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Joao Goulart: from oblivion to making history/Joao Goulart: do limbo a escrita da historia/Joao Goulart: del olvido a las paginas de la Historia/Joao Goulart: de l'oubli a ecriture de l'histoire.

FERREIRA, Jorge. Joao Goulart: uma biografia. Rio de Janeiro: Civilizacao Brasileira, 2011. 714 p.

A historia e a memoria, embora diferentes em suas formas de registro e manifestacao, sao ferteis interlocutoras. Ambas, como bem acentua Jacques Le Goff, sao dotadas de expressivos poderes, entre eles destacam-se, por exemplo, os de construcao do esquecimento, da desqualificacao e da interdicao de registros. Por outro lado, a memoria e a historia tambem ganham poderosa expressao ao construirem versoes positivas e elogiosas de eventos e pessoas. Quando assim acontece, essas caracteristicas muitas vezes contribuem para alicercar dinamicas de mitificacao de pessoas e processos sociais. As duas situacoes, desqualificacao e mitificacao, distorcem a realidade. Ao conhecimento historico analitico e bem fundamentado, cabe romper com a cadeia nebulosa construida por essas estrategias referentes ao vivido e ao acontecido.

O livro Joao Goulart: uma biografia, do historiador Jorge Ferreira, alcanca com esmero o objetivo de construir um conhecimento historico solido, posto que e interpretativo e bem fundamentado. Trata-se de um texto que inclui inumeras contribuicoes para um melhor entendimento da historia do Brasil no pos-1945. O mesmo teve como merito especial romper com pressupostos e chavoes que ilharam o ex-presidente Goulart, no ambito de uma memoria de esquecimento, de desqualificacao ou de interdicao, e traze-lo para o campo da historia do conhecimento.

Desde a tomada do poder pelos generais presidentes em 1964, a memoria do presidente Joao Goulart tem frequentado a zona eterea e nebulosa do limbo. Uma patina de esquecimento ha muitos anos encobre sua trajetoria, que, ao contrario do que esta consolidado no senso comum, apesar de permeada por crises, foi rica e marcada por expressiva e destacada participacao em cargos publicos.

Tal estrategia da construcao de uma memoria de esquecimento sobre o ex-presidente consolidou-se gracas ao forte empenho dos adversarios politicos que o depuseram. A mesma teve dois objetivos: justificar o proprio golpe de estado e construir uma possivel legitimidade para o regime autoritario. Porem outros fatores tambem integram o caleidoscopio que a explica e a reproduz. Entre os mesmos, destaca-se a construcao interpretativa produzida em especial nas decadas de 1970 e 1980 por intelectuais de renome, como Florestan Fernandes, os quais identificam em Jango uma forte fragilidade politica e uma ambiguidade escorregadia quanto a sua opcao ideologica a esquerda. Ainda, o silencio recorrente de jornais e revistas, de expressiva circulacao, adensou o caldo da desqualificacao e do esquecimento sobre Goulart.

A biografia de Jango, escrita por de Jorge Ferreira, e baseada em solida pesquisa documental e bibliografica. Sao informacoes retiradas de livros, cronicas, documentos oficiais, artigos de revistas e jornais, manifestos, discursos, fotos, livros de memoria, e articuladas em um texto que tem o merito de ser denso, mas fluente. O autor ainda recorreu a realizacao de entrevistas que trouxeram grande contribuicao e um toque de emocao a sua escrita. Por essas qualidades, o livro, redigido com clareza e cuidado estetico, contribui de forma efetiva para a desconstrucao da injustica referente aos eventos que levaram a desqualificacao do presidente Jango como um homem publico. Desqualificacao elaborada com esmero estrategico que nao poupa o uso frequente de adjetivos negativos para identificar o ex-presidente, en tre eles destacam-se expressoes como demagogo, incompetente, irresponsavel, boemio e populista.

A combinacao das estrategias de construcao e reproducao do esquecimento e da difusao de criticas generalizadas sobre Joao Goulart teve como desdobramento um grande silencio sobre sua trajetoria politica. Tal fato fica mais evidente quando compara-se o numero de livros e artigos publicados sobre o lider com a profusao de publicacoes sobre Getulio Vargas e Juscelino Kubitschek, que atuaram na mesma fase historica em que Jango alcancou projecao nacional. Cabe lembrar que Goulart foi ministro do trabalho durante o Governo Vargas (quando ganhou projecao nacional), deputado federal pelo Rio Grande do Sul, vice-presidente de Juscelino Kubitschek e de Janio Quadros e, por fim, presidente da Republica.

Jorge Ferreira, embora atento as ambiguidades que marcaram a trajetoria de Jango, esta na contramao da solidificada imagem negativa do ex-presidente. Sem cair na tentacao de se apresentar como redentor da memoria do presidente deposto em 1964, o autor escreveu um texto ponderado, serio e marcado por qualidades inerentes a construcao do conhecimento historico: pesquisa, registro dos fatos e interpretacao do processo. Foram dez anos dedicados a investigacao e redacao de uma longa e agradavel biografia. Dez anos de persistencia e dedicacao meticulosa a um objetivo que teve um resultado impressionante, combinando registro biografico e historia.

