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Interdisciplinarity seen as a complex process of knowledge production: an analysis of the EGC/UFSC graduate program/Interdisciplinaridade vista como um processo complexo de construcao do conhecimento: uma analise do Programa de Pos-Graduacao EGC/UFSC.

1 Introducao

O processo de construcao do conhecimento humano opera utilizando a logica de que, a partir do comando dos paradigmas individuais e do grupo, selecionam-se no meio os dados significativos, rejeitando dados nao significativos a partir de etapas simples, como: separa, distingue ou disjunta; une, associa e identifica; hierarquiza; centraliza em funcao de um nucleo de nocoes-chave. Esse processo ordena os fenomenos, eliminando o incerto e a desordem, visando clarificar os elementos do saber a ser construido. Facil e muitas vezes automatico, esse processo acaba por cegar o individuo por nao comportar o todo e excluir a complexidade das incertezas, contradicoes e das interrelacoes dos fenomenos. O individuo com sua inteligencia cega nao percebe os conjuntos e sua totalidade, passando a nao controlar intelectualmente o sentido e a natureza de seus caminhos, escolhas e descobertas e as consequencias desses.

Morin (2006) afirma que a incapacidade de conceber a complexidade da realidade antropossocial, seja na dimensao do individuo como na dimensao planetaria, leva a estrategias politicas manipuladoras a partir de "pulsoes cegas", nao se construindo no jogo multiplo das interacoes e retroacoes, mas sim na certeza cega da simplificacao maniqueista. Os programas de pos-graduacao tem a obrigacao de romper com essa cegueira comoda, levando seus alunos a se preparar para o campo de pesquisa e trabalho, mais comprometidos com os resultados de suas acoes, gerenciando o seu proprio processo de construcao de conhecimentos--sua aprendizagem. Resposta encontrada na promocao da interdisciplinaridade.

O que seria a interdisciplinaridade senao a construcao de um sistema complexo que visa integrar as verdades de cada disciplina como unidades simples, mas aceitando suas diferencas e respeitando a complexidade de sua propria formacao, reintegrando cada disciplina em um todo que ja foi um dia naturalmente unido. Passando entao a perceber cada disciplina como inseparavel da construcao do todo do qual passa a fazer parte, distinguindo-o, porem, desse mesmo todo.

No programa de Engenharia e Gestao do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGEGC/UFSC), constituido inicialmente por docentes ligados a 10 departamentos de sete diferentes centros da Universidade, respeitam-se os paradigmas de cada unidade disciplinar, mas assume-se que, em contato, professores e alunos advindos de diferentes disciplinas constroem nova visao de mundo que retroalimenta paradigmas unitarios, fortalecendo nao somente o espaco em que elas conversam, mas principalmente fazendo evoluir suas proprias certezas paradigmaticas. Evoluir na direcao antes proibida por ser o caminho desconhecido para a ciencia da qual faziam parte.

Mas juntos, nesse espaco de criacao do novo, fortalecem-se ao permitir-se questionar os limites de suas origens, pois o pensar interdisciplinar parte da premissa de que nenhuma forma de conhecimento e em si mesma exaustiva. Tenta, pois, o dialogo com outras fontes do saber, deixando-se irrigar por elas (FAZENDA, 2002, p. 15).

Nesse contexto, definiu-se o objetivo deste artigo, que e analisar o processo de construcao interdisciplinar do PPGEGC/UFSC pela percepcao docente e discente, considerando suas proprias vivencias em sala de aula.

Desde sua concepcao, o EGC tem caracterizado seu foco de pesquisa e formacao no conhecimento e nos processos que lhe tornam fator gerador de valor na sociedade contemporanea.

Alem do conhecimento enquanto produto, o EGC tambem trata dos processos que o tornam gerador de valor. Sua estruturacao em areas de concentracao e justamente decorrente da atribuicao de missoes interrelacionadas aos processos de codificacao/formalizacao (area de Engenharia); planejamento e gerencia (area de Gestao); e difusao, comunicacao e compartilhamento (area de Midia) do conhecimento.

O EGC/UFSC entende, portanto, que seu objeto de pesquisa e formacao e essencialmente interdisciplinar, ainda que admita abordagens multidisciplinares para compreender e avancar no conhecimento de partes de seu objeto. Quanto mais avancado na compreensao do conhecimento como elemento gerador de valor na sociedade contemporanea, mais o Programa tem a essencia interdisciplinar da natureza de seu objeto e mais consciente tem ficado da necessidade de se estruturar organizacional, metodologica e pedagogicamente para tratar adequadamente de sua missao.

A missao do EGC e unir os desenvolvimentos cientificos e tecnologicos da Engenharia, da Gestao e da Midia do Conhecimento, seus instrumentos de mensuracao e analise e suas tecnicas de ciencia aplicada para o desenvolvimento da sociedade. Essa missao e buscada pelo foco no ensino, na pesquisa, no desenvolvimento e na implementacao de metodos e tecnicas para a promocao da criacao, da codificacao, do gerenciamento e da disseminacao do conhecimento entre a universidade e os diversos segmentos da sociedade, independentemente da localizacao geografica ou temporal dos agentes desse processo.

2 Interdisciplinaridade

A interdisciplinaridade, afirma Fazenda (1995), e uma exigencia natural e interna das ciencias e busca trazer uma melhor compreensao da realidade. Na visao de Minayo (1994), a preocupacao tem sido a de que a dispersao de conhecimento, que corresponde a divisao de trabalho intelectual presente na disciplinaridade, nao deveria resultar em contradicoes entre os pesquisadores e o resultado de seus trabalhos.

Percebendo a interdisciplinaridade como a articulacao entre os dominios das ciencias humanas ou sociais e das ciencias naturais, Gusdorf (apud MINAYO, 1994) faz a critica a fragmentacao e propoe um humanismo radical, em oposicao ao positivismo vigente.

Ja para Carneiro Leao (apud MINAYO, 1994), a interdisciplinaridade nada tem a ver com o mundo da vida e com o real concreto, mas esta imbuida de modelos teoricos e e resultante do desenvolvimento da ciencia e da tecnica na logica da funcionalidade (transformar o real em operacional). Para o pensador, as questoes atuais da ciencia e da tecnica so podem ser desenvolvidas na e pela interdisciplinaridade. Para ele, a interdisciplinaridade e uma construcao funcional dada pelo avanco da ciencia e intrinseca a ela (CARNEIRO LEAO apud MINAYO, 1994).

