penetracao da influencia romana no norte e no oeste provoca um choque de interesses entre romanos e irlandeses. O conflito dura algumas decadas. Mas, em 669, o Papa Vitaliano decidiu-se a enviar a Cantuaria o arcebispo Teodoro, acompanhado do monge Adriano, para organizarem ali a igreja da Inglaterra. Teodoro era originario da Tarsia e foi educado no oriente grego. Adriano, que tambem conhecia o grego, vinha da Africa, onde o antigo sistema escolar dos romanos ainda permanecia igualmente vivo. Ambos conheciam tao profundamente a literatura profana quanto a crista, a grega quanto a latina, como o afirma Beda. Na escola episcopal e na monastica de Cantuaria, Teodoro e Adriano reuniram em torno de si uma multidao de discipulos que aprenderam metrica, astronomia e calculo, entre outras. Os que puderam, segundo Beda, aprenderam tao bem o grego e o latim que falavam essas linguas como sua lingua materna. Podemos constatar que seu julgamento e correto quanto ao do latim. Para o grego, o conhecimento dos ingleses nunca foi profundo, apagando-se com os alunos diretos de Teodoro e de Adriano.

O primeiro grupo de anglo-saxoes formado em Cantuaria ainda teve intimas relacoes com a tradicao irlandesa. Foi o caso, por exemplo, do primeiro autor anglo-saxao, Aldelmo (640-709). Antes de ser o aluno de Adriano em Cantuaria, formou-se pela Maeldubh irlandesa que, na metade do seculo VII, era dirigida pela abadia de Malmesbury. O latim de Aldelmo apresenta, assim, um duplo aspecto. Vocabulos raros, colhidos nos glossarios, e o estilo empolado chamado de latim "hisferico" do qual ja falamos. De outro lado, a seguranca linguistica e as vastas leituras de Aldelmo vem principalmente de seus estudos em Cantuaria.

E a geracao seguinte que conduziu a cultura latina na Inglaterra a seu apogeu, resultado do novo contato com autores classicos. No reino de Nortumbria, Benoit Biscop fundou entre 674 e 685 as duas grandes abadias de Wearmouth e de Yarrow as quais deu uma biblioteca importante de manuscritos, levados de Roma. E no meio desses livros que viveu o veneravel Beda, primeiramente em Wearmouth e, em seguida, em Yarrow. Beda e, certamente, o maior sabio da alta Idade Media. Inspirando-se nos autores antigos, domina a lingua latina com uma habilidade notavel. Seu estilo e claro, simples e facil de compreender.

O mesmo espirito humanista animou a escola episcopal de York, dirigida entre 686 e 721 por Joao de Beverlei, antigo discipulo de Teodoro de Tarso. Alcuino, nascido por volta de 730, nele viveu ate 781, data quando se encontra com Carlos Magno no transcurso de uma viagem a Italia.

A reforma carolingia e o latim ao norte dos Alpes e dos Pireneus antes do ano 1000

Carlos Magno descobriu cedo a grande capacidade de Alcuino e o persuadiu a vir a Franca para ajuda-lo a reorganizar o ensino. A corte do rei se tornou o centro da vida intelectual da epoca. Para la foram convocados os sabios mais eminentes do mundo ocidental a fim de discutirem questoes de ordem teologica, literaria, linguistica ou cientifica. Encontramos na companhia de Carlos Magno, entre outros, os irlandeses Dungal e Clemente, os italianos Pedro de Pisa, um gramatico, Paulo Diacono, o historiador dos lombardos e Paulino, teologo e poeta original, patriarca de Aquileia a partir de 787, o espanhol Teodulfo, o poeta humanista que se tornou bispo de Orleans. A atividade espiritual se estendia da corte a todas as regioes do imperio franco. Em cada bispado e em cada abadia devia ser organizada uma escola, segundo ordem do rei, para ensinar as criancas a religiao e as artes liberales. A finalidade nao era fazer reviver a Antiguidade classica, e se este movimento de estudos se chama frequentemente renascenca carolingia, e necessario preservar uma interpretacao muito literal desta expressao. Os letrados seguiam o exemplo de Prudencio, assim como o de Virgilio; Cicero nao desbancava Santo Ambrosio, Santo Agostinho, Sao Jeronimo ou Sao Gregorio. Era a cultura latino-crista, cujo nivel tentava elevar, que Carlos Magno queria expan dir. O resultado imediato da reforma parece, talvez, modesto, mas, na realidade, a iniciativa de Carlos Magno e a base do progresso da civilizacao medieval. As escolas monasticas e episcopais se multiplicaram, seu papel se tornou cada vez mais importante e, por fim, fizeram nascer as universidades do seculo XIII.

E facil constatar o sucesso da reforma escolar pela ortografia e pronuncia, pela morfologia e sintaxe da lingua erudita. Na epoca merovingia, era dificil escolher, por exemplo, entre as letras e e i, o e u, porque, em silaba acentuada, i breve se confundia com e fechado e u breve se confundia com o fechado na pronuncia cotidiana. A reforma carolingia pos fim a esta confusao ortografica. Na escola, ja nao se dizia fede e gola, mas fide e gula. Os vocabulos eruditos titulus e dignus foram pronunciados com um i, diluvium e studium com um u, como o mostram as formas do antigo frances titele, digne e diluvie, estudie, e do portugues titulo, digno e diluvio, estudio tomados do latim depois da reforma (cf. italiano degno e stoggio, que sao vocabulos hereditarios) (1). Em consequencia disso, os poetas ja nao rimavam e e i, o e u. Antes, seguira-se a lingua falada, distinguindo-se claramente entre e fechado e e aberto, o fechado e o aberto. A primeira vogal de nobilis, por exemplo, nao tinha o mesmo timbre que a de scola. Daqui em diante, os escolares dariam o mesmo som a cada e e a cada o. No antigo frances nao ha diferenca entre o o de noble e o de escole. (Cf. portugues nobre e escola). Do mesmo modo restituiu-se nas escolas a pronuncia do b intervocalico, tornado v na lingua falada (cf. habere > antigo frances aveir, portugues haver, faba > antigo frances feve, portugues fava). Vocabulos como frances habile e glebe ou portugues habil e gleba sao, portanto, tomados a lingua escolar e erudita apos a epoca de Carlos Magno. Foram muito provavelmente os professores irlandeses e anglo-saxoes que importaram esta nova pronuncia. Sua propria tradicao escolar nao tinha sido perturbada com o desenvolvimento rapido da lingua falada da Romania, como acabamos de sublinhar.

