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Machado de assis dimensao diacronica de alguns aspectos do pessimismo.

1--INTRODUCAO

Este trabalho tem por objetivo estudar, numa dimensao diacronica, alguns aspectos do pessimismo em Machado de Assis, atraves da pesquisa de tres dos seus principais romances: Memorias Postumas de Bras Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899).

Para melhor ilustracao, faremos um rapido apanhado da biografia de Machado de Assis e citaremos o acervo de producao literaria, procurando mostrar a separacao das duas fases da obra: o romantismo e o realismo.

Buscando encontrar as raizes da sua filosofia de negativismo, de seu desencanto com o mundo e com a humanidade, do seu niilismo enfim, mencionaremos a opiniao critica de alguns autores.

Ilustrando cada romance, constara a ideia nuclear.

De cada um dos romances extrairemos os textos onde o tema do pessimismo se desenvolve e procuraremos, tanto quanto possivel, estabelecer o relacionamento diacronico do mesmo com os citados romances, dentro dos parametros de uma comparacao de textos.

Adotaremos para as nossas pesquisas o volume I (Romance) da Obra Completa de Machado de Assis, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S/A, 1971.

2. O AUTOR E A OBRA : NOTICIA SUCINTA

A 21 de junho de 1839, nasceu Joaquim Maria Machado de Assis, na Quinta do Livramento, no morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Foram seus pais, Francisco Jose de Assis, de cor parda, e Maria Leopoldina Machado, portuguesa natural da Ilha de Sao Miguel, agregados da mencionada Quinta, de propriedade de Dona Ma ria Jose de Mendonca Barroso, viuva de Bento Barroso Pereira, "senador, oficial general do exercito, ministro duas vezes, de D. Pedro I e da Regencia trina." (PEREIRA, 1988: 28)

No morro do Livramento, passou a infancia, da qual pouco se sabe. Muito cedo, morreram-lhe a mae e uma irma, sendo criado pela madrasta Maria Ines, humilde lavadeira, mas pessoa de excelente indole e que lhe serviu de arrimo, principalmente apos a morte do pai.

Serviu como sacristao na Igreja da Lampadosa e ajudando a missa, "embolsava a pequena esportula que lhe assegurava o pao do dia ..." (Ibidem, p. 49) As primeiras letras aprendeu-as em uma escola de Sao Cristovao. Mas nessa epoca, o seu grande mestre foi o padre Antonio Jose da Silveira Sarmento, a quem dispensava especial afeicao, em virtude do maior empenho com que lhe eram ministradas as aulas, muitas vezes entre uma folga e outra dos multiplos afazeres do devotado sacerdote.

Sua primeira producao literaria foi uma poesia, que se intitulou "Ela", publicada em 1855 na Marmota Fluminense, periodico que reunia destacadas figuras da epoca, onde prestou colaboracao ate 1861.
      Ingressou em 1856 na Imprensa Nacional, como tipografo aprendiz,
   e la conheceu o romancista Manuel Antonio de Almeida, diretor do
   orgao, e que se tornou grande amigo e protetor de Machado de Assis.

      Foi trabalhar, em 1858, como revisor de provas (e tambem
   caixeiro) na tipografia e livraria de Paula Brito, seu dileto amigo.
   Com ele, participou de outro grupo, a Petalogica, uma sociedade
   litero-humoristica de grande conceito.

      Entre 1858 e 1860, colaborou nos jornais O Paraiba, em
   Petropolis, Correio Mercantil, e na revista O Espelho.


Convidado por Quintino Bocaiuva, colaborou no Diario do Rio de Janeiro, de 1860 a 1867, usando os pseudonimos de Gil, Job, Platao. Durante esse periodo, escreveu ainda as seguintes pecas: Hoje Avental, Amanha Luva, 1860; Queda que as mulheres tem para os tolos, 1861; Desencantos, 1861; O Caminho da Porta, 1863; O Protocolo, 1863; Quase Ministro, 1864; Os Deuses de Casaca, 1866.

Com o pseudonimo de Dr. Lucena, ate 1875, colaborou na Semana Ilustrada, onde tambem usou o proprio nome.

De 1867 a 1878, colaborou no Jornal das Familias, onde fez publicar muitos contos com os pseudonimos de Job, Vitor de Paula, Lara e Max .

As poesias Crisalidas apareceram publicadas em 1864. Em 1865, fundou a Arcadia Fluminense, sociedade artistico-literaria muito bem aceita e onde Machado de Assis leu muitas de suas poesias.

Como burocrata, subindo a escala funcional, foi nomeado em 1867, para ajudante do diretor do Diario Oficial.

Em dezembro de 1869, firmou contrato com a Editora Garnier para a publicacao dos Contos Fluminenses e das poesias Falenas.

Nesse mesmo ano, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, chegada ao Rio de Janeiro em 1866, vinda de Portugal. Seu irmao era o poeta portugues Faustino Xavier de Novais. A noiva, "andava pelos trinta e dois anos, mais cinco do que Machado de Assis." (Ibidem, p. 109) "Sem ser bonita, Carolina devia ter sido extremamente simpatica e atraente; todos quantos a conheciam, e a louvam sem reservas, enaltecem-lhe a irradiante simpatia" (Ibidem, p. 109)

Nao tiveram filhos, fato que se vai refletir amargamente em Memorias Postumas de Bras Cubas: "Nao tive filhos, nao transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miseria." (p. 639)

Os Contos Fluminenses foram publicados em 1870.