Outro ponto de vista interessante na analise da contraposicao de interdisciplinaridade e positivismo e o de Habermas, que critica a ciencia, mas parte de sua positividade. Habermas (apud MINAYO, 1994) pensa em uma saida por meio da filosofia, assim como Gusdorf, mas uma filosofia que amplie sua atividade para o trabalho cooperativo interdisciplinar, alem do posicionamento critico e negativo.

A cooperacao interdisciplinar manteria atitudes criticas fundamentais: de um lado, em relacao a racionalidade tecnica, instrumental e a ideologia tecnocratica; de outro, em relacao a tentativa de colonizacao do mundo vital pela ciencia e pelas tecnologias sofisticadas e a ideologia funcionalista que as justifica (MINAYO, 1994, p. 58).

Embora partam de pontos de vista distintos, percebe-se que e de comum acordo que a interdisciplinaridade contribui significativamente para o avanco da ciencia, principalmente no estudo de temas complexos, impossiveis de estudo disciplinar, cabendo distinguir a interdisciplinaridade de pluri (ou multi) e de transdisciplinaridade.

Pombo (2003) propoe que a pluri (ou multi) disciplinaridade supoe o por em conjunto, ou seja, estabelecer algum tipo de coordenacao; em uma perspectiva, colocar pontos de vista somente em paralelo. Quando se ultrapassa a dimensao do paralelismo e se avanca no sentido de uma combinacao, de uma convergencia, de uma complementaridade entre as disciplinas, temos a interdisciplinaridade. Ja quando se consegue aproximar de um ponto de fusao, de unificacao, quando nao fosse mais possivel separar e se passasse a uma perspectiva holista, chegar-se-ia, entao, a transdisciplinaridade.

Na pratica do ensino, segundo Fazenda (2002, p. 31), a multidisciplinaridade se justapoem "conteudos de disciplinas heterogeneas" ou a interacao de conteudos em uma mesma disciplina, sendo essas etapas para se alcancar com competencia a interdisciplinaridade. Em uma pratica interdisciplinar, muda-se a atitude do pesquisador/ professor perante o problema do conhecimento, substituindo o olhar das partes independentes para uma percepcao do sistema de construcao do conhecimento como um todo, respeitando as interretroalimentacoes das partes no processo.

Ressalta-se que o principio de distincao entre ser multi, pluri, inter ou transdisciplinar e sempre o mesmo: a interdisciplinaridade se caracteriza pela intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integracao real das disciplinas, no interior de um projeto especifico de pesquisa. A distincao entre as duas primeiras formas de colaboracao e a terceira esta em que ao multi e ao pluridisciplinar basta que se justaponham os resultados de trabalhos de mais de um especialista, nao havendo integracao conceitual, teorica e metodologica.

Pelo outro lado, pode-se retomar essa distincao ao se fixar as exigencias do conhecimento interdisciplinar para alem do simples monologo de especialistas ou do dialogo paralelo entre dois deles, pertencendo a disciplinas vizinhas. O espaco do interdisciplinar como verdadeiro horizonte epistemologico nao pode ser outro senao o campo unitario do conhecimento. Jamais esse espaco podera ser constituido pela simples adicao de todas as especialidades nem tampouco por uma sintese de ordem filosofica dos saberes especializados. O fundamento do espaco interdisciplinar devera ser procurado na negacao e na superacao das fronteiras disciplinares (NAKAYAMA, 2009).

Essa reflexao e baseada em duas questoes colocadas por Ju piassu:
   O que podemos fazer quando reconhecemos que nossos conhecimentos
   revelam uma tremenda incapacidade de pensar o mundo globalmente e
   em suas partes? Ou quando, diante de sua extraordinaria
   complexidade, constatamos que nosso pensamento se encontra bastante
   preso as cegueiras e miopias que caracterizam nossas atitudes
   diante dos saberes fragmentados e nos sentimos incapazes de
   reformar nossas universidades divididas em departamentos sem portas
   nem janelas e sem uma verdadeira comunicacao e dialogo entre seus
   componentes? (2006, p. 20)


Fazenda (2002) aponta que, na verdade, a institucionalizacao da interdisciplinaridade para os programas universitarios vai alem do querer ou nao individual. Atropelados pela complexidade na busca de solucoes para os problemas de ciencia surgidos, cada disciplina se ve obrigada a buscar explicacoes para alem de suas fronteiras tao bem demarcas. A comunidade cientifica teve sim que caminhar pelo desconhecido, buscando entender a linguagem do outro para que pudesse traduzi-la para seu proprio campo. Com isso, o paradigma cientifico entrou em crise e, se assim e, cabe aos cientistas dar conta de uma mudanca muito profunda no modo de fazer ciencia (POMBO, 2003), principalmente quanto ao policiamento das fronteiras das disciplinas e a punicao aos que ousarem transpor barreiras (FAZENDA, 2002, p. 15).

No entanto, um processo de mudanca envolve resistencias individuais e de grupos, visto que mudar significa desconstruir zonas de conforto, questionando crencas e certezas, eliminando bases de sustentacao institucionais, epistemologicas e metodologicas.

A complexidade da construcao de um programa interdisciplinar esta em que, para ele existir e se consolidar enquanto programa disciplinar (ainda exigido pela comunidade), tem-se que estabelecer limites e horizontes que orientarao, desde a identificacao do objeto de estudo ate os instrumentos aceitaveis para sua investigacao (KUHN, 2006), mas, paradoxalmente, tem-se que lutar contra esses mesmos limites e horizontes para que nao se transforme em mais uma limitada disciplina, visto que, para considerar-se interdisciplinar, deve dialogar e reconstruir os diferentes caminhos possibilitados pelas disciplinas que o compoem.

Nesse contexto, destaca-se a questao que hoje permeia as discussoes e acoes do PPGEGC/UFSC: como construir um programa interdisciplinar, respeitando o paradigma cientifico atual, que exige o cumprimento dos estabelecidos limites e horizontes de estudos, mas, ao mesmo tempo, rompendo com esses mesmos limites e horizontes, avancando no dialogo interdisciplinar?

3 O que e ser um programa interdisciplinar?

Nao existe um conceito unico para interdisciplinaridade, e, como afirma Fazenda, "cada enfoque depende basicamente da linha teorica de quem pretende defini-la" (2002, p. 28). Indo alem da conceituacao, pergunta-se: se nao existe consenso sobre o que e interdisciplinaridade, sera que se pode conceituar um programa interdisciplinar? E como construir um programa interdisciplinar se, formado por professores oriundos de diferentes disciplinas e, por isso, com diferentes linhas teoricas, cada um entendera e conceituara interdisciplinaridade a sua propria maneira?