Entretanto, o sucesso dos gramaticos era parcial. Assim, Alcuino prescreveu em seu manual de ortografia que se escrevesse hi e his com um i, mas

os maus habitos persistiram: continuou-se a escrever hii e hiis tanto e se bem que no seculo XIII um outro gramatico, Alexandre de Villedieu (Villedieu = Cidade de Deus), que recomenda a pronuncia com um so i, se ve obrigado a admitir a ortografia hii e hiis1. A tentativa de restituir a ortografia ae tambem nao teve sucesso. E verdade que se hesitou durante muito tempo e, mesmo assim, muitos escribas aprenderam a empregar uma letra e caudata, resignando-se, enfim, e abandonando definitivamente o ditongo. Na baixa Idade Media, os antigos manuscritos eram chamados de codices diphtongati porque o emprego do ditongo era um criterio de estabelecimento da antiguidade. Os professores insulares nao conseguiram implantar com sucesso a sua pronuncia escolar de ke e de ki. Os franceses continuaram a dizer tse e tsi, uso que Abao de Fleury descreve em suas Quaestiones grammaticales da seguinte maneira: 'vinco, vinci, vince \ mutato cum vocalibus sono dicimus, quemadmodum et 'lego, legi, lege, legam'. Durante toda a Idade Media, confundiram-se, por exemplo, as terminacoes -cia e -tia, que conduziu ate a escritas inversas do tipo platitum no lugar de placitum (assim ja nas Formules d'Angers, 9,15). No antigo frances, mais tarde, no curso do seculo XIII, ts e dj se reduzem a s e j em vocabulos como cerf, geler, jeter. Ao mesmo tempo, os mestres e os estudantes franceses modificaram a pronuncia escolar dos vocabulos latinos cervus, gelare, iactare, isto quer dizer que tservus, djelare, djactare (ou djattare) cederam o lugar a servus, jelare, jactare. A partir desta epoca, os erros do tipo se-, si- por se-, ci- sao inumeraveis.

Acrescentamos ainda dois exemplos para mostrar que nao era facil extirpar os antigos habitos de escrever e de pronunciar os vocabulos latinos. Embora Alcuino tenha prescrito: 'hiems' sine p scribi debet, continuava-se sempre a inserir uma consoante transitoria entre ms, mt, mn e, por exemplo, se pronunciava e se escrevia hiemps, verumptamen, idemptitas, ampnis, dampnum, alumpnus, solempnis. Do mesmo modo, jamais se chegou a dominar as regras que, na lingua classica, regiam o emprego das consoantes simples e geminadas. Na epoca carolingia, assim como mais tarde, encontramos frequentemente, por exemplo, annulus por anulus (cf. frances anneau), litera, leteratura (cf. ingles literature, al. Literatur, portugues literatura), cupa (> frances cuve, portugues cuba) e cuppa (> frances coupe, italiano coppa, portugues cupa), capa e cappa (sueco kapa e kappa), plata e platta (sueco plat e platta) (1).

Os vocabulos tomados ao grego trouxeram problemas especiais. Desde o inicio de nossa era, y foi pronunciado como i e por isto encontramos, frequentemente, na Idade Media, as grafias martir, Sibilla, sinodus etc., mas tambem ydioma, dyabolus, Dyonisius e outras escritas inversas. No grego medieval e, ei e oi evoluiram para um i. Esta nova pronuncia se reflete na ortografia dos vocabulos de emprestimo no latim. Ao lado de paracletus, ceimelion, oeconomus pode-se ler, frequentemente, paraclitus, cimelium ou cimilium, iconomus ou yconomus. As aspiradas gregas ch, ph, th sempre causaram dificuldades aos latinos. Na lingua falada da Antiguidade, a aspiracao era suprimida quase sempre: cf. thesauron > italiano e espanhol tesoro, frances tresor, portugues tesouro; cholaphon > italiano colpo, frances coup, portugues golpe. Na epoca carolingia e mais tarde, de vez em quando se escreveu, por exemplo, arciepiscopus, scola, scedula, spera (= sphaera), diptongus, lympa, teca, Talia. Portanto, frequentemente se tomou por f o som ph, tornado constritivo desde a epoca imperial: lymfa, filomena, fantasma etc. (donde o frances fantome e o portugues fantasma). E a pronuncia do ch parece ter sido flutuante: podemos encontrar chirographum, cirographum, hyrographum, sirographum, chelydrus, hilidrus, ilidrus, archiepiscopus, arci-, arhi-, arki- etc. (1). Evidentemente, os professores propagaram na escola doutrinas diferentes. Pode-se comparar sua tentativa de fazer os alunos compreenderem a aspiracao dos vocabulos mihi e nihil, muito tempo depois de desaparecida da lingua falada. Estes vocabulos aparecem, entre outras, sob as formas michi, nichil, mici, nicil, migi, mizi, nizil (2).

Atrai nossa atencao ainda a sorte de sch e sc. Schedula e schema se escrevem, frequentemente, como scedula, scema ou cedula, cema; ao inves de schisma se le, por vezes, cisma ou sisma. Do mesmo modo, sce, sci alternam-se com ce, ci ou se, si, fenomenos que ainda nao foram objeto de um estudo aprofundado. Num poema abecedario de 871, a estrofe c comeca assim o vocabulo celu, isto e, scelus: Celus magnum praeparavit, lemos noutros textos silicet por scilicet, scilius e scedulo por cilius e sedulo (1).

Nas novas escolas da epoca carolingia, igualmente se restaurou o conhecimento da morfologia latina. Mas, por vezes, os manuais que o empregavam desorientavam os alunos. Assim, o gramatico Virgilio de Tolosa pretendia que ao perfeito novi correspondesse um presente noro, noris, norit. Esta e tambem a forma que um poeta anonimo do seculo IX empregou num canto de Natal que terminava pelos versos:
   Hec est illa dies, dudum quam visere vates Desideraverunt, norit
   quae pellere morbos, Pellere quae norit tetras de corde tenebras.


O subjuntivo correspondente se encontra num edito publicado em Aix-la-Chapele em 816: Custodes praeterea ecclesiae harum horarum distinctiones bene norant, ut scilicet signa certis temporibus pulsent (2). O mesmo Virgilio de Tolosa ensina que ha dois futuros em cada conjugacao: Dicimus enim 'interrogabo'e 'interrogam, -ges, get, videbo videam, audibo audiam, agam agebo'. E a partir desta doutrina que os autores do seculo X forjam futuros como peragram, declinam, explicam, denegam, fatigar, consiliar (3).

Em outros casos, os habitos da epoca merovingia estavam enraizados de tal maneira que nao podiam mais ser extirpados. Deste modo, as terminacoes em -i e em -e da terceira declinacao estavam confundidas e nao se chegava mais a distingui-las. Alcuino se serve de um dativo em -e no verso vestrae pietate remisi e se engana sobre a forma de ablativo quando escreve cum suo abbate... et successori (1). Os ablativos em -i dos comparativos tornaram-se usuais na Idade Media. Os escolasticos formaram, assim, as expressoes a priori, a posteriori, formulas que ainda vivem no estilo escolar das linguas modernas (2).

Ha autores tambem que nao se mortificam por inventar formas as mais audaciosas. Nas sequencias compostas na Franca, esforcavase, assim, para fazer rimar todos os versos em -a. Este esforco abriu a porta a muitos abusos. Foram criados substantivos femininos como sollemnia e tirocinia: in hac sacra sollemnia e in recenti tirocinia. O masculino ocellus se tornou neutro: clausa ocella... reddens aperta. Os adjetivos principalis, sublimis e o participio collaudans foram transpostos para a primeira declinacao nas expressoes in arce principalia, o lux aaterna sublima e virginum quoque collaudantia fortiter mira caterva (3). Mas, as vezes, encontram-se formas absolutamente surpreendentes nos mais distintos autores. Alcuino se permite unum sagellum tenuum, o papa Adriano I per anterioras nostras syllabas, e o erro in sacris paginibus e encontrado na carta de Carlos Magno De litteris colendis (4).

