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Information technologies applied to the assessment of the visibility of historical heritage in urban contexts/Tecnologias da informacao aplicadas a avaliacao da visibilidade de bens tombados em contextos urbanos.

1 O urbanismo como criacao de dispositivos

As mudancas profundas que se fizeram necessarias para adaptar as estruturas urbanas as novas demandas das sociedades industriais no seculo XIX foram o ponto de partida para o que viria a se tornar a disciplina do urbanismo. Para este campo de conhecimento, os seculos XX e XXI, embora caracterizem-se pelo entendimento das cidades como sistemas complexos, assistem a uma substancial evolucao nesse pensamento. Ate a segunda metade do seculo XX, e dominante a visao das cidades como sistemas mecanicos, onde o papel do planejamento urbano seria o de restaurar um teoricamente perdido equilibrio, o que ditou a tonica dos grandes zoneamentos homogeneos caracteristicos dos planos urbanisticos da epoca. No seculo XXI, entretanto, a entrada das cidades em sua terceira fase de modernizacao (Ascher, 2010), com as tecnologias da informacao e comunicacao trazendo profundas mudancas em sua estrutura social (Castells, 2007), provoca mudancas no comportamento desse sistema que a metafora da maquina nao e mais capaz de abarcar. Antes artefatos a serem projetados, as cidades passam a ser entendidas como sistemas que evoluem atraves de dinamicas de cooperacao e competicao, levando a sua comparacao com sistemas biologicos (Batty, 2007, 2009). Dotados de caracteristicas de nao-ergodicidade, transicao de fase, emergencia e universalidade (Durlauf, 2005 apud Batty, 2007), as cidades alcancam um nivel de complexidade nunca antes experimentado. Esse elevado grau de organizacao sistemica (1) gera um fluxo continuo de dados que tem sido cada vez mais explorado pelos urbanistas na criacao de modelos, construtos que permitam experimentar essa complexidade em algum grau (Lee, 1973). Entretanto, nao obstante a necessidade de criar ontologias que sejam capazes de representar o objeto em questao, faz-se de suma importancia transformar os registros codificados, estruturando-os de forma compreensivel e significativa em informacao, que quando internalizada e comparada com a memoria e a experiencia leva a construcao de conhecimento, que por sua vez pode ser aprofundado e utilizado no enfrentamento e tomada de decisoes em situacoes novas, algo que podemos chamar de inteligencia (Cairo, 2011; Shedroff, 1999). Na cidade contemporanea, muitos sao os conflitos que podem se beneficiar da criacao dispositivos baseados em tecnologias da informacao e que atuem como mediadores, dando suporte a tomada de decisoes. Dentre estes, chamamos atencao para aqueles que lidam com a dimensao urbana da preservacao do patrimonio historico edificado, de particular interesse para a pesquisa que aqui se apresenta.

As primeiras discussoes sobre o assunto datam da decada de 1860, com John Ruskin tecendo duras criticas as reformas empreendidas por Haussmann (em Paris) e Cerda (em Barcelona). Diante da tarefa de tornar as antigas cidades medievais adaptadas as novas demandas requeridas pela sociedade industrial que se forma, estes ultimos adotam o caminho das grandes intervencoes. Do ponto de vista da preservacao do patrimonio historico, a estrategia era a de criar condicoes de centralidade e destaque para os grandes monumentos, o que se fazia as custas de vastas demolicoes do tecido historico para a criacao de novas pracas e avenidas nos seus arredores. As criticas feitas por Ruskin passam justamente pelo entendimento de que a modificacao nessas condicoes de percepcao dos monumentos e malefica, pois transforma as relacoes de contraste e perspectiva dentro das quais o mesmo surgiu e se tornou o que e.

