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MEMES AND THE COUP D'ETAT/OS MEMES E O GOLPE/LOS MEMES Y EL GOLPE.

A producao cotidiana de mensagens--atos comunicativos marcados pela imprevisibilidade (4) de emissores e receptores--tem nos memes um novissimo modo de expressao. Memes sao discursos (imagens, videos, musicas e outras formas de comunicacao) que viralizam na internet e despertam o desejo de atualizacao. Diferente do viral que se assenta basicamente no compartilhamento, o meme demanda ser modificado para se inserir em cada novo ato de compartilhar. Um meme e, pois, um discurso que se adequa aos contextos mais variados, exigindo de quem o compartilha um trabalho de atualizacao e ressignificacao. Originalmente, no grego, meme quer dizer imitacao. Se concordarmos com BHABHA (1998) que imitacao e sempre a criacao do novo, podemos afirmar que produzir um meme e imitar um discurso para faze-lo outro.

Na atualidade do ciberespaco, os memes--geralmente imagens acompanhadas de falas breves--sao consumidos como fontes de informacao: as vezes, discurso de verdade, outras, simples entretenimento. A separacao entre uma e outra possibilidade, contudo, nao e tarefa facil. Memes podem ser veiculos de propagacao de fake news e instrumentos para a difusao de odios e preconceitos.

Mas, como indica Certeau (1994), nossas praticas cotidianas sao marcadas pelos usos que empreendemos de tudo aquilo que produzimos e/ou consumimos. Para ele, os homens e mulheres comuns, em suas praticas de usuarios do que nao foi por eles fabricado e que lhes foi oferecido ou imposto pelo mercado ou pelo Estado, criam outros possiveis com suas operacoes, produzindo sempre diferenca em uma combinacao singular de artes de fazer a partir do repertorio dominante. Tais artes de fazer, que tambem constituem modos de saber, implicam uma producao secundaria informada pelos desejos e interesses dos praticantes da cultura. Dito de outra forma, se ha memes que narram violencias, ha outros que comunicam resistencias.

Podemos dizer que os memes, em alguma medida, sao "artes de dar golpes" (CERTEAU, 1994) (6) nas textualidades estabelecidas. Representariam a vitoria dos mais "fracos" (no caso, as linguagens marginais) contra os mais "fortes" (os atos comunicativos convencionais), capturando no voo (CERTEAU, 1994) oportunidades de fortalecimento, (re) aparicao e permanencia no hall das efemeridades discursivas.

Ha quem acredite nos memes como banalidades do dia a dia, trivialidades sem importancia a compor uma gigantesca lixeira virtual. Argumentamos, ao contrario disto, que memes constituem e fabulam os cotidianos, inventando formas outras de produzir comunicacao. Assim, falaremos de memes como praticas formativas capazes de criar modos de narrar o mundo. Nossos processos formativos sao constituidos de sentir, ser, pensar e fazer (ALVES, 2015), e a nossa formacao e costurada nos/pelos/com os encontros que temos. Os encontros--entre pessoas e entre processos--constituem a base da nossa formacao. Assim,

[...] ao pensarmos, especificamente, a formacao no contexto das praticas da formacao academica, por exemplo, e preciso que saibamos que e nela que se da a formalizacao de conhecimentos especificos, bem como a apropriacao teorica de praticas--de todas as praticas que se dao em outros contextos--tanto como das teorias, criadas e acumuladas, especialmente, no contexto das praticas de pesquisas em educacao. Assim sendo, ao discutirmos a formacao no contexto das praticas da formacao academica, e preciso que pensemos os conhecimentos--teoricos e praticos bem como as significacoes capazes de nela articular tudo o que e criado e acumulado nos outros contextos. (ALVES, 1998, p. 63-64).

Como recorte, optamos por dialogar com memes produzidos em meio ao golpe de 2016, intentando sublinhar as possibilidades de registro e pensamento a partir desta recem-criada figura de linguagem.

BREVE ENSAIO IMAGETICO SOBRE O GOLPE

Foi golpe. Precisamos comecar dizendo isto. Sem meias palavras, sem rodeios, anunciando o que quase todos nos sabemos nos tempos que correm. Uma presidenta legitimamente eleita, com mais de 54 milhoes de votos, foi impichada sem ter cometido crime de responsabilidade (7), abrindo caminho para o saque do poder por um coletivo politico-empresarial majoritariamente envolvido em esquemas de corrupcao (8). O golpe de 2016 (9) foi urdido por multiplos movimentos, tecido em meio a uma atmosfera de descontentamento frente "a tudo isso que esta ai"--uma generalizacao que acirra animos e nao explica coisa alguma.