Percebe-se pelo olhar de Fazenda que nao e possivel a construcao de uma unica, absoluta e geral teoria do interdisciplinar, mas e necessario buscar ou desvelar o percurso teorico de cada programa que se aventura a tratar as questoes da interdisciplinaridade, para, dessa forma, definir um minimo de premissas e pressupostos metodologicos (2002, p. 25).

Um caminho seria, em uma primeira aproximacao, passarmos por graus sucessivos de cooperacao e coordenacao crescentes antes de chegarmos ao grau proprio ao interdisciplinar. Esse pode ser caracterizado como o nivel em que a colaboracao entre as diversas disciplinas ou entre os setores heterogeneos de uma mesma ciencia conduz a interacoes propriamente ditas, isto e, ha certa reciprocidade nos intercambios, de tal forma que, no final do processo interativo, cada disciplina saia enriquecida (NAKAYAMA, 2009). Nakayama (2009) afirma que se reconhece um empreendimento interdisciplinar pela competencia dele em incorporar os resultados de varias especialidades, tomando de emprestimo, a outras disciplinas, certos instrumentos e tecnicas metodologicos, fazendo uso dos esquemas conceituais e das analises que se encontram em diversos ramos do saber, a fim de faze-los integrarem e convergirem, depois de terem sido comparados e julgados. Sendo assim, podermos dizer que o papel especifico da atividade interdisciplinar consiste, primordialmente, em lancar uma ponte para religar as fronteiras que haviam sido estabelecidas anteriormente entre as disciplinas, com o objetivo preciso de assegurar a cada uma seu carater propriamente positivo, segundo modos particulares e com resultados especificos (NAKAYAMA, 2009, grifo do autor).

Como a interdisciplinaridade e um fenomeno heterogeneo, nao existindo um modelo a ser seguido por todos os programas de pos-graduacao no Brasil, o EGC busca as diferencas para permitir a autogestao de sua propria construcao. Como visto e sintetizado por Paviani (2008), existem niveis e tipos diferentes de interdisciplinaridade, seja pelas trocas de conceitos e conhecimentos entre duas ou mais disciplinas, seja pelo intercambio teorico ou metodologico ou pela interdisciplinaridade determinada pelo objeto ou metodo.

Mas, por todos os diferentes caminhos que levam um programa de pos-graduacao a se constituir interdisciplinar, precisa-se avancar em questoes socioinstitucional, logica-epistemologica e metodologica.

a. Questoes Socioinstitucionais

A interdisciplinaridade, enquanto novo paradigma que esta em processo para ser aceito pela comunidade cientifica, percebe essa aceitacao pela criacao de publicacoes especializadas, a fundacao de sociedades de especialistas e a reivindicacao de um lugar especial nos curriculos de estudo, o que para Kuhn "tem geralmente estado associadas com o momento em que um grupo aceita pela primeira vez um paradigma unico" (KUHN, 2006, p. 40). Como afirma o autor, qualquer mudanca, principalmente as mudancas que envolvem crencas e certezas paradigmaticas, nao pode ser vista como fato isolado no tempo e no espaco, mas sim deve ser percebida como um processo que se inicia em seus questionamentos, passa por diversos debates, ate encontrar novas solucoes que gerem conforto e consenso para a comunidade cientifica que o apoiara.

A implantacao da interdisciplinaridade nas universidades nao deveria ser lembrada como um evento pontual ou avaliada a partir dos modelos disciplinares. Como um processo dinamico de construcao, a interdisciplinaridade deve ser aceita incluindo suas imprecisoes e incompletude inatas ao dialogo entre as certezas disciplinares.

E e exatamente nesse dialogo que o certo e o errado disciplinar perdem o sentido e se sobressaem as possibilidades a serem construidas pelo grupo.

b. Questoes Logico-Epistemologicas

A dificuldade de implantacao da interdisciplinaridade esta na raiz do positivismo, exigindo o respeito a coerencia metodologica, segundo os paradigmas previamente definidos pelas ciencias naturais.

Mas o reducionismo das teorias positivistas simplificadoras nao da conta de explicar as mutacoes dos sistemas complexos. Esses deveriam ser objeto de estudo das ciencias atuais que, por sua vez, sao impossibilitados pelo paradigma positivista, ora dominante (MORIN, 2006).

Abrir-se para a visao interdisciplinar nao significa romper com paradigmas dominantes. Contudo, ao abracar um novo paradigma, o pesquisador precisa inverter seu modo de observar o mundo, usando novas lentes elaboradas a partir de nova base conceitual (KUHN, 2001).

E, como qualquer mudanca, esse processo tem provado ser complexo e complicado de ser realizado, nos levando a entender que as dificuldades de implantar a interdisciplinaridade vem inclusive da formacao dos cientistas e professores atuais, principalmente por terem sido formados em educacao positivista e compartimentadora do conhecimento. A complexidade do processo de construcao de um programa interdisciplinar passa pela necessidade nao somente de entende-la conceitualmente, mas principalmente pela necessidade de desconstruir, para logo apos reconstruir em novas premissas, as regras basicas do paradigma cientifico vigente. Ao eleger um novo caminho, precisam-se reformular as regras que nos auxiliam na problematizacao e na limitacao dos caminhos aceitaveis para suas solucoes. "E este abismo da complexidade, da abertura vertiginosa de uma realidade que afinal de contas nao e atomica, que constitui o fundamento 'material' da interdisciplinaridade" (POMBO, 2003, p. 8, grifo do autor).

Buscando as razoes para justificar epistemologicamente a interdisciplinaridade, Paviani (2008) aponta dois outros conceitos alem da nocao de emergencia e complexidade do olhar cientifico sobre o mundo contemporaneo.

O conceito de Unidade e Multiplicidade, em que a aproximacao entre disciplinas provoca uma tensao criativa, que desperta a investigacao da logica intrinseca, as certezas paradigmaticas disciplinares e, como forma de defesa, paradoxalmente buscam-se as diferencas para encontrar as semelhancas, nao se perdendo e nem se anulando no outro. Inclusive, ao se buscar o nucleo duro que comporta uma unidade fundamental entre as diversas disciplinas, encontra-se o corte diferenciador que aponta a multiplicidade dos niveis e graus de conhecimento. E o conceito de Continuidade e Descontinuidade, em que a construcao do conhecimento cientifico nao e em essencia um processo continuo por seu objeto de estudos, a realidade, ser descontinuo, passando assim a exigir competencias interdisciplinares para dar conta de problemas singulares contextualizados (PAVIANI, 2008, p. 41).

c. Questoes metodologicas: pesquisa em EGC

No campo da pesquisa interdisciplinar, o pesquisador acaba por utilizar procedimentos metodologicos diferentes dos aceitos por sua disciplina de origem, buscando uma visao mais ampla ou profunda do fenomeno estudado. A importancia desses encontros de visoes de mundo diferenciadas esta no resultado obtido pelo desenvolvimento conjunto interparadigmatico. Transforma-se o mundo percebido pelo pesquisador, quando se entra em contato com outros paradigmas, levando ao desenvolvimento de pesquisas e geracao de conhecimentos pela tensao criativa da oposicao sistematica e proposital de perspectivas divergentes (CALDAS, 2005).

Para se promover procedimentos metodologicos interdisciplinares, tem-se inicialmente que se respeitar as diretrizes metodologicas como fenomenos complexos, diferenciando as linhas de pesquisa pela incomensurabilidade de suas maneiras de ver o mundo e nele praticar sua ciencia e, nao mais, como destaca Kuhn (2006), pela determinacao arbitraria de um conjunto especifico de crencas aceitaveis.

Fazenda (2002) expoe, pelo menos, fortes pressupostos ja definidos por Gusdorf (apud FAZENDA, 2002, p. 24-26) para a implantacao de um programa verdadeiramente interdisciplinar, sendo a identidade pessoal do pesquisador definida pela nova identidade coletiva. Um deles seria que o pesquisador, alem do excelente dominio do objeto e do campo de estudos de sua disciplina, precisa conhecer a intencao generica da abordagem teorica das demais ciencias envolvidas no Programa e construir um paradigma vocabular que abraca conceitos-chave a serem decodificados por todos.

Da descricao dos processos para a realizacao de projeto de pesquisa interdisciplinar nas ciencias humanas, apresentado por Gusdorf (apud FAZENDA, 2002) a Unesco em 1961, pode-se ainda apontar mais alguns pressupostos como: definir estrutura do grupo de pesquisadores com notorio saber sobre o que pretende pesquisar; explicitacao, por cada cientista, de seus metodos e condicoes detalhadas de trabalho; trocas intensas entre os pesquisadores e professores para a integracao das disciplinas em um mesmo projeto de pesquisa, aplicando o conhecimento de uma disciplina em outra.

Crescendo em detalhes, Paviani (2008) busca descrever os diferentes niveis e tipos de estrategias interdisciplinares e quais as acoes que hoje confirmam essas estrategias: passagem de conceitos, teorias e metodos de uma disciplina para a outra, para que se possam investigar problemas complexos; utilizacao de metodos que exigem multiplos conhecimentos, provocando atividades interdisciplinares como o estudo de caso; obrigatoriamente, deve existir uma interacao teorica e metodologica.

4 Vivencia interdisciplinar

A interdisciplinaridade pode ser realizada na producao de conhecimentos novos, na sistematizacao de conhecimentos ja produzidos, nas atividades de ensino, na elaboracao de conferencias, na organizacao de manuais didaticos de ensino, na atuacao profissional. Merece uma atencao especial na elaboracao dos projetos de pesquisa e dos programas de ensino (PAVIANI, 2008, p. 55).

Mesmo que a comunidade cientifica ainda nao tenha definido um conceito unico para a interdisciplinaridade, parece ter se chegado a um consenso quanto a funcao da interdisciplinaridade nas universidades brasileiras: ser a ponte entre as disciplinas, determinando que existam espacos livres para se beber de outros saberes sem que se precise negar totalmente a essencia das crencas e valores paradigmaticos disciplinares. Ou seja, a interdisciplinaridade e uma carta de alforria para os professores, pesquisadores e alunos poderem passear pelos conceitos e metodologias de diferentes disciplinas que os permitam conhecer outras visoes de mundo.

Como destaca Bacharach (1989), um conjunto de palavras nao forma uma frase, nem um conjunto de constructos e variaveis necessariamente faz uma teoria. Assim, ter uma funcao bem definida para o caminho interdisciplinar nao tem apontado de maneira clara quais caracteristicas tem uma vivencia interdisciplinar coerente (procedimentos metodologicos, estilos de gestao, didatica de sala de aula, entre outros) e como implementa-los com eficiencia e eficacia.

No caso do EGC, as questoes quanto a vivencia interdisciplinar se aprofundam, pois, para o programa, os campos do saber sao ilimitados, visto que se pretende criar, gerir e disseminar o conhecimento em diferentes areas de estudo e a partir de diferentes visoes de mundo para poder percebe-lo como valor para as organizacoes.

Alem disso, o EGC vem questionando como deve processar a aproximacao entre ciencia e tecnologia, visto que, no ambiente academico, tem-se percebido o afastamento entre conhecimento cientifico e conhecimento tecnologico, ainda que alguns estudiosos afirmem sua indissociabilidade. Em pesquisa de alunos do EGC (TOSTA et. a, 2009), concluiu-se que, enquanto na construcao de teorias existe uma clara aproximacao entre conhecimento cientifico e tecnologico, o distanciamento e notadamente percebido quando se levam em consideracao os objetivos de ambos. Tecnologia e uma questao de processos, pois o conhecimento tecnologico tem natureza pratica. O conhecimento cientifico visa a explicacao dos fenomenos, enquanto o conhecimento tecnologico busca o resultado do fenomeno; em suma, a tecnologia se exprime melhor por meio da aplicacao do conhecimento cientifico, pois utiliza conhecimentos formais com aplicacao interdisciplinar em alguns casos e especifica para determinadas atividades.

O EGC hoje e um exemplo dessa aproximacao, caminhando em direcao a tecnologia cientifica ou a tecnociencia, que consiste em "utilizar as descobertas cientificas para criar ou aperfeicoar metodos de atuacao", ao mesmo tempo em que "coloca a tecnologia a disposicao da propria ciencia" (WEIL; D'AMBROSIO; CREMA, 1993, p. 18). Corroborado por Paviani (2008, p. 58) ao explicar que a solucao de problemas cientificos requer processos teoricos que implicam um saber agir e fazer. Em alguns casos exige tambem a possibilidade da experimentacao. Para tal conquista, o programa EGC vem incentivando esse dialogo entre tecnologia e ciencia, em pesquisas teorico-empiricas, com a elaboracao de atividades e projetos de pesquisas e programas.

Assim, no EGC, com a vivencia da interdisciplinaridade pela complexidade do processo em construcao, respeita-se a retroalimentacao conceitual proporcionada pelos resultados de suas proprias experimentacoes. Mas como ainda nao existe um modelo a ser seguido para que se possa vivenciar o processo de construcao de um programa dentro do novo paradigma, a interdisciplinaridade nao pode ser um fim a ser alcancado a qualquer preco e de qualquer maneira.

