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Jerome Fracastor, La Syphilis ou le mal francais. Syphilis siue morbus gallicus.

JEROME FRACASTOR, La Syphilis ou le mal francais. Syphilis siue morbus gallicus. Texte etabli, traduit, presente et annote sous la direction de Jacqueline Vons, avec la collaboration de Concetta Pennuto et Danielle Gourevitch et le concours du Dr. Jacques Chevalier. Paris, Les Belles Lettres, 2011. (Les Classiques de l'Humanisme). CIII + 168 pp. ISBN 978-2-251-34499-7

Integrando a coleccao "Les Classiques de l'Humanisme", as Belles Lettres acabam de editar, em texto e traducao, o celebre poema didactico de Jeronimo Fracastoro (1476-1553) cuja fama derivou nao apenas da sua indiscutivel qualidade literaria, mas igualmente do facto de a ele se ter ficado a dever a fixacao do nome duma doenca cujas designacoes, nomeadamente as de indole regional, eram constrangedoramente controversas.

No estudo introdutorio, Jacqueline Vons elucida o leitor sobre um conjunto de questoes pertinentes a uma boa leitura deste erudito poema, como a ja referida designacao da sifilis, a genese do poema, a sua modernidade, a fortuna do seu texto e as suas vicissitudes editoriais.

Como ja afirmamos, a celebridade deste poema prende-se com o facto de ter estado na base da designacao universal duma doenca epidemica que, tendo eclodido na Europa em finais do seculo XV, foi, durante um certo tempo, variamente designada. Dessas varias designacoes, a somar as que se baseavam nos sinais exteriores da doenca (mentulagra, pudendagra, inguinagra, morbus venereus, lues venerea) havia as de cariz regional que funcionavam como pedras de arremesso. Assim, os Napolitanos, associando o surto da doenca a presenca na sua cidade das tropas francesas de Carlos VIII que haviam invadido a Italia em 1494, designavam-na de "mal frances" (morbus gallicus); os Franceses, por sua vez, de "mal napolitano". E isto nao sucedia apenas entre Franca e Italia. Pela Europa inteira, onde a doenca alastrara, emergiram atitudes paralelas na designacao dada a doenca, envolvendo nacoes vizinhas, como foi tambem o caso da Polonia e da Alemanha.

Foi num momento de otium, em pleno campo, fugindo a um surto de peste, que Fracastoro, medico e humanista natural de Verona, compos este poema, pretendendo por em verso a sua experiencia de medico. Completado no primeiro decenio do seculo XVI, o texto manuscrito viria a ser interceptado na ocasiao em que o seu autor o enviara a um humanista seu amigo, Andrea Navagero, reproduzido em cerca de meia centena de exemplares e posto a circular. Este facto levou o autor a iniciar uma segunda versao do poema, estruturado em dois livros, que submeteu a apreciacao de Pietro Bembo. O futuro cardeal teceu elogios a obra, a par com algumas sugestoes de correccao. Contra o parecer de Bembo, Fracastoro acabaria por dividir o poema em tres livros.

Jacqueline Vons classifica-nos Syphilis como um poema dos tempos modernos, com um significado especial que lhe advem da materia tratada. O seu assunto nao e um heroi, mas uma peste terrivel, cuja propagacao alarmou um continente inteiro. Trata-se dum poema hibrido, em que as componentes epica e didactica coexistem, numa preponderancia que vai alternando. O tom e dado logo na propositio do livro I, onde se associa, no v. 10, o epico "canere" a expressao "quaerere causas", de indole didactica. Na propositio do livro II, e a forma verbal "docebo" (v. 4) a sinalizar a preponderancia da componente didactica ao longo de todo o livro. Por fim, o livro III, com a retoma inicial do verbo cano ("canenda est"--v. 5), anuncia o regresso em forca do tom epico. Este tom epico avulta sobretudo ao nivel estilistico, com realce para os epitetos de indole homerica. Mas nao so. No livro III, a figura de Cristovao Colombo ("magnanimus heros"--v. 104) vem descrita em termos que o assimilam, observa Jacqueline Vons (p. LXXIII), a Eneias, a quem foi prometido um novo imperio, e a Tifis, o piloto dos Argonautas.

Em termos de conteudo, Fracastoro contempla no livro I a indagacao das causas do morbus gallicus e nos livros II e III, os meios terapeuticos. Na indagacao das causas, o humanista de Verona nao se distancia verdadeiramente das etiologias naturais herdadas de Hipocrates e Lucrecio, a saber, o ar humido, a evaporacao dos mares e dos lagos, a emanacao de miasmas da terra, em suma, os habituais fenomenos de contagio, porventura descritos em termos novos, mas essencialmente subordinados a teoria do ar facilmente corrompido. Digno de registo sera o facto de Fracastoro desenvolver a sua explanacao duma forma que contorna a hipotese de transmissao de doenca pelas tropas de Carlos VIII. O mesmo se diga da ausencia no poema de qualquer explicacao por transmissao sexual.

