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Manual Pratico de Latim Medieval (I-breve historia do latim medieval).

INTRODUCAO

O Manual de Latim Medieval apresenta problemas particulares. Como este latim nao e uma lingua nova e autonoma, mas a continuacao erudita e escolar do latim da epoca romana, nao e pratico partir da estaca zero, como se fez com muito proveito, em outros manuais da colecao "Connaissance des Langues", dirigida por Henri Hierche. Nossa obra supoe alguns conhecimentos do latim classico, cujos elementos nao serao repetidos aqui. Alem disso, o latim medieval nao apresenta uma unidade, tomando aspectos muito variados segundo as epocas, as regioes e o nivel cultural dos autores que dele se servem. Para dar uma ideia desta variedade, achamos util comecar nossa obra por uma breve historia desta lingua, que sera seguida de uma antologia de textos escolhidos para ilustrar a primeira parte do livro, acompanhados de uma traducao e de alguns comentarios.

Nas introducoes ao estudo do latim medieval que tem sido publicadas ate aqui, como a de K. Strecker e R. B. Palmer, Introduction to Medieval Latin (Berlim, 1957), um espaco importante e consagrado as noticias bibliograficas, a historia da literatura e das bibliotecas, a tradicao da literatura classica e a paleografia. Propositalmente renunciamos a concorrer com esses manuais. Quanto a bibliografia, nos nos contentamos com algumas notas sumarias e remetemos a obra recentemente publicada por Martin R. P. McGuire, Introduction to Mediaeval Latin Studies (Washington, 1964), onde informacoes mais detalhadas poderao ser encontradas. De fato, nosso estudo esta limitado a lingua, mas este estudo e conduzido de um modo novo. Ao inves de tratar do latim medieval como uma unidade, procuramos delimita-lo em diversos dominios. Comecamos pelo latim do baixoimperio, que constitui o ponto de partida. Para a alta Idade Media, pareceu-nos necessario distinguir as regioes romanicas das naoromanicas. Nas primeiras, o latim era encontrado ainda em relacoes estreitas com a lingua falada, na Franca ate a epoca de Carlos Magno, na Italia e na Espanha, ainda mais tarde. Nas ilhas britanicas, ao contrario, a situacao era completamente diferente. La, o latim era uma lingua estrangeira que os letrados aprenderam na escola com muito sacrificio e sem encontrar apoio em sua lingua materna. A reforma carolingia, que merece um capitulo a parte, fez que as condicoes se tornassem semelhantes na Franca, e no inicio do segundo milenio, nem mesmo os italianos e os espanhois podiam compreender o latim sem fazer alguns estudos mais ou menos aprofundados. Na baixa Idade Media, a escola latina era quase a mesma em todas as regioes ocidentais, criando uma unidade espiritual consideravel no mundo sabio. Por isto e que nos permitimos agrupar num so capitulo todos os tracos caracteristicos desta epoca.

Nossa selecao de textos e mais passivel de criticas. Alguns perguntarao por que nao demos exemplos do estilo tao original de um Sao Bernardo ou de um Tomas Kempis, outros, por que nao estudamos mais detidamente os tracos locais dos textos medievais etc. Poderao ser enchidos facilmente varios volumes sem se conseguir esgotar o assunto. Nossa finalidade foi mais modesta. Nao nos propusemos a apresentar uma antologia da literatura medieval, mas a colocar em evidencia as diversas fases da lingua deste periodo e a apresentar ao leitor alguns conhecimentos gerais a partir dos quais podera prosseguir com estudos especializados. Mesmo neste ponto de vista, alias, todo manual continuara sempre mais ou menos imperfeito.

Nao conseguiriamos terminar estas notas preliminares sem dizer o quanto devemos a M. Pierre Petitmengin. Ele nos fez a gentileza de ler o manuscrito deste livro e de nos sugerir mil preciosas correcoes e importantes observacoes. Somos felizes por lhe testemunhar aqui nosso vivo reconhecimento.

O LATIM DA IDADE MEDIA

I. Breve historia do latim medieval

No comeco, o latim foi uma lingua de pastores e de camponeses. Seu emprego estava restrito a Roma e seus arredores. Apesar do inicio humilde, o latim foi se tornando aos poucos uma lingua de alta cultura, expandindo-se por todo o ocidente do imperio romano. Poucas linguas conheceram tao brilhante sucesso.

Mais importante ainda e a historia do latim apos a queda do imperio. O latim falado, conservando, durante muito tempo, uma estabilidade espantosa, nunca morreu; modificou-se de uma geracao a outra, diferenciou-se, e esta evolucao deu origem as linguas neolatinas ou romanicas. O latim escrito tambem nao deixou de ser empregado. Ele servia como meio de expressao tanto nas igrejas quanto nas escolas: era escrito e falado. E certo que o latim medieval ja nao era uma lingua nacional e seu uso se limitava a classe erudita da sociedade. Mas, gracas a isso, nao conhecia fronteiras geograficas. Com o cristianismo, passa as regioes de linguas celtica, germanica, hungara e eslava, tornando-se uma lingua comum a toda a civilizacao ocidental, imprimindo-lhe um cunho inapagavel. Durante os primeiros seculos da epoca moderna, a elite intelectual ainda conhecia a fundo o latim, cuja importancia pratica so comecara a diminuir apos os mea dos do seculo XVII. Mesmo em nossos dias, o latim conserva sua universalidade. As escolas o ensinam, mesmo do lado de ca do Atlantico; a Igreja Catolica o pratica como lingua liturgica, as ciencias e as tecnicas antigas e novas recorrem a ele para constituirem o seu vocabulario. Por isso, aquele que deseja compreender a unidade e a complexidade de nossa civilizacao nao pode se dispensar de estudar esta lingua que, durante muito tempo, formou os espiritos. Lingua alguma possui uma historia parecida, lingua alguma representou um papel comparavel.

O periodo da historia do latim de que trataremos aqui compreende uns mil anos. O fim desse periodo e claramente marcado pelo Renascimento. Seu inicio e mais dificil de ser determinado. A escola e a civilizacao romanas nao desapareceram com a destruicao de Roma pelos visigodos nem com a deposicao do ultimo imperador romano por Odoacro. So aos poucos a organizacao romana foi deixando de funcionar, comecando os homens a viver, a refletir e a se exprimir de um modo novo. O latim da Idade Media e a continuacao do latim escolar e literario do baixo-imperio. A transformacao foi feita muito lentamente. E, para compreender esse desenvolvimento, e necessario partir da situacao linguistica anterior a queda do imperio.

O latim ao final da epoca imperial

No III seculo, o imperio romano conheceu crises violentas. Os persas, os godos, os alamanos e outros povos barbaros infligiram aos romanos dolorosas derrotas; internamente, revolucoes interminaveis comecavam a minar o estado. Quando, por fim, os barbaros foram repelidos e a unidade do imperio restabelecida, o mundo havia modificado profundamente. Roma ja nao era o centro da vida politica e cultural. Os imperadores residiam em Milao, Treviros e Constantinopla e mesmo em outras cidades. Estas cidades, assim como Cartago e outras capitais provinciais ofereciam frequentemente um ambiente mais favoravel a vida intelectual do que a antiga metropole, com o que ja se podia prever a futura decomposicao linguistica.

O senado ja nao tinha importancia politica. O imperador, que se qualificava de dominus era onipotente, seus ministros formavam o consistorium sacrum, os funcionarios da corte recebiam o titulo de comites, "companheiros do senhor, condes". Os imperadores impuseram a sociedade um sistema de castas segundo o qual todos estavam ligados a uma profissao ou oficio e a uma classe social. Ao mesmo tempo, instituiu-se um novo sistema de titulos honorificos. O imperador podia ser chamado de gloriosissimus, serenissimus, christianissimus, os funcionarios eram divididos em quatro classes, cujos sim bolos ou formas de tratamento eram illustres, spectabiles, clarissimi e perfectissimi. Dirigiam-se ao imperador atraves das seguintes palavras, entre outras: vestra maiestas, vestra gloria, vestra pietas, e a outras pessoas, segundo a sua classe, por vestra excellentia, eminentia, magnificentia, spectabilitas etc. Os titulos beatitudo e sanctitas eram reservados aos dignitarios eclesiasticos. O imperador, falando de si mesmo, nao dizia mais ego, mas nos, o sudito devia chama-lo por vos e nao tu. Este emprego do plural se expandiu muito rapidamente em todas as classes sociais influenciadas pela lingua oficial e, em pouco tempo, permitiu-se o emprego do plural de reverencia mesmo para se dirigir a colegas. (1) As reparticoes da administracao imperial e, atraves de seu modelo, as chancelarias eclesiasticas introduziram tambem outras expresses que passaram no latim medieval. Por exemplo, serviu-se frequentemente dos participios suprascriptus, supradictus, praedictus, praefatus, memoratus, para substituir um pronome anaforico is. Na maior parte das linguas europeias, o emprego excessivo dos vocabulos correspondentes, "supradito, sobredito, supramencionado" etc., e ainda um sinal de formalismo e de pedantismo. Do mesmo modo, substituiu-se frequentemente hic por praesens e se escreveu praesenti iussione praecipimus, scriptis praesentibus adhortamur, lator ou portitor praesentium (sc. litterarum), praesens portitor etc. Dai as expresses francesas par la presente ou les presentes, le present porteur etc. Havia grande predilecao pelos ablativos absolutos do tipo habita districtione (= cum distictione), excusatione cessante, omissa excusatione, excusatione postposita (= sine excusatione). O latim nao tinha participio presente do verbo esse. Tais casos se resolviam utilizando os participios consistens, constitutus, positus, por exemplo, quando se dirigia uma carta a tal ou qual funcionario Romae constitutus. Assim, parece que, na lingua oficial do imperio, desenvolveu-se o emprego de um substantivo abstrato como ministerium e imperium no lugar de minister e imperator. Nas atas e nos diplomas da baixa Antiguidade e da Idade Media, encontramos frequentemente officium, obsequium, coniugium, matrimonium com o sentido de "funcionario" e de "mulher". Testimonium sobrevive no frances temoim, potestas no italiano il podesta; cf. Lex Sal. 56,1 tria testimonia iurare debent "tres testemunhas devem jurar"; Cod. Theodos. III,11,1 ad magnificam potestatem qui principis auribus hoc possit intimare recurrat, "que ele recorra a um alto funcionario que possa relatar isto ao imperador".

