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Jorge Pinheiro (papeis das aulas): O Patio da Cobranca das Rendas.

Jorge Pinheiro (classes papers): The Rent Collection Courtyard

Introducao

No percurso e obra do artista portugues Jorge Pinheiro (1931-) identifica-se um paradoxo entre a abstracao rigorosa e a figuracao narrativa de forte pendor classicista, a que nao e alheia a atencao ao seu tempo e a particular exigencia teorica, sendo determinante a experiencia docente e a dedicacao a preparacao de temas essenciais nas aulas e no seu pensamento. Ele mesmo afirma-se (entrevista em Jorge, Pinheiro & Reis, 2017:133) como um "mestre-escola", alguem cujo oficio, durante 40 anos, e ensinar, vivendo por vezes o trabalho artistico como um "artista de domingo".

Assim, o seu estudo visa mais o ensino do que a atividade como artista; por isso frequenta em 1979-80 a Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales de Paris como bolseiro. Pretende, diz naquela entrevista, "melhorar a qualidade das aulas", assistindo ao seminario de Hubert Damisch sobre semiotica. Leciona entao em Lisboa na ESBAL/FBAUL desde 1976, depois da ESBAP/ FBAUP portuense, onde entrara em 63. Apos Paris em 79, fica na escola lisboeta ate a aposentacao em 96, voltando ainda ao ensino entre 99 e 2001 na Universidade de Evora.

Em Lisboa, Pinheiro e docente na area transversal do 1 ano e, nos anos avancados, Pintura e Composicao. Leciona esta ultima durante 10 anos, marcando a memoria dos alunos pelo rigor em materias especificas do conhecimento classico de Composicao, a par da articulacao com principios de analise semiotica sob profusa exemplificacao e arguta contextualizacao estetica e ideologica.

Disciplina tradicional dos cursos de Artes Plasticas, Composicao e entao anual. Nos sumarios das aulas de 1986/87, ultimo ano em que Pinheiro ensina a cadeira perante estudantes que operam ja profissionalmente sob o espirito neoliberal dos anos 80, destaca-se o enfase, a partir de fevereiro, no "caminho para a instauracao de uma narrativa". Nessa altura, estao ja tratados os principios fundadores no que respeita a forma, proporcao, espaco, cor, etc., sendo tempo de passar a componentes menos materiais da obra. Nessa fase inclui "Maria Le o Jornal a Varanda", estudo elaborado depois dos seminarios de Paris (publicado em "Com ou Sem Tintas. Composicao, ainda?", Sabino, 2013).

E tambem desse tempo um outro conjunto de notas usadas para aulas que Jorge Pinheiro dedica aos processos narrativos visuais--papeis esses que, aqui, sao centrais.

Estes apontamentos tomam como caso de estudo um grupo escultorico da Revolucao Cultural Chinesa, obra divulgada em livro. Com escasso texto, sobretudo com fotografias a preto e branco, o livro sem autor identificado e versao portuguesa da publicacao que as Edicoes das Linguas Estrangeiras, de Pequim, difundem pelo mundo inteiro em varias linguas, em 1968 (nao por acaso o ano das insurreicoes estudantis e populares em Paris) e que surge em Portugal apos 1974.

No patio fechado, figuras que entram pela porta das traseiras

O livro incide sobre esculturas de 1965, realizadas em argila por 18 artistas da Academia de Belas Artes de Sichuan liderados por Ye Yushan, num conjunto instalado a 1 de outubro no patio do palacio do antigo senhor Liu Wen-Tsai, em Anjem, distrito de Tayi, Sichuan (ou Setchuam), Republica Popular da China.

O grupo escultorico, encenacao dramatica claramente narrativa, de um naturalismo com laivos expressionistas, tem 114 representacoes a escala natural de figuras humanas, animais e objetos. Representa a exploracao feudal dos camponeses por Liu (exemplo dos proprietarios e tiranos que o regime condena) e a sublevacao e libertacao do povo, com tipologias de pessoas pobres, homens e mulheres, velhos e criancas, doentes e combatentes pelo povo, sob figuracao verista de expressao emocional, teatralidade na instalacao e forte potencial de identificacao mimetica.

Em vez de tecnicas escultoricas nobres, opta-se por processos populares tradicionais para maior proximidade, formando-se as figuras sobre estruturas de madeira, em argila misturada com areia, ou argila, palha e algodao nas roupas, olhos de vidro. A producao barata e acessivel garante facil reproducao posterior. A execucao demora 4 meses e meio.

O desfile de acontecimentos inclui 6 partes: o transporte das rendas; o exame das rendas; a medida do grao; as contas; o pagamento forcado; a revolta.