So encontramos um exemplo no dominio da sintaxe para ilustrar a sobrevivencia dos usos merovingios. Gregorio de Tours e Venancio Fortunato admitem uma forma fixa Parisius em expressoes como Parisius venit ou sanguine nobilium generata Parisius urbe, "nascido de uma familia nobre em Paris" (1). Mais tarde, sob o mesmo modelo, foram criadas as palavras Turonus, Treverus etc. E provavel que esta forma fosse primitivamente um acusativo plural Parisios venit como Delphos venit, mas que se transformou em Parisius (muitas vezes, a desinencia-us substitui -os no latim merovingio). Era esperado que uma forma tao barbara desaparecesse com o ensinamento dos letrados carolingios, mas isto nao ocorreu. Durante toda a Idade Media continuou a ser escrito Parisius. No seculo IX, Abao de Sao Germano diz Parisius presul fuerat e, mais tarde, Abelardo escreve em sua biografia perveni tandem Parisius, para dar apenas dois exemplos (2). Muitas vezes, os acusativos de nomes de lugar tendem a se tornar formas fixas. Isto e atestado tambem pelo emprego de Constantinopolim, Neapolim e outros acusativos desse tipo, que substituem todos os casos. Em Paulo Diacono Constantinopolim tem o sentido de um ablativo na expressao Constantinopolim egressus, e Neapolim serve de sujeito em nunc tamen corpusculum Neapolim retinet (3).

As variacoes encontradas no latim do imperio franco nos seculos IX e X nao dependem somente do nivel da cultura do escritor. E possivel descobrir tambem a influencia das tradicoes escolares das diferentes regioes. O estilo dos espanhois e dos italianos e diferente do estilo dos francos. Foi examinado o vocabulario de Paulo Diaco no, mostrando-se que seu latim e o fruto da tradicao escolar que a igreja italiana acolheu da escola antiga e conservou, apesar das dificuldades da epoca (1). Por outro lado, os francos de Nithard e de Eginhard romperam a cadeia da tradicao, pesquisando seus modelos na literatura classica. Os irlandeses e os anglo-saxoes ainda mostram, frequentemente, uma predilecao pelos vocabulos incomuns. Sua influencia era consideravel e eles tinham muitos discipulos que imitaram o seu estilo. Abao de Sao Germano, por exemplo, conseguiu encher seu poema Bella Parisiacae urbis de vocabulos tao exoticos que achou necessario acrescentar-lhe explicacoes. Pode-se fazer uma ideia de seu estilo pelos versos seguintes (2):
   Amphytappa laon extat badanola, necnon Effipiam diamant, stragulam
   pariterque propomam.


Ele explicou seu jogo pueril deste modo: amphytappa = tapete undique villosum; laon = laicorum, populorum; badanola = lectus in itinere; effipiam = ornamentum ecorum; diamant = valde amant; stragulam = vestem pictam vel gumfanon; propomam = claram potionem per linteum. Havia, entre outros, uma importante colonia de professores irlandeses em Leao. Sua influencia se estendeu aos proprios autores das sequencias limusinas que empregavam, por exemplo, sutela, "astucia", gerro, "vadio", caltudia, "festa", dindymum, "misterio", pubeda, "adolescente", sirma, "palavras solenes", cephal, "cabeca", chirrare ou sirare, "conduzir pela mao" (= cheir, palavra grega que aparece nos textos latinos sob as formas chir, hir, ir, sir etc.) (1).

Os alemaes tomaram vocabulos emprestados de seus vizinhos franceses, com os quais formaram durante muito tempo uma unidade politica, apesar da missao anglo-saxonica e da importancia de suas relacoes com a Irlanda, no conjunto de sua civilizacao latina. Isto explica, por exemplo, sua pronuncia do latim. Um vocabulo como cellarium ultrapassou Reno ja na epoca imperial, quando os latinos ainda o pronunciavam kellarium, e conservou seu k no velho alto alemao kellari, que deu Keller. Mas e com o monaquismo da epoca carolingia que o vocabulo cella penetrou no dominio alemao, enquanto que os monges vindos do oeste o pronunciavam tsella; de onde a forma alema Zelle. Do mesmo modo cruce se tornou Kreuz, cedula Zettel etc. Nas escolas, os alemaes conservaram ate hoje a pronuncia tse e tsi de ce e ci e ainda se diz, por exemplo, Tsitsero e Tsesar.

A semivogal u era, durante os primeiros seculos de nossa era, uma bilabial na lingua dos romanos, assim como na lingua dos germanos. Estes nao tinham dificuldade em transformar o som inicial dos antigos vocabulos de emprestimo vinum e vallum que, no velho alto alemao, tem a forma de win e de wall. Mas, em consequencia disso, a bilabial se tornou labiodental na Galia, e quando os padres cristaos diziam versus, os alemaes entendiam fersus. O mesmo fenomeno e produzido, finalmente, na Inglaterra e na Irlanda. E por isto que v ainda tem o valor de f em alemao. Nos textos medievais es critos na Alemanha, encontram-se, por vezes vero por fero, victoris por fictoris, velle por felle, viet por fiet etc. (1).

Frequentemente, o latim dos seculos IX e X tem sido considerado uma lingua artificial, desprovida de uma vida propria, mostrando-se como a literatura dessa epoca se satisfaz com a imitacao e com a compilacao. Entretanto, e bom lembrar que e nesta epoca que a poesia ritmica comecou a desenvolver formas novas, que o emprego da rima se sistematizou e que nasceram as criacoes mais originais da Idade Media latina, os tropos e as sequencias. Para fazer compreender este desenvolvimento, devemos nos voltar alguns instantes a Antiguidade classica.

Todo o mundo esta de acordo sobre o fato de que o verso latino classico repousa na oposicao de duracao entre as silabas longas e breves. E um principio natural na epoca classica porque se entendia claramente a diferenca entre essas silabas. Cicero nos conta que, no teatro, todo o publico vaiava o ator se ele pronunciasse uma silaba sequer mais breve ou mais longa, acrescentando:

E, portanto, o povo nada conhecia sobre a metrica e sobre o ritmo do verso, nem entendia porque a pronuncia do ator estava errada; a propria natureza deu a seus ouvidos a faculdade de entender a longura ou a brevidade dos sons.

Ja expusemos como, a partir do seculo III, a intensidade crescente do acento fez os latinos perderem a percepcao do ritmo quantitativo. A antiga metrica ja nao encontrava base natural na lingua falada e compreendemos que ja nao se podia contentar com uma versi ficacao completamente artificial. Por isto, no lugar do verso metrico, criou-se o verso ritmico, onde ja nao e a quantidade das silabas, mas o seu numero e sua acentuacao que tem um papel.

Uma analise detalhada da mais antiga poesia ritmica nos permite constatar que esta deriva diretamente da poesia metrica, da seguinte maneira: quando se recitava poesia classica, esta ja nao se escandia como fazemos muito frequentemente em nossas escolas, mas se davam aos vocabulos os acentos que tinham na prosa1. Santo Ambrosio, que falava, provavelmente, com os mesmos acentos de intensidade que os italianos e os franceses de hoje, nao pronunciava Veni redemptor gentium (''-'---''-) mas veni redemptor gentium. Mesmo mais tarde, o verso safico En adest Caesar pius et benignus nao foi recitado (-''---//''''-''-'') mas os versos foram lidos com os acentos ordinarios dos vocabulos:
   En adest Caesar pius et benignus arbe qui toto rutilat coruscus,
   tque prae cunctis bonitate pollet Munere Christi.


