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M. Quijada Sagredo, M. Carmen Encinas Reguero (eds.), Retorica y Discurso en el Teatro Griego.

M. QUIJADA SAGREDO, M. CARMEN ENCINAS REGUERO (eds.), Retorica y Discurso en el Teatro Griego, Madrid, Ediciones Clasicas, 2013. 339 pp. ISBN 84-7882-778-1

Este volume reune uma parte dos resultados do projecto de investigacao sobre retorica e teatro grego, financiando pelo Ministerio da Ciencia e Inovacao de Espanha (agora designado por Ministerio da Educacao, Cultura e Desporto), de 2010 a 2012. Os treze estudos (oito sobre tragedia, se incluirmos o contributo de Oliver Taplin, que consta do "Prologo"; tres sobre comedia; e um dedicado ao drama satirico), da autoria de investigadores de varias universidades (Pais Basco, Salamanca, Coimbra, Peloponeso, Oxford, Foggia, Munique e Cornell), abordam temas diversificados do teatro grego, em particular nota-se a intencao de valorizar a ligacao entre teatro e palavra ou linguagem. Nesse sentido, procura-se aprofundar as formas do logos poetico e a arte do discurso que os poetas gregos desenvolveram nos dramas.

No Prologo, Oliver Taplin ("On How Tragedy Makes Cries Pain Articulate", pp. 29-27), com base na sua experiencia de traducao, em verso, de Sofocles e no seu conhecimento da teoria e estetica do genero, demonstra como e um desafio traduzir a dimensao tragica dos caracteres e do coro, sobretudo a dificuldade de manter a medida, o ritmo e a musicalidade do verso grego. Num genero literario perpassado pela reflexao da condicao humana, mas tambem pela emocao e tensao, como se nota nas inumeras interjeicoes, o poder da palavra, a expressao e o movimento sao elementos fundamentais que qualquer exercicio de traducao nao pode negligenciar. Para o exemplificar, o A. recorre aos versos 394 a 440 da tragedia Ajax, de Sofocles, na sua opiniao, "one of the passages of fiercest mental anguish in all of Sophocles, perhaps all tragedy" (p. 21).

Milagros Quijada Sagredo ("La retorica de la suplica: los discursos de Adrasto y de Etra (Euripides, Supp. 162-92 y 297-331)", pp. 31-60) baseia a sua analise n' As Suplicantes, de Euripides, uma tragedia de grande alcance politico. Sao objecto de analise o motivo da suplica e a sua dramatizacao, quer a retorica que envolve a accao das personagens (Teseu, Coro das Argivas, Adrasto), quer os elementos cenicos dos agones Teseu-Adrasto e Teseu-Etra. No caso do segundo agon, salienta a A. os temas das visoes distintas do mundo e do papel que representa Atenas como polis com capacidade para intervir em outras poleis de forma a garantir o cumprimento de leis importantes para todos. No caso da rhesis suplicante de Etra, com um tom racional que se detem em varios temas, faz-se um apelo as leis divinas e as tradicoes da Helade, mas, sobretudo, percebe-se que, apos algumas hesitacoes, Etra se convence do poder da palavra. Estamos perante a svapysia poetica, teorizada por Aristoteles, que oscila entre xepnsiv e TCsfosiv. Por fim, realce-se o facto de a A. ter em conta o efeito que a proximidade familiar entre as personagens tem na retorica e na accao.

Georgia Xanthaki-Karamanou ("Fragmentary Plays of Euripides with Similar Rhetorical Motifs and Story-Pattern: the Aeolus and Melanippe the Wise", pp. 61-90) analisa os elementos retoricos, em especial, o efeito dramatico do [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII] ("discurso artificial"; cf. [D.H.] Rh. 9) na accao de duas tragedias fragmentarias de Euripides, Eolo e Melanipe, a Sabia. Interpreta, com bastante pormenor filologico e intertextual, varios fragmentos das duas tragedias, de forma a perceber as dinamicas do agon e as caracteristicas do estilo retorico de Euripides. Enfatiza a A. a forma como Euripides, na tragedia Eolo, consegue harmonizar o artificialismo retorico e os diversos motivos tematicos (confronto, paixao, descoberta ou castigo, entre outros) com o contexto social e politico da polis. No caso da tragedia Melanipe, a Sabia, o efeito retorico concentra-se na oposicao entre a baixa moralidade do homem e o discurso de defesa, de elevada capacidade retorica e argumentativa, de Melanipe, fazendo lembrar a oposicao entre Admeto e Alceste. Por isso, a A. considera: "In the surrounding male fifth-century society, this tragic poet treated for the first time the myth and the character of Melanippe as an intelligent and rhetorically articulate women providing a literary landmark for classical, post-classical and roman age" (p. 86). Na conclusao, sintetizam-se os tres padroes tematicos que se repetem nas duas tragedias: as maes (Canace e Melanipe) que procuram defender os seus filhos; os agones pai-filho e pai-filha, e a descoberta da ilegitima descendencia; a punicao da filha pela maternidade ilicita.