Em linha com os objetivos de propaganda ideologica, o conjunto destinase nao apenas aquele local, que passa a ter funcao museologica ate hoje, mas tambem a ser reproduzido em copias para outros locais. As esculturas sao pois alvo de ajustamentos como a inclusao das figuras dos guardas vermelhos, cartazes, slogans politicos, o livro vermelho de Mao, para cumprirem cabalmente os objetivos pedagogicos centrados na luta de classes.

Em Pequim/Beijing aparece no Outono de 1966 nova versao alargada com 119 figuras, que enfatiza a ultima parte, a revolta. Segundo a pagina web Morning Sun sobre a Revolucao Cultural Chinesa (que inclui filme homonimo sob producao mista americana com apoios de Centros de Estudos Asiaticos, da BBC e do canal Arte), ha filas interminaveis de visitantes de longe, testemunhos de intensa comocao perante o visionamento das instalacao, verdadeira arte.

Para alem disso, tudo parece encenado para ser tambem fotografado e, nesse sentido, o livro e um poderoso meio de divulgacao, com muitas fotos e textos curtos detalhados na caracterizacao da historia que interessa contar:
   As esculturas foram feitas nas traseiras do patio do solar de Liu
   Wen-Tsai. Antes da libertacao, esse patio estava especialmente
   consagrado por Liu Wen-Tsai a cobranca das rendas. (...) Naquela
   epoca, para pagar as rendas, os camponeses entravam no patio pela
   porta das traseiras. (S/A, 1968)


Os papeis da aula

Jorge Pinheiro aborda com este caso a narrativa visual para estudantes de escultura e pintura. Os seus apontamentos preparatorios constam de cerca de 11 paginas manuscritas, agrafadas, quase todas A4.

Por exemplo, no esquico seguinte descreve a sucessao de acontecimentos.

Aborda a estrategia de fusao do espaco real da loja com o espaco da historia para criar a empatia mimetica desejada em momentos sequenciais que sugerem um espaco real, uma prisao e um cenario para fases fundamentais da narrativa, cujos 6 momentos enuncia.

Identifica personagens e grupos, classifica a sua funcao como actantes e adjuvantes na acao e na estrutura semantica.

Discorre sobre o modo como, sob organizacao encenada como no teatro, e evitada a polissemia da leitura, ja que se pretende um sentido inequivoco, um texto "transparente".

Debruca-se sobre a problematica do espaco e analisa o modo como este funde a realidade historica do local, a dinamica arquitectonica e a inscricao das esculturas, agindo como metonimia e metafora. Detem-se depois sobre a problematica do tempo em relacao com a dinamica do espaco real, no aqui e agora criado na percepcao, no papel dos icones que pressupoem conhecimento previo da historia, na sucessao dada pela instalacao. Identifica topicos na problematica da narrativa, nomeadamente os personagens/actantes, a conotacao dos atributos, a transformacao (a acao).

Entretanto, esmiuca a analise dos conteudos nas figuras, objetos e expressao como assentes em estereotipos. E explica como o tema ou substancia da expressao (a libertacao, a nova realidade) e construido pelos personagens (Liu Wen-Tsai e os camponeses), pelo tempo (antes da libertacao) e pelo lugar (distrito de Tayi). Porque, dilucida, "a nivel semantico pretende-se dar a ver uma oposicao do tipo dominador vs dominado", todos os detalhes (signos, atributos) sao exatos para comunicar estatutos sociais, atitudes, emocoes.

Referindo J. Greimas como um dos fundamentos (na "Semantique Structurale"), Pinheiro diz que "uma accao e uma transformacao de um actante vs outro actante--se concebermos uma narrativa como qualquer coisa que acontece". Mais adiante, J. Courtes na sua "Introducao a semiotica narrativa e discursiva" serve para desmontar tipos de confrontacao e discernir duas classes de narrativa--"circulacao de objectos e comunicacao entre sujeitos".

