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MANAGEMENT STUDENTS' SOCIAL REPRESENTATIONS ON OPTIONAL INTERNSHIPS: A STUDY AT THE MARINGA STATE UNIVERSITY/REPRESENTACOES SOCIAIS DOS ESTUDANTES DE ADMINISTRACAO SOBRE OS ESTAGIOS NAO-OBRIGATORIOS: UM ESTUDO NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGA.

INTRODUCAO

A expansao dos cursos de ensino superior no Brasil, especialmente apos o governo de Luis Inacio Lula da Silva (2003-2010), trouxe como reflexo um processo de interiorizacao das universidades, alem do aumento do numero de graduandos dos cursos de bacharelado no mercado de trabalho nacional, especialmente por meio da realizacao de estagios nao-obrigatorios. Entretanto, a forma como estes estudantes tem percebido as suas condicoes de trabalho nessa dinamica e uma discussao que ainda precisa ser feita.

De acordo com o Ministerio da Educacao [MEC] (2014), Administracao e o curso de graduacao com mais estudantes matriculados, consequentemente e o curso que mais proporciona a insercao desses jovens profissionais no mercado de trabalho. Dialogando sobre os estagios no Brasil e levando em consideracao as ofertas destes, os estudantes que mais tem oportunidades de estagio sao os graduandos de Administracao com 41,5% das vagas, de acordo com as informacoes do Nucleo Brasileiro de Estagios [NUBE] (2015). O estagio em Administracao e uma oportunidade que os academicos possuem de aprimorar seus conhecimentos e desenvolver suas competencias profissionais. Para as empresas, o estagio e uma ferramenta que permite buscar novos talentos ou ate mesmo suprir falta de funcionarios por meio de uma mao de obra qualificada e barata. Por sua vez, para os estudantes essa ferramenta pode ser considerada uma forma de aprimorar seu aprendizado e, de certa forma, adquirir experiencias profissionais.

Com base nesse processo de classificacao do "que e ou nao" um estagio ou sobre "o que se deve ou nao" aprender durante esse periodo, e que sao construidas as representacoes sociais dessa dinamica pelos estagiarios, e, no caso em estudo os estudantes dos cursos de graduacao em Administracao. Estas representacoes sociais sobre os estagios subsidiam discursiva e materialmente a formacao dos estudantes de graduacao, pois elas refletem e reproduzem as formas como os estudantes interpretam sua insercao e desenvolvimento no mercado de trabalho, bem como as relacoes entre a universidade, um espaco de formacao academica, com o mercado de trabalho, espaco de formacao profissional. Isso porque, de acordo com Spink (1993), as representacoes sociais estruturam os nucleos de significados que constituem as praticas dos individuos em relacao as suas atividades cotidianas, sendo, nesse caso, os estagios nao-obrigatorios dos estudantes universitarios.

Moscovici (2003) enfatiza que as representacoes sociais estao associadas a interacao que ocorre entre grupos e individuos. O encontro entre ambos permite troca de experiencias e de acontecimentos vivenciados nas rotinas diarias desses individuos, fazendo com que as representacoes sejam construidas. Ainda de acordo com Moscovici (2003), as representacoes sociais possibilitam que a producao de sentido sobre determinado fenomeno social seja materializada no cotidiano de vida dos individuos, ou seja, e um processo que possibilita a articulacao entre as dimensoes subjetivas e objetivas da sociedade.

Deste modo, quando sao analisadas as representacoes sociais dos estagios para os estudantes universitarios, o foco nao se volta somente a producao de sentidos individuais sobre o mercado de trabalho, mas sim como um conjunto de processos sociais se materializa nessa dinamica de formacao profissional. Ou seja, quando se discute a importancia de se compreender as representacoes sociais dos estagios nao-obrigatorios para os estudantes enfatiza-se os efeitos de um conjunto de politicas publicas, de sistema economico, de relacoes de poder que subsidiam e produzem o cotidiano dos estudantes que sao foco desses processos sociais.

E por isso que Spink (1993, p. 91) destaca que a objetivacao das representacoes sociais implica tres fases, sendo estas "a descontextualizacao da informacao por meio de processos normativos e culturais"; "a formacao de um nucleo figurativo, a formacao de uma estrutura que reproduz de maneira figurativa uma estrutura conceitual"; "a naturalizacao, ou seja, a transformacao destas imagens em elementos da realidade". Sendo assim, e possivel destacar que sao as articulacoes entre os diferentes atores e elementos sociais que produzem o campo dos estagios nao-obrigatorios e estabelecem um conjunto de significados sobre esse processo de modo a estrutura-lo e sao essas significacoes que constituem o nucleo das representacoes sociais que subsidiam a producao da realidade social.

Diante disso, trazendo o estagio para o meio das representacoes sociais percebe-se que a visao dos estudantes em relacao a funcao de um estagiario e as praticas de estagio se torna generalizada no meio dos universitarios. Essa questao esta atrelada ao senso comum por meio de contatos que esses estudantes tem com outros estudantes em relacao as suas experiencias ou nao de estagio, por meio da producao de uma linguagem especifica pela qual se compreende esse processo. Mais do que isso, a estruturacao de determinadas praticas no cotidiano de vida destes individuos possibilita a producao e a reproducao das formas como os estagios constituem a dinamica de formacao dos estudantes. Nesse ultimo ponto e que se pode destacar como as representacoes sociais refletem nao somente o cotidiano de vida dos estudantes, mas, tambem, estao articuladas a processos macrossociais, a exemplo da expansao do ensino superior no pais.

Para muitos estudantes, a imagem que possuem sobre um estagiario se torna limitada pelo fato de ouvirem certas afirmacoes sem ao menos questiona-las se sao veridicas ou nao. Com base nisso, as pessoas acabam repetindo essas afirmacoes em seus grupos de contatos generalizando a funcao de um estagiario como aquele, por exemplo, que serve cafe e atende telefone. Quando se discute representacoes sociais deve-se ter em mente que para estas serem construidas devem-se relacionar as discussoes do senso comum, que acontecem entre um individuo e um grupo.

Diante disso, surge a seguinte questao de pesquisa: quais sao as representacoes sociais dos estudantes de graduacao em Administracao sobre as suas experiencias de estagios nao-obrigatorios? Para responder essa questao, foram analisadas as experiencias dos universitarios de Administracao tanto em relacao as suas praticas de estagio quanto a visao que alguns alunos que nao realizavam estagio possuiam dessa atividade. Os alunos entrevistados pertencem a Universidade Estadual de Maringa (UEM), localizada no noroeste do Estado do Parana. Posto isso, e diante do problema de pesquisa, o objetivo do presente estudo e analisar as representacoes sociais dos universitarios de Administracao quanto as suas experiencias em relacao ao estagio nao-obrigatorio.

Apesar de ja terem sido realizadas pesquisas nesta mesma linha de raciocinio, como e o caso do estudo feito por Bianchi e Oliveira (2011) no Estado do Rio de Janeiro, e Oliveira e Piccinini (2012a; 2012b) na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e na Franca, percebeu-se a necessidade de pesquisar o contexto dos estudantes de Administracao da UEM (Universidade Estadual de Maringa) devido ao fato de que, como afirma Spink (1993), as representacoes sao produzidas e significadas com base em uma dinamica sociocultural. Considerando que as outras pesquisas foram realizadas em diferentes Estados brasileiros, aprofundar esse debate no contexto paranaense pode possibilitar um avanco no entendimento do mercado de estagio no pais, bem como um aprofundamento dos debates teoricos que subsidiam essas discussoes.

Para que o objetivo da pesquisa fosse desenvolvido, primeiramente, foi realizada uma discussao sobre o conceito de Representacoes Sociais, com base nos trabalhos de Spink (1993) e Moscovici (2003), apresentando como este processo e construido. A seguir, apresentou-se um estudo sobre essa mesma tematica abordando estudantes e suas experiencias de estagio. Em seguida foram apresentados os procedimentos metodologicos utilizados para a coleta e analise dos dados. Em seguida sao desveladas as representacoes sociais que os graduandos em Administracao da Universidade Estadual de Maringa possuem sobre os estagios nao-obrigatorios. Os resultados da pesquisa possibilitaram ampliar um debate sobre o processo de expansao das universidades no Brasil com destaque nos cursos de bacharelado, bem como o foco deste processo centrado na oferta de vagas sem uma profundidade maior sobre como os profissionais que atuam no setor educacional estao sendo inseridos nesse processo e a relacao que os academicos tem estabelecido com as universidades.

