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Intervention in a psychological support group with harassed workers/ Intervencao em grupo de apoio psicologico a trabalhadores vitimas de assedio moral/ Intervencion en un grupo de apoyo psicologico con trabajadores acosados moralmente.

O atual contexto socioeconomico pode ser caracterizado por grandes mudancas decorrentes da intensa globalizacao e da aceleracao proporcionada pelos avancos tecnologicos. Lehman (2010) denominou esse cenario como a Era de Kairos, a qual, na mitologia grega, e associada ao tempo descontinuo e imprevisivel. Essa reconfiguracao da sociedade apresenta consequencias como a hipercompetitividade entre organizacoes, instabilidades no "comportamento" do mercado e insegurancas no trabalho e no emprego, que sao propicios a adocao de procedimentos perversos por muitos dirigentes e trabalhadores (Hirigoyen, 2001), a fim de obterem melhores resultados de produtividade ou a interesses proprios. Esse cenario tambem propicia a inseguranca generalizada, ao se considerar que a manutencao das organizacoes e dos empregos implica a necessidade de os trabalhadores serem competitivos, qualificados, flexiveis, criativos e polivalentes. Torna-se propicia, entao, a ocorrencia de praticas de violencia no ambiente de trabalho e a propria naturalizacao desses comportamentos no sistema macroeconomico, bem como em nivel meso e microorganizacional (Heloani, 2003).

O termo violencia possui origem latina e refere-se ao constrangimento sobre uma pessoa com vistas a leva-la a realizar algo contrario a sua vontade (Tolfo, 2011). Caracterizado como fenomeno complexo e polissemico, a violencia pode incluir desde o uso da forca e coacao (seja verbal, fisica, politica, economica) ate as situacoes de constrangimento fisico ou moral (Gomes & Fonseca, 2005; Quintanilla & Garcia, 2014; Saavedra, 2004). Nessa perspectiva, portanto, ultrapassa-se a ideia de violencia fisico-explicita, ao se problematizar tambem as formas menos explicitas (ou sutis), psicologicas e, nao menos, perversas de violencia, como e o caso do assedio moral no trabalho.

O assedio moral, enquanto uma das formas de violencia de carater predominantemente psicologico e tao antiga quanto o trabalho (Heloani, 2004), porem passou a ser considerado como tematica imprescindivel na discussao da interface entre saude e trabalho muito recentemente--a partir da decada de 1980 (Soboll, 2008). Apos anos de pesquisa em paises diversos, Leymann (1996) trouxe a nocao de mobbing oupsicoterror como fenomeno que pode ser conceituado como um conjunto de comportamentos hostis de um individuo ou grupo com vistas a excluir um de seus membros, e que tem como efeito a fragilizacao psicologica desse. O referido estudioso tambem propoe que o termo bullying seja voltado para grupos de criancas, sob a perspectiva do comportamento do agressor, enquanto o termo mobbing/psicoterror seria direcionado aos grupos de adultos, com foco na avaliacao da vitima, como sinonimo de assedio moral (Leymann, 1996). Soboll (2008), porem, indica que alguns autores ainda utilizam os referidos termos como sinonimos, embora respeitem as conotacoes especificas de cada um deles.

Ainda no ambito internacional, Hirigoyen (1998, 2001) popularizou a reflexao sobre esse sofrimento invisivel e protagonizou a abertura de inumeros debates sobre o tema na Franca. No Brasil, a sistematizacao academica sobre essa violencia ocorreu mais tardiamente, por meio de pesquisas realizadas por Barreto (2000, 2005) que estimularam a divulgacao do tema e novas investigacoes a respeito dessa forma de violencia. Para Barreto (2003), o assedio moral corresponde a exposicao de trabalhadores a situacoes vexatorias, constrangedoras e humilhantes durante o exercicio de sua funcao, de forma repetitiva e prolongada, caracterizando uma atitude desumana, violenta e antietica nas relacoes de trabalho. Na mesma direcao, Heloani (2004) destaca a intencionalidade dos comportamentos, e defende que o mesmo consiste na constante e deliberada desqualificacao da vitima, seguida de sua consequente fragilizacao, com o intuito de neutraliza-la em termos de poder. Em outras palavras, "trata-se de um processo disciplinador em que se procura anular a vontade daquele que, para o agressor, se apresenta como ameaca" (Heloani, 2004, p. 5). Tolfo (2011) acrescenta que as condutas abusivas referentes ao fenomeno podem incluir aspectos evidentes ou encobertos e sutis--gestos, palavras, acoes, atitudes--e remetem contra a dignidade ou a integridade psiquica ou fisica de uma pessoa.

Soboll (2008) indica quatro elementos essenciais na identificacao do assedio moral interpessoal, sao eles: 1) ataques psicologicos (humilhacoes e desqualificacoes que causam desconforto psicologico); 2) habitualidade (repeticao e continuidade); 3) intencionalidade (intencao de prejudicar, anular ou excluir); 4) pessoalidade (o alvo das agressoes e uma pessoa especifica). Especialmente quanto ao segundo item mencionado, Hirigoyen (2002) ja havia defendido que o assedio moral somente adquire significado pela insistencia. Tolfo (2011) tambem destaca a frequencia e a continuidade com que sao manifestos os comportamentos do assediador como os principais criterios aceitos para configurar a ocorrencia do fenomeno, ou seja, as situacoes de vexame, ofensas, ameacas que se tornam repetitivas longitudinalmente --em torno de seis meses e uma vez por semana (Leymann, 1996).

Hirigoyen (2002) tambem identificou e agrupou quatro categorias de atitudes hostis que caracterizam o assedio moral no trabalho, descritas a seguir: a) Deterioracao proposital das condicoes de trabalho do assediado --retirar a autonomia; nao transmitir informacoes uteis para a realizacao de tarefas; contestar sistematicamente as decisoes da vitima; criticar o trabalho de forma injusta ou demasiada; privar o trabalhador de acessar seus instrumentos de trabalho; retirar o trabalho que normalmente lhe compete e dar permanentemente novas tarefas; atribuir proposital e sistematicamente tarefas inferiores ou superiores as suas competencias; pressionar para nao exigir seus direitos; agir de modo a impedir ou dificultar que obtenha promocao; causar danos em seu local de trabalho; desconsiderar recomendacoes medicas; induzir ao erro.

b) Isolamento e recusa de comunicacao--interromper a vitima com frequencia; nao conversar com a vitima; comunicar-se unicamente por escrito; recusar contato; isolar do restante do grupo; ignorar a presenca; proibir que colegas falem com a vitima e vice-versa; recusa da direcao em falar sobre o que esta ocorrendo.

c) Atentado contra a dignidade--utilizar insinuacoes desdenhosas; fazer gestos de desprezo para a vitima; desacreditar a vitima diante dos colegas, superiores ou subordinados; espalhar rumores a respeito da honra e boa fama; atribuir problemas de ordem psicologica; criticar ou brincar sobre deficiencias fisicas ou de seu aspecto fisico; criticar acerca de sua vida particular; zombar de suas origens, nacionalidade, crencas religiosas ou conviccoes politicas; atribuir tarefas humilhantes.

d) Violencia verbal, fisica ou sexual--ameacar a vitima de violencia fisica; agredir fisicamente; comunicar aos gritos; invadir sua intimidade; seguir e espionar a vitima; danificar o automovel da vitima; assediar ou agredir sexualmente a vitima atraves de gestos ou propostas; desconsiderar os problemas de saude da vitima.

E oportuno mencionar que o assedio moral se diferencia de uma situacao de desqualificacao isolada ou eventual, mesmo que essa venha a produzir dano moral severo ao individuo. Embora fatos isolados possam nao parecer violencias ao trabalhador ou ao assediador, o conjunto de praticas vexatorias, de pequenos traumas, e que gera a agressao (Hirigoyen, 2001). As atitudes e comportamentos de humilhacao e desqualificacao do outro normalmente comecam de forma lenta e gradual, o que as tornam uma forma de violencia invisivel (Tolfo, 2011). E comum que o agressor utilize de procedimentos perversos, nos quais o conflito fique encoberto, e o proprio assediado se culpabilize pelas ocorrencias. Alem do mais, inicialmente o trabalhador assediado pode nao identificar claramente o que esta ocorrendo ou nao quer se mostrar ofendido com as humilhacoes. Com a continuidade e o aumento da frequencia e/ou da intensidade dessas situacoes, as pessoas sentem-se acuadas, postas em situacoes constrangedoras, e em alguns casos, podem ser submetidas a manobras hostis e degradantes durante um periodo maior (Tolfo, 2011).