O que se compreendia nao era mais a antiga quantidade das silabas, mas um ritmo fundado nos acentos. Imitando este novo ritmo, sem se preocupar com a quantidade, foram criadas estrofes ambrosianas como a seguinte:
   Oculi somnum capiant, Cor semper ad te vigilet, Dextera tua
   protegat Famulos qui te diligunt,


ou estrofes saficas desse tipo:
   Terra marique victor honorande, Caesar Auguste Hludowice, Christi
   Dogmate clarus, decus aevi nostri, Spes quoque regni.


Vemos imediatamente que os autores dessas estrofes zombavam da quantidade que tinham as silabas em latim classico. Vemos igualmente que ninguem podia escandir esses versos. Mesmo o mais ignorante era incapaz de acentuar oculi, dextera, famulos ou terra marique victor honorande. Portanto, e insustentavel a teoria segundo a qual os tempos fortes do verso classico foram substituidos pelas silabas acentuadas nos versos ritmicos, marcadas pelo acento tonico. Os novos poetas representaram a estrutura acentual que entenderam: os acentos ordinarios do modelo quantitativo se encontraram novamente no mesmo lugar, na imitacao ritmica (1).

Durante os quatro seculos que separam o aparecimento da poesia ritmica e a epoca carolingia, foram imitados desta maneira os versos iambicos e trocaicos, o hexametro dactilico e alguns outros versos quantitativos. Algumas inovacoes, entretanto, devem ser notadas. Na Irlanda, regiao que se encontrava fora da tradicao escolar antiga, distanciou-se rapidamente dos modelos classicos, que nao eram conhecidos. Ao inves de imitar a estrutura acentual, contentouse em contar o numero de silabas. O anglo-saxao Etelbaldo, que era discipulo de Aldelmo e que compunha versos ritmicos a partir do ensino dos irlandeses, sublinha que o verso ambrosiano deve consistir de oito silabas, mesmo que o vocabulo final seja paroxitono ou pro paroxitono. Na epoca carolingia, este principio de composicao de versos ritmicos se expandiu tambem no continente (1).

Na Espanha e no sul da Galia, encontramos tambem um outro sistema. Na liturgia desses paises, o canto responsorial parece ter tido um papel importante: um solista cantava um texto e a assembleia o respondia, recitando um refrao depois de cada parte. O texto e o refrao estavam em prosa, mas, em geral, possuiam um ritmo marcado que certamente se fazia sentir tambem na melodia. Isto porque se comecava a empregar o refrao, e mesmo o texto que precede o refrao para criar novos versos. Em uma dessas preces da igreja visigotica, o cantor comecou assim por uma oracao em prosa: Averte Domine // iram furoris tui, ao qual a assembleia respondeu: Et miseratus parce //populo tuo. A primeira dessas linhas e feita de 6 + 7 silabas com um proparoxitono (= pp) diante da cesura e um paroxitono (= p) no fim, o que exprimimos pela formula 6pp + 7p, e a segunda de 7 + 5 silabas com cadencias finais paroxitonas, isto e, 7p + 5p. Segundo o mesmo ritmo e a mesma melodia, formaram-se os versos de um canto do qual aqui esta a primeira estrofe:
   Omnium precibus pium auditum praebe Et quae rogamus, Sancte, cito
   concede.


Neste caso, nao se partiu de um verso classico, mas de uma formula em prosa ou de uma melodia bem ritmada para compor uma poesia ritmica. Esse e um principio novo de enorme importancia (2). Na Espanha, serviu-se desse principio sobretudo nas preces liturgicas, quase sempre versificadas. Para a datacao desses cantos, observe-se que um acrostico nos revela o nome de um dos poetas, Suintharic. Este poeta se confunde com o bispo desse nome que viveu por volta de 675.

Partindo desses principios, os poetas da epoca carolingia desenvolveram novas formas de poesia ritmica. Um dos inovadores foi Paulino de Aquileia. Ele escreveu todos os seus hinos em versos ritmicos e criou varios novos versos que se distinguem pela perfeicao da forma. Em torno dele reuniram-se outros poetas que se inspiravam no ensinamento do mestre e, assim, o norte da Italia se tornou, nesta epoca, um centro da versificacao ritmica, como mostramos noutro lugar. (1) Falta-nos ainda tratar das origens da sequencia e do tropo (2). A historia da sequencia e particularmente instrutiva. Na missa, ja na igreja antiga, eram cantadas dois cantos intercalares entre a epistola e o evangelho, o gradual e o alleluia, o segundo dos quais se apresentava desta forma: o solista cantava primeiramente alleluia que o coro repetia, enriquecido de melismas, isto e, de figuras melodicas cantadas sobre uma so vogal (o jubilus); em seguida, o solista cantava o versiculo e o coro repetia novamente o alleluia e o jubilus. O jubilus sobre a vogal a se chamava sequentia. Os cantores frequentemente tinham muita dificuldade de se lembrarem dessas longas melodias sem palavras. No nordeste da Franca, por esta razao, antes do meio do seculo IX, encontrou-se um meio de facilitar o canto. Ajuntaramse palavras aos melismas que vinham depois do alleluia, de tal modo que cada silaba do texto correspondesse a um tom da melodia. Nesta nova forma de poesia, portanto, a melodia era o essencial, sendo o texto de importancia secundaria. Por conseguinte, nas mais antigas sequencias, nao existia traco da versificacao classica nem da versificacao ritmica que tenha resultado dela. Pela forma, estas sequencias sao comparaveis aos canticos biblicos que, do ponto de vista da poesia greco-latina, sao escritos em prosa. Chamou-se a nova poesia sequentia cum prosa, ou mais brevemente prosa, termo que foi o mais corrente na Franca, ou ainda sequentia, fazendo passar este termo do dominio da musica ao da literatura.

A sequencia ordinaria e dividida em estrofes cujo traco caracteristico e a repeticao progressiva: cada estrofe e seguida de uma antistrofe cantada na mesma melodia, tanto que todos os pares de estrofes se diferem uns dos outros. Mas, no inicio e no fim nao ha repeticao. As mais antigas sequencias comecam pelo vocabulo alleluia, logo, somente aos vocalises executados na ultima vogal do vocabulo dava-se um texto. Todavia, o vocabulo alleluia foi logo substituido, sobretudo na Alemanha, por uma estrofe de introducao escrita especialmente para isto. Do mesmo modo, a estrofe final nao tinha antistrofe. A estrutura musical e metrica de uma sequencia normal pode se realizar, portanto, pelo esquema seguinte: A BB CC DD EE... Z. Explica-se a maior parte do tempo a repeticao progressiva, supondo que dois coros executavam as sequencias: a estrofe era cantada pelos tenores e a antistrofe pelos sopranos, enquanto que a estrofe de introducao e a estrofe final eram cantadas pelos dois coros conjuntamente. De fato, lemos numa sequencia de origem alema (1):

1. Cantemus cuncti melodum nunc Alleluia.

10a Nunc vos, o socii, b Et vos, pueruli, Cantate laetantes Respondete semper Alleluia, Alleluia.

