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Intervencoes do texto biblico no romance Tempo de Solidao, de Josue Guimaraes.

Introducao

Num cenario social e cultural tao misto, variavel e multiplo, cada vez mais obras de cunho artistico releem, reinterpretam e retomam tropos humanisticos do passado. No que concerne aos estudos literarios, tais relacoes, nunca unidirecionais, sempre dialeticas, retomam e reaproximam culturas e saberes. No seu famoso e polemico ensaio, "A Angustia da Influencia", Bloom (1994) fomenta a discussao sobre as relacoes da literatura com a propria literatura. Na opiniao do critico, nao sao apenas as novas obras que ganham com tais releituras, mas as fontes tambem. Bloom argumenta que um novo poeta que homenageia/discorda/rele um poeta do passado por meio da sua propria producao poetica esta, na verdade, reavivando o precursor. Embora sua tese seja aplicada principalmente a poesia, sua utilidade tambem se encontra em outros estilos literarios e ate mesmo em outros saberes, como demonstra Horgan (1998) em seu livro "O Fim da Ciencia".

Quando pensamos na influencia de textos do passado em obras literarias mais proximas de nos temporalmente, o texto biblico se apresenta como fonte inesgotavel de ideias, conceitos e historias que insuflaram--ate hoje--a mente de diferentes escritores. Essa influencia do texto biblico se da tanto em autores "modernos", como Franz Kafka, Herman Melville e Jose Saramago, quanto em autores classicos, como Dante Alighieri, John Milton e Luiz de Camoes. Ate mesmo autores brasileiros, como Scliar (1999) com o seu "A Mulher que Escreveu a Biblia"--romance inclusive fruto de duas "influencias": o texto biblico ate o reinado de Salomao e o proprio texto de Bloom (1992), "O Livro de J", no qual ele apresenta a curiosa ideia de que parte dos livros de Genese, Exodo e Deuteronomio teriam sido fruto de uma escritora, sudita do reino do filho de Salomao, Roboao. No panorama da literatura do Sul do Brasil, encontramos tambem outro escritor que faz uma releitura extremamente interessante do texto biblico, adaptando-o ao cenario e aos costumes sociais do Brasil imperio.

Tal forma literaria hibrida--que perpassa o saber biblico revelando seus ecos culturais na colonizacao de um pais como o Brasil--e exemplar ao demonstrar como diferentes tempos, multiplos saberes e dicotomicas vivencias se entrecruzam num infindavel circulo autorreferencial. O objetivo desta analise e tracar os pontos divergentes entre o tropo biblico e as escolhas dramaticas do escritor sulbrasileiro Josue Guimaraes. Este estudo apresenta uma interpretacao sobre o nome do personagem Daniel Abraao, no romance "A Ferro e Fogo I: Tempo de Solidao", como um paradigma da esperanca migratoria frustrada representada pela familia Schneider. Por meio de uma releitura da cultura judaica, presente nos livros de Genesis e de Daniel, Guimaraes (1977) faz uma adaptacao inversa das qualidades e experiencias dos personagens biblicos, Abraao e Daniel, tendo como cenario o Sul do Brasil na epoca da colonizacao alema.

Erico Verissimo e Josue Guimaraes: duas visoes da genese do Rio Grande do Sul

O primeiro volume da originalmente pensada trilogia "A Ferro e Fogo", de Josue Guimaraes, e o relato de angustiantes e incisivas vivencias de imigrantes alemaes no Sul do Brasil. Entre as cidades de Chui, Sao Leopoldo e Rio Grande, a narrativa de Guimaraes (1977) apresenta um ambiente violento, pobre e hostil que perpassa a Guerra da Cisplatina, no tempo do Brasil Imperio. A saga da familia Schneider, na representacao da corajosa Catarina, do fanatico e fraco Daniel Abraao e no crescimento de seus filhos, e a saga da formacao de um Estado. Nao de um Estado fraco ou extremamente sensibilizado, mas de um Estado coeso, constituido de pessoas e familias fortes e dispostas ao trabalho e a modificacao social.