Salienta-se que a classificacao de atitudes hostis foi elaborada por meio de dados obtidos em pesquisas realizadas na Franca. De acordo com Smith (2007), o uso de uma teoria desenvolvida em outra cultura merece atencao, pois deve-se considerar as diferencas e valores locais. Em geral, os fenomenos sao estudados em um contexto social e aplica-se a teoria para varios outros. Ao utilizar a classificacao da autora francesa, cabe certa flexibilizacao, pois as praticas de assedio apresentam peculiaridades de acordo com a cultura do pais e a propria cultura organizacional. Ressalta-se que os casos de assedio podem apresentar mais ou menos atitudes em uma categoria, considerando o contexto de trabalho daquele individuo.

Desencadeantes e caracteristicas das praticas de assedio, assedio moral interpessoal e organizacional e suas consequencias

De forma geral, o assedio moral e desencadeado por dois fatores principais: 1) recusa frente a diferencas (Tolfo, 2011), que pode ser relacionada ao sexo, cor, etnia, deficiencias, orientacao sexual, etc. ou caracteristicas que destacam o assediado, referente as competencias, comprometimento no trabalho e visao critica sobre o mesmo; 2) abuso de poder (Heloani, 2004) nas relacoes de trabalho. Assim, embora o assedio ocorra predominantemente na direcao vertical descendente (chefia-subordinado), em decorrencia do uso de procedimentos nao legitimos de poder, Tolfo (2011) ressalta que o mesmo pode ocorrer tambem na direcao horizontal (mesmo nivel hierarquico), vertical ascendente (subordinado-chefia), e misto (assedio de chefias e colegas ou subordinados). Assim, muitas vezes um profissional competente pode representar uma ameaca para o agressor e posteriormente tornar-se alvo de desqualificacoes. De forma semelhante, pessoas autenticas e questionadoras podem sofrer agressoes por nao se submeterem ao autoritarismo do assediador (Hirigoyen, 2001). Alem dessas caracteristicas, o objetivo do agressor e de atingir o outro, romper com a sua estabilidade emocional (Hirigoyen, 2001; 2002), pressionar o outro a pedir demissao ou remocao do local de trabalho, e neutralizar o poder da vitima, fazendo com que o mesmo se sujeite passivamente a determinadas condicoes de trabalho (Heloani, 2004; Tolfo, 2011).

Embora identificado nas relacoes entre assediado e assediador, faz-se importante distinguir duas categorias de assedio moral conforme o grau de abrangencia: 1) interpessoal; 2) organizacional. Enquanto o primeiro tem como alvo especifico atingir determinado(s) trabalhador(es), o segundo alcanca grande parte dos profissionais da organizacao, como estrategia de gestao. Com base em Gosdal, Soboll, Schatzmam, e Eberle (2009) constata-se que o assedio moral organizacional e um conjunto sistematico de praticas reiteradas, inseridas nas estrategias e metodos de gestao, por meio de pressoes, humilhacoes e constrangimentos, para que sejam alcancados determinados objetivos institucionais, relativos a: controle do trabalhador, custo do trabalho, aumento de produtividade e resultados, exclusao, prejuizo de individuos ou grupos com fundamentos discriminatorios, ou disciplinadores.

O assedio moral, tanto em nivel interpessoal quanto organizacional, traz consequencias para o individuo, para a organizacao, e para a sociedade. No que se refere a sua vida pessoal, o trabalhador que e constantemente desqualificado pode abandonar ou passar por dificuldades nas relacoes familiares. Ha casos em que eles sentem-se humilhados e perdem a disposicao e a paixao pela vida (Martiningo Filho & Siqueira, 2008). A exposicao a essas violencias pode ter efeitos negativos na identidade, autoestima, alem de ocasionar danos a saude fisica e psiquica, expressas por meio de ansiedades, alteracoes de humor, estresse, depressao, burnout ate o suicidio. Em outro nivel, a organizacao tambem pode ter prejuizos no clima organizacional, na criatividade, na produtividade, na qualidade das tomadas de decisao, nos indices de absenteismo, rotatividade e, afastamentos, etc. Por ultimo, os danos a saude do trabalhador refletem em custos sociais com tratamento medico e reabilitacao, despesas com beneficios sociais, e custos com processos administrativos e judiciais.

Intervencao ao assedio moral no trabalho

Ainda que recentes, as intervencoes organizacionais de prevencao e combate ao assedio moral no trabalho vem aumentando no decorrer do tempo (Jimenez, Aguilar & Pita, 2011; Martiningo Filho & Siqueira, 2008; Teixeira, Reis & Santos, 2013). Porem, ha casos nos quais as organizacoes nao realizam acoes efetivas para prevenir e combater esse fenomeno e os trabalhadores nao tem um espaco de escuta ou de acao oferecido pela organizacao. No caso deste estudo, o foco da intervencao foi direcionado as repercussoes na vida do trabalhador, na modalidade de trabalho em grupo.

Utilizadas com frequencia na area da psicologia e servicos de saude, as intervencoes grupais sao priorizadas pela sua potencialidade em promover o compartilhamento entre os membros sobre vivencias relacionadas ao tema do grupo, o que colabora para a [des]individualizacao da dificuldade e do sofrimento. Em varias areas, utiliza-se o trabalho em grupo, como, por exemplo: intervencao em grupos com maes e bebes (Ore, Diaz & Penny, 2011), com mulheres vitimas de violencia domestica (Matos, Machado, Santos & Machado, 2012), professores do ensino basico (Patias, Blanco & Abaid, 2009). No campo da Psicologia Organizacional e do Trabalho, os grupos aparecem como possibilidade de intervencao em diversos contextos, sendo realizados no contexto organizacional ou fora dele.

Com relacao as intervencoes incluindo trabalhadores vitimas de assedio moral, foram encontradas poucas publicacoes em periodicos e livros. Nesse sentido, Tolfo (2013) listou possibilidades de intervencoes organizacionais com base em mencoes na literatura. Glina e Soboll (2012) tambem realizaram revisao de literatura a partir da qual identificaram diversos metodos utilizados em intervencao tanto com as vitimas como com os assediadores. Segundo Cassito, Fattorini, Gilioli & Rengo (2003), uma possibilidade de intervencao sao os grupos de apoio formados por pessoas que sofreram assedio moral no trabalho. Estes grupos permitem, em primeiro lugar, o compartilhamento das experiencias, a conscientizacao de que o trabalhador nao e o responsavel pelo ocorrido, o reconhecimento da agressao e a modificacao de comportamentos por parte das vitimas para lidar com a situacao. E importante que o problema da pessoa seja reconhecido por outros, pois o reconhecimento tem papel significativo para diminuir a negacao da vitima diante da agressao. Isso facilita que o sujeito tenha mais clareza sobre a situacao vivenciada e possa refletir sobre diferentes formas de enfrentamento (Cassito et al., 2003).

Um trabalho pioneiro nesta direcao consistiu em um projeto de extensao (5), que as autoras Martins, Caldas, Cugnier, Goulart e Tolfo (2012) realizaram, na forma de um grupo de apoio com trabalhadores assediados, utilizando-se da abordagem Psicodramatica e de tecnicas de dinamica de grupo para a conducao das atividades. Foram realizados seis encontros, quinzenalmente, e o grupo foi formado por cinco participantes, mulheres, com nivel superior completo. Martins et al. (2012) salientam que os conteudos manifestos predominantes nos encontros foram os sentimentos de culpa e responsabilizacao pelas agressoes. Para as participantes, o grupo foi percebido como uma possibilidade para amenizar as repercussoes do assedio moral em outras esferas da vida. Entre os resultados dessa intervencao, pode-se destacar os esclarecimentos sobre o atual contexto do trabalho e relacoes com o assedio moral, a elaboracao de estrategias de enfrentamento do sofrimento e o desenvolvimento de um contexto de apoio mutuo entre as participantes (Martins et al., 2012).