A TEORIA DAS REPRESENTACOES SOCIAIS

A Teoria das Representacoes Sociais (TRS) trata do processo no qual o social e o individual interagem entre si objetivando, por meio de construcoes sociais, uma realidade ordenada de objetos (SALAZAR; SILVA, 2014). De acordo com Moscovici (2003), precursor da TRS no inicio da decada de 1960, a representacao e um processo social, uma vez que a criacao social se estrutura e se organiza por meio de representacoes sociais. As representacoes sociais sao caracterizadas pela interacao entre grupos e individuos, ou seja, a representacao esta presente no encontro entre pessoas ou objetos a partir do momento em que ha uma adaptacao entre eles. Assim, a TRS trata da representacao de alguem (sujeito) a respeito de alguma coisa (objeto) por meio de relacoes simbolicas e interpretativas (JODELET, 2001).

As representacoes sociais estao inseridas nas teorias do conhecimento, desse modo, estudam o conhecimento que envolve o senso comum ou no que se refere ao conhecimento pratico, e sao aplicadas tanto na Psicologia Social quanto nas Ciencias Sociais (SPINK, 1993). Para Sperber (1989 apud SPINK, 1993), essas representacoes podem ser abordadas com base na Psicologia Cognitiva e da Psicanalise, como tambem pela Antropologia. Desta forma, na area da Psicologia a representacao esta atrelada as informacoes e valores do proprio individuo, assim chamado de eventos infra-individuais como um processo simbolico mental. Para Moscovici (2003), a psicologia social e a principal disciplina que estuda as propriedades, a origem e o impacto das representacoes. Na Antropologia, as representacoes estao diretamente ligadas ao relacionamento coletivo que visa a formacao social e/ou representacao da cultura. Ja na Administracao, Vergara e Ferreira (2007) e Silva e Carrieri (2014) argumentam que a TRS apresenta-se como uma opcao interessante para investigacoes que pretendem compreender as implicacoes das construcoes sociais das pessoas nas organizacoes e foi utilizada como suporte em varios trabalhos publicados na area (MOLLER, 1996; CAVEDON, 1999; FERREIRA, 2005; YAMAMOTO, 2005; VERGARA; FERREIRA, 2005; SALAZAR; SILVA, 2014).

As representacoes sociais sao realizadas por meio das relacoes que ocorrem entre o individuo e o seu grupo social, sendo entao o produto de explicacoes que se originam por meio das comunicacoes entre individuos na vida cotidiana (REIS; BELLINI, 2011). Conforme expoe Moscovici (2003), as representacoes sociais e as representacoes individuais se complementam gerando um ciclo continuo, ou seja, um individuo transmite experiencias que foram vivenciadas no seu dia a dia por meio de conceitos, afirmacoes e explicacoes e, ao dialogar com um grupo, constroi suas proprias representacoes. Cavedon e Ferraz (2005) discorrem sobre como as representacoes sao dinamicas e se modificam na medida em que dependem das relacoes entre os sujeitos e os objetos:

Portanto, as representacoes nao sao criadas por um individuo de forma isolada: pessoas e grupos criam representacoes ao longo da comunicacao e da cooperacao. As representacoes, ao serem criadas, acabam ganhando uma vida propria, circulam, encontram-se, atraem-se, repelem-se e abrem espaco para o surgimento de novas representacoes, enquanto outras, mais antigas, acabam desaparecendo (CAVEDON; FERRAZ, 2005, p. 6).

A importancia das representacoes sociais na visao de Moscovici refere-se ao ser humano que questiona procurando respostas e busca compreender as mesmas, e nao a forma como ele se comporta diante das informacoes (CAVEDON; FERRAZ, 2005). Sendo assim, a vida comum esta constantemente sendo criada e recriada na sociedade e nesse processo sao construidas e reconstruidas as representacoes sociais, aporte para as comunicacoes, as definicoes sociais e as redefinicoes do meio (SALAZAR; SILVA, 2014). Em funcao da natureza dinamica das representacoes sociais sao construidas formas de comportamento entendidas como mais adequadas para cada contexto ou circunstancia, adequando-se em uma receita de linguagem construida para diferentes relacoes ou confrontacoes, bem como ha uma informacao propicia a cada ambiente contextualizado (MOSCOVICI, 2003). Assim, as representacoes sociais sao expressas de forma clara por meio de gestos, encontros e palavras e sao relacionadas tanto como simbolo quanto como pratica seja ela cientifica ou mitica.

Visando expor como as representacoes interferem na atividade cognitiva do individuo e no seu processo de aprendizagem, assim chamado de condicionamento, Moscovici (2003) apresenta duas funcoes: a natureza convencional e a natureza prescritiva, sendo que ambas irao orientar as relacoes e os comportamentos sociais. A natureza convencional remete a forma definitiva que as representacoes dao aos objetos, as pessoas ou aos acontecimentos, lhes dando uma forma definitiva, localizando-a em uma determinada categoria e colocando-as como um modelo de determinado tipo, distinto e partilhado por um grupo de pessoas. Desse modo, a forma dada a esses elementos deve ser adequada a um modelo ja existente que permita que as pessoas sejam agrupadas. Porem, mesmo quando um individuo nao se adequa ao modelo, ele e forcado a adotar um formato permanente, participar de um grupo, se tornando assim, igual aos outros. No entanto, quando isso acontece o individuo esta sujeito a nao ser compreendido e nem decodificado.

Por sua vez, a natureza prescritiva se refere as representacoes ja existentes que sao impostas aos sujeitos e passadas por geracoes, ou seja, e como um roteiro elaborado de como o individuo deve agir ou pensar em uma dada circunstancia. Mais uma vez percebe-se a existencia do senso comum no decorrer da vida do individuo, uma vez que esse ja cresce ouvindo respostas prontas de acontecimentos que deram ou nao deram certo, sem mesmo questiona-las. Logo, essas representacoes irao induzir a mente de cada um fazendo com que o individuo repita essas ideias. A natureza prescritiva frequentemente encontra-se materializada nas relacoes do individuo, ou seja, a prescricao acaba sendo tao forte que muitas vezes ela esta acima dos proprios mecanismos institucionais e legais que irao regulamentar a vida do individuo em sociedade (MOSCOVICI, 2003).

Sendo assim, o papel das representacoes sociais e transformar o naofamiliar em familiar, numa dinamica em que eventos e objetos sao reconhecidos e entendidos com base em conjuncoes anteriores, em modelos. A acao de representar desloca o diferente, o estranho do universo exterior para o interior, situando-o em uma categoria e em um contexto familiar comum (SPINK, 1995). Com isso as representacoes construidas pelos individuos "sao sempre o resultado de um esforco constante de tornar comum e real algo que e incomum (nao-familiar), ou que nos da um sentimento de nao-familiaridade" (MOSCOVICI, 2003, p. 58). Dessa forma, as representacoes farao com que certo elemento incomum integre-se tanto ao grupo como na mente dos individuos.

Na percepcao de Moscovici (2003), para que um elemento nao-familiar torne familiar e seja inserido no cotidiano, e necessario usar dois processos, a ancoragem e a objetivacao, sendo que esses processos basicamente se dao pelas memorias. O objetivo do processo de ancoragem e fixar ideias nao-familiares ou estranhas na consciencia do individuo, tornando-as comuns ou familiares. Ha duas caracteristicas que embasam a ancoragem: classificar e dar nome aos objetos. Quando o individuo se depara com um objeto estranho, sua mente o classifica e o reajusta de acordo com certas caracteristicas que fazem com que esse objeto seja relacionado a alguma categoria. Assim, na visao de Moscovici (2003, p. 63) "classificar algo significa que nos o confinamos a um conjunto de comportamentos e regras que estipulam o que e, ou nao e, permitindo, em relacao a todos os individuos pertencentes a essa classe".

Contudo, pensar em classificar um objeto e nomea-lo simultaneamente e com isso esse objeto deixa de ser estranho e passa a ser familiar. Dessa forma, esse objeto familiar e integrado na cultura perante a sociedade possibilitando assim, sua representacao. Sintetizando, essas duas caracteristicas do processo de ancoragem vao alem de comparar um objeto a um modelo padrao, uma vez que a finalidade da classificacao e da nomeacao e "facilitar a interpretacao de caracteristicas, a compreensao de intencoes e motivos subjacentes as acoes das pessoas, na realidade, formar opinioes" (MOSCOVICI, 2003, p.70). O processo de ancoragem torna o nao-familiar em familiar apos a passagem do objeto desconhecido para o campo particular, em que se podera interpretar e nomear o novo com base no conhecido, o antigo.

Por sua vez, o proposito do processo de objetivacao e materializar um elemento intangivel, nesse caso, "transferir o que esta na mente em algo que exista no mundo fisico" (MOSCOVICI, 2003, p. 61). Esse processo faz a juncao do nao-familiar com a realidade, tornando para o grupo social uma realidade como verdadeira, decodificando a caracteristica iconica de um ser ou uma ideia e reproduzindo um conceito em uma figura ou imagem. Este processo consiste em tres etapas para sua formacao:

[...] primeiramente, a descontextualizacao da informacao por meio de criterios normativos e culturais; em segundo lugar, a formacao de um nucleo figurativo, a formacao de uma estrutura conceitual; e, finalmente, a naturalizacao, ou seja, a transformacao destas imagens em elementos da realidade (SPINK, 1993, p. 7).

Em sintese, os processos de ancoragem e o de objetivacao irao tornar o elemento incomum naquilo que e familiar partindo da ideia do individuo, fazendo comparacoes, interpretacoes e reproduzindo esses elementos em algo palpavel e visivel que possam ser controlados. A ancoragem mantem a memoria em movimento e esta sempre armazenando e excluindo objetos, pessoas e acontecimentos classificados e nomeados por essa ancoragem de acordo com os seus tipos. Ja a objetivacao elabora conceitos e imagens para reproduzi-los no mundo exterior (MOSCOVICI, 2003, p. 78).

No contexto deste estudo, a investigacao dessa dinamica se volta para o entendimento de como os estudantes universitarios, ao interagirem em seu grupo social, constroem a representacao social do estagio naoobrigatorio. Com base na mesma base teorica utilizada neste artigo, ou seja, as representacoes sociais, Bianchi e Oliveira (2011) realizaram uma discussao relacionando a influencia das relacoes entre o estagio, a insercao profissional e o processo de formacao dos estudantes. O estudo, realizado com onze universitarios do curso de Administracao de uma universidade publica do Rio de Janeiro entre os meses de setembro a novembro no ano de 2010, identificou as principais representacoes sociais do estagio entre esses graduandos. As representacoes foram divididas entre relacoes sociais positivas e negativas. Dentre as relacoes sociais positivas foram identificadas: o estagio como um processo de aprendizagem; o estagio como possibilidade de inserir o estudante no mercado de trabalho; o estagio como um periodo de conhecimento e identificacao das areas que mais interessam ao aluno e que estejam ligadas a Administracao, orientando o academico em sua carreira profissional e o estagio como retorno financeiro. Dentre as relacoes negativas, teve destaque a identificacao do estagio considerado um trabalho precario.

Os autores perceberam que somente as duas primeiras representacoes do grupo positivo (o estagio como um processo de aprendizagem e o estagio como possibilidade de inserir o estudante no mercado de trabalho) tem relacao com o estagio e as outras representacoes encontradas sao relacionadas ao trabalho, ou seja, a proximidade que o estagio cria com o trabalho. Os autores concluiram que em um processo de recrutamento e selecao para a vaga de estagiario as empresas estao exigindo mais aspectos tecnicos e comportamentais, e que na maioria das vezes os estagiarios nao sao acompanhados por um professor supervisor conforme determina a Lei No 11.788, de 25 de setembro de 2008, que dispoe sobre o estagio de estudantes. Alem disso, foram identificados por meio das entrevistas realizadas aspectos distintos relacionados ao estagio. Em um primeiro momento, as experiencias de realizar um estagio:

[...] trazem maturidade, responsabilidade e postura profissional aos estudantes. Mas por outro lado, trazem a dificil tarefa de conciliar estudo e trabalho de forma a nao prejudicar os estudos, contam tambem com o desafio de encontrar uma area a seguir e a dificuldade de conviver com pessoas diferentes em um ambiente de trabalho (BIANCHI; OLIVEIRA, 2011, p. 15).

Ainda percebeu-se que o estagio e fundamental para a formacao do academico de Administracao e para a obtencao de experiencia pratica, sendo ate mesmo considerado como um dos requisitos para que o estudante seja inserido no mercado de trabalho. Considerando que o objeto de estudo deste artigo e o estagio nao-obrigatorio para os academicos de graduacao do curso de Administracao, na proxima secao desta pesquisa sera apresentada a dinamica do mercado de estagios no pais no campo da Administracao para que, posteriormente, seja possivel analisar as relacoes entre as representacoes sociais e os estagios.

ESTAGIOS NA AREA DE ADMINISTRACAO

O aumento do numero de universidades publicas e privadas e, consequentemente, o crescimento de alunos matriculados em cursos de ensino superior tem produzido um debate sobre a efetiva qualidade de ensino que estas instituicoes tem proporcionado aos estudantes (REZENDE, 2014). De acordo com dados do Ministerio da Educacao (2014) entre os anos de 2002 e 2013, o numero de alunos matriculados nos cursos de graduacao no pais dobrou passando de 3,5 milhoes de alunos para pouco mais de sete milhoes de alunos, sendo que as instituicoes privadas respondem por 74% destas matriculas. Apesar das matriculas por modalidade presencial serem mais comuns e representarem 84,2% destas, a modalidade a distancia tem se destacado representando um pouco mais de 15% das matriculas nos cursos de graduacao (MEC, 2014).

A maioria dos alunos ingressantes no ensino superior tem optado por cursos de graduacao na modalidade bacharelado, sendo esta a opcao para 67,5% dos alunos (MEC, 2014). Em termos de genero, os cursos de graduacao escolhidos pelos homens em que ha predominancia de matriculas sao Administracao e Direito. Os cursos de Pedagogia, Administracao e Direito sao os mais escolhidos pelas mulheres, como apresentado na Tabela 1.

O Censo Universitario de 2013 mostra que dos cursos citados acima, Administracao, Direito e Ciencias Contabeis estao entre os dez cursos mais escolhidos, independente do genero. O aumento de pessoas matriculadas em cursos de graduacao na modalidade bacharelado teve como um de seus efeitos a alteracao na composicao do mercado de trabalho brasileiro. Isso ocorreu nao somente em termos da especializacao dos trabalhadores, mas, tambem, pelo aumento do numero de estagios nao-curriculares ofertados pelas organizacoes, o que tem se tornado um dos principais caminhos de insercao destes jovens profissionais no mercado de trabalho.

Segundo Murari e Helal (2009), o estagio e uma ferramenta capaz de oferecer uma relacao proxima entre escola, aluno, empresa e sociedade, caso haja um vinculo entre o trabalho e a pratica social que possa suprir necessidades do sistema educacional e as demandas tanto quantitativa como qualitativa de profissionais capacitados para o mercado de trabalho.

Conforme o art. 1 da Lei No 11.788/08, o estagio permite preparar alunos que estejam cursando o ensino regular, em "instituicoes de educacao superior, de educacao profissional, de ensino medio, da educacao especial e dos anos finais do ensino fundamental, na modalidade profissional da educacao de jovens e adultos" visando desenvolver esses alunos para o ambiente de trabalho. Ainda conforme a Lei, o estagio e visto como um "ato educativo escolar supervisionado" (BRASIL, 2008).

No art. 2 dessa mesma Lei consta que o estagio e caracterizado como sendo obrigatorio e nao-obrigatorio, e essas formas de estagio serao determinadas conforme o projeto pedagogico de cada curso. O estagio obrigatorio estara estabelecido na grade do curso, sendo um dos requisitos de aprovacao para que o aluno consiga seu diploma. Em relacao ao estagio nao-obrigatorio cabera ao aluno optar em faze-lo ou nao, todavia, o estagio nao-obrigatorio permite que o aluno complemente sua carga horaria, sendo esta obrigatoria ser concluida (BRASIL, 2008).