Jose Antonio Fernandez Delgado ("Anaskeue y kataskeue del Heracles euripideo (HF 140235)", pp. 91-112) detem a sua analise no agon de suplica entre Lico e Anfitriao, que ocorre entre os versos 140-235 da tragedia Heracles (em apendice o artigo contem o texto grego e respectiva traducao). O A. faz um enquadramento teorico do uso do agon e relaciona-o com elementos do debate judicial e da argumentacao sofistica. Alem disso, realca-se o papel que o agon desempenha na dramaturgia e caracterizacao das personagens. No caso do agon entre Lico e Anfitriao, sobressai a dinamica retorica da anaskeue/kataskeue (cf. Ps. Hermogenes 11-12) ou refutatio/ confutatio do valor de Heracles, ligada ao paradoxon. Depois de uma analise pormenorizada da anaskeue/kataskeue euripidiana, o A. coloca as duas hipoteses: ela e uma influencia de uma pratica pre-progymnasmata ou se considera que segue o modelo educacional sofistico que se ira generalizar no periodo imperial greco-romano. Na verdade, o agon euripidiano, em analise, e um paradigma de como a retorica esta ao servico da dramaturgia e parece encaixar, em larga medida, nos progymnasmata que nos chegaram, a partir do seculo II d. C., do ensino pre-retorico. O aspecto que mais difere e, segundo o A., o da extensao, pois o discurso de confutatio e o dobro do de refutatio, prevalecendo os aspectos positivos da figura de Heracles (p. 107).

Maria do Ceu Fialho ("The failure of rhetoric in Sophocles, Oedipus at Colonus", pp. 113126) concentra a sua analise na tragedia Edipo em Colono, salientando, no dialogo entre Edipo e Antigona, o contraste entre a degradacao e o sofrimento fisicos e a fecundidade e frescura da natureza, o que remete para uma retorica da fragilidade da natureza humana, tao presente na tragedia grega. O efeito retorico e conseguido de diversas maneiras, sendo de salientar o papel que e desenvolvido pelo espaco e pela polis, em particular. Tal como sucede no Filoctetes, Sofocles enfatiza o pathos por meio da linguagem visual, pela forma como descreve os espacos e o proprio aspecto fisico das personagens. Por conseguinte, a poetica dramatica projecta-se no espectador, sobretudo, pela imagem de uma cidade em ruinas, aliada a uma retorica persuasiva ou, nas palavras da A., "the language of life" (p. 124).

Francisca Pordomingo ("Discursos y monologos del drama en antologias de epoca helenistica en papiro", pp. 127-155) dedica o seu estudo as antologias em papiro da Epoca Helenistica ate ao fim da Antiguidade Tardia que nos transmitiram um consideravel numero de textos dramaticos. Segundo a A., as antologias nao tem apenas valor pela transmissao indirecta de textos, mas tambem pela directa. Essas antologias provam, por exemplo, a diminuicao da producao de textos dramaticos a partir do seculo IV a. C.. Refira-se, ainda, que os dois autores melhor representados nas antologias sao Euripides e Menandro. Os seis excerpta analisados sao rheseis, discursos ou monologos, certamente conhecidos de uma certa classe social, ate pela sua presenca em manuais escolares, como base para a formacao retorica: 1.1. Melanippe desmotis (TrGF 5.1, 494); 1.2. excerptum do Hipolito de Euripides, vv. 403-23; 2. P. Didot (Mertens Pack3 1319+401+31+1320+1435; LDAB 1048); 2.1. Mulieris oratio (PCG VIII, Adesp. 1000); Soliloquium adulescentis (PCG VIII, Adesp. 1001); P Giss. 152 (Mertens--Pack3 1580; LDAB 2730). A partir desta seleccao de textos, a A. identifica, com muita clareza, os "marcadores de consciencia retorica", ou seja, a estrutura dos discursos, a argumentacao, a caracterizacao das personagens, o estilo, a fraseologia e o lexico usado.

Maximo Brioso Sanchez ("De nuevo sobre los mensajeros tragicos: un debate metodologico", pp. 157-192) reflecte sobre a funcao do mensageiro e da mensagem, criticando a metodologia seguida pelos estudos de Barrett (2002) e de De Jong (1991). Da analise das cenas e rheseis do mensageiro, nota-se uma evolucao na forma e conteudo e, por isso, acredita a A., nao haveria normas rigidas para a intervencao do mensageiro, seja por causa da liberdade criativa do poeta, seja pelo facto de essa intervencao ter a sua propria historia, num genero literario que sofreu diversas alteracoes. Na verdade, o mensageiro e sobretudo uma personagem funcional, com o objectivo de informar e e precisamente essa funcao que o define. Como refere a A., o mensageiro pode usar diversos recursos: mensagem, carta e rumor. Dai que a cena protagonizada pelo mensageiro nao seja hermetica em relacao ao exterior.