Tanto a obra de Erico Verissimo quanto a de Josue Guimaraes muitas vezes sao estudadas em paralelo como romances de formacao social. A primordial diferenca esta na escritura de Verissimo (2000) que apresenta uma imagistica epica e ate mesmo idealizada na descricao de um povo riograndense corajoso e multiplo etnicamente. Em seu grande estudo literario sobre a formacao desse Estado, personagens como Capitao Rodrigo e Ana Terra, ao lado de toda a familia Cambara, sao os pontos de ligacao dessa paisagem cultural majestosa. Os personagens de Verissimo (2000) enfrentam a terra hostil, os povos em busca de saque e violencia e as agruras de uma vida rural primitiva na medida em que desvendam e aniquilam seus proprios temores. No Rio Grande de Verissimo (2000) nao ha tempo para hesitacoes e temores. Podemos ver na obra "O Tempo e o Vento", numa narrativa que perpassa mais de 200 anos, o retrato de um pequeno continente que se adapta e se reconstroi, uma civilizacao que se forma em meio a uma terra inospita e adversa. No entanto, mesmo em suas quedas morais e fisicas, todas as personagens de Verissimo reunem forcas para se recompor.

Diferentemente, na prosa de Guimaraes (1977), encontramos descricao mais preocupada com a rotina, com o sofrimento, com o tedio da vida desses homens e mulheres duros, machucados e embrutecidos num ambiente selvagem e perigoso. Podemos inferir que, se a obra de Verissimo (2000) descreve as potencialidades da formacao gaucha, Guimaraes (1977) trabalha num registro de amargas promessas desfeitas. Nesse aspecto, a familia Schneider nao esta sozinha. A ela, assim como a varias outras familias, foi ofertada uma enganosa terra prometida, uma inalcancavel Canaa. Na descricao de Guimaraes (1977), o Sul do Brasil e uma colecao de variedades: caudilhos, politiqueiros, indios, prostitutas, soldados, castelhanos, entre outros. "Tempo de Solidao" e um romance dedicado a descricao do desencanto desse imigrante ao vivenciar experiencias traumaticas e angustiantes. Nisso, a representacao do personagem masculino, Daniel Abraao, e curiosa, pois revela em suas acoes uma religiosidade extrema mas infelizmente improficua. Na terra narrada literariamente por Guimaraes (1977), o espiritual inexiste. Oracoes e recitacoes religiosas sao inuteis e impraticaveis num ambiente em que homens roubam, estupram, destroem, matam e sao mortos sem nenhum sinal de ajuda celeste.

A bifurcacao judaica: o imigrante Abraao e o exilado Daniel

O nome Daniel Abraao encerra em si dois dos mais importantes personagens da biblia hebraica: o pai da nacao judaica, Abraao, e o profeta interpretador de sonhos, cativo em Babilonia, Daniel. Sobre eles, e necessario primeiramente apresentar pontos comuns antes de uma descricao individual. Nos dois casos falamos de homens fieis a sua divindade. Sao homens entregues a sua esperanca, em terras estranhas cujos moradores sao infieis--no que concerne a crenca em Jave--e violentos com os estrangeiros. Homens dispostos a abdicar de terras, de familias, de amigos e ate mesmo de uma vida mais prazerosa em prol da ordenacao celestial. Abraao esconde do rei egipcio que Sara e sua esposa, temendo ser assassinado, conforme Genesis, capitulo 12. Daniel e jogado num poco profundo para ser devorado por leoes, no livro que leva seu nome, no sexto capitulo. Nas duas historias--afastadas temporalmente por mais de um milenio ha recompensa pela fidelidade. Seu Deus, o tempestuoso Jave, salva-os, protege-os e os recompensa. Ja no romance de Guimaraes (1977), Abraao recebe sua terra prometida, porem essa nao "mana leite e mel", e sim odio e morte. Em "Tempo de Solidao", Daniel nao tem sonhos esperancosos e libertadores, antes, tem pesadelos com dias claros e descampados iluminados por um sol caustico e desconfortavel.

Abraao e o primeiro patriarca de diversas nacoes hebraicas. Ele recebe de Deus ordem para sair de sua terra natal, Ur dos Caldeus, e partir em viagem com Sara, sua mulher, e Lo, seu sobrinho. Abraao instalase na terra de Canaa, ao passo que Lo estabelece residencia na cidade de Sodoma (CARR-GOMM, 2004, p. 10). Baseando-se numa profunda analise do relato do Genesis, Lafon (1998, p. 27) afirmara que "Abraao nao queria amar nem ser livre para amar ... queria ser livre ate dessas relacoes". Nesse respeito, o personagem Abraao, conforme destaca o estudioso frances, e destituido de qualquer vinculo humano mais forte. Lafon (1998, p. 133) continua:
   Ele era estrangeiro tambem em relacao aos outros
   homens, e assim sempre permaneceu, mas nao
   distante nem independente a ponto de ignora-los
   totalmente ou evitar quaisquer relacoes com eles [...]
   ele permaneceu firmemente atrelado a seu
   isolamento, assinalado por uma particularidade
   corporal imposta a ele mesmo e a seus descendentes.


Em contraste com esse estranho ascetismo de Abraao, temos no livro de Daniel uma caracterizacao um pouco diferente do servo de Jave. Nele, o jovem Daniel e reconhecido por sua natureza onirica na qual e sempre associado ao heroi do Genesis, Jose, como sendo mestre na interpretacao de sonhos. No registro biblico, o hebreu Daniel estava cativo na capital do imperio babilonico. Centro de uma pratica religiosa plural, Babilonia permitia o culto e a adoracao de qualquer divindade desde que seus habitantes respeitassem e seguissem a lei local. Em Babilonia, Daniel interpretou os sonhos dos reis Nabucodonosor e Baltasar (CARR-GOMM, 2004, p. 73). Daniel tambem e vitima de sua devocao exclusiva e da impaciencia que sente por outros homens pertencentes a uma cultura diferente e dedicados a divindades desconhecidas por ele.

Muito teoricos, entre eles Bloom (1992, 1993), nos livros "Abaixo as Verdades" Sagradas e "O Livro de J", mencionam que a escritura hebraica nomeada pelos cristaos de Velho Testamento--e a historia de um povo em eterna busca. Desde a expulsao do figurativo Eden, o povo de Jave esteve sempre a espera de algo. Sua Canaa e tanto fisica uma terra literal repleta de bencaos, dadivas e belezas--quanto espiritual. A espera pela Canaa judaica, desse ponto de vista, dura ate hoje. Logicamente essa espera pelo futuro ideal nao e exclusividade judaica, tendo tambem "contaminado"--e nao uso aqui a palavra com valor pejorativo--o Cristianismo como um todo. A crenca do Juizo Final que antecedera a recompensa dos justos e tambem uma revalorizacao do futuro, do ideal, do perfeito, do uno com a divindade e com o outro. No entanto, tal objetivacao do futuro, significa, pelo menos momentaneamente, um esquecimento do presente. Esse eixo tematico, que perpassa o texto biblico, e que se estabelecera em toda a literatura ocidental, sera para os escritores de formacao nacional constante ponto de encontro em suas narrativas. Assim, se "O Tempo e o Vento", de Verissimo (2000), e uma busca pela Canaa familiar caracterizada pela saga da familia Cambara, em "A Ferro e o Fogo", Guimaraes (1977) tracara a antiCanaa, a terra esteril que apresenta aridez quando antes prometia fertilidade.

No protagonista de Guimaraes (1977), esses dois personagens se encontram num cruzamento especular com suas fontes biblicas. Para Daniel Abraao nao ha esperanca, sonhos beneficos ou anjos descendo em revoada para lhe salvar, como em suas contrapartes biblicas. Em "A Ferro e Fogo", o homem nao e um filho de Deus, e antes um filho do homem, irmao do homem, escravo do homem, vitima do homem.

