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Infertility in primary care from the perspective of nurses in the family health strategy/Atencao basica e infertilidade: conhecimento e pratica de enfermeiros da estrategia saude da familia/Atencion primaria e infertilidad: conocimiento y practica de enfermeros de la estrategia de salud familiar.

INTRODUCAO

A procriacao e fundamental a vida da maioria dos individuos, em particular de mulheres, que tem na maternidade a reafirmacao da feminilidade, fato intrinseco na sociedade desde a antiguidade, em que as mulheres que concebiam eram exaltadas, enquanto as inferteis eram consideradas castigadas pelos deuses, discriminadas na sociedade e simbolo de morte (1).

A infertilidade consiste na incapacidade de um casal conceber ou levar uma concepcao a termo, apos um ano ou mais de relacoes sexuais regulares, sem o uso de tecnologia anticonceptiva (2). As causas podem estar associadas a fatores masculinos e femininos, cujos masculinos respondem por cerca de 40% dos casos (3).

Estima-se existir, no mundo, de 50 a 80 milhoes de casais inferteis, ocorrendo cerca de dois milhoes de novos casos por ano (3). No Brasil, mais de 278 mil casais tem dificuldade de gerar um filho em algum momento da vida, devido a alguma forma de infertilidade, primaria ou secundaria. A infertilidade primaria e aquela em que o casal nunca concebeu e a secundaria ocorre quando o casal possui um ou mais conceptos (4).

Estudo verificou associacao entre problemas psicossexuais e infertilidade, encontrando associacao com reducao da libido em ambos os parceiros, principalmente quando a infertilidade ultrapassava cinco anos; ejaculacao precoce e impotencia transitoria em homens, como os mais prevalentes. Ao associar a infertilidade com reacoes emocionais, obteve-se ansiedade, sendo mais comum em mulheres, e depressao, em homens (5). O estresse pode estar presente no periodo de realizacao de exames para constatacao das causas da infertilidade, sendo o periodo mais critico para muitos casais. Ademais, o temor de receber um diagnostico de infertilidade e motivo para que mulheres nao procurem ajuda nos servicos de saude, pois, para muitas, essa e uma condicao que preferem ocultar para se protegerem do estigma social (1).

Em face do exposto, a infertilidade ficou demonstrada como problema que acomete parcela significativa dos casais em idade reprodutiva, entretanto, acoes oferecidas na atencao basica podem resultar em sucesso na concepcao desses casais. Assim, elaborou-se o questionamento: qual o conhecimento e a pratica de enfermeiros que atuam na estrategia saude da familia (ESF) sobre infertilidade e acoes assistenciais desenvolvidas neste nivel da atencao, voltadas a concepcao? Responder a essa indagacao e relevante, pois culminara em contribuicoes significativas aos servicos de planejamento familiar (PF), no sentido de orientar e executar acoes favoraveis a concepcao dos casais inferteis na atencao basica. Neste contexto, objetivou-se avaliar conhecimento e pratica de enfermeiros com relacao a infertilidade na atencao basica.

REVISAO DE LITERATURA

A Portaria no 426, de 22 de marco de 2005, instituiu, no ambito do Sistema Unico de Saude (SUS), a Politica Nacional de Atencao Integral em Reproducao Humana Assistida (RHA) que, dentre outras recomendacoes, estabelece a identificacao das causas de infertilidade entre casais em idade fertil e define criterios tecnicos para o funcionamento efetivo dos servicos que realizam tecnicas de RHA. A atencao basica deve ser a porta de entrada do casal infertil ao SUS, devendo nesta ser realizada anamnese, exame clinico-ginecologico, solicitacao de exames complementares para diagnosticar patologias que interfiram na gestacao, como o exame de Papanicolaou, sorologia anti-HIV, hepatite B, hepatite C, sifilis, toxoplasmose IgG, glicemia de jejum, espermograma e vacinacao contra rubeola (4,6).

Estima-se que 70% dos casos de infertilidade sejam solucionados na atencao basica, com a implantacao de acoes e procedimentos de baixo custo, do qual apenas 30% sao merecedores de encaminhamento para servicos de maior complexidade (7).

Reconhecer o periodo fertil feminino pode ser a solucao para muitos casais inferteis, o que podera ser orientado na atencao primaria em saude. Conforme a Portaria no 388, de 06 de julho de 2005, que trata da organizacao e implantacao das redes estaduais e municipais de atencao em RHA, e atribuicao do profissional de saude da atencao basica fornecer orientacoes sobre a identificacao do periodo fertil e concentrar as relacoes sexuais nesse periodo, bem como eliminar qualquer fator que interfira no deposito do semen na vagina ou que dificulte a migracao espermatica atraves do trato genital feminino (4).

Na Clinica de Educacao para Saude (CEPS), da Universidade do Sagrado Coracao (USC), por exemplo, pacientes que buscavam pelo atendimento da equipe de genetica medica, com o desejo de conceber, foram encaminhados para receber instrucao quanto ao Metodo de Billings ou da ovulacao. Dos 16 casais acompanhados com queixas de infertilidade, nove conseguiram a gravidez e nasceram tres bebes. Geralmente, o casal consegue a gravidez dois anos apos a adocao do metodo. Alguns ja haviam sido encaminhados para bancos de semen e fertilizacao in vitro, porem conseguiram engravidar pelo uso do metodo natural (8).

METODOLOGIA

Pesquisa transversal, do tipo levantamento, com abordagem quantitativa, realizada no Sistema Municipal de Saude (SMS) de Fortaleza-CE, junto a enfermeiros que atuavam na ESF, de novembro de 2009 a abril de 2010.

O referido SMS era composto por seis Secretarias Executivas Regionais (SER), nas quais atuavam 319 equipes da ESF. Destas, 306 funcionavam com enfermeiros, sendo 39 lotados na SER I, 37 na SER II, 57 na SER III, 32 na SER IV, 67 na SER V e 74 na SER VI (9).

A populacao correspondeu aos 306 enfermeiros da ESF e a amostra probabilistica foi gerada com base na formula para calculo com populacoes finitas, correspondendo a 171 enfermeiros. Estratificando o n amostral entre as SER, obteve-se: 22 enfermeiros na SER I, 21 na SER II, 32 na SER III, 18 na SER IV, 37 na SER V e 41 na SER VI. Para cada SER, foi escolhido, por conveniencia de acessibilidade das pesquisa doras, os Centros de Saude da Familia (CSF), necessarios para contemplar o n de cada uma

delas, sendo visitado um total de 65 dos 90 CSF do SMS.

A coleta de dados ocorreu por meio de entrevista estruturada, realizada em local privativo e em ocasiao programada, de modo a nao interferir nas atividades dos enfermeiros.

Os dados foram organizados no Statistical Package for Social Science (SPSS), versao 18.0 for Windows e no Epi Info versao 3.3. Foram analisados por meio de estatistica descritiva a incluir frequencia absoluta, frequencia relativa, media ([chi]), desvio padrao (S) e intervalos de confianca (IC).

Para avaliar o conhecimento dos enfermeiros sobre o conceito de infertilidade, as acoes a serem oferecidas na atencao basica na referida area, bem como a aplicacao delas, foram utilizadas escalas tipo Likert. A escala para avaliacao de conhecimentos sobre o conceito de infertilidade constou de tres itens tomados com base no conceito da Organizacao Mundial de Saude (OMS) (2). Eles corresponderam a: incapacidade de um casal para alcancar a concepcao ou levar uma concepcao a termo (peso 1); apos um ano ou mais de relacoes sexuais regulares (peso 2); e sem uso de tecnologia anticonceptiva (peso 1), de modo que se o enfermeiro nao citasse nenhuma das condicoes, seu conhecimento seria avaliado como nenhum; relacionando pelo menos uma das condicoes, exceto a segunda, conhecimento limitado; especificando duas das condicoes, excetuando-se a segunda, ou mencionando apenas a segunda, conhecimento moderado; apontando duas das condicoes, contemplando sempre a segunda, conhecimento substancial; e citando as tres condicoes, conhecimento extenso.