Em 313, o imperador Constantino promulgou o celebre edito de Milao, em que proclamou a liberdade das religioes, em 392, o imperador Teodosio proibe os cultos pagaos e o triunfo do cristianismo foi total, a partir dai. Estas sao duas datas de uma importancia fundamental para o Ocidente, mesmo de um ponto de vista linguistico. Os cristaos haviam levado uma vida distante, formando um grupo isolado da grande massa da populacao, desprezado e frequentemente perseguido. Seu particularismo favoreceu a criacao de um novo linguajar que os pagaos compreendiam tao mal quanto a nova ideologia. A partir de entao, eles seriam os mestres da sociedade e impuseram aos outros suas ideias e sua lingua. (1)

Inicialmente, a nova religiao foi praticada no Ocidente pelos orientais que falavam o grego e, durante quase dois seculos, o grego foi a lingua da igreja, mesmo em Roma. Disso resultou que uma grande parte do vocabulario cristao proveio de emprestimo do grego. Tais sao, sobretudo, os nomes que designam a organizacao e as instituicoes da igreja que se latinizaram. Assim ecclesia e um emprestimo muito antigo, como o prova a acentuacao ecclesia e nao ecclesia (ver abaixo). Outros vocabulos desse genero sao episcopus, presbyter, diaconus, martyr, evangelium, baptisma ou baptismus. Por intermedio da Biblia, alguns hebraismos foram bem sucedidos ate no Ocidente, por exemplo, sabbatum, pascha, satanas, gehenna. Os latinos incorporaram tao bem estes vocabulos a sua lingua que ate puderam juntar a eles sufixos da propria lingua. E assim que criaram hibridismos como episcopatus, episcopalis, baptizator, paschalis.

Entretanto, e muito interessante ver que entao as realidades mais ou menos concretas foram expressas por vocabulos emprestados, foram preferidos vocabulos latinos para exprimir as nocoes abstratas da fe crista. Os antigos vocabulos latinos credere, fides, gratia, salus, revelatio assim como outros, tomaram o mesmo conteudo cristao que tinham os vocabulos gregos correspondentes. Para formular a nova ideologia em latim, foram forjados, alem disso, grande quantidade de vocabulos novos. E com o cristianismo, por exemplo, que aparecem salvare, salvator, sanctificare, sanctificatio, trinitas, incarnatio, carnalis, passibilis, transgressor. Os pagaos acusavam os cristaos de turvar a pureza da lingua. Mas, Santo Agostinho responde (Serm., 299,6) a proposito de salvator:
   Nec quaerant grammatici quam sit latinum, sed christiani quam
   verum. 'Salus' enim latinum nomen est. 'Salvare' et 'salvator' non
   fuerunt haec latina antequam veniret salvator. Quando ad latinos
   venit, et haec latina fecit.


"Os gramaticos, que nao questionem se o vocabulo e latino, mas sim os cristaos se ele e verdadeiro. Salus e um vocabulo latino, salvare e salvator nao existiam antes da vinda do Salvador. Quando ele veio para os latinos, estas realidades foram introduzidas em latim."

Os cristaos ocidentais podiam, as vezes, escolher entre diversos vocabulos latinos, quando se encontravam diante da tarefa de exprimir suas ideias. O latim possuia uma serie de verbos com o sentido de "rezar": obsecrare, orare, petere, precari, rogare etc. Desses verbos, orare foi logo suplantado pelos outros na lingua corrente e so continuou sendo empregado em algumas formulas fixas que tinham quase sempre um sabor arcaico e solene. E por isso que foi escolhido para designar a oracao crista, dando-se uma vida nova a um vocabulo que estava em vias de desaparecimento da lingua latina. E tambem muito instrutivo considerar a historia do vocabulo gentes. Para representar a expressao "os pagaos", os cristaos hesitaram, inicialmente, entre o emprestimo grego ethnici e os vocabulos latinos nationes e gentes. Finalmente, venceu o ultimo termo. A razao e que, ja na lingua classica, ele continha um sentido pejorativo, visto que havia o costume de opor as duas expresses populus Romanus e gentes. O significado de gentes passou a ser, por causa desta oposicao, "povos estrangeiros" e "barbaros", com um que de desprezo que favoreceu o emprego cristao do vocabulo e sua transformacao em "naoiniciados", "pagaos".

Tem-se acentuado a importancia do livro para a religiao crista. E natural que o latim cristao tenha sofrido uma profunda influencia da lingua da Biblia, que todo o mundo entendia na igreja, mesmo os mais humildes, que nao sabiam ler. Ora, as antigas traducoes da Sagrada Escritura eram muito literais e, de certa maneira, o hebraico e o grego exerceram certa influencia, ate no dominio da sintaxe. Eis dois exemplos que ilustrarao o mecanismo e o resultado desta influencia biblica.

O primeiro diz respeito a sintaxe. No latim vulgar, podemos constatar certa tendencia a ampliar o emprego da preposicao in. Nao se dizia somente in manu tenere, in equo vehi, mas ainda offendere aliquem in aliqua re etc. Os antigos tradutores se apoiaram nesta tendencia quando escreveram frases como Exodo, 17,5 virgam in qua percussisti flumen accipe in manu tua, "toma em tua mao a vara com que feriste o rio", e Exodo, 17,13 fugavitque Iosua Amalec et populum eius in ore gladii, "Josue pos em fuga Amalec e seu povo ao fio da espada". Mas eles nao teriam jamais escolhido uma expressao tao audaciosa e tao surpreendente aos ouvidos latinos, se nao tivessem lido na versao dos Setenta frases em que a preposicao grega [??]* tinha o mesmo sentido instrumental. Este emprego da preposicao grega depende, por sua vez, da construcao no original hebraico. O exemplo hebraico influenciou, portanto, na versao grega e esta estimulou uma tendencia que se encontrava na lingua latina. Entretanto, era tao fraca esta tendencia que Santo Agostinho se viu obrigado a explicar o exemplo que acabamos de citar com as seguintes palavras 'in qua percussiti' dixit pro eo quod dicimus 'de qua percussisti', sublinhado que in no lugar de de pertencia a linguagem biblica. Seguindo o exemplo da Biblia, os Padres se servem muito frequentemente de um in instrumental que, de certo modo, se tornou usual no latim literario dos cristaos.

O outro exemplo e, talvez, ainda mais instrutivo. Em sua traducao do texto hebraico, os Setenta escolheram frequentemente um unico vocabulo grego para traduzir certo vocabulo hebraico, sem se preocupar com a polissemia do original. Assim, o hebraico ma-Msa-l, "comparacao", "proverbio", "discurso", "palavra", e sempre traduzido por PARABOLE, embora o vocabulo grego so possua o sentido de "comparacao". Nas verses latinas da Biblia, frequentemente se tomou emprestado o vocabulo grego parabola em todos os sentidos do original hebraico, mesmo o de "vocabulo", "palavra". Na linguagem biblica, o uso de parabola, "palavra" se expandiu na lingua corrente dos cristaos e quando o cristianismo, apos a paz constantiniana, se estendeu a toda a sociedade, parabola se tornou um vocabulo corriqueiro. Criou-se um verbo parabolare, que encontramos pela primeira vez num texto da epoca merovingia, a Visio Baronti, cap. 1: ille nihil homini valuit parabolare sed digito gulam ei monstrabat, "ele nada podia dizer ao homem, mas lhe indicava com o dedo sua goela". O italiano parlare, e o frances parler mostram que no latim falado da baixa Antiguidade este verbo ja havia substituido loqui que nao deixou traco nas linguas romanicas. (1) As revolucoes politica, social e espiritual dos III e IV seculos desenvolveram tambem outras forcas que irresistivelmente transformaram a lingua. O latim classico foi criado e cultivado por uma elite romana. Nesta epoca de confusao, Roma e a Italia cederam lugar as provincias, e as altas classes da sociedade se renovaram. Nao se podia mais preservar uma sutileza como o ritmo quantitativo. Na pronuncia classica, o acento era musical, o que quer dizer que ele comportava necessariamente uma elevacao da voz, enquanto o elemento de intensidade era muito sutil. Os romanos nao tinham dificuldade para perceber a diferenca entre as silabas longas e as silabas breves, e a quantidade tinha, entao, uma funcao fonologica: 'anus, "mulher idosa", diferenciava-se de anus, "anel", assim como de annus, "ano". Mas durante o seculo III uma nova pronuncia se generalizou. O acento foi carregado cada vez mais de intensidade, ate que se tornou essencialmente um acento dinamico. A intensidade crescente do acento confundiu inteiramente o antigo ritmo quantitativo. As vogais breves atingidas pelo acento se tornaram longas e as vogais longas inacentuadas se abreviaram. Isto quer dizer, entre outras coisas, que o tipo anus desapareceu da lingua falada. Santo Agostinho constata que seus compatriotas ja nao entendiam a quantidade classica das silabas e que se dizia, por exemplo, cano por cano. O gramatico Donato fala da pronuncia deos ao inves de deo. O novo ritmo da lingua se fundamentava nos acentos, como nas linguas romanicas atuais. Para a versificacao, o enfraquecimento da quantidade classica foi de importancia capital, como veremos mais adiante. Para o sistema fonetico da lingua falada, as consequencias nao foram menos graves (1).

