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Lingua, cultura e letramentos: reflexoes sob o olhar de um tigre.

KOO, Yew Lie. Language, Culture and Literacy: meaning-making in global contexts. Bangi

Selangor: Universiti Kebangsaan Malaysia, 2008. 139 p. ISBN 978-983-9391-46-6.

Professora pesquisadora da Universiti Kebangsaan (Universidade Nacional da Malasia), a Dra. Koo Yew Lie propoe refletir sobre lingua, cultura e letramentos considerando as experiencias discursivas de sujeitos multilingues nos contextos multiculturais que caracterizam a sociedade malaia. A Malasia, que surgiu como estado nacao apenas em 1963, ao se tornar independente da Gra-Bretanha, e mais conhecida entre nos brasileiros por se sobressair na economia global como parte dos Tigres Asiaticos. Menos conhecida e sua constituicao multietnica, com a presenca de populacoes descendentes de paises proximos, como a China e a India, e multilingue, acomodando a lingua oficial--Bahasa Melayu (literalmente, lingua malaia), as variedades do ingles malaio, linguas chinesas (como o mandarim, o cantones e o hokkien) e indianas (como o tamil), alem de outras linguas regionais. Para olhar para a diversidade e as diferencas nessa sociedade complexa, Koo adota uma perspectiva posmoderna e procura acompanhar sujeitos fluidos em suas negociacoes de valores entre contextos individuais, comunitarios, nacionais e globais, ou seja, sujeitos linguajantes fazedores de sentido que sao e estao nao em um mundo apenas, mas em varios.

No primeiro capitulo, Koo apresenta as questoes em torno das quais desenvolve seu argumento a favor de um pluriletramento na sociedade e na educacao, em particular, em cuja experiencia seja possivel construir sentidos que sustentem comunidades capazes de valorizar suas herancas e recursos locais enquanto "interrogam o global e o contemporaneo" (p. 8). Balizando seu texto estao as questoes de como lidar com os desafios e contradicoes que leitores-aprendizes-cidadaos encontram ao procurar posicoes em uma pluralidade de discursos em contextos multiculturais e transnacionais; quais novas maneiras de ser e conhecer podem ser uteis para essa lida; como se da a apropriacao linguistica, sociopolitica e cultural de discursos na construcao de novos conhecimentos; quais as consequencias da hegemonia de linguaspadrao, especialmente do ingles em seu uso global, para a ecologia da variedade de linguas vivas que garantem sustento e sao sustentadas pelas vozes de sujeitos construindo sentidos e seus mundos.

O segundo capitulo usa parte de um estudo de caso focando as praticas de letramento de dois mestrandos malaios, professores de ingles experientes, e as posicoes que assumem (ou nao) como leitores de textos academicos em lingua inglesa. Ao procurar entender a submissao e retraimento desses dois estudantes proficientes linguisticamente e academicamente qualificados, Koo discute sobre um sistema educacional baseado na transmissao de conhecimento e orientado por uma politica avaliativa objetivista, a qual acaba por determinar os conteudos, invertendo os objetivos educacionais ao justificar a crenca de que na Malasia "escolas e universidades treinam os alunos para se sairem bem em exames" (p. 13). Esse sistema compartilha as especificidades da sociedade malaia, tal como sua estrutura fortemente hierarquica e sua caracteristica coletivista, em que se procura manter a harmonia social por meio de um respeito inquestionavel por figuras de autoridade e do apagamento de vozes criticas. Interessante perceber que o 'reconhecimento' da hierarquia das linguas inglesas usadas no mundo hoje se insere adequadamente neste contexto. A lingua da comunicacao internacional, que garantiria a ascensao socioeconomica da nacao, tem nos falantes nativos do circulo interno proprietarios supostamente mais legitimos do que os falantes do circulo externo (KACHRU, 1985) e o respeito a essa hierarquia pode levar a impossibilidade, como no caso dos estudantes malaios, de vozes 'subalternas' dialogarem com a lingua inglesa padrao dos textos academicos.

O ingles malaio, continua Koo, conforme inscrito no circulo externo das linguas inglesas, recebendo o status de segunda lingua na Malasia e, na verdade, um complexo de subvariedades, ja descrito em termos da variacao entre acroleto, mesoleto e basileto (PLATT; WEBBER, 1980), isto e, uma variacao do grau de inteligibilidade em contextos internacionais, nacionais ou especificos de uma regiao ou comunidade. Uma analise dos contextos e funcoes dessas variedades que se desenvolveram a partir das experiencias coloniais e pos-coloniais da Malasia encontra-se no terceiro capitulo. A analise tambem cobre os processos de nativizacao de aspectos formais, funcionais e discursivos da lingua inglesa pela interacao com as linguas locais, ilustrados com exemplos de uso do ingles por falantes chineses malaios. Conhecer um pouco a complexidade do que se convencionou chamar de ingles malaio auxilia na leitura dos capitulos seguintes, quando Koo retoma e aprofunda a discussao das praticas de letramento dos multilingues malaios e os discursos conflitantes dos quais participam.