Finalmente, recorre a leitura sobre o realismo socialista de Giulio Carlo Argan em "L'Arte Moderna 1770-1970", mencionando o seu comentario aos falhancos "da Bauhaus em articular a arte e o industrialismo burgues" e "do realismo socialista para se referir ao impasse que faz nascer o informalismo", cuja consequencia e a enfase "numa intencionalidade meramente operativa, prevalecendo sobre a teoria" (notas de Pinheiro) concluindo:

Para la da linguagem quepressupoe uma ideia de relacao, resta apenas a singularidade, a irrelatividade, a inexplicabilidade na tambem incontestavel realidade da existencia. O artista existe porque faz. (Pinheiro, apontamentos da aula)

E, ainda a partir da sua leitura de Argan (que se refere aos artistas do informalismo americano), Jorge Pinheiro destaca excertos do historiador tendo tambem em vista a geracao de alunos presentes--"O informal nao e uma corrente, ainda menos uma moda; e uma situacao de crise e precisamente da crise da arte como ciencia europeia, momento da mais vasta crise das ciencias europeias." (Argan, 1970:634). Prossegue a citacao explicando que Husserl refere tal crise com resultado da queda de uma civilizacao fundada na filosofia grega sustentada pela razao filosofica. Contudo, tenha-se presente: se renuncia a linguagem para reduzir-se ao puro acto a arte europeia renuncia a funcao que tinha tido numa civilizacao do conhecimento, que do conhecer fazia depender o agir, o ato artistico dos americanos sua vez insere-se, com uma intensa forca de contestacao, numa civilizacao pragmatica, da accao. (Argan, 1970:635).

No regresso ao patio

A elaboracao das esculturas e a sua instalacao no patio de Sichuan decorre num contexto pragmatico de acao ideologica que coreografa a mise en scene da libertacao do povo chines, num esplendor "realista" sabiamente iluminado.

Sob a atencao de Jiang Qing, esposa de Mao Tse Tung e antiga atriz, a opera e um espetaculo adequado aos conteudos revolucionarios, bem como o cinema. Alias, o musical "The East is red", de 1964, producao do inicio da Revolucao Cultural, exemplifica o caracter operatico do populismo mediatico praticado. No livro "The Winking Owl" (estudo sobre arte chinesa de 1949 a 1976 sob perspectiva de assinalavel equilibrio e cuidado ideologico nos aspetos criticos sobre a Revolucao Cultural, de tal modo que e considerado aceitavel na pagina web do PC chines), Elle Johnston Laing considera que "os conceitos modernos burgueses de museus interativos sao risiveis comparados com a avancada aplicacao da ideologia de massas durante a GRCP nas artes." (Laing, 1988:62). E evoca arte anterior que marca a producao artistica da epoca e o proprio caso das esculturas do patio--litografias de 1910 ou de 1935, em que o tema da miseria dos camponeses e expressivo ou representando revoltas populares, que associa a leitura de obras de Kathe Kollwitz e artistas russos.

Por essa altura sao tambem comuns, na China, pequenas esculturas ceramicas representando figuras ou grupos--como as policromadas ou brancas vistas em 2014 numa galeria lisboeta--que remetem para identica licao popular sobre comportamentos e acoes: a alegria no trabalho, a decidida revolta do povo, a exposicao e expiacao publica de traidores a ideologia revolucionaria (frequentemente intelectuais), a arrojada entrada da China na corrida espacial. Sob ideario proximo, sao expostas em Pequim em 1973 pinturas feitas por camponeses de Huhsien (provincia de Shensi), que mostram imagens do trabalho e circulam em extensa propaganda alem fronteiras por Paris, Londres, Estocolmo, Toronto, em Nova Iorque em 1978 e varias cidades americanas apos a morte de Mao em 76.

Entre 1974 e 1978, com a designacao Colectivo do Patio da Cobranca das Rendas assumida pelos artistas de Sichuan (em que agora se distinguem Zhao Shutong e Wang Guanyi), surgem em digressao pela China novas copias das esculturas em fibra de vidro com patine acobreada.

Em inicios dos anos 80 (ou talvez antes), a aula de Jorge Pinheiro inscreve uma reflexao sobre o desmaio critico da Revolucao Cultural Chinesa que, depois, se torna mais complexo com a evolucao do regime chines e da economia de mercado. Mas a sua questao central, na altura, e exercitar uma conversao do modelo semiotico de desmontagem do processo narrativo adaptado a um caso de comunicacao nao so visual como presencial, com as esculturas do patio. De facto, usa um sistema misto de decomposicao que associa a semiotica a iconografia e a compreensao dos meios formais e expressivos.

Jorge Pinheiro afirma em aulas que quem compoe visualmente imagens ou objetos pensa, de certo modo, como na escrita. A diferenca principal e que na escrita ha verbos, sendo estes o meio para transmitir a acao. O caso de "Maria Le um Jornal a Varanda" exemplifica que a cada sintagma corresponde um icone mas, nao havendo imagens que possam visualizar o verbo, o esforco na composicao vai para resolver o problema que e dar a ver a acao. No patio das esculturas sao determinantes a disposicao no espaco, o movimento de entrada e passagem, a sequencia expressiva de gestos, os ritmos e quebras da percepcao, as opcoes da figuracao de qualidade duvidosa. E as dificuldades de aplicacao de um modelo semiotico estrito acabam por ser desmotivadoras.