O embate segue e a questao levantada por Ruskin encontra ecos na obra de Sitte (1992) e Buls (1903), que fazem um importante trabalho no estudo das influencias da configuracao urbana na percepcao dos monumentos. Com uma proposta integradora entre planejamento urbano e preservacao do patrimonio, Giovannoni (2013a, 2013b) desenvolve o conceito de "ambiente" dos bens tombados, aplicando-o na sua pratica dentro do Conselho Superior de Antiguidades e Belas-Artes e exercendo forte influencia na ampliacao da tutela do Estado, que deixa de se preocupar apenas com o monumento em si e passa a legislar tambem sobre a sua vizinhanca, garantindo a preservacao de seu ambiente.

Uma serie de condicoes de ordem historica e politica, entretanto, fizeram com que o pensamento integrador de Giovannoni caisse em certo esquecimento (2) e a emergencia no Movimento Moderno consolidou a linha intervencionista no urbanismo inaugurada por Haussmann e Cerda. Parte da influencia giovanniana, entretanto, sobreviveu dentro das discussoes sobre preservacao do patrimonio. Sua presenca na Conferencia de Atenas de 1931 realizada pelo ICOMOS fez constar, na carta produzida pelo encontro, a preocupacao com a gestao das "areas de vizinhanca" dos bens tombados. Assim, as discussoes sobre patrimonio historico e urbanismo/planejamento urbano seguiram caminhos separados e, hoje, as consequencias sao claras. Uma vez que as tecnicas construtivas evoluiram e as legislacoes urbanisticas sao permissivas ao adensamento em certas areas, a dinamica de acumulacao do capital que rege o desenvolvimento e crescimento das cidades importa-se muito com o potencial construtivo oferecido pelos terrenos. A instauracao de um tombamento, porem, pressupoe a delimitacao de uma area, a chamada "poligonal de entorno", cujos indices urbanisticos sao ditados pela presenca do bem tombado, de modo a se preservar seu ambiente. Isso significa, via de regra, uma diminuicao do potencial construtivo dos terrenos dentro dessa poligonal, colocando em lados opostos o direito individual de uso e propriedade e o direito coletivo de acesso a cultura (Motta & Thompson, 2010), conflito este muitas vezes resolvido a nivel judicial.

Aqui encontramos duas questoes que parecem ser cruciais para o entendimento do problema. Em primeiro lugar, a delimitacao de poligonais de entorno e ato discricionario (Rabello, 2009), que deve ser resolvida a partir de cada situacao em particular. A falta de um processo claro de analise que de suporte a tomada de decisao possibilita questionamentos, o que serve se municao para as acoes judiciais de setores do mercado imobiliario contra os orgaos de protecao ao patrimonio. Em segundo lugar, a falta de vinculacao da questao ao processo de planejamento das cidades cria ruidos no processo de gestao urbana, fazendo com que os diversos setores administrativos do Estado tenham interpretacoes diferentes sobre uma mesma area, criando um conflito interno que enfraquece o poder dos setores de protecao do patrimonio.

Diante disto, a pesquisa que aqui se apresenta propoe enfrentar essa problematica a partir de uma reaproximacao entre o planejamento urbano e a preservacao do patrimonio, o que sera alcancado atraves do uso de modelos de informacao. Para tanto, iniciaremos com um breve levantamento de como a questao do entorno de bens tomados tem sido enfrentada no Brasil. Tais informacoes servem de base para tentar perceber um metodo geral de analise objetivo, que se apoia em teorias quantitativas da percepcao. Tal metodo sera implantado dentro de um modelo de informacao da cidade (City Information Model - CIM), um metodo de representacao do fenomeno urbano que se presta ao apoio na tomada de decisoes dentro do planejamento e que se mostra como uma discussao contemporanea dentro do urbanismo. Ao fim, dispositivo criado e capaz de codificar as informacoes referentes aos contextos de analise em estruturas visuais, facilitando sua leitura e tornando-o um importante instrumento no enfrentamento dos conflitos ja citados.