O livro percorre a trajetoria de vida de Joao Goulart desde sua infancia ate sua morte, no exilio em 1976. Buscou, nas entranhas do Rio Grande do Sul e nas caracteristicas familiares de Jango, elementos de formacao da personalidade de um politico, que, apesar de ter herdado solida fortuna e de te-la multiplicado com efetiva competencia, sempre possuiu uma afinidade eletiva com os segmentos mais empobrecidos da populacao brasileira. Essa opcao preferencial do ex-presidente--trabalhadores urbanos e rurais--jamais foi compreendida e aceita pelos setores mais conservadores da sociedade brasileira, que se articularam na alianca politico-social atuante na deposicao do ex-presidente. Esta alianca era formada pelos seguintes protagonistas: expressivos segmentos das forcas armadas, partidos como a Uniao Democratica Nacional, grandes proprietarios de terra--que o viam como traidor, membros da igreja catolica conservadora, governadores de estado--como Minas Gerais, Guanabara e Sao Paulo, empresas de capital externo que investiam no Brasil e organizacoes internacionais que se tornaram guardias do sistema capitalista no tempo da Guerra Fria.

Ferreira demonstrou que, desde jovem, Jango, como era conhecido em Sao Borja, sua cidade natal, tinha algumas qualidades merecedoras de importancia e que foram melhor elaboradas ao longo de sua vida de homem publico. Era paciente e eximio negociador, como demonstrou durante seu mandato de vice-presidente a epoca do governo de Kubitschek. Sobretudo, tinha vocacao para a arte da politica e, em especial, a formacao de consensos. A essas virtudes, contudo, somaram-se defeitos, como os de muitas vezes buscar a construcao da conciliacao com adversarios e frageis apoiadores. Esses ultimos nao hesitaram em chamusca-lo com o que atualmente e denominado de 'fogo amigo. Essa orientacao do presidente, ou seja, buscar a conciliacao mesmo quando os sinais indicavam sua inviabilidade, poderia ser um estilo e uma estrategia, mas acabou sendo identificada como vacilacao, incapacidade decisoria e demagogia populista.

O escritor tambem argumenta, de forma correta e bem fundamentada, que, diferentemente do que e disseminado, nao se pode definir Jango como um populista sem meritos e sem tradicao historica. Ao contrario, identifica-o como o principal herdeiro de Vargas--embora dele se diferenciasse --e um dos maiores lideres nao do populismo, mas do trabalhismo brasileiro. Para ele, a principal opcao politica de Goulart era o trabalhismo, desdobrado em nacionalismo, desenvolvimentismo, distributivismo social e intervencionismo estatal. Certamente, Jango estava sintonizado com expressivos politicos e intelectuais da sua epoca, os quais consideravam ser de responsabilidade do Estado a adocao e a administracao de politicas publicas sociais e economicas.

A biografia de Goulart coroa renovadora contribuicao historiografica de Ferreira a respeito do periodo entre 1945 a 1964. Seu principal investimento no que se refere a politica desses anos situa-se no esforco para desconstruir a teoria do populismo. Discorda da conceituacao dela decorrente, que identifica populismo como manipulacao e demagogia. Portanto, diverge veementemente da utilizacao desse conceito como explicativo daquele periodo, pois entende que trabalhismo e nacional desenvolvimentismo sao ideias mais consistentes e melhor explicativas de uma opcao politica, hegemonica a epoca e orientada por um projeto nacional caracterizado por definicoes precisas e objetivos estabelecidos. Entre as metas destacavam-se valorizacao do trabalho, distributivismo social, planejamento estatal, valorizacao dos investidores nacionais, politica previdenciaria solida e reformismo social, com enfase para a reforma agraria.

Sem se descuidar dos aspectos privados da trajetoria do ex-presidente, que gostava dos prazeres da vida boemia e do cotidiano na area rural, Jorge Ferreira tambem registrou, em tres densos capitulos, a vida do lider no tempo do exilio. Foram anos de amargura, saudade e solidao. Nessa derradeira fase de sua vida, a Goulart so restou o prazer de cuidar de suas extensas criacoes de gado que, contudo, estavam, em grande parte, situadas na Argentina e no Uruguai e nao em sua patria.

Jango rumou para o exilio, pensando que o mesmo duraria pouco, tao logo os militares ascenderam ao poder em 1964. Seguiu acompanhado de sua mulher Maria Tereza e de seus filhos Joao Vicente e Denize. Sua opcao foi a de nao resistir ao golpe que o destituira. Para muitos de seus aliados seu grande erro foi exatamente o de nao ter reagido ao golpe. No entanto, Ferreira argumenta que o presidente preferiu o caminho do exilio, com toda sua imprevisibilidade, ao recurso da resistencia, que, com grande probabilidade, mergulharia o Brasil em uma guerra civil. Essa mesma orientacao o levou a concordar, embora contrariado, com a adocao do parlamentarismo, em 1961, quando da renuncia do presidente Janio Quadros.