Tempo de solidao: o ser fora de seu mundo

No Brasil Imperial do romance de Guimaraes (1977), imigrantes sao sinonimos de escravos. Alemaes sao chamados, nomeados e tratados como indios, bugres e negros em varios capitulos do livro. Homens ricos, carentes dos beneficios do trabalho escravo, veem na chegada dos imigrantes uma nova fonte de trabalho barato. Um desses, Grundling, e o responsavel pela viagem dos Schneider, que desconhecem o objetivo da mesma, ao Sul do Estado. O resultado e funesto: Catarina cuida da casa enquanto Daniel Abraao esconde-se num poco, temendo os estancieiros e soldados que chegam em busca das armas de Grundling, primeiramente escondidas na estancia cedida aos Schneider. Apos meses de fome e frio, escuridao e de recorrentes estupros, todos comecam a ver que "o Novo Mundo comecava a ficar irreversivel" (GUIMARAES, 1997, p. 10). Grundling, o qual podemos tomar por antagonista, tambem enfrentara na pele os sofrimentos de uma vida na qual nem todas as riquezas possiveis podem afastar o homem do peso da solidao. A morte de sua esposa, Sofia, no fim da narrativa, coloca-o ao lado de Catarina, que estava decidida a mata-lo por vinganca, mas que muda de ideia ao perceber que na Canaa tardia do Sul Brasileiro o ferro e o fogo marcam a todos.

Em tal mundo hostil, crencas religiosas nao fazem sentido num cenario em que nada faz sentido. Quando Catarina e mais uma vez estuprada pelos soldados em busca do chefe da casa e das armas escondidas ali,
   [...] nao conseguia lembrar-se de nenhuma frase da
   Biblia, alguma que lhe desse conforto ou que
   justificasse a sua passividade. Nao pensava nela, por
   Deus Nosso Senhor. Nao sentia mais nada a nao ser
   o odio e nojo, inclusive de si propria. Sentiu-se
   novamente agarrada [... ] uma besta no cio, um touro
   execrando a bufar, as suas carnes e entranhas
   massacradas, um fogo por dentro e, finalmente--um
   minuto depois, meia hora, duas--a solidao
   (GUIMARAES, 1977, p. 45).


Nesse momento, o sexo dos homens que a violentam e como um fogo infernal que lhe queima as entranhas. Nesse caso nao apenas as entranhas de seu corpo como tambem as entranhas de sua alma. O tempo, para Catarina, perde qualquer marcacao. Minutos e horas passam num instante. Passam numa eternidade de dor e odio crescente. Ela nao luta. Nao ha por que lutar. E uma luta ja vencida pelas forcas que sufocam e castigam o homem ao adentrar a terra estranha. Enquanto isso, Daniel esconde-se no fundo de um poco. La, ele vira uma sombra (REMPEL, 2000). Os gritos da mulher, os dias que passam lentos, as dores nos musculos, o cabelo e a barba a crescer desgrenhados levam a personagem a um estado catatonico passivo digno, nao do Daniel biblico, homem corajoso e intenso, mas de um Nabuconosor, condenado por Jave a sete anos de loucura, vivendo como e com os animais no campo. O Daniel Abraao de Guimaraes (1977) e um animal, acuado e confuso, para quem tudo o que e externo e indiferente. O banho, a comida, a companhia, o sexo e todas as outras atividades sao para ele apenas sinais de que o fim apocaliptico pregado por Sao Joao no ultimo livro da biblia esta muito proximo.

