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Kyle McDonald: new artistic languages created from code and learning algorithms integrated into computational machines/Kyle McDonald: criacao de novas linguagens artisticas a partir do codigo e dos algoritmos de aprendizagem integrados em maquinas computacionais.

Introducao

Os projetos do artista e investigador norte americano Kyle McDonald sao desenvolvidos no espaco de interseccao entre a arte e as tecnologias mais recentes no ambito da ciencia da computacao. Para este facto contribui toda a experiencia e conhecimentos adquiridos por Kyle em areas da programacao computacional e da filosofia. O seu trabalho artistico emerge do potencial exploratorio que utiliza como metodo, ao qual junta praticas reflexivas acerca da comunicacao humana e da mediacao efetuada por maquinas capazes de interpretar codigos computacionais. Sao os algoritmos e a organizacao da informacao segundo redes neurais que tornam estes sistemas computacionais capazes de realizar aprendizagens e tomarem decisoes de forma autonoma. Na perspetiva deste artista as pesquisas realizadas no campo do 'machine learning' permitiram uma progressao ate um nivel em que se tornou possivel trabalhar com esses algoritmos no campo artistico, isto deve-se a evolucao no tratamento de dados digitais, a velocidade de processamento dessa informacao e aos novos instrumentos computacionais e seus dispositivos eletronicos perifericos (Cloudera Fast Forward Labs, 2016).

Kyle e um artista de referencia na comunidade OpenFrameworks, dedicada a projetos que envolvem o codigo como veiculo de producao artistica; e membro do Free Art and Technology (F.A.T.) Lab, organizacao dedicada a enriquecer o dominio publico atraves da pesquisa e desenvolvimento de tecnologias e media; e membro do Frank-Ratchye STUDIO for Creative Inquiry at Carnegie Mellon University, um laboratorio de pesquisa atipica, nas interseccoes das artes, ciencia, tecnologia e cultura; desenvolve projetos na Tish School for the arts da Universidade de Nova York, um centro de investigacao de artes performaticas e de media. Kyle apresenta regularmente os seus projetos em eventos artisticos e tecnologicos como o Ars Eletronica, Future Fest e o Ted Vancouver, bem como em festivais internacionais como o Sonar.

Adepto convicto do codigo aberto, disponibiliza os resultados das suas investigacoes em repositorios como o GitHub, de forma a conseguir colaboracoes com outros artistas. Neste artigo vamos abordar o seu desenvolvimento conceptual e tecnico com base em tres das suas instalacoes mais recentes.

1. A mediacao computacional e as relacoes humanas

No entendimento de Kyle McDonald, o corpo humano e um interface entre o eu, detentor do controlo da sua esfera pessoal privada, e a esfera social e publica, na qual o eu se procura inserir e as maquinas computacionais assumem um importante papel na mediacao da comunicacao (Cloudera Fast Forward Labs, 2016). As interacoes da comunicacao humana sao a base conceptual das suas obras, nas quais procura relacionar as percepcoes e emocoes geradas nas relacoes da fisicalidade e virtualidade do corpo humano. As interacoes humanas nos contextos atuais preconizam novas formas de estar, de atuar e de se relacionar com os outros individuos, promovendo tambem a descoberta da nossa individualidade em termos corporeos e psicologicos.

Os seus projetos artisticos, normalmente em formato de instalacoes interativas, sao sistemas hibridos, complexos e elaborados, em que a vertente computacional demonstra autonomia nas suas interferencias com o funcionamento da obra: Dados digitais alimentam um algoritmo generico que constroi a sua propria logica, com base na informacao recebida e nas matrizes de dados articuladas. Os algoritmos e a forma como sao concebidos provocam serendipidade, a obtencao de resultados inesperados que potencializam o dominio artistico. Ao provocar novas associacoes entre as entidades e agentes que participam no sistema computacional das suas instalacoes, Kyle revela novas perspetivas sobre a essencia da obra de arte nos seus processos de invencao e criacao de novas ideias e conceitos (Zylinska, 2012:173).

