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Indicadores emocionais de Koppitz no desenho da figura humana: comparacao entre uma amostra clinica e escolares/Indicadores emocionales de Koppitz en el dibujo de la figura humana: comparacion entre una muestra clinica y escolares/Koppitz's Emotional Indicators and the Human Figure Drawing: A Comparison Between a Clinical and a School Sample.

O Desenho da Figura Humana (DFH) e um dos testes psicologicos mais usados na avaliacao psicologica infantil nos diferentes paises (Wechsler, 2003), pois requer apenas lapis e papel, e de baixo custo e tambem e bem aceito pela crianca. Este trabalho pretendeu estudar o DFH, para avaliar as dificuldades emocionais de criancas, refletidas em seus desenhos, uma vez que elas afetam as caracteristicas do desenho em relacao ao desenvolvimento intelectual, tendo como base a relacao existente entre o desenvolvimento do grafismo e o cognitivo, bem como a relacao entre a avaliacao intelectual e emocional.

Existem diversos sistemas de avaliacao do DFH (Domingues, Alves, Rosa & Sargiani, 2012), sendo um dos mais conhecidos e utilizados internacionalmente o proposto por Koppitz (1973) (1), que solicita apenas um desenho, para determinar a presenca de Indicadores Maturacionais (IM) e de Indicadores Emocionais (IE), com 30 itens para cada uma dessas escalas. No Brasil tambem tem sido empregado o DFH-III (Wechsler, 2003) para a avaliacao cognitiva, que solicita dois desenhos, um do homem e outro da mulher.

Varias razoes justificam o uso de um sistema de pontuacao quantitativo para o DFH em uma avaliacao psicologica: a estimativa do desenvolvimento da crianca; por ser menos influenciado pelas capacidades linguisticas; ser de facil acesso e baixo custo, bem como por poder ser aplicado de forma individual ou coletiva. Assim, fornece informacoes complementares aos resultados de outros testes, permitindo tambem a interpretacao projetiva dos desenhos.

Diversas pesquisas tem sido realizadas com os IES e IMS de Koppitz, tanto no Brasil como no exterior, seja de normatizacao e validacao (Hutz & Antoniazzi, 1995; Rosa, 2006, 2008, no Brasil; Velez-van-Meerbeke et al, 2011, em Bogota), seja de sua aplicacao nas areas da saude, da educacao, junto a criancas institucionalizadas ou vitimas de violencia, entre outros. Tem havido maior concordancia no que se refere ao carater evolutivo do DFH do que quanto aos IES. A tese de doutorado de Kobayashi (2015), defendida recentemente na Universidade de Sao Paulo, estabeleceu normas para os IEs na mesma amostra empregada por Rosa (2006), segundo os criterios originais propostos por Koppitz (frequencia do item deve ser menor do que 16% em cada idade na populacao geral). Entretanto, nao estudou amostras clinicas, que estao sendo investigadas nesta pesquisa. Baseando-se nos resultados apresentados por Kobayashi (2015), neste trabalho os IES foram pontuados de acordo com os dados obtidos por ela, sobre a frequencia em cada idade.

Em pesquisa brasileira anterior, Hutz e Antoniazzi (1995) estabeleceram normas para os dois tipos de indicadores de Koppitz em uma amostra de 1586 criancas de escolas publicas, que em geral eram de nivel socioeconomico medio-baixo ou baixo, com idades entre 5 e 15 anos, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Os autores apresentaram as frequencias de cada item dos IMS e IES e percentis por faixa etaria.

Tanto os IMS quanto os IES do DFH tem sido bastante utilizados em diversas pesquisas, como por exemplo, na predicao do desempenho escolar, na diferenciacao entre amostras clinicas, constatando ora a validade dos IES, ora pouca sensibilidade dos mesmos, como nos trabalhos de Cariola (2006), Bragheto (2008), Neme, Pereira, Rodrigues, Valle e Melchiori (2009), e de Castro e Moreno -Jimenez (2010), entre outras pesquisas no Brasil e no exterior.

