Printer Friendly

Investigacoes Logicas Volume II; Parte I.

Investigacoes Logicas Volume II; parte I

Edmund Husserl

Traducao de Pedro Alves e Carlos Morujao Adaptacao para a lingua portuguesa falada no Brasil de Marco Antonio Casanova

HUSSERL, Edmund. Investigacoes Logicas--Vol. 2 Parte 1. Trad. Pedro Alves e Carlos Morujao. Adap. para a lingua portuguesa falada no Brasil por Marco Antonio Casanova Rio de Janeiro: Forense Universitaria, 2012

O recente lancamento da traducao das Investigacoes Logicas de Edmund Husserl vem preencher, enfim, uma prolongada lacuna editorial em nosso pais, haja vista a farta publicacao de traducoes de autores influenciados de maneira decisiva por esta obra, tais como Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, Jacques Derrida, Hans-Georg Gadamer, Paul Ricoeur, dentre tantos outros. Na verdade, a influencia direta e indireta das Investigacoes Logicas de Husserl na filosofia atual e imensuravel, tanto e assim, que elas sao responsaveis pelo surgimento de um novo e autonomo campo disciplinar no interior da filosofia, qual seja, o da Fenomenologia. Nao obstante sua vasta influencia, nao sao poucas tambem as resistencias, incompreensoes e distorcoes a que a obra esta submetida, na medida em que ela pretende introduzir novas tematicas em meio as desgastadas especulacoes conceituais do pensamento filosofico tradicional. Acima de tudo, os ensaios de Husserl nas Investigacoes Logicas sao marcados pela proposta de exercitar uma nova maneira de pensar, muitas vezes recusada pelos intelectuais apegados a esquemas hegemonicos de pensamento, aos quais defendem como a uma mina de diamantes. Por outro lado, a obra tambem pode fomentar a dispersao dos estudantes e intelectuais avidos por precipitarem-se na torrente de transformacoes e inovacoes por ela inspiradas. O fato e que, com as Investigacoes Logicas, Husserl coloca em questao a propria identidade da filosofia, pois, por mais sofisticados que eles possam ser, teorias, procedimentos metodologicos e conceitos nao seriam mais suficientes para fundamentar o pensamento, nao seriam nem mesmo seu ponto de partida originario, na medida em que, em geral, eles promoveriam desvios e encobrimentos com relacao as coisas investigadas. Quando Husserl enuncia suas palavras de ordem, diga-se de passagem, muito estranhas ao pensamento herdado, "as coisas elas mesmas", ele converte o sentido mais basico do pensamento filosofico de uma capacidade de raciocinar em um exercicio da capacidade de ver.

Antes de adentrarmos esta questao, convem mencionar que a presente edicao, publicada pela Forense Universitaria, corresponde a versao brasileira de Marco A. Casanova para a traducao portuguesa, realizada no ano de 2007 por Pedro Alves e Carlos Morujao, da primeira parte do segundo volume das Investigacoes Logicas. O texto original apresenta um primeiro volume subintitulado Prolegomenos a logica pura, no qual Husserl preocupa-se quase que exclusivamente com o combate ao psicologismo na logica, em favor da ideia de uma logica pura, que fosse independente da economia do psiquismo. Esta critica estende-se ate mesmo a Kant, pois apesar de ter distinguido um dominio puro e um aplicado para a logica, superando o pensamento de Mill e Sigwart, o autor de Konigsberg teria sucumbido a mistificacao das nocoes de razao e entendimento como condicao primaria para a logica pura. O segundo volume das Investigacoes esta dividido, por sua vez, em duas partes. A primeira, constante na edicao aqui considerada, encontra-se formada por cinco secoes e possui como subtitulo: Investigacoes para a fenomenologia e a teoria do conhecimento. Nao constitui nenhum exagero afirmar que este texto representa o cerne da fenomenologia husserliana, visto que nele se encontra uma serie de analises fundamentais para a compreensao do significado radical do empreendimento fenomenologico. Alem disso, e precisamente nesta parte da obra que Husserl aborda, critica e, principalmente, subverte o significado de muitos conceitos centrais para a tradicao filosofica, o que a principio pode dotar o texto de um carater profundamente contraintuitivo. Com o advento desta traducao, poder-se-a, finalmente, dar um impulso decisivo para a disseminacao do estudo da segunda parte do segundo volume das Investigacoes, no qual consta a sexta e ultima investigacao logica de Husserl, subintitulada de Elementos de uma elucidacao fenomenologica do conhecimento, ja traduzida no Brasil para a colecao Os Pensadores da editora Abril Cultural, em 1980, por Zelijko e Andrea Loparic, e tambem traduzida em um segundo tomo da edicao portuguesa por Carlos Morujao.