Palavras de ordem e frases de impacto marcaram as manifestacoes nas ruas e na Internet, reunindo uma pleiade de criticas sob o guarda-chuva do combate a corrupcao. Entretanto, a vulgarizacao de um discurso padrao contra a "corrupcao dos tolos", conforme argumenta Souza (2017), serviria para ocultar a corrupcao real, da elite do dinheiro, que teria como cumplices a grande midia e setores da casta juridica.

[...] Esse e certamente um caso unico nas sociedades modernas: um grupo de midia se intromete seletivamente na politica, se alia a juizes com agenda propria e corporacoes com interesses particularistas, como o MP e a Policia Federal, chantageia e ameaca juizes de tribunais superiores e politicos, usando a turba protofascista da classe media como massa de manobra, e consegue destronar um governo eleito democraticamente. (SOUZA, 2017, p. 219).

O golpe, hoje ja sabido, embora nao assumido por todos, nao nasceu da noite para o dia. Foi arquitetado a partir de aliancas multiplas, com a imprensa, com os empresarios, com parte do poder judiciario--que, segundo Souza (2016, p. 15), "tambem assalta o pais com salarios nababescos e vantagens de todo tipo que o mortal comum sequer sonha"--, com muitos artistas inconformados trajando camisetas da selecao brasileira, uma ribanceira com um monte de gente a flertar com o precipicio.

O golpe fez parte, segundo interceptacao telefonica do Senador Romero Juca (MDB-RR), de um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo.

A confissao de Juca--que nao o levou para a cadeia, tampouco cassou seu mandato--revela a dimensao do golpe em curso. Nao se trata apenas de uma disputa politico-partidaria, mas de um projeto de poder, ou melhor, da tentativa de retomada de um tempo historico ameacado--embora nao superado, pelos treze anos de governos petistas--com forte marcador de classe.

De acordo com Frigotto (2017) o ambiente que geriu o golpe e marcado pelo desejo de interromper duas conquistas dos movimentos sociais: a Constituicao de 1988 e a eleicao de Luis Inacio Lula da Silva, em 2002. Se a Constituicao Cidada ampliou direitos sociais e subjetivos de forma significativa, garantindo o direito universal a educacao basica, a eleicao de Lula da Silva representou a possibilidade foram criadas, alem de centenas de Institutos Federais de Educacao, Ciencia e Tecnologia; aumento real do salario minimo; politica de cotas; bolsa familia; liberdade de organizacao para os movimentos sociais e culturais; mudancas substanciais nas relacoes exteriores, incluindo a participacao do Brasil no BRICS (10).

Este conjunto de acoes e de mudancas, na visao do autor, tornou-se insuportavel para a classe dominante brasileira e desdobrou-se nos procedimentos do golpe de 31 de agosto de 2016--um golpe mais profundo e letal que o golpe empresarial-militar de 1964, estando a classe dominante, no cenario atual, organizada como tal no coracao do Estado e na sociedade civil.

A producao de 'verdades', fundamental para se costurar o golpe, ganhou respaldos juridicos com a Operacao Lava-Jato (11) que, entre muitos artificios, elege uma visao moralista da corrupcao para montar um constante Estado Policial, onde tudo e permitido para se garantir a ordem. Nos ultimos anos, cenas de conducoes coercitivas e praticas de busca e apreensao em casas de politicos e empresarios, tornaram-se corriqueiras na televisao brasileira. Tornou-se comum, por volta das cinco ou seis horas da manha, a deflagracao de alguma fase da Operacao Lava Jato, sempre com nomes estranhos, distantes do vocabulario corrente.

Faz parte da cena juridica a adocao de termos pouco familiares aos nao iniciados no Direito, o que acaba gerando incompreensoes que dificilmente serao sanadas nos atropelos dos dias. Talvez, por essa razao, parte dos discursos sobre a Lava Jato tenha tomado a forma de imagens (memes) e nao de palavras.