Oliveira e Piccinini (2012a) asseguram que essas duas formas de estagio proporcionam aos estudantes sua insercao no mercado de trabalho. Os estagios realizados nos semestres ou em anos iniciais tem como objetivo fazer com que o aluno se familiarize e conheca os trabalhos aplicados ao curso, ja os estagios realizados no final do curso atuam como intermediario para a inclusao profissional desses alunos. Ambos os estagios tem o proposito de preparar os estudantes para o mercado de trabalho, de tal forma que eles se desenvolvam profissionalmente usando a pratica. Na medida em que os estagiarios ingressam ao ambiente de trabalho, eles tem a oportunidade de explorar seus conhecimentos adquiridos durante o curso, aplicando-os em sua area de atuacao. Alem disso, os estagiarios estarao em contato com profissionais que irao influencia-los no que se refere ao desenvolvimento, tanto do conhecimento quanto da criatividade, com o intuito de crescer profissionalmente.

De acordo com pesquisas realizadas pela Associacao Brasileira de Estagios [ABRES], (2014), atualmente ha um milhao de estagiarios no Brasil, sendo que destes, 740 mil sao estudantes de ensino superior e os outros 260 mil restantes sao alunos de ensino medio e tecnico, sendo que antes da aprovacao da Lei No 11.788/08 os estudantes de ensino medio e tecnico correspondia a 385 mil desses estagiarios.

De acordo com o Nucleo Brasileiro de Estagios [NBE] (2015) os estudantes que mais tem ofertas de estagio no pais sao os academicos de Administracao com 41,5% das vagas, sendo ainda, o curso com o maior numero de alunos. Porem, a falta de preparo desses estudantes remete ao nao preenchimento das vagas de estagio. Alem disso, apesar de ser a area que mais oferece oportunidades aos estudantes, este nao e o curso de graduacao que apresenta maior media de remuneracao entre os estagiarios.

PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS

Analisar as representacoes sociais dos universitarios de Administracao da UEM quanto as suas experiencias em relacao ao estagio nao-obrigatorio e o objetivo deste artigo. A construcao das representacoes sociais, por ser um processo social subjetivo, inclusive por meio da linguagem, e tratada metodologicamente neste artigo baseada em uma pesquisa qualitativa.

O metodo qualitativo e aplicado ao estudar fatores que estao inseridos na sociedade, como e o caso dos estudos "da historia, das reacoes, das representacoes, das crencas, das percepcoes e das opinioes, produtos das interpretacoes que os humanos fazem a respeito de como vivem, constroem seus artefatos e a si mesmos, sentem e pensam", alem disso, o metodo em questao possibilita "[...] a construcao de novas abordagens, revisao e criacao de novos conceitos e categorias durante a investigacao" (MINAYO, 2013, p. 57). Denzin e Lincoln (2006) afirmam que a pesquisa qualitativa envolve varios procedimentos praticos, como por exemplo, a entrevista; as experiencias pessoais; as historias de vida, entre outros, que com a interpretacao do pesquisador e permitido compreender da melhor forma o assunto estudado. De acordo com Neves (1996), para melhor compreensao dos fenomenos, busca-se primeiro o entendimento baseado na perspectiva dos participantes da situacao em analise e, posteriormente, a compreensao dos pesquisadores que nao procuram enumerar, ou medir eventos de modo estatistico.

Como tecnica de coleta de dados utilizou-se a entrevista semiestruturada que, segundo Minayo (2013), possibilita estabelecer um processo de interacao entrevistador-entrevistado de forma que as construcoes dos relatos ocorram de forma flexivel. Um aspecto interessante do uso dessa tecnica de coleta de dados e a facilidade que o pesquisador tem em abordar o tema e, dessa forma, o entrevistado tem mais liberdade em falar sobre o assunto abordado sem se fixar nas perguntas que tinham sido pre-estabelecidas pelo entrevistador.

A pesquisa foi delimitada aos estudantes do curso de Administracao da Universidade Estadual de Maringa. Essa escolha ocorreu, primeiramente, pelo objetivo da pesquisa de analisar as representacoes sociais dos estudantes de Administracao sobre a experiencia do estagio nao-obrigatorio e, tambem, pelo fato das pesquisadoras fazerem parte desse contexto social o que de certa forma facilitaria o contato e a realizacao do estudo.

O projeto pedagogico do curso de Administracao da Universidade Estadual de Maringa permite que o aluno realize um estagio apos o terceiro ano da faculdade, com a justificativa de que a partir desse momento o academico esta teoricamente apto a iniciar esse tipo de atividade. Os dados levantados na instituicao indicavam que em setembro de 2014 o curso de Administracao contava com 112 alunos de terceiros, quartos e quintos anos que realizavam estagio, sendo que destes 23 eram realizados em orgaos publicos.

Com base nestas informacoes, a pesquisa foi realizada no mes de setembro de 2014 com doze estudantes do curso de Administracao e os criterios utilizados foram entrevistar alunos a partir do terceiro ano de faculdade que se enquadravam nas seguintes situacoes: estudantes do terceiro, quarto e quinto ano que estavam realizando estagio; estudantes do quarto e quinto ano que fizeram no minimo um estagio e que nao estavam mais estagiando e estudantes do terceiro e quarto que pretendiam realizar uma experiencia de estagio. Foram divididos tres grupos de quatro alunos cada, sendo um grupo de alunos que nao haviam realizado estagios (identificados como EN1, EN2, EN3, EN4), outro grupo com alunos que estavam em periodo de estagio (identificados como EJ1, EJ2, EJ3, EJ4) e o terceiro grupo composto por alunos que ja haviam finalizado algum estagio (identificados como E1, E2, E3, E4). Nestes grupos de quatro alunos dois eram do genero masculino e dois do genero feminino. A Tabela 2 apresenta uma sintese de informacoes sobre os academicos entrevistados.

Pelo fato deste artigo ter por objetivo analisar as representacoes sociais desses estudantes de Administracao por meio das suas experiencias e praticas de estagios vivenciadas no dia a dia destes academicos, a interpretacao das entrevistas seguiu uma estrutura fundamentada na analise de conteudo devido esse instrumento basear-se no cotidiano das pessoas (COLBARI, 2014). Como explica Moraes (1999), a analise de conteudo descreve e interpreta um conjunto de ideias divididas em documentos e textos a fim de compreender os significados das mensagens obtidas. Minayo (2013) descreve a analise de conteudo como sendo uma tecnica de tratamento de dados que permite ao individuo tirar conclusoes dos dados de certo contexto de forma que esses dados possam ser validos e copiados.

Ainda segundo Minayo (2013), a analise de conteudo e dividida em tres etapas: (1) pre-analise; (2) exploracao do material e (3) tratamento dos resultados obtidos e interpretacao. Na primeira etapa referente a pre-analise, o(a) pesquisador(a) remete a questao das escolhas dos documentos, que serao analisados resgatando os objetivos e as hipoteses iniciais da pesquisa em questao. No que consiste a exploracao do material, essa etapa visa categorizar expressoes ou palavras a fim de organizar o conteudo de uma fala. Por fim, o tratamento dos resultados obtidos e interpretacao permitem que o pesquisador em um primeiro momento evidencie as informacoes obtidas na pesquisa em formas estatisticas ou em analise setorial e com base nisso interprete essas informacoes relacionando com o quadro teorico ou sugerindo novas interpretacoes.

A operacionalizacao da analise de conteudo, segundo Vala (1986), envolve um conjunto de indagacoes que podem ser agrupadas em tres direcoes analiticas: 1) a analise de ocorrencias, ou seja, de frequencia de determinados objetos (o inventario e a quantificacao de certas palavras, simbolos, temas, etc.); 2) a analise avaliativa, voltada para as caracteristicas e os atributos associados aos objetos (dimensao ancorada em um sistema de valores); e 3) a analise associativa, que envolve associacao e dissociacao entre diferentes objetos (a estrutura de relacoes entre os objetos aciona o sistema de pensamento da fonte).