Pois bem, diziamos que, para Husserl, pensar filosoficamente e antes de tudo um exercicio da capacidade de ver. Quando mencionamos essa necessidade de exercitar nossa capacidade de ver, pretendemos chamar a atencao para algo que e prioritario e condicional com relacao a toda e qualquer teorizacao a respeito das coisas, a saber, o carater intencional das vivencias da consciencia. Husserl percebe que as tentativas de fundamentar o conhecimento padecem exatamente do problema de obstruir aquilo queja e universalmente visto, ou intencionalmente vivenciado, com equivocadas hipostasias teorico-conceituais. Isto coloca a fenomenologia diante da exigencia aparentemente contraditoria de fundamentar a universalidade do conhecimento livre de quaisquer hipostasiacoes cognitivistas, ou de pressuposicoes conceituais, que precisassem ser justificadas por meio de estratagemas psicologicos. Em outras palavras, Husserl precisa explicitar descritivamente a universalidade do fundamento do conhecimento, em vez de propor mais uma fundamentacao teorico-conceitual. Para a fenomenologia trata-se, portanto, de elucidar o fundamental, em vez de funda-lo.

Husserl pretende que a universalidade dos objetos do conhecimento esteja sustentada naquilo que nomeia de intencionalidade das vivencias da consciencia. Ora, a nocao de intencionalidade que Husserl desenvolve a partir da doutrina de seu mestre Franz Brentano esta expressa no famoso lema que diz que "toda consciencia e consciencia de alguma coisa". A principio esta frase parece expor a maior das obviedades, da mesma forma, tambem nao parece uma obviedade menor dizer que esta "consciencia de" constitui algo como uma "vivencia intencional". Senao vejamos: "consciencia", "intencao", "vivencia", sao termos que apresentam uma conotacao notoriamente psicologizante, em geral, "consciencia" remeteria para uma subjetividade constituida, enquanto "intencao" diria respeito a um proposito deliberado dessa consciencia, e o que nao dizer da palavra "vivencia", a qual nao evoca outra coisa se nao uma experiencia particular, privada ou individual. Se concluirmos disso que toda consciencia corresponde simplesmente a um ego individual que intenciona deliberadamente algo, que so ele mesmo pode experimentar, entao recaimos na aporia cetica do psicologismo. Nao e isso evidentemente que Husserl tem em mente com a nocao de intencionalidade da consciencia. O termo intencionalidade, tomado de emprestimo da filosofia medieval por Brentano, deriva do latim intentio, ou intentus, do verbo intendere, que denota uma tendencia, um tender para o interior de. E exatamente nesse "tender para o interior de" que podemos comecar a elucidar a nocao husserliana de intencionalidade. No "tender para o interior de", consciencia e realidade, sujeito e objeto, dissolvem-se em favor de um campo relacional mais originario, na medida em que a consciencia nao precisa mais elaborar alguma forma de acesso a objetividade dos objetos, pois elaja e atraida imediatamente para o lugar onde o modo de dacao dos objetos e vivenciado. Destarte, podemos ainda concluir que o carater de vivencia da consciencia intencional, ao contrario de apontar para uma experiencia individual, tem como objetivo manifestar a irrevogavel objetividade do que e por ela experimentado, como uma universalidade que se impoe; que eja sempre vivida.

Toda experiencia da consciencia, destarte, so e possivel como vivencia intencional, pois ela implica, desde o principio, um estar em meio a idealidades que se antecipam a qualquer ato que pudesse ser direcionado a algo considerado como real de fato, ou empirico. A questao para a fenomenologia e que a possibilidade de significacoes universais, ideias gerais, categorias, conceitos, enfim, de todas as idealidades nas quais se sustenta a logica e a ciencia, nao pode ser derivada da relacao entre o ato psiquico real e as propriedades empiricas particulares das coisas. A consciencia nao necessita mais de um procedimento cognitivo de intermediacao com relacao a realidade empirica, logo, ela nao precisa mais de pontos de partida dogmaticos, da construcao de convencoes generalizantes, ou de ficcoes mais ou menos bem fundamentadas, de onde pudesse haurir representacoes universalmente validas. Isto se deve ao fato de que todo e qualquer ato intencional da consciencia, ao visar uma determinada significacao, ja e deslocado para o campo ideal dos correlatos dessa significacao, que dao o preenchimento de sentido aquilo que fora intencionado no ato inicial. A tarefa da fenomenologia consiste precisamente em investigar as leis que regem o modo de dacao desse conteudo correlativo imediato e universal que e aberto pelo ato. Por isso, Husserl insiste na descricao como o procedimento por excelencia de uma filosofia que pretenda fundamentar uma logica pura de fato, de modo a libertar a ciencia da metafisica. Ora, se os correlatos liberados no ato fornecem seu preenchimento significativo, seria um engano procurar no proprio ato a origem dos significados que se apresentam a consciencia. Isto quer dizer que cada ato da consciencia implica em sua imediata abertura em meio aos correlatos.