2. A operacionalidade dos codigos computacionais

Para uma compreensao mais precisa e especifica acerca do funcionamento dos sistemas que estao por tras das instalacoes de Kyle McDonald, iremos analisar tres das suas obras mais recentes. Em todas elas estao patentes solucoes tecnicas e esteticas relacionadas com a programacao de algoritmos e com a utilizacao de dispositivos perifericos que conferem caracteristicas humanas aos sistemas interativos que operam nas instalacoes.

2.1. 'Social Soul'--2014

Instalacao realizada em co-autoria com Lauren McCarthy, com o intuito de ser apresentada no Festival Ted Vancouver (Figura 1 e Figura 2). Nesta obra, os espectadores sao convidados a entrar num espaco repleto de ecras de plasma e espelhos que replicam a informacao audiovisual transmitida por esses dispositivos. Os utilizadores participam numa experiencia imersiva que simula o interior de um fluxo de informacao da rede social Twitter, compartilhando as mensagens veiculadas pelos ecras e espelhos deste ambiente interativo. O video de apresentacao da obra no Festival Ted Vancouver mostra uma instalacao multiusuario, que acolhe os utilizadores no seu seio, gerando a sua inclusao espaciotemporal, numa parafernalia de informacao visual e sonora apresentada pelos fluxos de informacao. As acoes dos utilizadores sao perscrutadas e analisadas de forma a poderem ser enviadas aos algoritmos do modelo operativo incorporado no sistema que no final da experiencia envia uma mensagem 'tweet' personalizada aos utilizadores da instalacao, no qual e efetuado um convite para este entrar em contacto com uma 'alma social irma' (MKG Agency, 2014).

2.2. 'Augmented Hands Series'--2014

Instalacao interativa premiada no Festival Ars Electronica 2015 (Figura 3 e Figura 4) e desenvolvida em co-autoria com Golan Levin e Chris Sugrue, os utilizadores sao convidados a inserir uma das suas maos numa caixa digitalizadora e passam a visualizar representacoes da sua mao adulterada em tempo real, num ecra de grandes dimensoes. Essas modificacoes da fisionomia da mao, sao desenvolvidas pelo sistema da instalacao de forma autonoma, em mais de vinte situacoes distintas. No video que apresenta a demonstracao da instalacao podemos visualizar distorcoes como um dedo polegar que aparece articulado no lado oposto da mao, dedos que surgem com dimensoes reduzidas ou em falta, distorcoes na dimensao, posicao e formatos dos dedos em situacoes fisionomicamente impossiveis. Os utilizadores sao livres de escolher qual das maos irao utilizar, um pequeno ecra tatil permite selecionar diferentes modificadores que atuam no sistema e os algoritmos calculam a distorcao ou colocacao de elementos associados a mao a partir de uma analise realizada em tempo real, produzindo um resultado visual imprevisivel.

A instalacao nao realiza uma mera distorcao da imagem captada, ela e sensivel as atuacoes realizadas pela mao do utilizador que vao alterar profundamente a estrutura morfologica desse orgao dos sentidos humano. O sistema integrado na obra faz uma analise da postura da mao e opera com base na informacao que e recuperada e utilizada no algoritmo operacional. As transformacoes fisionomicas percepcionadas sao uma exploracao do nosso corpo, da nossa identidade, levando a uma tomada de consciencia acerca das carateristicas fisicas que partilhamos enquanto humanos (Levin, 2014).