No capitulo quatro encontra-se uma analise das praticas de letramento de um estudante malaio de descendencia chinesa que e proficiente em ingles, bahasa melayo, mandarim e cantones, e tem a lingua chinesa hokkien como lingua materna. Em torno desse caso, Koo expande sua critica ao sistema socioeducacional na Malasia, tocando nas recentes mudancas na politica linguistica do pais com a adocao da lingua inglesa no ensino de ciencia e tecnologia. Essas mudancas sao exploradas no ultimo capitulo, dentro do contexto das propostas conhecidas como Visao 2020, apresentadas em 1991 durante a elaboracao do 6 Plano de Desenvolvimento da Malasia, estabelecendo o objetivo de ingressar no grupo das nacoes desenvolvidas ate o ano 2020.

No quadro apresentado por Koo, no qual o discurso hegemonico enfatiza o desenvolvimento economico para a construcao da nacao malaia, as custas da limitacao de espacos publicos para circulacao das diversas vozes locais, evitando-se tratar de questoes etnicas consideradas potencialmente desestabilizadoras, faz sentido a manutencao de um sistema de ensino marcado por uma historia colonial de educacao de tradicao positivista, voltado para a reproducao de informacao. O contexto multilingue e multicultural da complexa sociedade malaia expoe, entretanto, as contradicoes quanto ao que se espera de seus cidadaos nesse inicio de milenio. Dai a discussao dos posicionamentos possiveis dos sujeitos a partir do que Koo denomina de letramento submissivo e letramento afirmativo. Nas praticas de letramento submissivo espera-se que os participantes assumam o papel de porta-vozes de informacoes ou de copistas de textos, sem responsabilidade pela origem das ideias (p. 20). No letramento afirmativo, os participantes assumem o papel de autores e transformadores dos textos, posicionando-se criticamente, praticas que Koo observa serem raras nos contextos educacionais formais da Malasia (p. 55).

Contrapondo-se as praticas dominantes de letramento submissivo, Koo desenvolve duas linhas de discussao: no capitulo 5 aborda a questao da enfase nos recursos tecnologicos para assegurar a qualidade de ensino e no capitulo 6 argumenta sobre o que considera praticas de uso de linguas que realizam um 'imperativo poetico'. Quanto as novas tecnologias no ensino de linguas, ve a necessidade de uma perspectiva situada de praticas criticas que permitam ultrapassar uma visao tecnicista de aprendizagem de linguas assistida por computador. Quanto ao imperativo poetico, trata-se de uma maneira de apresentar as participacoes discursivas nas variedades do ingles malaio considerando o surgimento de terceiros espacos de significado, onde a nativizacao dos discursos acontece.

Acompanhar o olhar reflexivo de Koo sobre a complexa sociedade malaia nos entrelacamentos de linguas e culturas diversas e um necessario contraponto para pensar tambem a nossa sociedade brasileira, que compartilha do mesmo discurso hegemonico sobre desenvolvimento e educacao. Quando citada na midia brasileira, a Malasia e vista entre os tigres que desafiam as crises com um plano desenvolvimentista centrado na economia, apoiado no uso intensivo de tecnologias, inclusive para a educacao, vista como fornecedora de trabalhadores qualificados, proficientes na lingua do comercio internacional. O tigre que caminha pelos textos de Koo tem um passo mais incerto e um olhar mais reflexivo sobre suas proprias contradicoes ao procurar posicionamentos globais e sentir as tensoes locais.

Received on June 5, 2009. Accepted on June 24, 2009.

Referencias

KACHRU, B. B. Standards, codification and sociolinguistic realism: the English Language in the outer circle. In: QUIRK, R.; WIDDOWSON, H. (Ed.). English in the world: teaching and learning the language and literatures. Cambridge: Cambridge University Press, 1985. p. 11-30.

PLATT, P.; WEBER, H. English in Singapore and Malaysia. Kuala Lumpur: Oxford University Press, 1980.

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DOI: 10.4025/actascilangcult.v31i2.7266

Clarissa Menezes Jordao * e Regina Celia Halu

Programa de Pos-graduacao em Letras, Universidade Federal do Parana, Rua XV de Novembro 1299, 80060-000, Curitiba, Parana, Brasil. * Autor para correspondencia. E-mail: clarissa@ufpr.br
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Menezes Jordao, Clarissa; Halu, Regina Celia
Publication:Acta Scientiarum Language and Culture (UEM)
Article Type:Resena de libro
Date:Apr 1, 2009
Words:1573
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