Em Bogota, na Colombia, foi desenvolvido um estudo normativo por Velez-van-Meerbeke et al. (2011), que revisaram 2420 desenhos de criancas da base de dados de um estudo transversal, realizado anteriormente para avaliar a prevalencia de doencas neuropediatricas, com a finalidade de validar os IMS e os IES do sistema de Koppitz para o DFH. Propuseram tabelas adequadas para a populacao estudada, uma vez que constataram diferencas em relacao as tabelas americanas de Koppitz, reforcando a importancia da influencia dos fatores etnicos e culturais nos itens do DFH e da obtencao de normas locais para o estabelecimento de diferencas em seu pais.

Wechsler, Prado, Oliveira e Mazzarino (2011) pesquisaram as variaveis que afetam a prevalencia de indicadores emocionais no DFH, numa amostra de 1103 criancas de cinco a 11 anos, sendo 695 meninas e 408 meninos, que nao apresentavam disturbios clinicos. Os desenhos foram avaliados por dois sistemas: o proposto por Naglieri, Mc-Neish e Bardos (1991) para avaliacao emocional e o de Wechsler (2003), DFH-III, para avaliacao cognitiva. A analise de variancia mostrou a influencia do sexo da crianca, da idade, do tipo da figura desenhada, do tipo de escola e da interacao entre sexo, idade e tipo de figura tanto na pontuacao emocional quanto na cognitiva. A pontuacao emocional teve correlacao negativa com a cognitiva (p < 0.01), sendo -0.23 na figura masculina, -0.19 na figura feminina, -0.28 entre total de indicadores emocionais e cognitivos para as duas figuras. Foram recomendados distintos pontos de corte para subsidiar a avaliacao psicologica infantil.

Souza e Hoffmann (2013) avaliaram 56 criancas (8 a 12 anos) com queixa de dificuldade de aprendizagem pelo DFH-III de Wechsler (2003 -desempenho cognitivo) e pelos IES de Koppitz e encontraram metade (54.3%) com desempenho abaixo da media e 65.6% com indicadores emocionais. Das 25 criancas que apresentaram baixo desempenho cognitivo, 21 delas tambem apresentaram indicadores emocionais, confirmando dados da literatura, que apontam que as dificuldades de aprendizagem quase sempre estao associadas a comprometimentos emocionais.

A aplicacao na area da saude e uma das mais relevantes. Exemplo desses trabalhos e o de Kitamura, Delvan, Schlosser e Lanconi (2013), que investigaram a relacao entre sintomatologia depressiva e obesidade em oito criancas diagnosticadas como obesas, quatro de cada sexo, com idades de 7 anos e 9 meses a 11 anos e 6 meses. Os instrumentos empregados foram uma anamnese com os pais, o CDI--Inventario de Depressao Infantil e o DFH. Os resultados indicaram que apenas uma das criancas obesas apresentou um total de indicadores de depressao acima do ponto de corte, entretanto, sete apresentaram dois ou mais IES em seus desenhos.

Ozer (2010), na Turquia, comparou uma amostra clinica de 44 criancas com uma amostra nao clinica, proveniente de escolas de 44 criancas emparelhadas com a amostra clinica. A analise de variancia nao mostrou diferencas significantes no numero de IES entre os dois grupos e a classificacao correta das criancas do grupo clinico em relacao a presenca dos IES ocorreu apenas em 56% dos casos.

Em 2006, Cariola avaliou os DFH de 22 criancas com diagnostico de bruxismo, com idades entre 5 e 12 anos. Constatou que, entre as criancas portadoras desse quadro, 63.7% apresentaram dois ou mais Indicadores Emocionais, indicando a existencia de conflitos emocionais.