2.3. 'Sharing Faces'--2013

Kyle explora a utilizacao de imagens espelhadas dos utilizadores humanos que interagem com a instalacao em locais distintos do planeta (Figura 5 e Figura 6). Esta instalacao conectou por um periodo temporal superior a 8 meses um centro de exposicoes em Anyang, na Coreia do Sul, e uma Universidade de Yamaghuchi, no Japao. No ano 2015, voltou a conectar remotamente duas estacoes de metro Francesas, durante a sua apresentacao no Festival de Bouillants. Esta instalacao e uma obra de arte multilocal e em rede, a interacao dos utilizadores com a instalacao e efetuada em diferentes localizacoes geograficas. Esta obra transporta para a atualidade outras instalacoes que atuaram dessa forma no passado, como 'Send/Receive', concebida por Keith Sonnier, Willoughby Sharp e Liza Bear em Setembro de 1977, na qual tornaram possivel estabelecer uma ligacao bidirecional via satelite, durante dois dias, entre as cidades de Nova York e Sao Francisco.

Uma vez mais, Kyle McDonald procura o questionamento acerca das nossas relacoes humanas e tipos de comunicacao que usamos atualmente para partilhar informacao, nao apenas textos, sons e imagens, mas acima de tudo as nossas emocoes. Os utilizadores da instalacao nao ficam insensiveis ao carater mimetico presente nas imagens dos outros utilizadores, com os quais e confrontado. 'Sharing Faces' funciona a partir de finos ecras que simulam espelhos, colocando frente a frente os utilizadores que interagiram com a instalacao em locais remotos. Uma camera digital e o dispositivo que captura as imagens desses utilizadores e permite a intervencao do codigo para realizar um reconhecimento facial e comportamental. O funcionamento de um algoritmo opera a comparacao de imagens dos diferentes individuos, utilizando carateristicas como o posicionamento dos mesmos, a postura corporal e a expressao facial que apresentam em frente ao espelho. Como resposta, o sistema devolve a imagem de outro utilizador que mimetiza as suas caracteristicas fisionomicas, que nos leva a pensar na importancia da conexao entre diferentes individuos e o conhecimento acerca de outras culturas (McDonald, 2013).

3. O 'machine learning' presente na obra de arte

Nos tres casos anteriormente apresentados, solucoes tecnologicas inovadoras transformam-se em formas de criacao a partir da utilizacao do codigo e da componente computacional, usada como recurso para experimentacoes artisticas e nas quais o 'machine learning' se integra com cameras digitais, multiplos sensores, bases de dados relacionais e materiais eletronicos.

Com a introducao do 'machine learning' nao e necessario adicionar ou editar o codigo que foi desenvolvido para a instalacao, apenas enviamos um 'feed' de dados ao algoritmo de funcionamento e ele constroi a sua propria logica a partir desses mesmos dados e da sua aprendizagem com exemplos passados. Segundo Tom Mitchell um programa computacional aprende por experiencia 'E', em funcao de uma determinada tarefa 'T' e de uma mensurabilidade da performance 'P', se a sua performance em 'T' a partir da medida realizada em 'P' melhora com o aumento da experiencia 'E' (Mitchell, 1997:14).

Na perspetiva de Kyle, as pesquisas realizadas no campo do 'machine learning' permitiram uma progressao ate um nivel em que se tornou possivel trabalhar com esses algoritmos no campo da arte. Para tal facto aponta tambem a evolucao no tratamento de dados digitais, a velocidade de processamento dessa informacao e a evolucao dos novos instrumentos computacionais e seus dispositivos eletronicos perifericos (Cloudera Fast Forward Labs, 2016).

4. Conclusao

O trabalho artistico de Kyle McDonald releva o papel critico que os artistas assumem numa sociedade e numa cultura de base tecnologica, sendo um exemplo claro e concreto da importancia fundamental da experimentacao artistica e do envolvimento dos artistas com os meios computacionais e com as linguagens de programacao. Num mundo em que os individuos sao cada vez mais coisificados e convidados a agir como maquinas e as maquinas computacionais sao alimentadas por informacao digital selecionada e tratada de forma semantica, de modo a permitir uma antropomorfizacao das mesmas, geram-se alteracoes culturais que se repercutem na mudanca interior dos individuos e na sua forma de ver e pensar. Numa colaboracao processual entre maquina e homem, entre o codigo e pensamento, na relacao simbiotica entre arte e tecnologia, o artista produz novos campos de investigacao e potencializa-os pela sua capacidade de experimentar novos lugares no dominio da criacao artistica.

