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La seccion de Creacion en la revista Interface: veinte anos de experimentacion/The section on Creation at the journal Interface: twenty years of experimentation/A secao de Criacao na revista Interface: vinte anos de experimentacao.

Inventar e reinventar a Criacao

A revista Interface nasce em agosto de 1997, com intencao de estimular o debate e a difusao de conhecimentos em torno das questoes contemporaneas que desafiam seus campos de interesse. Em seu primeiro numero, ela ja apresentava um dialogo grafico-textual com sua interdisciplinaridade, dando lugar a experimentacoes esteticas variadas.

Pensar nos vinte anos da secao de Criacao desta revista mobiliza questoes antigas, e tambem atuais, que atravessam a equipe editorial em 2017. Queremos problematizar o que, por que e como ela opera num periodico cientifico indexado e arbitrado por interlocutores de diferentes areas do conhecimento. Secao que se firmou com publicacoes de carater inventivo, provocativo ou reflexivo, que se apresentam com linguagens diversas ou utilizam recursos visuais, poeticos, literarios, musicais, audiovisuais etc. O intuito de tais recursos e promover outras possibilidades de interlocucao e tambem oferecer diferente tessitura as discussoes, em dialogo com as artes e a cultura em geral.

O nome da revista ja apresenta a sua intencao de abertura. E o nome da secao, o que enuncia? A que vem um espaco para a Criacao em uma revista alojada no Laboratorio de Educacao e Comunicacao em Saude, Departamento de Saude Publica da Faculdade de Medicina e Instituto de Biociencias da UNESP de Botucatu?

Um interesse de acolher multiplas formas de intervencao e praticas de saude, a formacao universitaria e continuada atravessada por campos diversos, em especial: a educacao e a comunicacao, a filosofia, as artes, as ciencias sociais e humanas, com enfase nas pesquisas qualitativas e na Saude Coletiva.

Trata-se de um espaco aberto a pesquisas esteticas, atravessadas pelo pensamento critico, que nao se enquadram na formatacao cientifica das demais secoes da revista. E importante destacar que "criacao" nao significa, necessariamente, "arte". E, tambem, que a maior liberdade formal da Secao de Criacao, para alem das normas tradicionais de publicacoes academicas, nao implica menor rigor dessas producoes.

Ao longo destes vinte anos, tal proposta tornou publicas ideias ousadas, inquietantes, experimentais, que acolhem algo valioso--e, por vezes, esquecido--do trabalho de estudo e pesquisa: a experimentacao. Os processos, as invencoes, as errancias e as forcas criativas sao aqui necessarias para problematizar os proprios modos de fazer e pensar a producao de conhecimento.

Ao mesmo tempo, e justamente por conta desse desejo por formas inventivas, cada criacao submetida a apreciacao da equipe editorial vem acompanhada de questoes ainda nao consideradas: provocam debates, exigem reformulacoes, mantem todos num processo vivo de pensar a propria secao, a que ela vem e como se enuncia.

Nas proximas paginas, apresentamos: recortes da multiplicidade de vozes que contam a nossa historia, algumas tentativas de pensar a secao de Criacao ontem e hoje, alem de outros possiveis caminhos para a sua constante--e necessaria--reinvencao.

Outras linguagens para o saber

A revista Interface foi idealizada por um grupo interdisciplinar de estudos do tema da Educacao e da Comunicacao no campo da Saude, em um momento em que diversos projetos de integracao entre a universidade, a comunidade e os servicos de saude estavam sendo criados e experimentados tanto no ensino de graduacao quanto na pos-graduacao em Saude, envolvendo as varias profissoes dessa area (1).

A epigrafe que a acompanhou por muitos anos foi a frase de Pierre Levy (2), que descreve a interface como superficie de contato, de traducao, de articulacao entre dois espacos, duas especies, duas ordens de realidade diferentes. Intencao que articula a revista diretamente com as novas bases para as cartografias cientificas contemporaneas. Uma tentativa de ampliar o entendimento do homem em sua universalidade, diversidade e diferenca.

Incertezas, indeterminacoes, imprecisoes e a complexidade nas formas de conceber e fazer ciencia sao mostradas e acentuam as redefinicoes dos lacos sociais em curso, instaurando redes, redimensionando o imaginario, adensando-o como circulo comunicacional onde a invencao valoriza a etica, num exercicio estetico-politico que inclui certas poeticas como formas ativas de encarar o real (3).