Sabe-se que, nas silabas abertas acentuadas, i e u breves receberam o mesmo timbre que e e o longos. Na maior parte da Romania, piram se tornou pera e, um pouco mais tarde, gulam se tornou gola, com os mesmos sons que tela e sola (cf. italiano e espanhol pera, tela, gola, sola, frances poire, toile, gueule, seule). Ao mesmo tempo, as antigas vogais e e o se ditongaram: ferum passou a fero > fiero e, pouco mais tarde, novum a novo > nuovo (cf. italiano fiero, nuovo, espanhol fiero, nuevo, antigo frances fier, nuef). O antigo ditongo ae que desde a epoca republicana tendia a simplificar-se em um e aberto, foi tratado da mesma maneira que e. Assim, caelum tornado c,elu, se pronunciava agora cielo (cf. italiano e espanhol cielo, frances ciel). A monotongacao de oe resultou num e fechado; a vogal acentuada de poena, por exemplo, nao se diferenciava da de vena (cf. italiano e espanhol pena, vena, frances peine, veine).

A ortografia latina foi perturbada por estas modificacoes da pronuncia. Nas inscricoes da epoca imperial, encontramos grafias como veces, menus, colomnas por vices, minus, columnas ou egrotus, eris, Advaentu, Numaerio, amenus, Phebus ao inves de aegrotus, aeris, Adventu, Numerio, amoenus, Phoebus. Nos autores da alta Idade Media, a ortografia e frequentemente tao caotica que dificilmente se pode decifrar o sentido do texto e fazer-se uma ideia da pronuncia que se esconde atras do emprego inabil das letras i, e, u, o, ae, oe, como veremos mais adiante.

As vogais atonas tendem a ser suprimidas; e esta sincope se torna cada vez mais frequente, a medida que se desenvolve o acento de intensidade. No Appendix Probi, manual de ortografia da baixa Antiguidade, lemos regras como: masculus non masclus, vetulus non veclus, frigida non fricda, tabula non tabla, viridis non virdis. Dessas formas sincopadas derivam os vocabulos franceses male, vieil, froid, table, vert.

Desaparecido o ritmo quantitativo, a velha regra da penultima ja nao podia funcionar. Isto porque os vocabulos tomados de emprestimo ao grego foram tratados de uma maneira diferente a epoca classica (ou arcaica) e mais tarde. Na epoca de Cicero, falando sua lingua materna, um romano nao podia preservar a acentuacao grega de vocabulos como philosophia e Akademeia (1). Isto de colocar o acento na penultima breve ou de nao acentuar uma penultima longa seria contra o genio da lingua latina. Logo, Cicero diziaphilosophia e academi'a. Mas, apos o enfraquecimento das quantidades vocalicas que tambem ocorreram na lingua grega, os latinos puderam adotar a acentuacao estrangeira philosophia e academia. No latim falado do fim da Antiguidade, havia, portanto, duas maneiras de acentuar os vocabulos gregos. Os emprestimos que penetraram na lingua corrente antes das grandes mudancas do III seculo eram inteiramente latinizados: kamara e ecclesia, por exemplo, se tornaram camera e ecclesia. Os emprestimos mais recentes conservaram a posicao do acento grego. Assim Eremos deu eremus, como se ve pelas formas romanicas, italiano eremo e ermo, espanhol yermo, antigo frances erm. Ha mesmo alguns vocabulos que receberam um duplo tratamento, como butyron e egkauston, que aparecem na Italia sob as formas latinizadas but'yrum e encaustum donde o italiano butirro e incostro > inchiostro, na Galia, com a acentuacao grega butyrum e encaustum (donde antigo frances burre > beurre e enque > encre). No latim literario do fim da Antiguidade e da Idade Media, a situacao e completamente confusa. Segue-se frequentemente o sistema classico aplicado (= appris) principalmente para os estudos dos antigos poetas e para se escrever, por exemplo, em versos metricos, sophia, mas o tipo recente philosophia, academia, abyssus, problema e mais corrente. Do mesmo modo, encontramos na poesia ritmica Antiochia, Alexandria, Theodorus, orthodoxus, tyrannus, speleum, sarcophagus, Christophorus para os vocabulos gregos Antiocheia etc. Somente se o modelo era polissilabico e oxitono, os latinos nao podiam conservar a acentuacao do original. Nesse caso, eles entendiam um acento secundario sobre a antepenultima e desta maneira os vocabulos desse tipo puderam tornar se proparoxitonos em latim: Thesauros, baptismmos, Agatha sao, as vezes, acentuados thesaurus, baptismus, gatha nos poemas latinos (1).

E necessario, alem disso, prestar atencao para alguns deslocamentos do acento que ocorrem em certos vocabulos de origem latina. Em geral, o lugar do acento nao mudou, no entanto, notam-se algumas excecoes. Acontece notadamente que o acento de um verbo composto passa do prefixo para o radical, cuja vogal original e frequentemente restituida. Assim, cont'inet foi substituida por contenet na lingua falada (italiano e espanhol contiene, frances contient). Os textos apresentam muitos exemplos desta recomposicao: depremit, displacet, incadit etc., e a versificacao confirma frequentemente a acentuacao na penultima, mesmo quando a vogal nao muda: induit, invocat, retulit etc. O fato de que nesses casos a penultima foi breve na epoca classica nao impedira o deslocamento do acento porque o ritmo quantitativo desapareceu e porque a regra da penultima parou de funcionar.

Um outro grupo de vocabulos em que o acento sofreu um deslocamento e aquele em que a penultima se compoe de uma vogal breve seguida de uma muta cum liquida. Sabe-se que a acentuacao classica era do tipo integrum. Na lingua falada, a penultima silaba passou logo a travada e recebeu o acento: integ-rum; cf. italiano intero e intiero, espanhol entero, frances entier. Na Idade Media, os professores e os poetas nao compreenderam muito bem esta evolucao e as regras dos antigos gramaticos. Eles pronunciavam integrum, mas sabiam que este vocabulo devia escandir-se segundo Donato, inte grum, e em sua ambicao de restaurar a prosodia classica, mudaram frequentemente aratrum, theatrum, candelabrum, lavacrum, dolabra, salubris, delubrum, vocabulos nos quais a penultima e longa por natureza, em aratrum, theatrum, candelabrum, lavacrum, dolabra, salubris, delubrum.

Notamos, enfim, que nos paroxitonos do tipo filiolum, mulierem, parietem, o acento passou de i (ou de e) para a vogal seguinte que se fechou e alongou, cf. italiano figliuolo, espanhol hijuelo, frances filleul, a. italiano mogliera, espanhol mujer, antigo frances moillier, italiano parete, espanhol pared, frances paroi. Ja na baixa latinidade, encontramos frequentemente em poesia uma vogal longa nos vocabulos viola, liliola, filiolus, mulierem, parietem etc.

O latim falado do baixo imperio sofreu diversas outras modificacoes foneticas. Nao podemos mencionar aqui senao as que tiveram uma importancia especial para o latim medieval.

As vogais e e i em hiatos fecharam-se para chegarem a semiconsoante y: vinea > vinya > italiano vigna, espanhol vina, frances vigne. O autor do Appendix Probi previne seus alunos contra as grafias vinia, cavia, lancia, calcius, baltius, grafias que encontramos mil vezes no latim merovingiano. Paralelamente, o e u em hiatos se fecharam numa semiconsoante; cf. Appendix Probi: vacua non vaqua, vacui non vaqui. Por vezes, estas vogais, pura e simplesmente desapareceram. Ao inves de quietus, Neapolis, duodecim dizia-se quetus, Napolis, dodeci, pronuncia que se reflete nas sinereses (synizeses) da poesia medieval. Diante do grupo inicial sp, sc, st, desenvolve-se uma vogal protetica: ispiritus ou espiritus, escola, estella, espectare (frequentemente escrito expectare e confundido com o verbo composto ex-spectare); inversamente, tem-se Spania por (H)ispania.

No inicio da epoca imperial, o b intervocalico e a semiconsoante u atingiram ambos a uma bilabial constritiva (B); dai as confusoes entre as letras b e u, atestadas, por exemplo, nas inscricoes: devere, iuvente < debere, iubente etc., e no Appendix Probi onde se encontra, entre outras, baculus non vaclus, tabes non tavis, plebes non plevis, alveus non albeus. Mais tarde, a bilabial u se tornou labiodental (v); a antiga articulacao so se conservou depois de g e q (lingua, aqua, qualis). Na mesma epoca, os germanos ainda possuiam uma bilabial em vocabulos como werra, wardon. Por isso, quando os romanos tomaram emprestados estes vocabulos, tentaram representar o som inicial por gu: guerra, guardare.