2 Percebendo edificacoes tombadas: do particular ao geral

No contexto nacional, o Decreto-lei no 25, de 30 de novembro de 1937, que "Organiza a Protecao do Patrimonio Historico e Artistico Nacional" mostra-se em consonancia com as discussoes que ocorriam nos congressos internacionais, na medida em que coloca a cargo do Servico do Patrimonio Historico e Artistico Nacional (SPHAN) (3) a fiscalizacao e proposicao de medidas protetoras para a "vizinhanca da coisa tombada", onde nada deveria interferir na sua "visibilidade". O uso do termo, no lugar de "ambiente" ou "ambiencia", que ja eram discutidos a epoca, demonstra-se particularmente problematico. Ao analisar a trajetoria de atuacao do IPHAN, Motta & Thompson (2010) chamam atencao para os grandes embates juridicos ocorridos nos anos iniciais da instituicao. Casos emblematicos como o do entorno da Igreja de Nossa Senhora da Gloria do Outeiro (1949-1965), onde a construcao de um edificio de 12 andares em sua vizinhanca foi questionada pelo orgao, baseiam-se na interpretacao do que significa essa "visibilidade" e de que modo lhe sao causadas interferencias. Se, por um lado, a construtora do empreendimento imobiliario argumentava que nao havia interferencia direta do edificio construido na visibilidade da igreja, na interpretacao dos ministros que julgavam o caso, falava-se sobre o fato de nao se tratar da "simples visibilidade fisica, mas da visibilidade de um ponto de vista estetico ou artistico", havendo uma preocupacao com "comparacao entre as respectivas dimensoes", com a interferencia do edificio proposto no "conjunto paisagistico que emoldura, tradicionalmente, o bem tombado", bem como com a manutencao da "harmonia de conjunto" obtida pela semelhanca de estilos (Motta & Thompson, 2010).

Essas primeiras disputas, acumulando mais vitorias do que derrotas para o IPHAN, sao as responsaveis por, no contexto brasileiro, estabelecer certa jurisprudencia no sentido de uma interpretacao mais ampla do significado de "visibilidade". O entendimento e de que ha uma configuracao dentro da qual o bem tombado surgiu, que permite nao so o seu acesso visual direto de determinados pontos do espaco urbano, mas tambem de algumas edificacoes que estao ao seu redor (Figura 1a). Assim, importa que sejam impedidas todas e quaisquer iniciativas que de alguma forma diminuam esse acesso visual direto (Figura 1b), mas tambem devem ser controladas acoes que mudem significativamente as proporcoes entre os acessos visuais a todos os elementos edificados, sobretudo aquelas referentes a construcoes em grande altura (Figura 1c e 1d). Estas fazem surgir elementos novos, antes nao acessiveis visualmente em conjunto com as edificacoes historicas e que podem oferecer contrastes perceptivos prejudiciais a apreciacao de um edificio tombado, apequenando-o, disputando com ele a atencao do espectador, ocupando um espaco significativo na paisagem urbana percebida.

Apesar dos primeiros resultados positivos, o trato dessas areas nao alcancou consenso absoluto. Ainda hoje diversas disputas sao travadas, havendo fortes pressoes de setores economicos e politicos pela liberacao dos potenciais construtivos maximos (4), e essa situacao se mostra particularmente problematica quando tratamos de outros niveis administrativos. O IPHAN tem o status de autarquia e, embora esteja subordinado ao Ministerio da Cultura, possui certa autonomia em suas decisoes. No caso de estados e municipios, a preservacao do patrimonio historico e cultural fica a cargo de secretarias, onde o quadro repleto de funcionarios de cargo comissionado as coloca muitas vezes como refens dos humores politicos.

Este ambiente de conflitos pode se beneficiar da formalizacao de um processo de analise objetivo, que forneca insumos para a tomada de decisoes e possa apoiar as teses em prol da preservacao.

A questao, pelo que vimos, passa por um aspecto de percepcao comparada. Para conseguir identificar que elementos construidos afetam a fruicao de um bem tombado, precisamos obter dados comparaveis sobre essa percepcao, onde se mostra util recorrer a teoricos que a trabalhem de maneira quantitativa.