Desalinho do tempo

A presenca de Maria Lucia Torrales Pereira[R] e Ricardo Rodrigues Teixeira[R] na equipe que concebeu a revista foi crucial para a Criacao, que, entre 2009 e 2014, teve como editora Mariangela Quarentei(k). Essas presencas marcaram profundamente a concepcao editorial da revista, que se manteve no desafio de tornar expressiva sua vocacao interdisciplinar, buscando produzir e afirmar interfaces entre diferentes discursos e linguagens, na exploracao de um dialogo grafico-textual.

Em 2009, o projeto grafico da revista passa a ser pensado a partir do conteudo publicado na secao, de forma a produzir uma integracao entre a capa, as interferencias graficas nos textos, a rede imagetica e textual de conceitos e tematicas presentes em cada numero, alem de imagens organizadas em pranchas intercaladas entre os artigos publicados na edicao impressa. Em 2013, o formato digital provocou a equipe com novos desafios e possibilidades. A secao expandiu a gama de experimentacoes no projeto grafico, com a articulacao de textos, cores, imagens, e agora, tambem, videos e audios nas suas criacoes.

Foram publicados nesta secao: textos literarios, poeticos e teatrais; ensaios criticos sobre artes plasticas, teatro, cinema, danca e fotografia; pinturas em tela e pinturas corporais; autorretratos; escultura e instalacoes; gravuras e xilogravuras; colagens e mosaicos; costuras e bordados; desenhos, esbocos e projetos arquitetonicos; ensaios fotograficos; registros e relatos de mostras, exposicoes, performances e espetaculos; cartografias de expedicoes urbanas; acompanhamentos de festas populares; estudos etnograficos; entre outros materiais entrelacados.

Por meio dessa diversidade de linguagens e composicoes, foram abordados temas variados, entre eles: interfaces entre ciencia e arte, pesquisa e experimentacao; crise da ciencia e crise da representacao; produtivismo na academia; ressonancias entre loucura e criacao; diferentes estrategias de humanizacao em saude e de inclusao sociocultural; oficinas de atividades artisticas; aspectos do corpo e da corporeidade; comunicacao, formacao e educacao em saude; producao de saude e producao de subjetividade; olhares sobre a cidade; cotidiano e modos de vida; amor, solidao, vulnerabilidades; e reflexoes sobre os processos de criacao, de escrita e de pesquisa.

Escrever com...

As aproximacoes com a secao de Criacao da revista Interface se dao a partir de acontecimentos, estudos e pesquisas produzidos por uma rede de profissionais a espreita do trabalho vivo que constitui certas proposicoes. Numa tessitura relacional, fazeres e encontros conduzem a colaboracoes desejantes, com expressoes de experiencias poeticas e criticas que requerem um lugar de acolhimento para sua publicacao fora dos formatos tradicionais da academia.

Expoem-se, de maneira proxima e afetiva, experimentacoes com linguagens que aferem singularidades do exercicio de pesquisar atrelado ao ato criador e a inventividade, e que, em alguns momentos, envolvem, tambem, a participacao coletiva no processo da pesquisa. As publicacoes evocam a participacao e a emancipacao, em especial, daqueles que habitam as margens do projeto cientifico e artistico hegemonico. A secao de Criacao busca alojar, assim, alguns vestigios dos acontecimentos, proporcionando outras visualidades e reflexoes que acionam, na pratica, mudancas no pensamento e deslocamentos sensiveis.

O que toca? O que conecta? O que produz leituras menores ou estabelece pontes? Fazeres e cuidados nao hegemonicos sao colocados em marcha na escolha das imagens, dos textos, na elaboracao da montagem e das composicoes da edicao. Trabalha-se junto, trabalha- se com cada autor, acompanham-se experiencias para efetuar formatos que problematizem a pluralidade de formas de produzir conhecimento e agreguem, ao projeto da publicacao cientifica, a complexidade de articula-lo aos acontecimentos do presente.

Trata-se de realizar intervencoes delicadas e pertinentes numa coleta do mundo onde a criacao e um problema vital para produzir certas aberturas na fixacao dos lugares tecidos na durabilidade e especializacao do projeto cientifico, cunhando, na edicao, outras temporalidades e espacialidades, outras formas de imersao na linguagem, com a apresentacao de possibilidades expressivas que instaurem "capacidades de sentir e falar, de pensar e agir, que nao pertence a nenhuma classe em particular, que pertence a qualquer um" (5) (p. 43).