Quando lemos no Appendix Probi: coquus non cocus, equs non ecus, rivus non rius, esses exemplos mostram que o som u entre vogais ou depois de consoante tendia a se fundir na vogal homorganica. Desse modo, quomodo se reduz a comodo e como ja nas inscricoes de Pompeia. A aspiracao h, que, desde a epoca pre-literaria estava em vias de desaparecer, so servia na lingua tardia como sinal ortografico, o que dava lugar a numerosas confusoes: por um lado, ac, ortus, ordeum, aduc etc. para hac, hortus, hordeum, adhuc, por outro, habundare, perhennis, choibere, hanelare (cf. frances haleiner) por abundare, perennis, cohibere, anhelare.

Nao podemos seguir detalhadamente a evolucao dos sons y, dy, gy (= i, di, de, gi, ge diante de vogal), dos quais resultaram, por exemplo: iam > italiano gia, espanhol ya; diurnum > italiano giorno, frances jour; radium > italiano raggio, espanhol rayo, frances rai; corrigia > italiano correggia, espanhol correa, frances courroie. Esta evolucao e atestada desde a epoca imperial, nas inscricoes e nos textos, por grafias como iosum ou zosum = deorsum, baptidiare = bap tizare, Gianuaria = Ianuaria, azutoribus, oze, zabolus, zeta = adiutoribus, hodie, diabolus, diaeta. Os sons ty e ky sofreram uma assibilacao analoga. Nas tabuinhas execratorias dos seculos II e III ja se le Vincentzus, Vincentzo (< Vincentius), ampitzatru (< ampitiatru < amphitheatrum); ci diante de vogal deu um resultado semelhante como se pode concluir das confusoes terciae = tertiae, defenicionis = definitionis etc., que aparecem nas inscricoes a partir do II seculo. Nos textos da Idade Media, as grafias gracia, spacium, comtemplacio, racionabilis sao numerosas, enquanto que o erro inverso, provintia, offitium etc., e muito menos frequente.

Ge, gi e ce, ci palatalizaram e assibilaram-se na maior parte da Romania. Nesta posicao, a sorte do g foi a mesma que a do i; cf. ge nerum > italiano genero, espanhol yerno, frances gendre e iac-ere > italiano giacere, espanhol yacer, frances gesir e as grafias Troga = Troia, agebat = aiebat etc. Os primeiros exemplos da palatalizacao de ce, ci remontam ao V seculo, epoca em que aparece uma forma como intcitamento. Trataremos desse fenomeno um pouco mais adiante.

Certos grupos intervocalicos tenderam a simplificar-se. Assim -nct- tornou-se -nt-: ao inves de sanctus, cunctus, por vezes se dizia santus, cuntus (cf. italiano e espanhol santo, enquanto que o frances saint supoe a conservacao da palatal). Muito mais cedo, -ns- se reduziu em -s- (fato panromanico). Desde a epoca arcaica, cesor ao inves de censor e atestado e o autor do Appendix Probi prescreve: ansa non asa, mensa non mesa, mas alerta tambem para falsas analogias: formosus non formunsus, occasio no occansio. No grupo em -mn, as duas nasais assimilaram em -nn e, as vezes, em -mm-. E por isto que se encontram formas como alunnus ou sollemmo nas inscricoes e, na Idade Media, nos textos (cf. italiano danno < damnum, frances somme < somnum. As linguas romanicas supoem tambem certa tendencia para a assimilacao nos grupos -pt- e -ps- (donde as grafias settembris, scriserunt etc.), assim como nos grupos -ct- e -cs- (cf. ottobres, autor, vissi, visit < vixit). Ks se reduziu a s tambem noutras posicoes, como o mostram as grafias dester, iusta, conius <dexter, iuxta, coniux e os conselhos do Appendix Probi: meretrix non menetris, mas de outro lado: miles non milex.

No que diz respeito as consoantes finais, sabe-se que o m tinha uma articulacao muito fraca desde o inicio da literatura latina. No periodo imperial, a tendencia a suprimir este som generaliza-se. O Appendix Probi diz: numquam non numqua, idem non ide, olim non oli. Nos vocabulos procliticos haud, sed, ad, apud, quod, quid a consoante final perdeu cedo sua sonoridade diante de uma consoante surda. Encontramos, nas inscricoes, por exemplo: at quem, aputforum, quot scripsi. Dai uma grande incerteza na ortografia desses vocabulos. A variacao apud-aput, quid-quit causou, entre outras, as grafias capud, reliquid. Mas, aqui, e necessario levar em consideracao tambem o enfraquecimento do t final na lingua falada, atestada ja em Pompeia: quisquis ama valia, peria qui nosci amare = quisquis amat, valeat; pereat qui non scit amare.

Tambem no dominio da morfologia e da sintaxe, o latim falado conheceu mudancas consideraveis. As fontes nos permitem constatar o inicio do declinio do neutro, que foi geralmente substituido pelo masculino (vinum > vinus, hoc vinum > hic vinum), mas cujo plural, no sentido coletivo, transforma-se por vezes num feminino (folium > folia, italiano foglia, espanhol hoja, frances feuille).

Os substantivos da quarta declinacao passam a segunda, os da quinta a primeira (fructus, genitivo fructi como murus, muri; glacies > glacia). A partir do modelo niger, nigra, nigrum comeca a declinar-se acer, acra, acrum; pauper, paupera, pauperum. Quando ja nao se podia mais discernir entre os, "boca", e os, "osso", este ultimo substantivo mudou-se em ossum, ossi, forma aceita por Santo Agostinho. No interior da terceira declinacao, os substantivos imparissilabos do tipo bos, bovis; lac, lactis cedem a uma tendencia ao nivelamento e obtem um novo nominativo bovis e lacte.

O sistema dos casos comeca a oscilar. O vocativo esta em plena retirada, substituido pelo nominativo, e uns rodeios preposicionais, sobretudo com de, ad, per, cum, cada vez mais substituem o genitivo, o dativo e o ablativo. Depois das preposicoes, o emprego do acusativo tende a generalizar; encontramos ja nas inscricoes de Pompeia a pulvinar, cum discentes suos. No singular, a evolucao dos sons finais leva a uma fusao do acusativo com o ablativo: portam > porta, murum > muro, canem > cane. A hesitacao da lingua entre esses dois casos e observada tambem em algumas construcoes. Ja nao se distingue claramente ubi de quo, in provincia de in provinciam, in civitatibus de in civitates; o acusativo comeca a ser empregado como objeto direto dos verbos uti, egere, maledicere, nocere, persuadere e outros e substitui, as vezes, o genitivo de preco (vendere aliquid decem solidos etc.). Um acusativo absoluto aparece no lugar de um ablativo. Quanto ao adjetivo e ao adverbio, notemos a confusao do positivo, do comparativo e do superlativo. Nos autores tardios encontramos muitas vezes quam plures = complures, tam clarissimus = tam clarus, omnibus maximus como maior omnibus, bonus quisque = optimus quisque, citius, saepius, superius por cito, saepe, supra. O comparativo se exprime cada vez mais com o auxilio de magis e plus, o adverbio por perifrases como firma mente.

Os pronomes tendem a normalizar suas formas. Frequentemente se le illum por illud, illae por illius, illo e illae por illi. Na lingua falada, os relativos qui e quem suplantam as formas femininas quae e quam, e o paradigma se simplifica tambem pela fusao das formas quod, quid e quae.

O sistema dos demonstrativos era muito complicado para poder subsistir. Is e hic, de que restam poucos tracos nas linguas romanicas, sao substituidos por iste, ille, ipse, e estes se confundem frequentemente. Ipse pode tambem ter o sentido de idem. Os monossilabos tot e quot cedem diante de tanti e quanti. Os adverbios hinc, inde, unde e ibi sao empregados, frequentemente no lugar de ab, ex, de + demonstrativo.

Um pronome reflexivo pleonastico se ajunta frequentemente a um verbo: ambulare sibi, vadere sibi ou vadere se, fugere sibi etc. (cf. italiano andarsi, fuggirsi, espanhol irse, huirse, frances s'en aller, s'enfuir). Assinalemos, alem disso, o emprego de toti por omnes, de quique por omnes e a confusao dos relativos quisquis, quicumque e dos indefinidos quivis, quisque.

Quase todas as formas sinteticas do futuro latino desapareceram sem deixar tracos nas linguas romanicas. O inicio de seu enfraquecimento foi devido ao emprego crescente de rodeios perifrasticos que podem ser constatados na literatura desde o periodo imperial. Debere, velle, habere com um infinitivo exprimem assim frequentemente nao somente a obrigacao ou a vontade, mas ainda o futuro puramente temporal; cf. Santo Agostinho, In evang. Joh., 4,1,2 tempestas illa tollere habet totam paleam "esta tempestade levara toda a pa lha". Nas proposicoes finais e consecutivas, debere, velle, posse, valere servem frequentemente para reforcar a nocao do subjuntivo; praecipimus ut hoc facere debeatis tornou-se uma construcao frequente no lugar de ut hoc faciatis.

As formas depoentes foram eliminadas bem cedo da lingua falada; nos textos, encontram-se frequentemente horto, uto, vesco etc. Em compensacao, os perfeitos do tipo mortuus est, secutus est resistiram e ate mesmo serviram de modelo as inovacoes interitus est, ventus est etc., que costumam ser encontradas na Idade Media. Parece, entretanto, ter sido somente apos a queda do imperio que a passiva sintetica laudatus est = laudatur ou o perfeito habeo laudatum = laudavi ganhou terreno.