Alem deste grupo, Silva, Cugnier, Pellegrini, Moura e Tolfo (2014) realizaram outro grupo de apoio com vitimas de assedio moral no trabalho. Nesta outra intervencao, as atividades estavam relacionadas a escuta, compartilhamento de experiencias, esclarecimentos, desconstrucao e reconstrucao de estrategias de enfrentamento, visando desenvolver autonomia individual e coletiva para lidar com as situacoes de assedio. Segundo Silva et al. (2014), o grupo e um espaco onde encontram-se novos olhares sobre as vivencias. Estas autoras salientam que o trabalho em grupo auxilia na identificacao do assedio moral no trabalho nao como merecimento individual, mas resultante do abuso de poder nas relacoes de trabalho e o compartilhamento das vivencias permite ao assediado reconhecer que outras pessoas se deparam com situacoes similares.

Outra intervencao em grupo de apoio foi realizada por Schlindwein (2013) e os encontros foram fundamentados na proposta de Barros (1997), cujo objetivo e desenvolver grupos terapeuticos como dispositivo analitico. Participaram tres trabalhadoras afastadas do trabalho devido a Lesoes por Esforcos Repetitivos e com diagnosticos de Transtornos Mentais relacionados ao assedio moral no trabalho. Foram realizados onze encontros, cujos temas foram: historia de vida; organizacao do trabalho; condicoes do trabalho; riscos no trabalho; trabalho e adoecimento; repercussoes individuais, sociais e familiares; enfrentamento da realidade; estrategias para lidar com o sofrimento e o processo institucional percorrido para o reconhecimento da doenca.

Ao considerar a necessidade de atentar para os cuidados emocionais com os trabalhadores que sofrem assedio moral e a importancia do compartilhamento em grupo, o objetivo deste estudo e descrever o desenvolvimento de um grupo de apoio considerando-se o planejamento e as principais tematicas emergentes pelas participantes nos oito encontros realizados.

Metodo

Os procedimentos adotados para realizacao da intervencao priorizam a abordagem qualitativa, de base interpretativista, e no artigo se buscou descrever o planejamento e o desenvolvimento de um grupo de apoio a trabalhadores que se percebiam como vitimas de assedio moral no trabalho. Inicialmente foi identificada a necessidade de realizar entrevistas individuais a partir das inscricoes abertas a comunidade. A divulgacao para a realizacao das mesmas foi realizada entre os meses de setembro e outubro do ano de 2014, por meio de e-mails, contato com sindicatos de trabalhadores, facebook, e site de uma universidade federal do sul do Brasil, local no qual o projeto foi desenvolvido.

Foram realizadas seis entrevistas individuais semiestruturadas com os interessados, nos meses de outubro e novembro de 2014, cujo objetivo foi identificar as vivencias correspondentes ao assedio moral no trabalho pelos sujeitos e convida-los a participar do grupo. As entrevistas buscavam, ainda, levantar as expectativas dos sujeitos que desejavam participar do grupo de apoio, esclarecer duvidas e verificar se tinham condicoes de saude para tanto--dessa forma, era possivel explicar e ajustar as expectativas individuais com a proposta do grupo. Dessas seis entrevistas individuais, cinco pessoas indicaram disponibilidade para participar da atividade de extensao.

As intervencoes de apoio foram coordenadas por duas graduandas e por uma pos-graduanda em Psicologia, com supervisoes semanais com a Coordenadora do Projeto. Foram realizados cinco encontros ao longo de cinco semanas consecutivas no segundo semestre de 2014. Apos o interesse relatado por duas participantes no que diz respeito ao aumento na quantidade de encontros, acrescentou-se mais tres encontros no primeiro semestre de 2015, com duracao de uma hora e meia semanal. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que garante o sigilo das informacoes e o anonimato dos participantes, bem como a autorizacao para uso de dados e posterior publicacao academica.

Os procedimentos adotados foram apresentados e analisados com enfase nas atividades e nos principais conteudos que emergiram nas atividades grupais, problematizados com base na literatura sobre assedio moral no trabalho revisada.

Apresentacao das atividades

Em sequencia sao apresentados a caracterizacao das participantes, os procedimentos utilizados nas entrevistas e na realizacao das atividades.

a) Entrevistas individuais--Caracterizacao das participantes

Conforme descrito no metodo, cinco sujeitos do sexo feminino tiveram disponibilidade para participar do grupo. Elas possuiam como escolaridade Ensino Superior completo, e atuavam profissionalmente nas areas da Saude (3), Educacao (1) e Engenharia (1). Quatro participantes trabalhavam em organizacoes publicas. Uma delas trabalhava informalmente em organizacao particular. As participantes atuantes na area da saude (duas enfermeiras e uma assistente social) trabalhavam no mesmo local. Neste estudo, a participante da area da saude atuante em assistencia social sera denominada como P1, as enfermeiras como P2 e P3, a participante da area da educacao publica como P4 e a engenheira como P5. As principais caracteristicas em relacao as situacoes de sofrimento no trabalho levantadas pelas cinco profissionais nas entrevistas serao abordadas a seguir.

P1 atuava ha cerca de quatro meses na area da Saude Publica quando ocorreu a entrevista inicial. A servidora publica relatou situacoes de desrespeito a alguns trabalhadores desde os momentos iniciais de sua socializacao na organizacao. A partir do momento em que nao concordou com algumas situacoes que, sob seu ponto de vista eram antieticas, passou a ser expulsa de reunioes politicas, alem de receber demandas excessivas de atividades de trabalho em horarios nos quais havia as referidas reunioes. P1 tambem indicou uma cobranca excessiva por parte de seus coordenadores e alguns colegas de trabalho, como por exemplo, ser ofendida na frente dos colegas pela falta de um hifen em seu relatorio de trabalho. Outras trabalhadoras do local (P2 e P3) tambem passavam por situacoes abusivas pelo motivo de discordarem de atitudes dos coordenadores e de alguns colegas. P1 relatou que nao conseguia aceitar o fato de ser assediada, considerando que havia se dedicado para passar naquele concurso publico. Tambem nao aceitava sair da organizacao, pois acreditava que poderia passar uma imagem de incompetencia aos demais profissionais do local. Estava gravando as ocorrencias verbais, caso tal situacao nao fosse resolvida e decidisse denunciar o caso. A entrevistada tambem afirmou ter adoecido (ficou sem voz) naqueles meses, em decorrencia do estresse no ambiente de trabalho.

P2 atuava em Saude Publica ha aproximadamente dois anos e meio quando foi entrevistada, e ha cerca de um ano e meio estava passando por situacoes abusivas por parte de seus coordenadores e alguns colegas. Ela relatou que o inicio dos abusos ocorreu quando esses profissionais insinuaram que havia trabalhadores furtando materiais de trabalho. A partir disso, comecou a perceber sua imagem sendo desqualificada, alem de sofrer com calunias e gritos por parte dos referidos trabalhadores. Relata tambem que nao forneciam o material necessario para que ela executasse seu trabalho, como a coordenacao de grupos, por exemplo. P2 sentia muitas dores de cabeca decorrentes do estresse no trabalho e tomava varios remedios (analgesicos) para suportar as situacoes abusivas. Ja havia se afastado do trabalho uma vez por conta do adoecimento resultante do assedio. P2 afirmou que anotava e gravava todas as situacoes, alem de conversar acerca das situacoes com P1 e P3 que trabalhavam no mesmo local e tambem sofriam assedio. A entrevistada relatou o seu objetivo inicial de denunciar as ocorrencias.

