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Ines De Ornellas E Castro, De la table des Dieux a la table des hommes: La symbolique de l'alimentation dans l'Antiquite romaine.

Ines de Ornellas e Castro, De la table des Dieux a la table des hommes: La symbolique de l'alimentation dans l'Antiquite romaine, Paris, L'Harmattan, 2011. 469 pp. ISBN 978-2-296-54286-0

Nao e o estudo analitico de um tema intitulado aparentemente em termos poeticos, ainda que de alimentacao se trate e porque essencialmente de poesia romana largamente e minuciosamente se ocupa, mas que, contrariamente ao que pensariamos, traz ao nosso conhecimento a longa metamorfose, filosofica, religiosa, gastronomica e poetica, que a sua pratica e visao vao assumindo entre os intelectuais e artistas ate aos ultimos seculos do imperio romano.

A A., com extremo bom senso, faz acompanhar a realizacao artistica paralelamente com a visao estetica e pratica do mundo helenico, seguindo com atencao os cuidados que o velho Horacio prescreve nos seus textos de arte poetica, aconselhando que em cena se nao mostrem cenas de crueldade como as de Medeia ou de Procne.

A mesa, ou se quisermos com maior precisao, o altar, sempre em forma de mesa sacral, serviu ao mesmo tempo as necessidades alimentares dos seres humanos, bem como o prazer dos comensais e a devocao dos crentes. Era so uma questao de situacao e posicao no edificio ou lugar, arborizado ou nao, onde o altar e a mesa estivessem colocados.

Ao homem primitivo, a quem poderemos chamar selvagem, nao escapou a sucessao das estacoes: uma na altura das sementeiras e outra das colheitas, como, olhando para as fruteiras, tao pouco deixou de notar a diversidade de arvores, que eram unidas num ciclo de vida. Numa fase via abrir o germinar do fruto que, passado algum tempo, colhia ja feito, saboroso e alimentar. Estava ele ligado a arvore, que nuns casos era de folha caduca, noutros de folha perene, sem que em muitas variedades os frutos fossem produzidos e comidos geralmente pelos animais, como na azinheira e no sobreiro, ou pelos homens, como sera o caso do castanheiro.

Havia pois uma nascenca, entre os animais havia a morte, e uma ressurreicao, pois arvores, vegetais e frutos, alternavam a sua producao, como se mao divina lhes tocasse, porque essas especies vivas tinham uma anima, o que os levou a considerar a natureza dotada de um animismo, que passou a ser considerado de natureza longinqua e provavelmente divina. Lugar excepcional desempenha o azevinho (mistletoe), visto como manifestacao quase divina do carvalho, por exemplo, como aponta exaustivamente J.G.Frazer no seu classico livro The Golden Bough, o ramo dourado e magico, com que Eneias vai descer ao mundo subterraneo do Averno, nas vizinhancas da pitonisa de Cumas, na costa ocidental italiana, antes de Napoles. Frazer, na edicao abreviada do seu livro, cerca de 900 pp. (St Martin's Library, Londres, Macmillan, 1957), aponta as dezenas de casos conhecidos desde os Indios da America de Norte e do Sul, ate as longinquas zonas do Pacifico, sem esquecer as tribos que viviam na Europa do Norte, na Siberia e na India. A presenca de Levy-Strauss vem igualmente realcar os conhecimentos da sociedade primitiva e a complicada mas inexoravel libertacao do mundo primitivo para um universo mais aberto aos fluxos civilizacionais

O divino exige uma iniciacao, para que se compreenda o que verdadeiramente nao e racional, mas existe, e como o confuso ser divino exige ser respeitado e em certas ocasioes consideradas sagradas, como as estacoes e alguns momentos do ano, essa entidade merecia que lhe ofertassem dadivas, que tanto podiam ser vegetais, como animais, e finalmente, por muito que milhares de anos depois seja em civilizacoes mais avancadas e algumas, ate velhas como a nossa, dificil de aceitar, dadivas humanas, ou seja sacrificios humanos ou alimentares de carne e de vegetais ou frutos, que por muito que estranhemos ainda hoje na sua totalidade se praticam.

Ainda actualmente isso se passa, como nos descreve e analisa a filosofa suica-alema no livro Entre Canibais (Unter Kannibalen, Darmstadt, 2010) com o mesmo simbolismo inerente, tal como e apresentado pela A. no livro objecto desta recensao, que vai percorrer o significado religioso ou de puro prazer, em cerca de tres seculos das letras romanas, quando as letras ja eram conhecidas e escritas, bem como a mente humana tinha evoluido sobre o acto alimentar, mais devoto, mais saboroso ou menos saboroso, e aproximava os seres humanos do abrir caminho poetico e artistico para os artistas da escrita comunicarem a humanidade as reflexoes e textos que lhe iam surgindo na mente, de forma bem longinqua da que a alimentacao assumia nas comunidades nao desenvolvidas, nem no pensamento nem na tecnica.