A avaliacao de conhecimento e da pratica sobre as acoes voltadas para casais inferteis constaram de quatro itens, conforme preconiza a Portaria no 388, de 06 de julho de 2005: orientar a mulher e/ou casal a reconhecer o periodo fertil por meio dos metodos da temperatura basal corporal, Billings ou muco cervical e Ogino-Knaus ou tabela; recomendar a mulher e/ou casal a concentrar as relacoes sexuais no periodo fertil; eliminar fatores que interferem no deposito do semen na vagina ou que dificulte a migracao espermatica atraves do trato genital feminino; e encaminhar a mulher e/ou casal a um servico de referencia de media complexidade em RHA, atraves da Central de Regulacao (4).

No que diz respeito ao conhecimento, quando o enfermeiro nao citou nenhuma das acoes, seu conhecimento foi avaliado como nenhum; ao mencionar pelo menos uma das acoes, conhecimento limitado; relacionando duas das acoes, conhecimento moderado; apontando tres das acoes, conhecimento substancial; e especificando todas as acoes, conhecimento extenso.

Da mesma forma, quando o enfermeiro nao citou nenhuma das acoes, sua pratica foi avaliada como inadequada; ao citar uma das acoes, ligeiramente adequada; citando duas das acoes, moderadamente adequada; citando tres das acoes, substancialmente adequada; e citando todas as acoes, completamente adequada.

O projeto de pesquisa foi submetido ao Comite de Etica da Universidade Federal do Ceara (UFC), obtendo parecer favoravel por meio do protocolo no 293/09. Foram atendidas as exigencias das Diretrizes e Normas da Pesquisa em Seres Humanos, apresentadas na Resolucao no 196/96, do Conselho Nacional de Saude (CNS), acerca das questoes eticas da pesquisa envolvendo seres humanos (10). Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, concordando em participar voluntariamente do estudo.

RESULTADOS E DISCUSSAO

Caracterizacao dos participantes

A maioria do grupo, ou seja, 152(88,9%), foi composta por mulheres, sexo historicamente predominante na enfermagem. A idade variou entre 25 e 53 anos, com media de 35,68 anos e S de 6,048. O tempo de graduacao variou de 2 a 30 anos, com media de 11,16 anos e S de 5,141, havendo maior porcentagem de participantes com ate 10 anos de formacao, correspondendo a 92(53,8%) enfermeiros. O tempo de atuacao em PF variou de menos de um a 23 anos, com media de 9,29 anos e S de 4,156. Dessa forma, a pesquisa incluiu enfermeiros jovens, portanto, recem-formados, e enfermeiros de mais idade. Essa condicao e comum na composicao das equipes da ESF, para as quais convergem profissionais recem-formados e ate profissionais em final de carreira, os quais dao preferencia a uma vida mais interiorana, longe dos grandes centros urbanos. O tempo de graduacao entre 2 e 30 anos corrobora o aspecto da idade, abrangendo profissionais menos e mais experientes. O tempo de atuacao em PF tambem corrobora as idades dos enfermeiros e o tempo de graduacao, pois reuniu enfermeiros com menos de 1 a 23 anos de atuacao na respectiva area.

As Universidade Federal do Ceara (UFC), Universidade Estadual do Ceara (UECE) e Universidade de Fortaleza (UNIFOR) foram responsaveis pela formacao de 160(93,6%) dos enfermeiros participantes, cuja distribuicao foi equitativa nas tres principais Universidades de Fortaleza, 57(33,3%), 54(31,6%) e 49(28,7%), respectivamente. Outras universidades fora do Estado formaram 11(6,4%) dos participantes.