P3 tambem atuante na area da Saude Publica ha aproximadamente tres anos quando foi entrevistada e ha cerca de dois anos passava por situacoes abusivas por parte de seus coordenadores e alguns colegas. A mesma explicou que havia recusado um cargo de coordenacao, pois ela nao teria a autonomia para realizar seu trabalho. Esclareceu que ela apenas poderia "assinar os papeis" enquanto outro profissional sem a titulacao exerceria no cotidiano todas as funcoes da coordenacao. A partir do momento em que P3 nao compactuou com a situacao, passou a ser perseguida pelo profissional que havia feito a referida proposta. Assim, os novos coordenadores e alguns colegas que compactuavam com as atitudes desses profissionais comecaram a macular sua imagem, espalhando mentiras a seu respeito. Quando ficou gravida, as situacoes pioraram. Seus horarios de ida ao banheiro comecaram a ser controlados, foi agredida verbalmente algumas vezes e trabalhava em uma sala sem ventilacao, fazendo com que a mesma fosse ao pronto-socorro duas vezes. Tais fatos trouxeram preocupacao nao apenas com sua saude, mas tambem com a de seu filho. Relatou que no momento estava afastada em licenca maternidade, tinha dificuldades para dormir e medo de retornar ao trabalho. O seu filho, ainda bebe, participou de alguns encontros com ela. P3 pensava na possibilidade de denunciar a situacao.

P4, atuava como professora na area da Educacao Infantil publica ha cerca de um semestre, a epoca das entrevistas, relatou dificuldades nos relacionamentos com duas estagiarias da instituicao--que realizam seus trabalhos junto a turma de criancas coordenada pela mesma. A entrevistada relatou que varias vezes tentou dialogar com as mesmas, mas nao obteve exito, pois as estagiarias ja atuavam ha mais tempo naquela turma de criancas e nao levavam em conta as colocacoes da professora. P4 verbalizou que ja havia tido dificuldades nos relacionamentos em outros locais de trabalho, segundo ela por conta de seu temperamento forte e pelo fato de ser negra. Relatou que nao tem dificuldades com chefias, mas sente-se desrespeitada por seus subordinados. Explicou que as estagiarias questionam suas capacidades pedagogicas e que desmerecem o seu trabalho, comparando-a com outra profissional da area. A profissional expressou sua angustia por nao conseguir legitimar o seu papel como professora e que nao sabia se as situacoes que vivenciava caracterizavam-se como assedio, embora tenha relatado sentir um grande sofrimento decorrente do que expos.

P5, engenheira, nao estava trabalhando formalmente na sua area de formacao no momento da entrevista e dava aulas particulares de reforco para alunos de uma escola privada do Ensino Fundamental. A entrevistada relatou que em varios contextos da vida particular, academica e profissional passou por situacoes de controle excessivo (especialmente dos pais), alem de assedio moral no contexto do trabalho como Engenheira. De acordo com ela, em seu ultimo emprego formal possuia opinioes divergentes de sua chefia e passou a ter dificuldades nos relacionamentos com a mesma. P5 tinha dificuldades em relatar as situacoes que vivenciou, mas salientou que se sentia diminuida: retiraram dela o trabalho que lhe competia normalmente e passou a exercer tarefas muito inferiores as suas competencias--foi contratada para o cargo de engenheira, mas atribuiram-lhe funcoes de secretaria. Ela permaneceu somente quatro meses no local e em seguida solicitou desligamento da organizacao, mas a sua chefia nao autorizou que ela cumprisse o aviso previo de forma integral. Diante de tudo isso, P5 indicou que tinha muitas dificuldades e medo de se inserir novamente no mercado de trabalho.

b) Planejamento do grupo

As tematicas abordadas no grupo foram definidas de acordo com os conteudos trazidos nas entrevistas e na observacao das coordenadoras em relacao as demandas de intervencao presentes em diferentes momentos do grupo. Apos os encontros realizavam-se reunioes semanais para promover a reflexao sobre as tematicas emergentes no grupo, bem como para elaborar um plano de acao para os encontros seguintes. A tabela 1 representa uma sintese do planejamento dos oito encontros realizados.

c) Desenvolvimento do grupo

Buscou-se criar no grupo um ambiente de conversa, escuta e troca de experiencias entre as participantes sobre suas situacoes de assedio moral, para propiciar melhor entendimento acerca do assunto e construir juntas estrategias de enfrentamento as dificuldades encontradas pelas trabalhadoras, sendo que algumas ja haviam, inclusive, relatado ter a sua saude afetada devido ao assedio moral ocorrido no trabalho.

Esse primeiro encontro tinha como objetivo principal promover uma integracao inicial entre as cinco trabalhadoras, explicar os objetivos do grupo de apoio, bem como firmar o contrato psicologico em relacao a esse. Para isso foi realizada uma atividade com a tecnica do novelo de la/barbante para a apresentacao das participantes--solicitando que indicassem os seus nomes, profissoes, setor no qual atuavam, motivos pelos quais buscaram o grupo considerando o contexto de seus trabalhos e expectativas quanto ao desenvolvimento das atividades. Como expectativas as participantes indicaram principalmente 1) encontrar maneiras de superar as dificuldades decorrentes dos problemas nos relacionamentos em ambiente de trabalho, ou para voltar ao trabalho; 2) compartilhamento de experiencias; 3) autoconhecimento. Ao final da atividade fez-se uma analogia entre o novelo de la e uma teia que representava conexoes, ligacoes e rede de apoio. Tambem foram levantados questionamentos sobre a definicao de assedio moral e as participantes buscaram distinguir situacoes de conflito e de assedio, quando foi explicado que este segundo diverge do primeiro pelo motivo de estar ausente uma relacao de respeito para com o outro, a explicitacao da divergencia e a possibilidade mais efetiva de resolucao. Foram entregues cartilhas informativas elaboradas em 2013 no projeto de extensao do mesmo grupo para leitura posterior e indicou-se que no segundo encontro seriam debatidos em maior profundidade os conteudos das mesmas. Afirmou-se a importancia do contrato psicologico de sigilo nas identidades e conteudos abordados nos encontros, bem como o principio de ajuda mutua entre as participantes.

O segundo encontro iniciou com P5 utilizando o momento do acolhimento para explicar que na semana anterior havia ficado angustiada porque foram privilegiadas as exposicoes das emocoes das participantes no momento de compartilhamento de suas experiencias, e as atividades realizadas foram "pouco objetivas". Entretanto, ao longo da semana havia refletido sobre a necessidade de perceber suas emocoes e tambem tratar os seus alunos adolescentes de forma mais tolerante e atenciosa. Alem desse primeiro momento de acolhimento das participantes, este segundo encontro tinha como objetivo principal propiciar um maior esclarecimento acerca da tematica assedio moral e para tanto, utilizou-se as cartilhas elaboradas pelo projeto de extensao no ano de 2013. Apos os esclarecimentos sobre a tematica, solicitou-se que elas escrevessem em um papel os pontos positivos e os pontos negativos que identificavam em seus locais de trabalho. P2 e P3 nao conseguiram identificar pontos positivos e P1 e P5 indicaram varias expectativas em relacao ao trabalho: "cooperacao", "sensacao de produzir algo positivo para a sociedade", "auxiliar os usuarios do servico", etc.,--e nao o que realmente vivenciavam no cotidiano profissional. Assim, P1 foi a unica que conseguiu identificar naquele momento o "relacionamento e a cooperacao entre alguns colegas" como algo positivo e P4 nao compareceu. Mesmo assim, questionou-se sobre quais as suas motivacoes em permanecer em um local de trabalho no qual praticamente nao conseguiam perceber aspectos positivos. As participantes P1, P2 e P3 indicaram, principalmente, o fato de "terem estudado muito para conseguirem passar em um concurso publico". Como fechamento foi proposto que indicassem quais palavras deixariam para o grupo: "justica, mas nao a qualquer custo" (P1); "resistencia e justica" (P2); "uma maneira de lidar com a situacao e nao adoecer" (P3); "buscar outras saidas" (P5).