A secao de Criacao acolhe certas vitalidades no processo de pesquisa academica ou em suas bordas, atualizando formas do cuidado em saude, inventando modos de ensinar e produzir pensamento e contato implicados na amplitude do ato de pesquisar. Operam-se, portanto, intensidades que fazem ver: forcas, trajetos, afetos, sensacoes, que transbordam, por aproximacoes ou por distanciamentos, do projeto cientifico dominante.

"Uma imagem, pois, deslocada das palavras, vozes, historias, lembrancas, espaco, que rompe 'a combinacao de palavras e o fluxo de vozes' e 'forca as palavras a tomarse imagem, movimento, cancao, poema'. Assim, a imagem nesfia esta linguagem que nos; aprisionae sufoca, linguagem repleta de calculos, lembrancas, historias, habitos. As palavras por si sz, dadas suas aderencias, xao coxseguem esse 'desligamento', a menos que jusiamente elas sejam empurradas e reviradas, mostrando seu fora." (6) (p. 41)

Questoes de linguagem, implicacoes politicas

Entre as diversas questoes que se colocam durante o trabalho desta editoria, cabe destacar uma, que diz respeito a linguagem, e uma segunda, cujas implicacoes sao politicas. Talvez ambas fiquem mais evidentes se convocarmos, com intuito de interlocucao, algumas ideias de Jacques Derrida, conforme aparecem no debate transcrito e publicado sob o titulo de Rastro e arquivo, imagem e arte. Dialogo (7). Assim, perguntamos: que forcas sao tensionadas nesse espaco, dito de "criacao", que propoe acolher outras formas de producao intelectual, as quais vem acompanhadas nao somente do desejo de se fazerem, mas, tambem, da potencia intrinseca ao resultado que vem a publico; desejo e potencia que se realizam, justamente, porque encontram, na criacao, tanto um gesto (ato criativo) quanto um espaco (de publicacao).

A questao de linguagem, mencionada acima, encontra-se num constante embate com a normatizacao academica, pois quer forcar os seus limites e experimentar formas diversas. Ela tambem traz conflitos em si mesma; e sao os conflitos, mais do que os apaziguamentos, que sugerem caminhos alternativos.

Derrida aborda o problema da relacao entre imagem e texto, que apresenta um paradoxo complexo, no sentido de que toda imagem convoca palavras e toda palavra e prenhe de imagens. O filosofo quer saber o que resta da imagem apos o escrito. Questao que, no caso das publicacoes cientificas, deveria ser fundamental; pois ha sempre a tendencia de que a palavra predomine--como formadora de discurso -, enquanto a imagem assume papel de ilustracao, com sua forca expressiva domesticada, posta a servico do texto.

Por que motivo e em que momento a academia rebaixou a linguagem visual--a qual, curiosamente, predomina no cotidiano contemporaneo? A comunicacao, no ambito ordinario, e cada vez mais iconica. Porem a producao intelectual, em geral, se faz apenas com palavras. Por mais instigante que seja a sua investigacao, os artigos cientificos convencionais abrem mao da potencia sensivel das demais linguagens, entre elas, a imagetica. Ha tambem varias outras. O que se perde nessa traducao da experiencia viva para as letras--e somente as letras? E uma pergunta que a Criacao tenta se fazer por outra via, que e a de ceder espaco a experimentos com linguagens variadas, como a fotografia, o video, o audio e, ate mesmo, o texto, quando este escapa da norma e se apresenta pelo vies poetico.

Derrida ainda deseja saber: se respondemos a um texto com palavras, podemos responder a um estimulo visual com outra coisa que nao uma imagem? Porque, de alguma maneira, transferir as demais linguagens ao registro verbal implica perverter o que e proprio delas. A questao cabe a toda forma de producao de conhecimento. Em nosso caso: por que traduzir para o texto as questoes que afetam nossas vivencias e pesquisas em comunicacao, saude e educacao? O que ganhamos e o que perdemos durante esse processo? Que tipo de conhecimento estamos privilegiando? Em outras palavras: por que nao produzir uma imagem, um filme, uma musica? Uma aula, um movimento, um toque? Por que nao responder a afetacao do pesquisador com uma forma sensivel?