Da mesma maneira, em relacao as criancas vitimizadas e/ou institucionalizadas, os dados divergem, pois enquanto Zortea, Kreutz e Johann (2008) encontraram pouca diferenciacao entre criancas institucionalizadas e nao institucionalizadas, Fiamenghi Jr., Melani & Carvalho (2012) indicaram a necessidade de mais pesquisas. Os primeiros justificam seus resultados pela qualidade do atendimento oferecido as criancas institucionalizadas e a pouca atencao e tipo de cuidados oferecidos as criancas nao institucionalizadas. O primeiro grupo frequentava instituicoes em que havia uma rotina de atividades ligadas a faixa etaria e atendimento psicologico, fonoaudiologo e dentario, enquanto o segundo era proveniente de uma escola, que atendia uma populacao em situacao economica desfavoravel. Os autores do segundo estudo constataram que as criancas mostraram diversos comportamentos de desajustamento emocional, relacionados ao Transtorno de Apego Reativo, embora a amostra tenha sido composta por apenas 25 criancas institucionalizadas e os autores nao tenham apresentado quantitativamente os totais de IES obtidos pelas criancas, mas apenas as interpretacoes das avaliacoes. Sugerem a necessidade de mais pesquisas, ainda que tenham encontrado resultados favoraveis aos IES do DFH.

Santos, Ribeiro, Ukita, Pereira, Duarte e Custodio (2010) tambem compararam as caracteristicas psicologicas de criancas institucionalizadas e nao institucionalizadas que viviam com suas familias. Cada grupo foi composto por 36 criancas, de ambos os sexos, com idades entre 5 e 10 anos. Os resultados do DFH mostraram diferencas significantes em relacao ao total de Indicadores Emocionais, sendo que as criancas institucionalizadas apresentaram em media dois indicadores a mais do que as criancas que viviam com suas familias.

Em relacao as vitimas de violencia, Hernandez et al. (2000) encontraram resultados favoraveis para os IES do DFH de Koppitz, em especial quanto a omissao das maos, assim como Vasquez e Chang (2003), no Peru, que investigaram quais IEs de Koppitz caracterizam criancas que sofreram maus tratos (fisico, emocional ou psicologico, ataque sexual e abandono) em relacao as criancas que nao sofreram. Aplicaram o DFH coletivamente, nos albergues tutelares ou num centro educacional estatal, em 60 criancas, sendo 30 (8 do sexo masculino e 22 do feminino) que se encontravam internadas em albergues tutelares de Lima (Peru) por causa de maus tratos, e 30 criancas aparentemente sadias (11 do sexo masculino e 19 do feminino) de um centro educacional. As criancas vitimas de maus tratos apresentaram diferencas significantes para oito IES, com maior numero de indicadores (transparencia; bracos curtos; presenca de genitais; nuvens, neve, chuva e/ou passaros voando; omissao da boca; omissao dos bracos; omissao dos pes e omissao do pescoco). Essas diferencas eram relativas a impulsividade (transparencia e omissao do pescoco); a inseguranca e sentimentos de inadequacao (omissao dos bracos e omissao dos pes); a ansiedade (nuvens, chuva, neve e/ou passaros voando); a timidez (figura pequena, bracos curtos e omissao da boca); a agressividade (presenca dos genitais); ao roubo (transparencia, omissao dos bracos e omissao do pescoco); e mau desempenho escolar (figura pequena, omissao da boca e omissao dos bracos). Esse estudo corrobora a hipotese de que o DFH e um teste util para uma avaliacao rapida de perturbacao emocional nas criancas.

Foram apresentados apenas alguns dos estudos mais recentes encontrados, uma vez que a bibliografia com o DFH e muito ampla, sendo um dos instrumentos psicologicos mais antigos e mais empregados na pratica profissional e nas pesquisas com criancas. O objetivo deste artigo foi verificar a existencia de diferencas entre um grupo de criancas com problemas emocionais que foram atendidas em clinicas-escolas ou em consultorios particulares com um grupo de criancas provenientes de escolas sem queixas de problemas emocionais nos IMS e IEs de Koppitz (1973), bem como determinar a correlacao entre os resultados dos dois tipos de indicadores no DFH.