No terceiro encontro objetivou-se refletir sobre os medos de cada participante em relacao a permanencia ou retorno ao ambiente de trabalho e compareceram as cinco trabalhadoras. P1 indicou novamente que estudou muito para passar naquele concurso publico, e que tinha medo de arranhar a sua imagem profissional devido as calunias que os assediadores disseminavam sobre ela e seu trabalho. Alem disso, relatou ter medo de nao conseguir realizar um trabalho util para a sociedade, pois devido ao assedio moral que estava sofrendo, nao conseguia explorar toda a sua criatividade e competencia. P2 tinha medo da "imposicao" e da "pressao", pois quando era "chamada para a sala do terror" (essa era a sala na qual a participante referia ter que ir quando sua superior queria criticar, e/ou desqualificar o seu trabalho, alem de amedronta-la) geralmente eram impostas pelos coordenadores atitudes ou atividades com as quais nao concordava. P3 tinha medo de voltar "explosiva" ao trabalho, ou que os assediadores a impedissem de retornar ao local. Relatou, inclusive, que havia sonhado com um abismo, no qual eles queriam empurra-la, mas havia outras pessoas dispostas a ajuda-la. P4 tinha medo de ser caluniada e rejeitada. Explicou que tinha duvidas sobre se impor ou agir apenas para agradar os outros. P5 tinha medo de trabalhar em um local em que "nao admire as pessoas" e de "nao ser estavel no mercado de trabalho". Todas demonstraram reacoes de raiva em relacao aos assediadores e solicitou-se entao como tarefa para fazer em casa e trazer no grupo que escrevessem uma carta simbolica ao(s) assediador(es), com tudo o que gostariam de dizer para os mesmos.

No quarto encontro, o objetivo era compartilhar e refletir sobre a carta simbolica direcionada aos agressores no trabalho, e posteriormente realizar uma inversao de papeis. P1 nao conseguiu organizar a carta, mas anotou algumas frases que gostaria de dizer aos assediadores, como o fato de a "chefia nao ser qualificada", "cuide da sua vida", e "desce do muro" para um trabalhador que queria agradar a todos. P3 demonstrou varias reacoes de raiva ao escrever que gostaria de "agredir" "esfregar a cara dela no asfalto" e que nao conseguiria "perdoar a chefia por tudo o que ja fez". P3 tambem afirmou que sentiu uma "sensacao de alivio" ao escrever a carta, pois conseguiu colocar no papel o que nao teria coragem de falar pessoalmente. P4 nao fez a carta, mas relatou que vivia a contradicao de querer sair do trabalho, ao mesmo tempo em que gostaria que as estagiarias fossem embora. No campo ideal esperava que tudo poderia ser resolvido e disse que tinha dificuldades para escrever porque se sentia acuada e nao conseguia se impor. P5, por sua vez, relatou que tentou por varios dias concluir a carta, mas acabou fazendo varios esbocos. E com a tentativa de escrita da carta que P5 conseguiu falar de forma mais clara sobre sua chefia e os atos negativos contra ela: "me tratava mal e era extremamente grosseiro", explicando que tinham desentendimentos constantes, pois seu superior nao queria ser questionado. Tinha raiva e sentia-se desrespeitada pelo mesmo. P5 explicou que a atividade de producao da carta possibilitou que ela percebesse melhor as situacoes, para procurar uma solucao e ver a questao do assedio de forma mais analitica. Neste encontro, P2 nao compareceu. Ao ser proposta a atividade de inversao de papeis (solicitou-se que as participantes se colocassem no lugar dos assediadores ao receberem as cartas), as participantes se recusaram, afirmando que: "nao consigo me imaginar no lugar dele porque e um monstro" (P3); nao mudaria em nada para ele (P5); receberiam de forma muito negativa (P1).

Todas compareceram ao quinto encontro e P4 informou que havia conseguido organizar a carta, e pediu para le-la. Ela relatou o conflito entre sair da organizacao para evitar maior estresse e solicitar que as estagiarias sejam desligadas da mesma. Ao mesmo tempo, refletiu sobre as consequencias negativas das atitudes de ela mesma sair ou encerrar o vinculo com as estagiarias. As coordenadoras do grupo indicaram que parece saudavel que P4 consiga refletir sobre as possiveis consequencias para si propria. O ultimo encontro de 2014 teve como objetivo refletir sobre a trajetoria das participantes no grupo. Para isso, solicitou-se que elas desenhassem em um cartaz como percebiam a sua evolucao no grupo. P5, em seu desenho e posterior apresentacao explicou que, anteriormente ao grupo, "tudo era um turbilhao", que "apenas vivia os problemas", e que "tudo estava misturado", "nao conseguia organizar as coisas, o que a levava a varias explosoes". O grupo surgiu como uma "janela", ou seja, uma das possibilidades de ajuda externa, e afirmou que naquele momento percebia ser possivel resolver os seus problemas: "organizando-os, dividindo-os em pequenas partes". P1 indicou o quao importante foi o movimento de "solicitar ajuda". P2 apontou o grupo como "caminho para a esperanca", P3 indicou que passou a sentir-se melhor com a procura do grupo, e P4 indicou o grupo como ferramenta de suporte, como espaco para descarregar emocoes, como apoio e afirmacao.

Quando questionadas sobre as formas de enfrentamento, P5 indicou a possibilidade de desenhar e escrever para posteriormente analisar as dificuldades de forma mais organizada: "ao diminuir o caos em pequenas partes fica mais facil resolve-los" (P5). P1 e P3 indicaram que seria impossivel acabar com as situacoes de assedio, mas que deveriam administrar a situacao evitando "bater de frente" e tentar uma "troca de turnos". P4 indicou a necessidade de estabelecer parcerias no trabalho para enfrentar a situacao. Deixaram como palavras ao grupo "apoio" (P1, P3, P5), "afirmacao" (P4), e "justica" (P2).

P1, P2, P3 e P4 indicaram, ao final deste ultimo encontro de 2014, o interesse em realizar mais alguns encontros em 2015. Assim, em abril de 2015 realizaram-se mais tres encontros, nos quais apenas P1 e P2 compareceram. No sexto encontro compareceu apenas P1. Objetivou-se, assim, avaliar as mudancas obtidas no periodo de pausa do grupo. P1 relatou que nao tinha mais tanto interesse em denunciar as situacoes de abuso, pois acreditava que nao haveria justica referente as ocorrencias. Relatou tambem que, apesar de as situacoes de assedio persistirem, estava conseguindo realizar novas atividades em seu trabalho, de modo a trazer beneficios aos usuarios do servico. Sua estrategia de enfrentamento para a situacao era recuar cada vez mais ("nao bater de frente", "ignorar quando eles gritam"--fuga). Alem disso, indicou a necessidade de buscar atendimento psicologico individual para lidar com outras situacoes e "fortalecimento na religiao".

No setimo encontro compareceram P1 e P2. Solicitou-se que confeccionassem um "jornal" sobre os principais acontecimentos no periodo de pausa no grupo. Como resultado da atividade P2 indicou que a) nao pretendia mais denunciar a questao por acreditar que nao haveria justica diante das ocorrencias; b) sentia-se como um soldado tentando fugir de uma guerra, pois era literalmente isso que fazia em seu trabalho; c) estava pensando mais em si mesma e em seu bem-estar; d) sentia-se agindo de forma mais racional; e) estava com uma visao futurista e com foco em uma nova direcao em sua vida profissional. P1 compartilhou com as coordenadoras do grupo e com P2 os mesmos aspectos que ja havia indicado na semana anterior em encontro individual.

O oitavo encontro (encerramento do grupo) teve dois objetivos principais: avaliar os pros e contras das estrategias de enfrentamento que as trabalhadoras estavam utilizando, e identificar como elas se imaginavam depois de seis meses. Quanto a primeira atividade, P2 indicou que, se por um lado sua maneira de lidar com a situacao estava diminuindo o seu nivel de estresse no trabalho, por outro lado estava tornando-o mais desestimulante. Entretanto, reiterou que logo estaria investindo em uma carreira academica (selecao de mestrado) e que nao dependeria do atual emprego. P1 indicou que sua maneira de lidar com a situacao nao seria sinonimo de passividade, pois continuava com seus principios, mas que estava buscando encarar a situacao com certo "bom humor" e apoiada no relacionamento agradavel de suporte social com alguns colegas para desenvolver um bom trabalho. Quanto a segunda atividade, P2 indicou que em seis meses pretendia estar com novos projetos de trabalho em um novo setor de atuacao. P1, por sua vez, indicou que pretendia continuar trabalhando no mesmo local, caso os assediadores nao estivessem mais no local, ou transferir-se para novo setor ou prestar novo concurso publico.

Resultados e Discussao

Esse artigo teve como objetivo descrever o desenvolvimento de um grupo de apoio a trabalhadores assediados moralmente, realizado entre novembro de 2014 e abril de 2015, considerando-se o planejamento e as principais tematicas emergentes pelas cinco participantes nos oito encontros realizados.