Enquanto os supinos caem em desuso, o emprego do infinitivo se amplia muito. Torna-se frequente apos facere, em construcoes como facere aliquem venire "fazer vir alguem". E nas antigas versoes da Biblia que encontramos pela primeira vez um infinitivo precedido da preposicao ad: carnem dare ad manducare, construcao destinada a um grande sucesso na lingua falada da alta Idade Media. Ela parece resultar de um cruzamento das locucoes dare aliquid manducare e dare aliquid ad manducandum.

O ablativo do gerundivo substitui frequentemente o participio presente para exprimir a concomitancia: a frase redierunt dicendo psalmos empregada na Peregrinatio Aetheriae, concorre com redierunt dicentes psalmos e anuncia o emprego romanico "voltam cantando salmos".

A lingua tardia de todos os dias adora reforcar o sentido dos adverbios com o auxilio de uma preposicao: in simul, in ante, ab ante, a foris, de foris, ab intus, de intus. Varios desses novos adverbios tem servido tambem de preposicoes. Tambem se pode lembrar a formacao de preposicoes como de ab (> italiano. da), e de ex (> frances des) ou de ex de (> portugues desde).

Um traco caracteristico do latim tardio e a confusao das conjuncoes. Assim, nam toma, por vezes, um valor adversativo, autem se emprega no lugar de nam, seu e vel no lugar de et. Por causa deste enfraquecimento de sentido, bom numero de conjuncoes terminou desaparecendo da lingua corrente, entre outras sed, autem, at, verum, nam, enim. Mas, no latim literario, sempre se encontra, e frequentemente de uma maneira inesperada: nec non etiam et toma o lugar de um simples et, ideoque, iamque, tam--quamque e de outras expressoes que comportam um -que pleonastico (sabe-se que -que desapareceu da lingua falada na epoca imperial).

A conjuncao quod tende a introduzir-se por toda a parte. Encontra-se em construcoes como dico quod (ou eo quod, quia, quoniam), timeo quod, volo quod (ou quatenus, qualiter, quo), ante quod, post quod, pro quod.

Ainda existem varias modificacoes linguisticas que mereceriam ser mencionadas, mas como teremos oportunidade de falar disso mais tarde, paremos por aqui. Acrescentemos somente alguns fatos gerais concernentes ao lexico. Os monossilabos tem sido substituidos frequentemente por vocabulos de duas ou mais silabas. Assim, eo, eunt, tornados monossilabos, e is, it sao descartados da conjugacao do presente que, no latim tardio, era vado, vadis, vadit, imus, itis, vadunt, como podemos ver nos textos. Os diminutivos e os verbos iterativos eram mais expressivos que os vocabulos simples. Por isso, preferiu-se agnellus a agnus, cantare a canere. Os verbos compostos sao reforcados, frequentemente, pelo acrescimo de um novo prefixo: adpertinere, superelevare etc.

O latim na Galia ate a epoca de Carlos Magno

Apesar das mudancas que acabamos de assinalar, a lingua falada do baixo-imperio conservava, no conjunto, a estrutura latina, e a queda do poder de Roma nao trouxe inovacoes imediatas. Nos novos reinos germanicos, fundados sobre as ruinas do antigo imperio, os principes barbaros ja nao eram hostis a cultura romana. A maior parte deles aceitou passivamente sua existencia; alguns, como o grande Teodorico, chegaram mesmo a proteger os estudos. Os compatriotas suportaram muito bem da invasao; os invasores haviam saqueado, queimado e assassinado, mas, passado o furacao, foram reparados os maiores estragos e, no conjunto, a vida dos romanos prosseguia como antes. Os vencedores, pouco numerosos, sabiamente deixaram subsistir a maior parte do antigo sistema administrativo, a populacao romana continuou a viver segundo suas leis, os gramaticos e os oradores continuaram ensinando no forum das cidades. Os proprios barbaros, muitas vezes, comecaram a familiarizar-se com a cultura latina e empregaram o latim, por exemplo, como lingua da diplomacia e da legislacao (1).

Portanto, esta osmose nao teve como resultado a conservacao da cultura antiga. Ao norte da Galia, onde o elemento barbaro da po pulacao era bastante grande, os francos conservaram seus costumes nacionais; e seu prestigio junto a populacao submissa era tao grande que esta terminou por adotar o direto e as instituicoes dos barbaros. Os latinos tomaram logo emprestados dos vencedores alguns vocabulos como mundboro (nos textos latinos mundiburdus), antigo frances mainbour, brunnia, antigo frances broigne, gundfano, frances gonfanon, baco, frances bacon. O numero consideravel de emprestimos desse genero testemunha a mudanca de espirito entre os romanos no reino dos francos.

Em 507, os francos expulsaram os visigodos de Tolosa; em 536 eles anexaram o reino dos borgundos. Fazendo isto, estenderam sua influencia as partes da Galia que conservaram fielmente, ate esta epoca, seus caracteres romanos. Na Aquitania, na Provenca e na Borgundia, a vida urbana ainda subsiste e as cidades parece haver pago professores ate por volta do fim do seculo V e, talvez, ate mais tarde. Mas, a epoca da conquista franca, a situacao economica das cidades se deteriorava, os novos professores nao conseguiam levar remedio algum para esse mal e as autoridades municipais ja nao podiam encarregar-se dos vencimentos de um gramatico e de um orador. As escolas fechadas, o ensino das letras classicas refugiou-se no seio das grandes familias aristocraticas, onde levou uma existencia cada vez mais miseravel durante um seculo mais ou menos. A partir da metade do seculo VII, o antigo sistema escolar desapareceu completamente, sistema que havia produzido uma cultura essencialmente gramatical e literaria. E por causa disso que a escola antiga pode exercer uma grande influencia conservadora sobre a evolucao linguistica. As escolas dos padres e dos monges, unica forma de educacao que permanece a partir de agora, buscavam fins totalmente diferentes e muito mais restritos. Os padres e os monges tinham necessidade do acesso aos textos sagrados e, para isto, bastava-lhes saber ler.

Com o desaparecimento da escola antiga, nada mais podia retardar a evolucao da lingua. O latim falado na Galia transformou-se rapidamente em antigo frances e em antigo provencal. Podemos fazer uma ideia desse desenvolvimento, analisando certos fenomenos linguisticos pertencentes a lingua falada que pode chegar ate nos nos textos latinos, em quantidade suficiente para eliminar a influencia do acaso.

Sabe-se, por exemplo, que na primeira declinacao, a forma portas suplantou o antigo nominativo portae no antigo frances e no antigo provencal, onde se conservou, nas outras declinacoes, a diferenca entre o caso sujeito e o caso regime. Trata-se, aqui, de uma mudanca que os autores nao sao mais embaracados de introduzir nos textos. No fim do seculo VI, a obra de Gregorio de Tours nos da apenas um exemplo disso: Vit. patr., 12,1 cohabitatores bestias avesque illi erant, mas nos textos do seculo VII, o numero de casos aumenta cada vez mais e, pelo fim do seculo, os redatores das formulas de Angers abandonaram completamente o antigo uso da forma portae. Do mesmo modo, esta forma desapareceu em certos textos do seculo VIII e parece permitido concluir disso que esta evolucao estava completa por volta de 700, ao menos nas regioes de onde provem esses textos.

Tomemos um outro exemplo no dominio da sintaxe. Nos autores antigos, o adjetivo possessivo suus remete ao sujeito da oracao em que se encontra e, em certas condicoes, ao sujeito da oracao principal; noutros casos, serve-se dos pronomes demonstrativos eius, illius, eorum, illorum. No entanto, podem ser encontradas excecoes a esta regra ja no periodo classico, sendo que nos textos tardios a confusao se torna cada vez maior. Mas, desde o seculo VI, um novo sistema comeca a se desenvolver nos textos escritos na Galia. Num documento de 573, lemos assim uxor sua in libertate permaneat, "sua mulher fique em liberdade", ao inves da construcao latina uxor eius e, por outro lado, o A. et P. cum uxoribus eorum, "A. e P. com suas mulheres", ao inves de cum suis uxoribus. Esse emprego de suus e de eorum ou illorum, que e o do frances e do provencal, ganha terreno no seculo VII. Esta evolucao esta concluida, por exemplo, na Vie de saint Goar, escrita por volta de 700. Ali, o novo sistema sintatico e completamente regular e representa o estado da lingua falada, sem duvida alguma.

Essas duas mudancas interessam-nos, apesar de pouco expressivas em si mesmas, porque nao constituem casos isolados devidos ao acaso. Seu numero e tao grande que, junto a outros fatos, promitem-nos tirar conclusoes bastante seguras em relacao a cronologia do desenvolvimento. Tudo leva a crer que por volta do ano 700, a lingua falada na Galia tinha sido modificada tanto em sua estrutura que deve ser chamada de lingua romanica e nao de lingua latina.

Desde o seculo VIII, podem ser encontradas frases inteiras que refletem a lingua falada desta epoca e nos permitem entrever diretamente o estado atingido na evolucao. Assim, um antigo manuscrito de Lyon conservou um canto latino ao qual acrescentou o seguinte refrao, cantado pelo povo: Christi, resuveniad te de mi peccatore (Ver MGH, PAC, IV, p. 651: XCII.). A ortografia e do latim medieval, no lugar de Christe, resubveniat te de me peccatore, mas a construcao e romanica (frances se ressouvenir de quelque chose). Em latim, seria esperado algo como Christe, respice me peccatorem. Ve-se que o escriba tomou da pena para consignar no pergaminho uma frase da lingua vulgar, cuja ortografia tentou latinizar e da qual precisava deixar intocavel a construcao.