No presente estudo, seguindo a operacionalizacao proposta por Vala (1986), primeiramente foram analisadas todas as entrevistas visando identificar a frequencia com que certas palavras, simbolos e temas ocorriam nas falas dos entrevistados. Posteriormente, seguiu-se a analise avaliativa, buscando caracteristicas que emergiram de um sistema de valores dos academicos (dimensao ancorada). Por fim, buscou-se identificar categorias pautadas no objeto de pesquisa que emergiram da analise das entrevistas. A escolha dessas categorias foi orientada por alguns criterios elencados por Bardin (2004): a garantia da exaustao (todas as unidades de registro devem ser enquadradas em alguma categoria); a exclusividade (a mesma unidade de registro so pode pertencer a uma categoria); homogeneidade (nao misturar "coisas" diferentes em uma mesma categoria); objetividade (caracteristicas claras, de modo a permitir seu uso por diferentes analistas em um mesmo texto); e pertinencia (adequacao aos objetivos perseguidos e ao conteudo tratado). Sendo assim, quatro categorias emergiram das analises das entrevistas, sendo elas: a) estagio como periodo de redes para insercao profissional; b) atividades extracurriculares; c) trabalho precario e d) periodo de acomodacao. Para a analise das representacoes foram utilizados excertos das falas dos alunos.

APRESENTACAO E ANALISE DOS DADOS

Nessa secao sao caracterizadas as representacoes sociais construidas entre os universitarios do curso de Administracao referente ao estagio nao-obrigatorio. Essa construcao ocorre nas trocas de conhecimentos e informacoes no ambiente academico em estudo, uma vez que e comum os estudantes ingressarem na faculdade para futuramente poderem se inserir no mercado de trabalho, independente da carreira que eles queiram seguir, porem, durante esse periodo os estudantes realizam estagios, sejam eles obrigatorios ou nao.

Assim, a interacao social e um fator fundamental para a construcao das representacoes sociais. Neste estudo as representacoes sao construidas em torno de um objeto comum, o "estagio". Para alguns academicos, o estagio e considerado um objeto familiar, enquanto para outros como um objeto nao-familiar. Por se tratar de um objeto comum neste ambiente academico ocorre de ter verdades e nao-verdades a respeito do que e ou nao um estagio e de que forma o estagio pode influencia-los. Assim, e por meio da troca de informacoes e conhecimentos entre as experiencias, o comportamento e as informacoes obtidas que as representacoes sociais sao construidas.

Foi possivel identificar o significado dessas representacoes por meio do detalhamento feito usando as proprias falas dos estudantes. Conforme pode ser observado, as representacoes apresentadas no Quadro i, foram as que mais estavam presentes no cotidiano dos estudantes.

Dos doze entrevistados oito alunos realizavam estagio ou ja tinham vivenciado alguma experiencia de estagio em organizacoes privadas ou em algum orgao do governo. Alem disso, apesar das entrevistas terem sido realizadas com alunos que se encontravam em periodos distintos da faculdade e que tinham experiencias vivenciadas e pensamentos diferentes sobre o estagio, percebeu-se uma semelhanca nas representacoes sociais encontradas, uma vez que foi identificado nas falas dos doze alunos entrevistados que o estagio e uma forma de insercao profissional e, ainda, onze destes alunos perceberam o estagio como um periodo de conviver com diferentes tipos de pessoas, como pode ser observado no Quadro 1. A seguir, as representacoes serao detalhadas para melhor compreende-las e caracteriza-las.

ESTAGIO COMO PERIODO DE REDES PARA INSERCAO PROFISSIONAL

Nesta representacao, o estagio e visto para a grande maioria dos alunos entrevistados como uma forma do estudante ter maior contato com diversidade de pessoas para a formacao de redes de parcerias com outros profissionais. Levando em consideracao que cada pessoa tem crencas, valores, atitudes, niveis intelectuais, caracteristicas culturais distintas umas das outras, o estagio proporciona essa relacao e convivio, proporcionando o dialogo e o relacionamento com diferentes pessoas. Por meio dessa relacao interpessoal o estagio tambem contribui para os alunos construirem suas redes de contatos que futuramente poderao tornar-se parceiros na vida profissional, possibilitando apoios e indicacoes profissionais.

EN3 (Feminino): "Os pontos positivos que tenho em mente ao realizar um estagio e poder ampliar a rede de contatos, desenvolver o conhecimento e poder aplicar o que se aprende em sala de aula."

EJ3 (Feminino): "No meu primeiro estagio tive que me relacionar com muitas pessoas dificeis, os pacientes que nao tinham paciencia de esperar, ou que nao entendiam o que falavamos, ou nao entendiam determinada situacao."

EN2 (Feminino): [...] "acredito que quando voce faz estagio ele e meio que uma transicao ne, para esse "negocio" de mercado de trabalho, como voce tem que se portar nesse meio. Entao eu acho que essas sao as coisas boas de um estagio, ele vai te guiar de alguma maneira. O seu comportamento, seu jeito de agir e vai te ajudar a se relacionar melhor com outras pessoas."

Detalhando essa representacao percebe-se que a relacao interpessoal esta associada a definicao que Moscovici (2003) discorre sobre as representacoes sociais como sendo a interacao que ocorre entre individuos e grupos sociais. Essas interacoes possibilitam a producao de experiencias sociais que sustentam a formacao de oportunidades profissionais.

Essas oportunidades sao de certa forma um conjunto de elementos que permitira a entrada desses jovens universitarios ao mercado profissional. Esses elementos, por exemplo, podem ser o convivio que os estagiarios passam a ter com as rotinas diarias de uma empresa, as possibilidades de relacionar a teoria e a pratica, as chances de complementar os estudos ou ainda suprir certas necessidades que o curso possa trazer.

EN4 (Masculino): "Os pontos positivos que tenho em mente ao se realizar um estagio e ser um profissional mais bem preparado; colocar em pratica o conteudo aprendido em aula, pois e isso que espero de um estagio; conhecer como e um ambiente de trabalho e aprender a me relacionar melhor com as pessoas. A faculdade de Administracao por mais bem estruturada que seja nao consegue trazer todo o conhecimento que um administrador vai precisar utilizar no dia a dia de trabalho.

EJ2 (Feminino): "Acho de extremo valor o aluno realizar um estagio naoobrigatorio porque aqui na UEM os professores e o curso em si formam outros professores, a gente nao leva uma bagagem de tipo, como a gente vai atuar dentro de uma organizacao [...] eu acho que o estagio nao-obrigatorio ele entra como papel de voce adquirir conhecimento, por exemplo, se voce quiser abrir um proprio negocio, trabalhar em uma organizacao que voce ja tenha adquirido uma experiencia e que voce queira atingir um cargo bom, e tudo isso envolve os estagios. Nao adianta nada chegar a uma empresa daqui cinco anos, sendo que voce nao fez nenhum estagio, acho isso muito vago."

EJ1 (Masculino): "As experiencias que o estagio trouxe pra mim foi entender melhor a ideia de mercado. Antes eu nao tinha ideia no mercado de como era a burocracia, eu sabia o que era, mas nao sabia como ela funcionava. Agora, a partir do momento em que comecei o estagio eu vi o que e essa burocracia, que e algo assim muito igual, sempre a mesma coisa com pessoas diferentes, mas e sempre a mesma coisa que voce vai fazer e e isso que eu tive como licao tambem."

Caracterizando essa representacao, percebe-se principalmente na visao dos alunos que ainda nao tiveram uma experiencia com estagio que eles apostam nessa atividade como uma oportunidade de ingressar no mercado de trabalho, mesmo alguns tendo aquela ideia de que os estagiarios realizam atividades superfluas. A ancoragem (MOSCOVICI, 2003) da necessidade de realizar o estagio para obter um maior contato com diversas pessoas visando a formacao de redes com outros profissionais foi observada na entrevista com 11 dos 12 academicos. Dentro dessa dinamica, o estagio nao-obrigatorio e considerado fundamental para a construcao de parcerias na vida profissional, possibilitando apoios atuais e futuros e indicacoes profissionais.

Confrontando as falas dos estudantes com a ideia de Murari e Helal (2009), percebe-se a relacao destacada por ambos na qual os autores definem o estagio como uma ferramenta que permite a interacao entre a escola, o aluno, a empresa e a sociedade vinculando o trabalho e a pratica social de forma que essa relacao complemente necessidades do ensino e atenda as demandas do mercado de trabalho.