A intervencao em grupo possibilitou a identificacao do assedio moral no trabalho nao como merecimento individual, mas como resultante do abuso de poder nas relacoes de trabalho (Silva et al., 2014), isto e, o compartilhamento das vivencias permitiu que as participantes reconhecessem que outras pessoas tambem passavam por situacoes similares. As intervencoes iniciais no grupo alvo do presente estudo tambem cumpriram a funcao de auxiliar na identificacao e caracterizacao das situacoes de dificuldades pelas quais as integrantes haviam sido expostas, por meio da categorizacao proposta por Hirigoyen (2002): 1) deteriorizacao proposital das condicoes de trabalho; 2) isolamento e recusa de comunicacao; 3) atentado contra a dignidade; 4) violencia verbal, fisica ou sexual. Nesse espaco de escuta, abriu-se a possibilidade para que as trabalhadoras trouxessem exemplos de suas vivencias no ambito laboral, com base nas quatro formas de comportamentos negativos, por meio de atitudes, gestos, e palavras que caracterizam o assedio moral. A Tabela 2 ilustra situacoes vivenciadas pelas trabalhadoras com base nessas referidas categorias.

A partir daquilo que as participantes compartilharam com o grupo, buscou-se conscientiza-las tambem de que o agressor(es) utiliza(m)-se de procedimentos perversos, elaborados com muito cuidado e sofisticacao (Soboll, 2008), e que essa violencia pode ocorrer de forma lenta e gradual, de modo pouco especifico (Tolfo, 2011), o que justifica a percepcao de estarem confusas e questionarem suas proprias competencias. A maior parte dos abusos relatada pelas participantes, por exemplo, estava incluida na categoria degradacao proposital das condicoes de trabalho (Hirigoyen, 2002), enquanto uma forma menos visivel e mais naturalizada dessa violencia, que permite ao assediador permanecer pouco exposto em seus atos. Apenas P1, P2 e P3 relataram de forma aberta que passaram por muitas situacoes de atentado contra a dignidade, situacoes de violencia verbal e ameacas de violencia fisica (Hirigoyen, 2002), sendo essas duas categorias as manifestacoes mais explicitas do assedio, quando o assediador nao consegue alcancar o seu intento e aumenta o grau de violencia.

A auto-responsabilizacao e o sentimento de culpa tambem foi uma questao marcante nas verbalizacoes iniciais das participantes. Conforme Hirigoyen (2001), a desculpabilizacao constitui parte importante do processo de cura porque possibilita a reapropriacao do proprio sofrimento pelo individuo. Nesse sentido, uma das formas de lidar com esse aspecto nos encontros do grupo foi a reflexao sobre o contexto em que o assedio moral ocorre e as questoes sociais que propiciaram essa forma de violencia, alem de informacoes concretas sobre o assedio atraves de cartilha informativa. Os encontros acabaram sendo um espaco de confianca e confidencialidade entre as pessoas que participam deste. Portanto, com o auxilio do proprio grupo e mediadoras, elas conseguiram compreender que o movimento de se culpabilizar pelas situacoes vivenciadas era algo comum a elas, e com isso foi possivel refletir e entender que a cultura e subculturas das organizacoes podem favorecer alguns tipos de relacoes adoecedoras para os trabalhadores, e que cada trabalhador atua com suas possibilidades frente as relacoes de poder.

Nesse sentido, torna-se importante que a vitima reconheca que passou ou passa por situacoes de violencia e se manifeste por meios possiveis para enfrentar as agressoes e recuperar a confianca, o autoconceito e a autoestima. Conforme Hirigoyen (2001, p. 204) "expressar a manipulacao perversa nao leva a pessoa a ficar remoendo coisas, ao contrario, permite-lhe sair da negacao e da culpa".

A partir dos dados obtidos no decorrer dos encontros, especificamente no que se refere as vivencias de P1, P2 e P3, todas atuantes no mesmo local da rede publica de saude, pode-se sugerir a caracterizacao de assedio moral organizacional a medida em que parece haver praticas reiteradas, inseridas nas estrategias de gestao, por meio de pressoes e humilhacoes, para que sejam alcancados objetivos institucionais e ou de grupos politicos, com vistas a exclusao ou prejuizo de individuos com principios profissionais divergentes dos professados pelos assediadores (Gosdal, Soboll, Schatzmam & Eberle, 2009). Pode-se perceber a existencia de assedio organizacional no discurso das participantes:

"Outros trabalhadores do local tambem estao passando por isso"

--P1

"A partir do momento em que nao concordei com algumas situacoes que me pareciam antieticas, fui expulsa de reunioes"--P1

"Quando nao compactuei com aquela situacao, ela comecou a me perseguir e me colocar contra outros profissionais"--P3.

Nessa direcao, a ocorrencia de assedio moral no setor publico evidencia que esta pratica nao esta ligada somente a criterios economicos, rentabilidade ou concorrencia do mercado, mas a uma vontade de exercer o poder (Hirigoyen, 2002) de forma abusiva.

Os relatos das cinco participantes demonstram, ainda, o fato de estar presente nas situacoes de assedio recusa as diferencas e abuso de poder por parte dos agressores (Heloani, 2004; Tolfo, 2011) Ou seja, sujeitos com caracteristicas ameacadoras ao poder do(s) colega(s) de trabalho ou coordenador, podem ser alvo de situacoes abusivas por ser, por exemplo, um profissional comprometido, competente, autentico e questionador. Alem disso, P4 indicou o fato de ser negra como um facilitador no que tange as dificuldades nos relacionamentos com as estagiarias. Segundo a participante, questionavam suas competencias de professora, mas nao duvidariam de seu trabalho caso trabalhasse no setor de servicos gerais:

"Deveria estar limpando o chao porque dessa forma nao geraria conflitos"--P4.

Hirigoyen (2002) argumenta que "todo assedio e discriminatorio, pois ele vem ratificar a recusa de uma diferenca ou uma particularidade da pessoa." (p. 103). No entanto, sem duvidas, ha os casos nos quais o sujeito assediado ja e vitima de outras formas de preconceito e/ou discriminacao por se incluir em grupos minoritarios ou entrar em um grupo que nao suporta diferencas (Tolfo, 2011). No caso da participante P4, por exemplo, pode-se pensar em uma dupla discriminacao: genero e racial. Invitti e Tolfo (2008) verificaram, por exemplo, em pesquisa documental da Superintendencia Regional do Trabalho e do Emprego/MTE, em uma cidade do sul do Brasil, que havia predominancia de casos de assedio relacionada a questoes raciais, religiosas, em funcao de deficiencia fisica ou doenca, e em funcao da orientacao sexual. Tais resultados reforcam a nocao de que muitos individuos assediados pertencem a grupos historicamente alvos de exclusao social.

Alem da questao racial citada pela participante P4, pode-se tambem fazer uma reflexao acerca da interface entre assedio moral e genero, ja que nesse grupo de intervencao, participaram apenas mulheres. Autores como Exposito, Moya e Glick (1998) e Zubieta, Beramendi, Sosa e Torres (2011) afirmam ser pouco comum encontrar atualmente sujeitos que defendam abertamente a superioridade dos homens sobre as mulheres, embora ainda haja uma alta gama de comportamentos que refletem, de forma direta ou indireta, atos de discriminacao. Sem duvidas, desde que a mulher ingressou no mercado de trabalho, pode-se notar que varios aspectos das diferencas de genero tem se manifestado (Nery, 2005). Nesse sentido, estudos latinos sobre genero (Bonder & Rosenfeld, 2004; Nery, 2005; Zubieta, Beramendi, Sosa & Torres, 2011) tem enfatizado que as mulheres geralmente recebem salarios menores do que colegas homens sao submetidas a tarefas mais precarias, monotonas, repetitivas, tem menores oportunidades de conseguir empregos, sao as primeiras a entrar nas listas de demissao quando ha cortes nas empresas, alem de levarem um tempo medio maior para serem admitidas em um novo trabalho. Especialmente Nery (2005), ressalta que os sujeitos em sua pesquisa associam o assedio moral as relacoes de genero. Os resultados de sua pesquisa levaram a crer que as relacoes de genero sao grandes reguladores das relacoes de trabalho. A natureza das atitudes de assedio moral no trabalho pode muitas vezes ter uma conotacao sexual, sendo que as mulheres sofrem mais assedio moral do que os homens ou denunciam mais. Hirigoyen (2002) tambem entende que as mulheres sao mais frequentemente assediadas, bem como sao assediadas de forma diferente dos homens, devido as caracteristicas machistas e sexistas marcantes na nossa sociedade. Apesar desses dados, tambem ha indicios culturais que podem explicar a prevalencia feminina de casos conhecidos de assedio moral, como indicado por Heloani (2005), explicando que geralmente as mulheres tendem a procurar mais ajuda do que os homens e a se expor mais ao falar sobre as situacoes de assedio.