Por fim, tais exigencias descritivas coadunam-se perfeitamente com o "principio da ausencia de pressupostos" (IL, p. 45), ponto de partida crucial da filosofia fenomenologica, visto que, de acordo com Husserl: "o principio [da ausencia de pressupostos] nao pode querer dizer mais do que a rigorosa exclusao de todas as assercoes que nao possam ser completa e totalmente realizadas fenomenologicamente" (Idem). A ideia radical da ausencia de pressupostos e, consequentemente, da exclusao de assercoes nao obtidas fenomenologicamente, lancam um novo desafio para a fundamentacao do conhecimento que ficara mais claro a seguir. Em primeiro lugar, Husserl afirma que: "Toda e qualquer investigacao gnosiologica deve realizar-se a partir de fundamentos puramente fenomenologicos" (Idem). Tal quer dizer, portanto, que a fenomenologia precisa voltar-se contra aquelas assercoes e pressupostos que a contradizem e encobrem os fundamentos do conhecimento. Em outras palavras, a fenomenologia coloca-se na situacao peculiar de ter de contrapor-se precisamente as teorias como um todo. Nao e por acaso que Husserl grifa a palavra teoria com aspas ao caracterizar o modo de pensar da Fenomenologia: "A 'teoria', que nela se almeja, nao e outra coisa senao a tomada de consciencia e a compreensao evidente acerca do que o pensar e o conhecer, em geral, sao, a saber, segundo as suas essencias puras genericas" (Idem); ou seja, se ha alguma teoria almejada pela fenomenologia, ela nada define de antemao, ao contrario, ela mesma e definida a partir das universalidades que a sustentam e que, alem disso, precisam ser evidenciadas como sentido de sua maneira de pensar e conhecer. Husserl acrescenta elucidativamente:

De acordo com a nossa concepcao, a Teoria do Conhecimento, propriamente falando nao e uma teoria. Ela nao e uma ciencia no sentido pleno de uma unidade de explicacao teoretica. Explicar no sentido da teoria, e a conceptualizacao do singular a partir de leis gerais, e estas, de novo, a partir da lei fundamental. [...] A Teoria do Conhecimento nao tem, porem, nada a explicar, neste sentido teorico, ela nao edifica quaisquer teorias dedutivas. Vemo-lo ja suficientemente bem na Teoria do Conhecimento generalissima, formal, por assim dizer, que nos encontramos nas exposicoes dos Prolegomena, que, enquanto complemento filosofico da mathesis pura, entendida no sentido mais lato que seja pensavel, encadeia todo e qualquer conhecimento categorial aprioristico sob a forma de teorias sistematicas. Com esta teoria das teorias, a Teoria do Conhecimento formal que a elucida esta antes de toda e qualquer teoria empirica: portanto, antes de toda e qualquer ciencia explicativa real" (IL, p. 46-47).

A fenomenologia enquanto uma teoria do conhecimento que nao e de fato uma teoria, pelo menos nao como normalmente compreendemos o termo, nao deseja antepor a explicacao ao ver; ela nao se contenta com a explicacao no lugar do explicado, pois a prevalencia do explicar apenas busca a garantia de que se possa dominar as coisas por meio da autoridade dos conceitos. Neste ultimo caso, porem, o que acaba por estar emjogo sao apenas os proprios conceitos, mas nao as coisas que se pretende conhecer. Isto porque nada ha para ser deduzido, na medida em que a mathesis puraja orienta a "teoria". A Teoria do Conhecimento de matriz fenomenologica e "generalissima" e "formal", na medida em que nao pode escapar do carater categorial de seus proprios objetos, ela mesma, antes de fonte dos universais, so pode ser seu complemento, sob pena de criar uma barreira instransponivel com relacao a seus proprios objetos. A singularidade inalcancavel do conteudo real, ou da materialidade empirica independente, afirmada e reafirmada sem descanso pelas teorias empiristas e pela explicacao cientifica, na verdade, ja esta entregue desde sempre a originariedade da forma, ou seja, a realidade empirica so pode encontrar um verdadeiro sentido como materia singular na propria universalidade primaria de seu modo possivel de aparicao. Dito de outra maneira, a teoria, a ciencia e seus conceitos carregam consigo uma inevitavel tendencia para alhear-nos das coisas com as quais ja estamos em imediata relacao significativa. Diante disso, a dificuldade maior proposta pela fenomenologia esta em exigir que saiamos novamente do conforto de casa para encontrarmos o mundo, isto e, que paremos de investir na tecnologia belica do pensamento, na edificacao de fortalezas conceituais, a fim de que as coisas novamente possam nos surpreender. Talvez a maior e mais inestimavel contribuicao de Husserl para a filosofia, nao obstante as inevitaveis limitacoes de todo e qualquer pensamento, esteja exatamente no fato de que com sua Fenomenologia ele tenha conseguido, enfim, libertar-nos para as coisas.

por Paulo Cesar Gil Ferreira

doutorando PPGFIL/UERJ
COPYRIGHT 2012 Universidade do Estado do Rio de Janeiro- Uerj
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2012 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

 
Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Ferreira, Paulo Cesar Gil
Publication:Ekstasis: Revista de Hermeneutica e Fenomenologia
Date:Dec 1, 2012
Words:2192
Previous Article:The existential mode of the interpretation as original and the conceptual interpretation: philosophical elements of the scientific research/O modo...
Next Article:Hermeneutics and natural science: introduction/Hermeneutica e ciencias naturais: introducao.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2018 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters