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Interacoes entre a carstologia e a geografia cultural.

Interactions between Karstology and Cultural Geography

INTRODUCAO

A paisagem carstica e suas cavernas podem ser percebidas por varias pessoas de maneira igualmente variada. Do leigo ao cientista, especialmente as cavernas, assumem significados diversos de acordo com a evolucao historica e as condicoes culturais de uma sociedade.

As regioes desenvolvidas em rochas carbonaticas como o calcario, perfazem cerca de 10 a 15% da superficie terrestre (FORD; WILLIAMS, 2007) e Williams (2008) afirma que o carste e encontrado, principalmente, em rochas mais soluveis como o calcario, o marmore e o dolomito. Entretanto, afirma que tal tipo de paisagem pode desenvolver-se tambem em evaporitos.

Sendo assim, os afloramentos carbonaticos compreendem cerca de 15.000.000 [km.sup.2] da area continental nao congelada da Terra (11% da superficie). Ja os carbonatos subsuperficiais envolvidos na circulacao da agua subterranea sao consideravelmente maiores: cerca de 14% da area mundial (WILLIAMS, 2008).

Dessa forma, uma nova proposicao dessas porcentagens, especialmente no tocante aos afloramentos rochosos, foi realizada por Williams e Fong (2008). Nesta nova proposta, os autores demonstram que cerca de 12,5% da superficie terrestre mundial apresentam afloramentos carbonaticos. Os autores destacam que se propoem a diferenciar as areas onde as rochas carbonaticas sao relativamente puras e continuas daquelas relativamente impuras e descontinuas (Figura 1).

[FIGURA 1 OMITIR]

E possivel considerar que todas as rochas sao soluveis em algum grau e, por isso, feicoes de dissolucao de micro escala podem ser encontradas em "rochas insoluveis" como o quartzito e o basalto. Embora tenham feicoes carsticas, pois sao formadas inteiramente pela dissolucao, a paisagem da qual fazem parte nao e carstica, pois e formada por rochas relativamente insoluveis e dominada por feicoes produzidas por outros processos naturais (WILLIAMS, 2008).

Como demonstrado na Figura 1 e possivel observar o quao distribuido e o carste ao longo da superficie terrestre. Sendo assim, nao e de se estranhar o fato de que estas regioes tenham sido utilizadas pelo homem primitivo desde os seus primordios. Pela propria caracteristica do relevo, eram lugares ideais para serem utilizados como abrigo e fonte de recursos naturais.

Nas regioes carsticas, estabeleceram-se os primeiros assentamentos humanos. Por todo o mundo e possivel observar que populacoes inteiras sao abastecidas por mananciais carsticos e, em varias culturas, as cavernas ainda sao utilizadas como locais para a pratica de rituais religiosos (como manifestacoes culturais), alem de outras formas de uso (TRAVASSOS, 2007d).

O estudo deste tipo peculiar de relevo ja podia ser observado em trabalhos de filosofos gregos e romanos conforme destacado por Travassos (2007d) e mais recentemente por Clendenon (2009a; 2009b). Breves descricoes do Carste Classico (localizado na regiao do Planalto de Kras, na Eslovenia) ja apareciam em obras do seculo IV a.C., bem como em trabalhos de Estrabao, Plinio, Polibio, entre outros. Em uma descricao clara de um sumidouro e de uma ressurgencia, Posidonio de Apameia (135-50 a.C.) afirma que o rio Timavus sumia entre as montanhas, fluindo em um abismo e somente reaparecia a uma distancia de 130 estadios (41,25 metros.), em direcao ao mar (KRANJC, 1997; KRANJC, 2006a; TRAVASSOS; KOHLER; KRANJC, 2006).

Para Kranjc (2006b), o geografo romano Estrabao (63 a.C-21 d.C.) foi provavelmente o primeiro a mencionar o Lago de Cerknica (na Eslovenia) e Clendenon (2009a) lembra que Aristoteles foi, provavelmente, o primeiro a descrever e deduzir corretamente o comportamento das aguas carsticas na obra Meteorologia em 350 a.C.

Para Travassos, Kohler e Kranjc (2006) a Tabula de Peutinger , elaborada na Idade Media, ja mostrava indicios de assentamentos humanos no carste. Os mesmos autores ainda afirmam que uma especie de turismo cultural teria surgido na regiao do Planalto de Kras (ainda que de forma primitiva) na Sveta Jama (Caverna Sagrada), em 280 d.C e na Landarska Jama (Caverna de Landar) por volta de 888 d.C. Inumeros viajantes passam, tambem, a ser atraidos pelas belezas naturais da Postojska Jama (Caverna de Postojna) em 1213 d.C e da Vilenica Jama (Caverna Vilenica) em 1663.

De acordo com Kranjc (1997, 2006a) e Travassos, Kohler e Kranjc (2006), ja no final do seculo XVII e inicio do seculo XVIII, a regiao do Planalto de Kras torna-se ainda mais popular pela descricao de geografos, topografos, viajantes e outros estudiosos. Essa popularizacao ocorreu, em grande parte tambem, pelo fato de Trieste (Italia) ter se transformado em um porto de livre comercio em 1719.

A importancia da regiao para a Carstologia quando afirmam que diversos pesquisadores pioneiros comecaram a se dedicar ainda mais ao estudo da regiao de Kras. Sao eles J.V. Valvasor (1689), Nagel (1748), B. Hacquet (1778-1789) e F. J. H. Hohenwart (1830). Na obra de Franc Jozef Hanibal Hohenwart (1830) aparece, pela primeira vez, o termo "karstes". Geografos e geologos do seculo XIX passam a utilizar com mais frequencia o termo karst e o trabalho de Jovan Cvijic (1893) fornece a base cientifica ao estudo do Carste Classico, seguido por Kraus (1894) e Martel (1894), por exemplo (KRANJC, 1997; KRANJC, 2006a; TRAVASSOS; KOHLER; KRANJC, 2006).

Como e possivel perceber pelo breve historico anterior, a forma germanica "karst" originou-se na regiao do Planalto de Kras, na Eslovenia. Para Kranjc (2001), sua origem pre-indo-europeia possui a raiz kar/gar ou kara/gara, significando rocha ou rochoso, respectivamente. O termo kras e amplamente utilizado na Eslovenia para designar regioes rochosas ou nao favoraveis a agropecuaria, sendo aplicado para identificar algumas regioes do Carste Dinarico caracterizado por campos de lapias e dolinas.

Gillieson (1996) afirma que esse tipo peculiar de paisagem e tambem comumente caracterizado por possuir depressoes fechadas, drenagem subterranea e cavernas formadas, principalmente, pela dissolucao da rocha. Para Sweeting (1972) e Ford (2007), o termo germanico (karst) foi popularizado pela obra Das karstphenomen de Cvijic (1893) e e utilizado como padrao mundial, designando processos de dissolucao da rocha e sistemas subterraneos derivados desse processo.

Outra corrente cientifica tem buscado a utilizacao do termo carste para paisagens desenvolvidas em outros tipos de rochas que nao sejam as carbonaticas. Entretanto, acredita-se que a utilizacao do termo pseudocarste seja mais apropriada. Isso ocorre, pois rochas siliciclasticas ou silicosas sao passiveis de desenvolver formas caracteristicas similares ao "carste classico" (e.g.: dolinas, drenagem subterranea e cavernas). Estas possuem sua genese por diferentes processos uma vez que, em tais areas, a dissolucao da rocha ocorre de forma subordinada a processos mecanicos. No Brasil, exemplos podem ser encontrados em quartzitos e arenitos.

No presente trabalho, os fenomenos carsticos, que sao condicionados por processos hidrogeoquimicos especificos atraves da agua rica em CO2 e naturalmente acidulada, serao abordados no ambito Historico e Cultural. O fascinante cenario superficial e subterraneo sera estudado alem de sua abordagem puramente fisica.

Destaca-se que, quando e chamada a atencao ao problema do uso sustentavel do carste, a vertente cultural e humanistica e por vezes esquecida. Alem da preservacao de seus recursos fisicos, devemos atentar para seu lado cultural, igualmente importante. Entender a forma como um grupo social percebe o carste pode ser, muitas vezes, o caminho para sua preservacao.

Ravbar (2007), ao dedicar uma importante obra a protecao das aguas carsticas, escolheu uma epigrafe para iniciar seu trabalho que destaca a importancia primaria do carste: "Nunca cuspa em um poco, voce podera ter que beber dele depois" (BASIN; KRYLOV; IVAN ANDREJEVIC, 1809). Uma frase simples que traduz o que Humboldt ja afirmava: tudo esta interligado, de acordo com o classico principio geografico da conexao.

AS AREAS CARSTICAS BRASILEIRAS

Com excecao das bacias sedimentares terciarias do pantanal matogrossense, da Amazonia e de trechos do litoral, o territorio brasileiro desenvolve-se sobre estruturas geologicas antigas. Suas idades variam do Paleozoico ao Mesozoico para bacias meta-sedimentares, e do Pre-Cambriano (Arqueano/Proterozoico) para os terrenos cristalinos da Plataforma Sul-Americana. Entre esses, destacam-se as areas cratonicas, os cinturoes de dobramentos antigos e as bacias sedimentares (SCHOBBENHAUS; BRITO NEVES, 2003).

Da area continental brasileira de 8,5 milhoes de [km.sup.2], Karmann (1994) estimou que cerca de 5 a 7% sao constituidos por terrenos carsticos. Entretanto, Auler (2002) afirma que cerca 2,2 % do territorio brasileiro apresenta carbonatos aflorantes e Karmann e Sallun Filho (2007) afirmam que o total seria de 2,8%. De maneira geral, tais areas devem ser consideradas as principais unidades geologicas favoraveis ao desenvolvimento de feicoes carsticas. As principais unidades localizam-se no Craton Sao Francisco, na regiao de Minas Gerais, Goias e Bahia, sobre litologias carbonaticas e dolomiticas do Proterozoico Superior.

Roldan, Wahnfried e Klein (2003) afirmam que as principais provincias espeleologicas nacionais seriam a Provincia Espeleologica Vale do Ribeira (localizada no sul do Estado de Sao Paulo e oeste do Estado do Parana), a Provincia Espeleologica do Bambui (engloba porcoes SE do Tocantins, centro leste e SE de Goias, centro oeste e NW de Minas Gerais e W da Bahia), a Provincia Espeleologica Una, e a Provincia Espeleologica da Serra da Bodoquena (a maior regiao carbonatica do Mato Grosso do Sul, se estendendo por cerca de 200 km na direcao N-S, no sudoeste do Estado). Com o aumento das pesquisas sobre as regioes carsticas brasileiras, os trabalhos de Auler, Rubbioli e Brandi (2001) e Auler (2002), afirmam que existem 14 importantes provincias carbonaticas, alem das ocorrencias menos significativas.

Em relacao a esse cenario nacional, o estado de Minas Gerais destacase por apresentar importantes ocorrencias de carbonatos e, consequentemente, expressivas areas carsticas a ela associadas. Para Pilo (1997, 1998, 1999), da extensao nacional de aproximadamente 5 a 7%, cabem ao Estado mineiro cerca de 3 a 5%, ou 17.600 a 29.419 [km.sup.2].

A RELACAO HUMANA COM AS CAVERNAS

Pelo exposto, pode-se afirmar que a relacao humana com as cavernas nao e fato novo na historia da humanidade. Muito menos a motivacao para seu uso como abrigos, esconderijos ou lugares sagrados. Junto com as montanhas, muitas cavernas tornaram-se importantes pontos para a mitologia, para a criacao de lendas, mitos e para as religioes.

Sobre as montanhas consideradas sagradas, Brito (2008) afirma que devido ao contexto predominantemente cristao em que vivemos no Ocidente, um fator que contribui para a formacao de sua concepcao sagrada ("coisas de Deus") ocorre uma vez que inumeras passagens e figuras biblicas fazem referencia a esses macicos rochosos.

O mesmo ocorre com as cavernas. Por consequencia do grande numero de montanhas consideradas sagradas (em diversas crencas), algumas possuem cavernas que fazem parte de suas historias e acabam, tambem, por dividir a sua sacralidade. Muitas, no entanto, sao consideradas sagradas independentemente da outra. Sao consideradas, portanto, parte integrante das praticas religiosas de uma comunidade, valoradas como templos, igrejas, locais para meditacao ou praticas ritualisticas.

Brito (2008, p.4) ainda afirma que, "mesmo um estudo pouco aprofundado das mensagens contidas no livro sagrado do cristianismo revela inumeras mencoes a montes, montanhas e elevacoes: sao citados o monte Carmelo, o monte Horeb, as montanhas de Efraim, o labor, o monte Moria, entre outros".

Sobre as cavernas naturais ou artificiais citadas na Biblia, o mesmo ocorre: as cavernas de Machpelah, Adullam e En-Gedi, entre outras, sao retratadas no texto sagrado, surgindo tambem e, com frequencia, os termos: abismos, covas, fendas, grutas e cavernas. Uma pesquisa na Enciclopedia Arqueologica da Terra Santa (NEGEV; GIBSON, 2003), revela cerca de 100 itens relacionados ao termo caverna. Gibson (2008, p.110) lembra que "no primeiro livro de Samuel (14: 25-27) os Filhos de Israel 'chegam a um bosque e havia mel pelo chao', presumivelmente em fissuras e fendas nas rochas." (GIBSON, 2008, p.110).

No texto biblico o subterraneo apresenta-se como locais de moradia (Genesis 19:30, Numeros 24:21, Jeremias 49:16, Obadias 1:3), esconderijo (1 Samuel 13:6, 1 Samuel 14:11, 1 Samuel 22:1, 1 Samuel 23:29, 1 Samuel 24:3, 1 Reis 18:4, Hebreus 11:38), descanso (1 Samuel 24:3, 1 Reis 19:9), enterro (Genesis 23:19, Genesis 49:29-32, Genesis 50:13, Joao 11:38) ou como locais que nao apresentam protecao contra os julgamentos divinos (Isaias 2:10, Isaias 2:19, Ezequiel 33: 27, Apocalipse 6:15). Abismos ou outras cavidades surgem tambem como prisoes (Isaias 24: 18, Isaias 51:1, Zacarias 9:11).

Covas abertas artificialmente tambem remetem-nos aos pequenos abismos espalhados pelas regioes carsticas, onde animais podem cair. Alem disso, abismos eram considerados os portais da antiguidade greco-romana que ligavam esse mundo ao inferno, por exemplo. Certamente, o imaginario coletivo e a significacao religiosa das cavernas variam de acordo com as religioes. Entretanto, tracos comuns ou similares podem ser percebidos em diferentes culturas.

Mais recentemente, Mihevc (2001), Ferenc (2005) e Travassos (2009) identificam cavernas onde atrocidades foram cometidas durante e apos a segunda Guerra Mundial . Utilizadas como locais para assassinatos em massa, muitos desses locais passam, hoje, por um processo de sacralizacao com a construcao de memoriais ou cruzes proximas a esses espacos.

Para Kiernan (2003), o Cristianismo, professado por cerca de 33% da populacao mundial, pode ser lembrado como a religiao mais antropocentrica ja surgida, rejeitando o animismo e o panteismo em detrimento de uma visao monoteista. Mesmo assim, inumeras cavernas ou feicoes carsticas sao consideradas sagradas pelos Cristaos, como a Gruta de Massabielle (Gruta de Lourdes), onde uma garota catolica (Bernadette Soubirous) afirmou ter presenciado dezoito aparicoes de Nossa Senhora em 1858, por exemplo. Ainda para o autor, no Islamismo (cerca de 22% da populacao mundial), a adoracao de uma paisagem especifica parece ser inaceitavel, embora a Caverna de Hira (localizada no Monte Hira, proximo a Meca, Arabia Saudita) seja importante nesta crenca, pois foi o local onde o Profeta Maome teria recebido a revelacao.

Nas tradicoes Hinduistas (15% da populacao mundial), Budistas (6% da populacao mundial) e crencas chinesas como o Taoismo e o Confucionismo (4%), as cavernas sao locais importantissimos. Comunidades indigenas ou nativas tambem identificam as cavernas como importantes locais em suas crencas (3%). Para cerca de 14% dos individuos da populacao mundial, sem crenca especifica, mas nao necessariamente completamente ateus, as cavernas nao apresentam nenhum valor especifico (KIERNAN, 2003).

Assim, percebemos que varias cavernas tem adquirido profunda significacao espiritual em diversas partes do globo. Algumas carregam testemunhos fisicos da adocao de sucessivas tradicoes enquanto, em poucos casos, outros espacos continuam sendo compartilhados por diferentes crencas.

No Brasil, de maioria catolica (73,6% da populacao total segundo o IBGE, 2000), existem cavernas-igreja que influenciam e, de certa forma, movimentam a economia local e o setor do turismo cultural e religioso.

Especialmente sobre as manifestacoes catolicas, e possivel identificar as cavernas como templos analogos as catacumbas utilizadas pelos cristaos perseguidos por Roma. Para o Instituto Salesiano Sao Callisto (2005), o decreto senatorial 35 declarava a religiao crista como "nova e estranha". Para Tacito, seria "perniciosa e detestavel"; "malvada e desenfreada" por Plinio; "nova e malefica" para Suetonio; "obscura e inimiga" da luz por Octavius de Minucio. Dessa forma, o catolicismo foi colocado como ilegal e perseguido por ser considerado o maior inimigo do poder de Roma, que se baseava na antiga religiao nacional e no culto do imperador, instrumento e simbolo da forca e unidade do Imperio.

Proibidos de exercer sua fe por um grande periodo de tempo, apenas puderam se libertar das "trevas" em 313, quando os imperadores Constantino e Licinio deram liberdade as praticas catolicas, passando, a partir dai, a edificar igrejas na superficie. Talvez repouse nas catacumbas romanas a construcao de altares ou mesmo de pequenas cavernas artificiais para protecao das imagens que antes nao podiam ser cultuadas na superficie. Nesses locais, as criptas destinadas a personalidades mais importantes como papas e martires apresentam, talvez, os primeiros registros da arte e arquitetura crista.

Dessa forma, o espaco desprovido de valor passa a ser importante lugar de devocao para peregrinos que, atrelados a ideia de sacrificio pessoal, visitam tais sitios. Nas cavernas, uma variedade de objetos e formas sao veneradas por sua beleza, supostos poderes milagrosos e associacao a historias locais. Acredita-se tambem que a agua, que emana das rochas, permite a cura de uma vasta gama de doencas, atribuindo ainda mais um valor sagrado ao espaco.

Assim, privilegiar os estudos humanistas-culturais do carste oferece possibilidades teorico-metodologicas indispensaveis a compreensao do fenomeno das romarias ou do turismo as cavernas-igreja. Nao e possivel, portanto, compreender os fenomenos apenas atraves do inventario, mapeamento ou simples descricao das formas fisicas.

E importante ressaltar que muitas cavernas brasileiras ainda nao sao conhecidas em sua totalidade e outras permanecem inacessiveis a maioria das pessoas. Distantes dos centros urbanos, o cenario da escuridao propicia o surgimento e a permanencia de misterios que se recriam na tradicao oral, enriquecendo as historias locais.

Para os pesquisadores que trabalham com o meio ambiente e, principalmente, a gestao dos recursos naturais, e facil perceber a dificuldade entre a gestao e o uso sustentavel da natureza. Muitos afirmam que o setor do turismo esta entre os maiores promotores da degradacao. No entanto, acreditase que o turismo realizado de forma responsavel pode atuar tambem na preservacao ambiental.

Esse fenomeno complexo e multidisciplinar, por transitar pelas areas da Geografia, Antropologia, Economia e da Sociologia, entre tantas outras disciplinas, merece atencao especial para ser percebido e realmente ser atuante como um verdadeiro agente de preservacao e sustentabilidade.

Nesse contexto, as areas carsticas surgem como geoecossistemas sensiveis e vulneraveis aos impactos da atividade turistica. Ainda assim, nao e aceitavel acreditar que a simples proibicao do seu uso para o turismo seja a unica alternativa para sua conservacao. Em alguns casos, atitudes drasticas e unilaterais podem impactar toda uma economia regional causando serios impactos sociais.

Em relacao ao uso cultural das areas carsticas, o foco central deste trabalho e o estudo do seu uso cultural-religioso, expondo a urgente necessidade de mudanca de postura em relacao a essas manifestacoes culturais.

O turismo cultural ou as peregrinacoes a cavernas nao sao atividades novas. Pode-se afirmar que o turismo cultural no carste tenha comecado na Idade Media, quando peregrinos buscavam conhecer cavernas sagradas e igrejas subterraneas. Mesmo que existam pesquisadores contrarios a essa ideia, Kranjc (1994) considera que, talvez, o turismo de peregrinacoes a uma caverna tenha comecado com os tres reis Magos ao visitar o recem nascido Jesus em uma gruta utilizada como estabulo, proxima a Belem.

Sendo assim, as cavernas e o carste constituem-se como importantes registros historico-geograficos de regioes especificas. Muitas vezes apresentam tracos comuns a varias culturas como sera demonstrado ao longo do trabalho.

Em regioes que experienciaram guerras, o carste e as cavernas (especialmente os abismos) desempenharam um triste papel ao serem os locais onde pessoas foram assassinadas. Da mesma forma que surgiram na historia como lugares associados ao mal, com o tempo passaram a ser sacralizados. Nestes locais onde o medo prevaleceu, foram e ainda sao erigidos em suas proximidades, monumentos e oratorios em homenagem aos mortos. Esse fenomeno pode ser observado a medida em que as sociedades lutam por superar os traumas vivenciados por essas tragedias.

PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS DA PESQUISA

Como objetivo geral do trabalho, propoe-se a investigacao do uso cultural do carste e das cavernas como base do Turismo Cultural. Atraves de levantamento bibliografico, do estudo das areas protegidas da UNESCO, da analise dos sitios visitados por Hayes (2005-2009), do estudo de quatro cavernas santuario especificas (duas no Brasil, em Minas Gerais) e duas na Eslovenia-Italia (Socerbska e Landarska) e da presenca do autor em inumeros sitios considerados sagrados, objetiva-se realizar um estudo que favoreca a divulgacao do uso cultural do carste e das cavernas. Busca-se tambem, colaborar com as discussoes sobre o uso religioso de cavernas e inserir a tematica nos estudos de Geografia da Religiao em particular, e da Geografia Cultural em geral.

Sitios culturais e sagrados ocorrem em uma variedade de paisagens e, dessa forma, objetiva-se abrir um caminho em meio a Carstologia e a Espeleologia nacional, em um campo de pesquisas ainda muito pouco trabalhado sistematicamente no Brasil. Pretende-se contribuir para a uniao entre a preservacao do patrimonio cultural do carste e a conservacao do patrimonio geologico e espeleologico.

O trabalho fundamenta-se no aprofundamento teorico dos temas relacionados as paisagens carsticas e a relacao com seu uso cultural e religioso, atraves de uma extensa revisao bibliografica feita por Travassos (2010). Destaca-se a importancia dos trabalhos de varios geografos importantes capazes de aliar os estudos fisicos e humanos. Sao eles Humboldt, Malte-Brun, Reclus, Nicod e Gauchon. Outros naturalistas tambem foram citados por Travassos (2010) oferecendo maior peso a importancia cultural do carste, mas por questoes de espaco foram suprimidos to presente trabalho.

Devido a natureza dos trabalhos descritivos mencionados, optou-se por nao separar cavernas artificiais de cavernas naturais. Sabe-se de suas diferencas, entretanto, uma separacao destes dois tipos de cavidades nao e possivel por fragmentar excessivamente o texto.

A revisao bibliografica se propos a demonstrar e discutir a aplicabilidade de conceitos como topofilia, topofobia, sagrado e profano ao carste, relacionando-os a exemplos nacionais e internacionais. Essa etapa foi importante para a construcao de um referencial teorico basico, essencial para o desenvolvimento da tematica do trabalho.

Dada a natureza do objeto de estudo e os propositos da investigacao, optou-se por realizar uma pesquisa de carater exploratorio e descritivo, com algumas analises de cunho qualitativo e quantitativo, assim como proposto por metodologia da observacao participante adaptada de Steil (1996; 2003), Evia Cervantes (2007) e Barbosa (2007; 2009).

Outra etapa foi realizada, entre os anos de 2006 e 2010, a fim de identificar o fenomeno do uso cultural e religioso do carste alternando a presenca nos locais de culto em Antonio Pereira (Gruta da Lapa) e em Vazante (Lapa Velha), Minas Gerais e nas Grutas Sveta Jama (Caverna Santa) e Landarska Jama ou Sv. Ivan v Cele (Caverna de Landarska ou Gruta de Sao Joao na Rocha). Aqui, os dados historicos e geograficos teoricos foram confrontados com a percepcao de campo do autor nestes e em outros sitios sagrados europeus que foram detalhados em Travassos (2010).

Essa abordagem metodologica levou em conta a observacao participante dos peregrinos e dos turistas durante as festividades nas cavernas brasileiras e durante as visitas as cavernas europeias. Identificou-se, dessa forma, como se portam os individuos no espaco sagrado. Tais observacoes sao complementadas por entrevistas informais semi-estruturadas com os participantes--tanto romeiros quanto turistas. Os dialogos cobriam as ideias basicas sobre a estoria das aparicoes ou das lendas associadas, o conhecimento da gruta e outros relatos. Assim, as informacoes apresentadas fundamentaram-se na producao academica sobre o assunto e nas informacoes orais coletadas durante os trabalhos de campo.

VIAJANTES E GEOGRAFOS CLASSICOS

Acreditamos que dos estudos fisicos da natureza, nao e possivel dissociar a figura de Alexander von Humboldt (1769-1859). Se pensarmos na Geografia, essa separacao e ainda mais dificil. Turley (2001) afirma que muitos o consideram o fundador dessa Ciencia, enquanto outros o chamam de o maior responsavel pela ciencia moderna como um todo. Kohlhepp (2006) tambem concorda que Humboldt contribuiu significativamente para o desenvolvimento e a consolidacao da Geografia como ciencia. Como geografo fisico, iniciou os estudos climatologicos e fitogeograficos. Como geografo humano, engajou-se nos aspectos relevantes da geopolitica e da geografia humana dos estudos regionais. Como cartografo, representava a natureza muito didaticamente por meio de cartas e perfis belissimos.

Para Amorim Filho (2008), Humboldt teve um papel importantissimo junto aos pintores do "exuberante Novo Mundo" tropical. Tal afirmativa e comprovada por Diener (2007) que identifica, por exemplo, de que forma os trabalhos de Humboldt influenciaram o artista alemao Johan Moritz Rugendas (1802-1858). O naturalista Carl Friedrich Phillipp von Martius (1794-1868), tambem abordado no trabalho de Travassos (2010), assim como muitos de seu tempo foi influenciado por Humboldt. Henriques (2008, p.27) nos lembra esse fato quando afirma que, "como europeu, Martius certamente tinha grande curiosidade pela America, devido a leitura dos livros de Humboldt", frequentemente citado no diario de sua viagem pelo Brasil.

Mesmo com todos os trabalhos escritos sobre Humboldt e suas pesquisas, o que alguns ainda desconhecem, e sua importancia para o estudo do carste e das cavernas. No Brasil, poucos ou nenhum trabalho foi feito no sentido de destacar como essas feicoes sao mostradas em suas obras. Nas suas "Narrativas pessoais", "Nos Quadros da Natureza", no "Cosmos", no "Ensaio geognostico sobre a sobreposicao das rochas em ambos os hemisferios", no "Ensaio Politico sobre o Reino da Nova Espanha" e na "A Ilha de Cuba", sao descritas cavernas em macicos carbonaticos e graniticos, sumidouros, ressurgencias e minerais diversos.

O uso do subterraneo como moradia, abrigo, espacos para a pratica de rituais funerarios ou para adoracao de deuses tambem sao presentes em suas obras. Alem de descrever os aspectos fisicos da Caverna dos Guacharos, por exemplo, observou os ritos religiosos dos indigenas que estavam acostumados a celebrar cerimonias na entrada da caverna. La consultavam os espiritos poderosos que interviriam contra os espiritos malignos que habitavam a escuridao.

Os naturalistas Spix e Martius (1824) registram o carste apresentando indicios do uso religioso do subterraneo, seja em cavernas naturais ou artificiais, tanto na Eslovenia quanto na Italia e Africa, antes de chegarem ao Brasil. No pais, Spix e Martius (1824, p.277), viajam pelo interior da entao colonia portuguesa passando tambem, por areas carsticas. Na regiao do Quadrilatero Ferrifero, claramente mais interessados pelos metais preciosos e pelos processos de extracao e beneficiamento, registram suas impressoes sobre a Vila de Antonio Pereira e destacam a existencia da Lapa de Antonio Pereira, desenvolvida nos dolomitos da Formacao Gandarela:

Em um aprazivel vale, nao muito distante da vila, um afloramento de calcario cinza claro se destaca na paisagem (...). E provavelmente calcario primitivo e (...) nele encontra-se uma caverna com estalactites, transformada na Capela de Nossa Senhora da Lapa (SPIX; MARTIUS, 1824, p.277).

AS GEOGRAFIAS UNIVERSAIS DE CONRAD MALTE-BRUN ELISEE RECLUS

No escopo deste trabalho, a importancia cientifica e cultural do carste continua sendo comprovada ao citar outros dois importantes geografos classicos: Conrad Malte-Brun e Elisee Reclus. Para Amorim Filho (1988, p.18) as Geografias Universais, particularmente desses dois autores, foram escritas com o objetivo de "cobrir o conhecimento geografico de toda a Terra, tendo como base divisoes macro-regionais", desenvolvendo-se a partir da "escola geografica' francesa.

A primeira das grandes obras de "inspiracao enciclopedica do dominio da geografia europeia foi a Geographie Universelle' de Conrad Malte-Brun, dinamarques que foi obrigado a exilar-se na Franca em funcao de suas ideias, consideradas muito liberais para a epoca." (AMORIM FILHO, 1988, p.19). Tinha por objetivo propiciar uma renovacao na geografia que o autor julgava ser de fundamental importancia aquela epoca (AMORIM FILHO, 1988).

O carste e as cavernas sao retratados sob a mesma otica da integracao dos estudos fisicos e humanos. Inumeras referencias a geologia e ao tipo do calcario de varias regioes do mundo sao feitas. Descricoes de cavidades repletas de fosseis e concrecoes tambem sao comuns nos 8 volumes existentes. Alem disso, cavernas utilizadas como habitacoes e templos tambem sao registradas. Muitos outros registros estritamente fisicos sobre processos geomorfologicos e cavernas sao encontrados na obra de Malte-Brun, entretanto, os esforcos deste trabalho concetram-se mais em seu uso cultural e religioso pelo Homem.

Um breve exemplo que ilustra a afirmativa refere-se ao Monte Carmelo, em Israel e as catacumbas Capuchinhas de Palermo. Na obra Malte-Brun (1824, p.149) e informado sobre os supostos milagres de Elias e que, na regiao, "milhares de cristaos viviam em cavernas na rocha; a montanha era, entao, coberta por capelas e jardins. Atualmente, nada pode ser visto a nao ser as ruinas entre os carvalhos e oliveiras cujas cores verdejantes sao interrompidas pelas rochas calcarias".

Em meados e fins do seculo XIX ao seculo XX, surge, primeiramente, o nome de Elisee Reclus (1830-1905). Sobre Reclus, Amorim Filho (1988) afirma que o mais extenso dos trabalhos de Reclus e tambem o maior trabalho de geografia regional redigido por um homem so e a sua Nouvelle Geographie Universelle tornando-o famoso. "Mesmo que criticado por alguns geografos franceses como, as vezes, superficial em certos temas (bases geologicas da Geografia, por exemplo), o trabalho de Reclus so pode ser caracterizado como grandioso." (AMORIM FILHO, 1988, p.24). Em relacao a tematica deste trabalho, pode-se afirmar que em todos os 19 volumes desta Geografia Universal, ha referencias a tematica das cavernas, dos sumidouros, das ressurgencias e do uso do carste por diferentes culturas (TRAVASSOS, 2010).

Da mesma forma que os outros autores, os fenomenos carsticos que mais chamaram sua atencao foram as cavernas, dolinas, sumidouros e ressurgencias. Frequentemente fez relacao com as lendas associadas a esses locais.

Obviamente os volumes da Geografia Universal de Reclus nao abordam completamente todas as provincias carsticas mundiais. Entretanto, muitos registros significativos sao feitos e vem comprovar a importancia dos estudos da geografia historica, humanistica e fisica. Alem disso, mostra a grande contribuicao de um geografo frances do seculo XIX.

A CONTRIBUICAO MODERNA DE JEAN NICOD E CHRISTOPHE GAUCHON

Tambem pertencentes a Escola Francesa, os nomes de Jean Nicod e de Christophe Gauchon devem ser lembrados ao se falar da importancia cultural das cavernas. Muitas das cavernas hoje conhecidas apresentam indicios de usos sucessivos ou cumulativos ao longo da historia, seja como fontes de agua potavel em locais assolados por secas sazonais ou com pouca disponibilidade de agua superficial, seja como locais de protecao e uso religioso.

Nicod, Julian e Anthony (1996) ainda sugerem que a disponibilidade de agua foi, entre outras coisas, responsavel pelo desenvolvimento dos assentamentos humanos no carste. Os povos pre-Colombianos ja utilizavam o carste e suas aguas para sua sobrevivencia. Os gregos foram os primeiros a canalizar a agua das ressurgencias de Siracusa, na Sicilia. Ja os romanos ficaram famosos pelas construcoes dos aquedutos que forneciam agua abundante e fria para muitas de suas cidades. Durante a Idade Media, alem do abastecimento, as aguas carsticas eram utilizadas como fonte de energia motriz, assim como nos dias de hoje.

Ao relacionarem o uso das cavernas tambem como refugios, Nicod, Julian e Anthony (1996) associam-nas tambem ao termo santuario contra os inimigos. Especialmente nos Balcas, existem inumeros registros de cavernas que foram utilizadas por cristaos, klephts (2) e hajdouks (3) durante a dominacao Turca. Na Europa ocidental, durante as Cruzadas, varias cavernas foram usadas e Day (2004) nos lembra que o carste Jamaicano foi um tradicional refugio para os "Maroons", na resistencia contra os ingleses de 1690-1796.

Ja no seculo XX, a utilizacao estrategica de cavernas europeias ocorreu na Grande Guerra e pelos Partisans da antiga Iugoslavia e pela resistencia francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Nas guerras revolucionarias do Vietna, Argelia, Libano e Cuba, as cavernas tambem desempenharam um importante papel de protecao e refugio (NICOD, JULIAN; ANTHONY, 1996).

Naturalmente, ao longo da historia, tais cavernas-refugio apresentaram fortificacoes em suas entradas. Na Eslovenia, os exemplos mais conhecidos sao o Castelo de Predjama e a Caverna de Osp (Osapska Jama). Essa ultima ainda apresenta vestigios de um muro em sua entrada que tentava proteger os refugiados dos ataques dos turcos na regiao. Outra caverna, entre tantas na Eslovenia, tambem mostram os vestigios de um muro de protecao (a Sisca Jama).

Sobre a Caverna Sisca, MaleCkar (2005) lembra que ha cerca de 400 anos atras, apos os Venezianos terem ateado fogo na regiao, somente metade da torre do castelo foi preservada e ainda pode ser vista hoje. Na parte posterior da torre, uma escarpa proporciona a visao geral do vale cego de Brezovica e cerca de 15 metros abaixo, e possivel ver vestigios do muro de protecao da caverna. Para o autor a Caverna Sisca foi murada na segunda metade do seculo XIV, periodo em que os Turcos invadiram a regiao.

Pelas vantagens microclimaticas que proporcionam, muitas das cavernas naturais ou artificiais, foram e ainda sao utilizadas como moradia temporaria ou permanente. Em relacao a funcao religiosa desses locais, muitas cavernas-igreja hoje existentes originaram-se tambem a partir de fortificacoes.

Essa funcao religiosa das cavernas e facilmente perceptivel ao longo da historia. Para Nicod, Julian e Anthony (1996) e Nicod (1998), podem ser basicamente divididas em tres grande categorias de acordo com sua funcao: 1) magico-religiosas; 2) sepulcros e 3) eremiterios cristaos e budistas. Acrescentariamos a ultima categoria, eremiterios hinduistas. Na maioria dos casos, senao em todos, a agua apresenta supostos poderes curativos e sagrados.

Cavernas tambem sao apresentadas ao longo da historia como santuarios pagaos da Antiguidade, sobrevivendo ao tempo atraves das lendas. Essas, normalmente associando as cavernas com a moradia do mal e de outros seres. De acordo com Nicod, Julian e Anthony (1996), para sacralizar o profano, na entrada de muitas dessas cavernas foram construidas capelas geralmente dedicadas a Sao Miguel Arcanjo que supostamente bloquearia as entradas desses sitios amaldicoados.

Ja Gauchon (1997), na introducao de seu trabalho sobre as cavernas e os homens, cita Pierre Defontaines (1933) afirmando que a geografia humana encarrega-se especialmente de reunir as evidencias da presenca humana pelo Globo. Com base nessa afirmativa, Gauchon (1997) desenvolveu pesquisas demonstrando a importancia cultural do carste frances. Identificou cavernas utilizadas como refugios, santuarios e diversos outros tipos de uso, como adegas e locais para fabricacao de queijos.

Ressalta-se que dos cinco capitulos da obra, 1 e dedicado ao uso das cavernas como santuarios, tratando as cavernas como espacos santificados. O autor estabelece tipologias das "grutas-refugio", a saber: 1) cavernas fortaleza reais, 2) refugios stricto sensu e 3) postos de vigilia. Em relacao aos usos diversificados, o autor menciona a existencia das seguintes categorias: 1) abrigos subterraneos (pequenos e grandes), 2) locais para exploracao de recursos renovaveis e nao-renovaveis do endocarste (agua potavel e uso de espeleotemas, por exemplo), 3) queijarias tradicionais e 4) turismo espeleologico ou espeleoturismo.

Especialmente para os geografos, tais tipos de uso dos espacos subterraneos remetem ao significado dos conceitos do espaco e do lugar, frequentemente associados as paisagens naturais e, em especial, as cavernas.

OS CONCEITOS DE ESPACO, LUGAR, IMAGINARIO, TOPOFILIA, TOPOFOBIA E A RELACAO HUMANA COM AS CAVERNAS

Assim como os trabalhos de Humboldt, e igualmente impossivel esquecer os trabalhos de Yi-Fu Tuan relacionados com a percepcao humana do ambiente. Dessa forma, relacionar os conceitos de espaco e lugar ao carste e tarefa de extrema importancia para o desenvolvimento do trabalho.

Rodaway (2007) nos lembra que, embora os primeiros trabalhos de YiFu Tuan tenham sido realizados na area da geomorfologia (estudando pedimentos no sudoeste do Arizona), sua reputacao foi estabelecida como um geografo cultural, sendo responsavel pela redefinicao da Geografia Humana como o estudo das relacoes entre o ser humano e o ambiente.

E preciso lembrar, portanto, dos conceitos de espaco, lugar, topofilia e topofobia. Como definido por Yi-Fu Tuan, topofilia e a relacao ou conexao afetiva entre as pessoas e o lugar. Essa relacao e influenciada por diversos fatores, entre eles, o background cultural e as circunstancias historicas nas quais vive uma sociedade. Hoelscher (2006) afirma que Tuan considera que os componentes biologicos e sensoriais tambem devem ser levados em conta. Sendo assim, afirma que a topofilia talvez nao seja a mais forte das emocoes humanas (devido a variedade de respostas a determinado ambiente), entretanto, quando "ativada" possui o poder de elevar o espaco a categoria de lugar. Tal sentimento geralmente possui uma conotacao de relacao positiva, podendo, dependendo do individuo, ser trocado por um sentimento de "topofobia". Ao estudarmos a relacao humana com as cavernas, tais sentimentos sao mais facilmente percebidos.

Para Tuan (1980; 1983), o lugar e uma unidade de espaco organizada mentalmente e materialmente para satisfazer as necessidades bio-sociais basicas reais ou percebidas, de um povo. Alem disso, suas aspiracoes estetico-politicas superiores tambem podem ser expressas pela "transformacao" de um espaco em lugar. Dessa forma, um espaco desprovido de valor transforma-se em lugar para um individuo ou grupo social, quando esses passam a possuir um sentimento de pertencimento.

O lugar refere-se, mais tipicamente, a um segmento particular da superfice terrestre, caracterizado por esse sentimento de pertencimento que o faz ser diferente dos demais. Assim, podemos considerar o lugar como a porcao mais significativa do espaco (CRESSWELL, 2006). As cavernas consideradas sagradas em diversas culturas comprovam tais afirmacoes.

Ainda sobre o lugar, Tuan (1980; 1983) e Rosendahl (2007) afirmam que sua concepcao e um ato social, diferindo-se entre si, pois as pessoas os fizeram assim. Nao sao simplesmente o resultado nao intencional de processos economicos, sociais e politicos; sao, tambem, sitios potenciais de fontes de conflito.

No caso de cavernas-santuario ou cavernas-igreja, essa ultima caracteristica de ser fonte de possiveis conflitos pode ser sentida seja entre os orgaos ambientais, os ambientalistas e os fieis ou entre fieis de diferentes tradicoes como ocorre no Oriente Medio ou na India, por exemplo.

A imagem das cavernas no imaginario popular ou mesmo na mitologia e, geralmente, relacionada a locais de escuridao e abandono. A partir dessa percepcao, as cavernas sao vistas preconceituosamente como locais onde o medo domina. Em outros casos, sao percebidas como o lugar de morada de deuses e deusas. Outras representacoes relacionam esse ambiente a ressurreicao ou ao local onde figuras religiosas ou sagradas estiveram. Essa clara oposicao entre os sentimentos topofobicos e topofilicos, respectivamente, e motivo de reflexao por parte de filosofos e religiosos ao longo da historia.

E, portanto, a partir da relacao de conflito existente entre o Homem e o espaco onde a luz, a sombra e a escuridao se combinam harmoniosamente, que brotam os sinais "que tentam explicar o que e logico, real ou imateriaf (BARBOSA, 2007). Nesse contexto, faz-se necessaria a compreensao dos conceitos da tradicao oral, dos mitos e dos simbolos. Os trabalhos de Cervantes (2006; 2007) e de Eliade (1991; 1994) proporcionam a base necessaria para a compreensao do imaginario coletivo em relacao a mitos. No Brasil, especialmente na comunidade espeleologica, o estudo do imaginario das cavernas e ainda relativamente novo.

Recebeu importantes e significativas contribuicoes iniciais de Figueiredo (1999; 2001), Gomes (2003), Mendes (2003), Silva (2003), Teixeira (2003) e Figueiredo, Travassos e Silva (2009), sendo continuado sob a otica da percepcao ambiental e do uso religioso das cavernas por Travassos et al. (2006), Kranjc e Travassos (2007), Guimaraes, Travassos e Varella (2007; 2009), Travassos et al. (2007), Travassos (2007d), Travassos e Varela (2008) e Travassos et al. (2008). Importantes contribuicoes sao tambem feitas por Barbosa, Nogueira e Neves (1999), Barbosa (2007), Barbosa e Travassos (2008), tambem sob a otica do uso religioso das cavernas.

A beleza da paisagem carstica e das cavernas constitui-se, segundo Teixeira (2003, p.11), no "fator de referencia para o desenvolvimento do universo imaginario (...), elemento propulsor do nascimento de lendas e 'causos' associados a mitos mais gerais". Esse imaginario em relacao as cavernas e expresso na tradicao oral das comunidades tradicionais e serve para auxiliar os pesquisadores no entendimento dos comportamentos ambientalmente corretos ou nao de cada grupo social. Esse imaginario pode estar relacionado aos sentimentos de medo (topofobia) ou afinidade (topofilia), ambos comuns aos visitantes das cavernas, sejam elas cavernas-igreja ou cavernas-santuario.

Para Cervantes (2006; 2007), a tradicao oral apresenta-se como o conjunto de testemunhos "impressos" na memoria coletiva de um grupo. Manifesta-se na comunicacao entre os integrantes de uma sociedade ou uma comunidade especifica. Seus conteudos sao elaborados, reelaborados e transmitidos oralmente pelos integrantes das geracoes anteriores aos membros da sociedade atual. Para o autor seu estudo e tarefa dificil, porem, gratificante. Trata-se, principalmente, de ouvir as pessoas, como dizem, quando dizem e porque dizem. As lendas ou estorias fabulosas de milagres e aparicoes criam um ambiente enigmatico; a atmosfera da narrativa torna-se misteriosa e, muitas vezes, o sentimento de respeito e experimentado na voz do narrador.

Por isso, especialmente no tocante a relacao humana com as cavernas, observa-se que seu estudo formal ainda e escasso e praticamente desconhecido nos meios urbanos. Isso e facilmente percebido nas entrevistas com os moradores ou com os romeiros nas cavernas-igreja. Muitas vezes o simples turista nao tem acesso a essas narrativas.

Assim como apontado por Cervantes (2007) em seus estudos no Mexico, e possivel afirmar que o Brasil tambem possui uma tradicao oral muito rica. Essa tradicao propicia o surgimento de mitos e simbolos que atravessam os seculos. Na America do Sul, Cervantes (2006) afirma que "sua mitologia de hoje" e composta por testemunhos originarios tanto de epocas pre-hispanicas quanto de relatos mais atuais. Essas fontes publicas e anonimas abordam assuntos importantes e serios relacionados a existencia e a sobrevivencia da comunidade.

Para Limon (1990) citado por Cervantes (2007), os mitos proporcionam as respostas satisfatorias as preocupacoes profundas do ser humano. Eliade (1992, p.50) afirma tambem que e um "modelo exemplar", que conta uma historia sagrada ou um acontecimento primordial, que teve lugar no comeco do tempo e, uma vez dito ou revelado, torna-se verdade. Assim, fixa os modelos dos ritos e das atividades humanas.

Sao, portanto, fenomenos complexos que dificilmente podem ser explicados por uma unica teoria. As cavernas e o carste sao justamente o cenario para o surgimento de inumeros mitos e o desenvolvimento do imaginario coletivo das cavernas. Uma vez que se atribui a uma caverna a aparicao de um santo(a) ou o refugio de um beato(a), por exemplo, dificilmente esse lugar deixa de ser venerado em favor de outro.