A decisao de nao resistir ao Golpe de 1964 contrariou diferentes tendencias das esquerdas brasileiras, que ganhavam envergadura no efervescente pre-1964. Ansiosas para chegarem ao poder, as esquerdas jamais perdoaram a opcao de recuo de Joao Goulart quando as botas dos militares alcancaram o Palacio do Planalto, os marines americanos rondavam as costas brasileiras e o Congresso Nacional, apesar dos protestos de alguns deputados, declarou vaga a Presidencia da Republica, mesmo estando Goulart em territorio nacional. Esqueceram-se de que Jango jamais foi um homem de conflito. Ao contrario, sempre escolheu a via da conciliacao e da negociacao, entendida por ele como inerente a democracia.

O mesmo Joao Goulart, que sempre fora conciliador e trabalhista, abracou, com vigor, o radicalismo reformista no final do ano de 1963 e inicio de 1964. Apos inumeras tentativas, sem ressonancia, de negociacao com os setores mais conservadores da sociedade brasileira, recorreu ao apoio das esquerdas para sua sustentacao no poder. Tal estrategia orientou a regulamentacao da lei, que controlava a remessa de lucros por empresas de capital internacional instaladas no Brasil, e a adocao de medidas como a da reforma agraria, anunciada no comicio de 13 de marco de 1964.

Para Ferreira, a conspiracao conservadora a depo-lo ganhou forma e envergadura a partir desse contexto. Portanto, concluimos que nesse ponto o autor carregou um pouco na tinta, pois em 1954, quando da crise politica que levou ao suicidio de Getulio Vargas, os acontecimentos de 1964 ja haviam sido anunciados. As circunstancias adversas do governo Jango e o movimento das pecas no xadrez da historia somente definiram o tempo exato desse desfecho.

Finalmente, vale ressaltar que, nesta alentada biografia, Ferreira esclareceu seu entendimento sobre qual foi o papel, no contexto do imediato pre-golpe de 1964, das divergentes forcas politicas que atuavam naqueles anos. Considerou que a conjuntura foi marcada por marchas e contramarchas e por um forte radicalismo a direita e a esquerda. Esse processo radical dificultou uma avaliacao melhor acurada dos possiveis desdobramentos decorrentes da extrema polarizacao conjuntural. Nesse quadro de crescente intransigencia, tambem alimentada pelos acontecimentos da Guerra Fria, a vocacao negociadora de Goulart nao encontrou eco e nao teve forca persuasiva. A uma determinada altura dos acontecimentos, que define como o ano de 1963, nao foi mais possivel conter o avanco da oposicao ou neutralizar a forca da radicalizacao politica a esquerda que se movimentava sob forte influencia do brizolismo. Contudo, mesmo reafirmando a tese do crescente radicalismo, deixou registrado que os opositores do trabalhismo, do nacionalismo e do reformismo foram os protagonistas principais do golpe de 1964. Em outras palavras, os responsaveis pelo golpe situavam-se no campo da direita.

Uma biografia do porte e da qualidade de escrita do historiador Jorge Ferreira e leitura indispensavel para quem quer conhecer melhor o tempo polemico e efervescente do pre-1964 e seus terriveis desdobramentos, uma vez que o livro se estende ate a morte de Goulart, em 1976, quando o presidente ainda estava no exilio. Entre os meritos do autor, que sao muitos, destaca-se o da ousadia de se contrapor a historia hegemonica e a construcao do esquecimento coletivo sobre quem foi um protagonista vencido e nao vencedor. Mais do que isso, o historiador demonstrou que Jango foi um homem publico de grande envergadura, merecendo transitar, de forma definitiva, do limbo para as paginas da historia.

DOI: 10.5533/TEM-1980-542X-2013173414

Resenha recebida em 05 de outubro de 2012 e aprovada para publicacao em 22 de dezembro de 2012.

Lucilia de Almeida Neves Delgado [1]

[1] Historiadora; Professora do Curso de Pos-Graduacao em Historia da Universidade de Brasilia (UnB); Professora do Programa de Pos Graduacao em Direitos Humanos da UnB; Pesquisadora do Programa de Historia Oral da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); autora, entre outros, do livro: PTB: do Getulismo ao Reformisme (1945-1964). 2 ed, Sao Paulo, LTr, 2011. E-mail: lucilianeves@terra.com.br
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Author:Delgado, Lucilia de Almeida Neves
Publication:Tempo - Revista do Departamento de Historia da UFF
Article Type:Resena de libro
Date:Jan 1, 2013
Words:2099
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