Depois de uma necessaria introducao, a A. dedica a sua critica a visao religiosa e alimentar de Vergilio, Entre Ciel et Terre, proporcionando-nos, na Parte I, um quadro (pp. 40-41) em que com clareza indica os diversos passos da Eneida em que as personagens oferecem manjares sacrificiais ou gastronomicos as divindades de quem dependem.

Seguem-se mais quatro capitulos que desenvolvem o tema (pp. 43-110) e cujos titulos nos sugerem a riqueza tematica do livro: II, "A Mesa do Outro: os Homens e os Deuses"; III, "A Construcao do Esquema Heroico"; IV, "Festins e Refeicoes", nos quais se especifica com minucia, quem esta presente e as iguarias ou comidas que lhe sao servidas.

Com esta parte, a A. prepara o leitor para compreender o que dizem os poetas satiricos, cuja analise comeca por Horacio, ainda que nao esqueca os fragmentos de outros poetas satiricos que foram publicados, para alivio do filologo classico, na Loeb Classical Library, por Warmington. Os manjares mais ricos ou nao comecam a fazer parte do repertorio tematico da satira romana, que a A. segue com minucioso conhecimento, e nao hesita em introduzir "sabor" como metafora literaria, o que ja prenuncia a intimidade da arte das letras com a arte da gastronomia.

A verdade e que a poesia sabor nao tem, mas no nosso cerebro confunde-se com o prazer provocado por qualquer prato mais delicioso.

A longa e bem desenvolvida Parte II (pp. 111-255) intitula-a pois como "Os Sabores da Satira" (cap. I) que a A. introduz habilmente com o titulo A Procura de um Sabor em que consegue fazer a ponte entre o gosto estetico-literario e o gosto sentido pelas nossas particulas gustativas e o nosso olfacto. Abre assim o caminho para o estudo de Horacio que coloca como meta de um processo, que classifica como Do Amargo ao Agridoce. Ficamos surpreendidos por esta mistura de nocoes, mas acabamos por fim por compreender o conjunto de sensacoes que a A. pretende consagrar. Nao concordamos, contudo, com a traducao que da, p. 127, a concinnitas, chamando-lhe "concisao", no seguimento de breuitas, pois a devemos ligar sim a "harmonia", ou, se quisermos, podemos aportuguesar o nome para "concinidade".

A ligacao a Lucilio, o poeta satirico romano mais importante antes de Horacio, e evidente, tanto mais que e Horacio que a apregoa: ver a minha edicao, de Lisboa, 2012, Horacio, Arte Poetica, Satira I, IV, p. 47.

Apoiando-se nos poemas reune a A. varias especies de Menus e de lista de vinhos, que revelam o conhecimento profundo do texto horaciano, e o que de mais refinado a Natureza agricola nos oferece, consumido em mesas, junto as quais estavam deitados os comensais, e cuja disposicao e, com grande utilidade e bom senso, desenhada na p. 166.

O capitulo III, dedicado a Persio, a meu ver o menos interessante dos satiristas romanos, e intitulado com a alegoria "Entre o Acido e o Amargo", define no intelecto e nos sentimentos o valor estetico das satiras que vai tratar (pp. 173-205). A A. tem a intuicao de comparar os dois satiristas e chega brevemente e definitivamente a conclusao de que, se Horacio era um poeta cheio de humor, Persio substituia esse sentimento por uma seca raiva que nao consegue esconder. Dai o menor sucesso literario que vai conhecer frente a Horacio, mesmo que a A. nao se escuse a apresentar o menu das poesias, para ilustrar a bem menor imaginacao do satirista mais tardio.

Com o mesmo simbolismo introduz-nos no mundo poetico de Juvenal, cap. IV (do acido ao agridoce) forcando-nos a usar das glandulas gustativas e do que no nosso cerebro apreende a beleza das letras. E quase uma operacao cirurgica, em que a presenca do velho Lucilio ainda se faz sentir, sem que venha a faltar o lexico dos termos alimentares usados (pp. 213-214), que justificam o titulo. Essa operacao e ilustrada por dois graficos, o dos restos que justificam a mesa opulenta (p. 216), e um mais abrangente (compreende as obras dos tres satiristas estudados) que, sem sair da fisiologia do gosto, que a A. cuidadosamente ja fizera radicar anteriormente na obra classica para a filosofia da gastronomia de Brillat-Savarin, permite ao leitor a compreensao deste tema ao mesmo tempo unido e variado.