5 Caracteristicas de pesquisadores interdisciplinares

Para que a construcao do programa de pos-graduacao EGC se constitua interdisciplinar, nao somente em conceito, mas em vivencia, cada professor/pesquisador do EGC/UFSC se imbuiu da missao individual de buscar, conforme aponta Krausz (2008), ser coerente, humilde e saber se rever, refletindo sobre a sua acao, aberto a renovacao constante.

Se abrir aos valores de outras disciplinas e, a partir do dialogo, ser capaz de colaborar com uma nova construcao, exigindo pessoas capazes de ser humildes, de ter o senso de partilha, de cooperacao e de consciencia da interdependencia (GRECO, 1994). Como diz o autor, ao compartilhar suas duvidas, a pesquisa cresce para todos os envolvidos e a ameaca so existe para os fracos e os incompetentes, para os que se escondem atras dos muros das instituicoes em busca da manutencao da sua intangibilidade (p. 78). Ou seja, para a pessoa--pesquisador, professor--, interdisciplinar significa:

[...] viver no seu auto-respeito e no respeito pelo outro, que pode dizer nao a si mesma a partir de si mesma e cuja individualidade, identidade e confianca em si mesma nao se fundamentam na oposicao ou diferenca com relacao aos outros, mas no respeito por si mesma, de modo que possa colaborar precisamente porque nao teme desaparecer na relacao (MATURANA e REZEPKA, 2008, p.11)

Maturana e Rezepka (2008) apontam que hoje a grande dificuldade dos professores e distinguir entre formacao humana e capacitacao, para que se desenvolvam caminhos mais amplos de construcao do conhecimento. Para os autores, a capacitacao esta relacionada a aquisicao de habilidade e capacidades de acao, como recursos operacionais para o individuo sobreviver e realizar suas intencoes no mundo. Ja a formacao humana refere-se ao desenvolvimento do individuo como pessoa integral, capacitada a ser "co-criadora" com seus pares de um espaco de convivencia social desejavel (p.11).

Identifica-se um cientista interdisciplinar observando-se suas atitudes enquanto pesquisador, pois, em suas pesquisas, ao se defrontar com problemas complexos que suas certezas paradigmaticas nao mais dao conta das respostas, ele, naturalmente insatisfeito, busca a solucao em outros mundos que, atualmente, pelo excesso de especializacoes, passou a ser "logo ali" na especializacao ao lado. Tao proxima que pode compartilhar das mesmas certezas paradigmaticas, com nova percepcao, porem, do objeto ou novos procedimentos metodologicos. Assim, nao se pode convocar um pesquisador para ser interdisciplinar, pois, segundo Fazenda (2002), nao se obriga um individuo a ser interdisciplinar: ele simplesmente o e.

O professor/pesquisador do EGC/UFSC e valorizado por ser o que e e incentivado a contribuir para a construcao do seu proprio conhecimento e do conhecimento do outro, de diferentes maneiras e em diferentes situacoes, e, alem de contribuir cientificamente para o crescimento do programa, com suas pesquisas e publicacao de relatorios, deve ser capaz de se comprometer a analisar e dosar o atual com o diferente, o certo com o incerto, o velho com o novo, o meu caminho com o seu caminho. E ser inclusivo ao buscar trazer para sua disciplina o outro e se levar para construir o especial na visao do outro (KRAUSZ, 2008).

Seja em teoria, seja em procedimentos metodologicos, a interdisciplinaridade se propoem a retirar o professor de sua zona de conforto, nao o aceitando no papel de detentor do saber; pelo contrario, ao coloca-lo de frente a alunos especialistas em disciplinas de base epistemologica ou metodologica diferentes, passa-se a exigir mais de seus conhecimentos disciplinares e multidisciplinares, para que possa preparar adequadamente tarefas interdisciplinares.

Da mesma maneira, o pesquisador e confrontado em sua situacao de conforto, pois, ao se aproximar das certezas paradigmaticas de outra disciplina, destacam-se as diferencas existentes como forcas de cada unidade logica, mas buscam-se as semelhancas para se construir um caminho de troca e construcao do novo.

6 Procedimentos metodologicos

A abordagem metodologica desta pesquisa caracteriza-se como um estudo descritivo qualitativo. Utilizaram-se dados quantitativos, com a aplicacao de questionarios para a obtencao dos dados primarios. A analise dos dados caracteriza-se, predominantemente, como qualitativa descritiva e de conteudo.

A analise de conteudo trabalhou com os materiais textuais. Analisou-se nao apenas a semantica da lingua, mas tambem a interpretacao do sentido que o entrevistado atribui as mensagens. Consideraram-se as mensagens e as condicoes contextuais dos participantes, assentando-se na concepcao critica e dinamica da linguagem (PUGLISI e FRANCO, 2005). Processou-se a categorizacao e tabulacao das respostas a questoes abertas do questionario.

A analise de conteudo foi considerada nesta pesquisa, segundo Vergara (2005), como uma tecnica para o tratamento de dados que visa identificar o que esta sendo dito a respeito de determinado tema. As analises dos conteudos culminaram em descricoes numericas, mas dando-se consideravel atencao as "distincoes" no texto, antes que qualquer quantificacao fosse feita.

Promoveu-se a combinacao da pesquisa qualitativa (exploratoria) com a pesquisa quantitativa (descritiva), porque a primeira proporciona uma maior profundidade de analise a partir da compreensao do contexto do problema, contribuindo para a formulacao do questionario; e a segunda oferece um panorama mais amplo sobre a situacao, ao procurar quantificar os dados aplicando a analise estatistica (MALHOTRA, 2001).

Como tecnica de coleta de dados foi aplicado um questionario junto ao corpo docente e discente do PPGEGC/UFSC. O questionario foi construido a partir de afirmativas fechadas, que investigaram o grau de concordancia e discordancia pela escala Likert de cinco pontos (CT: concordo totalmente; C: concordo; NN: nem concordo e nem discordo; D: discordo; DT: discordo totalmente).

Esse instrumento constou de 15 afirmativas, divididas em quatro grandes questoes (criacao e consolidacao do EGC; conceito de interdisciplinaridade; pratica interdisciplinar no EGC; instrumentos e obstaculos a interdisciplinaridade). Em cada uma das afirmativas, foi aberto espaco para o respondente incluir observacoes, caso quisesse. O questionario ainda contou com uma questao aberta, que solicitava a definicao de interdisciplinaridade em uma palavra. Inclusive, os participantes eram convidados a citar ate tres caracteristicas do PPGEGC que facilitam a construcao interdisciplinar e ate tres obstaculos a interdisciplinaridade existentes no Programa. A analise dos conteudos trabalhou com as respostas dadas pela amostra a essas tres perguntas abertas e as observacoes as questoes fechadas.