A segunda questao, que citamos no inicio, diz respeito a um posicionamento politico; as escolhas e, tambem, as consequencias da publicacao.

Esse ato de criar e publicar os produtos da nossa pesquisa contem uma vontade de compartilhalos e, tambem, uma tentativa de impedir que se percam. Tal operacao e, segundo o filosofo, uma operacao de poder, com implicacoes evidentemente politicas, no sentido amplo do termo. Que sempre vem a tona durante as edicoes da revista. Primeiro, por parte dos proprios autores, que se propoem a localizar, classificar, hierarquizar a sua producao. Em segundo, por parte da equipe editorial, responsavel pelo delicado--e, ao mesmo tempo, violento--trabalho de deliberacao, ou seja, de escolher, avaliar e institucionalizar a producao do outro. Trabalho delicado porque requer lidar com a alteridade, a diversidade e a producao intelectual dos autores. Trabalho violento porque nao ha arquivamento sem selecao, e nao se pode guardar tudo, portanto arquivar e, tambem, um ato de destruicao. Como identificar limites, como operar com essa finitude? Se ha criterios precisos para avaliar artigos academicos convencionais (adequacao a forma, ineditismo, relevancia no campo, clareza etc.), como avaliar propostas que, justamente, desejam escapar a norma?

Esses embates ressurgem a cada edicao da revista. Se a rigidez normativa nao compete a selecao das propostas submetidas, ha, ainda, um rigor e uma etica que nos cabe pensar, inventar e operar. Alem de uma maneira de trabalhar que so pode ser gentil, tanto na recepcao das propostas, no dialogo com os autores e na publicacao. Gentileza que, se nao chega a ser um metodo, ao menos, e um principio a orientar a edicao e a reinvencao constante que o processo todo requer.

Editoracao: equipe e proposta em processo

A secao sempre foi desafiada pelas contribuicoes dos autores, fazendo com que o processo de criacao se tornasse inerente a propria secao.

A equipe instaurou uma rede de trabalho sensivel e afetivo, que potencializa experiencias singulares e coletivas, multiplas formas de expressao da vida e do pensamento reflexivo. Explorar o que instaura uma zona de comunidade a partir da confianca e da juncao de pequenos coletivos que vislumbrem tentativas de provocar estados de invencao e trabalhar as publicacoes para o projeto editorial final.

O pouso do olhar sobre a diferenca permeia o processo de reflexibilidade e responsabilidade; encontram-se, nos afetos, a alegria, a potencia e a complexidade, efeitos ressonantes para intensificar publicacoes num periodico cientifico interdisciplinar.

Festejar ...

"Celebram-se vinte anos da secao de Criacao da revista Interface. Secao de um periodico academico que celebra, ha vinte anos, a criacao, a invencao, a experimentacao, a liberdade formal, abrindo espaco para a publicacao de producoes que nao cabem nos moldes da comunicacao academica. Acho importante enfatizar que so pode ser esse o sentido de se chamar esta secao de Criacao: o de celebra-la! Jamais no sentido de que esta seria a secao em que estaria confinada a "criacao", que nao estaria presente nas demais secoes da revista. De modo algum! A expectativa e sempre de que toda producao cientifica que mereca ser publicada contenha uma boa dose de criacao nas mais diversas etapas de sua producao, da concepcao da pesquisa a exposicao dos resultados. Nesse sentido, a secao chamada Criacao nao reivindica ser o espaco da criacao na revista, mas o da sua celebracao.

E a criacao e festejada seguindo os padroes de toda festa: a busca de uma verdade fundada na beleza, na alegria e no desejo de estarmos juntos, que redesenha vozes, palavras, corpos e gestos, ao arranca-los de determinados esquemas formais, seja o das normas da vida cotidiana, seja o das regras do jogo cientifico. Rompem-se limites, invertem-se lugares e, como se festejassemos o divino, uma crianca e coroada a cada nova edicao para lembrar quem e que, de fato, reina nos territorios da ciencia e da razao, na medida em que eles continuam a ser territorios da vida.