Nesse sentido, nao ha conforto religioso numa literatura que nao esta interessada em expressar o transcender espiritual, invisivel, intangivel, talvez ate inalcancavel. Antes, Guimaraes (1977) procura em sua obra um sentido palpavel de uma vida nao confortavel. Seus personagens sao pequenas folhas secas, exauridas e cansadas, levadas pelo vento do tempo. A ferro e fogo, pela dureza e pelo calor escaldante, seus personagens sao forjados em meio ao sofrimento. Em tal ambiente, Daniel Abraao ve em sua religiosidade-- em alguns aspectos de um catolicismo medieval--um escape da realidade social angustiante. Rempel (2000, p. 89) menciona que a biblia trazida da Alemanha havia se tornado a verdadeira companheira do personagem. "Atraves da leitura da biblia, ele encontrava consolo e conforto para o periodo conturbado pelo qual passavam".
   Noll contou que tinha sonhos deslumbrantes uma
   vez por semana. Via uma luz muito brilhante no ceu
   e da luz vinha uma voz como o trovao. Seria a voz de
   Deus. Ameacava o homem com ferro e fogo. Afinal,
   todos pecam dia e noite, Herr Schneider. Veja so a
   cobica entre irmaos, o exagerado amor pelo dinheiro,
   o vizinho desejando a mulher do vizinho, ninguem
   mais quer saber da igreja e das palavras de Jesus
   Cristo. Havera alguma coisa na biblia sobre esses
   sonhos? Quem sabe ja nao sera uma visao do proprio
   Apocalipse?

   Daniel Abraao fechava a Biblia sobre uma das maos e
   com a outra batia nela com vigor:
   Tudo o que acontece sobre a face da terra, debaixo
   dela ou nos ceus, tudo esta aqui neste livro
   (GUIMARAES, 1977, p. 133).


Contrasto com essa passagem uma citacao de Lafon (1998) sobre o carater do personagem biblico Abraao, que muito se harmoniza com a caracterizacao do personagem de Guimaraes (1977).

O mundo todo, seu oposto absoluto, era conservado na existencia por um Deus que Lhe permanecia estranho, um Deus em quem nenhum elemento da natureza encontraria participacao, mas que denominava todas as coisas. Da mesma maneira, e dele, do outro oposto, o oposto a totalidade do mundo, que Abraao, como tal, tendo sido completamente incapaz de ser, tirava sua existencia; e somente gracas ao Deus que ele tambem se relacionava de maneira mediata com o mundo, unico tipo de relacao possivel entre eles; seu Ser ideal lhe submetia este mundo, saciava-lhe as necessidades e garantia sua seguranca (LAFON, 1998, p. 30).

E nesse sentido que a consciencia de Daniel Abraao e retratada: seu mundo nao e o mundo de Catarina, de seu filho Philip ou de qualquer outro personagem do romance. Seu mundo e o mundo religioso utopico ao qual ele adentra com total entrega e devocao. Para ele, apenas o que e biblicamente explicavel e essencialmente compreensivel. Por isso ele foge da realidade, por isso ele e indiferente aos convites sexuais da esposa, por isso ele cava um buraco no qual se sente seguro e tranquilo.

Para Daniel Abraao, a vala escura e um utero aceitavel e protetor. Nao quer chorar como choram os pequenos ao nascer. Antes, quer se esquecer num momento interminavel de calor e protecao. Sensacoes inimaginaveis na aridez da terra em que se encontra.

Como reflexo de suas contrapartes biblicas, Daniel Abraao tenta ser um profeta milagreiro numa terra que nao lhe da ouvidos. Fora alguns vizinhos curiosos da leitura e da interpretacao do senhor Schneider, ele vive como um profeta louco cujas profecias apocalipticas nao tem utilidade nenhuma. Em resposta as suas palavras e acoes, sentimo-nos penalizados pela solidao e pela forca demonstrada por Catarina. Se o homem e o guardiao e patrao de sua esposa na cultura judaica, Daniel Abraao, nome duplamente judeu, e exatamente o oposto disso: sua fraqueza e sua passividade fazem dele um pequeno menino apatico, cuja mae/esposa Catarina ira proteger e guiar durante todo o tempo descrito por Guimaraes (1977).

Sobre essa caracterizacao, Pimpao (1978, p. 3) menciona que "as guerras constantes no centro do continente europeu originaram situacoes desesperadoras para os habitantes das regioes economicamente mais pobres. Para muitos deles a unica alternativa que se oferecia era a emigracao. Essa significava deixar a patria, na tentativa de nao morrer de fome". Entre o fugir da pobreza e o encontrar miseria mais dura ainda, o romance de Guimaraes (1977) e um espelho da inutilidade das acoes humanas em tentar escapar de um ambiente, idealizando a felicidade e a seguranca em outro.