Como criterio objetivo para a selecao da amostra, entre os diversos modelos existentes no Programa; entre os professores permanentes, colaboradores e voluntarios; e entre os alunos regulares e em disciplina isolada ou ouvintes foi utilizado o criterio basico de ser professor permanente ou aluno regular. A amostra, qualificada pelos criterios objetivos de selecao dos individuos, foi definida por acessibilidade ao grupo. Sao 21 docentes e 49 discentes da turma de 2009.

Os questionarios foram enviados aos docentes por meio eletronico e devolvidos da mesma maneira. Aos discentes, os questionarios foram aplicados pelos pesquisadores, durante o encontro da disciplina Seminarios de Pesquisa aos alunos presentes. Foram eliminados da tabulacao e analise tres questionarios docentes com respostas duplas (marcacao de duas respostas na mesma questao).

7 Resultados da pesquisa

A interdisciplinaridade do EGC, como dito, esta em construcao e um dos passos importantes e respeitados e o dialogo entre os pares, nao podendo entao ser impositiva a conceituacao do que e ser um programa interdisciplinar. Entre as respostas dos professores, podese identificar um caminho para o conceito referencia de interdisciplinaridade:

O carater interdisciplinar dos problemas reais requer a convergencia de varias disciplinas. Quanto mais complexo o problema, mais improvavel que uma disciplina apenas tenha condicoes de resolve-lo e mais provavel que se constitua uma interdisciplina com a convergencia de varias disciplinas (Professor 1).

A interdisciplinaridade deve ser um conceito natural, que se integra ao dia a dia das pesquisas, pessoas, metodos e processos de educacao, e como tal gera desafios uma vez que nem sempre e facil ter e manter por muito tempo uma visao integradora em torno de um objetivo comum (Professor 2)

O termo interdisciplinaridade esta diretamente relacionado a integracao do conhecimento de varias disciplinas no sentido de promover um melhor entendimento de uma situacao problema, expandindo as possibilidades de compreensao e intervencao (Professor 3)
   O termo interdisciplinaridade esta diretamente relacionado a
   convergencia das ciencias e o melhor termo para caracteriza-lo e
   compartilhamento. De fato, e por meio do compartilhamento de
   conceitos, metodos e tecnicas entre duas (ou mais) disciplinas que
   se pode abordar um novo objeto de estudo de forma interdisciplinar
   (Professor 4)


Por meio da pesquisa junto ao corpo docente e discente, buscou-se levantar suas percepcoes quanto a natureza e vivencia interdisciplinar do Programa EGC/UFSC, identificando a existencia de caracteristicas potencializadoras ou bloqueadoras da sua pratica.

Foi solicitada aos professores e alunos a definicao de interdisciplinaridade em uma palavra. Para os alunos e professores, aponta-se ser a maioria das palavras citadas relacionadas aos conceitos integracao, interacao e compartilhamento, podendo entao afirmar que o conceito referencia de interdisciplinaridade do corpo docente e discente do EGC/UFSC e a construcao de um Programa de Pos-Graduacao baseado na interacao, integracao e compartilhamento de alunos, professores e suas disciplinas de formacao.

Pelo resumo mostrado no Quadro 1, podem-se perceber as concordancias e discordancias nas percepcoes de docentes e discentes.

A vivencia interdisciplinar no EGC e construida a partir de estrategias decididas em reunioes de colegiado pleno, com participacao da totalidade de docentes. A coordenacao e um trabalho compartilhado pela subcoordenacao, coordenacoes de areas, academicas e de pesquisa. A filosofia do trabalho em equipe e efetivada em sala de aula com o compartilhamento de disciplinas por parte dos professores.

Na pesquisa realizada e apresentada anteriormente, buscouse inclusive levantar a percepcao de professores e alunos quanto as caracteristicas facilitadoras e bloqueadoras da interdisciplinaridade na vivencia do EGC/UFSC.

Os resultados alcancados, apresentados no Quadro 1, das percepcoes dos professores puderam ser classificados em 11 caracteristicas facilitadoras. Somam 46,4% as citacoes referentes a disciplinas com mais de um professor/trabalho conjunto e a existencia de professores oriundos de areas diferentes. 21,4% citaram a promocao de Eventos Internos Diversos (workshop, seminario, reunioes docentes) e 14,3% apontaram as Atividades de Pesquisa Programada (APP).

Pelos alunos, suas percepcoes puderam ser classificadas em 14 caracteristicas facilitadoras. O mais presente (30,8%) aponta a existencia de professores de diferentes areas ministrando aulas conjuntas e 15,4% apontam as diferentes formacoes dos alunos e o incentivo a pratica de projetos interdisciplinares.

O levantamento quanto aos obstaculos existentes na vivencia do EGC a Interdisciplinaridade conclui, pela percepcao dos professores, que sao as dificuldades de trabalho conjunto entre eles os maiores obstaculos (33,3%) pela falta de comunicacao e pelo isolamento em areas e linhas de pesquisas sem enfase na interacao, podendo estar fortalecido pela visao ainda disciplinar de alguns docentes (11,1%). A falta de linguagem comum, ambiente comum, projeto comum a varios professores (16,7%) e a nao-existencia de conceito referencia de interdisciplinaridade para o EGC (16,7%).

Pela percepcao dos alunos, foram citados 15 obstaculos, sendo que 39,1% apontaram questoes ligadas a visao de mundo ou comportamento disciplinar do corpo docente: cultura e visao disciplinar docente (21,74%); comportamento resistente dos docentes (13,04%); e falta de consenso na pratica dos docentes (4,35%). Destaca-se ainda a preocupacao dos alunos quanto a sua separacao por linhas de pesquisa --Engenharia, Gestao e Midia do Conhecimento.

Destaca-se que tanto os alunos como os professores entendem que uma das caracteristicas facilitadoras a interdisciplinaridade do programa (as diferentes formacoes dos docentes) e a mesma que se torna obstaculo por provocar resistencia e comportamentos conflitantes, dificultando o dialogo. Mas os alunos que tem essa percepcao do conflito para a criacao de um programa interdisciplinar apontam um caminho para solucionar o problema: deveria ter workshop/oficinas regulares com todos os professores (4,35%) para que conversassem mais entre si (4,35%). Sugerem ainda ter mais disciplinas que agrupem alunos das diferentes linhas de pesquisa, o que facilitaria a realizacao de pesquisas interdisciplinares.