Dessa forma, as cavernas surgem no contexto apresentando pinturas rupestres e dando suporte a construcao de templos, esculturas, rituais, etc. Com os relatos dos naturalistas e geografos citados anteriormente, percebe-se que alguns simbolos dominantes chegam a se estender por extensas areas geograficas, expressando-se em multiplos contextos e ate continentes. O mais notavel e a relacao das cavernas com as serpentes que apresenta-se similar em varias culturas.

Cervantes (2006) destaca que regiao de Yucatan, America Central, e rica em elementos do imaginario. Na regiao, a serpente Tsukan vive, cuida ou e dona de uma caverna ou cenote. Os relatos afirmam que e tao grande que sua cabeca e como a de um cavalo; quem a encontra menciona o brilho de seus olhos na obscuridade da noite ou da caverna. O encontro com o ser e temido pelos moradores rurais, pois caso a matem, uma desgraca certamente ocorrera na familia. Esta pode ir desde paralisia temporal, febres, enfermidades, lesoes permanentes ou ate a morte. Relatos ainda dao conta de que, devido a seus poderes extraordinarios, a Tsukan se alimenta apenas abrindo a boca quando, entao, suas presas entram para ser devoradas (CERVANTES, 2007).

No Brasil, uma entidade similar a mexicana foi descrita por Segura (1937), sendo reproduzida por Steil (1996), como demonstrado anteriormente. De maneira geral, Cascudo (2001) afirma que, segundo a tradicao portuguesa, existe no interior do pais uma serpente que procura as maes que amamentam os filhos, surpreendendo-as durante o sono para sugar-lhes o seio. O autor lembra que tal narrativa e parecida com a lenda das mouras encantadas de Portugal.

"Para o povo, elas [as serpentes] apresentam poder misterioso de vitalidade e de forca; simbolo do mal e da sabedoria; simbolo diabolico e da tentacao do mal, resistindo nas formulas exorcistas catolicas" (CASCUDO, 2001, p.632), "onde, em algumas regioes, monstros arrastam o imenso corpo pelas montanhas" (CASCUDO, 2002, p.14).

De acordo com Ronecker (1997) a serpente e, sem duvida, o animal que provocou mais interpretacoes miticas e simbolicas. Possui valores simbolicos variados e contraditorios. Beneficas para uns, maleficas para outros. E a prima mitica do dragao.

Um exemplo dessa relacao pode ser observada mesmo no "Velho Mundo", na Europa Medieval, quando Cuk (2008) registra uma lenda associada a Caverna de Postojna: conta a lenda que, ha muitos anos atras, um terrivel dragao teria vivido nessa caverna aterrorizando os moradores da vila ate que foi bravamente derrotado por um pastor da regiao.

Essa passagem nos mostra, talvez, o papel desempenhado pelas "trevas" da caverna ao povo daquela pequena cidade europeia, como forma de abrandar o temor da populacao em relacao a escuridao incompreendida. Para Tuan (1979/2006), os medos sao experimentados particularmente por cada individuo, sendo por isso, subjetivos; alguns, entretanto, sao produzido por um meio ambiente ameacador. Para o autor, o proprio conceito de paisagem, como o termo tem sido utilizado desde o seculo XVIII, e uma construcao da mente, assim como uma entidade fisica mensuravel. A "paisagem do medo" (TUAN, 1979/2006, p.12) diz respeito tanto aos estados psicologicos, como ao ambiente real.

Os dragoes do imaginario europeu continuam relacionados as cavernas ou ao carste: Na obra "Mundus Subterraneus" de Kircher (1678), sao ilustrados pelo menos 5 tipos de dragoes e a classica luta entre o homem e esse ser. No seculo XVII, um famoso explorador alpino chamado Johann Jacob Scheuchzer, dedicou-se ao estudo das plantas, minerais e movimentos do gelo dos Alpes europeus de 1702 a 1711. A epoca teria sido responsavel, inclusive, pela catalogacao dos dragoes suicos. Segundo Scheuchzer, "os melhores dragoes viviam em Grisons, o maior e mais escassamente povoado dos cantoes suicos. A regiao e tao montanhosa e com tantas cavernas, que seria estranho nao encontrar ai, dragoes." (BERR apud TUAN, 2006, p.129).

Cervantes (2006) destaca que os temores dos habitantes de areas rurais em relacao as grutas vao desde de se perderem nos labirintos ate cairem em algum abismo interior. Alem disso, apresentam-se como sitios especiais dotados de valor sobrenatural, como a Gruta Xpukil, no povoado de Calcehtok e o cenote K'oop. De acordo com as comunidades, as grutas podem se fechar se desrespeitadas (lenda similar a gruta do Lapao Velho, na Bahia) e para que nada ocorra ao entrar no cenote, e necessario levar oferendas (cigarros, agua e comida).

Nas Ilhas Fiji, Eliade (2002) registra a suposta existencia de uma divindade celeste chamada Ndengei. Representada na forma de uma serpente, vive em uma caverna. Quando incomodada ou quando se agita, a terra estremece. "Embora seja tambem criadora do mundo, e onisciente e punidora do mal." (ELIADE, 2002, p.50).

Kejonen (1997) destaca que, das 750 cavernas conhecidas na Finlandia, cerca de 473 estao ligadas a algum tipo de tradicao popular ou narrativa oral. Nestes registros, cavernas foram utilizadas por xamas, eremitas, ladroes, assassinos, refugiados de guerras, trabalhadores e cacadores. Para esses ultimos, muitas cavernas ainda servem como locais de abrigo, apresentando modificacoes antropicas. Em relacao ao imaginario, as cavernas como morada de seres sobrenaturais tambem sao identificadas.

Sobre a relacao entre a presenca de criminosos em cavernas, Cardoso (2006) destaca a lenda relacionada a Gruta da Moeda, em Fatima, Portugal. Segundo a estoria, um homem rico da regiao, a passar por um matagal, foi atacado e saqueado por um bando de criminosos. Apos mata-lo, teriam jogado seu corpo em um abismo. No momento em que atiravam seu corpo as profundezas, deixaram cair o saco de moedas na caverna, perdendo-as para sempre.

Na Australia, Hamilton-Smith (1987) afirma que qualquer espaco "selvagem" favorece a criacao de mitos e lendas e as cavernas australianas tambem estao incluidas nesse cenario. Assim, identifica exemplos de mitos sobre abismos sem fundo, conflitos entre aborigenes e colonizadores, bem como a existencias de herois populares que utilizaram-se de tais espacos.

Clark (2007) apresenta um artigo sobre o imaginario dos aborigenes australianos afirmando que o estudo das associacoes feitas pelos aborigenes e as cavernas devem ser vistos como um rica fonte de informacoes culturais. Assim como em outras culturas, as cavernas, dolinas e sumidouros desempenharam e ainda desempenham um papel importante na vida dessas comunidades tradicionais. Frequentemente sao retratadas como a morada de herois ancestrais, espiritos e criaturas maleficas e ate mesmo o local de descanso apos a morte.

Muitos relatos compilados por Cervantes (2006) mostram que e comum a percepcao de que as grutas e deidades associadas ao subterraneo possam castigar ou proteger. Os maus comportamentos seriam punidos por uma deidade, seja Deus ou Satanas. Em algumas regioes de Yucatan, nao se pode entrar nas cavernas durante a Semana Santa. Em 1995, a desobediencia desta regra causou a morte de pessoas que nao respeitaram a tradicao. O autor ainda lembra que, caso uma gruta seja profanada, uma forca sobrenatural pode infligir castigos severos.

Dessa forma, "e necessario abordar as paisagens do medo tanto da perspectiva do individuo quanto do grupo social e coloca-las ainda que sob a forma de tentativa, em um marco historico" (TUAN, 1979/2006, p.15) pois, "a medida que o homem aumenta o seu poder sobre a natureza, diminui o medo que se sente dela."(TUAN, 1979/2006, p.16). Por essa razao, acredita-se na utilizacao da Educacao Ambiental direcionada a areas carsticas e cavernas.

No norte da Irlanda, Steward (2005) lembra da existencia de um centro de peregrinacao medieval, o Purgatorio de Sao Patrick. Tal caverna era considerada nas lendas regionais como a entrada para o inferno. Localizada em Donegal, acredita-se que Sao Patrick teria morado na cavidade onde teria vencido inumeras tentacoes e recebido, inclusive, uma visao do que seria o inferno. St. John D. Seymour (1918) registrou que na gruta, St. Patrick teria iniciado o processo de conversao dos Irlandeses ao cristianismo. Ate hoje o local recebe uma peregrinacao anual de centenas de milhares de pessoas.

Ainda sobre a relacao do subterraneo com a crenca da existencia do inferno, Steward (2005) afirma que o deus Chines da misericordia, Ti-Tsang Wang, andaria por cavernas infernais em busca de almas para serem salvas do submundo.

A GEOGRAFIA DA RELIGIAO E OS CONCEITOS DE SAGRADO X PROFANO RELACIONADOS AO CARSTE E AS CAVERNAS

Com o que foi exposto ate o momento percebe-se o porque das cavernas e abrigos sob rocha terem sido sacralizados ao longo da historia das sociedades. O uso ritual de tais espacos foi, com o tempo, imprimindo uma marca caracteristica na paisagem por meio da cultura. Acredita-se que as cavernas, sejam elas em carbonatos ou em rochas siliciclasticas, naturais ou artificiais, sao os exemplos mais notaveis desse tipo de interacao entre o Homem, a paisagem e a cultura.