Conhecimento de enfermeiros sobre infertilidade

Dos 15 enfermeiros que nao citaram o item 1, um referiu que a infertilidade era a presenca de deficiencia hormonal do casal, entretanto, sabe-se que a infertilidade nao e consequencia apenas da ausencia ou baixa producao hormonal, mas de diversos fatores, como: endometriose, infeccoes cervicais, varicocele, producao de anticorpos antiespermaticos, dentre outros. Os outros 14 referiram que a infertilidade era apenas de causa feminina, como expoe a Tabela 1. A esse respeito, afirma-se que quando se trata de infertilidade, ha grande impacto sobre a identidade da mulher, uma vez que a feminilidade esta, geralmente, associada a maternidade (11).

Dos 136(79,5%) enfermeiros que desconheciam o item 2, 10(5,8%) citaram que para um casal ser considerado infertil, era necessario um periodo minimo de dois anos de tentativa de gravidez com coito desprotegido, referindo-se ao conceito nao mais vigente. Outros 2(1,2%) referiram periodo minimo de 6 meses a 1 ano e de 3 a 4 anos, portanto, incoerente com a literatura (11-15). Ver Tabela 1. Afirma-se que 25% dos casais engravidam no primeiro mes de exposicao, 60% em seis meses e 80% no periodo de um ano. Dos 20% restantes, em media 15% concebem no segundo ano de exposicao e, por isso, utilizava-se classificacao mais conservadora para o conceito de infertilidade (12).

Para que ocorra a concepcao, o casal nao deve estar em uso de metodos anticoncepcionais (MAC), pois ao usa-los, as chances de gestacao sao reduzidas, variando de acordo com a eficacia do MAC escolhido e a adequabilidade do uso. Desconsiderar esse criterio no conceito de infertilidade, como foi realizado por 134(78,4%), podera incorrer em falso diagnostico e intervencoes desnecessarias. Outro aspecto a ser salientado e o efeito duradouro do anticoncepcional injetavel exclusivo de progestageno apos suspensao do uso, podendo chegar a quatro meses (13).

O nivel de conhecimentos dos enfermeiros sobre o conceito de infertilidade variou entre nenhum e extenso, predominando o numero de enfermeiros com conhecimento limitado, correspondendo a 100(58,5%). Ressalta-se que 34(19,8%) enfermeiros apresentaram conhecimento substancial ou extenso. Ver Tabela 1.

Quanto ao conhecimento sobre os tipos de infertilidade (primaria e secundaria), 2(1,0%) enfermeiros responderam acertadamente e 169(99%) nao souberam informar. O baixo conhecimento sobre os tipos de infertilidade pode comprometer a qualidade da assistencia prestada, pois a verificacao da existencia de paternidade/maternidade anterior e uma abordagem que permite identificar o tipo de infertilidade, o que influi no fluxo da entrevista e na conduta a ser seguida.

O nivel de conhecimento e de adequabilidade pratica dos enfermeiros sobre as acoes passiveis de serem desenvolvidas na atencao basica, de acordo com o que e estabelecido na Portaria no 388, de 06 de julho de 2005 (4), sao analisadas a seguir.

O periodo fertil corresponde ao periodo em que a concepcao e possivel, ou seja, tres a quatro dias anteriores a data provavel da ovulacao e os dois dias seguintes a esta (3). E funcao do profissional de saude da atencao basica esclarecer a cliente e/ou casal sobre a fisiologia da concepcao, visto que muitos casais desconhecem a definicao e os meios para identificacao do periodo fertil. Para identificacao, o profissional de saude deve recorrer aos Metodos Baseados na Percepcao da Fertilidade (MBPF), que sao tecnicas de auto-observacao de sinais e sintomas de fertilidade que ocorrem no corpo feminino ao longo do ciclo menstrual: temperatura corporal basal, Billings ou muco cervical e Ogino-Knaus ou tabela (12). Entretanto, tal esclarecimento nao era de conhecimento dos profissionais, uma vez que 49(28,7%) referiram a importancia de ensinar o casal a reconhecer o periodo fertil e 45(26,3%) relataram a necessidade de orientar o casal a concentrar relacoes sexuais nesse periodo. Ver Tabela 2.