Mais uma vez, fortalecendo a gestao colaborativa existente no EGC, os professores apresentaram sugestoes como respostas ao questionario para a desativacao dos obstaculos que serao levadas a discussao em assembleia, como: criar uma disciplina ministrada sob as tres oticas do EGC (Midia, Engenharia e Gestao), com distintos professores e maior carga horaria; estruturar um nucleo de dominio comum; promover praticas metodologicas de ensino e aprendizagem que favorecam a interdisciplinaridade, tais como o ensino focado na problematizacao; difundir e promover a aplicacao do instrumento APP.

8 Conclusao

O EGC nasceu no contexto institucional multidisciplinar na Capes. Com as mudancas em 2007, promovidas na arvore de classificacoes das areas, criando o Comite Interdisciplinar, o Programa passou a tratar mais enfaticamente a questao de sua identidade interdisciplinar.

A interdisciplinaridade no EGC nao e vista como um fim em si mesmo, como "uma meta ou solucao absoluta e autonoma" (PAVIANI, 2008, p. 7); pelo contrario, assume-se institucionalmente que o Programa de Pos-Graduacao em Engenharia e Gestao do Conhecimento/ UFSC e um processo de construcao, em que a interdisciplinaridade e um conceito transversal a todas as disciplinas e pesquisas que o compoem.

A vivencia interdisciplinar do EGC nao se propoe anular a essencia de nenhuma das disciplinas com as quais entra em contato, pelo contrario, o olhar proprio de cada disciplina continuara existindo, pois dela sao buscadas as forcas que darao unidade e coerencia ao novo, mas esse novo, por sua vez, alimentara mudancas na propria disciplina, ajudando-a tambem a se desenvolver.

Pode-se explicar pela analogia a diferenca nos conceitos de fusao e integracao. Como define Paviani (2008), ser multidisciplinar e estar junto, coordenando as completudes. Ser interdisciplinar e olhar o entre, buscando o comum entre as partes para retroalimenta-las com o novo integrado. Ser transdisciplinar e ir alem, transcender o existente, fundindo as partes para que se crie um todo realmente novo. A interdisciplinaridade aproxima as disciplinas, provocando a troca logica-epistemologica, metodologica e socioinstitucional pela importancia de buscar solucoes para os problemas complexos de pesquisa da atualidade; o EGC, porem, nao se propoe hoje a ir alem, promovendo a transdisciplinaridade ao fundir disciplinas de maneira a romper com paradigmas que constituem suas sustentacoes (mesmo que, em nossos quadros, ja existam cientistas pesquisando esse caminho e, quando necessario, estaremos prontos para alcancar esse novo degrau do dialogo interdisciplinar).

O PPGEGC/UFSC acredita que ser interdisciplinar e se permitir experenciar novas tecnicas e procedimentos, ousando alem da visao de mundo do programa que lhe deu origem, respeitando os valores intrinsecos aos diferentes metodos e instrumentos de cada disciplina que vem lhe constituindo. Mas a dificuldade de levar a teoria a pratica interdisciplinar e real, tanto pela dificuldade de estar em contato direto e constante com colegas com visoes de mundo diversas, que questionam sempre os novos caminhos (exigindo do pesquisador o estar preparado a defender suas ideias a cada passo), mas, principalmente, pela dificuldade de se manter motivado a persistir no dialogo, nao se permitindo entrar em estado de defesa, acabando por desistir do novo caminho pela dificuldade de desbrava-lo.

Recebido em 27.10.2009

Aprovado em 13.05.2010

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Roberto Carlos dos Santos Pacheco (1)

Kelly Cristina Benetti Tonani Tosta (2)

Patricia de Sa Freire (2)

(1) Doutorado em Engenharia de Producao pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atualmente e professor adjunto e coordenador do Programa de Pos-Graduacao em Engenharia e Gestao do Conhecimento (EGC/UFSC). Endereco: Campus Universitario UFSC, Florianopolis, Trindade--Santa Catarina. CEP: 88.040-900. Telefone: (48) 3721-7121. Email: pacheco@egc.ufsc.br.

(2) Doutoranda em Engenharia e Gestao do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisadora do LED/UFSC e do Instituto de Pesquisas e Estudos em Administracao Universitaria (INPEAU/UFSC). Mestre em Administracao pela mesma instituicao e membro do Grupo de Pesquisa NEOGAP. Endereco: Av. Presidente Nereu Ramos, 1100, apto 1103--Campinas--Sao Jose, SC. CEP: 88101-410. Telefone: (48) 3241-9509/ 9912-4108. Email: kellyadm@hotmail.com

(3) Mestranda em Engenharia e Gestao do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina. Diretora do Instituto de Gestao de Mudancas Estrategicas e Pessoas (IGMEP) e membro do Grupo de Pesquisa NEOGAP. Endereco: Rua das Araras, 380, apto 102 A--Lagoa da Conceicao.
Tabela 1--Significado de Interdisciplinidade do EGC/UFSC

Citacoes de alunos

Interacao, dialogo e afins            19,0%
Integracao e afins                    14,3%
Compartilhamento                      11,9%
Complexidade                           9,5%
Conhecimento                           4,8%
Cooperacao                             4,8%
EGC                                    4,8%
Holistico (todo)                       4,8%
Tendencia                              4,8%
Aplicacao                              2,4%
Outros                                14,3%

Citacoes de professores

Integracao, convergencia e Afins      26,3%
Interacao, dialogo e afins            10,5%
Compartilhamento                      10,5%
Colaboracao                           10,5%
Holistico                             10,5%
Conjunto                               5,3%
Construindo coexistencia               5,3%
Desafio                                5,3%
Resolver problemas com                 5,3%
  visao sistemica
Versatil                               5,3%
Denorex                                5,3%

Tabela 2--Caracteristicas Facilitadoras da
Interdiciplinidade no EGC/UFSC

Citacoes de alunos             Citacoes de professores

Professores de         30,8%   Professores de         46,4%
diferentes                     diferentes
areas                          areas
ministrando                    ministrando
aulas conjuntas                aulas conjuntas

Perfil dos             15,4%   Eventos                21,4%
alunos de                      Internos
diferentes                     Diversos
formacoes                      (workshop,
                               seminarios,
                               reunioes
                               docentes)

Praticas de            15,4%   Praticas de            14,3%
Atividades de                  Atividades de
Pesquisa                       Pesquisa
Programada                     Programada
(APP)                          (APP)

Disciplinas            9,6%    Disciplinas            10,7%
obrigatorias                   Obrigatorias
basicas                        Basicas
(Introducao ao
EGC e Seminario
de Pesquisa)