ESTAGIO COMO ATIVIDADE EXTRACURRICULAR

A representacao do estagio como atividade extracurricular possibilita que o aluno complemente sua carga-horaria no curso e busque por atividades que complementem sua formacao como, por exemplo, realizar cursos de extensao, participar de projetos cientificos dentro das universidades e realizar estagios. Conforme esta previsto na Lei No 11.788/08, essas atividades extracurriculares complementares sao um dos requisitos para que o aluno seja aprovado e consiga concluir o curso.

EJ2 (Feminino): "O motivo que me levou a procurar um estagio foi a questao primeiramente, de ganhar horas de atividade academica complementar" [...]

E3 (Masculino): "O estagio nao-obrigatorio e importante tambem para o curriculo, quando terminamos o curso de graduacao e essencial termos uma atividade extracurricular, ou uma capacitacao complementar.

Com essas falas percebe-se que de certo modo os estudantes se preocupam em cumprir a carga-horaria estabelecida na grade do curso e agregar experiencias ao curriculo profissional. Consequentemente, ao realizar essas atividades o aluno pode agregar conhecimento e utilizar o que fez para suas aplicacoes profissionais, porem, esse nao seria o principal motivo aqui.

Nesse ponto, e possivel destacar que a representacao social "extracurricular" dos estagios nao contempla, na percepcao dos estudantes, as atividades disponibilizadas pela universidade. O estagio e considerado como uma atividade realizada fora do ambiente universitario. Como afirma Rezende (2014) o processo de expansao das universidades tem sido realizado sem um debate sobre a qualidade de ensino e a qualificacao dos alunos. Com efeito, a enfase no aumento da oferta dos cursos de bacharelado no pais tem ocorrido para atender as demandas correntes de mercado e nao necessariamente com um pensamento estrategico de formacao da populacao brasileira.

Por isso, para os academicos, a formacao extracurricular deve ocorrer no mercado de trabalho e nao no espaco universitario. E isso que Moscovici (2003) destaca ao afirmar que o proposito do processo de objetivacao das representacoes sociais e realizar a juncao do nao-familiar com a realidade na qual os individuos estao inseridos. Deste modo, os academicos objetivam a necessidade de formacao extracurricular como essencial a sua dinamica de formacao, sendo, portanto, essencial a realizacao do estagio.

A necessidade de cursar o estagio extracurricular nao foi destacada pelos academicos como uma atividade a ser desenvolvida na universidade por meio de atividades de extensao ou com a comunidade nas cidades onde a universidade possui sua sede e seus campi de extensao. Rezende (2014) afirma que o processo de expansao das universidades tem ocorrido no pais com base em uma politica neoliberal, onde a formacao dos estudantes ocorre com base nas necessidades do mercado, desconsiderando a formacao politica dos individuos. E por isso que nas falas dos estudantes a formacao profissional implica a realizacao de estagios em empresas. Sendo assim, o estagio extracurricular acaba por se tornar, por vezes, um processo de precarizacao das relacoes de trabalho para os estudantes.

ESTAGIO COMO TRABALHO PRECARIO

O processo de construcao das representacoes sociais do estagio como trabalho precario foi, inicialmente, destacado pelos estudantes com base nos valores de remuneracao desta atividade. Esta representacao e caracterizada pelo fato dos alunos receberem uma bolsa remunerada quando se realiza um estagio. Para alguns estudantes, a escolha por realizar um estagio esta associada a outros fatores que nao seja a bolsa-auxilio, como, por exemplo, auxiliar na obtencao das atividades academicas complementares ou adquirir experiencias profissionais para serem inseridos no mercado de trabalho, como ja foi dito acima. Porem, para outros, o estagio e uma forma de custear os estudos, uma vez que muitos alunos sao de cidades vizinhas e vem para Maringa para realizar seu curso de graduacao. Assim, alguns estudantes utilizam-se do valor da bolsa como criterio para a escolha de um estagio.

EJ2 (Feminino) [...] "e tambem a questao de voce receber uma bolsa ne, ter uma ajuda porque eu ficava morando aqui [em Maringa] e tinha despesas e tudo, foi mais essas duas questoes, mas tambem de ter experiencia porque depois que voce sai da faculdade se voce nao tiver nenhuma experiencia tambem ai fica ate mais dificil arrumar um emprego."

EJ1 (Masculino): "De inicio nao me importei em procurar um estagio relacionado ao curso, eu so queria trabalhar mesmo para ganhar o dinheiro, dai la dentro eu vi que tinha alguma coisa relacionada com o que eu queria trabalhar, o que valeu a pena."

Essa representacao se tornou bem clara nas falas dos entrevistados. Usando o senso-comum nesse caso, os alunos antes mesmo de realizar um estagio ja tem uma ideia pre-estabelecida de como e o trabalho de um estagiario quando trocam conversas e experiencias entre seus grupos de amigos. E isso que Moscovici (2003) discute sobre o processo de ancoragem e o de objetivacao das representacoes sociais tornar elementos incomuns naquilo que e familiar por meio de comparacoes, interpretacoes e reproduzindo esses elementos em mecanismos que possam ser controlados. Dificilmente algum estudante nunca ouviu ou falou que o estagiario e "quebra-galho", que realiza atividades como tirar fotocopias ou servir cafe. Usando esses termos percebe-se que a maior parte das pessoas e ate mesmo dos proprios estudantes tem a percepcao de que o estagiario e aquele que realiza atividades que nao tenham tanta importancia para a empresa e para o seu aprendizado.

EF2(Feminino): "Eu nao colocaria minha experiencia de estagio no meu curriculo profissional, porque o meu servico e muito simples, como tirar copia, distribuir os documentos no hospital, atender ao telefone e nao tem relacao direta com o que aprendo na sala de aula."

EJ1(Masculino): "Um ponto negativo que identifico quando fiz estagio era fazer sempre a mesma coisa, fazer coisas que nao estavam relacionadas ao cargo administrativo, servir como se fosse um "office boy" la dentro, ficar levando papel de um lugar pro outro, pegar caixa de papel sulfite, fazer coisa inutil. Isso que foi a pior coisa la dentro mesmo."

Percebe-se que o trabalho precario esta associado tambem a limitacao de atividades, pois muitas vezes o estagiario nao tem acesso a certas informacoes pelo fato da empresa considera-las sigilosas ou nao confiar nele como foi dito por uma entrevistada. Outra aluna mencionou que realizar atividades que nao estejam relacionadas ao curso acontece muito e que os anuncios que propagam as vagas de estagio normalmente as descrevem relacionando-as com os conteudos ministrados nos cursos de graduacao, mas quando chegam a empresa as atividades sao totalmente diferentes. Mesmo assim, alguns entrevistados disseram que compete ao estagiario ter interesse em buscar aprimorar seus conhecimentos. Apesar das legislacoes que regulamentam o estagio e que tanto as instituicoes de ensino quanto as empresas tem obrigacoes que devem ser cumpridas em relacao ao estagio, ha falhas nesses processos tanto por parte da universidade quanto por parte das empresas.

ESTAGIO COMO PERIODO DE ACOMODACAO

Na ultima representacao aqui identificada, percebe-se tambem que alem dos fatores ja citados (adquirir experiencia, atividade extracurricular e remuneracao), os alunos se preocupam em procurar estagio que nao ira interferir no horario de aula, que trabalhe de fato seis horas diarias de acordo com a legislacao. Assim, percebe-se que os alunos nesse caso, priorizam o estudo, mas nao deixam de pensar na carreira profissional futuramente, como retrata os depoimentos a seguir.

EJ2(Feminino): "O motivo pra eu querer fazer estagio e porque eu tava querendo um dinheiro a mais, porque eu estava so estudando, mas precisando de dinheiro e pelo horario, era so cinco horas diarias eu via que tava bom e trabalhar em algum outro lugar, porque so tinha trabalhado de garcom ate entao e como eu entrei em Administracao precisava fazer alguma coisa mais relacionada a area."

EJ3(Feminino): "Pra mim um dos motivos da escolha do estagio foi a localizacao, para ir ao meu primeiro estagio eu tinha que sair quase uma hora antes de entrar no estagio e voltava muito tarde, e o outro era tipo duas quadras acima da onde eu morava, ai eu chegava mais cedo em casa tambem."