Francesco De Martino ("Ekphrasis e teatro tragico", pp. 193-224) enquadra, em termos teoricos, o uso da ekphrasis, segundo os principais tratados de retorica, antes de analisar a arte figurativa no drama tragico, pois a comedia dedica apenas uma breve parte no final do estudo. A ekphrasis e, de um modo geral, uma estrutura autonoma e tem uma natureza metavisual. O A. nao so identifica varias ekphraseis nos dramas de Esquilo, Sofocles e Euripides, como tem o cuidado de as classificar, segundo os principios da retorica, e demonstrar a sua dinamica no conjunto da obra. Saliente-se o facto de haver muitas ekphraseis topograficas ou relacionadas com espacos. Alem disso, e muitas vezes explorada a ligacao entre ekphrasis e 'ver, o que reforca a ideia da descricao como uma arte visual.

A parte dedicada a Comedia incia-se com o estudo de Martin Hose ("Die Rhetoric der altatischen Komodie: Wie konstruiert sich eine Wahrscheinlichkeit der Phantastik?", pp. 227248). Tomando para analise duas comedias de Aristofanes, As Aves e Os Cavaleiros, este estudo procura analisar como a Comedia Antiga transcende muitas vezes a realidade, recorrendo ao fantastico. Nesse sentido, o recurso a retorica serve para reflectir sobre a complexa situacao politica da polis, por meio de uma linguagem metaforica e com elementos proprios do fantastico, mas que nao deixa de ser plausivel para o espectador.

Jeffrey Rusten ("Political discourse and the assembly in four plays of Aristophanes", pp. 249-260) indaga o significado do discurso politico na comedia aristofanica, mas usando um "corpus-wide" (p. 249). Com esta metodologia, procurara demonstrar que os dramas comicos constituem uma fonte muito importante para o conhecimento dos discursos politicos, em publico, no seculo V a. C. Resultara, assim, da analise de quatro pecas de Aristofanes, Os Acarnenses, A Assembleia de Mulheres, As Tesmoforiantes e Lisistrata, representadas em contextos politicos diferentes, a constatacao de que usam um lexico e temas apropriados a esses contextos e, sobretudo, que as pecas Os Acarnenses e A Assembleia de Mulheres apresentam um modelo de assembleia disfuncional, enquanto As Tesmoforiantes e Lisistrata sao exemplo de uma assembleia nao tradicional, mas que constituem bons modelos. Pelo facto destas duas ultimas pecas serem do ano 411 a. C., estabelece-se uma relacao e tambem um contraponto com a accao mais oligarquica do que democratica da Constituicao dos 400.

Maria de Fatima Silva ("The rhetorical agon as dramatic condiment in the Epitrepontes of Menander", pp. 261-278) baseia a sua analise nos elementos retoricos da peca comica Os Arbitros de Menandro. Alem de explicar o sentido do titulo desta comedia e de identificar as influencias euripidianas, a A. aborda, com pormenor, o episodio do arbitro, num contexto rustico e privado, e de toda a sua envolvente judicial. Aponta as dissimetrias do agon entre os litigantes e os principais argumentos que sao usados, com a identificacao do vocabulario mais relevante para a analise retorica do dialogo.

Neste volume, o contributo de M. Carmen Encinas Reguero ("Ichneutai de Sofocles. Una lectura en clave retorica", pp. 281-312) e o unico dedicado ao drama satirico. Embora esteja incompleto, os cerca de 450 versos do drama Os Rastejadores (Ichneutai), de Sofocles, fruto da descoberta, em 1907, de um rolo de papiro (P. Oxy. 1174), juntamente com outros fragmentos (P. Oxy. 2081a), contribuiram bastante para um melhor conhecimento do genero literario. Tendo em conta os varios elementos retoricos deste drama satirico (a estrutura e as provas, como testemunhos, os indicios fisicos e os argumentos de probabilidade), sustenta a A. que a importancia da retorica no genero dramatico, em geral, nao se tera iniciado nas obras tardias de Sofocles e na producao de Euripides a partir da tragedia Medeia, mas antes, pelos meados do seculo V a. C., pois o drama satirico em analise e, provavelmente, anterior a 440 a. C.

Por fim, saliente-se a utilidade do index locorum, ate pela natureza filologica dos estudos. Beneficiaria tambem este volume um index nominum e, sobretudo, um index especifico de materias retoricas. Estamos, sem duvida, na presenca de um conjunto de trabalhos cientificos muito especializados, bem apoiados em bibliografia de referencia e actualizada, e que fazem uma abordagem que muito valoriza o genero dramatico.

JOAQUIM PINHEIRO

U. Madeira

joaquim.pinheiro@staff.uma.pt
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Pinheiro, Joaquim
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Article Type:Resena de libro
Date:Jan 1, 2015
Words:2141
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