O romance Ressurreicao, sua estreia como romancista, veio a lume em 1872.

Em 1873, publicou os contos Historias da Meia-Noite. Neste mesmo ano, e nomeado para o cargo de primeiro-oficial da Secretaria de estado do Ministerio da Agricultura, Comercio e Obras Publicas.

Em 1874, muda-se da residencia da rua dos Andradas, para onde fora morar quando se casou, indo residir na rua da Lapa; publicou o romance A mao e a Luva.

Em 1875, foi morar na rua das Laranjeiras, e fez publicar as poesias Americanas.

Em 1876, veio a lume o romance Helena.

Em 1878, Iaia Garcia.

Para tratamento de saude, entre 1878 e 1879, foi morar em Nova Friburgo, como se chamava a cidade serrana.

Em 1880, escreve a peca Tu, so Tu, Puro Amor.

Em 1881, e publicado o romance Memorias Postumas de Bras Cubas. Antes, em 1880, a Revista Brasileira fe-lo publicar. Ainda em 1881, e nomeado Oficial de Gabinete de Pedro Luis, Ministro da Agricultura. Ate 1897, mantem colaboracao efetiva na Gazeta de Noticias.

Em 1882, publicou os contos Papeis Avulsos e saiu de ferias para Nova Friburgo ou Petropolis.

Em 1883, comeca a aprender alemao.

Em 1884, fixa residencia na rua Cosme Velho no 18. Publicou os contos Historias Sem Data.

Em 1888, e agraciado como oficial da Ordem da Rosa, por decreto imperial.

Assume o cargo de Diretor da Diretoria do Comercio em 1889.

Em 1891, publicou o romance Quincas Borba e tambem pronunciou o discurso por ocasiao do lancamento da pedra fundamental da estatua de Jose de Alencar.

Em 1892, assume o cargo de Diretor-Geral da Viacao.

Em 1896, publicou os contos Varias Historias e escreveu a peca Nao Consultes Medico.

Em 1897, e eleito Presidente da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1886 por ideia de Lucio Mendonca.

Em 1898, e colocado em disponibilidade na direcao da Viacao. Neste ano, foram publicados os trabalhos de Labieno (Lafaiete Rodrigues Pereira), atraves do Jornal do Comercio, fazendo a defesa de Machado de Assis das criticas de Silvio Romero. Esses artigos foram reunidos no livro Vindiciae.

Em 1899, surgiu o romance Dom Casmurro e publicou os contos Paginas Recolhidas. Firmou-se novo contrato com a Editora Garnier para a edicao de dez de suas obras.

Em 1901, publicaram-se as Poesias Completas, que sofreram severas criticas de Mucio Teixeira, no Jornal do Brasil.

Em 1902, e reconduzido ao trabalho burocratico como Diretor da Secretaria de Industria, do Ministerio da Viacao. Tambem exerceu o cargo de Diretor-Geral de Contabilidade.

Em 1904, publicou o romance Esau e Jaco. Vai a Nova Friburgo com a esposa doente. Neste mesmo ano, tornou-se membro correspondente da Academia das Ciencias de Lisboa. A 20 de outubro, faleceu Dona Carolina Xavier de Novais Machado de Assis. Foi um rude golpe sofrido pelo escritor.

Em 1905, participou da sessao solene da Academia Brasileira de Letras para a entrega de um ramo de carvalho de Tasso, remetido por Joaquim Nabuco. Com o titulo de Reliquia da Casa Velha, reuniu em livro mais algumas de suas producoes, onde se destacou o celebre soneto "Carolina", "preito de saudade a esposa morta." (PEREZ, 1971: 91). Mesmo abalado espiritualmente, consegue ainda reunir forcas para estudar, ler, trabalhar, e comeca a fazer estudos de grego.

Em 1906, escreveu a peca Licao de Botanica.

Mas a lembranca de Carolina persiste. Em 1907, da inicio ao ultimo romance: Memorial de Aires, "livro cheio de tranquila poesia, e onde colocara a sua saudade," (Ibidem, p. 92) saindo do prelo em 1908. No ano anterior, tambem pronunciara o discurso a Guglielmo Ferrero.

Com a saude abalada, licenciou-se para tratamento medico. Aos 29 dias do mes de setembro de 1908, as 3h45m. da madrugada, faleceu o maior de todos os nossos romancistas. Foi vitima de uma serie de males:

alem da extrema fraqueza de vista e da velha infeccao intestinal, seus constantes ataques lhe haviam aberto, na lingua, uma ulcera cancerosa, que lhe impedia de ingerir qualquer alimento solido. (Idem, ibidem)

Teve uma morte calma, "cercado pelos companheiros mais chegados," (Idem, ibidem) dentre os quais "Mario de Alencar e Jose Verissimo, Euclides da Cunha e Coelho Neto, Raimundo Correia e Rodrigo Otavio." (Idem, ibidem)

Foi sepultado no Cemiterio de Sao Joao Batista, no Rio de Janeiro, junto a sua amada Carolina. Discursou na ocasiao, em nome da Academia Brasileira de Letras, o Conselheiro Ruy Barbosa.

Quanto aos textos criticos, cronicas e correspondencia de autoria de Machado de Assis, foram quase todos reunidos em livros publicados apos a sua morte. Dai porque nao constam diretamente destes dados biograficos.