"Cantemos agora todos juntos o canto melodioso, alleluia... Agora, companheiros, cantai, cheios de alegria, alleluia. E vos, meninos, respondei sempre, alleluia".

Entretanto, parece que em certas regioes seja um solista apenas que tenha executado a sequencia, enquanto que o coro cantava, simultaneamente, alleluia com longos vocalises. E assim que se explica o inicio da sequencia seguinte (1):

1 Alle- caeleste Nec non et perenne -luia

2a Dic, paraphonista, b Turba et canora, Cum mera symphonia, Palinodias canta.

"Canta, parafonista (= cantor), a palavra celeste e eterna, alleluia, com uma harmonia perfeita; e vos, harmonioso coro, cantai melodias repetidas". Aqui, parece que o coro e o solista entoaram juntos Alle-, depois eles se separam, o coro para executar as figuras melodicas sobre -e-, o solista para cantar os vocabulos caeleste nec non et perenne, nos quais a vogal e e harmonizada perfeitamente com os melismas do coro. Em seguida, eles se unem para cantarem juntos luia, depois que o coro continuou pelos vocalises em -a, enquanto o solista cantou o texto da sequencia. Cada verso do texto termina pela vogal a, para que o canto do coro e o do solista se harmonizem tao bem quanto possivel (2).

Na realidade, na epoca carolingia ha dois tipos de sequencias, um frances e um alemao. Na Franca, conservaram-se por muito tempo as caracteristicas do tipo primitivo. Assim, o canto comeca quase sempre pelo vocabulo alleluia ou por uma estrofe cujas vogais sao a, e, u, (i), a e os versos terminam por a. A sintaxe da frase pode permitir enjambements audaciosos, saltando da estrofe a antistrofe e ate mesmo a estrofe seguinte. A estrutura ritmica dos versos correspondentes e frequentemente diferente, embora o numero de silabas seja o mesmo. Encontramos todos esses tracos caracteristicos nas primeiras estrofes da seguinte sequencia (1):

1. Salve, exultans

2a Sancta parens a gratia b Cuius intacta viscera Divina Sunt digna Electa ante saecula Ferre regentem omnia.

3a Haec ventura b Promunt ora Ut cana Mariae

Cecinit patrum lingua, Fore iam properata. Mox angelica Fit mox credula.

A estrutura de uma sequencia desse tipo e compreendida facilmente, desde que se suponha que o solista executava o texto ao mesmo tempo em que o coro cantava o vocabulo alleluia com melismas sobre o a.

Na Alemanha, Notcker, o Gago, morto em 912, criou o modelo de um outro tipo. Ele comecava as sequencias, em geral, por uma estrofe de introducao, libertando-se da rima. Alem disso, compunha a estrofe e a antistrofe com um paralelismo perfeito tanto pelo ritmo quanto pelo pensamento. Comparemos, por exemplo, as estrofes seguintes (2):

Hic novam prolem Angeli cives Gratia parturit Visitant hic suos Fecunda spiritu sancto. Et corpus sumitur Christi. Fugiunt universa Pereunt peccatricis Corpori nocua. Animae crimina. Hic vox laetitiae personat. Hic pax et gaudia redundant.

Aqui, nao ha enjambement; a estrofe e a antistrofe formam, cada uma, uma unidade sintatica, em que a correspondencia e destacada pela repeticao de hic nos ultimos versos. Considerando-se as regras de acentuacao que Notker seguiu (hic-novam, hic-suos, personat), a concordancia ritmica e perfeita. O paralelismo do pensamento e tambem surpreendente; quando a estrofe afirma que os males do corpo se esvaem, a antistrofe responde que os pecados da alma desaparecem. E possivel que esta tecnica seja explicada por serem executadas, as sequencias notkerianas, por dois coros.

Os problemas apresentados pelas formas musicais e literarias dos tropos ainda sao mais complicadas e a maior parte do trabalho cientifico ainda nao foi feito. O tropo pode preceder ou seguir o texto liturgico, mas e muito mais comum que esteja inserido nele. Tambem para os tropos, a melodia liturgica e, muitas vezes, a base do texto. Um caso particularmente interessante e o dos tropos cujas palavras estao entremeadas ao texto liturgico. Na Idade Media, o canto do ofertorio do terceiro domingo do advento, por exemplo, terminava pelo versiculo Ostende nobis, Domine, misericordiam tuam et salutare tuum da nobis. Na abadia Sao Marcial de Limoges, cantava-se a ultima silaba com longos melismas e isto fez nascer o tropo seguinte que se encontra num tropario do inicio do seculo X1:

Da nobi-s potenti In caelis et terris

Imperanti Virtute tui

Quod olim nostris Refulsit in tenebr-is.

Aqui, as assonancias em -i derivam do esforco para harmonizar o texto liturgico que cantava provavelmente um coro e o novo canto, executado por um solista.

Um outro tropo e um arranjo sobre a primeira silaba de um texto liturgico. O quarto domingo do advento, o primeiro versiculo do ofertorio era Quo (pronunciado co) modo in me fiet hoc quae virum non cognosco. Spiritus Domini superveniet in te et virtus Altissimi obumbrabit tibi. O coro cantava esses vocabulos, enfeitando a vogal -o do primeiro vocabulo com melismas, durante os quais parece que um solista executava o tropo seguinte1:
   Co-ncrepare opimo
   Studeto
   Cantu Domino, hymno Simul et Mariae, supero
   Ab aethere quae viso
   Archangelo
   Et audito divino
   Alloquio
   Attonita protinus respondit illi:
   Qu-omodo in mefiet hoc etc (2).


E muito interessante tambem o tropo do versiculo aleluiatico que se cantava em Limoges na missa por um santo confessor. O texto liturgico era: Alleluia, alleluia, Iustus germinabit sicut lilium et florebit in aeternum ante Dominum. O novo canto e inteiramente inserido no texto (1):

1 Laetetur alma Fidelium ecclesia, Per Christi corpus redempta Felix permanet in saecula,

Regnat in gloria Perpetua,

Retinens caelica In caelestibus praemia,

Alleluia.

2 Iustu-s

Etprobitate dign-us Germina

Pacis et vitae dona

Heredit-abit Sicut liliu-m

Et gloria rosar-um

3 Et flore gratiae

Cum lampade Lucis perpetuae Fulgebit feliciter,

Ditatus munere Iustitiae Virtutum meritis Flor-ebit in aeternum

4 Ante Dominu-m Qui Dominus est omnium, Qui salvat omne saeculum, Qui fert omnium subsidium

Qui condolens nostrum Interitum

Pro nobis tribuit Sui sanguinis preti-um.

Esta visto que as rimas dependem sempre do texto liturgico: na primeira estrofe, os versos terminam em -a para fazer assonancia com a ultima silaba de alleluia; na terceira estrofe em -e por causa de flore etc. O texto liturgico oficial e o tropo devem ser cantados juntos, o primeiro por um coro e o outro por um solista. Parece-nos ser permitido admitir a hipotese de que o canto era diafonico, ou seja, que o solista se distancia da melodia do coro, cantando em quartas paralelas, para unir-se novamente, no fim das frases musicais, a melodia do coro. Seja como for, e uma forma de polifonia que ja era conhecida no seculo IX (1).