Pesquisa foi realizada com 2.055 ciclos menstruais de 851 mulheres saudaveis e ressaltou que em 601 gravidezes, 25% ocorreram com um unico episodio de relacao sexual e que nao houve aumento da taxa de gravidez com multiplos atos sexuais, o que se infere que a ocorrencia de gravidez depende do momento do coito e nao da quantidade de relacoes sexuais. O perido fertil e o momento adequado para que a relacao sexual resulte em gravidez e pode ser percebido por meio dos MBPF (14).

E estabelecido que os profissionais da atencao basica devem esclarecer aos pacientes a respeito de praticas que possam dificultar a concepcao, como o uso de lubrificantes ou de duchas vaginais pos-coito (13). Contudo, somente 3 (1,8%) enfermeiros afirmaram conhecer tais informacoes.

Ademais, diversos estilos de vida tem impacto negativo sobre a fertilidade, podendo ser agravados quando acrescidos a idade avancada. Por meio de atividades educativas, os profissionais que atuam na ESF precisam promover estilos de vida saudaveis, estimulando o abandono de praticas desfavoraveis a concepcao (15).

O item 4 foi referido por 154(90,1%) enfermeiros, conforme a Tabela 2. Discute-se: conhecer a necessidade de encaminhar um paciente com queixa de infertilidade para um servico de maior complexidade, estaria pautado no conhecimento sobre os parametros em que este encaminhamento deveria ser realizado? O estudo nao investigou este aspecto, bem como tambem nao avaliou se os pacientes eram encaminhados via Central de Regulacao ou informalmente, o que ficou reconhecido como limitacoes a serem superadas em estudos futuros.

O nivel de conhecimentos dos enfermeiros sobre as acoes que devem ser desenvolvidas na atencao basica voltadas a infertilidade tambem variou entre nenhum e extenso, com predominio do numero de enfermeiros com conhecimento limitado, correspondendo a 106(62,0%). Somente 1(0,6%) enfermeiro alcancou nivel de conhecimento extenso. Encaminhar a mulher e/ou casal para um servico de referencia de media complexidade foi o conhecimento mais comum entre os participantes, citado por 154(90,1%) deles. Ver Tabela 2.

Pratica dos enfermeiros da atencao basica para os casais inferteis

No que diz respeito ao recebimento de mulheres e/ou casais com necessidade no campo da infertilidade no ultimo ano, 114(66,7%) enfermeiros afirmaram ter prestado servico nessa area, justificando a reducao de 171 para 114 sujeitos na Tabela 3.

A pratica de encaminhar mulher e/ou casal foi citada pela maioria, 104(91,2%) enfermeiros, cor-respondendo, tambem, a acao de maior conhecimento por parte dos pesquisados, de acordo com a Tabela 3. Pesquisa realizada em sete cidades da Turquia apresentou resultado inferior ao encontrado neste estudo, visto que dos 748 medicos participantes, 57,6% referiram como atividade prestada na assistencia aos casais inferteis, o encaminhamento para um servico de complexidade maior (16).

No geral, houve equilibrio entre o que os enfermeiros demonstraram conhecer e o que referiram realizar, porem foram resultados que apontaram desconhecimento e atencao inadequada aos casais inferteis.

Estudo realizado em Belem, Salvador, Curitiba e Goiania, no qual foram realizadas entrevistas com o coordenador de saude da mulher, coordenador da ESF, gerentes de unidades basicas de saude e equipes da ESF, obtendo-se um total de 99 entrevistas, mostrou que os profissionais das equipes da ESF nao percebiam o PF como parte da atencao basica. Ainda na mesma pesquisa, em duas capitais do pais, a assistencia ao PF nao incluia a assistencia a infertilidade, inexistindo protocolo de atendimento e sistema de referencia. Nas outras duas capitais, o atendimento a infertilidade era parte das acoes em PF, incluindo um sistema de referencia das equipes da ESF para os servicos especializados, entretanto, em um desses municipios nao houve consistencia entre as informacoes dos gestores e dos profissionais (17).