Diante do "juridiques" outras escrituras--bricolagens de imagens, palavras e sons--tomaram conta das narrativas cotidianas compartilhadas e ressignificadas na Internet. Um novo modelo de conversacao se estabelece, pautado em ideias que se replicam sem muito esforco--no gesto de um clique; mensagens constituidas por textualidades dadas a abertura (12), mais afeitas a imagens que a palavras. Sao ideias ou fragmentos de ideias "materializados" em pequenos discursos visuais. Mensagens com alto potencial de remixagem, de transmissao, de personalizacao. Trata-se de unidades comunicativas que nascem e morrem de repente, mas que tambem ressuscitam quando ja eram esquecimento. Em suma, os memes atualizaram as conversacoes na cibercultura e, como praticamos nas paginas acima, podem nos ajudar a contar uma historia do tempo presente.

Porem, e preciso ressaltar que o meme nao e fruto de uma criacao pessoal, mas consequencia de uma rede de agenciamentos. Se for verdade que o objeto tecnico traz algo do praticante que o inventou, tambem e verdade que tal objeto e suporte e simbolo de uma relacao transindividual. A relacao transindividual e aquela que se da entre realidades pre-individuais e nao entre individuos constituidos. A invencao tecnica e consequencia de agenciamentos coletivos, isto e, move-se a partir da relacao das pessoas com o mundo e difere-se de uma operacao intelectual projetada fora de qualquer relacao com o meio. O individuo participa de uma rede de conexoes e e essa rede que produz uma realidade transindividual. Trata-se de uma relacao de prolongamento e nao de oposicao; e um fora interior, mais vasto e mais rico que o individuo (ESCOSSIA, 2010). Nessa perspectiva, o sujeito nao e um dado, um ponto de partida, mas o resultado de um processo no qual emergem individuo psiquico e meio.

MEMES, AUTORIA E DIFERENCA

Chico Buarque, na cancao Rubato, fala de uma pratica comum no meio musical: o roubo de letras e melodias que, bricoladas, se transformam noutras cancoes, ainda que mantenham certo dialogo com o texto original (13). Tomo de Chico essa ideia de "Rubato" para falar de nossos 'roubos' cotidianos, das releituras que fazemos do postado, do curtido, do compartilhado. Os memes sao roubos perdoados ja que ladrao que rouba ladrao...

Para Derrida (1991) a autoria e uma ilusao e uma arbitrariedade. Nossas criacoes estao contaminadas de referencias intertextuais, sao produtos de uma promiscuidade semantica, costuras pontilhadas com linhas que nos escapam, enroladas no mesmo carretel, mas vindas de armarinhos variados. Contrario a ideia de autoria individualizada, Derrida (1991) destaca que em tudo o que fazemos ha dialogos tecidos com interlocutores variados e se assinamos uma obra e por conveniencia e nao por propriedade intelectual meritoria. Se na Academia temos alguma dificuldade de assumir isso, nos memes a co-autoria e um pressuposto positivamente cultivado.

Ao assumirmos nossa posicao constante de co-autores de invencoes cotidianas --das aulas que damos, dos textos que produzimos, dos projetos que elaboramos rompemos com a ilusao da autoria individualizada e apostamos no pensamento como constructo coletivo, fomentado por encontros que nos afetam e nos agenciam. O agenciamento, para Deleuze e Parnet (1998), e o cofuncionamento, e a "simpatia", a simbiose. Os agenciamentos atualizam os modos como vemos o mundo, pois os nossos territorios existenciais sao temporarios, precarios, inconclusos.

E possivel dizer que praticamos a abertura para a co-autoria a partir dos memes. Ao contrario de boa parte das praticas academicas, criamos com os memes uma relacao de colaboracao entre desconhecidos. Nao se trata de disputa, mas de solidariedade, de fazer com, de se deixar afetar pela imagem proposta pelo outro. E mais: os memes nos inspiram a debater possibilidades de alteracao das ideias neles contidas.

Com os memes, deixamo-nos contaminar pelos sentidos criados por quem nos cerca, vamos fabricando nossos proprios sentidos e no final das operacoes ja nao sabemos mais o que nos pertence e o que foi inspirado pela pratica de outro fruidor. Porque "O escritor inventa agenciamentos a partir de agenciamentos que o inventaram, ele faz passar uma multiplicidade para a outra" (DELEUZE; PARNET, 1998, P. 43). O produtor/fruidor de memes tambem. Para Bentes (2015), por meio da memetica criamos uma "conversa infinita", experimentamos praticas dialogicas onde a conversacao entre muitos cria pensamentos. O criador (ou co-criador/fruidor) dos memes seria um pos-expectador, um sujeito acostumado a interferir na informacao "ao vivo", no calor dos acontecimentos. Ele vai deixando rastros imageticos e/ou sonoros de suas ideias e opinioes no ciberespaco, comunicando mais por afetacao do que buscando uma verdade sobre algo.