Mais interessantes ainda sao os vocabulos jocosos acrescentados no seculo VIII num manuscrito da Lei salica, onde lemos, por exemplo, a frase: ipsa cuppa frangant la tota, ad illo botiliario frangant lo cabo, at illo scanciono tollant lis potionis, (o que pode ser transcrito em palavras latinas ou semilatinas): ipsam cupam frangant illam totam, ad illum butticularium frangant illum caput, ad illum scancionum tollant illas potiones, "que eles quebrem toda a forma, quebrem a cabeca do copeiro e tomem todas as bebidas". Aqui, encontramos entre outras coisas, o artigo definido la, lo, lis (isto e, o frances les < las), o dativo analitico e as formas romanicas cuppa, botigliario, cabo (1).

Os contemporaneos nao podiam perceber a evolucao linguistica de que participavam nem analisar as consequencias dela. So no inicio do seculo IX se percebeu, ao norte da Galia, que a diferenca entre a lingua escrita e a lingua falada tinha se tornado tao grande que a lingua escrita so era compreendida por quem a tinha estudado. Em 813, no celebre Concilio de Tours, decidiu-se "que todos os bispos, em seus sermoes, facam as exortacoes necessarias para a edificacao do povo e que todos traduzam esses sermoes na rustica Romana lingua ou em alemao para que todo o mundo possa compreender o que eles dizem". Esta e a primeira vez que se menciona expressamente a existencia de uma nova lingua na Galia. Alguns anos mais tarde, em 842, os Juramentos de Estrasburgo, redigidos em antigo frances, abrem a epoca literaria da nova lingua.

Apos esta apresentacao das condicoes historicas e do desenvolvimento da lingua falada, devemos dirigir nossa atencao para o latim literario escrito na Galia durante o periodo de que nos ocupamos.

Nao e preciso dizer que o declinio progressivo da cultura geral se reflete nos textos. No inicio do seculo VI, um autor como Sao Cesario de Arles ainda se exprime num latim claro e limpo. Se a lingua de seu contemporaneo, Santo Avito de Viena, nos parece menos atraente, e porque este ultimo nao conhecia bem a tecnica da retorica e toma o estilo precioso e empolado tao caro aos letrados da baixa Antiguidade. Pelos fins do seculo, Gregorio de Tours nos faz admirar em sua Historia dos Francos sua originalidade e seu talento de narrador, mas a cada pagina testemunha a decadencia dos conhecimentos gramaticais. Todavia, o latim de Gregorio e excelente, em comparacao com o que encontramos na cronica de Fredegario, na compilacao das formulas de Angers ou de Sens, em Marculf, em Defensor de Liguge ou em outros autores que viviam por volta de 700. Percebe-se que eles fazem um esforco desesperado para formular seus pensamentos em latim, embora o seu bom emprego caia em desuso. Paremos um instante para analisar os diferentes elementos desta barbarie linguistica.

O latim merovingio sofreu uma influencia profunda da lingua falada. Esta influencia se traduz de dois modos: ou os autores admitem usos pertencentes ao linguajar cotidiano, ou caem no erro oposto, tentando evitar os fenomenos da lingua vulgar. Um fato caracteristico e a confusao de ae e de e. Depois de varios seculos, o ditongo estava simplificado na pronuncia e, por causa disso, nada mais comum nos textos do que grafias do tipo que e eternus por quae e aeternus. Mas, mesmo na epoca mais tenebrosa conservava-se certa ideia, embora muito vaga, da existencia da combinacao ae. Nas formulas de Angers que remontam ao fim do seculo VII, encontram-se grafias como diae, aei, aemitto, prosequaere, quaem etc.; elas constituem uma reacao contra a pronuncia cotidiana e uma tentativa falha de escrever em latim classico (1). Igualmente dificil era o uso das vogais e e i. E provavel que as grafias menus e se que se encontram no mesmo texto no lugar de minus e de si representem uma pronuncia real; cf. o que dissemos acima sobre o desenvolvimento i > e e o antigo frances se. Do mesmo modo, as formas do antigo frances fis, fist e li parecem estabelecer um uso popular de fici, ficit e illi no lugar das formas classicas feci, fecit e ille. Mas viro para vero e, sem duvida, um erro puramente ortografico. A hesitacao entre ae, e e i e particularmente sensivel no emprego incorreto das terminacoes, cuja pronuncia se enfraqueceu ao norte da Galia. Pode ser encontrado mesmo, por exemplo, sancti basileci ao inves de sanctae basilicae e vidi no lugar de vitae.

Este ultimo exemplo permite ilustrar tambem um outro fenomeno da lingua falada. Ela conhece uma sonorizacao das surdas intervocalicas como mostra a serie seguinte: rota > roda > antigo frances rode, roue; ripa > riba > frances rive; securum > seguro > antigo frances seur. Trata-se, portanto, de formas do linguajar cotidiano quando lemos nas formulas de Angers prado, nutrido, rabacis, proseuere, seuli ao inves de prato, nutrito, rapaces, prosequere, saeculi. Mas o autor ou os autores fizeram quase sempre o melhor pos sivel para evitar essas formas, do que provem hiperurbanismos como deti e coticis por dedi e codices, paco por pago e ducas por duas.

Ja mencionamos a palatalizacao de c e de g diante de e e i (cf. nas formulas de Angers iesta = gesta, eieris = egeris, necliens = negligens, cogiue = coniuge). No norte da Galia, c e g iniciais foram palatalizados mesmo diante de a; cf. campus > antigo frances champs, gamba > jambe, mas corpus > corps. E necessario supor que causa transforma-se primeiramente em chausa (pronunciado fsausa) e, em seguida, em chose. Pela cronologia desta evolucao, e interessante constatar que ja se conhece em Angers a reducao au em o na epoca da redacao das formulas de que falamos. E assim que devemos explicar as escritas inversas austes por hostis, austiliter por hostiliter e caus por quos (pronunciado cos; cf. condam e o hiperurbanismo quoequalis no mesmo texto).

Ainda podemos notar que a simplificacao das consoantes duplas na lingua falada proporcionou grafias como redere, nulatenus, consignasit nas formulas de Angers e, por outro lado, deffensor ou summus por sumus.

Mas ainda ha outros erros que provem exclusivamente da ignorancia da gramatica latina e da incapacidade de analisar a lingua. Assim, pode-se observar uma tendencia a assimilacao mecanica das terminacoes. No inicio das formas de Angers, o autor quis escrever pro largitate tua, mas o fim do substantivo em e influenciou-o sobre a terminacao do pronome, o que resultou em pro largitate tuae. O mesmo texto fornece outros exemplos, como casa cum curte circumcincte, "uma casa com patios de todos os lados", in tuae iure = in tuo iure, annolus valentus = anulos valentes.

Quanto mais profundo era o conhecimento da lingua literaria, menos se dependia de formulas fixas quando se tentava exprimir por escrito. Nos documentos latinos, frequentemente se encontravam, por exemplo, vocabulos cum aquis aquarumve decursibus de que se guardava certa lembranca visual, sem poder analisar a funcao das terminacoes. Nas formulas de Angers se empregou aquarumve decursibus como objeto direto: cido (= cedo) tibi de rem paupertatis meae... pascuas, aquas aquarumvae decursibus. Seria facil multiplicar tais exemplos, mas nao vale a pena. E claro que um registro mecanico destes fatos (por exemplo, a respeito da rubrica -ibus = -us) nao leva a nada. A unica conclusao que podemos tirar disso, sobre a lingua viva, e que a terminacao -ibus tinha saido do uso corrente.

O latim escrito na epoca merovingia e um produto artificial em que se encontram, desordenadamente, reminiscencias da lingua literaria, de formulas fixas provenientes de epocas precedentes, de tracos pertencentes a lingua falada, de escritas inversas ou hiperurbanismos e de simples erros. De fato, por volta do ano 700, este latim havia-se tornado caotico. Uma lingua onde vidi, caus, abis, diligo, haec contra podem significar vitae, quos, habes, delego, e contra, onde se pode significar si, sed, sit, onde a, ab e ad se confundem, onde as formas murs e mur, caso sujeito e caso regime singular do paradigma da lingua falada, sao reduzidas a murus, muros ou murum, muro, muru, mure, muri etc, uma lingua dessas nao e apropriada para servir de meio de comunicacao na administracao ou na vida religiosa e cultural de um grande reino. Uma reforma era necessaria e, teoricamente, poder-se-ia escolher uma das duas solucoes: ou sistematizar a lingua falada e criar uma nova lingua literaria ou voltar ao latim da Antiguidade. Na pratica, a primeira alternativa era impossivel. A criacao de uma nova lingua escrita demandava um nivel muito elevado da cultura geral e uma capacidade de analisar a situacao linguistica que ainda nao se possuia. Ninguem pensou nisso e a ideia em si teria sido prematura. O prestigio da Antiguidade estava intacto, o latim era a unica lingua da civilizacao ocidental. O unico meio de reconstruir o nivel geral era retomar o estudo da gramatica e da literatura latinas e de reorganizar as escolas.