Eventos                7,7%    Natureza das           3,6%
Internos                       disciplinas
Diversos
(workshop,
palestras de
convidados)

Acesso facil           3,8%    Abordagem              3,6%
aos                            CommonKads
professores/
Dialogo entre
alunos e
professores

Grupos de              3,8%    Sistema de             3,6%
Estudos                        credito por
Atuantes                       incentivar a
                               producao
                               cientifica
                               compartilhada

Politica de            3,8%    Perfil dos             3,6%
Orientacao/                    alunos de
Participacao de                diferentes
co-orientacao                  formacoes

Abordagem              1,9%    Politica de            3,6%
CommonKads                     Orientacao/
                               Participacao de
                               co-orientacao

Outros                 5,8%    Vontade de             3,6%
                               fazer algo novo

Tabela 3--Obstaculos a interdisciplinidade no EGC/UFSC

Citacao de alunos                  Citacoes de professores

Cultura e visao           39,1%    Dificuldades de           33,3%
disciplinar docente/               trabalho conjunto
Comportamento                      entre os professores
resistente dos
docentes

Divisao dos alunos        26,1%    Falta de linguagem        16,7%
pelas linhas de                    comum, ambiente
pesquisa                           comum, projeto comum
(predominancia da                  a varios professores
Engenharia e
desvantagem da
Midia)

A falta de tempo dos       4,3%    A nao-existencia de       16,7%
professores para                   conceito referencia
conversarem mais                   de
entre si                           interdisciplinaridade
                                   para o EGC

Falta colocar em           4,3%    Visao Disciplinar         16,7%
pratica pesquisas                  dos Docentes
interdisciplinares,
de fato

Preconceito e visao        4,3%    Dificuldades              11,1%
miope na Academia                  externas ao EGC

Outros                    21,7%    Visao                      5,6%
                                   Multidisciplinar
                                   Predominante

Quadro 1--Percepcao do Corpo Docente e Discente sobre
a Interdisciplinidade no EGC

                       Percepcao dos
Item                   professores            Percepcao dos alunos

1. Criacao e           --95,2% acreditam      --93,89% acreditam
consolidacao           que o advento da       que o advento da
do EGC                 inter-                 inter-
                       disciplinaridade.      disciplinaridade.
                       na pos-graduacao       na pos-graduacao
                       stricto sensu no       stricto sensu no
                       Brasil e um avanco     Brasil e um avanco
                       natural da ciencia;    natural da ciencia;

                       --57,1% entendem que   --55,1% entendem que
                       pode ser considerada   pode ser considerada
                       como uma quebra de     como uma quebra de
                       paradigma;             paradigma;

                       --Somam 95,2%, os      --Somam 91,8%, os
                       que concordam          que concordam
                       totalmente (52,4%) +   totalmente (40,8%) +
                       os que concordam       os que concordam
                       (42,9%) que a          (51%) que a criacao
                       criacao do EGC e       do EGC e quebra de
                       quebra de paradigma    paradigma no ambito
                       no ambito da UFSC.     da UFSC.

2. O conceito de       --66,7% (concordam +   --83,3% (concordam +
inter-                 concordam              concordam
disciplinaridade       totalmente) entendem   totalmente) entendem
                       que o EGC tem um       que o EGC tem um
                       conceito referencia    conceito referencia
                       sobre                  sobre
                       inter-                 inter-
                       disciplinaridade;      disciplinaridade;

                       --71,4% (concordam +   --85,4% (concordam +
                       concordam              concordam
                       totalmente) dizem      totalmente) dizem
                       que esse conceito e    que esse conceito e
                       compativel a sua       compativel a sua
                       propria compreensao    propria compreensao
                       de                     de
                       inter-                 inter-
                       disciplinaridade.      disciplinaridade.

3. A Pratica           --90,5% afirmam que    --95,9% afirmam que
interdisciplinar       o EGC tem avancado     o EGC tem avancado
                       na construcao da       na construcao da
                       interdisciplinaridade  interdisciplinaridade
                       (52,4% concordam       (36,7% concordam
                       totalmente + 38,1%     totalmente + 59,2%
                       concordam);            concordam);

                       --Nao ha consenso      --A grande maioria
                       (23,8% concordam       (81,6%) afirma que o
                       totalmente e 23,8%     EGC contempla a
                       discordam              participacao de
                       totalmente) se o EGC   varias disciplinas
                       contempla a            em um mesmo objeto
                       participacao de        de estudo, cada uma
                       varias disciplinas     com seu proprio
                       em um mesmo objeto     olhar;
                       de estudo, cada uma
                       com seu proprio
                       olhar;

                       --42,9% concordem em   --79,6% concordam
                       parte com a            que a inter-
                       afirmativa 85,7%       disciplinaridade
                       professores            do EGC e de carater
                       concordam que a        constitutivo
                       interdisciplinaridade  (estrutural),
                       do EGC e de carater    sendo a
                       constitutivo.          inter-
                                              disciplinaridade
                       --Paraosprofessores,   mais de natureza
                       a inter-               pratica (73,5%) do
                       disciplinaridade       que filosofica
                       do Programa e tao de   (49%).
                       natureza pratica
                       (72,7%) como
                       filosofica (63,6%).

4. Caminhos a interdisciplinaridade

O EGC deve buscar      A maioria (81,8%)      A maioria (73,5%)
linguagem comum as     concorda (40,9%) ou    concorda (49%) ou
disciplinas.           concorda totalmente    concorda totalmente
                       (40,9%).               (24,5%).

O EGC deve respeitar   A maioria (59,1%)      Nao ha consenso
as individualidades    discorda (13,6%) ou    entre os alunos,
das disciplinas que    discorda totalmente    visto que 42,6% dos
o constituem.          (45,5%), contra        respondentes ou
                       22,7% que concordam    concordam (38,3%) ou
                       (13,6%) ou concordam   concordam totalmente
                       totalmente (9,1%).     (4,3%) e outros
                                              42,6% discordam
                                              (27,7%) ou discordam
                                              totalmente (14,9%)
                                              da afirmativa.

Discordancias entre    A maioria (72,7%)      A maioria (64,6%)
professores se         concorda totalmente    concorda totalmente
devem a questoes       (31,80%) ou concorda   (12,5%) ou concorda
semanticas.            (40,9%).               (52,1%).
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Pacheco, Roberto Carlos dos Santos; Tosta, Kelly Cristina Benetti Tonani; de Sa Freire, Patricia
Publication:Revista Brasileira de Pos-Graduacao
Date:Jul 1, 2010
Words:7624
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