De acordo com a opiniao da critica especializada, consideram-se duas fases distintas na obra de Machado de Assis. A primeira, de cunho eminentemente romantico; a segunda em que se definira com clareza tido aquele somatorio de fatores que influenciaram a producao machadiana. O romance Iaia Garcia e considerado como a obra de transicao entre uma fase e outra. Saiu do prelo em 1878.

A primeira etapa teria sido inspirada pela corrente romantica que ainda existia no Brasil, bem assim por padroes tecnicos de narrativa do mesmo movimento. De 1869 ate 1879, publicaram-se as seguintes obras: Falenas, 1870; Contos Fluminenses, 1870; Ressurreicao, 1872; Historias da Meia-Noite, 1873; A Mao e a Luva, 1847; Americanas, 1875; Helena, 1876; Iaia Garcia, 1878; evidenciandose Crisalidas, 1864.

Quanto a segunda etapa, considerada por muitos criticos como de maturacao, levaram-se em conta os seguintes fatores, tao bem delineados por Afranio Coutinho:

Esses fatores estao bem caracterizados como de natureza psicologica e constitucional, social e cultural:

A consciencia da inferioridade fisica pela doenca e a constituicao psicologica semi-anormal; o conflito intimo resultante da consciencia de inferioridade social pela origem humilde e mesticamento e da preocupacao de ascensao social; e as doutrinas abeberadas na leitura e meditacao dos autores prediletos, as quais se lhe ajustaram perfeitamente. (COUTINHO, 1971: 25)

Ha que se considerar ainda o processo paulatino, bem dosado, que desabrocha, que refloresce, gerando um aprimoramento estetico e uma nova concepcao tecnica voltados para os postulados da nova escola literaria: o realismo.

Ambas as fases contem diferencas e semelhancas. Nas duas aparece o humorismo, se bem que na primeira nao esteja ainda irmanado ao pessimismo.

Sem o travo amargo e morbido, sem a melancolia de finado, sem o desencanto que a descoberta da maldade humana e o sofrimento fisico e moral lhe dariam depois. (Ibidem, p. 26)

Notando, sim, um humorismo chistoso, alegre, comprometido apenas em divertir, em fazer rir. O sensualismo e o erotismo existiram nas duas fases, entrementes, na segunda, comprovam-se as marcas do realismo. Em ambas as etapas, notamos o apurado trato psicologico das personagens e a tendencia de fazer-se a analise dos costumes. Os recursos tecnicos e de estilos, desenvolvidos e melhor apurados na segunda fase, tiveram suas origens na primeira. Isso acontece com a introspeccao, com o desenvolvimento da trama, com o monologo interior, com o enfoque psicologico, com a analise dos costumes.

Pertencem a segunda fase os seguintes romances: Memorias Postumas de Bras Cubas, 1881 (a maior obra do Realismo na Literatura Brasileira); Quincas Borba, 1891; Dom Casmurro, 1899; Esau e Jaco, 1904; Memorial de Aires, 1908.

Para concluir, devemos considerar os 50 anos de existencia literaria de Machado de Assis como uma eterna presenca.

Ele foi um genio que marcou a sua epoca. Projetou-se na atualidade e permanecera na eternidade, enquanto houver literatura.

3. ALGUNS ASPECTOS DO PESSIMISMO: VISAO DIACRONICA DE TRES ROMANCES

Diz Afranio Coutinho, referindo-se a filosofia pessimista de Machado de Assis, que ele "nao fazia mais do que retratar a vida e os homens tais como eram a seus olhos". (Ibidem, p. 40).

Toda essa filosofia de descrenca, concebendo o ser humano irremediavelmente perdido e cheio de tantos danos motivados por forcas do mal, do egoismo, do sensualismo escandaloso, da ingratidao, da insensatez, da canalhice, do odio, do rancor, da vinganca, enraiza-se, com certeza, na seguinte dicotomia: de um lado, a propria condicao existencial de Machado de Assis marcada pela doenca (sofria de epilepsia); a pobreza (era de familia humilde); e a preconceituosa condicao social (ele era mestico); do outro lado, a filosofia "niilista" entao em voga, em cujas causas vao-se encontrar profundas bases psicologicas, em paralelo a outras decisivas influencias de pensadores, filosofos e escritores da epoca, como B. Pascal, A. Schopenhauer, F. Nietzsche, G. Leopardi, tudo isso enfatizado pela moral jansenista.

Como ainda afirmou Afranio Coutinho,

um odio radical da vida e da humanidade, uma ausencia total de simpatia para os homens e de confianca neles, uma indiferenca completa para os seus sofrimentos, amarguras e desesperos." (Ibidem, p. 40).

Todo esse aglomerado determinava o pessimismo machadiano. Ate mesmo o seu humorismo impregna-se de um sabor tragico. Gracas, entretanto, a genialidade do proprio escritor, aquela gama de negativismo adquiria foros de criacao artistico-literaria altamente elaborada.

Dentro dos objetivos deste trabalho, de modo especifico, destacaremos os tres romances escolhidos para pesquisa. De cada um deles, extrairemos a ideia nuclear correspondente. Em sequencia, enfocaremos o pessimismo machadiano, que nao aparecera, como e obvio, em situacoes rigidamente iguais ou identicas, mas que tera, com certeza, a mesma essencia tematica.

3.1--Memorias Postumas de Bras Cubas (1881)

3.1.1--Ideia nuclear

Trata-se da autobiografia de Bras Cubas, protagonista narrador que reune em si mesmo um conjunto de predicados ruins: e um parasita social que nunca trabalha. Depois de morto, decide-se a narrar suas memorias.