Uma questao observada e que os alunos entrevistados que nao fazem estagio tem uma visao restrita no que se refere a aplicacao da teoria na pratica. Ja para os estudantes que ja tiveram alguma experiencia de estagio observou-se que ha uma dificuldade na aplicacao dos conteudos aprendidos em sala de aula nas atividades desenvolvidas no estagio. Uma entrevistada chegou a dizer que as aplicacoes e ideias que ela consegue ter no ambiente de trabalho sao advindas das experiencias do proprio estagio e nao com o curso de Administracao. Nesse caso, segundo a entrevistada, os alunos que nao fizeram estagio ate o momento tem ideias mais restritas quanto as atividades desenvolvidas por um administrador pelo fato deles nao conhecerem e vivenciarem o dia a dia do mercado de trabalho.

Nesse mesmo sentido, outro ponto destacado pelos estudantes se refere a limitacao do curso, pois apesar de formar administradores, muitas vezes esses alunos nao estao aptos para atuar no mercado de trabalho como administradores, devido a falta de contato que muitos alunos tem com empresas, por isso ha alunos que optam em realizar um estagio para suprir essa necessidade, ou como disse uma entrevistada, para suprir a "falha" do curso. Outro motivo destacado por um dos entrevistados ao escolher fazer estagio foi que o curso de Administracao da UEM forma professores e nao administradores, causando essa inseguranca de atuar no mercado profissional.

Quando questionados sobre a relacao de trabalho na empresa com os outros funcionarios, os alunos disseram nao se sentirem diferenciados no relacionamento entre eles, porem as atividades dos estagiarios sao limitadas, segundo os entrevistados. Alguns estudantes ainda disseram que antes de realizarem um estagio tinham uma visao de que o estagiario realizava atividades superfluas e por isso era desprivilegiado. Depois de terem experiencias como estagiario perceberam que realmente existem atividades que nada acrescentam em sua carreira profissional, porem sao poucas, as outras atividades desenvolvidas podem de fato acrescentar experiencias para a carreira profissional desses estudantes, alem disso, alguns estagiarios ressaltaram que toda a experiencia e valida sejam elas boas ou ruins. Identifica-se nesta questao a presenca do senso comum, pois como ja foi dito antes as pessoas estao acostumadas a acreditar em tudo que se ouve e tudo que se ve sem ao menos questionar se realmente o que se ve ou ouve e verdadeiro. Como identificado pelos estudantes, foi por meio das experiencias de estagio que eles perceberam essa diferenca.

Nas entrevistas foi solicitado aos estudantes que descrevessem alguma situacao vivenciada no estagio de algo errado que aconteceu na empresa e que a culpa foi atribuida ao estagiario. Um estudante relatou que muitas vezes ocorria a necessidade de alguma atividade simples ser feita, como protocolar e empacotar documentos e os funcionarios comentavam entre eles que aquilo "era coisa de estagiario." Outra situacao aconteceu com uma entrevistada, onde ela relata que a chefe dela se esqueceu de passar um recado para determinada pessoa e no outro dia a solicitante ligou pedindo um esclarecimento do porque nao havia obtido um retorno. A chefe dela simplesmente respondeu que havia solicitado para estagiaria repassar o recado, porem, a estagiaria nao tinha avisado, sendo que a mesma nem sabia o que estava acontecendo.

O estagiario perante a sociedade e visto como aquele que faz o trabalho errado e que leva "a culpa de tudo", esses relatos citados acima sao exemplos disso, porem, baseando-se na teoria das representacoes sociais percebe-se que as pessoas nao procuram saber se o estagiario e realmente assim, "o que faz tudo errado", simplesmente essas representacoes sao ouvidas, aceitas e reproduzidas sem qualquer questionamento por algumas pessoas.

Considerando as representacoes sociais destacadas em questao, percebese que somente nas tres primeiras representacoes o estagio aparece relacionado ao que de fato se entende por estagio, que e a relacao com o mercado de trabalho e a preparacao do aluno como profissional, sao elas: estagio como periodo de conviver com diferentes pessoas; estagio como insercao profissional e estagio como periodo de decisao/escolhas.

Comparando esse estudo com a pesquisa realizada por Bianchi e Oliveira (2011) no Rio de Janeiro com estudantes do curso de Administracao da universidade publica da cidade, percebe-se uma familiaridade entre as representacoes dos dois estudos. Os autores identificaram como representacoes relacionadas ao trabalho o estagio como processo de aprendizagem e o estagio como possibilidade de inserir o estudante no mercado de trabalho, consideradas por eles como representacoes positivas. A representacao negativa, considerada pelos autores foi o estagio como trabalho precario que tambem foi identificada neste estudo.

Nesse sentido, percebe-se que tanto os estudos realizados em instituicoes publicas quanto em instituicoes privadas, em varias regioes do pais, apresentaram o estagio como uma ferramenta que auxilia os academicos a ingressarem no mercado de trabalho, o que muda nesse caso sao as experiencias vivenciadas por cada jovem e as influencias tanto culturais como sociais vivenciada por eles.

CONSIDERACOES FINAIS

O objetivo geral deste artigo foi analisar as representacoes sociais dos universitarios de Administracao quanto as suas experiencias em relacao ao estagio nao-obrigatorio. Para tanto, foi realizada uma pesquisa qualitativa com academicos do curso de graduacao em Administracao da Universidade Estadual de Maringa, Parana. Assim como nos estudos de Bianchi e Oliveira (2011) e Oliveira e Piccinini (2012a; 2012b), foi identificado que o mercado de estagio no contexto estudado e representado pelos academicos do curso de Administracao como sendo, especialmente, uma forma mais rapida de ingresso ao mercado de trabalho, entretanto com baixa remuneracao e, por vezes, precarizado. A producao desta condicao social dos estagiarios nessa dinamica ocorre pelo fato de o estagio ser construido simbolicamente como principal mecanismo de construcao de redes profissionais. Estas relacoes construidas no contexto de trabalho que possibilitam a "aprendizagem" da pratica de gestao, discutidas "teoricamente" em sala de aula, que sao apreendidas por meio do convivio social durante a realizacao do estagio nao-obrigatorio.

Essa interacao social produzida no cotidiano de vida caracteristica da construcao das representacoes sociais, destacada por Moscovici (2003), e base do segundo eixo de debates deste estudo. Para os entrevistados, realizar um estagio e uma forma de atividade extracurricular determinada pela universidade, devido a concepcao das politicas pedagogicas, e que sao essenciais para a formacao social dos estudantes. Entretanto, e preciso destacar que esse processo microssocial tem articulacoes com a construcao macrossocial da concepcao dos cursos de bacharelado no pais, conforme destaca Rezende (2014). A enfase da expansao dos cursos para a formacao de bachareis e tecnologos no pais em consonancia com as politicas pedagogicas de incentivo aos estagios nao-obrigatorios, quando articulados a uma dinamica de mercado, podem substanciar a construcao das representacoes sociais sobre a funcao do estagio, conforme observado nesse estudo.

Outro aspecto importante dos resultados deste estudo e a precarizacao das relacoes de trabalho dos estagiarios. As falas dos entrevistados foram remetidas a preocupacao com a execucao de tarefas de trabalho no cotidiano do estagio que nao estao diretamente relacionadas com a formacao tecnica de sua profissao. Com efeito, a funcao do estagiario e construida como "apoio" as atividades operacionais resultando na ultima representacao social identificada nesse estudo, sendo relacionada a imagem do estagiario como aquele que "faz tudo errado" e que "sempre leva a culpa" por nao ter o dominio tecnico das atividades a serem realizadas. Essas construcoes denotam uma posicao, por vezes, de submissao dos estagiarios frente as outras categorias profissionais que sao naturalizadas no senso comum.

Em termos teoricos e empiricos, e de forma ampla, este artigo avanca na articulacao da teoria das representacoes sociais com a dinamica de expansao das universidades e, consequentemente, da ampliacao da demanda e da oferta de estagios nao-obrigatorios. Nesse sentido, destacamos que apesar das representacoes sociais serem constituidas com base no senso comum da vida cotidiana dos sujeitos essa producao e articulada diretamente com a dinamica macrossocial, conforme discute Moscovici (2003) sobre o processo de construcao das representacoes sociais. Com efeito, e possivel compreender como as dimensoes institucionais das relacoes sociais substanciam e significam a vida cotidiana, sendo base para a construcao de representacoes sobre a realidade social (MOSCOVICI, 2003).