Quando a presenca por vinte anos desse espaco numa revista academica e cuidadosamente revisitada e analisada, como foi feito no presente artigo, descobre-se a consistencia do conhecimento ai construido/compartilhado. Consistencia fundada na possibilidade de se "acolher certas vitalidades no processo de pesquisa" que nao encontram vias de expressao nos espacos extremamente regulados da producao e comunicacao de conhecimento academico; consistencia fundada na capacidade de se "acionar mudancas no pensamento e deslocamentos sensiveis" e, sobretudo, no forte desejo de se "provocar estados de invencao" Celebrar a criacao, festeja-la num espaco aberto a liberdade e as experimentacoes expressivas, e sempre um modo de emular a divindade, de manter vivo o apetite pela invencao, motor indispensavel da producao cientifica e filosofica, tanto quanto da arte. Por fim, cabe dizer que comemorar os vinte anos da secao de Criacao da revista Interface e, tambem, relembrar sua origem enquanto um gesto criativo no campo da editoria cientifica e o dever de homenagear alguem que teve uma grande importancia nesse gesto, a arte- educadora Maria Lucia Torrales Pereira, que abriu espaco para a criacao por onde passou na sua trajetoria profissional, da educacao infantil a Educacao Superior. E, do mesmo modo, homenagear e agradecer a todos que tem recriado a Criacao, a cada novo numero da revista, ao longo de todos esses anos, unico modo dessa rica experimentacao editorial 'perseverar na existencia'"...

Ricardo Rodrigues Teixeira

Para onde vai a forma quando a materia cede passagem

Palavras (nunca) finais

Belezas e precariedades estao presentes nos encontros e chamam a interferencia todos os participantes em horizontalidade. Aqui, a mutacao da sensibilidade faz com que se apreendam significados surpreendentes onde, normalmente, so se ve repeticao ou impossibilidade. Geram-se outros sentidos de vida que permitem ir ao cotidiano, viver as experiencias de maneiras diversificadas, tanto social quanto culturalmente, trabalhando para o desmanchamento de violencias cristalizadas, disseminadas e agudas. Na imanencia dos trabalhos, sempre singularizados, compartilham-se forca e alegria ao se encontrarem linguagens para reinventar a arte e a vida.

Para a celebracao dos vinte anos da secao de Criacao da revista Interface, revisitamos todos os trabalhos publicados, querendo estreitar o pensamento e o contato sensivel que permitiriam esta reflexao. Se e impossivel menciona-los um a um, deixamos o convite para o leitor acessa-los no site da revista e se contaminar com o que, pela resistencia sempre inventiva, ainda e possivel.

TOMAR A PALAVRA

Eu vivi isso mais a distancia ... Publiquei na Criacao numero 2, em fevereiro de 1998, a convite da Maria Lucia, que disponibilizou o espaco para um texto meu. Meus escritos nem sempre eram bem-vindos no programa de pos-graduacao que frequentava por "nao servirem para discussao". Hoje, vejo que era isso mesmo, nao me interessava o discutir, mas sim o tomar a palavra.

Acompanhei com muito entusiasmo a secao Criacao desde o seu inicio, por ser de uma revista cientifica academica e tambem por estar ligada a area da saude, de escolas medicas publicas e tradicionais. Admirei a ousadia, a abertura ao novo, a coragem dos editores e tambem a generosidade com outras formas de conhecimento, com o que poderia surgir desses dialogos / interlocucoes / interdisciplinaridades / intersecoes / intercessoes de linguagens.

Convidada a dar parecer sobre as propostas encaminhadas a Criacao, comecei a sugerir trabalhos e convidar pessoas a publicarem, pois sabia que estritamente na Criacao as suas producoes, com reflexoes sobre o campo da saude e da educacao, seriam partilhadas... Tomariam a palavra.

A secao de Criacao se constituiu no doar espaco ao que estaria destinado ao silenciamento ou a invisibilidade em outras revistas cientificas ... Ou nem chegaria a essas terras. ' Dar a palavra e dar a ver tem sido a potencia dessa secao. Um dispositivo, no sentido Foucaultiano : mais do que desvelar o poder, exerce-lo.

Um breve sobrevoo no site da Interface e a leitura da ultima publicacao na Criacao--"Dos estilhacos de uma pesquisa"--me trouxeram "O prazer do texto", como disse Barthes "Na mesticagem de conhecimentos e linguagens. 20 anos de Criacao valem muitas vidas!

Mariangela Quarentei

DOI: 10.1590/1807-57622017.0357

Submetido em 06/07/2017. Aprovado em 20/07/2017.