Para o desenvolvimento da poesia medieval, a criacao de sequencias e de tropos foi de uma importancia fundamental. Ela permitiu aos poetas se liberarem inteiramente do rigor da forma dos versos antigos e lhes anunciou possibilidades novas de expressao. Eles podiam a partir de entao construir seus versos e suas estrofes livremente a partir de uma melodia dada, ou compondo de acordo com a melodia, e isto com uma riqueza de variantes que contrasta fortemente com o pequeno numero de formas que permitia a poesia antiga. Entre as sequencias da epoca carolingia, ja encontramos verdadeiras obrasprimas da poesia medieval, tais como a sequencia do cisne, composta por um professor frances desconhecido, ou a sequencia de Raquel, de Notker, o Gago.

E necessario acrescentar algumas palavras sobre o desenvolvimento do emprego das rimas. Na prosa latina da epoca imperial, os escritores adoravam arrumar as frases em membros paralelos, enfeitados com finais homofonos. Ate mesmo se pretendeu que o homeoteleuto era a figura retorica mais caracteristica da prosa antiga1. No inicio da Idade Media, um autor como Venancio Fortunato se serve muito frequentemente desse estilo. Nubit ergo terreno principi / nec tamen separata caelesti / ac dum sibi accessisset saecularis potestas / magis quam permitteret dignitas / se plus inclinavit voluntas. / Subbita semper Deo / sectans monita sacerdotum / plus participata Christo / quam sociata coniugio, escreve, por exemplo, de Santa Radegonda2; a simetria dos membros e, por vezes, perfeita, mas tambem se pode observar a assonancia final dos vocabulos Deo e sacerdotum... Do mesmo modo, Eugenio de Toledo comeca assim uma carta: Vestrae pietatis oracula / favi dulcedine suaviora / ingenti me fateor perlegisse laetitia. / Unde etiam creatori Domino precum obtuli vota /propter vestrae facultatis augmenta. / Cuius enim anima / quamvis sit sapientiae privata / tantam in te domne non amet amoris industriam / cum ab arce culminis / qua sublimis emines et praecellis / ad amandum infirmos et exiles / ultronea benignitate descendis3? Eugenio compos, assim, toda sua carta em membros ornados de assonancias monossilabicas, segundo as regras que ele segue em sua poesia e que acabamos de expor. Mas em Eugenio, a simetria e frequentemente abandonada: ao acusativo oracula suaviora corresponde o ablativo laetitia, ao substantivo culminis o verbo praecellis etc., ou seja, as assonancias ou rimas tornaram-se autonomas.

Na epoca carolingia, os autores foram primeiramente mais reservados, mas a partir do seculo IX, podem ser encontrados exemplos de uma tecnica de rima muito avancada. Godescalc d'Orbais tomou gosto pela rima dissilabica, como vemos na seguinte passagem1:
   Longe vehementius ardeo et stupeo vestrae beatitudinis animum /
   humilitatis excellentia generosum / caritatis eminentia gloriosum /
   benignitatis evidentia luminosum / et insuper pietatis
   magnificentia deliciosum. / Sed quid vobis rependam pro munere tam
   dulci / grato nimis ac suavi / nisi quod totus esse cupio dum vivo
   vester / si tamen dominus Jesus Christus redemptor noster /
   utriusque nostrum fore dignetur sequester.


Na poesia, o uso da assonancia ou da rima se desenvolve de uma maneira semelhante (2). Na epoca classica, seu emprego era acidental, ou melhor, o poeta se servia dela para produzir efeitos especiais. Mas, por volta do fim da Antiguidade, percebe-se uma tendencia muito clara para se fazer assonancia nos finais de palavras que se encontravam diante de uma cesura ou no fim do verso. E, sobretudo, Sedulio quem busca estas repeticoes de sons em seus hexametros e em sua poesia lirica, assim como em sua prosa. Venancio Fortunato, Eugenio de Toledo e outros poetas ainda vao mais longe, desenvolvendo em seus poemas a mesma tecnica que em suas obras em prosa. Temos tambem muitos cantos ritmicos em que aparecem assonancias ou rimas mais ou menos regulares. Sao os irlandeses, principalmente, e os seus discipulos que levaram esse processo tao longe (3). Um pequeno recuo pode, no entanto, ser constatado no fim do seculo VIII. A primeira geracao de poetas carolingios, Alcuino, Paulo Diacono, Teodulfo e outros que tomaram Virgilio e Prudencio por modelos, mostraram-se menos favoraveis a este jogo de homofonia dos finais. Mas a evolucao nao podia mais ser retida. Ja no seculo IX, um emprego da rima completamente regular aparece na poesia escrita em hexametros ou em disticos elegiacos e em versos liricos quantitativos ou ritmicos. Eis, por exemplo, como Godescalc d'Orbais constroi seus hexametros (1):

Septeno Augustas decimo praeeunte kalendas Solis equi dulcem efflarunt ubi naribus ignem Fluctibus Oceani capita atque iubas madefacti, Assuetum ad cursum properantes vertere currum...

A cesura esta sempre apos a quinta silaba, e a silaba que precede a cesura rima sempre com o final do verso. Este e o tipo de hexametro que se chamara mais tarde de leonino. Pode-se observar que, no segundo verso, a ultima silaba do vocabulo dulcem (que nao conta, de acordo com as regras classicas, por causa da elisao ou da sinalefa) forma uma rima com ignem, o que parece implicar que Godescalc recitou seus versos sem marcar a elisao ou a sinalefa.

Godescalc gostava igualmente de utilizar a rima em sua lirica quantitativa como o mostra esta estrofe safica (2):
   Christe, rex regum dominans in aevum, Lumen aeternum, patris atque
   verbum, Qui regis cunctum pietate mundum, Factor egentum.


E, porem, em seus versos ritmicos que encontramos uma tecnica bem desenvolvida. Tomemos, por exemplo, as duas primeiras estrofes de seu celebre canto Ut quid iubes (1):
   Ut quid iubes, pusiole, Quare mandas, filiole, Carmen dulce me
   cantare, Cum sim longe exul valde intra mare? O cur iubes canere?
   Magis mihi, miserule, Flere libet, puerule, Plus plorare quam
   cantare Carmen tale iubes quale, amor, care, O cur iubes canere?


Nessas estrofes, todos os vocabulos finais, mesmo diante de pausas, terminam em -e. Alem disso, o primeiro e o segundo versos sao ligados por rimas trissilabicas (pusiole--filiole, miserule--puerule), o terceiro e o quarto por rimas dissilabicas (cantare--mare, cantare--care). A segunda estrofe apresenta ate rimas dissilabicas entre os vocabulos plorare e cantare, tale e quale dos versos 3 e 4. Evidentemente, Godescalc e obrigado a enfeitar muito seu latim tao cheio de rimas quanto possivel e teve muitos imitadores. O emprego da rima dissilabica ou trissilabica se expandiu cada vez mais para se tornar, finalmente, um dos tracos mais caracteristicos da poesia latina medieval. Retomaremos isto, ao estudarmos a evolucao do latim apos o ano 1000.