As praticas ligeiramente adequada e substancialmente adequada foram as mais comuns no grupo pesquisado, correspondendo a 65 (57%) e 36(31,6%) enfermeiros, respectivamente. Encaminhar mulher e/ou casal para um servico de referencia de media complexidade foi a pratica mais comum, referida por 104(91,2%) dos enfermeiros, conforme a Tabela 3. Tal pratica mostrou-se efetiva em estudo realizado com 25 usuarios de um CSF de Fortaleza, Ceara, o qual demonstrou que os mesmos se consideravam satisfeitos com o sistema de referencia da rede SUS (18).

As propostas da ESF facilitam um cuidado longitudinal aos usuarios, uma vez que o enfermeiro atende a populacao adscrita, o que possibilita estabelecimento de vinculo com a comunidade. Como profissional da ESF, deve-se prestar cuidado integral e resolutivo (19), o que nao pode ser observado na pesquisa, uma vez que parte consideravel dos enfermeiros entrevistados nao prestou assistencia adequada aos casais inferteis.

Em pesquisa transversal, realizada no Brasil, com objetivo de verificar a disponibilidade do servico de infertilidade no pais, 19(76%) autoridades estaduais afirmaram que nao havia disponibilidade do servico em seu e stado. Em nivel municipal, 26(66,7%) autoridade s relataram que seus municipios nao receberam financiamento do governo para este fim. Entre os estados e municipios cujos servicos de infertilidade estavam disponiveis gratuitamente, apenas quatro (de seis estados) e oito (de 13 cidades), haviam imple-mentado norma para o acompanhamento em infertilidade (20), o que pode justificar a assistencia de baixa qualidade encontrada neste estudo.

CONCLUSAO

Os achados da pesquisa refletem a qualidade da assistencia prestada aos casais inferteis, uma vez que a maioria dos enfermeiros desconheceu suas atribuicoes para atuacao nessa area e apenas um enfermeiro demonstrou conhecimento extenso acerca das acoes assistenciais que devem ser desenvolvidas na atencao basica, no campo da infertilidade.

Foi limitada a parcela de enfermeiros que conhecia e/ou orientava acerca dos metodos naturais e suas justificativas para nao realizar orientacao se mostraram permeadas de preconceito.

Sugere-se que, em pesquisas futuras, seja verificado como ocorre o encaminhamento dos pacientes para o nivel secundario de atencao, visto que esse dado nao foi conferido nesta pesquisa, reconhecendo-se como limitacao do estudo.

Ademais, reitera-se que todo profissional de saude deve ter a responsabilidade de se manter atualizado, entretanto, e papel do SMS de Fortaleza promover capacitacoes em todas as areas de atendimento prioritario da ESF, a fim de melhorar o atendimento prestado no campo da infertilidade.

Recebido em: 27.07.2012 Aprovado em: 06.01.2013

REFERENCIAS

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Escolastica Rejane Ferreira Moura [I]

Rebeca Pinho Romero Vieira [II]

Andrezza Alves Dias [III]

Danielle Rosa Evangelista [IV]

Camila Felix Americo [V]

[I] Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceara. Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico. Fortaleza, Ceara, Brasil. E-mail: escolpaz@yahoo.com.bi;

[II] Enfermeira. Mestre em Enfermagem pelo Programa de Pos-Graduacao em Enfermagem da Universidade Federal do Ceara. Fortaleza, Ceara, Brasil. E-mail: rebecaprv@hotmail.com.

[III] Enfermeira. Mestranda do Programa de Pos-Graduacao em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceara. Fortaleza, Ceara, Brasil. E-mail: andrezzaalvesdias@hotmail.com.

