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In-between of me: a borderline situation on the Augusto dos Anjos' poetry/A poetica de Augusto dos Anjos: o entre-lugar do eu.

Introducao

A obra de Augusto dos Anjos (1884-1914), historicamente, assume um valor incomensuravel na literatura brasileira. Muito se tem falado de suas qualidades poeticas: a singularidade e a riqueza claramente reconheciveis em versos pujantes. Entretanto, questoes giram em torno da originalidade do livro Eu, ampliado para Eu e Outras Poesias (1928) em carater de terceira edicao, nao obstante a segunda edicao Eu (Poesias Completas) de 1920, ao que tudo indica, ja antecipava os primeiros acrescimos de poemas.

A distincao da obra de Augusto dos Anjos se firma justamente nos 'entrelugares' que caracterizam a poetica inconfundivel desse paraibano. O primeiro deles trata de uma feicao transitoria que remete a questao da tradicao poetica. Eu e um dos ultimos livros da lirica conservadora, mas cujas formas classicizantes escondem um dialogo com temas antiliricos, a principio incongruentes com o lirismo tradicional--e o 'entrelugar' do rigor formal ultimado pelo alvorecer dos novos conteudos modernistas.

Nesse sentido, a segunda edicao de Eu (Poesias Completas), de 1920, nao saiu sem antes o publico ter conhecido Os Sapos, de Manuel Bandeira, estampado no Carnaval (1919). Observe-se a poesia criticada no Modernismo:

   O sapo-tanoeiro,
   Parnasiano aguado,
   Diz:--'Meu cancioneiro
   E bem martelado.
   Vede como primo
   Em comer os hiatos!
   Que arte! E nunca rimo
   Os termos cognatos.
   O meu verso e bom
   Frumento sem joio.
   Faco rimas com
   Consoantes de apoio.
   Vai por cinquenta anos
   Que lhes dei a norma:
   Reduzi sem danos
   A f[o]rmas a forma. (BANDEIRA, 1973, p. 51).


Contudo, por ser uma despedida da lirica metrificada, os versos de Augusto dos Anjos guardam o ultimo vigor do formalismo oitocentista. Sao bem martelados, como nos mostrou M. Cavalcanti Proenca:

Depois de todo este longo exordio, algo professoral, chegamos a conclusao de que a preferencia de Augusto dos Anjos pelo decassilabo, notadamente do tipo 6-10 que permite maior variedade de ritmos, e um dos segredos de sua musicalidade./Na verdade, os dois tipos [de versos] estudados (6-10 e 4-10) se enquadram nas subdivisoes tradicionais de heroico e safico. Mas, a insistencia com que o poeta os utiliza, quase nos leva a identifica-los como subtipos de decassilabos, uma especie de metrica regional do Eu e Outras Poesias, em que se distinguem quatro formas ritmicas, cuja combinacao atenua o decassilabo exagerado (PROENCA, 1973, p. 93).

A escansao tambem afronta a concepcao vanguardista do Modernismo que comecava a pontualmente se manifestar contraria a poetica do verso perfeito. Augusto dos Anjos, a contragosto do profeta do Modernismo, come os hiatos, em nome do rigor formal e da metrica de esquemas fixos: 'Com um pouco de saliva cotidiana'; 'E o animal inferior que urra nos bosques' (do Monologo de uma Sombra); 'E o soluco da forma ainda imprecisa [...]' (do Lamento das Cousas); 'Igual ao ruido de um calhau redondo' (de As Cismas do Destino); 'Da-me a impressao de um boulevard que fede' (de Os Doentes); etc.--sao todos decassilabos (PROENCA, 1973, p. 108; 110; 111).

Essa densidade e acrescida, no campo formal, pela sinerese violenta, de que ha exemplos quase em cada pagina, e que possibilita aumentar o numero de palavras contidas no verso/Num poeta que contrai violentamente os vocabulos a ponto de fundir quatro vogais em uma silaba, como no verso 'E a alga criptograma e a usnea e o cogumelo' (PROENCA, 1973, p. 143, grifo do autor)

O poeta do hediondo tambem nao rima cognatos: nome/fome; desconsolo/bolo; velas/cadelas; perguntes/transeuntes; cachorro/socorro; urro/burro; brava/lava; trilhos/filhos; satisfeito/leito; mortas/hortas; cansaco/espaco; hissope/galope; campos/sarampos; miudos/rudos; vestia/molestia; Aquiles/bilis; barro/escarro; fraca/faca; arranque/Bianchi; so para citar alguns de Os Doentes.