O latim medieval apos o ano 1000

Durante a segunda metade da Idade Media, a igreja romana estendeu sua influencia ao leste e ao norte da Europa. Assim, a Hungria, a Boemia, a Polonia, o norte da Alemanha e os paises escandinavos entraram no mundo da cultura latina. Em toda a Europa ocidental, portanto, o latim era a base da educacao, seja qual for a lingua nacional. Na Italia e na Suecia, na Irlanda e na Polonia, por toda a parte, os alunos se inclinavam, desde o primeiro ano escolar, sobre os mesmos autores latinos, profanos e religiosos. Como a base era comum, a nacionalidade nao contava muito na libera litteraru res publica. Os italianos Lanfranco de Pavia e Santo Anselmo de Aosta se tornaram, um apos o outro, abades do convento do Bico, na Normandia, e depois, arcebispos de Cantuaria; o ingles Joao de Salisburia ocupou a sede episcopal de Chartres, uma multidao de estudantes de todos os paises afluiam as universidades de Paris e de Bolonha. Os sabios do mundo inteiro falavam a mesma lingua e uma unidade espiritual, apoiada em estudos comuns, comecou a ligar o conjunto de todos os paises ocidentais.

De outro lado, a diversidade das linguas subjacentes e das instituicoes politicas e sociais introduziram muitas diferencas locais, assim como temporais e individuais no latim deste periodo. E facil constatar, por exemplo, que o vocabulario varia de uma regiao para outra. Vocabulos da lingua materna eram acolhidos sem cerimonia, sobretudo nas cartas e documentos semi-eruditos [os textos sao de origem alema]. Nos paises nao-romanicos, o latim esta, deste modo, cheio de vocabulos de origem estrangeira. Na Inglaterra, encontramos, por exemplo, schopa = "shop", Daywerca = "daywork", laga = "law", stiremannus = "steersman"; na Alemanha, hansa = "Hansa", associacao comerciantes, burchgravius = Burggraf; na Polonia, cosakus = "latro", cmetho = "colon". Nos paises de linguas romanicas, os escribas quebram a cabeca para restituir uma forma latina aos vocabulos da lingua corrente. Assim para dar apenas alguns exemplos escolhidos ao acaso, o vocabulo latino mansionile veio a dar mesnil no antigo frances. Muitos escritores adivinharam a boa etimologia do vocabulo, mas outros empregavam formas semi-eruditas como mesnillum, meisnillum, maisnile, masnile, mansile etc. O adjetivo latino medianus evoluiu para mezzano na Italia, em meja no sul da Franca. Dai, as formas mezanus e meianus nos documentos desses paises. Na Catalunha, encontra-se um verbo acuydare, aquindare, acontare, aquundare etc. E o latim accognitare tornado acuyndar, acuydar, acundar na lingua falada e latinizada deste modo temerario. Os sabios mostraram que o espanhol manzano, mazano, "macieira", deriva de mattianum. Tentou-se representar este vocabulo de origem obscura por mancanum, macanus e outras formas. E curioso ver que, nos documentos, o latim da baixa Idade Media, aparecia frequentemente sob uma forma mais estranha nos paises romanicos do que noutros paises. Para os escribas romanicos, a lingua erudita ainda se encontrava muito proxima de seu falar cotidiano.

E necessario, entretanto, atentar-se para a migracao de palavras: o que era corrente, por exemplo, em Paris, foi rapidamente im portado pelos estudantes de outras regioes. Encontramos, assim, frequentemente, os substantivos em -agium nas regioes nao-romanicas, embora, na maior parte dos casos, este sufixo provenha, sem duvida, da Franca, onde o latim -aticum deu -age (hominaticum > antigo frances hommage > lat. medieval hommagium; cf. ainda linguagium, passagium, villagium etc.) (1).

Evidentemente, o sentido dos vocabulos varia tambem de uma regiao a outra. Emprega-se consul em Roma para designar um funcionario da administracao pontifical, mas, nas cidades alemas, para designar um membro do conselho municipal; proconsul pode significar "xerife" na Inglaterra, "burgomestre" na Alemanha; o valor de miles se estende do simples "soldado" a "senhor" e "cavaleiro" (2).

Para nos, e mais dificil de escolher as diferencas locais de pronuncia, problema que ainda nao foi objeto de estudos serios. Observando a tecnica das rimas, pode-se, entretanto, fazer-se uma ideia da pronuncia escolar. E tipico que na Franca os vocabulos quondam e undam, responde e unde, abscondi e profundi formem rimas perfeitas no seculo XII; isso prova que se pronunciava ondam, onde e profondi sob a influencia do antigo frances onde, ont e parfont (3). Sao muito frequentes, sobretudo na Franca, as rimas do tipo antiquus--inimicus, unquam--aduncam, precor--aequor, ou nescit--reiecit, fae ce- quiesce, facit--pascit, docens--noscens (1): qu havia perdido seu apendice labial (2), e diante de e e i nao se fazia distincao entre c e sc. O t final que, depois de muito tempo, tendia a se enfraquecer, caiu no frances antigo por volta de 1200. Em consequencia disso, os poetas rimaram quicquid e reliquit, stravit e David, cujas consoantes finais se confundiam no falar dos franceses, como o diz expressamente o gramatico Pierre Helie (3). Para a pronuncia, nao importava que no latim classico as vogais acentuadas tenham sido longas ou breves, as consoantes duplas ou simples; cf., por exemplo, as rimas ignitis--sagittis, extollunt- colunt, vitae--mitte, intercedat--reddat (4). A equivalencia fonica de magnityranni, signans--cachinnans etc., mostra uma assimilacao gn>nn; assim como os grupos ps e ks foram simplificados em ss: ipsas--remissas, enixa--amissa, dixit -scripsit e em Hugues dOrleans, 15,41 e ss., velox--Pelops--celos. Nenhuma dessas mudancas esta completamente de acordo com a evolucao fonetica do frances. Nao se espante por encontrar na Franca muitas rimas do tipo benedicta--vita, peccatum--actum, sancti--creanti, tinctus--intus, mas e possivel que a pronuncia escolar tenha sido influenciada pelos italianos (5). A aproximacao de matre e deitate, Christum e magistrum, ventri e furenti indica uma articulacao muito fraca do r nesta posicao. Mesmo no antigo frances dames pode rimar com armes, presse com averse etc. (1).

Por falta de pesquisas especiais, ainda nao podemos esbocar uma historia da pronuncia escolar do latim da Baixa Idade Media. Havia, sem duvida, outros "dialetos" eruditos, alem daquele que acabamos de lembrar, mas eles nao parecem ter tido um papel importante. A influencia da civilizacao francesa era preponderante naquela epoca. Apos a invasao normanda, a Inglaterra se tornou uma provincia cultural francesa e, mais tarde, o meio escolar de Paris seduziu a elite intelectual e a juventude de toda a Europa. Provavelmente, os estudantes levaram, cada um a sua regiao, alguns detalhes da pronuncia francesa da lingua erudita.

Na epoca carolingia, as abadias eram os focos de civilizacao mais importantes, mas apos o seculo X, quando uma nova estrutura da vida politica, economica e intelectual comeca a se desenhar e a vida urbana retoma sua vitalidade de antigamente, antes, sao as escolas episcopais que se colocam a frente do desenvolvimento. Na atmosfera mais livre e mais democratica dessas escolas, a atividade intelectual trouxeram consigo frutos que se impoem a nossa admiracao.