Continuando o percurso nomade judaico, percebemos que a colonizacao dos imigrantes europeus em busca das promessas de um novo mundo perfeito foi meramente ilusoria. No entanto, e interessante notar que, mesmo estando distante de sua terra, e aqui podemos perceber outra relacao com os judeus, esses imigrantes, passados mais de 200 anos, continuam a valorizar e a retomar sua cultura e seus costumes. Essa fidelidade cultural e a marca de um povo nao disposto a adaptacoes culturais, mas consciente de sua origem e da importancia dos valores de seus antepassados.

Centrando sua narrativa nos dramas de um Brasil Colonia, arido e tortuoso, Guimaraes (1977) rele a narrativa biblica, negando-lhe o sentido primeiro desse texto, que destaca as peregrinacoes de um povo, figurado tanto no primeiro patriarca, Abraao, quanto no jovem profeta exilado, Daniel. Na cultura judaica, a recompensa de Jave e certa. Abraao e seus filhos, Jaco e Isaque, receberam-na. Os profetas, incluindo Daniel, Isaias e Jeremias, entre outros, dedicaram uma existencia completa ao profetizar mediunico que denunciava as injusticas e prometia a libertacao messianica. Diferentemente, no Daniel Abraao de Josue Guimaraes, tudo se perde, tudo se esquece, tudo se dissolve. Em "Tempo de Solidao", a citacao biblica nao mostra concordancia tematica. Antes, apenas demonstra a angustia espiritual/existencial naqueles que desejam explicacoes alem vida para o sofrimento terreno.

Conclusao

Em varios momentos do romance de Guimaraes (1977), as promessas de uma terra fertil sao contrastadas com a dureza da realidade que os envolve. Nas mentes das personagens de Catarina e Daniel, mentes cansadas e machucadas, ha uma rememoracao de antigos sonhos e planos. Tais esperancas prometiam um descanso e uma dignidade que desconheciam em sua terra natal. Entretanto, a arida e solitaria realidade nao os deixa descansar.

No contraste entre as lembrancas de Catarina e as reflexoes de Daniel Abraao, percebemos um desencanto total com relacao ao ideal anterior ofertado pela sedutora proposta de Grundling e pela realidade vivenciada por eles nos confins do Rio Grande do Sul. Nessa falsa terra prometida ha apenas o som do futuro imperfeito e angustiante que chega. Nessa mentirosa Canaa, resta-lhes apenas dormir, esquecer, repousar, no silencio de um tempo de solidao.

DOI: 10.4025/actascilangcult.v33il.6916

Received on April 23, 2009.

Accepted on September 7, 2009.

Referencias

BLOOM, H. O Livro de J. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

BLOOM, H. Abaixo as verdades sagradas. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1993.

BLOOM, H. A angustia da influencia. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

CARR-GOMM, S. Dicionario de simbolos na arte. Bauru: Edusc, 2004.

GUIMARAES, J. A ferro e fogo I: tempo de solidao. 4. ed. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1977.

HORGAN, J. O fim da ciencia: uma discussao sobre os limites do conhecimento cientifico. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1998.

LAFON, G. Abraao: a invencao da fe. Sao Paulo: EDUSC, 1998.

PIMPAO, A. C. Vieram em busca da liberdade. Os 150 anos da imigracao alema no Brasil. Rio de Janeiro: Olimpica, 1978.

REMPEL, M. C. A representacao da mulher alema em A Ferro e Fogo e Videiras de Cristal. 2000. 138f. Dissertacao (Mestrado em Letras)-Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2000.

SCLIAR, M. A mulher que escreveu a Biblia. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1999.

VERISSIMO, E. O tempo e o vento: o continente I. 34. ed. Sao Paulo: Globo, 2000.

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Eneias Farias Tavares

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Title Annotation:texto en portugues
Author:Tavares, Eneias Farias
Publication:Acta Scientiarum. Language and Culture (UEM)
Article Type:Ensayo critico
Date:Jan 1, 2011
Words:3625
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