O segundo 'entrelugar' abrange conexoes inesperadas com outras literaturas, como aponta Anatol Rosenfeld em A Costela de Prata de A. dos Anjos, estudo apenso na sua Poesia Completa:

Fenomeno ate certo ponto analogo, ligado a uma visao semelhante do mundo e do homem, se verifica no expressionismo alemao. 'Foi o jargao de uma classe profissional, a linguagem medica [...] que marcou o momento critico em que se iniciou a literatura alema moderna [...]' Esta afirmacao de um filosofo (Walter Jens) refere-se particularmente a Gottfried Benn, que publicou em 1912 um volume de poesia com o titulo Morgue. Refere-se ainda [...] a Georg Heym de quem quase ao mesmo tempo saiu uma especie de poema em prosa com o titulo 'Autopsia', descricao, de horripilante beleza, da dissecacao de um cadaver. Trakl, ao mesmo tempo, sussurrava versos que continham visao de uma humanidade de 'cara quebrada', cujos caminhos desembocam em 'negra putrefacao'. Quem nao se lembraria da tematica essencial de Augusto dos Anjos? (ANJOS, 1994, p. 186).

Contudo, permanecendo nos meandros, a obra poetica de Augusto dos Anjos nunca permitiu a confirmacao de influencias ou dialogos com esses alemaes.

O terceiro 'entrelugar' diz respeito a uma estetica fragmentaria, tao indefinida com os matizes entre decadentismo e art nouveau. A inclinacao decadentista, ainda nao consolidada nos estudos sobre o poeta, surge do mergulho nos temas morbidos da doenca cronica:

O naturalismo, com a sua dilatada, e pretensamente objectiva, analise das manifestacoes de bizarria ou morbidez psiquica e de anormalidade fisiologica, constitui importante fonte de influencia sobre os decadentistas, que, embora combatendo posicoes naturalistas, se sentirao estimulados, mais ou menos conscientemente, para uma diferente interpretacao da mesma tematica. Por outro lado (e isto e o mais relevante), comeca a ganhar aceitacao, nos terrenos, mais ou menos cientificos, da medicina, the morel-moreau-lombroso-nordau thesis que liga umbilicalmente a singularidade do genio e a insanidade mental (PEREIRA, 1975, p. 46).

Alias, como bem comentou Sergio Martagao Gesteira, ha uma multiplicidade de leituras criticas a respeito da obra anjiana, considerando-a simbolista, parnasiana, expressionista, poesia cientifica e, por fim, 'o poeta inclassificavel':

O que se nota do conjunto dessas classificacoes da obra de Augusto dos Anjos e que o poeta tera deixado um amalgama de procedimentos estilisticos que, na relevancia que a critica empresta a esse ou aquele aspecto, situa o poeta em tal ou qual divisao periodologica (GESTEIRA, 2000, p. 191).

Por outro lado, a poetica do Eu visita brevemente o art nouveau a medida que o conteudo da lirica tradicional sera afrontado por diccoes coloquiais ("O amor na Humanidade e uma mentira./'E. E e' por isto [...]" (ANJOS, 1994, p. 229)) ou ate vocabulario trivial ("Toma um fosforo. Acende teu cigarro!" (ANJOS, 1994, p. 280)) (nao poderia retirar os parentes?), muitas vezes fomentando, em ultima instancia, a expressao do senso comum. Recorrendo aos 'entrelugares', percebe-se que a ambiguidade, tributaria do paradoxo, e matriz da obra augusto-anjiana pela qual se ve o vigor poetico do Eu. Jose Paulo Paes (1985) propos caracterizar na poesia de Augusto dos Anjos um art nouveau, mas ela nao se acomoda bem as caracteristicas solares desse estilo, se observado o sofrimento escatologico e o ambiente enfermico caracteristicos do decadentismo. E dar uma nota sombria e patologica ao nosso possivel art nouveau e afirma-lo outra coisa--coisa nossa.

A conjuncao entre uma tradicao de rigor formal (estrutura) e uma rasura grotesca e horrivel do cientificismo (conteudo) na obra de Augusto dos Anjos o afasta do Modernismo. Afeicoado a metrificacao austera do verso, norteou o olhar para o futuro investigando o passado, preferiu heranca a rebeldia e admirou Spencer, mestre do passado, mas nao se apegou a um Kant, berco dos tempos vindouros. Entretanto, simultaneamente, o esplendido livro Eu desmantela as convencoes liricas, negando-as pelo conteudo, com seus assuntos funebres ou patologicos. Este e o quarto 'entrelugar'.

Dentre os temas chocantes, para alem das experiencias do 'mal do seculo' romantico, destaca-se o banquete das carnes humanas em putrefacao. Na logica evolucionista, a vida se explica pela transformacao da materia inerte. A obra de Augusto dos Anjos da vigor poetico a essa teoria, originalmente pobre e fatua (principalmente ao hierarquizar as 'racas' humanas): voltando ao humus, ressurge o humano, passando pela acao dos decompositores, isto e, o homem (ser vivente) morrera e o humus dele originario retornara ao ciclo vital pela digestao dos 'seres subterraneos': a citula (Misterios de Um Fosforo), o verme/a sanguessuga (Mater Originalis/Mater) e a monera (Monologo de Uma Sombra).