As representacoes sociais dos estagios nao-obrigatorios para os academicos do curso de Administracao tambem estao relacionadas a dimensao macrossocial do processo de expansao das universidades e dos cursos de graduacao no pais, ainda que esse estudo tenha sido realizado em um contexto local especifico: a regiao noroeste paranaense. Essa afirmacao pode ser considerada com base nas articulacoes dos resultados do presente estudo com os obtidos em outras pesquisas sobre as representacoes sociais dos estagios nao-obrigatorios para os estudantes de Administracao, conforme os trabalhos de Bianchi e Oliveira (2011) e Oliveira e Piccinini (2012a; 2012b), que apresentaram semelhancas com os resultados deste artigo.

As discussoes teoricas e empiricas apresentadas nesse artigo nao terminam com os debates aqui propostos. Apresentamos debates que possibilitam a compreensao de como o social e o individual interagem entre si objetivando, por meio de construcoes sociais, a ordenacao do mercado de estagios nao-obrigatorios para os estudantes do curso de Administracao, que denominamos de representacoes sociais (SALAZAR; SILVA, 2014). Futuras pesquisas podem avancar teoricamente nesse campo de pesquisa, por exemplo, articulando a teoria das representacoes sociais com a formulacao de politicas publicas para o ensino superior, destacando, especialmente, o processo de expansao e interiorizacao das universidades e suas relacoes com o mercado de trabalho. Outro aspecto importante a ser destacado em futuros estudos sao as representacoes sociais dos docentes e tecnicos universitarios sobre os estagios nao-obrigatorios para os estudantes, bem como da expansao e interiorizacao universitaria no Brasil, visto que essa dinamica tem ocorrido com base no deslocamento de docentes de grandes centros urbanos para estas localidades.

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VERGARA, S. C.; FERREIRA, V. C. P. A representacao social de ONGs segundo formadores de opiniao do municipio do Rio de Janeiro. Revista de Administracao Publica, Rio de Janeiro, v. 39, n 5, 2005.

--. Teoria das representacoes sociais: uma opcao para pesquisas em Administracao. Revista da Angrad, v. 8, n. 2, p. 225-241, 2007.

YAMAMOTO, J. M. Gestao de C&T: genero e representacoes sociais da ciencia na Universidade Estadual de Maringa. 2005. 139 f. Dissertacao (Mestrado)-Programa de Pos-Graduacao em Administracao da Universidade Estadual de Maringa, Maringa, 2005.

JAQUELINE CRISTINA ROMERO GONZAGA * jaque.gonzaga@hotmail.com

Bacharel em Administracao pela Universidade Estadual de Maringa

Instituicao de vinculacao: Universidade Estadual de Maringa

Maringa/PR--Brasil

Areas de interesse em pesquisa: Administracao Geral.

* Av. Colombo, 5.790 Bloco C-23 sala 209--Campus Universitario Jardim Universitario Maringa/PR 87020-900

JOSIANE SILVA DE OLIVEIRA oliveira.josianesilva@gmail.com

Doutora em Administracao pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Instituicao de vinculacao: Universidade Federal de Goias

Goiania/GO--Brasil

Areas de interesse em pesquisa: Estudos Organizacionais.

PRISCILLA BORGONHONI CHAGAS priscillabchagas@gmail.com

Doutora em Administracao pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Instituicao de vinculacao: Universidade Estadual de Maringa

Maringa/PR--Brasil

Areas de interesse em pesquisa: Teoria das Organizacoes, Administracao Publica e Metodos Qualitativos.

Recebido em: 24/04/2015 * Aprovado em: 30/06/2015

Avaliado pelo sistema double blind review

Editora Cientifica: Manolita Correia Lima

DOI 10.130587raep.2015.v16n3.281

JAQUELINE CRISTINA ROMERO GONZAGA jaque.gonzaga@hotmail.com

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGA

JOSIANE SILVA DE OLIVEIRA

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIAS

PRISCILLA BORGONHONI CHAGAS

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGA
Quadro 1 Representacoes dos estudantes em relacao ao estagio nao-
obrigatorio

Representares Sociais    Caracterizado das         Frequencia das
                         Representares Sociais     Representares entre
                                                   os Entrevistados *

Estagio como periodo     "Para mim esta sendo um   11/12
de redes para insercao   bom periodo porque
profissional             estou aprendendo coisas
                         novas todos os dias. Um
                         dos motivos bons do
                         estagio e aprender a
                         lidar com as pessoas".
                         (EJ3)

Estagio como atividade   "Preciso fazer estagio    3/12
extracurricular          porque, honestamente,
                         preciso de horas.
                         Faltam cem horas e com
                         o estagio eu
                         conseguiria setenta e
                         cinco horas". (EN2)

Estagio como trabalho    "Um ponto negativo com    8/12
precario                 a minha experiencia de
                         estagio era fazer a
                         mesma coisa, fazer
                         coisas que nao estavam
                         relacionadas ao cargo
                         administrativo. Servir
                         como se fosse um
                         "office boy" la dentro.
                         Ficar levando papel de
                         um lugar para outro,
                         pegar caixa de papel
                         sulfite, fazer coisa
                         inutil. isso que foi a
                         pior coisa la dentro
                         mesmo". (EJ1)

Estagio como periodo     "Na verdade, e que eu     3/12
de acomodacao            levo em consideracao
                         outras coisas. A
                         questao salarial e boa,
                         e proximo da minha
                         casa, o horario e
                         bem ... Eles sao bem
                         flexiveis e ate sair o
                         concurso publico eu
                         penso em ficar la".
                         (EJ4)

* Numerador representa quantos entrevistados destacaram a
representacao social e o denominador destaca a quantidade de
entrevistados da pesquisa.

Tabela 1 Curso de graduacao com maior numero de homens e mulheres
matriculadas

Homens                                 Mulheres

Curso                      No de       Curso                 No de
                           Matriculas                        Matriculas

Administracao              354.888     Pedagogia             568.030
Direito                    355.020     Administracao         445.226
Engenharia Civil           183.297     Direito               414.869
Ciencias Contabeis         136.733     Enfermagem            194.166
Ciencia da Computacao      106.266     Ciencias Contabeis    191.298
Engenharia de Producao     97.658      Servico Social        157.919
Engenharia Mecanica        91.802      Psicologia            146.347
Engenharia Eletrica        74.840      Gestao de Pessoal/RH  138.243
Formacao de Professor      71.215      Fisioterapia          88.007
  de Ed. Fisica
Analise e Desenvolvimento  66.383      Arquitetura e         79.293
  de Sistemas                            Urbanismo

Fonte: Ministerio da Educacao (2014).

Tabela 2 Perfil dos sujeitos entrevistados

Entrevistados    Genero       Idade    Periodo da    Experiencias com
                                       Faculdade     Estagio

El               Masculino    22       5 Ano         Sim
E2               Feminino     22       4 Ano         Sim
E3               Masculino    22       3 Ano         Sim
E4               Feminino     20       3 Ano         Sim
EJ1              Masculino    23       5 Ano         Sim
EJ2              Feminino     24       5 Ano         Sim
EJ3              Feminino     22       5 Ano         Sim
EJ4              Masculino    22       5 Ano         Sim
EN1              Masculino    22       4 Ano         Nao
EN2              Feminino     20       3 Ano         Nao
EN3              Feminino     27       3 Ano         Nao
EN4              Masculino    21       3 Ano         Nao

Entrevistados    Quantidade de
                 Estagios Realizados

El               2
E2               1
E3               1
E4               3
EJ1              1
EJ2              3
EJ3              2
EJ4              1
EN1              Nenhum
EN2              Nenhum
EN3              Nenhum
EN4              Nenhum
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Author:Gonzaga, Jaqueline Cristina Romero; Oliveira, Josiane Silva De; Chagas, Priscilla Borgonhoni
Publication:Administracao: Ensino e Pesquisa RAEP
Date:Jul 1, 2015
Words:10811
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