Da narrativa, evidenciam-se os amores de Bras Cubas por Marcela, sua antiga namorada de juventude e agora uma prostituta de luxo, extravagante e superflua e que por pouco nao levou a familia a bancarrota.

Atingido por uma paixao intensa, Bras Cubas viaja para a Europa, a fim de esquecer Marcela. De la, regressa doutor, ainda a tempo se assistir a morte da mae.

De forma irrefletida, namora Eugenia, moca de familia pobre, dotada de beleza, porem defeituosa de uma das pernas. Despreza-a por causa de Virgilia, com quem fica noivo e cujo pai com certeza poderia dar a ele alguma oportunidade na carreira politica.

Mas Virgilia lhe e roubada por Lobo Neves, homem decidido e tambem inclinado a vida politica.

Bras Cubas, permanecendo solteiro, torna-se mais tarde amante de Virgilia.

Vivem por algum tempo intensa e mutua paixao, realizando agora o que nao conseguiram quando noivos. O fogo das paixoes esfria, mas se reaviva, quando Virgilia engravida de Bras Cubas.

A crianca morreu sem ter nascido e ambos os amantes resolvem separar-se.

Sabina, irma de Bras Cubas, preocupada em ve-lo ainda solteirao, arranja-lhe uma noiva, Eulalia, a Nha-lolo, que morre de uma epidemia.

Sem rumo e objetivos na vida, Bras Cubas um dia reencontrase com Quincas Borba, antigo amigo e colega de infancia, que se intitulava filosofo e criador do "Humanitismo".

Por ocasiao desse reencontro, Quincas Borba, pobre, miseravel e faminto, furta, num apertado abraco, o relogio de Bras Cubas, que lhe devolve tempos depois, gracas ao recebimento de uma heranca.

Quincas Borba e atacado pela loucura.

Bras Cubas, querendo encontrar uma forma de vida menos vazia, busca outra vez a carreira politica. Foi em vao, entretanto, pois nao consegue nenhum exito.

A procura de celebridade, cogita em fabricar um remedio que levara seu nome:--o emplasto Bras Cubas. Por ironia do destino, quando um dia saia a rua para tratar de um projeto, enfrentou um vasto aguaceiro, pegou uma pneumonia e morreu.

Ao morrer, e assistido por Virgilia e alguns familiares.

3.1.2--Alguns aspectos do pessimismo

No proprio titulo, as Memorias, sendo postumas, ja transmitem uma concepcao de ideia tumular, funebre e, logo, tem-se a denotacao de um pessimismo.

A dedicatoria configura-se numa confissao de total e absoluto niilismo: a vida acabou inexoravel, irreversivelmente.
   Ao verme
   que
   primeiro roeu as frias carnes
   do meu cadaver
   dedico
   como saudosa lembranca
   estas
   MEMORIAS POSTUMAS


Memorias Postumas (p. 511)

O tema pessimismo tambem aparece no Prologo da Terceira Edicao: "Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Bras Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, nao sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo" (p. 512)

O Capitulo Primeiro abriga outra passagem de pessimismo:
      A vida estrubuchava-me no peito, com uns impetos de vaga
   marinha, esvaia-se-me a consciencia, eu descia a imobilidade
   fisica e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo,
   e cousa nenhuma. (p. 514)


Mas tudo leva crer que o autor narrador adaptou um ataque de epilepsia ou crise convulsiva, de que sofria, a personagem Bras Cubas, ao faze-la passar tambem por uma crise de pneumonia, nos estertores da morte.

No Capitulo VII, deparamos com esse trecho significativo de um delirio:
      Os seculos desfilavam num turbilhao, e, nao obstante, porque os
   olhos do delirio sao outro, eu via tudo o que passava diante de
   mim,--flagelos e delicias,--desde essa cousa que se chama gloria
   ate essa outra que se chama miseria, e via o amor multiplicando a
   miseria, e via a miseria agravando a debilidade. Ai vinham a cobica
   que devora, a colera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a
   pena, umidas de suor, e a ambicao, a fome, a vaidade, a melancolia,
   a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, ate
   destrui-lo como um farrapo. (p. 523)


E prossegue:
      Eram as formas varias de um mal, que ora mordia a viscera, ora
   mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de
   arlequim, em derredor da especie humana. A dor cedia alguma vez,
   mas cedia a indiferenca, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer,
   que era uma dor bastarda. Entao o homem, flagelado e rebelde,
   corria diante da fatalidade das cousas, atras de uma figura
   nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpavel,
   outro de improvavel, outro de invisivel, cosidos todos a ponto
   precario, com a agulha da imaginacao; e essa figura,--nada menos
   que a quimera da felicidade,--ou lhe fugia perpetuamente, ou
   deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e
   entao ela ria, como um escarnio, e sumia-se, como uma ilusao. (p.
   523)


O Capitulo XXXII mostra-nos uma cena de impacto, com relacao a Eugenia, que, por ironia e contrastando com o proprio nome (em grego "a bem nascida"), era defeituosa de uma perna, mancava, apesar de ser uma bela moca:
      Saimos a varanda, dali a chacara, e foi entao que notei uma
   circunstancia. Eugenia coxeava um pouco, tao pouco, que eu cheguei
   a perguntar-lhe se machucara o pe. A mae calou-se; a filha
   respondeu sem titubear:

      --Nao, senhor, sou coxa de nascenca.

      Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirao

      Olhei para ela e reparei que ia triste. (p. 553)


O Capitulo XXXVIII narra os estragos que uma doenca, a bexiga, havia causado no rosto de Marcela, outrora uma bela mulher, e que tambem se apresentava envelhecida precocemente:
      Ao fundo, por tras do balcao, estava sentada uma mulher, cujo
   rosto amarelo e bexiguento nao se destacava logo, a primeira vista;
   mas logo que se destacava era um espetaculo curioso. Nao podia ter
   sido feia; ao contrario, via-se que fora bonita, e nao pouco bonita;
   mas a doenca e uma velhice precoce destruiram-lhe a flor das gracas.
   As bexigas haviam sido terriveis; os sinais, grandes e muitos,
   faziam saliencias e encarnas, declives e aclives, e davam uma
   sensacao de lixa grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e
   alias tinham uma expressao singular e repugnante, que mudou,
   entretanto, logo que eu comecei a falar. Quanto ao cabelo, estava
   ruco e quase tao poento como os portais da loja. (...) essa mulher
   era Marcela. (p. 557)


No Capitulo XLI, temos outra cena tragica, aterrorizante. Virgilia, a beleza de outrora, estava agora maltratada, castigada pela mesma doenca que atacou Marcela:
      De repente morre-me a voz nos labios, fico tolhido de assombro.
   Virgilia ... seria Virgilia aquela moca? Fitei-a muito, e a
   sensacao foi tao penosa, que recuei um passo e desviei a vista.
   Tornei a olha-la. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pele,
   ainda na vespera tao fina, rosada e pura, aparecia-me agora
   amarela, estigmada pelo mesmo flagelo, que devastara o rosto da
   espanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha
   o labio triste e a atitude cansada. Olhei-a bem; (...) Creio que
   fiz um gesto de repulsa. (p. 560)


O Capitulo LIX mostra o encontro deploravel entre Bras Cubas e Quincas Borba, este agora em extrema penuria de miseria:
      Recuei espantado ... Quem me dera agora o verbo solene de um
   Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha desolacao! Era o Quincas
   Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de
   colegio, tao inteligente e agastado, Quincas Borba! Nao;
   impossivel; nao pode ser. Nao podia acabar de crer que essa figura
   esqualida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho
   avelhentado, que toda essa ruina fosse o Quincas Borba. (p. 573)


E confirma com desolacao:
      Mas era. Os olhos tinham um resto de expressao de outro tempo,
   e o sorriso nao perdera certo ar escarninho que lhe era peculiar.
   Entretanto, ele suportava com firmeza o meu espanto. No fim de
   algum tempo arredei os olhos; se a figura repelia, a comparacao
   acabrunhava. (p. 573)


A complementacao desse encontro da-se no Capitulo LX, quando Quincas Borba, impelido pela fome e completa penuria, rouba o relogio de Bras Cubas, ao despedir-se com um forte abraco:
      --E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?

      E dizendo isto abracou-me com tal impeto, que nao pude evita-lo.
   Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada
   no braco, enfadado e triste. Ja nao dominava em mim a parte
   simpatica da sensacao, mas a outra. Quisera ver-lhe a miseria
   digna. Contudo, nao pu de deixar de comparar outra vez o homem de
   agora com o de outrora, entristecer-me e encarar o abismo que
   separa as esperancas de um tempo da realidade de outro tempo

      Meto a mao no colete e nao acho o relogio. Ultima desilusao! O
   Borba furtara-mo no abraco. (p. 574)


No Capitulo CLX, finalmente essa terrivel, negativa e ao mesmo tempo catartica confissao: "Nao tive filhos, nao transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miseria." (p. 639)

3.2--Quincas Borba (1891)

3.2.1--Ideia nuclear

O romance conta a historia de Rubiao, um professor nascido em Minas Gerais, e que herdara todos os bens do filosofo Quincas Borba, personagem do romance Memorias Postumas de Bras Cubas. Mas lhe e imposta a condicao de cuidar do cachorro do morto, tambem chamado Quincas Borba.

Assumindo a heranca, e tendo aprendido algumas licoes do Humanitismo, filosofia criada por Quincas Borba, Rubiao resolveu fixar residencia no Rio de Janeiro, para onde se mudou.

Sem ter nunca residido numa cidade grande, Rubiao estranha os novos habitos. Ve-se arrodeado por pessoas interessadas em seu dinheiro e termina apaixonando-se por Sofia, mulher de seu amigo e socio Cristiano Palha.

Tomando ciencia das intencoes de Rubiao para com Sofia, Cristiano Palha ve-se diante de um crucial dilema: por ciumes da mulher, tomar atitudes decisivas e radicais contra Rubiao e ao mesmo tempo recuar, nao ofender o socio, de quem depende em termos financeiros.

Com muita astucia e habilidade, Sofia (fazendo jus ao nome, em grego "sabedoria") consegue equilibrar a situacao: permite que Rubiao continue a corteja-la e mantem intacto o relacionamento conjugal com o marido. Ela possuia tambem inclinacao por Carlos Maria.

Gradativamente, vao acontecendo fatos estranhos com Rubiao. Julga-se o imperador Napoleao III, passa a viver num mundo de sonhos e ilusoes, fala sozinho. Aos poucos, vai perdendo a fortuna e termina por enlouquecer de vez.

Vem a ruina total de Rubiao e os falsos amigos, antigos bajuladores, agora fogem dele. Tambem o fazem Sofia e Cristiano Palha.