Dentre as atividades realizadas nos encontros, foi desenvolvida uma reflexao sobre os principais medos de cada participante em relacao a violencia no trabalho. Como resultado dessa reflexao elas identificaram repercussoes das atitudes hostis por parte do(s) agressor(es), tanto em nivel organizacional quanto em nivel pessoal. Como principais consequencias destacam-se: problemas familiares, prejuizos na saude fisica, irritabilidade, estresse, reducao na produtividade, clima desfavoravel para o trabalho, dificuldades referentes a criatividade, entre outros. Todas identificaram o nexo causal entre violencia no trabalho e prejuizos em relacao a saude global, vida profissional, social e familiar. Tal resultado reitera a nocao de que a vida profissional e outras areas vitais estao inter-relacionadas, de modo que a qualidade das relacoes estabelecidas no ambiente laboral pode tambem influenciar o modo como a pessoa se sente em outras esferas da vida (Leon & Garcia, 2014). Salienta-se ainda que o assedio moral traz custos para a organizacao, com os afastamentos (P2 ja havia se afastado), demissoes (P5, por exemplo), e diminuicao da qualidade do desempenho laboral (todas relataram dificuldades em exercer seus trabalhos de forma efetiva diante das situacoes abusivas). Esses resultados sao congruentes com a literatura organizacional, que tem verificado a forte correlacao entre as variaveis bem-estar psicologico no trabalho e produtividade (Leon & Garcia, 2014).

Percebeu-se que a elaboracao de uma carta simbolica para o(s) agressor(es) representou, para a maioria das participantes, a constatacao de muita dificuldade para expressar seus sentimentos, conforme relataram P1, P2 e P4. Para outras duas delas, entretanto, foi uma forma de expor as emocoes:

"Me senti aliviada depois que escrevi a carta, pois escrevi tudo o que nao teria coragem de falar para minha chefia"--P3.

Com essa atividade, P5 conseguiu, finalmente, organizar e compartilhar de forma mais clara as situacoes pelas quais havia passado no trabalho. A participante tambem explicou que a partir da escrita de forma analitica e possivel que consiga visualizar melhor seus problemas para posteriormente enfrenta-los.

Ao propor a inversao de papeis para que as participantes se colocassem no lugar dos assediadores, todas se recusaram a realizar a atividade, indicando que aquele momento nao era condizente com o nivel de elaboracao das participantes sobre a situacao. Os discursos envolveram falas como: "Eu nao consigo nem me imaginar agindo daquele jeito, e impossivel" (P1). Isso salientou, para as coordenadoras, a necessidade de constante adaptacao das atividades na coordenacao de grupos. Diante disso, solicitou-se que elas refletissem sobre o porque de nao conseguirem inverter os papeis.

Acrescenta-se, ainda, a existencia de uma dificuldade de forma geral das pessoas que sofreram assedio moral no ambiente de trabalho em falar e escrever sobre o que aconteceu, pois de acordo com muitas das participantes do grupo, entrar em contato com essas situacoes, mesmo atraves da fala e da escrita, fazia com que as emocoes oriundas de tais vivencias fossem retomadas (angustia, choro, medo, sentimento de humilhacao, etc). Esta dificuldade das participantes ficou evidente na atividade de elaboracao de uma carta simbolica para seus agressores, como ja descrito anteriormente, que decorreu na recusa e impossibilidade da maioria delas em estruturar a carta de forma clara e objetiva.

A tecnica de mapeamento dos pontos positivos e negativos no ambiente de trabalho, bem como a atividade de reconhecimento das diferentes maneiras para lidar com as frustracoes no trabalho, auxiliou na identificacao da rede de colegas de trabalho, amigos, e familiares que podem fornecer ajuda mutua ou suporte no enfrentamento de tais dificuldades. O proprio grupo de intervencao propiciou o desenvolvimento de um contexto de apoio mutuo entre as participantes, conforme tambem observado por Martins et al. (2012).

As estrategias de enfrentamento frente as dificuldades no contexto do trabalho tambem foram revistas pelas participantes. P1, P2 e P3, por exemplo, inicialmente pensavam unicamente em solucao juridica de denunciar a ocorrencia como maneira de enfrentar as situacoes. Nos ultimos encontros relataram nao objetivarem efetuar denuncia, pois provavelmente os assediadores nao seriam punidos. Por outro lado, identificaram estrategias como a fuga a situacoes constrangedoras e a manutencao de bons relacionamentos com alguns profissionais do local de trabalho (suporte social):

"Evitar bater de frente" (P1, P2 e P3).

"Tentar uma troca de turno" (P1 e P3).

"Investir em um novo setor de atuacao" (P2).

"Prestar concurso publico em outros locais caso o assedio persista" (P1).

"Fazer parcerias com colegas para evitar conflitos" (P4).

Ainda quanto as estrategias de enfrentamento baseadas no suporte social como fator de extrema relevancia, especialmente nesse contexto. Algumas das participantes relatavam ser muito dificil falar sobre o que havia acontecido, pois entrar em contato com essas situacoes, atraves da fala ou da escrita, fazia com que as emocoes oriundas daquelas vivencias fossem retomadas (angustia, choro, medo, sentimento de humilhacao, etc.). Notou-se uma dificuldade de forma geral das participantes de compartilharem essa informacao com familiares e amigos. P1 tinha uma uniao estavel, mas tinha dificuldade de conversar isso com seu namorado, pois de acordo com ela, seu companheiro nao aceitava essas atitudes dos agressores em relacao a ela e constantemente a aconselhava para sair daquele ambiente de trabalho. Porem, ela trazia para os encontros:

"Me esforcei para passar no concurso e gosto do meu trabalho, nao e justo que eu saia dele por causa de outras pessoas" (P1).

Ja a participante P2 referiu que sua mae, tia, avo e algumas colegas do trabalho sabiam sobre as situacoes que sofria, mas em relacao a sua familia preferia nao descrever detalhes para nao preocupa-las. P5 denominou-se uma pessoa solitaria, com diversos conflitos familiares e afastamento dos pais, sem fonte de apoio emocional a quem pudesse recorrer caso necessitasse.

Por ultimo, P5--que havia questionado a efetividade do grupo de apoio quando achou o primeiro encontro "pouco objetivo" e muito "emotivo" com a apresentacao das participantes, conseguiu, com o auxilio do grupo, identificar mais claramente as emocoes que sentia e as situacoes pelas quais passou. Ela conseguiu, tambem, elaborar as suas dificuldades no ambiente de trabalho organizando-as e dividindo-as em pequenas partes, de modo a "diminuir o caos". Alem disso, P5 afirmou que continuaria lecionando aulas particulares para adolescentes, mas que tambem elaboraria novo curriculo para voltar ao mercado de trabalho formal.

Consideracoes finais

Ao se considerar a centralidade que assume o trabalho na vida dos sujeitos, a gravidade do assedio, e suas consequencias para todos os envolvidos, percebe-se a importanica de intervencoes com trabalhadores que sofreram assedio moral. A partir deste estudo, avaliou-se que o grupo foi de extrema importancia para todas participantes, especialmente por ser um espaco de trocas de experiencias, onde ocorriam compreensoes e elaboracoes sobre o assedio, bem como identificacoes com a historia do outro com a finalidade de entender melhor o que acontecia em suas proprias historias.