[IV] Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora da Universidade Federal de Tocantins. Tocantins, Palmas, Brasil. E-mail: enfadanielle@yahoo.com.br

[V] Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Doutoranda do Programa de Pos-Graduacao em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceara. Fortaleza, Ceara, Brasil. Email: cfamerico@yahoo.com.br
TABELA 1: Distribuicao dos enfermeiros, segundo o nivel de
conhecimento sobre o conceito de infertilidade. Sistema de
Saude de Fortaleza--Ceara, novembro 2009-abril 2010. (N=171)

Variaveis                                  f       %       IC 95%

1. Incapacidade de um casal para          156    91,2     85,9-95
  alcancar a concepcao ou levar uma
  concepcao a termo
2. Apos um ano ou mais de relacoes         35    20,5    14,7-27,3
  sexuais regulares (peso 2)
3. Sem uso de tecnologia anticonceptiva    37    21,6    15,7-28,6
  (metodos anticoncepcionais)
Nivel de conhecimento dos participantes
  Nenhum                                   17     9,9     5,9-15,4
  Limitado                                100    58,5     50,7-66
  Moderado                                 20    11,7     7,3-17,5
  Substancial                              17     9,9     5,9-15,4
  Extenso                                  17     9,9     5,0-15,4

TABELA 2: Distribuicao dos enfermeiros conforme o nivel de
conhecimento sobre acoes que devem ser oferecidas na atencao
basica a infertilidade. Sistema de Saude de Fortaleza - Ceara,
novembro 2009 - abril 2010. (N= 171)

Variaveis                                  f       %        IC 95%

1.Orientar a mulher e/ou casal a
  reconhecer o periodo fertil por          49    28,7     22 - 36,1
  meio dos metodos da temperatura
  basal, ou do muco cervical ou
  Billings e da tabela ou Ogino-Knaus

2.Recomendar a mulher e/ou casal a         45    26,3    19,9 - 33,6
  concentrar as relacoes sexuais
  no periodo fertil

3.Eliminar qualquer fator que
  interfira no deposito do semen ou        3      1,8       0,4-5
  que dificulte a migracao
  espermatica atraves do trato
  genital feminino.

4. Encaminhar a mulher e/ou casal
  para um servico de referencia de        154    90,1     89,1 - 97
  media complexidade em reproducao
  humana assistida atraves da
  Central de Regulacao

Nivel de conhecimento dos participantes

  Nenhum                                   14     8,2      4,5-13,4
  Limitado                                106    62,0     54,3-69,3
  Moderado                                 9      5,3      2,4-9,8
  Substancial                              41    24,0     17,8-31,1
  Extenso                                  1      0,6       0-3,2

TABELA 3: Distribuicao dos enfermeiros, conforme o nivel de
adequabilidade pratica das acoes voltadas para casais inferteis.
Sistema de Saude de Fortaleza - Ceara, novembro 2009 - abril
2010. (N= 114)

Variaveis                                   f      %       IC 95%

1. Orientar a mulher e/ou casal a
  reconhecer o periodo fertil por meio     44    38,6    29,6-48,2
  dos metodos da temperatura basal, do
  muco cervical ou Billingse da tabela
  ou Ogino-Knaus

2. Recomendar a mulher e/ou casal a         42    36,8     28-46,4
  concentrar as relacoes sexuais no
  periodo fertil

3. Eliminar qualquer fator que interfira
  no deposito do semen ou que dificulte     4     3,5      1-8,7
  a migracao espermatica atraves do
  trato genital feminino.

4. Encaminhar a mulher e/ou casal para
  um servico de referencia de media        104   91,2    84,5-95,7
  complexidade em reproducao humana
  assistida atraves da Central de
  Regulacao

Nivel de adequabilidade da pratica
dos enfermeiros

  Inadequada                                5     4,4     1,4-9,9
  Ligeiramente adequada                    65     57     47,4-66,3
  Moderadamente adequada                    6     5,3      2-11,1
  Substancialmente adequada                36    31,6    23,2-40,9
  Completamente adequada                    2     1,7     0,2-6,2
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Moura, Escolastica Rejane Ferreira; Vieira, Rebeca Pinho Romero; Dias, Andrezza Alves; Evangelista,
Publication:Enfermagem Uerj
Date:Apr 1, 2013
Words:4546
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