Essa estrutura basica do evolucionismo nao pertence a antropofagia; antes, esta e revoltada contra aquele. Nem todo canibalismo e antropofagia--pois, no pensamento evolucionista, a degluticao e feita pela geracao originaria dos decompositores, que devora a ultima geracao dos mamiferos: o homem (este, reconhecidamente o comedor na antropofagia). Tal estrutura cientificista subsiste na poetica do Eu, mas como destrocos na degluticao do proprio cadaver putrefato. Talvez seja o avesso antropofagico, pois o pacto de geracoes e mantido, impensavel para a antropofagia: "[...] e-me grato [...]/ser semelhante aos zoofitos e as lianas", Insania de Um Simples (ANJOS, 1994, p. 235), ou entao "Ah! Para ele e que a carne podre fica,/E no inventario da materia rica/Cabe aos seus filhos a maior porcao!" O Deus-Verme (ANJOS, 1994, p. 209).

Entretanto, a poetica de Augusto dos Anjos, permanecendo no 'entrelugar', tambem nao se presta a demonstrar a teoria darwinista; antes, promove sua corrosao: um 'evolucionismo as avessas' (PAES, 1985,). Como nota destoante ao ja idiossincratico 'positivismo' brasileiro--catolico-patriarcal--a poetica do Eu, a partir de um pessimismo original, deteriora os evolucionismos biologico de Darwin ou neurofisiologico de Spencer, ambas as estruturas otimistas. No encontro entre pessimismo e otimismo, funda-se, entao, uma dialetica paradoxal dos contrarios, restando a 'ruina' do corpo (cientificismo, gramatica de superficie) corroido pela degluticao do logos pessimista (os microbios, metafora da corrosao). Comer, pois, ganha dimensao escatologica. Nesse sentido, Sergio Martagao Gesteira identificou A carne da ruina, livro de sua tese de doutorado:

[...] a doenca e a morte do corpo sao outros nucleos diletos da atencao do eu lirico, vistas num angulo que as considera nao so como dado, ainda que deploravel, da condicao humana, mas, por sua flagrante visibilidade, como ruina fisica do ser vivo, tendendo o poeta aos tons fortes na descricao minuciosa dos corpos doentes e mortos (GESTEIRA, 2000, p. 247-248).

Dai as duas fisionomias contraditorias do Eu, fundamento de um quinto 'entrelugar'. A titulo de exemplificacao:

   Eu, filho do carbono e do amoniaco,
   Monstro de escuridao e rutilancia,
   Sofro, desde a epigenesis da infancia,
   A influencia ma dos signos do zodiaco (ANJOS, 1994, p. 203).

   E quando esse homem se transforma em verme
   E essa magoa que o acompanha ainda! (ANJOS, 1994, p. 290).


Os primeiros versos sao materialistas, ao passo que os segundos sao espiritualistas; ambos, no entanto, trazem esta nota pessimista que sentencia o homem ao sofrimento. Ve-se que eles se contrapoem enfaticamente ao otimismo dos versos abaixo:

   Ah! Para ele [O Deus-Verme] e que a carne podre fica,
   E no inventario da materia rica
   Cabe aos filhos a maior porcao! (ANJOS, 1994, p. 209).

   Creio, perante a evolucao imensa,
   Que o homem universal de amanha venca
   O homem particular que eu ontem fui! (ANJOS, 1994, p. 230).


As duas passagens tambem apresentam a dicotomia materia e espirito, mas, enquanto as citacoes anteriores expressavam um profundo pessimismo, estas outras ja celebram a apoteose (ainda que do 'negativo'), com certo 'progressismo humanitario', nas palavras de G. C. Argan (1995). Do arcabouco evolucionista que superficialmente aparece numa primeira leitura, a poesia de Augusto dos Anjos guarda segredos destrocadores como este Ultimo Credo, cuja tensao entre o homem particular e o universal, anotada por Jose Paulo Paes, desmantela o sistema darwinista, na dialetica paradoxal do antagonismo: cientificismo X metafisica; material X espiritual; otimista X pessimista. Sao estes Contrastes:

   A antitese do novo e do obsoleto,
   O Amor e a Paz, o Odio e a Carnificina,
   O que o homem ama e o que o homem abomina,
   Tudo convem para o homem ser completo!
   (ANJOS, 1994, p. 260).