Depois de permanecer internado num asilo, Rubiao foge para Minas Gerais, onde veio a falecer, delirando de grandeza.

Estava acompanhado de seu cao Quincas Borba e repetia com enfase uma frase da filosofia do Humanitismo: "Ao vencedor, as batatas."

3.2.2--Alguns aspectos do pessimismo

O Capitulo CLXXXII narra algumas facetas do precario estado de saude mental de Rubiao, ao imaginar-se o imperador Napoleao III, e exposto aos vexames do riso dos transeuntes e da curiosidade publica:
      Rubiao nao cuidou mais do coche nem do esquadrao de cavalaria.
   Foi dar consigo abaixo, andou por varias ruas, ate que subiu pela
   de S. Jose. Desde o paco imperial, vinha gesticulando e falando a
   alguem que supunha trazer pelo braco, e era a imperatriz. Eugenia ou
   Sofia? Ambas em uma so criatura,--ou antes a segunda com o nome da
   primeira. Homens que iam passando, paravam; do interior das lojas
   corri gente as portas. Uns riam-se, outros ficavam indiferentes;
   alguns, depois de verem o que era, desviavam os olhos para
   poupa-los a aflicao que lhes dava o espetaculo do delirio. Uma
   turba de moleques acompanhava o Rubiao, alguns tao proximos, que
   lhe ouviam as palavras. Criancas de toda sorte vinham juntar-se ao
   grupo. Quando eles viram a curiosidade geral, entenderam dar voz a
   multidao, e comecou a surriada:

      --O gira! o gira! (p. 797)

      E continua a descrever o bulicio causado pelo delirio:

      Esse vozear chamou a atencao de outras pessoas, muitas janelas
   dos sobrados comecaram abrir-se, apareceram curiosos de ambos os
   sexos e todas as idades, um fotografo, um estofador, tres e quatro
   figuras juntas, cabecas por cima de outras, todas inclinadas,
   espiando, acompanhando o homem, que falava a parede, com seu gesto
   cheio de grandeza e de obsequio.

      --O gira! o gira! berravam os vadios. (p. 797)


O Capitulo CLXXXIV apresenta outros aspectos da loucura de Rubiao:
      DUAS HORAS DEPOIS da cena da Rua da Ajuda chegou Rubiao a casa de
   D. Fernanda. Os vadios foram-se dispersando, a pouco e pouco, os
   claros nao se preenchiam; os tres ultimos juntaram os seus adeuses
   em um berro unico e formidavel. Rubiao continuou sozinho, mal
   percebido pelos moradores das casas, porque a gesticulacao diminuia
   ou mudava de feitio. Nao se dirigia a parede, a suposta imperatriz;
   mas era ainda imperador. Caminhava,parava, murmurava, sem grandes
   gestos, sonhando sempre, sempre, envolvido naquele veu, atraves do
   qual todas as cousas eram outras, contrarias e melhores; cada
   lampiao tinha um aspecto de camarista, cada esquina uma feicao de
   resposteiro. Rubiao seguia direito a sala do tronco, para receber
   um embaixador qualquer, mas o paco era interminavel, cumpria
   atravessar muitas salas e galerias, verdade e que sobre tapetes,--e
   por entre alabardeiros, altos e robustos. (p. 799)


O Capitulo CXCIX descreve o climax da inofensiva loucura de Rubiao, ao ser recolhido da rua por uma antiga comadre:
      --Ao vencedor, as batatas!--bradava Rubiao aos curiosos. Aqui
   estou imperador! Ao vencedor, as batatas!

      Esta palavra obscura e incompleta era repetida na rua, examinada,
   sem que lhe dessem com o sentido. Alguns desafetos do Rubiao iam
   entrando, sem cerimonia, para goza-lo melhor; e diziam a coma--der
   que nao lhe convinha ficar com um doudo em casa, era perigoso;
   devia manda-lo para a cadeia, ate que a autoridade o remetesse para
   outra parte. (p. 806)


Na presenca de um medico, que uma pessoa mais caridosa lembrou chamar, Rubiao continuava no auge do delirio, dizendo que:
      Capturar o rei da Prussia, nao sabendo ainda se o mandaria
   fuzilar ou nao; era certo, porem, que exigiria uma indenizacao
   pecuniaria enorme,--cinco bilioes de francos." (p. 806)


O Capitulo CC narra o fim do delirio com a morte de Rubiao:
      POUCOS DIAS DEPOIS morreu ... Nao morreu sudito nem vencido.
   Antes de principiar a agonia, que foi curta, pos a coroa na
   cabeca,--uma coroa que nao era, ao menos, um chapeu velho ou uma
   bacia, onde os espectadores palpassem a ilusao. Nao, senhor; ele
   pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; so ele via a insignia
   imperial, pesada de ouro, rutila de brilhantes e outras pedras
   preciosas. O esforco que fizera para erguer meio corpo nao durou
   muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou porventura uma
   expressao gloriosa.

      --Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor ...

      A cara ficou seria, porque a morte e seria; dous minutos de
   agonia, um trejeito horrivel, e estava assinada a abdicacao.
   (p. 806)


3.3--Dom Casmurro (1899)

3.3.1--Ideia nuclear

A narracao da historia e na primeira pessoa, em que Bentinho, orfao de pai, e criado com muito carinho e desvelo por sua mae, Dona Gloria. Desde cedo, Bentinho sente a forte protecao de seus familiares e amigos, nas pessoas de tia Justina, tio Cosme e Jose Dias.

Em cumprimento a uma antiga promessa de Dona Gloria, Bentinho e encaminhado a um seminario para ser padre. Antes conhecera Capitu, seu primeiro amor, e que era filha de vizinhos, da qual nao consegue esquecer no internato sacerdotal. Capitu possuia os "olhos de ressaca".

Bentinho nao se sente atraido pela vida de seminarista e muito menos tem vocacao sacerdotal. Dona Gloria, a despeito de sua promessa, tambem nao concebe a ideia de separar-se do filho. Por interferencia de Jose Dias, Bentinho deixa o seminario e o seu lugar e preenchido por um antigo escravo.

Bentinho resolve ser advogado, formando-se em Direito. A seguir, casa-se com Capitu. Reaviva sua velha amizade com um excolega de seminario, Escobar, que se casa com Sancha, amiga de Capitu.

Bentinho e Capitu tiveram um filho, Ezequiel.

Mais tarde, morreu Escobar e durante o velorio Bentinho acha estranha a maneira pela qual Capitu velava o cadaver. Ja possuia ciumes de Capitu e a partir desse dia passa a te-lo ainda muito mais.

Com o crescimento de Ezequiel, nota que o filho se parece cada vez mais com Escobar, infernizando constantemente a vida de Capitu.

No auge do ciume, idealiza envenenar a esposa e o filho, e matar-se a seguir. Mas lhe falta coragem, ao chegar Capitu.

Separam-se Bentinho e Capitu e a tragedia esvazia-se.

Capitu, em companhia do filho, viaja para a Europa, onde morreu depois de alguns anos.

Ezequiel, rapaz feito, regressa ao Brasil. Visita Bentinho, que so faz comprovar a extraordinaria semelhanca entre o filho e o ex colega de seminario. Ezequiel retorna ao estrangeiro, morrendo depois.

Bentinho, a medida que o tempo corre, e tomado pela duvida e pela incerteza e fecha-se cada vez mais em si mesmo.

Entao os amigos e vizinhos lhe dao o apelido de Casmurro e passa a escrever a historia de sua propria vida, que e o romance.

3.3.2--Alguns aspectos do pessimismo

No Capitulo XVII, temos outro aspecto do niilismo: assim como aqueles vermes que acabam com a carne, com os tecidos, com os ossos dos que morrem, esses outros reduzem a nada as paginas dos textos, onde se concentram o pensamento, a inteligencia, a arte, a filosofia, a ciencia, o trabalho intelectual do ser humano. Tudo isso fria e impassivamente:
      Catei os proprios vermes dos livros, para que me dissessem o que
   havia nos textos roidos por eles.

      --Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nos nao sabemos
   absolutamente nada dos textos que roemos, nem amamos ou detestamos
   o que roemos; nos roemos.

      Nao lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem
   passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto
   silencio sobre os textos roidos fosse ainda um modo de roer o
   roido. (p. 827)


O Capitulo LXXXV descreve o quadro horrivel, desenhado pela doenca e pintado pela morte:
      A um canto da sala de jantar vi a mae chorando; a porta da alcova
   duas criancas olhavam para dentro, com o dedo na boca. O cadaver
   jazia na cama; a cama ... (...) o quadro era feio, ja pela morte,
   ja pelo defunto, que era horrivel ... Teria dezoito ou dezenove
   anos, mas tanto lhe darias quinze como vinte e dous, a cara nao
   permitia trazer a idade a vista, antes a escondia nas dobras da ...
   Va, diga-se tudo; e morto, os seus parentes sao mortos, se existe
   algum nao e em tal evidencia que se vexe ou doa. Diga-se tudo;
   Manduca padecia de uma cruel enfermidade, nada menos que a lepra.
   Vivo era feio; morto pareceu-me horrivel. Quando eu vi, estendido
   na cama, o triste corpo daquele meu vizinho, fiquei apavo rado e
   desviei os olhos. (p. 893-4)


Com o Capitulo CXXXV, temos outra demonstracao de niilismo, quando Bentinho, movido por forte dose de ciumes, engendra o suicidio; antes imaginara matar Capitu. Ele acabara de assistir a encenacao de Otelo, uma tragedia de Shakespeare:
      Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi pe ante pe, e
   meti-me no gabinete; iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso,
   fiquei em mangas de camisa, e escrevi uma carta, a ultima, dirigida
   a Capitu. Nenhuma das outras era para ela; senti necessidade de lhe
   dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte.
   Escrevi dous textos. O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. O
   segundo continha so o necessario, claro e breve. Nao lhe lembrava o
   nosso passado, nem as lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe
   so de Escobar e da necessidade de morrer. (p. 935)


O Capitulo CXXXVI continha a ideia de destruicao contida no anterior,

O MEU PLANO foi esperar o cafe, dissolver nele a droga e ingeri-la." (p. 935)
      O copeiro trouxe o cafe. Ergui-me, (...), e fui para a mesa onde
   ficara a xicara. Ja a casa estava em rumores; era tempo de acabar
   comigo. A mao tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga
   embrulhada. Ainda assim tive animo de despejar a substancia na
   xicara, e comecei a mexer o cafe, os olhos vagos, a memoria em
   Desdemona inocente; o espetaculo da vespera vinha intrometer-se na
   realidade da manha. Mas a fotografia de Escobar deu-me o animo que
   me ia faltando; la estava ele, com as maos nas costas da cadeira, a
   olhar de longe ... 'Acabemos com isso', pensei.

