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JOEL THOMAS, Mythanalyse de la Rome Antique.

JOEL THOMAS, Mythanalyse de la Rome Antique. Pref. Paul Veyne, Paris, Les Belles Lettres, 2015. 282 pp. ISBN 978-2-251-38570-9

Herdeiro remoto da tradicao psico-analitica da mitologia em grande parte encetada por S. Freud, a qual, por sua vez, entronca no estruturalismo e no formalismo russo, J. Thomas retoma neste livro as linhas de estudo que tem seguido ao longo da sua carreira de investigador das culturas da Antiguidade Classica, afirmando continuidades nas perspectivas anteriormente assinaladas, mas nao deixando de proporcionar algumas renovacoes ao nivel das leituras propostas. Neste sentido, Thomas nao esquece a heranca que recebeu mais directamente de G. Durand, um dos grandes mitologos franceses do seculo passado que, apesar de nao consensual entre todos os que se tem dedicado ao estudo da mitologia classica, nao deixa de ser um nome de referencia relativamente a Escola que representa. Essa falta de consenso, alias salutar neste dominio das Ciencias Sociais, confunde-se no entanto com um determinado "desprezo cientifico", o qual e, de certo modo, denunciado por P. Veyne, o autor do prefacio, quando confessa "je ne suis pas sur d'en etre digne [i.e. de prefaciar o livro], car les structures de l'imaginaire, la mytho-analyse, etaient pour moi, avant lecture de ce livre, une terra incognita" (p. 12).

As perspectivas defendidas pelo A. assentam na ideia-base de que a mitoanalise e um metodo de analise cientifica dos mitos que permite evidenciar nao apenas o seu sentido psicologico (sobretudo no dominio da psicologia social), mas tambem sociologico. Isso e o mesmo que dizer que a mitoanalise alarga sociologicamente o campo individual da psicanalise, o que e passivel de ser feito porque os mitos podem ser analisados socio-historicamente, i.e., deuses e herois aparecem e desaparecem a um ritmo determinado pelas conjunturas e movimentos da Historia (pp. 18-19).

Partindo destas premissas, Thomas passa a analise das estruturas mitologicas da Roma Antiga, centrando-se na figura fundacional e estruturante de Eneias, a qual o A. aplica tres categorias arquetipicas, que considera essenciais para compreender a funcao do "mito de Eneias" no imaginario colectivo dos Romanos. Sao elas: o exilado, o guerreiro e o viandante (traducao que propomos para o passeur de J. Thomas). Na perspectiva do A., estes arquetipos podem ser aplicados a Eneias, mas nao sao exclusivos desse heroi--tambem por isso sao considerados arquetipos. Com efeito, outras figuras da cultura classica em geral, da romana em particular, ou ate mesmo situacoes podem inserir-se nas cate gorias de: "exilio" (e. g. Ovidio, personalidades historicas e nao mitico-literarias, o que acaba por reforcar a ideia de que aquelas categorias do imaginario tem uma correspondencia social efectiva e que tambem por isso, e sobretudo por isso, funcionam com eficacia nas estruturas do imaginario; note-se a associacao que o A. faz entre o exilio e o acto de fundar); "guerreiro" (saliente-se o papel da guerra na Historia de Roma, com reflexos significativos na sua producao literaria, de que a Eneida devera ser o caso mais evidente); e "viandante" (na qual se podem inserir figuras como Mercurio, Apoio, Venus, Hercules, Orfeu, Jano e a Sibila, mas tambem outros elementos de significado especial no imaginario mitico-religioso dos Romanos, como os animais--passaros, golfinhos, a porca, a serpente). Em sintese, esta e a boa maneira estruturalista uma solucao de "arrumacao" de varios elementos tidos como significantes no imaginario colectivo, a partir da qual se pretende dar um significado cultural.

Cabe-nos entao perguntar que lugar tem as lendas historicas nesta conceptualizacao? Sabemos que os Romanos foram bem mais vocacionados para a lenda de cariz historico do que propriamente para o mito, um campo essencialmente helenico. Seria por isso bem interessante encontrar nesta formulacao alternativas ou propostas para o dominio da lenda em que imperam figuras como Tarpeia, Mucio Cevola, Horacio Cocles, Clelia ou Lucrecia, por exemplo, visto que tem um simbolismo marcante e fortissimo na formulacao da consciencia e da identidade do homem romano.

Nesta parte, ha ainda espaco para uma pertinente reflexao sobre a categoria do puer aeternus, que, como sabemos, tem uma importancia suplementar no contexto da cultura romana, pelas implicacoes que tera depois na afirmacao do cristianismo.

Os aspectos referidos sao os que dao corpo a I parte deste livro, cujos subcapitulos, porem, J. Thomas retoma de artigos previamente publicados. A novidade deste livro esta por isso na visao de conjunto possibilitada pelo rearranjo dos textos ja antes dados a estampa. A parte II entra pelos caminhos do comparatismo, recuperando outros trabalhos autonomos, tambem estes escritos e publicados anteriormente por J. Thomas. Assim, podemos 1er aqui textos que abordam perspectivas comparadas da Eneida, da Divina Comedia (pp. 129-137) e da Creusida de M. Szabo (pp. 147-157, texto alias publicado na Euphrosyne em 1970); de Catulo e Rimbaud (pp. 139-145); e de Ovidio e David Malouf (pp. 159-183).

A III e ultima parte propoe uma sintese da funcao e importancia da psicanalise (sobretudo Freud e Jung) e do estruturalismo (retomando Levi-Strauss), atraves do uso dos conceitos de "mitocritica" e "mitoanalise", e por conseguinte revalorizacao dessa metodologia e epistemologia no estudo da mitologia classica. Parece-nos que esta sintese e sobretudo uma reafirmacao do metodo estruturalisto-psicanalitico--agora reforcado com o contributo das neuro-ciencias, em particular da neuro-biologia--perante a Escola Ritualista e as perspectivas anglo-germanicas, sem no entanto deixar de enunciar uma leitura critica. Esta ultima parte permite assim evidenciar as mais-valias, mas tambem as debilidades, da perspectiva representada e defendida por J. Thomas. Esse factor e, quanto a nos, um ganho, independentemente de concordarmos ou nao com a abordagem proposta pelo A. e pela Escola que representa. A semelhanca das duas partes anteriores, esta parte III recupera tambem textos previamente publicados.

O livro encerra com uma reflexao sobre o papel da heranca que recebemos da Roma Antiga na construcao da Europa, o que o actualiza de uma forma indiscutivel e eficaz, dada a pertinencia do tema nos tempos que vivemos.

Sentimos falta de um indice remissivo, com antroponimos, teonimos e toponimos, mas tambem com os passos citados, que seria particularmente util para os investigadores.

NUNO SIMOES RODRIGUES

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

nonnius@letras.ulisboa.pt
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Author:Rodrigues, Nuno Simoes
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2016
Words:1005
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