Metodo

Participantes

Foram estudadas 148 criancas, sendo 74 de uma amostra clinica e 74 criancas de uma amostra de controle, sendo que a descricao da amostra por idade, sexo e tipo de escola dos grupos Clinico e de Controle e apresentada na tabela 1. A amostra clinica se refere a criancas atendidas em clinicas--escolas ou em consultorios particulares, cujos psicologos e pais aceitaram a participacao de seus filhos na pesquisa, que apresentavam diversas queixas psicologicas (dificuldades escolares, medos e ansiedade, queixas somaticas, problemas de comportamento, agitacao, timidez e retraimento, entre outras).

A amostra do grupo controle foi composta por 74 criancas emparelhadas em idade, sexo e tipo de escola com as criancas do primeiro grupo, com a escolaridade compativel com a sua idade (ou seja, frequentando a serie escolar esperada para sua idade cronologica--alunos com reprovacao foram retirados da amostra controle) e que nao apresentavam queixas clinicas psicologicas segundo os professores e a coordenacao das escolas. O tipo de escola foi o indicador empregado para avaliar o nivel socioeconomico das familias uma vez que, no Brasil, as escolas publicas sao frequentadas pelas classes sociais menos favorecidas e as particulares, pelas classes sociais de maior poder aquisitivo.

A faixa etaria das criancas de ambos os grupos foi de 6 a 11 anos. Foram obtidos os desenhos de criancas, cujos pais ou responsaveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (documento de autorizacao para a participacao dos filhos na pesquisa, assinado pelos responsaveis e aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa com Seres Humanos), em quatro escolas publicas e duas escolas particulares da rede oficial de ensino da grande Sao Paulo. Para comparar as duas amostras foi realizado o teste de Levene, que indicou que as amostras podem ser consideradas equivalentes, ainda que as condicoes reais de coleta nao favorecam o numero exato de participantes em cada idade, sexo e tipo de escola.

Material

Teste do Desenho da Figura Humana: folhas de papel sulfite branco (A-4), lapis preto no 2, borracha. Foi solicitado as criancas, individualmente, que fizessem um desenho de um homem, completo (inteiro), e em seguida, o de uma mulher, tambem completa. A realizacao dos dois desenhos, de ambos os sexos, objetivou comparar os resultados para as duas figuras.

Procedimento

Nas escolas, a aplicacao dos DFH foi feita de forma ludica, respeitando o desejo de cada crianca de executar a tarefa, fora dos horarios da saida ou entrada na escola e sem perder aulas do seu interesse. A atividade foi bem-aceita pelas criancas, que inclusive solicitavam ser chamadas, mesmo quando nao podiam participar. Foram excluidos os desenhos de criancas que a coordenacao da escola indicava apresentarem alguma queixa emocional. Nas clinicas, a aplicacao ocorreu segundo os mesmos criterios e de acordo com a conveniencia tambem da(o) psicologa(o), com consentimento dos responsaveis e sem prejuizo das atividades. Todos os desenhos foram pontuados quanto aos IMS e os IES propostos por Koppitz (1973). Uma das pesquisadoras foi a avaliadora em todos os casos.

Resultados

A tabela 2 indica as medias, desvios padrao e o teste t de Student entre as medias de pontos de IMS de Koppitz entre os dois grupos.

E possivel observar que ocorreram diferencas significantes entre as medias dos dois grupos tanto para a figura do Homem (p = 0.005), quanto para a da Mulher (p < 0.001), com medias menores para o grupo clinico e com resultados mais elevados para o grupo de controle. Esse resultado sugere que as criancas do grupo clinico tem mais prejuizos no desenvolvimento cognitivo.

A tabela 3 apresenta a comparacao entre as medias dos grupos na pontuacao dos IES. Por esta Tabela, pode-se perceber que ocorreram diferencas significantes entre as medias de pontos de IES dos dois grupos, para as duas figuras. Koppitz (1973) constatou que, para diagnosticar a presenca de problemas emocionais, era necessario um minimo de dois indicadores. As criancas da amostra clinica obtiveram media maior de indicadores (1.82 para o Homem e 2.01 para a Mulher), e so atingiram os dois pontos estabelecidos por Koppitz no desenho da Mulher, enquanto os escolares tiveram em media 1.2 para as duas figuras.