Os livros II e III abordam os meios terapeuticos a adoptar para aliviar as dores, combater os germes de infeccao e evitar a sua propagacao, numa enumeracao de regras de higiene, de dietas, de remedios vegetais, animais e minerais entao em uso. De novo, Fracastoro pouco inova, divulgando uma materia medica essencialmente mediterranea ja conhecida desde Dioscorides e Plinio, o Antigo. Em contraste com o livro II, o livro III concentra-se num unico meio terapeutico, mas este oferecido pelo Novo Mundo (o "ignoto orbe"--v. 5), a saber, a arvore sagrada do "gaiac", de cuja madeira se extraia um medicamento bem menos toxico do que o muito usado mercurio. O elogio desta arvore deu pretexto a Fracastoro para um trabalho poetico notavel, em que poesia e historia dao as maos. Com notoria influencia das Decadas de orbe nouo de Pietro Martir d'Anghiera, ele narra a primeira viagem de Colombo, descreve a exuberancia da vegetacao, as cores dos passaros e, por fim, a arvore acima referida. As fabulas encaixadas nesta narracao conferem a este livro uma unidade especial, que podemos caracterizar como o lancamento duma ponte entre o Velho e o Novo Mundo. Uma dessas fabulas e a dos passaros de Apolo, trucidados selvaticamente pelos Europeus aquando do desembarque naquelas novas terras, o que, nas palavras dum desses passaros, motivou a colera do deus ofendido e o subsequente castigo dos forasteiros, atingidos com a epidemia que ja grassara na ilha. Outra fabula e a narrada pelo chefe dos indigenas, segundo as suas palavras um descendente dos Atlantes, o qual aponta a genese dessa doenca na atitude rebelde do pastor Syphilus, o primeiro a contrai-la, como castigo por ousar revoltar-se contra o sol que lhe secava as pastagens.

Acolhido nos meios literarios com grandes elogios (Escaligero classifica-o como "um poema divino" nos seus Poetices libri septem) Syphilis viria a entrar na literatura medica em 1539. O seu titulo torna-se progressivamente um nome comum, sinonimo de todas as outras designacoes da doenca, acabando por perder toda a ligacao com o poema de Fracastoro, o que tera acontecido em meados do seculo XVII. Foi objecto de varias traducoes, sobretudo em Franca, no seculo XVIII, por medicos seduzidos pelo caracter poetico da obra.

Em vida do autor, Syphilis conheceu quatro edicoes: a de Verona, em 1530; as de Roma e de Paris, em 1531 e a de Basileia, em 1536. Apos a morte de Fracastoro, o enorme sucesso do poema surge atestado por dezenas de edicoes. A presente edicao segue o texto de Roma, que foi acompanhado de perto pelo autor e que e o unico que apresenta uma lista de correccoes que foram tidas aqui em conta. Nao se notando regularidade nas outras edicoes no que respeita a aceitacao das variantes de uma ou outra edicao, os editores decidiram documentar aqui essa irregularidade, registando fielmente todas as diferencas notadas entre as quatro edicoes de base acima referidas.

Apos a seccao de notas a traducao, varios anexos fecham o presente volume, apoiando esta preciosa edicao bilingue de Syphilis, a saber: um glossario de termos nosologicos, bem pertinente num poema que, pela sua natureza, representa um compromisso entre a ciencia medica e a literatura (anexo I); as tres cartas de Pietro Bembo com apreciacoes ao poeta (anexo II); os comentarios de Escaligero sobre a qualidade literaria do poema (anexo III) e, por fim (anexo IV), uma noticia, da autoria de J. Chevalier, sobre um dos grandes nomes da sifilografia parisiense, Alfred Fournier (1832-1914).

Neste volume, que consideramos uma preciosa divulgacao dum poema tao caracteristico do espirito humanista, nao podemos deixar de observar uma notoria inexactidao, que em nada belisca o merito do trabalho aqui testemunhado, a saber, a atribuicao, na p. XXIV, da nacionalidade basca ao bem conhecido medico portugues Antonio Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783). Alem desta inexactidao, estranhamos tambem a ausencia de qualquer referencia, designadamente na extensa e bem organizada "Bibliographie" que fecha este volume, ao eminente medico holandes Hermannus Boerhaave (1668-1738), com quem, alias, Ribeiro Sanches trabalhou. Boerhaave ministrou um curso sobre esta doenca, de que resultou a publicacao em Veneza, no ano de 1765, do volume intitulado De lue aphrodisiaca.
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Author:Barbosa, Manuel Jose de Sousa
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2012
Words:1437
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