Alguns esforcos foram feitos para reformar os estudos desde o meio do seculo VIII. Um sabio americano, Mario A. Pei, mostrou que os primeiros resultados aparecem nos diplomas de Pepino, o Breve (1). Ele comparou a lingua de dois grupos de documentos reais, um datado de 700-717, e outro (tendo exatamente a mesma extensao) dos anos 750-770. No primeiro grupo, -e acentuado permanece intacto 202 vezes, mas e representado por i 175 vezes. No segundo grupo, os numeros correspondentes sao 399 e 37, o que quer dizer que se retoma a ortografia classica, salvo em 37 casos. No primeiro grupo, o antigo ditongo ae permanece 81 vezes e e trocado por e 90 vezes; no segundo, lemos ae 101 vezes e e por ae somente 27 vezes. Uma melhora consideravel da ortografia pode ser constatada para o grupo eo/eu. Encontramos eo por eu (por exemplo, no vocabulo seo) 26 vezes nos documentos do inicio do seculo, enquanto que eu e conservado 40 vezes. Nos documentos mais recentes eo e encontrado 3 vezes e eu 43 vezes. Mario Pei comparou tambem dois documentos originais de 716 e de 768, dos quais o segundo toma o primeiro como modelo. No primeiro se le, por exemplo, ad aefectum, habyre, pristetirunt, estipendiis, estabilitate vocabulos que foram trocados no segundo por ad effectum, habere, praestiterunt, stipendiis, stabilitate.

O primeiro documento apresenta, entre outras, as expressoes de caduces rebus presente secoli, impertemus, pars ipsius monastiriae, que o escriba mais recente substituiu por de caducis rebus praesentis saeculi, impertimur, pars ipsius monasterii.

Pepino, o Breve, educado em Saint-Denis, onde parece ter recebido certa cultura, foi o promotor da reforma. Seu filho, Carlos Magno, que lhe sucedeu em 768, concluiu a organizacao das escolas. Logo veremos o que significava sua obra para a purificacao da lingua, mas, primeiramente, e necessario ver o desenvolvimento do latim nos outros paises ocidentais.

O latim da alta Idade Media na Italia

Na Italia, o clima cultural ainda era favoravel no inicio do seculo VI. O rei dos ostrogodos, Teodorico, protegia as escolas e se interessava pela atividade dos escritores. Sob seu reinado, os grandes sabios Boecio e Cassiodoro ainda representam brilhantemente a antiga cultura romana. Mas, no meio do seculo, vinte anos de guerra entre os ostrogodos e os bizantinos esgotaram o pais. Em 568 aparecem novos invasores, os lombardos, que, sem encontrar muita resistencia, conquistam a planicie do Po e as regioes de Espoleto e de Benevento e, em seguida, tentam apoderar-se de toda a peninsula. As interminaveis guerras que se seguiram, quebraram definitivamente a antiga estrutura do pais, cujas familias foram arruinadas e o povo reduzido a indigencia. A partir do inicio do seculo VII, as ultimas escolas leigas desaparecem (1), e a lingua falada comeca uma evolucao semelhante a que acabamos de descrever para a Galia. Encontramos, por exemplo, nas inscricoes de Roma do VII seculo, o futuro romanico essere abetis = eritis (cod estis, fui, et quod sum, essere abetis), a preposicao italiana da (< de ab) ou o pronome idipsa (cf. italiano desso), vulga rismos que permitem concluir que a lingua falada estava a caminho de se transformar no italiano (1).

Portanto, a evolucao do italiano nao se operou com a mesma forca explosiva que a do frances. Apesar de tudo, a Italia tinha sido o principal centro da cultura latina; as cidades tinham conservado uma importancia diferente da que conservaram as cidades da Galia; o pais ainda possuia restos consideraveis de antigas bibliotecas; Ravena, Roma, o sul da peninsula e a Sicilia pertenciam aos bizantinos, e o contato cultural com a Africa e o mundo grego em nenhum momento foi rompido. Embora os gramaticos e os oradores tivessem fechado suas escolas e o unico ensinamento subsistente se encontrasse nas maos dos padres e dos monges, este ensino estava profundamente marcado, na Italia, pela influencia da antiga tradicao escolar. Tambem, so muito tarde e que os italianos se deram conta de que o latim ja nao era sua lingua materna. Nao testemunhamos sobre esta tomada de consciencia antes do seculo X. Em 915, na ocasiao do coroamento do rei Berenger I, o senado apresentou suas homenagens patrio ore, isto e, em latim, o povo nativa voce, isto e em italiano, segundo o texto dum um canto composto poucos anos mais tarde. Em 965, o sabio Gonzon de Novare pede desculpas a um correspondente por seu estilo, porque "a lingua cotidiana na Italia esta muito perto do latim", licet aliquando retarder usu nostrae vulgaris linguae quae latinitati vicina est. Mais tarde, o Papa Gregorio V, morto em 999, foi louvado pelo autor de seu epitafio pela habilidade com que soubera exprimir-se em frances, italiano e em latim: Usus francisca, vulgari et voce latina Instituit populos eloquio triplici. E tambem no seculo X, em 960, que se fez uma tentativa expressa de escrever em italiano: sao os celebres testamentos de Capua, pelos quais comeca a historia do italiano literario (1).

Enquanto subsistiam as escolas, os autores italianos escreveram um latim bastante correto. A lingua de Sao Gregorio, o Grande, e, por exemplo, mais classica do que a de seu homonimo e contemporaneo gaules, Gregorio de Tours. Gregorio tem sido descrito como um homem satisfeito com a ignorancia da Idade Media, destacandose a passagem do prefacio das Moralia in Iob onde exprime seu desprezo pelo gramatico Donato. Realmente, o papa se serve de um cliche que nao deve nos enganar. Era de bom tom escusar-se de barbarismos linguisticos diante dos leitores e Gregorio nada mais faz do que ceder a moda. Ele e, acima de tudo, o ultimo representante da tradicao antiga na Italia. Para ele, o latim ainda e um meio vivo e natural de se exprimir. Ele nao precisa de Donato para encontrar as formas exatas; sabe empregar os vocabulos proprios sem ter de pesquisar nos autores precedentes; ainda possui o talento que os romanos tinham de se exprimir com uma facilidade natural e com uma clareza admiravel. So depois da sua morte e que comeca a epoca tenebrosa na historia literaria da Italia (2).

O mais sabio de todos os autores italianos do seculo VII e Jonas de Suse, que recebeu sua educacao na abadia de Bobbio, fundada pelos irlandeses, mas que tambem visitou Roma e viveu longo tempo na Galia. O trabalho mais importante de Jonas e sua Vida de Sao Columbano, onde mostra certo conhecimento da literatura antiga e da versificacao dos irlandeses. Seu latim esta cheio de reminiscencias poeticas. Ao inves de expressoes simples como "a manha de amanha", usa, por exemplo, a perifrase postquam sopor membra laxavit et caecas mundo surgens aurora pepulit tenebras, "quando o sono abandonou seu corpo e a aurora se levantou, libertando o mundo das trevas obscuras" (1).

De vez em quando ele forja neologismos audaciosos, como auliga "cortesao ou homem da corte", a semelhanca de auriga "condutor de viatura". Ele gosta de dar etimologias eruditas, como, por exemplo, a explicacao do vocabulo anas: alitem quam a nando anatem vulgo vocant, "ave a que o povo da o nome de anas, conforme o verbo nare, "nadar", explicacao que se encontra em Isidoro de Sevilha e que remonta a Varrao (2). Ele conhece ate alguns vocabulos gregos como sofus, reuma, agapis (isto e sophus, rheuma, agape). Infelizmente, seus conhecimentos gramaticais nao correspondem a sua ambicao de escrever com elegancia. Escreve, por exemplo, sem se corar monumentus e curriculus, mas trata, por outro lado, o neutro scisma como um feminino (qua scisma), no lugar de plures, emprega pluriores, a desinencia -ent suplanta, muitas vezes, a desinencia -unt (accedent, conpellent, dicent, poscent etc.), o participio presente tem nele um sentido passivo loco nuncupante Carantomo, "a um sitio chamado Carantomo". cf. reverentissimus, "muito reverendo", amantissimus, "bem-amado". Jonas confunde, entre outros, os vocabulos expers e experturs, limes e limen, acredita receber o merito de um estilo classico por escrever copies no lugar de copia. Na realidade, o declinio do latim escrito esta tao bem manifestado na Italia quanto na Galia. So ha uma diferenca de grau (1).

Mas, desde o inicio do seculo VIII, pode-se constatar no reino dos lombardos certo renascimento dos estudos. Em Pavia, a capital, o gramatico Pedro Diacono ensina a juventude, encorajado pelo rei Cunincpert e o bispo Damiao, morto em 711, compoe cartas no antigo estilo retorico. Em Milao, um clerigo patriota faz o elogio de sua cidade, louvando-a como a verdadeira metropole da Italia, o que parece ser uma piada contra Roma, Ravena e os bizantinos; na abadia de Bobbio, comeca o interesse pela literatura profana, como o mostram os manuscritos provenientes de seu scriptorium2. Mais tarde, Carlos Magno fez vir da Italia sabios como Paulo Diacono, Pedro de Pisa e Paulino de Aquileia para ajudarem a organizar a reforma do ensino na Franca. O latim desses sabios era geralmente influenciado pela lingua que eles falavam. Paulo Diacono escreveu, por exemplo, em sua Historia dos Lombardos, V,40, erabamus ao inves de eramus (cf. it. eravamo). Mas, no conjunto, seu latim testemunha uma cultura excelente, adquirida na Italia, mas aprofundada no novo meio espiritual criado por Carlos Magno.