O estudo do latim foi cada vez mais aprofundado; e os professores e seus alunos chegaram, por vezes, a assimilar perfeitamente todas as sutilezas da lingua erudita. A perfeicao linguistica e um dos tracos mais tipicos da literatura latina do seculo XII, por isto devemos nos deter alguns instantes para darmos uma analise dela.

Cicero, Virgilio, Ovidio e outros autores classicos sempre desfrutaram do favor dos professores. Por vezes, conseguiram imitar tao bem o seu estilo que e dificil distinguir o texto medieval de um texto antigo. E assim que Gerberto de Reims, morto em 1003 como papa, sob o nome de Silvestre II, e grande admirador de Cicero, escreve cartas num espirito humanista que anuncia o que tres seculos mais tarde animara a correspondencia de Petrarca. O poeta Hildeberto de Lavardin, morto em 1133, como arcebispo de Tours, compoe poesias em hexametros e em disticos num tom virgiliano. Por outro lado, sao tao inspiradas no estilo de Santo Agostinho ou de Sao Jeronimo, que os eruditos de nossos dias puderam enganar-se sobre a autenticidade das obras. Mas isto sao excecoes. Em geral, os tracos medievais sao palpaveis, apesar da elegancia do estilo dos grandes autores. E que a imitacao ainda nao se tinha tornado um principio estilistico, como mais tarde, durante a Renascenca. Com efeito, ainda se sentia livre de criar um estilo pessoal e de adaptar a lingua as necessidades do momento. O ensinamento gramatical dado nas escolas forneciam a base linguistica sobre a qual eram criadas novas construcoes. E no vocabulario, principalmente, que podemos seguir este desenvolvimento. Havia sido ensinado, por exemplo, que a poesia classica preferia os adjetivos compostos do tipo altisonus, altitonans, altivolans. Sobre este modelo os poetas carolingios ja haviam criado, entre outros, altiboans, alticrepus, altifluus, altiloquus e continuaram por alticanax, alticanorus, altifer, altipetrus, altisonorus, altitonus, altivolus etc. Os compostos verbais sanctificare, beatificare, glorificare etc. estiveram em moda entre os cristaos do fim da Antiguidade (2). As composicoes eram muito praticas e, sobre seu modelo, forjaram-se, na Idade Media, verbos como ratificare, publificare, exemplificare, que foram muito produtivos nas linguas modernas (1). Os diminutivos formaram sempre um grupo favorecido.
   Munda cultelum, morsellum quere tenellum, Sed per cancellum, post
   supra pone platellum,


"Limpa a faca, procura um pequeno pedaco, mas com o garfo, depois, coloca-o em teu prato", escreve um professor, influenciado, ao que parece, pela lingua francesa. Outras formacoes desse genero sao fabrellus, tortella, pompula, por faber, torta e pompa2. Para fazer os alunos compreenderem a formacao e o emprego dos verbos incoativos, um outro mestre-escola compos os seguintes versos:
   Crescit, decrescit, in vita non requiescit, Tandem vilescit,
   putrescit, quando senescit, Vultu pallescit, cupidus fore non
   erubescit, Infans marcescit tacite pariterque liquescit,


"Ele cre, descre, nao descansa em sua vida; enfim, ele se envilece, corrompe-se; quando envelhece, se enfraquece, nao se cora por ser avido; menino sem voz, descora-se e desmaia". Do mesmo modo, por exemplo, forjam-se gaudescere, movescere, calvescere, "tornarse calvo", stultescere etc. Frequentemente os verbos perderam o sentido incoativo, assim como no proverbio:
   Dum Mars arescit et mensis Aprilis aquescit, Maius humescit,
   frumenti copia crescit,


"Quando marco e seco, abril chuvoso e maio umido, a colheita e bela" (1).

Na epoca arcaica, para dar expressividade a frase, ja se preferia acumular os vocabulos de mesma sonoridade. Enio, por exemplo, escreve Priamo vi vitam evitari. Na Idade Media, esta figura etimologica foi largamente utilizada, com certa preferencia pelo jogo com o prefixo verbal de. Assim, lemos em Alain de Lille defloratus flos effloret, onde effloret nao significa "florir", como nos antigos, mas "perder sua flor", e, alem disso, em Gautier de Chatillon rosa derosatur, mundus demundatur, masculos demasculare, federa defedare, nas Carmina Burana titulum detitulare, virginem devirginare, noutros, por exemplo, canonicum decanonicare, depuerare pueros (2).

Um traco caracteristico do latim medieval e o emprego de nomes de pessoas para simbolizar certa qualidade. Assim, Salomao representa a sabedoria, Paris a beleza, Catao a moral, Cicero a eloquencia, Crasso a avareza. Esses nomes, inclusive, foram declinados como adjetivos. Henri de Settimelo escreve codrior (Codro e um poeta mendicante que aparece em Juvenal 3,203), neronior, salomonior Salomone, platonior ipso e outros autores gostavam igualmente dessas expressoes (3) (Hugues dOrleans havia forjado o tipo capto captivior, paupere pauperior (4)). De nomes de pessoas tem sido tirados ate verbos: Helena e Tiresias deram helenare e tiresiare, a partir de Absalon, Nero, Gualterus, Venus, Satanas criaram-se os

verbos absalonizare, neronizare, gualterizare, venerizare, satanizare (1). Em geral, esses dois tipos de formacao de verbos, em -are e em -izare, desfrutaram de uma popularidade enorme. Pode-se citar presbiterare, pontificare, "ordenar padre, sagrar bispo", vitulare, "comportar-se como um bezerro", musare, "pegar ratos", gulare, "comer excessivamente", cervisiare, "preparar cerveja", podagrare, "tornar alguem gotoso" (2), e, por outro lado, sillabizare, "ensinar a alguem ler", stultizare, puerizare, "ser tolo, ser pueril", e, do mesmo modo, eremizare, monachizare, scholizare, harmonizare, modulizare etc. (3).

Os versos seguintes (4) podem ilustrar os abusos a que se deixaram arrastar certos autores, no prazer de formar tais novos verbos:
   Romulizanti regi Martyrizandum corpus Congressus agonizans Tradebat
   vivens homo Victorizat. Pro Domino.


"Ele triunfa agonizante, quando encontra o rei arrogante. Ele, um homem vivo, entregava seu corpo ao martirio para a gloria do Senhor".

Bem frequentemente os poetas criaram novos vocabulos para obter rimas. Lemos, por exemplo, num canto anonimo (1):
   Pange, lingua, gloriosa Pessumdata luctuosa vulnerum solemnia,
   crucis ignominia, Mentis cedant nubilosa, Vivae carnis triumphosa
   serena sint omnia, receptae laetitia Ut laudentur amoenosa Quina
   sibi speciosa summi regis stigmata. servavit monilia. Aqui, e facil
   ver que os neologismos amoenosus e triumphosus sao devidos as
   necessidades da rima.


Os autores deixaram-se embriagar por sua virtuosidade e tentaram jogos de palavras de toda sorte. Assim, Gautier de Chatillon joga com a dupla significacao do vocabulo mundus, "mundo" e "limpo", nos versos:
   Quid desertum nisi mundus? Mundus quidem sed immundus, Quia munda
   respuit (2).
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Publication:Soletras
Date:Jul 1, 2006
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