A tabela 4 mostra as correlacoes entre os IMS e os IEs para cada desenho, em cada grupo. Pode-se verificar que as correlacoes sao muito proximas, mostrando a existencia de uma relacao entre os dois tipos de indicadores.

A fim de investigar melhor a influencia das dificuldades escolares (uma das queixas mais frequentes junto a populacao infantil) no desempenho cognitivo e nos aspectos emocionais, foram selecionadas as criancas do grupo clinico que apresentavam especificamente esta queixa (escolar), sendo a amostra assim caracterizada, composta por 22 das 74 criancas da amostra clinica original. Estas foram pareadas com um grupo (N = 22) extraido do grupo controle em funcao da idade e do tipo de escola, de forma a manter os grupos equivalentes. As comparacoes entre os grupos nos IMS de Koppitz sao apresentadas na tabela 5.

Os resultados da tabela 5 indicam que existem diferencas significantes (p = 0.05) dos IMS de Koppitz entre as criancas com e sem dificuldades escolares, sendo que o grupo clinico apresenta medias menores nos dois desenhos, como ocorreu com a amostra clinica original.

Na tabela 6 e apresentada a comparacao dos IEs entre os grupos. Esta Tabela indica a existencia de diferencas significantes (p <0.001) tanto para o desenho do Homem (p < 0.001) quanto para o da Mulher, entre criancas com e sem dificuldades emocionais.

Discussao

Os resultados obtidos nessa pesquisa indicam que as criancas do grupo clinico tem mais prejuizos no desenvolvimento cognitivo, confirmando os dados da literatura. A tabela 4 aponta que os IMS sao afetados pelos IES, o que esta de acordo com os resultados de Wechsler, Prado, Oliveira e Mazzarino (2011), em que a pontuacao emocional tambem se correlacionou negativamente com a cognitiva, o que sugere que as dificuldades emocionais (pontos atribuidos a presenca de Indicadores Emocionais) podem trazer prejuizos no desempenho das criancas ou, ainda, dificuldades cognitivas podem trazer comprometimentos emocionais. Contudo, Ozer (2010), na Turquia, nao encontrou dados confirmando a validade dos Indicadores Emocionais na avaliacao de criancas de clinica psicologica de uma universidade publica, diferindo dos resultados desta pesquisa e sugerindo, assim, necessidade de outras investigacoes, inclusive com grupos clinicos diferenciados.

Koppitz (1973) ja havia indicado como ponto de corte a presenca de dois IES. Os resultados apresentados na Tabela 3 sugerem a confirmacao da autora, de que os IEs sao sensiveis para diferenciar as duas amostras (clinica e controle), constituindo evidencia da validade dos IEs de Koppitz para o diagnostico de problemas emocionais em criancas, ao menos na faixa etaria estudada.

Pelo fato de as dificuldades de aprendizagem ser, ao menos no Brasil, uma das queixas mais frequentes no que se refere a problemas junto as criancas em fase de escolaridade, foi feito o estudo com a parcela da amostra clinica original que apresentou esta queixa como motivo de encaminhamento aos servicos de Psicologia. A partir desses resultados, pode-se levantar a hipotese de que as dificuldades escolares demonstradas por criancas de 6 a 11 anos nao estao relacionadas a atrasos maturacionais ou desenvolvimentais, mas sim a problemas emocionais. Apesar de a amostra ser pequena (N = 22), os resultados mostram uma diferenca muito grande entre as criancas com e sem dificuldades escolares nos IES. Pode ser constatado que para o Desenho do Homem, as criancas tiveram uma media de 2 pontos, que e considerada como limite para se considerar problemas emocionais. Contudo, no Desenho da Mulher, a media de indicadores foi 1.5, ainda sendo significante a diferenca, o que pode mostrar que este desenho foi menos sensivel para a avaliacao dos IEs. Esse resultado difere do apresentado na tabela 3, em que a diferenca de 2 pontos entre as medias ocorreu no Desenho da Mulher, enquanto no Desenho do Homem, a diferenca foi 1.82, valor proximo ao apresentado por Koppitz (1973).