Colaboradores

Os autores participaram colaborativamente dos processos envolvidos na elaboracao deste material. Eliane Castro, Eduardo Almeida, Gisele Asanuma, Juliana Silva, Renata Buelau e Elizabeth Lima realizaram a pesquisa ativa nos numeros da Revista Interface, com levantamento de todos os artigos publicados na secao de Criacao e mapeamento de imagens, temas e palavras; e elaboraram o texto e as composicoes de imagens. Mariangela Quarentei e Ricardo Teixeira contribuiram com textos-depoimentos e participaram, juntamente com os outros autores, da revisao e finalizacao do material.

Referencias

[1.] Cyrino AP Lima EA, Garcia VL, Teixeira RR, Foresti MCPP Schraiber LB. Um espaco interdisciplinar de comunicacao cientifica na saude coletiva: a revista interface comunicacao, saude, educacao. Cienc Saude Colet. 2015; 20(7):2059-68.

[2.] Levy P As tecnologias da inteligencia: o futuro do pensamento na era da informatica. Sao Paulo: 34; 1993.

[3.] Carvalho EA. A declaracao de Veneza e o desafio transdisciplinar. Rev Margem Educ. 1992; 1(1): 91-103.

[4.] Dias RO. Imaginar. In: Fonseca TMG, Nascimento ML, Maraschin C, organizadores. Pesquisar na diferenca: um abecedario. Porto Alegre: Sulina; 2012. p. 127-30.

[5.] Ranciere J. O espectador emancipado. Sao Paulo: WMF Martins Fontes; 2012.

[6.] Pelbart PP O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento. Sao Paulo: N- 1 Edicoes; 2013.

[7.] Derrida J. Rastro e arquivo, imagem e arte. Dialogo. In: Derrida J. Pensar em nao ver: escritos sobre as artes do visivel (1979-2004). Florianopolis: UFSC; 2012. p. 91-144.

Creditos das imagens

As imagens e composicoes de imagens presentes neste artigo foram produzidas pela equipe da secao de Criacao, a partir de fotos, desenhos e outras producoes extraidas de artigos publicados nesta secao nos vinte anos da Revista Interface.

Imagem 1--Rede de palavras.

Imagem 2--Montagem de imagens de Elisandro Rodrigues, publicada no artigo "Dos estilhacos de uma pesquisa". Interface n.61.

Imagem 3--Composicao a partir de:

Montagem de imagens de Eliane Castro, Nara Isoda e Renan Duarte, publicada no artigo "Composicoes ... palavras ... imagens ... costuras...". Interface n. 46; Desenho de Andrea Zemp, publicado no artigo "Teremos um titulo?". Interface n. 35. Fotografia de Radilson Carlos Gomes, publicada no artigo "Uma desmontagem humanizada atraves de fotografias em Saude Coletiva". Interface n. 47.

Imagem 4--Composicao a partir de:

Montagem de imagens de Eliane Castro, Nara Isoda e Renan Duarte, publicada no artigo "Composicoes. palavras. imagens. costuras.". Interface n. 46. Fotografia de Isabela Valent, publicada no artigo "Sightseeing--paisagens arquivadas". Interface n. 44.

Colagem de Gisele Asanuma, publicada no artigo "Poetica do inacabado: postais cartograficos das expedicoes urbanas". Interface n. 34.

Desenho de Joao Monteiro, publicado no artigo "O Corpo e a Saude". Interface n.14. Registro de Performance de Andre Nunes, publicada no artigo "Pelos pelos fora da ordem". Interface n.19.

Fotografia de Jaqueline, publicada no artigo "Exposicao de fotografias: o hospital pelo olhar da crianca". Interface n. 21.

Fotografia de Mosaico coletivo de Claudia Pereira Martins Ribeiro e Maria Cecilia Martins Ribeiro Correa, publicada no artigo "Oficina Terapeutica de Mosaico de Papel: o lugar da materialidade no campo da Terapia Ocupacional". Interface n. 49. Fotografia de Arthur Amador, publicada no artigo "O Coletivo (com) Preguica: encontros, fluxos, pausas e artes". Interface n. 56.

Desenho de Andrea Zemp, publicado no artigo "Teremos um titulo?". Interface n. 35.

Imagem 5: Desenho de Guilherme Santos Torres, publicado no artigo "Dos estilhacos de uma pesquisa". Interface n. 61.