Argumentamos, a partir de Derrida (1991), que ha uma explosao de vozes em nossos pensamentos e que a autoria, como pratica individualizada, e uma arbitrariedade que nos acostumamos a nao enxergar. O texto, para este autor, precisa supor a liberdade do leitor, demanda ser hospitaleiro, sensivel a alteridade:

O primeiro leitor e ja um herdeiro. Vou ser lido? Escrevo para ser lido? E para ser lido aqui, agora, amanha ou depois de amanha? Esta pergunta e inevitavel, mas se coloca como pergunta a partir do momento em que eu nao a posso controlar. A condicao para que possa haver heranca e que a coisa que se herda, aqui, o texto, o discurso, o sistema ou a doutrina, ja nao depende de mim, como se eu estivesse morto ao final da minha frase (...) A questao da heranca deve ser a pergunta que se lhe deixa ao outro: a resposta e do outro. (DERRIDA, 2001, p. 46).

Estamos, pois, mortos ao final de cada meme compartilhado. Nossas redes herdam diariamente os nossos memes (tambem criados em rede) e com eles bricolam (ou ignoram) mundos possiveis. O outro e um praticantepensante (OLIVEIRA, 2012), um fruidor. Ele faz e desfaz com os nossos fazimentos. E impossivel aprisiona-lo nas teias dos sentidos que queremos conferir a tudo o que produzimos.

Deleuze (1991), nesse sentido, ira criticar a ideia de generalizacao. Conscio da diversidade de nossos atos e das inumeras possibilidades de nossas logicas operatorias, ele sublinha o carater singular da repeticao:

A repeticao nao e generalidade. A repeticao deve ser distinguida da generalidade de varias maneiras. Toda a formula que implique a sua confusao e deploravel, como quando dizemos que duas coisas se assemelham como duas gotas de agua ou quando concluimos que "so ha ciencia do geral" e "so ha ciencia do que se repete". Entre a repeticao e a semelhanca, mesmo extrema, a diferenca e de natureza. (DELEUZE, 1991; p.11).

Um meme e, pois, repeticao que produz diferenca; esta sob rasura. Sera sempre da ordem do provisorio, do caos, da abertura e nunca da estabilidade. Nao explicam o mundo definitivamente, mas inventam mundos de modo provisorio.

Explicacoes generalizantes sobre o mundo, das quais derivam prescricoes sobre o que a realidade deveria ser se obedecesse aquilo que a teoria construiu ja fracassaram, e continuam fracassando em quase todos os campos do conhecimento, mas para os amantes da norma, a realidade nao importa; importa e aprisiona-la em modelos explicativos e teorias a serem aplicados na pratica. (OLIVEIRA, 2014; 55).

Sem compromisso com a permanencia, o meme e algo que esta sendo, transitando constantemente. De algum modo, tal instabilidade positivamente assumida configura um dos principios das pesquisas nos/dos/com os cotidianos, onde estamos filiados. Atentas aos perigos e limitacoes da forma tradicional de fazer ciencia, as pesquisas nos/dos/com os cotidianos optam por uma criacao compartilhada, onde os sujeitos da pesquisa sao aqueles que a produzem em atos de vida, em encontros complexos e repletos de sentidos multiplos. Um elogio a diferenca que vem antes; um compreender a repeticao como criacao constante e unica; um praticar ciencia como obra aberta, sempre incompleta e fadada ao movimento. A ciencia, acreditamos, ganharia muito se prestasse mais atencao no potencial comunicativo e criador dos memes.

Podemos, com Derrida (1991), pensar o texto cientifico enquanto movimento incessante, livre da obsessao metafisica ocidental, contrario aos binarismos e afeito a hospitalidade. Um texto comprometido com um devir outro; uma escrita que se constitui como um pensamento da diferenca e da alteridade, vivida no campo e traduzida parcialmente pelas palavras que arrumamos diante do computador. Para completar as palavras, talvez, pudessemos usar alguns memes.