Cariola (2006) tambem encontrou, entre as criancas com bruxismo, a presenca de dois ou mais indicadores, porem a solicitacao usada por essa autora foi para desenhar uma pessoa, o que pode levar a suposicao de que, quando se pede duas figuras, a masculina e a feminina, uma dessas figuras pode ser mais neutra para a crianca, e a problematica emocional pode aparecer em apenas uma das figuras. Assim, a influencia tanto do sexo da figura desenhada quanto do sexo do desenhista deve ser melhor investigada para oferecer generalizacoes mais amplas.

Na pesquisa de Kobayashi (2015), apos o estabelecimento do criterio de considerar como indicadores os itens que tivessem frequencia menor do que 16% na amostra, seus resultados mostraram que a presenca de apenas um indicador ocorreu em 36% da amostra, dois indicadores em 15.6%, tres indicadores em 4.7%, quatro em 1.6% e cinco em 0.5%.

No estudo de Hutz e Antoniazzi (1995) relativo a amostra normativa, o total de 2 IEs somente corresponde ao percentil 20 para 14 anos, de 3 IEs ao percentil 15 para 12 e 13 anos, de 5 pontos ao percentil 15 aos 9 anos, de 6 IEs ao percentil 20 aos 6 anos e 7 pontos ao percentil 20 aos 5 anos. O maximo de IEs presente na tabela foi de 10 pontos, levando-se em conta que eles nao fizeram a correcao do total de indicadores com frequencia menor de 16% para elaborar esta tabela.

Para determinar quais indicadores apresentaram diferencas significantes entre a amostra clinica e a de controle, foram calculados os qui-quadrados para cada IE para cada figura. Os itens que mostraram diferencas significantes entre os grupos foram: para o desenho do Homem, o item 3 [[chi square] (1, N = 148) = 11.88, p < 0.001]; para o desenho da Mulher, os itens 29 [[chi square] (1, N = 148) = 3.86, p =0.05], e o item 30 [[chi square] (1, N = 148) = 5.54, p = 0.02]. O item 3 se refere ao sombreado do corpo e das extremidades, o 29 se refere a omissao dos pes e o 30 a omissao do pescoco. O item 3 teve, na amostra de Hutz e Antoniazzi (1995), frequencia menor do que 16% a partir 6 anos, o 29 a partir de 8 anos e o Item 30, a partir de 11 anos. Na pesquisa de Kobayashi (2015), o item 3 teve frequencia menor do que 5,31% em todas as faixas etarias, o 29 teve frequencia menor do que 16% apenas para os meninos a partir de 6 e de 7 anos para as meninas. Ja o item 30, a partir de 9 anos para as meninas e de 10 anos para os meninos, lembrando que, para essa pesquisa, foi solicitado o desenho de um Homem e nao de uma Pessoa.

Consideracoes finais

O Desenho da Figura Humana mostrou-se um bom instrumento para avaliacao psicologica infantil, tanto no que se refere a avaliacao do desenvolvimento quanto com relacao aos IEs propostos por Koppitz. As criancas do grupo clinico apresentaram uma diferenca significante no total de pontos em relacao ao grupo controle, nas duas figuras desenhadas. Estes pontos apresentaram correlacao negativa tambem significante, ainda que moderada, com os IMS de Koppitz, ainda controlando a idade como covariavel, indicando que as dificuldades emocionais parecem afetar o desempenho das criancas, em conformidade com os resultados de Wechsler, Prado, Oliveira e Mazzarino (2011). Assim, os IEs se mostraram sensiveis para diferenciar as duas amostras.