Gil Filho (2007a) afirma que a religiao e parte indissociavel da experiencia humana e, por esse motivo, o homem nao fica passivo diante da realidade imediata e tenta buscar os significados da existencia atraves da pratica simbolica.

Um exemplo que ilustra essa busca de significados ou a impressao cultural nas cavernas e demonstrado por Shaw (2006). O autor afirma que varios nomes de saloes e espeleotemas de cavernas do mundo inteiro derivam de formas arquitetonicas e outros objetos como animais, aves, plantas, partes de igrejas e ate mesmo da propria anatomia humana. Nomes tambem sao dados para evocar cidades ou monumentos que as fazem notaveis, alem de serem comuns nomes sagrados ou de herois nacionais e exploradores.

Alguns exemplos pertinentes a esse trabalho sao a Caverna de Madalena (Crna Jama), nome dado por sua proximidade a Igreja de Santa Maria Madalena, por exemplo. Na Caverna de Postojna, ao longo da historia, espeleotemas e saloes receberam os nomes de Altar, Altar-mor, Santa Madalena, Santo Antonio de Padua (Sv. Anton Padovano), Fonte batismal, Papa, Calvario, Capela, Grande Monte Calvario, Grande Catedral, Caverna de Santa Catarina, Cadeira de Sao Pedro, Monte Calvario, Sao Estevao e, tambem, Inferno. Tal fato tambem e notado por Cardoso (2006, p. 103) que destaca alguns dos nomes dados aos espeleotemas da Gruta da Moeda, em Fatima, Portugal. Os espeleotemas sao nomeados de presepio, pastor, Virgem, capela imperfeita e fonte das lagrimas, por exemplo.

Assim, LeBon (2002) afirma que o meio social exerce uma acao significativa sobre as opinioes humanas. A despeito da vontade, o meio social determina interferencias inconscientes que dominam o grupo social. Isso e o que geralmente ocorre com a concepcao das pessoas em relacao as cavernas: "Em materia de opinioes e de crencas individuais, deduzidas das nossas proprias observacoes e dos nossos raciocinios, temos geralmente muito pouco" (LeBON, 2002, p.198). Para o autor, "os homens, na sua maioria, somente possuem opinioes coletivas" (LeBON, 2002, p.195). Para Rosendahl (2007), a pratica religiosa que se traduz na ida ao santuario, por exemplo, representa uma das varias formas pelas quais a religiao age sobre pessoas e lugares.

Nas cavernas sagradas, esses lugares simbolicos sao praticamente criados pela ocupacao humana dos espacos e pelo uso de simbolos transformadores do espaco em lugar. A "forca propulsora" desses lugares e a variacao espaco-temporal do fluxo de peregrinos e a maior ou menor intensidade dos fluxos. Essa intensidade de fluxos aos lugares sagrados produzem as escalas de peregrinacao como locais, regionais e internacionais. Inumeras cavernas encaixam-se em nas tres escalas.

Mas o que seria o sagrado ou o chamado lugar sagrado? Para Caillois (1988, p.15) "sobre o sagrado em geral, a unica coisa que se pode afirmar com validade esta contida na propria definicao do termo: e que ele se opoe ao profano." Se opoe ao profano ainda que nao sofra modificacao fisica aparente. Depois de sacralizado, o espaco nao mais pode ser utilizado livremente. Eliade (2002, p.372) tambem afirma que "a maneira mais simples de definir o sagrado e opo-lo ao profano."

Eliade (1992, p.13) ainda afirma que "o homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como qualquer coisa de absolutamente diferente do profano." Entretanto, Galimberti (2003, p.11) explica melhor o conceito exposto ao registrar que

sagrado e uma palavra indo-europeia que significa "separado". A sacralidade, portanto, nao e uma condicao espiritual ou moral, mas uma qualidade inerente ao que tem relacao e contato com potencias que o homem, nao podendo dominar, percebe como superiores a si mesmo, e como tais atribuiveis a uma dimensao, em sua vida denominada "divina", "separada" e "outra" com relacao ao mundo humano (GALIMBERTI, 2003, p.11).

Em relacao as cavernas, vemos uma tendencia de sacralizacao, com maior ou menor intensidade, em diversos sistemas de crenca religiosa. Para Perera (1988), as cavernas comecaram a ser convertidas em sepulturas naturais (e talvez possamos dizer que em lugares sagrados) ja a partir do neolitico. Na mitologia grega, a herois lendarios e outorgada a imortalidade em grutas e abismos profundos, reservando a estes, certa sacralidade. Caillois (1988, p.19-23) afirma que em qualquer concepcao religiosa do mundo ocorre "a distincao do sagrado e do profano, onde o ultimo e constantemente impelido a apoderar-se do sagrado." Talvez por isso, suas relacoes mutuas sao regulamentadas atraves dos ritos.

Como proposto no inicio do presente trabalho, nao e a intencao do autor do presente artigo o aprofundamento da compreensao do fenomeno religioso e, sim, aplicar os conceitos a esse tipo particular de uso das cavernas. Por essa razao, lembramos Eliade (2002, p.07) ao afirmar que "todas as definicoes do fenomeno religioso apresentadas ate hoje mostram uma caracteristica comum: a sua maneira, cada uma delas opoe o sagrado ao profano (...)." Assim, "delimitar o sagrado e tarefa dificil." (ELIADE, 2002, p.07). Devido a grande heterogeneidade dos documentos religiosos, Eliade (2002) ainda afirma que e dificil estudar tais fenomenos. Cada um constitui uma manifestacao do sagrado no universo mental daqueles que o perceberam (ELIADE, 2002). Ainda assim, percebe-se que os espacos subterraneos considerados sagrados possuem semelhancas entre si.

Para Eliade (1956) citado por Hassner (2002), os espacos sagrados sao centros religiosos onde o ceu e a terra se encontram tornando o meio de acesso do Homem ao Divino. Sendo assim, destaca-se que um lugar sagrado possui pelo menos tres caracteristicas: 1) sao locais de comunicacao com o divino atraves da oracao, movimentacao ou contato visual com a imagem do divino; 2) sao locais da presenca divina que promete cura, sucesso ou salvacao e; 3) locais que dao significado a fe atraves da reflexao metaforica. Estas tres caracteristicas combinadas transformam o espaco sagrado em um centro religioso: para o crente, o lugar sagrado torna-se o centro do mundo espiritual ou geografico.

As cavernas-santuario, muitas delas localizadas em imponentes afloramentos ou em posicoes elevadas no terreno, lembram o conceito de "alto", consolidado por Eliade (2002, p.40):
   O "alto" e uma dimensao inacessivel ao homem como tal; pertence
   por direito as forcas e aos seres sobrehumanos; o que se eleva,
   subindo cerimoniosamente os degraus de um santuario ou a escada
   ritual que conduz ao ceu, deixa entao de ser um homem; as almas
   dos defuntos privilegiados.


As cavernas consideradas sagradas sao, geralmente, espacos impregnados de formas e objetos que comunicam significados religiosos ao longo do tempo. "No interior do recinto sagrado" (ELIADE, 1992, p.19) o profano e sacralizado, favorecendo uma abertura para o alto que assegure a comunicacao com o mundo dos deuses (ELIADE, 1992).

Para Gibson (2008), no geral, os espacos sagrados sao percebidos como sendo abrigados dentro de um templo ou santuario. Entretanto, no passado, os lugares de adoracao aos deuses, espiritos e seres cultuados podiam estar em qualquer lugar da paisagem. Podiam estar em uma arvore, gruta, em uma montanha ou ate mesmo, em uma pilha de pedras. Assim, os "santuarios sao lugares de passagem entre o ceu e a terra" (ELIADE, 1996, p.41).

O cientista ou aqueles que nao fazem parte de determinado grupo social, segundo Eliade (1996, p.26), experimentam certo mal-estar diante das formas de manifestacao do sagrado pois; "para muitos e dificil aceitar que, para certos seres humanos, o sagrado possa manifestar-se em pedras ou em arvores (...); nao se trata de venerar a pedra como pedra e, sim, como uma hierofania"; ou seja, uma manifestacao do sagrado. Da mesma forma, acreditamos que nao se trata de venerar a caverna como caverna e sim como lugar onde supostamente se manifestou ou se manifesta o sagrado. Eliade (1992, 1996) afirma que os lugares sagrados guardam uma qualidade excepcional unica que e a de ser o lugar sagrado do universo privado. E a escala, portanto, que cria o fenomeno.

Berger (1994) lembra uma caverna sagrada ao leste do Nepal. Lugar de peregrinacoes Budistas e Hinduistas, a caverna e visitada por Sherpas Budistas (Grupo etnicamente Tibetano oriundo do nordeste do Nepal). Para este grupo, a visita a Caverna de Maratika e feita para "ganhar' ou "acumular merito", pratica comum aos devotos do Budismo. O sitio sagrado se localiza no Distrito de Khotang, 185 km ao sudoeste do Monte Evereste. Assim como em muitas outras cavernas do tipo, em Maratika tanto Budistas quanto Hinduistas atribuem a sacralidade da caverna a uma manifestacao do divino.

Para os Hinduistas, a caverna e o lugar de adoracao de Mahadev (um dos muitos nomes de Lord Shiva) que se manifesta em uma estalagmite na forma de linga (ou falo) localizada no fundo da caverna. Os Budistas, por sua vez, consideram a caverna como sendo sagrada pelo fato de ter sido utilizada pelo Guru Padmasambhava em seu caminho ate o Tibete para introduzir o Budismo na regiao (BERGER, 1994).