Conclusao

Quanto ao grupo de esculturas do Patio da Cobranca das Rendas, em 1999 regressa aos holofotes na Bienal de Veneza, em copias elaboradas por artesaos sob direcao do artista proscrito Cai Guo-Qiang. E em 2010, na Bienal de Gwangju, Coreia do Sul, aparecem as versoes acobreadas feitas pelo colectivo de Sichuan nos anos 70, agora com 101 figuras, sem as que se referem a revolta.

Abafada ou incitada por meios claros ou camuflados como conveniente, a revolta parece latente na ideia de cobranca de rendas. No caso do patio, o uso da palavra "rendas" remete para uma relacao feudal em que alguem cultiva a terra de um proprietario, tendo que lhe pagar com a producao--e o maoismo defende que nao ha exploracao a partir da "libertacao", quando a terra passa a pertencer ao estado, logo, a todos. As rendas nao deixam de ser colectadas certamente, mas o contexto da colecta muda sob as possiveis vantagens do estado mais ou menos social, restando discernir sobre o facto fundamental do equilibrio do destino dos dinheiros publicos.

Hoje, o termo mais comum na questao, a palavra "imposto", deriva de impositu, do verbo latino imponere, ou seja, "impor", obrigacao que subentende uma relacao de poder sujeita a um eventual uso de penas ou forca. Ora, embora a historia dos impostos seja longa (desde o Antigo Egito e a Mesopotamia, na India desde o seculo XI, no Islao ou na Biblia em datas incertas, ou na Europa deste o seculo XVII pelo menos e ja numa formulacao moderna), como topico da realidade tem sido lateral a Historia de Arte.

Embora tema ainda pouco frequente, talvez venha a proliferar em breve, com ou sem o amarelo dos coletes no mundo em cujos patios, esperemos, os muros nao petrifiquem e o pragmatismo nao se confunda demais no populismo embrutecido.

Referencias

Argan, Giulio Carlo (1970) L'Arte Moderna 1770-1970. Firenze: Sansoni.

Jorge, Joao Miguel Fernandes; Pinheiro, Jorge & Reis, Pedro Cabrita (2017) Jorge Pinheiro. D'apres Fibonacci e as coisas la fora. D'apres Fibonacci and the World Out There. Porto e Lisboa: Fundacao de Serralves, Fundacao Carmona e Costa, Documenta | Sistema Solar.

Liang, Ellen Johnston (1988) The Winking Owl: Art in the People's Republic of China. Berkeley: University of California Press.

O patio da cobranca das rendas: Esculturas de barro. (1968) Pequim: Edicoes em Linguas Estrangeiras.

Sabino, Isabel (Org.) (2013) Com ou Sem Tintas. Composicao, ainda? Faculdade de Belas-Artes, Universidade de Lisboa. ISBN: 978-989-8300-54-6

Sabino, Isabel (2014) Sobre fundo vermelho. a proposito de esculturas ceramicas da Revolucao Cultural Chinesa e fotografias de Roberto Santandreu. Lisboa: Galeria Arte Periferica.

ISABEL SABINO, Portugal, artista visual.

Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 de janeiro de 2019

AFILIACAO: Universidade de Lisboa; Faculdade de Belas-Artes (FBAUL); Centro de Investigacao e Estudos em Belas Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas Artes 14, 1249-058, Lisboa, Portugal. E-mail: i.sabino@belasartes.ulisboa.pt*

Leyenda: Figura 1 * Colectivo de artistas chineses de Sichuan. O Patio da Cobranca das Rendas (aspeto parcial). Fonte: Livro com o mesmo nome.

Leyenda: Figura 2 * Jorge Pinheiro. Papeis das aulas. Fragmento de paginc dos apontamentos da aula que intitula "O Pateo da Cobranca das Rendas" (aspeto parcial). Fonte: propria.

Leyenda: Figura 3 * Jorge Pinheiro. Papeis das aulas. Fragmento de pagina dos apontamentos da aula que intitula "O Pateo da Cobranca das Rendas" (aspeto parcial). Fonte: propria.

Leyenda: Figura 4 * Jorge Pinheiro. Papeis das aulas. Fragmento de pagina dos apontamentos da aula que intitula "O Pateo da Cobranca das Rendas" (aspeto parcial). Fonte: propria.
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Title Annotation:Artigos originais
Author:Sabino, Isabel
Publication:GAMA
Date:Jan 1, 2019
Words:3012
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