CONSIDERACOES FINAIS

Ao pensarmos os memes como discursos abertos e colaborativos, capazes de participar da narracao da nossa historia comum, sublinhamos sua potencia na criacao do pensamento. Argumentamos que os memes informam e divertem, podendo ser veiculos de boas ou mas acoes, visto o papel ativo dos usuarios, conforme indica Certeau (1994). Destacamos a coerencia entre o principio do inacabamento dos memes e os pilares das pesquisas nos/dos/com os cotidianos, afeitas a instabilidade dos encontros e dos agenciamentos. Defendemos que os memes, enquanto tentativas de representacao do vivo e/ou do vivido, sempre produzem diferenca, ainda que os pensemos enquanto praticas de repeticao (vide os exaustivos compartilhamentos de imagens aparentemente iguais). Em suma, inserimos a memetica no amplo leque das praticas formativas, destacando seu potencial de criacao com o outro, com as tecnologias, com a historia que acontece agora. O golpe de 2016, ainda que nos tenha tirado muitas coisas, provavelmente ampliou nossos repertorios de producao de pensamentos com os memes que foram gerados. Estes, por sua vez, nos distrairam e/ou nos provocaram a fabular possibilidades de resistencia, indignacao e mobilizacao. Em meio as turbulencias, resta-nos perguntar:

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

ALVES, Nilda. Trajetorias e redes na formacao de professores. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.

ALVES, Nilda. Nilda Alves: praticantepensante de cotidianos/ organizacao e introducao Alexandra Garcia, Ines Barbosa de Oliveira; textos selecionados de Nilda Alves. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2015.

BENTES, Ivana. Midia-multidao: esteticas da comunicacao e biopoliticas. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015.

BHABHA, HomiK.. O local da Cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

CERTEAU, Michel de. A Invencao do Cotidiano:1. Artes de Fazer. Petropolis, RJ: Vozes, 1994.

DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Dialogos. Trad. Eloisa Araujo Ribeiro. Sao Paulo: Escuta, 1998.

DELEUZE, Gilles. Diferenca e Repeticao. Rio de Janeiro: Graal, 1991.

DERRIDA, Jacques. Limited Inc. Campinas: Papirus, 1991.

DERRIDA, Jacques. !Palabra! Instantaneas filosoficas. Madri: Editorial Trotta, 2001.

ECO, Umberto. Obra Aberta. Sao Paulo: Perspectiva, 2005.

DERRIDA, Jacques. Seis passeios pelo bosque da ficcao. Sao Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ESCOSSIA, Liliana da. A invencao tecnica: transindividualidade e agenciamento coletivo. In: Informatica na Educacao: teoria & pratica. Porto Alegre, v. 13, no 2, jul/dez. 2010, pp. 16-25.

FRIGOTTO, Gaudencio. A genese das teses do Escola sem Partido: esfinge e ovo de serpente que ameacam a sociedade e a educacao. In: FRIGOTTO, Gaudencio (ORG.). Escola "sem" Partido. Esfinge que ameaca a educacao e a sociedade brasileira. Rio de Janeiro: UERJ, LPP, 2017, p. 17-34.

OLIVEIRA, Ines Barbosa de. O curriculo como criacao cotidiana. Petropolis, RJ: DP etAlli, 2012.

OLIVEIRA, Ines Barbosa de. "Isto nao e um artigo cientifico: a hegemonia contestada e os novos modos de pesquisar". In: OLIVEIRA, Ines Barbosa de; GARCIA, Alexandra (Orgs.). Aventuras de Conhecimento: utopias vivenciadas nas pesquisas em educacao. Petropolis, RJ: De Petrus; Rio de Janeiro, RJ: FAPERJ, 2014, p. 53-80.

RUBIN, Linda; ARGOLO, Fernanda (Org.). O golpe na perspectiva de genero. Salvador: Edufba, 2018.

SOUZA, Jesse. A radiografia do golpe: entenda como e por que voce foi enganado. Rio de Janeiro: Le Ya, 2016

SOUZA, Jesse. A elite do atraso: da escravidao a lava jato. Rio de Janeiro: Le Ya, 2017.