3 Abordagens quantitativas da percepcao

Benedikt (1979) traz uma das primeiras abordagens objetivas sobre a percepcao, perseguindo um metodo geral de descricao do espaco "mais facilmente quantificavel e mais suscetivel ao estudo cientifico" (Benedikt, 1979). Sua formulacao baseia-se na ideia de "ambiente percebido" formulada por (Gibson, 1966):

Gibson (1966, p. 221) define o ambiente (visual) nao como uma colecao de objetos ou como um caos de estimulos sobre o qual nos aplicamos sentido, mas como uma "organizacao de superficies" que nos rodeia, as quais estruturam a luz que dispersam. A percepcao ambiental, nesse sentido, e mera atencao a essa estrutura: estrutura ou informacao, encontrada em todos os lugares onde se pode ver, como resultado do "feixe" de raios de luz que convergem de todas as direcoes no ponto de observacao potencial. Este feixe de raios estruturado de comprimento de onda e intensidade e chamado de "matriz optica". (Benedikt, 1979, p. 48).

Para o autor, a questao da percepcao passa por compreender e quantificar a informacao recebida por um determinado espectador, a partir de um determinado ponto. Benedikt recorre a uma representacao diagramatica em planta baixa para formalizar o processo, que passa pela delimitacao de um dominio espacial (dominio da analise), que contem uma colecao de objetos e que pode abrigar um conjunto de posicoes do observador. Dada uma determinada posicao, ao tracar todos os raios visuais que partem do observador e cruzalos com os limites do dominio e as superficies dos objetos, temos a formacao de uma figura plana, um poligono sem furos chamado de isovista (5). A area da isovista seria uma medida da quantidade de informacao absorvida do ambiente, ao passo que o perimetro que toca os objetos seria uma medida da quantidade de informacao absorvida dos mesmos (Figura 2).

Uma vez que o dominio espacial pressupoe virtualmente infinitas posicoes do observador, a opcao do autor para expressar visualmente a distribuicao dos indices calculados foi atraves o uso de mapas isaritmicos, com o uso de isolinhas para representar areas de igual valor. Trabalhos posteriores como Turner, Doxa, O'Sullivan, & Penn (2001) e Batty (2001) utilizam metodos baseados em grafos para a construcao de ferramentas computacionais. Neste caso, optam pela divisao do dominio espacial em unidades discretas, o que os leva a codificar os valores numericos em valores de brilho, criando um gradiente de tons entre o branco e o preto em um mapa coropleto (6) (Figura 3).

Em Fisher-Gewirtzman & Wagner (2003), Fisher-Gewirtzman, Shach Pinsly, Wagner & Burt (2005), Yang, Putra & Li (2007), Gal & Doytsher (2012), Suleiman, Joliveau & Favier (2013) e Koltsova, Tuncer & Schmitt (2013) encontramos importantes contribuicoes que expandem o modelo bidimensional para um ambiente tridimensional, retornando ao conceito original proposto por Benedikt (1979) que, apesar de ter se utilizado de diagramas em planta baixa, alertava para a tridimensionalidade do fenomeno.

4 Descricao do dispositivo

De acordo com o que foi visto ate aqui, enxerga-se grande potencia na juncao do pensamento preservacionista que envolve o entorno de bens tombados e as teorias sobre a percepcao trazidos por Benedikt (1979). Se a percepcao de um objeto pode ser mensurada a partir da quantidade de informacao que dele chega a um observador e uma medida desta e dada por sua superficie visivel, a quantificacao dessas superficies nos fornece dados importantes para descrever o ambiente de bens tombados. Tal analise podera ser feita, em ambiente computacional, atraves modelagem dos volumes edificados, o que pode se configurar em tarefa extremamente dispendiosa se nao automatizada. A pesquisa se vale, entao, de um modelo de informacao da cidade conforme idealizado por Beirao (2012b, 2012a) e descrito em detalhes por Moreira & Cardoso (2017b, 2017a). O sistema em questao utiliza-se de um "Sistema Gerenciador de Banco de Dados" para, a partir de um modelador algoritmico, acessar informacoes georreferenciadas obtidas junto a administracao municipal, permitindo nao so a criacao de uma volumetria automatizada da cidade, mas tambem a identificacao de quais volumes representam edificacoes tombadas, qual o dominio das areas (se publicas ou privadas) etc.

A operacao do modelo algoritmico torna-se facilitada pela plataforma escolhida, que associa um modelador CAD a uma interface visual de programacao, que no caso em questao sao, respectivamente, o Rhinoceros 3D e seu plugin Grasshopper. A vantagem de tal escolha passa pelo fato de que, ao representar as funcoes atraves de componentes graficos, cuja associacao entre valores e declarada atraves de linhas de ligacao, a composicao de algoritmos nao exige, a priori, o conhecimento de qualquer linguagem de programacao. Entretanto, uma vez que o acesso ao banco de dados se faz atraves de uma linguagem estruturada de consulta (Structured Query Language - SQL), houve a necessidade da criacao de componentes customizados (clusters) que reduzissem a complexidade da linguagem e evitasse erros de sintaxe. Assim, uma serie codigos SQL foi analisada e quebrada em blocos, isolando as variaveis dos trechos fixos na string de texto, dando acesso ao usuario apenas a primeira parte. O conjunto e organizado atraves de uma funcao de concatenacao de texto, nativa da interface (Figura 4).

De posse desse framework digital, e possivel compor um modulo de analise para avaliar as condicoes da ambiencia de bens tombados. O processo passa pela identificacao da edificacao em questao atraves de consulta as bases de dados. A partir desse Objeto de Interesse (ObjInt) (7) sao tracadas duas areas, que representam dominios espaciais distintos: a Area de Modelagem (MdA) e a Area de Analise (AnA). A primeira estabelece um limite para o modelo como um todo, ao passo que a segunda representa um dominio geral dentro do qual poderao estar contidas todas as posicoes possiveis de um observador que tenta acessar visualmente o "ObjInt". A diferenca booleana entre "AnA" e o conjunto de todas as Zonas de Acesso Privativo (PrAA), resulta na Area de Visibilidade Potencial (PVA), que posteriormente e dividida em Celulas de Visibilidade Potencial (PVC), representando possiveis posicoes do observador. Estrategia semelhante e empregada em "ObjInt" ao subdividir sua superficie em porcoes menores, nomeadas como Unidades de Informacao (InU). Ao tracar uma serie de Raios Visuais (VisR) que partem de cada "PVC" para todas as "InU" e faze-los colidir com os volumes das edificacoes que formam o Contexto (Ctx), e possivel contabilizar quantos "VisR" chegam a sua respectiva "InU", o que daria uma medida da quantidade de informacao de "ObjInt" que e acessivel em cada "PVC". Entretanto, entende-se que esse acesso nao e igual para todas as "InU" e devem ser ponderados levando em conta o Comprimento do Raio Visual (VisRLen)--o que daria uma medida de distancia -, o Angulo de Visada (VwAn)--o que mensuraria o quao frontalmente incide cada "VisR"--e o Angulo no Campo Visual (VisFAn) - que fala sobre a posicao de cada "InU" dentro de faixas visuais ergonomicas. Um calculo levando em conta todos esses fatores seria capaz de produzir um Indicador de Acesso Visual (VAid), cujos valores podem ser codificados em valores de brilho e associados a cada "PVC", criando um mapa coropleto. Tal representacao fornece uma leitura do "quao visivel" e uma determinada edificacao a partir do espaco que a cerca. A Figura 5 mostra um infografico explicativo do processo e foi obtida atraves de sua implementacao dentro do framework digital anteriormente descrito.