Mais uma vez, a tradicao escrita e oral legitima e permite a pratica sociocultural da peregrinacao em funcao de uma feicao endocarstica. Ao realizarem uma jornada ao poderoso lugar sagrado, deixando oferendas e participando dos rituais, os peregrinos esperam obter todos os seus objetivos individuais.

Para Perera (1988), a espeleologia historica e a antropologia dividem alguns aspectos teorico-metodologicos que se centram na percepcao e utilizacao cultural das cavernas, tanto para a sobrevivencia quanto para o uso sagrado. Essa utilizacao sagrada das cavernas ocorre em um dado momento historico onde o sagrado se manifesta. Em outros casos, Eliade (2002, p.355) lembra que, em algumas culturas, "certas pedras se tornam sagradas porque as almas dos mortos--dos antepassados--se encarnam nelas ou entao porque manifestam ou representam uma forca sagrada, uma divindade ou ainda porque um pacto solene ou um acontecimento religioso tiveram lugar na sua vizinhanca."

Em muitas historias da mitologia, a montanha sagrada apresenta-se como uma "variante mais ou menos ilustre do Olimpo Grego. Todos os deuses possuem lugares reservados ao seu culto nos pontos altos" (ELIADE, 2002, p.91), a fim de que a condicao humana fosse transcendida "pelo fato de penetrar numa zona sagrada (templo, altar), pela consagracao do rito, pela morte, exprime-se constantemente por uma 'passagem', uma 'subida', uma 'ascensao'. (ELIADE, 2002, p.92).

A capela de S. Michele dei Pagani (Sao Miguel dos Pagaos) em Braulins, municipalidade de Trasaghis, Italia, ilustra essa afirmativa. Para chegar a capela, e necessaria uma subida da base do afloramento ate o abrigo sob rocha, onde foi erigido o sitio sagrado.

Mylroie et al. (2006) afirma que o Monte Alvernia, na Ilha Cat (Bahamas) possui as 14 estacoes do calvario, que levam o turista ou fiel ate uma Igreja no alto da colina. Anson (1957), Evans (1984) e Taylor (2000), citados por Mylroie (2006), afirmam que o padre anglicano John Hawes, convertido ao catolicismo, habitou uma caverna nessa montanha durante a construcao da Igreja. Nomeou-a Gruta de Sao Francisco de Assis e erigiu um altar para celebracao de missas regulares para a populacao local. Uma pequena caverna, proxima ao topo do caminho onde se encontra a Igreja, foi escolhida como sua catacumba.

Ainda sobre santuarios em abrigos sob rocha ou em cavernas, Stoev e Stoychev (1992) comparam dois existentes na Bulgaria, onde ocorreriam rituais primitivos. A medida do tempo por sociedades primitivas servia nao somente para atividades praticas do dia-a-dia mas, tambem, para a realizacao de cultos e rituais lunares.

Antonov (1977) destaca cavernas sagradas nas montanhas Strandza, no sudeste da Bulgaria. O "Clube de Expedicoes Cientificas" do pais organizou uma expedicao para um estudo detalhado das cavernas da regiao entre 1975 e 1976. Mais de 60 cavernas e abismos foram encontrados e estudados, muitos contendo interessantes achados arqueologicos. Alem daquelas de Strandza, mais de 20 cavernas sao conhecidas na Bulgaria com evidencias suficientes para serem consideradas sagradas pela populacao local. Em todas elas havia uma fonte, um pequeno lago, agua gotejando do teto ou minando pelas paredes, todas com supostas propriedades curativas.

De acordo com Stamenova e Zhalov (2008) as terras Bulgaras podem ser consideradas uma regiao de contato e interacao cultural por mais de 1.000 anos. Por esse motivo, apresenta inumeros e importantes sitios arqueologicos e as cavernas nao sao uma excecao a esta regra. Tais sitios apresentam uma enorme quantidade de registros culturais passados e, ironicamente, sao justamente os lugares mais agredidos pelas atividades antropicas.

Em Gibraltar, Gutierrez Lopez et al. (2001) afirmam que, quando os ribeirinhos se aventuraram pelo Mediterraneo e a comunicacao entre os extremos do Mare Nostrum se fizeram constantes, os navegantes deram inicio a um processo de sacralizacao das ilhas, cabos e promontorios costeiros. A existencia de tais lugares sagrados foi transmitida pelos autores gregos e romanos da antiguidade classica e, por isso, no entorno de Gibraltar sao conhecidos templos e altares dedicados a Hercules, filho de Zeus. Com seus estudos na Caverna de Gorham, os autores afirmam que o sitio era o local de culto de uma ou mais divindades, sendo um santuario aberto de carater "internacional" devido a presenca de diversos artefatos encontrados durante as escavacoes.

Na Pestera Rece (ou Cold Cave), nas montanhas Bihor, na Romenia, Lascu et al. (1994) acreditam que a caverna tenha sido utilizada para uma especie de culto primitivo ao urso. Embora possa haver criticas em relacao a teoria da pratica de um antigo ritual de adoracao, os autores indicam outros trabalhos que datam de 1917 a 1977 onde foram registrados indicios similares de arranjo de ossos de ursos dentro de outras cavernas como alguma forma de oferenda para caca. Tal organizacao foi observada em diversas cavernas romenas desde 1672.

Alem das posicoes de destaque no terreno, os locais sagrados no carste e nas cavernas manifestam-se tambem por causa dos supostos poderes de suas aguas. Eliade (2002, p.155) afirma que "o mito mais importante das Ilhas de Trobriand [Ilhas ao longo da costa oriental da Nova Guine] revela que Bolutukwa, a mae do heroi Tudava perdeu a virgindade em consequencia de algumas gotas de agua caidas de uma estalactite." As Ninfas, comuns na literatura Helenistica, sao as "divindades que residem tambem nas cavernas em que ha umidade" (ELIADE, 2002, p.166), sendo comum a descricao da existencia de diversas "Grutas das Ninfas".

Haland (2009) identifica rituais sagrados pre-Cristaos e Cristaos relacionados com a agua subterranea na Grecia. Se antes as fontes de agua representavam as Ninfas, hoje, tais lugares sao dedicados a Nossa Senhora (Panagia) e possuem supostos poderes curativos. A autora ainda lembra que os moradores de Atenas e do entorno vao a Gruta de Nossa Senhora da Lapa na primeira sexta-feira apos o domingo de Pascoa para ter contato com o sagrado.

A caverna se localiza na vertente sul da Acropolis e a fonte se localiza no interior de uma caverna na qual foi construida uma igreja. A autora baseouse em trabalhos de campo durante os rituais religiosos contemporaneos para compara-los com os registros da Antiguidade, realizando uma interessante comparacao com este culto moderno que nao foi bem documentado ate o presente.

O papel das aguas carsticas e lembrado tambem por McNatt (1996), ao estudar os Maias do Belize e por Burri (2007), ao escrever sobre as aguas carsticas no mundo antigo como objeto sagrado e recurso natural.

McNatt (1996) afirma que, geralmente, os Maias acreditavam que as cavernas e alguns corpos d'agua eram a entrada para o mundo subterraneo conhecido como Xibalba. Esse mundo era habitado por inumeras deidades que representavam a morte, a doenca, a velhice, o sacrificio, etc. As almas dos mortos precisavam passar por 9 niveis em Xibalba, sofrendo numerosas provacoes de sabedoria e coragem. Para eles, o proprio Sol completaria tal jornada a cada noite, assumindo a forma do deus Jaguar do subterraneo (underworld). Para esse povo, as cavernas tambem possuiam um aspecto muito contrastante e positivo como fonte de nuvens, chuva, trovoes e raios, sendo associadas a vida, a fertilidade e ao renascimento. No mundo Maia nao eram consideradas simples feicoes naturais, mas sim, manifestacoes vivas do poder espiritual. Associadas com importantes ciclos tanto da vida como da morte, eram lugares logicamente adequados para rituais e cerimonias.

No Mexico, Tate (2006) lembra que em Chalcatzingo, cerca de 90 km ao sudeste da Cidade do Mexico, pesquisadores identificaram uma caverna que desempenhava um importante papel como centro religioso Olmeca dedicado a Deusa da Agua.

Ja Burri (2007) destaca a sacralidade e importancia da agua subterranea na Antiguidade. O primeiro exemplo citado pelo autor e a oferta de moedas no seculo IV e V no interior da Gruta do Cervo (Grotta del Cervo) em Abruzzo, leste de Roma e depois, os exemplos de cavernas-igreja onde a agua que surge do teto ou das paredes sao tocadas e ate coletadas pelos cristaos.

Nos exemplos citados, observa-se que tais cavernas ou santuarios sao, para o crente, o "centro do mundo" (ELIADE, 2002, p. 302) onde as tradicoes e as crencas sao propagadas ao longo de seculos.

Aqui, destaca-se a importancia do trabalho de Clendenon (2009a) que lida com o conceito de hidromitologia. O termo pode ser traduzido como o estudo das lendas e mitos que, historicamente, podem explicar as caracteristicas naturais das aguas carsticas em termos nao cientificos. A autora observa tambem o aumento da procura dos cientistas por historias mitologicas que podem fornecer importantes informacoes sobre a historia dos desastres naturais, por exemplo.
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Title Annotation:p.95-130
Author:Panisset Travassos, Luiz Eduardo
Publication:Ra'e Ga
Article Type:Report
Date:Jun 1, 2011
Words:12319
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