Todavia, a reforma carolingia nao deixou muitos tracos na Italia. O pais estava dividido politicamente em pequenos pedacos e a divisao do pais se mostra tambem no dominio da civilizacao. Nos seculos IX e X encontramos sabios eminentes na Italia, como Anastacio, o Bibliotecario; Gonzon de Novare ou Liutprand de Cremona; mas tambem autores como Agnelo de Ravena, Erchempert do Monte Cassino ou o autor anonimo da Cronica de Salerno, que nao conseguiram assimilar os elementos da gramatica latina, e que, certamente, nao se dignaram faze-lo porque sua lingua materna se encontrava muito proxima da lingua escrita.

O que mais nos interessa no estudo de seu latim e verificar que os vulgarismos que ai sao pincados tem, frequentemente, um colorido claramente italiano. Desde o seculo VII, os textos latinos apresentam, as vezes, diferencas locais. No latim italiano desta epoca, assinalamos o emprego da preposicao da (italiano da < de ab); no latim gaules encontramos a preposicao apud (antigo frances ab, od, prov. ab) no sentido de cum e grande quantidade de substantivos em -or, dolor, timor, error etc., tornados femininos, fenomeno que e raro nos textos medievais provenientes de outras regioes. Na lingua falada, a reducao dos casos tinha chegado, em geral, a uma unica forma na Italia e a duas formas na Galia, caso sujeito e caso regime. Isto porque os autores italianos confundem frequentemente o nominativo latino e os outros casos, enquanto que os gauleses distinguem claramente duas formas (1). Quanto mais se avanca no tempo, mais aumenta o numero de tracos locais entre os autores iletrados. Na Cronica de Salerno, podem ser lidas frequentemente frases como immensam multitudinem (= immensa multitudo) Agarenorum venerunt ou princeps ipsa civitas (= ipsam civitatem) circumdedit. O mesmo texto apresenta muitos exemplos do tipo cum Galli (= cum Gallis) ou, por uma escrita inversa, referunt multis (= multi) porque o s final tinha caido na Italia. Ate mesmo alguns tracos dialetais pertencentes ao falar cotidiano sao encontrados no sul da peninsula, como a metatese frabice por fabrice e frebis por febris (cf. no dialeto napolitano frabbica e freve) (1).

O latim que se escreveu apos o ano 1000, ou por volta deste ano, deve ser estudado com o latim dos outros paises ocidentais. Sem duvida, muitos vulgarismos, mais ou menos caracteristicos do italiano, se encontram ainda nos textos redigidos em latim, sobretudo nas cartas e nos diplomas, mas um novo tipo de educacao, organizada nas grandes abadias e nas cidades, generalizou-se na Italia e em outros paises ocidentais--educacao que logo se tornou mais europeia do que nacional e que levou os mais brilhantes frutos da civilizacao medieval.

O latim da alta Idade Media na Africa e na Espanha

Na Africa, as instituicoes escolares sao mantidas no reino dos vandalos, apesar das dificuldades criadas pelas perseguicoes dos barbaros arianos. Apos a reconquista bizantina, o imperador Justiniano se esforcou por reanimar os estudos, ordenando pagar um vencimento a dois gramaticos e a dois oradores em Cartago. Assim, a Africa se tornou a sede da cultura antiga durante a maior parte do seculo VII. E na Africa, por exemplo, que o jovem Adriano parece ter recebido sua educacao antes de se tornar abade de um mosteiro perto de Napoles, que deixa em 669, quando o papa o envia, com Teodoro de Tarso, para organizar a vida eclesiastica e espiritual na Inglaterra. Tambem havia relacoes estreitas entre a Africa e a Peninsula Iberica. Muitos monges africanos, fugindo das guerras ou das perseguicoes, passaram com seus manuscritos para a Espanha, onde organizaram centros de cultura monastica, o que foi importante para a atividade intelectual no reino dos visigodos. Assim, a Africa contribuiu muito para a conservacao da cultura antiga, embora o proprio pais tenha sido perdido pelos ocidentais. Em 670, os arabes atacaram a Africa procunsular e em 698 se apoderaram de Cartago. Este foi o fim das instituicoes romanas e da civilizacao latina num pais que representou um papel tao importante na historia cultural do imperio.

Como os outros paises mediterraneos, a Espanha conseguiu conservar seu carater romanico, apesar das invasoes e das divises internas causadas pela oposicao entre os invasores arianos e a populacao hispano-romana, que continuou catolica. Apos a conversao dos visigodos ao catolicismo em 589, comeca um periodo de paz e de fusao entre os dois povos, que durou mais de um seculo. Este foi um periodo de prosperidade e de renascimento cultural. Enquanto outros paises estavam mergulhados na decadencia, as escolas de Sevilha, de Saragoca e de Toledo floresciam e produziam frutos brilhantes, gracas a atividade de Isidoro, de Braulio e dos arcebispos de Toledo, Eugenio, Ildefonso e Juliano, os maiores sabios do seculo VII. Os reis visigodos encorajaram os escritores, alguns se puseram eles mesmos a escrever obras literarias. O que fez a originalidade da cultura visigotica foi o papel que desempenhou o estudo da gramatica e da retorica. O antigo programa escolar sobreviveu aqui; os bispos eruditos estudavam, por exemplo, sem recuar, como tantos outros cristaos, diante do estudo de uma literatura impregnada de paganismo.

Sabemos muito pouco da lingua falada na Espanha no seculo VII. A tendencia a diferenciacao que constatamos na Galia e na Italia tambem se encontrava, certamente, na Espanha, mas era provavelmente menos acentuada e contrariada pela atividade escolar (1)

Gracas a esta atividade, o latim escrito na Espanha na epoca isidoriana, conserva, no conjunto, uma marca completamente antiga (2). Certamente, tem sido assinaladas neste latim formas como fraglabit, pauperum por pauperem, idem por eadem, fugire por fugere, vocitus por vocatus, capuisse por cepisse, coronaturi, remuneraturi por coronandi, remunerandi, ai se encontra, por exemplo, ab haec omnia mala ou um acusativo absoluto: hos (exorcismos) explicitos, orat episcopus (1). Mas a maior parte desses fenomenos ja se encontra nos textos do imperio e sao, afinal de contas, bastante raros. Em geral, os autores espanhois conhecem sua gramatica latina e se apresentam sob uma luz muito mais favoravel do que seus contemporaneos gauleses e italianos. Sao capazes de escrever ate mesmo versos classicos. Braulio de Saragoca, por exemplo, compos um hino em honra a Santo Emiliano em hexametros iambicos que sao perfeitos do ponto de vista da metrica classica (2), e a versificacao de Eugenio de Toledo e igualmente admiravel. Pelo fim do seculo VII, Juliano ainda resiste vigorosamente ao uso da versificacao ritmica, que ele considera vulgar, escrevendo especialmente a um colega: tua aetas... rithmis uti, quodplebegis (= plebeis) est solitum, ex toto refugiat, "recuse absolutamente a utilizar os ritmos que costumam fazer os iletrados" (3).

Como o ensino da epoca visigotica era organizado pela Igreja, a invasao arabe de 711 nao rompeu imediatamente a tradicao escolar. Os espanhois continuaram a viver da heranca de Isidoro, mas, sob os novos mestres, o declinio foi inevitavel. Pode-se ver o resultado dis so em dois autores de Cordova, Santo Eulogio (859) e Paulo Alvaro, que viveram no seculo IX, por volta de 150 anos apos a invasao. Ambos compuseram, por exemplo, poemas metricos e confiaram muito em seu conhecimento da versificacao classica. Sucedendo Juliano, Paulo Alvaro se opoe a versificacao ritmica e popular, escrevendo a seu respeito: pedibus metricis rithmi contemnite monstra, mas se permite hexametros como:
   Angelic[bar.a]c[bar.u]i turb[bar.a] virtute beata laudibus obsequium
   solbitfulgentidecore,


onde as antigas regras da prosodia foram violadas varias vezes (1). Os poetas espanhois do seculo IX destacaram de uma maneira completamente caprichosa os vocabulos que so conheciam atraves da leitura, como o mostram, por exemplo, as formas subllmat, prec'onat, refutans, rec'edat, rev'elent, expVorat, ilVesus, del'ibat (2). Algumas vezes, parece que eles se enganaram sob a influencia da lingua falada. Assim, a acentuacao fuero que se encontra nos hinos mocarabes deve ser uma aproximacao do espanhol fuera (3).

O carater artificial do latim dos cordoveses aparece tambem noutros casos. Eles escrevem, por exemplo, verbibus, membribus, lacertibus, confundindo as terminacoes -ibus e -is; empregam adverbios como digniter, religiositer, vitiositer por digne, religiose, vitiose; formam novos vocabulos como litterizare por litteras scribere, macredo por macies, temerantia por temeritas, penitudo por poenitentia (1). Mas, mesmo as esquisitices desse genero tem suas raizes no latim da epoca precedente. Assim, Sisebuto (|+ 621), o rei letrado dos visigodos, serve-se do adjetivo anguifer ao inves de anguineus na frase anguifero morsu, o que Paulo Alvaro e seus contemporaneos imitaram. Nesses adjetivos, os sufixos -fer e -ger perderam seu valor proprio, chegando a empregar ate somnifera por somnia, pomifera por poma, polifera por polus e florigera por flores (2). Do mesmo modo, ja lemos na Lex Visigothorum e noutros textos do seculo VII contumelium e infamium por contumelia e infamia. Os autores da epoca posterior a invasao continuaram e mesmo ampliaram este uso de neutros ao escreverem copulum, excubium e exercitum (3).
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Title Annotation:p. 1-49
Author:da Silva, Jose Pereira
Publication:Soletras
Date:Jul 1, 2006
Words:11548
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