DOI: 10.12957/periferia.2019.37034

Leonardo Nolasco-Silva (1)

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Maria da Conceicao Silva Soares (2)

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Vittorio Lo Bianco (3)

Fundacao CECIERJ

(1) Doutor em Literatura Comparada (UFF) e em Educacao (UERJ). Professor adjunto da Faculdade de Educacao da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E-mail: leonolascosilva@gmail.com

(2) Professora Adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro--UERJ, na Faculdade de Educacao e no Programa de Pos-Graduacao em Educacao--PROPED. Graduada em Comunicacao Social pela Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro (1978) e em Ciencias Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1985). Doutora (2008) e Mestre (2003) em Educacao pela Universidade Federal do Espirito Santo. Pos-doutora em Educacao e Imagem na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

(3) Tecnico em Ensino a Distancia e Divulgacao Cientifica na Fundacao CECIERJ. Bacharel em Relacoes Internacionais pela PUC-Rio, Mestre em Politicas Publicas, Estrategias e Desenvolvimento pelo Instituto de Economia da UFRJ, especialista em Politicas Publicas (UFRJ) e em Genero e Sexualidade (Instituto de Medicina Social/UERJ). Doutorando em Educacao na Faculdade de Educacao da UERJ.

(4) A imprevisibilidade da comunicacao, segundo Umberto Eco (2005), tem a ver com os processos de fruicao que marcam a nossa experiencia enquanto leitores de mensagens alheias. A comunicacao, para este autor, e movimento incessante que pode nos levar para muitos lugares, sem mapas previos. Ha um meme que diz assim: "Eu sou responsavel por aquilo que eu falo e nao pelo que voce entende". Obviamente ha uma simplificacao nesta frase, mas ela nos serve aqui, pois alude a liberdade de interpretacao e de uso daquilo que e dito, ouvido ou lido.

(5) E praticamente impossivel identificar o ponto de partida de um meme. Por isso, as imagens utilizadas neste texto nao serao referenciadas, pois encontradas nos fluxos de navegacao pelo ciberespaco, compartilhadas por inumeros usuarios e, por eles, ressignificadas. Sempre que possivel, todavia, indicaremos a inspiracao inicial dos memes.

(6) Pensamos as astucias como derivacoes das taticas, conforme nos diz Certeau: "Determinada pela ausencia de poder, a tatica e a arte do fraco, por isso as opera golpe por golpe. A tatica tem que utilizar, vigilante, as falhas que as conjunturas particulares vao abrindo na vigilancia do poder proprietario. Ai vai cacar. Cria, ali, surpresas. Consegue estar onde ninguem espera; e astucia. (CERTEAU, 1994, p.101).

(7) No Brasil, de acordo com a lei, o impeachment (impedimento, impugnacao) de um presidente da republica deve advir de crimes de responsabilidade, abuso de poder ou quaisquer outras infracoes que violem a Constituicao. No caso de Dilma Rousseff, apos inumeras diligencias legais e politicas, ficou provada a total inadequacao da medida, bem como se tornaram claros os interesses escusos por tras do termino do seu mandado. Cf. Rubin, Linda; Argolo, Fernanda (Org.). O golpe na perspectiva de genero. Salvador: Edufba, 2018.

(8) Cf. Souza, Jesse. A elite do atraso: da escravidao a lava jato. Rio de Janeiro: Le Ya, 2017.

(9) Cf. Souza, Jesse. A radiografia do golpe: entenda como e por que voce foi enganado. Rio de Janeiro: Le Ya, 2016.

(10) Abreviatura do bloco economico formado por paises economicamente emergentes: Brasil, Russia, India, China e Africa do Sul.

(11) Nome dado a uma operacao de investigacao iniciada em 2014 pelo Ministerio Publico Federal que investiga desvio e lavagem de dinheiro. Cf.: http://lavajato.mpf.mp.br/ Acesso em 29/08/18.

(12) Eco (2004) defende que quando adentramos em um texto literario o fazemos com todas as nossas bagagens (e com as nossas redes) e, dependendo de como estivermos naquele momento, podemos seguir a rota tracada pelo autor ou trilhamos um caminho so nosso, instigados por uma memoria desperta por um fato narrado no livro que estamos lendo. Nesses casos, saimos do mapa desenhado pelo autor do texto e fazemos passeios inferenciais, costurando sentidos previos e adquiridos, fabulando reviravoltas, antecipando desfechos ou simplesmente saindo do bosque para nunca mais voltar. Assim, se ao ler um livro de romance pensamos em uma antiga namorada e fantasiamos o que poderia ter sido do nosso amor interrompido, quando voltarmos a leitura podemos desejar encontrar na narrativa os caminhos que nos mesmos desenhamos na imaginacao. Se nao os vemos, nos desinteressamos, fechamos o livro e saimos falando mal dele. Ou ligamos pra nossa ex e tentamos escrever outra historia. Ou nada disso, porque a obra aberta e um eterno atualizar de sentidos ...