A hibridacao presente nas suas instalacoes advem da interligacao de diversos campos de conhecimento, permitindo a expansao desses campos a um novo territorio experimental, onde a eficiencia dos algoritmos determina o funcionamento das obras e uma condicao de autonomia das mesmas. A automatizacao dos agentes computacionais que integram o sistema de funcionamento das instalacoes coloca-nos perante um questionamento ao nivel das potencialidades do codigo e dos algoritmos, da sua intervencao no funcionamento da obra de arte e da mensagem que se produz com a colaboracao e intervencao desses agentes tecnologicos autonomos. O software torna-se algo mais do que uma tecnologia meramente funcional e passa a adquirir qualidades expressivas e uma semantica propria, dando lugar a novos processos de funcionamento dominado pela intervencao dos algoritmos.

Prevendo o que sera um dos caminhos possiveis da arte computacional no futuro, podemos afirmar que o dominio artistico tera que racionalizar as alteracoes e constantes progressoes do dominio tecnologico, que tornam o artista consciente das capacidades esteticas e possibilidades plasticas que advem desse processo, uma vez que essa evolucao desses conhecimentos provoca um aumento de possibilidades de criacao e producao artistica baseada em maquinas computacionais.

Referencias

Cloudera Fast Forward Labs (2016). NeuralTalk with Kyle McDonald. [Consult. 2018-1117]. URL: https://blog.fastforwardlabs. com/2016/02/18/neuraltalk-with-kylemcdonald.html

Digital Arti (2015). Kyle McDonald, adding a digital art dimension to human relationships. [Consult. 2018-11-17] URL: https://media.digitalarti.com/blog/digitalarti_mag/kyle_mcdonald_adding_a_digital_art_dimension_to_human_relationships

Levin, Golan (2014). Augmented Hand Series (Demonstration, 2014). URL: https:// vimeo.com/111951283

Levin, Golan (2015). Kyle McDonald discussing the Augmented Hand Series. URL: https://vimeo.com/114850286

Mcdonald, Kyle (2013). Sharing Faces. URL: https://vimeo.com/96549043

MKG AGENCY (2014). Delta Social Soul. TED 2014. URL: https://vimeo.com/90547410

Mitchel, Tom (1997). Machine Learning. New York: McGraw-Hill

Zylinska, Joanna (2012). Life after New Media, mediation as a vital process. London: MIT Press

NUNO MIGUEL GONCALVES PINTO FERREIRA *

Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

* Portugal, professor, artista, investigador.

AFILIACAO: Escola Artistica Soares dos Reis. Rua Major David Magno 139, 4000-191 Porto, Portugal. E-mail: nunoferreira@essr.net

Caption: Figura 1 * Kyle McDonald com Lauren McCarthy. Delta Social Soul--TED 2014.

Caption: Figura 2 * Kyle McDonald com Lauren McCarthy. Delta Social Soul--TED 2014.

Caption: Figura 3 * Kyle McDonald com Golan Levin e Chris Sugrue. Augmented Hand Series (Demonstration, 2014).

Caption: Figura 4 * Kyle McDonald com Golan Levin e Chris Sugrue. Augmented Hand Series (Demonstration, 2014).

Caption: Figura 5 * Kyle McDonald. Sharing Faces.

Caption: Figura 6 * Kyle McDonald. Sharing Faces.
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Title Annotation:2. Original articles/Artigos originais
Author:Ferreira, Nuno Miguel Goncalves Pinto
Publication:CROMA
Date:Jan 1, 2019
Words:2212
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