Imagem 6: Fotografia de Rodolfo Gomes do Nascimento e Ronald de Oliveira Cardoso, publicada no artigo "O modo de vida do idoso ribeirinho amazonico em imagens e linguajar cultural". Interface n. 55.

Imagem 7: Colagem com fotografia de Nice Goncalvez, publicada no artigo "Mulheres da Noro". Interface n. 60.

Imagem 8: Fotografia de Arthur Omar. Antropologia da Face Gloriosa. Sao Paulo: Cosac Naify, 1997. Imagem que integra o projeto grafico-textual da Interface, vol. 13, supl. 1, 2009.

Imagem 9: Fotografia de Nara Isoda, publicada no artigo "Processos de criacao e de escrita: a experiencia das Exposicoes IN PACTO". Interface n. 40.

Imagem 10: Triptico de fotos.

Fotografia de Juliana Araujo Silva, publicada no artigo "Habitando uma vitrine- membrana: entre dentro e fora". Interface n. 45.

Fotografia de Angela Alegria, publicada no artigo "Nenhuma ferida fala por si mesma. Sofrimento e estrategias de cura dos imigrantes por meio de praticas de ethnography-based art". Interface n. 58.

Fotografia de Helena Rios, publicada no artigo "Teremos um titulo?". Interface n. 35.

Eliane Dias de Castro (a) Eduardo Augusto Alves de Almeida (b) Gisele Dozono Asanuma (c) Juliana Araujo Silva (d) Renata Monteiro Buelau (e) Mariangela Scaglione Quarentei (f) Ricardo Rodrigues Teixeira (g) Elizabeth Maria Freire Araujo Lima (h)

(a) Programa de Pos-Graduacao Internunidades em Estetica e Historia da Arte, Universidade de Sao Paulo (USP), integrante da equipe de Criacao da Interface. Laboratorio de Estudos e Pesquisa Arte, Corpo e Terapia Ocupacional, USP. Rua Cipotanea, 51, Cidade Universitaria. Sao Paulo, SP Brasil. 05360-160. elidca@usp.br

(b,c) Doutorandos, Programa de Pos-Graduacao Internunidades em Estetica e Historia da Arte, USP integrante da equipe de Criacao da Interface. Sao Paulo, SP Brasil. eduardun@ hotmail.com; gisele.asanuma@ gmail.com

(d) Doutoranda, Programa de Pos-Graduacao em Psicologia, UNESP-Assis, integrante da equipe de Criacao da Interface. Sao Paulo, SP Brasil. juliana.arsi@gmail.com

(e) Curso de Terapia Ocupacional, USP integrante da equipe de Criacao da Interface. Sao Paulo, SP Brasil. renatabuelau@usp.br

(f) Terapeuta ocupacional e artista independente, foi editora de Criacao da Interface. Sao Paulo, SP Brasil. mariquarentei@gmail.com

(g) Faculdade de Medicina, USP foi editor de Criacao da Interface. Sao Paulo, SP Brasil. ricarte@usp.br

(h) Curso de Terapia Ocupacional, USP editora de Criacao da Interface. Sao Paulo, SP Brasil. beth.lima@usp.br

(i) Arte-educadora e pesquisadora interdisciplinar de artes, epistemologia e educacao, foi fundadora da Escola Creare e professora do Departamento de Educacao do Instituto de Biociencias, UNESP No numero 18, de 2005, da Revista Interface, a Secao de Criacao publicou, em sua homenagem, "Composicao Lucia", que pode ser acessada em: http://www. scielo.br/scielo.php? script=sci_arttext&pid = S1414-32832005 000300021&lng= en&nrm=iso

(j) Medico sanitarista, professor da Faculdade de Medicina da USP com estudos nas interfaces entre saude coletiva, comunicacao, filosofia, ciencias humanas e inteligencia coletiva.

(k) Terapeuta ocupacional e artista, pesquisadora dos atravessamentos entre processos de criacao e a producao de saude, trabalhou como Terapeuta Ocupacional da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista UNESP

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Caption: Imaginar entre pesquisar e aprender opera uma maquina de inventar. Rosimeri de Oliveira Dias, 2012, p.127
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Title Annotation:texto en portugues
Author:de Castro, Eliane Dias; de Almeida, Eduardo Augusto Alves; Asanuma, Gisele Dozono; Silva, Juliana Ar
Publication:Interface: Comunicacao Saude Educacao
Date:Oct 1, 2017
Words:4333
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