Verificou-se, assim, que o atendimento na modalidade grupo permitiu o melhor entendimento acerca do assunto assedio moral, bem como o compartilhamento de experiencias referentes as situacoes de sofrimento, de modo a propiciar a identificacao e empatia entre as participantes, a partir da exposicao a situacoes semelhantes de frustracao na esfera profissional, bem como a partir de diferentes possibilidades de enfrentamento das situacoes. Essa identificacao, aliada a abertura para comunicacao e para a exposicao de emocoes e medos, e a existencia de objetivos comuns, auxiliou na dedicacao das participantes e no desenvolvimento positivo do grupo. Apesar do sofrimento expresso nas presentes em todos os encontros, o grupo auxiliou as participantes na reflexao sobre diferentes maneiras de enfrentar essas frustracoes, e a vislumbrar projetos futuros, fossem na fuga ao estresse ou no suporte social. Considera-se que os encontros do grupo tenham sido fonte de apoio social necessario para a vida das participantes como recurso de enfrentamento naquele momento. Finalizando, considera-se que o proposito de proporcionar escuta e cuidados emocionais, visando propiciar sentimentos de aceitacao, respeito e compreensao, tranquilizacao e apoio; encorajar a exposicao dos sentimentos; fornecer orientacao e garantir um seguimento do conjunto da vida de forma mais saudavel foi alcancado por meio da intervencao do psicologo, atuando em relacao a fenomenos organizacionais e do trabalho.

https://doi.org/10.18800/psico.201701.003

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Recibido: 17 de noviembre, 2015

Revisado: 11 de mayo, 2016

Aceptado: 16 de junio, 2016

Patricia Albanaes (1), Katia Julia Roque Rodrigues (2), Priscila Gasperin Pellegrini (3), Suzana da Rosa Tolfo (4)

Universidade Federal de Santa Catarina--Brasil

(1) Graduanda no curso de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina. Endereco postal: Campus Reitor Joao David Ferreira Lima, s/n--Trindade, Florianopolis--SC, 88040-900. Contato: patricia.albanaes@gmail.com

(2) Graduanda no curso de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina. Endereco postal: Campus Reitor Joao David Ferreira Lima, s/n--Trindade, Florianopolis--SC, 88040-900. Contato: floripakatiarr@gmail.com

(3) Mestranda no Programa de Pos-Graduacao em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina e especializanda em Terapia Relacional Sistemica no Instituto Familiare. Endereco postal: Campus Reitor Joao David Ferreira Lima, s/n--Trindade, Florianopolis--SC, 88040-900. Contato: prigasperin@gmail.com

(4) Professora associada do Curso de Graduacao em Psicologia e professora dos Programas de Pos-graduacao em Psicologia e em Administracao na Universidade Federal de Santa Catarina. Endereco postal: Campus Reitor Joao David Ferreira Lima, s/n--Trindade, Florianopolis SC, 88040-900. Contato: srtolfo14@gmail.com

(5) O projeto de extensao "Combate e prevencao ao assedio moral no trabalho para promocao da saude do trabalhador", do qual o presente estudo tambem faz parte, foi sistematizado no ano de 2011 e contem tres pilares principais: pesquisa sobre a tematica, compartilhamento de informacoes (atraves de cartilhas, palestras, seminarios e congressos), alem da realizacao de um grupo de apoio psicologico a pessoas que sofrem ou ja sofreram assedio moral em seu ambiente de trabalho
Tabela 1
Planejamento dos encontros do grupo de apoio

Encontro   Aquecimento              Desenvolvimento

Primeiro   Acolhimento;             Apresentacao das participantes
           Apresentacao do          por meio da dinamica do novelo;
           projeto.                 Levantamento das expectativas
                                    individuais.

Segundo    Acolhimento; Como se     Informacoes sobre assedio moral
           sentiram apos o          no trabalho com esclarecimentos
           primeiro encontro.       sobre a cartilha;

                                    Identificacao de pontos positivos
                                    e negativos no trabalho.

Terceiro   Acolhimento; Sintese     Reflexao sobre os medos de cada
           do encontro anterior.    participante em relacao a
                                    permanencia ou retorno ao
                                    ambiente de trabalho.

Quarto     Acolhimento Sintese do   Leitura da carta simbolica
           encontro anterior.       direcionada ao agressor no
                                    trabalho; Inversao de papeis.

Quinto     Acolhimento Indicacao    Reflexao sobre o impacto do grupo
           dos objetivos do         nas vivencias de cada
           ultimo encontro.         participante; Discussao sobre
                                    estrategias de enfrentamento.

Sexto      Acolhimento              Avaliacao das mudancas obtidas no
                                    periodo de pausa do grupo.

Setimo     Acolhimento              Elaboracao de um "jornal"
                                    relatando as mudancas e
                                    acontecimentos durante o periodo
                                    de pausa do grupo.

Oitavo     Acolhimento              Avaliacao das consequencias das
                                    estrategias de enfrentamento
                                    utilizadas (pros e contras);
                                    Planejamento futuro: escrever
                                    como se imaginam em seis meses.

Encontro   Fechamento

Primeiro   Reflexao sobre a compreensao do grupo acerca de
           conflitos e violencia no trabalho; momento de feedback
           sobre o compartilhamento das experiencias no grupo.

Segundo    Solicitacao de uma palavra ou breve sintese daquilo
           que cada participante poderia deixar como reflexao
           para o grupo naquele momento; solicitacao de
           identificacao dos medos em relacao a permanencia ou
           retorno ao ambiente de trabalho, para discussao no
           encontro da semana seguinte.

Terceiro   Reflexoes sobre o compartilhamento das experiencias,
           consequencias nas suas vidas pessoais, e solicitacao
           de tarefa para casa--escrita de uma carta simbolica
           ao agressor no ambiente de trabalho.

Quarto     Reflexao sobre o compartilhamento das experiencias e
           tentativa de inversao dos papeis.

Quinto     Reflexoes sobre as possibilidades de enfrentamento;
           solicitacao de uma palavra que cada participante deixa
           ao grupo, e despedida.

Sexto      Reflexao sobre as estrategias de enfrentamento
           utilizadas nesse periodo; reflexao sobre a necessidade
           de apoio individualizado.

Setimo     Reflexao sobre as mudancas ocorridas.

Oitavo     Retomada dos principais momentos do grupo.

Tabela 2
Exemplos de vivencias das participantes com base na classificacao de
Hirigoyen (2002)

Categorias de         Relatos ilustrativos
atitudes hostis
(Hirigoyen, 2002)

Deterioracao          "Chegou ao absurdo de brigarem comigo pela
proposital das        falta de um 'hifen' no meu relatorio"--P1
condicoes de
trabalho              "Me expulsaram de reunioes e depois lotavam a
                      minha agenda para eu nao participar de outras"-
                      -P1

                      "Pediam para eu coordenar grupos, mas nao me
                      davam o material necessario para isso"--P2

                      "Meus horarios no banheiro comecaram a ser
                      controlados quando estava gravida"--P3

                      "Fui contratada como engenheira, mais depois de
                      dois meses estava cumprindo a funcao de
                      secretaria do chefe"--P5

                      "Tentava dialogar, mas nao levavam em conta
                      nada do que falava e questionavam minhas
                      capacidades pedagogicas, me comparando com a
                      antiga professora (...) nao consigo legitimar o
                      meu papel como professora"--P4

Isolamento e recusa   "Eu tentava estabelecer um dialogo, mas nao
de comunicacao        queriam conversar e estabelecer uma parceria"-
                      -P4

                      "Quando eu estava gravida, me colocaram pra
                      trabalhar em uma salinha minuscula e abafada,
                      longe de tudo"--P3

Atentado contra a     P1, P2 e P3 indicaram ter suas imagens
dignidade             maculadas ou atingidas negativamente com
                      mentiras ao seu respeito, alem de perceberem
                      gestos de desprezo por parte dos assediadores
                      (olhares, suspiros, conversas paralelas, etc.).

Violencia verbal,     P1, P2 e P3 relataram que, constantemente eram
fisica ou sexual      comunicadas aos gritos pelos coordenadores e
                      alguns colegas de trabalho, alem de P3 ter sido
                      ameacada de violencia fisica.
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Author:Albanaes, Patricia; Rodrigues, Katia Julia Roque; Pellegrini, Priscila Gasperin; Tolfo, Suzana da Ro
Publication:Psicologia
Date:Jan 1, 2017
Words:10487
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