      Quando ia beber, cogitei se nao seria melhor esperar que Capitu
   e o filho saissem para a missa; a bebedeira depois; era melhor.
   Assim disposto, entrei a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel
   no corredor, vi-o entrar e correr para mim bradando:

      --Papai ! papai ! (p. 936)


Em continuacao, o autor adverte-nos para um gesto "belo e tragico", que ele nao descreve, "por have-lo inteiramente esquecido" (p. 936):
      Efetivamente, a figura do pequeno fez-me recuar ate dar de costas
   na estante. Ezequiel abracou-me os joelhos, esticou-se nas pontas
   dos pes, como querendo subir e dar-me um beijo do costume; e
   repetia puxandome:

      --Papai ! papai ! (p. 936)


A seguir o Capitulo CXXXVII, que inclui a tentativa de envenenamento de Ezequiel:

SE TU NAO OLHASSE para Ezequiel, e provavel que nao estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro impeto foi correr ao cafe e bebe-lo. Cheguei a pegar na xicara, mas o pequeno beijava-me a mao, como de costume, e a vista dele, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui; mas va la, diga-se tudo. Chamem-me embora assassino; nao serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se ja tomara cafe.

--Ja, papai; vou a missa com mamae.

--Toma outra xicara, meia xicara so.

--E papai ?

--Eu mando vir mais; anda, bebe!

Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a xicara, tao tremulo que quase a entornei, mas disposto a faze-la cair pela goela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o cafe estava frio ... Mas nao sei que senti que me fez recuar. Pus a xicara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doudamente a cabeca do menino.

--Papai ! papai ! exclamava Ezequiel.

--Nao, nao, eu nao sou teu pai ! (p. 936)

Essa tragedia, contudo, nao se consumou e os fatos tomaram outros rumos, gracas ao aparecimento repentino de Capitu e posterior separacao do casal.

3. 4--Comparacao dos textos

Tanto quanto possivel, a comparacao desses textos sera pautada numa optica diacronica.

Desse modo, os tres romances escolhidos para pesquisa, surgindo em tres decadas diferentes de publicacao, consoante dados cronolicos mencionados no "corpus" deste trabalho, apresentam o tema do pessimismo machadiano transmutado em pluriformes aspectos, que variam de romance a romance.

Esse niilismo ora se apresenta sob a forma de germes devoradores de cadaver (Memorias Postumas de Bras Cubas, Dedicatoria, p. 511), ora sob a forma de germes destruidores de paginas de textos (Dom Casmurro, Capitulo XVII, p. 827) ; ora como crises mortais de pneumonia (Memorias Postumas de Bras Cubas, Capitulo Primeiro, p. 514), ora como crises de loucura nos estertores da morte (Quincas Borba, Capitulo CLXXXII, p. 797); ora como marcas de bexiga que tornam os rostos repugnantes, tornando-os tambem precocemente envelhecidos (Memorias Postumas de Bras Cubas, Capitulos XXXVII e XLI, p. 557 e 560), ora como flagelos e mutilacoes medonhos no corpos de pessoas atacadas por lepra (Dom Casmurro, Capitulo LXXXV, p. 893-4); ora como defeito fisico congenito em uma das pernas de mulher jovem, causando cenas de espanto, tristeza e desilusao (Memorias Postumas de Bras Cubas, Capitulo XXXII, p. 553), ora como ataques delirio intenso, provocando o riso, a vaia, o vexame (Quincas Borba, Capitulos CLXXXII e CLXXXIV, p. 797 e 799); ora como falta de dignidade e carater provocados pela miseria (Memorias Postumas de Bras Cubas, Capitulo LX, p. 574), ora como falta de solidariedade humana motivada por inimizades (Quincas Borba, Capitulo XCIX, p. 806); ora como um climax de todo um processo de pessimismo (Memorias Postumas de Bras Cubas, Capitulo CLX, p. 639 final), ora como o coroamento de todo um sonho, de todo um delirio, de toda uma loucura (Quincas Borba, Capitulo CC, p. 806); ou simplesmente como uma ideia de suicidio, assassinato, vinganca, destruicao, aniquilamento (Dom Casmurro, Capitulos CXXXV, CXXXVI, CXXXVII, p. 935 e 936).

Entrementes, a filosofia de negativismo machadiano guarda em si a mesma maneira de ser, a sua essencia, a sua particularidade, ou a sua forma ontologica de realizacao.

4--CONCLUSAO

Como se depreende da exposicao acima, a vida Machado de Assis foi marcada, digamos assim, por um permanente estado de sofrimento fisico, psicologica e social.

O seu pessimismo, por consequencia, foi determinado por esse condicionamento existencial, a par de uma gama de influencias filosoficas e literarias, cuja essencia de ideias resumia-se num so primado: a descrenca total de tudo e de todos.

Esse pessimismo verificou-se de modo mais nitido na segunda fase da obra, quando, numa dimensao diacronica que abrangeu tres decadas, ou melhor, tres periodos de maturacao, podemos observa-lo atraves dos romances Memorias Postumas de Bras Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899).

O tema foi tomando matizes distintos, diferenciados, nao perdendo, apesar de tudo, a sua condicao caracteristica essencial e primeira: pertencer a filosofia negativista, aos postulados do niilismo e, principalmente, nao se desgastar na sua forma ontologica de realizacao.

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Ruy Magalhaes de Araujo (UERJ)
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Author:de Araujo, Ruy Magalhaes
Publication:Soletras
Date:Jan 1, 2002
Words:7062
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