A terceira parte, "A Metafora do Banquete: do Cenario ao Significado" (pp. 259-326), por estar mais proxima do nosso mundo, e a que traz a nossa lembranca imediatamente o Satiricon de Petronio, o "arbitro das elegancias" da epoca de Nero, que, contrariamente ao que nos foi transmitido por um Tacito, aristocrata que antipatizava com a politica do imperador, ou por um Tertuliano, que representava a faccao crista, conseguiu manter o imperio num estado de paz e de opulencia que vao permitir um banquete com prazeres sem limites.

E essa a razao que leva a A. a intitular o cap. I de "Os Blandimenta do Romance Satirico" (pp. 259-275), que esquadrinha os fundamentos, avancados pelos criticos literarios mais actuais, em que assenta a narrativa satirica, seguido pelas "Palavras que se comem", no cap. II (pp. 277-297), em que o adynaton tem plena justificacao no contexto quase surrealista, que a A. identifica a certa altura com Magritte, o que da um certo prazer ao leitor moderno, porque esta consciente de que o ser humano avancou na tecnica, mas nao sofreu qualquer metamorfose, pois e sempre o que foi, com profundos avancos, o que e justificado no cap. III "A Metafora do Banquete: isto nao e um Banquete" (pp. 299-326).

Ora, mesmo aceitando comparacoes com Magritte, de banquete se trata, mesmo que exoterico, porque desde ver a dona da casa a dancar em cima da mesa, apesar da celulite que ha muito a invadiu, ate a presenca furtiva dos dois meninos turbulentos e quase hippies, nem por isso nos escapam as confissoes de riqueza roubada nos latifundios de Italia, os que a perderam, segundo Plinio-o-Velho, devido a corrupcao e ma gestao. E um banquete, que noutras vestes e com outros gestos e vocabulario, se podia passar nos dias de hoje, no meio de uma sociedade que deixou de ter o sentido da honra, do premio e do castigo.

Chegamos a Parte IV "Retratos a Mesa" (pp. 329-425) em que a A. mergulha, e o termo, nos retratos transmitidos por Suetonio, que descreve as vidas dos Cesares. E discutivel o titulo do Cap. I (pp. 330-340), "Suetonio e a Reinvencao da Biografia", pois mais se trata da consolidacao da biografia mais dispersa dos gregos e de alguns passos de Tucidides ou Tito Livio, do que propriamente de uma invencao do que ate entao nao existia.

Nao era um genero literario, e nisso tem razao a A. Por isso, com certa intuicao politica, investiga no Cap. II (pp. 341-375) "Os Cesares e a Mesa dos Outros", com imperadores mais loucos (Caligula) e mais conscientes da realidade (Augusto), a accao do poder supremo face ao povo, a distribuicao regular de pao, a annona, pelos mais pobres, com um quadro distributivo, em que Caligula e Nero aparecem em posicao negativa, ainda que nos pareca que se assim fosse o poder de Nero teria de ter tido fases de violenta revolucao. Mas a propaganda aristocratico-crista contra este imperador, depois de tantos seculos e dificil de contradizer, mesmo pensando no banquete de Trimalquiao, o escravo-forro (libertus) e corrupto.

O cap. III (pp. 377-423), "A Mesa dos Cesares", nao levanta qualquer problema por escrever o que era real e indesmentivel. Sem duvida que Nero e posto em realce pela sua megalomania e egocentrismo, e os outros que o acompanham na historia tambem o acompanham nos vicios, so que estes sao diferentes. Os modos e lugares do banquete aparecem em quadros extremamente uteis, nas pp.381-384, uma vez que compreendem a distribuicao das salas e os usos vocabulares, que nos permitem especificar, a esta distancia no tempo, muito que nos escaparia se os quadros nao nos facilitassem o entendimento.

Podemos dizer que a A., com grande conhecimento e nao menor cuidado, nos faz percorrer a mesa, a comida, e as iguarias dos primeiros tempos do Imperio Romano, nunca deixando de lado os aspectos psiquicos dos que empunhavam com mais ou menosviolencia o ceptro do poder, ao mesmo tempo que nos integra com grande capacidade de analise e de rigor nas obras dos que, sobre o tema dos prazeres da boca, se ocuparam.

A "Conclusao Geral" (pp. 427-431) nao desempenha, num livro sobre homens e gastronomia ou comida, a funcao de sobremesa. E um resumo bem feito do que foi escrito, e esclarece-nos sobre o rigor da investigacao realizada, que e completada por uma bibliografia riquissima, e indices onomastico e das materias que facilitam a vida ao leitor, num texto em que se entrecruzam riquezas intelectuais e esteticas com sabores de comida simples e gastronomicos, que revelam sem nos surpreender as diferencas entre os clas, as tribos e os imperios.
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Author:Fernandes, Raul Rosado
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2013
Words:2219
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