5 Conclusao

O trabalho aqui apresentado mostra-se como um primeiro passo no sentido de uma abordagem quantitativa da problematica envolvendo as areas de entorno de bens tombados. A estrategia utiliza-se da classica estrutura trazida por Shedroff (1999), onde a organizacao de dados em informacao capaz de gerar conhecimento e se sedimentar em inteligencia permite um tratamento da questao com uma visao ampla, possibilitando a utilizacao do ferramental criado por pesquisas em outras areas como, por exemplo, na analise de assentamentos em Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) desenvolvida por Lima (2017). De outro modo, e possivel apontar, no processo aqui descrito, a preocupacao em facilitar a interacao humano-interface computacional, bem como a potencialidade desta em produzir documentacao inteligivel, preparando a informacao para que possa ser utilizada de maneira efetiva e eficiente, demonstrando uma clara aproximacao da atividade do urbanista aquela desenvolvida por um designer da informacao (Horn, 1999).

Um dos principais problemas encontrados no desenvolvimento do dispositivo tem sido o acesso a informacao. A pesquisa partiu de duas fontes compiladas, codificadas em arquivos em formato shapefile --que associa informacoes de geometria georreferenciada a dados tabulares, comumente produzidos e manipulados por sistemas de informacao geografica (SIG)--obtidos junto a Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente de Fortaleza (SEUMA) e ao Instituto de Planejamento de Fortaleza (IPLANFOR). Entretanto, uma vez que as fontes apresentavam inconsistencias entre si, optou-se por buscar dados primarios junto aos orgaos de protecao ao patrimonio nas tres instancias administrativas: IPHAN, Secretaria de Cultura do Estado do Ceara (Secult) e Secretaria Municipal de Cultura de Fortaleza (Secultfor). Estes encontravam-se em formatos variados (como mapas vetoriais, mapas nao-vetoriais, tabelas, documentos de texto etc), o que exigiu um laborioso trabalho de compatibilizacao. Dados geometricos e tabulares foram trabalhados em paralelo e, ao fim, recompilados em formato shapefile (para armazenamento no banco de dados e uso no sistema) em dois arquivos distintos: um referente as edificacoes tombadas e outro as poligonais de entorno (Figura 6). Tal produto, apesar de nao se configurar em objetivo primario da pesquisa, acabou por se configurar de grande valor, podendo vir a servir de base para pesquisas futuras.

Por fim, reiteramos o potencial da ferramenta criada na resolucao de conflitos envolvendo as areas de entorno de bens tombados. Embora ainda esteja em estagio parcial de desenvolvimento (trata-se de pesquisa de mestrado em andamento), a producao de respostas visuais que atestem a interferencia de certas edificacoes na ambiencia dos monumentos historicos se coloca como uma linguagem passivel de estabelecer uma comunicacao entre gestores, tecnicos e populacao interessada. De outro modo, o uso de um modelo de informacao permite uma facilitada simulacao de cenarios, bem como a manipulacao e quantificacao de uma grande quantidade de dados, tornando possivel, por exemplo, calcular a diferenca de potencial construtivo estabelecida a partir da instauracao de um tombamento. Tal informacao pode ser usada na negociacao entre proprietarios de imoveis nessas areas e setores da administracao publica atraves da Transferencia do Direito de Construir, instrumento previsto no Estatuto das Cidades.

Artigo recebido em 19/06/17

Artigo aceito em 22/06/18

Agradecimentos

Os autores agradecem o apoio da CAPES no desenvolvimento deste trabalho, atraves da concessao de bolsa de mestrado.

Referencias

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Sobre os autores

Eugenio Moreira

<eugeniomoreira@dau.ufc.br>

Mestrando em Planejamento Urbano e Design da Informacao do Programa de Pos-Graduacao em Arquitetura, Urbanismo e Design Universidade Federal do Ceara

Avenida da Universidade, 2890--Benfica--Fortaleza/CE

Daniel Ribeiro Cardoso

<danielcardoso@dau.ufc.br>

Doutor em Comunicacao e Semiotica pela Pontificia Universidade Catolica de Sao Paulo

Professor do Programa de Pos-Graduacao em Arquitetura, Urbanismo e Design--Universidade Federal do Ceara