(13) A cancao, nesse sentido, deixa de pertencer ao compositor quando e executada diante do publico; corre o risco da descaracterizacao, sendo alterada, por exemplo, no song book que, a pretexto de homenagem, muda os arranjos originais, descaracterizando a producao primeira do artista homenageado. O proprio Chico teve sua obra musical revisitada em um Song Book de oito volumes, lancados em 2004 pela Lumiar Editora. Por isso, suplica o poeta: "Venha, Aurora, ouvir agora/ A nossa musica/ Depressa, antes que um outro compositor/ Me roube e toque e troque as notas no song book/ E estrague tudo e exponha na televisao".

Caption: Figura 1 A imagem, viralizada em 2015, nao revela somente o descontentamento com a pratica politica da presidenta da Republica. Expressa o machismo e a misoginia entranhados na sociedade brasileira, promotores de uma cultura do estupro (5).

Caption: Figura 2 A apresentadora Bela Gil e fonte constante de memes. Cozinheira, ela costuma dar dicas de alimentacao saudavel, recomendando substituir determinados ingredientes nocivos (na concepcao dela) por outros mais beneficos. Seu bordao e atualizado em multiplos contextos.

Caption: Figura 3 Na composicao de imagens, temos o meme oriundo de uma cena realizada pelo humorista Paulo Gustavo. O texto da personagem (apresentada ao publico como despolitizada, influenciavel e a procura de fama) repete os cliches contra a corrupcao, muito comuns nas redes sociais online.

Caption: Figura 4 Ao longo do golpe a parcialidade das Organizacoes Globo, bem como o seu envolvimento em questoes juridicamente delicadas, foram ficando cada vez mais evidentes, gerando reacoes na Internet e nas entradas ao vivo dos telejornais.

Caption: Figura 5 Artistas que participaram das manifestacoes pelo impeachment de Dilma Rousseff, admiradores do juiz Sergio Moro, que comanda a Operacao Lava Jato, viraram meme quando Michel Temer assumiu a presidencia e extinguiu o Ministerio da Cultura.

Caption: Figura 6 Meme criado a partir da conversa-confissao do Senador Romero Juca (MDB-RR). Na ligacao, interceptada pela Policia Federal, o politico conta detalhes do plano em curso para afastar Dilma Rousseff da presidencia da republica.

Caption: Figura 7 A complexidade da luta de classes deu lugar, no Brasil, a uma divisao simploria, mas de grande apelo ideologico: coxinhas x mortadelas. Tal polarizacao, inspirada no antagonismo entre direita e esquerda, sintetizou praticas veladas (as vezes nem tanto) de inumeros preconceitos.

Caption: Figura 8 Alguns memes sao capazes de sintetizar capitulos muito complexos da nossa historia. A frase em tela, por exemplo, oferece pistas sobre a densa discussao acerca do racismo realizada por Souza (2017). A imagem do ex-presidente Lula alude ao argumento promovido por Frigotto (2017).

Caption: Figura 9 A imagem registra o momento em que Aecio Neves, cercado por apoiadores de sua campanha presidencial, recebe o resultado de sua derrota para Dilma Rousseff. Aecio promete fazer de tudo para nao deixar Dilma governar.

Caption: Figura 10 A rotina das prisoes e conducoes coercitivas virou piada na Internet, destacando a previsibilidade das acoes "coincidentemente" concomitantes a programacao matutina das emissoras de televisao (faixa marcada por programas jornalisticos e de variedades, geralmente ao vivo).

Caption: Figura 11 O "Japones da Federal" tornou-se um simbolo das conducoes coercitivas e das prisoes de politicos e empresarios. Um dia, ele mesmo foi preso. Os memes, entao, informaram que o "Japones da Federal" foi preso pelo "Japones da Federal".

Caption: Figura 12 Meme gerado a partir de uma briga filmada entre duas garotas na saida da escola. A estudante que aparece na imagem, depois de muito apanhar, levanta-se e provoca a outra, altivamente: "Ja acabou, Jessica"?
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Author:Nolasco-Silva, Leonardo; Soares, Maria da Conceicao Silva; Bianco, Vittorio Lo
Publication:Periferia
Date:May 1, 2019
Words:4453
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