Conclui-se que os IEs foram sensiveis para diferenciar o grupo controle da amostra clinica. Esta pesquisa contribuiu, desta maneira, com a validade do teste, acrescentando maior seguranca a avaliacao psicologica infantil. Para maiores generalizacoes, serao necessarios estudos com amostras mais amplas; amostras clinicas diferenciadas em funcao das queixas apresentadas e/ou dos diagnosticos; bem como estudos correlacionais com outros indicadores de dificuldades emocionais infantis.

Referencias

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Fecha recebido: abril 11, 2018

Fecha aprovado: novembro 21, 2018

Helena Rinaldi Rosa (**), Gabriel Okawa Belizario (**), Irai Cristina Boccato Alves (**), Maria Luisa Louro de Castro Valente (***)

(*) Resultados preliminares desta pequisa foram publicados em Anais do 4th International Congress of Educational Sciences and Development, 2016.

(**) LITEP Laboratorio Interdepartamental de Tecnicas de Exame Psicologico do Instituto de Psicologia da Universidade de Sao Paulo.

(***) UNESP - Faculdade de Ciencias e Letras - Campus de Assis. Correio eletronico de contato: hrinaldi@usp.br

(1) Originalmente publicado no 1968.

Doi: http://dx.doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.5118
Tabela 1
Distribuicao de frequencia da amostra total por sexo, idade e tipo de
escola dos Grupos Controle e Clinico

Idade    Controle               Clinico                Total
(anos)   Publica   Particular   Publica   Particular
         F   M     F    M       F    M    F    M

 6        4   4     2    0       4    4    2    0       20
 7        1   3     4    3       1    3    4    3       22
 8        4   6     5    4       4    6    5    4       38
 9        5   3     5    4       5    3    5    4       34
10        4   1     3    3       4    1    3    3       22
11        2   1     1    2       2    1    1    2       12
Total    20  18    20   16      20   18   20   16      148

Tabela 2
Medias, desvios padrao e testes t das diferencas dos Indicadores
Maturacionais de Koppitz entre grupo clinico e controle

Figura   Grupo      N   Media   DP     t       gl    Sig.

Homem    Clinico    74  16.27   3.960  2.860   146    0.005
         Controle   74  18.00   3.376
Mulher   Clinico    74  15.34   3.970  3.873   146   <0.001
         Controle   74  17.61   3.109

Tabela 3
Medias, desvios padrao e testes t dos Indicadores Emocionais de Koppitz
entre grupo clinico e controle

Figura   Grupo      N    Media   DP      t        gl    Sig.

Homem    Clinico    74   1.82    1.243   -3.048   146    0.003
         Controle   74   1.24    1.070
Mulher   Clinico    74   2.01    1.350   -3.810   146   <0.001
         Controle   74   1.26    1.048

Tabela 4
Correlacoes entre IM e IE controlando a idade, entre grupo clinico e
grupo controle e significancia (p)

           Homem             Mulher
           r        p        r        p

Clinico    -0.416   <0.001   -0.460   <0.001
Controle   -0.395   <0.001   -0.494   <0.001

Tabela 5
Medias, desvios padrao e testes t dos Indicadores Maturacionais de
Koppitz entre grupo clinico e controle

Figura   Grupo     N   Media   DP     t       gl   Sig.

Homem    Clinico   22  15.41   4.827  -2.113  43   0.05
         Controle  22  17.95   2.935
Mulher   Clinico   22  14.77   4.649  -2.401  43   0.05
         Controle  22  17.64   3.110

Tabela 6
Medias, desvios padrao e testes t dos Indicadores Emocionais de Koppitz
entre criancas com e sem dificuldades escolares

Figura   Grupo      N    Media   DP      t        gl   Sig.

Homem    Clinico    22   2.00    1.447   -4.198   43   <0.001
         Controle   22   0.55    0.739
Mulher   Clinico    22   1.50    0.964   -3.633   43    0.001
         Controle   22   0.50    0.859
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Author:Rosa, Helena Rinaldi; Belizario, Gabriel Okawa; Alves, Irai Cristina Boccato; Valente, Maria Luisa L
Publication:Avances en Psicologia Latinoamericana
Date:Jul 1, 2019
Words:5368
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