Avenida da Universidade, 2890--Benfica--Fortaleza/CE

Paulo Jorge Alcobia Simoes

<paulo.simoes@ufc.br>

Doutor em Design de Comunicacao pela Universidade de Lisboa. Professor do Programa de Pos-Graduacao em Arquitetura, Urbanismo e Design--Universidade Federal do Ceara

Avenida da Universidade, 2890--Benfica--Fortaleza/CE

Eugenio Moreira, Daniel Ribeiro Cardoso, Paulo Jorge Alcobia Simoes

(1) Pensamos aqui na organizacao (que nao deve ser confundida com ordem) como uma medida do grau de complexidade, conforme proposto por Vieira (2008).

(2) Dentre estes, destacam-se tres: primeiro, sua interdisciplinaridade, o que fez com que varios criticos tivessem leituras parciais de sua obra. Segundo, sua "liberdade de juizo" diante da realidade politica do periodo fascista italiano. Terceiro, sua constante critica ao Movimento Moderno, sinonimo de democracia no segundo pos-guerra (Cabral, 2013).

(3) O orgao passa a Diretoria (DPHAN) atraves do Decreto-lei no 8.534/1946 e, posteriormente, a Instituto (IPHAN) atraves do Decreto no 66.967/1970, denominacao que mantem ate hoje.

(4) Aqui podemos enquadrar caso recente ocorrido no final de 2016 envolvendo o empreendimento La Vue, edificacao proposta para trinta andares, localizada na Ladeira da Barra, Bahia, dentro da poligonal de entorno de varios bens tombados a nivel federal. Diante de parecer desfavoravel do IPHAN para a construcao da torre, o entao ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, pressionou pessoalmente e via outros setores governamentais o entao ministro da Cultura Marcelo Calero pela liberacao da obra, onde mais tarde soube-se possuir o primeiro uma unidade avaliada no valor de mais de dois milhoes de reais. O caso levou ao pedido de demissao de Calero e sua denuncia a Policia Federal. Geddel foi afastado do cargo e, mais tarde, preso mediante outras denuncias de corrupcao.

(5) Bendikt nao cunhou o termo "isovista" (isovist). Segundo o autor, este e primeiro mencionado no trabalho de Tandy (1967) como um metodo para registro de paisagens.

(6) Borner (2015) afirma que os isarithmic maps sao mais indicados para a representacao de fenomenos continuos do que os choropleth maps. Entretanto, essa afirmacao se da pelo fato de que a segunda tipologia e normalmente construida tomando como base divisoes administrativas que podem enviesar a visualizacao da distribuicao. No caso citado, uma vez que as parcelas espaciais sao iguais em area, entende-se que ambas as tipologias sao adequadas. No texto foram utilizadas as traducoes para o portugues encontradas em Silva (2006).

(7) Com o objetivo de desenvolver futuras publicacoes na lingua inglesa, optou-se por nomear todas as variaveis criadas a partir de acronimos de sua denominacao em Ingles.

Caption: Figura 1 Cenarios de interferencia na percepcao de bens tombados. Elaborado pelos autores

Caption: Figura 2 Exemplos de isovistas. Elaborado pelos autores com base no trabalho de Benedikt (1979).

Caption: Figura 3 Metodos de representacao dos valores associados as isovistas. A esquerda, um mapa isaritmico, a direita, um mapa coropleto. Extraido de (Turner et al., 2001, p. 110).

Caption: Figura 4 Processo de composicao de clusters. Elaborado pelos autores.

Caption: Figura 5 Infografico explicativo do processo de analise. Elaborado pelos autores.

Caption: Figura 6 Infografico explicativo do processo compatibilizacao dos dados recolhidos. Elaborado pelos autores.
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Author:Moreira, Eugenio; Cardoso, Daniel Ribeiro; Simoes, Paulo Jorge Alcobia
Publication:Brazilian Journal of Information Design
Date:Jan 1, 2018
Words:4931
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