Mais uma vez, a poetica de Augusto dos Anjos desvela o entrelugar do Eu--pois o otimismo positivista, quando nao biologico, surpreende o pessimismo escatologico; assim como o nivel biologico material se enfraquece diante do nivel metafisico. Bem se ve que nenhum dos elementos supera o seu contrario; antes tudo permanece no 'paradoxo', quer dizer, numa via ao lado e a margem da doxa cientificista.

Embora transite por entre foros metafisicos, o tema ao mesmo tempo sofre influencia do cientificismo, que e profundamente materialista se se pensar no darwinismo. Desse modo, oscila entre a metafisica ambigua, paradoxal, pessimista-otimista e a reducao da condicao humana a equacoes racionalistas como a) a origem unicamente bioescalonar do homem ("venho [...] do cosmopolitismo das moneras"); b) o evolucionismo levado ao extremo a ponto de explicar o mundo do inerte para o ser vivente ("Eu, filho do carbono e do amoniaco") ou c) a sucessao de fatos enquanto necessariamente purgativa e propedeutica, instrumento da consciencia humana para sua constante ascese, aperfeicoamento e progressao ('Que o homem universal de amanha venca/o homem particular que ontem fui').

Quando a metafisica e acionada, acontece a transgressao dos paradigmas cientificistas, em consequencia do descompasso entre a lexicografia e o 'tratamento' do tema. Tal percepcao imediatamente diz que Augusto dos Anjos detinha uma altissima consciencia de autor, pois subverte o lexico medico e biologico com a questao metafisica que 'acabrunha' sua poesia.

A tematica do poema, portanto, e incongruente a lexicografia, emulando a aparicao da 'rasura' no choque entre metafisica e espiritualismo de um lado e, de outro, cientificismo e materialismo, choque este em que as palavras sempre estarao desajustadas pela impossibilidade de conciliar o antagonismo significante-significado e, por isso mesmo, de acionar, em termos linguisticos, dois paradigmas conflitantes, ainda que atraves das mesmas palavras. Dessa maneira, a poetica do Eu habita o caos nascente, que nao linda organizacao. Uma nova maneira de visualizar o 'entrelugar' e o paradoxo, na unicidade que todo sistema, mesmo o antagonico, mesmo o caotico, adquire: a monada universal de Leibniz, o Deus de Spinoza, o Ser de Heidegger. A riqueza dessa poesia esta justamente em descobrir outras categorias, tematicas e feicoes 'por tras' do cientificismo biologico que facil e incompletamente transparece. Essa visao so se justifica na percepcao do 'humornegro' na poetica do Eu, ao se desmantelarem as convencoes liricas e os referenciais cientificistas (na epoca prestigiados). Desse modo, uma forte ironia e flagrada, evidentemente cifrada na desconstrucao antilirica, por onde o 'grotesco', como imagistica ironica, surgiria com o exagero na desfiguracao: a caricatura. Isso e verdade, mas constitui apenas uma gota no imenso oceano do Eu, cuja ambiencia patologica ou putrefata inviabiliza a claridade, harmonia e sublimidade do art nouveau. Este e outro 'entrelugar', pois o oceano so e por a gota ser tambem.

Assim, o tom de originalidade transborda nessa tensao de conteudos, que dimensiona o Eu no 'entrelugar'. Engana-se quem leva a serio a metafisica na obra de Augusto dos Anjos: ela adquire um carater essencialmente cafona, pois, embora responsavel pela forca da linguagem que traz o impreciso, vago e vazio, muitas vezes inefavel e infinito, depara constantemente com a estrutura e o lexico do cientificismo (caracterizadamente materialista), resultando um desajuste entre o problema escatologico e a terminologia evolucionista. Aqui e o encontro das aguas, o choque, a colisao, donde nasce o vigor poetico: trata-se da fonte do paradoxo. O apelo da poesia augusto-anjiana, enquanto linguagem 'pro-vocadora', e o envio do 'con-vocar' a questao da origem, fundamento do homem. E, no desenho cientificista, a experiencia humana e originaria de uma vida inferior, numa linear progressao para a apoteose. Dando a esse pensamento um vigor poetico, o Eu 'plasma' o enigma do 'antes' e do 'depois' da vida, o lancamento do e o retorno ao 'originario'. Assim, a morte como retorno ao grande Nada encontra na putrefacao e na degenerescencia o preambulo desse rito de passagem, cuja apoteose se firma no operar do milagre: voltar a ser o que era e se instalar como sera. Portanto, a obra Eu ultraja o cientificismo biologico (estrutura) ao rasura-lo como expectativa de justificacao e ilustracao (representacao) de uma metafisica transcendental. O corpo ali esta--e o lexico evolucionista--, mas esta morto e sobre sua caveira se decompoe um mundo em 'ruinas'. A poetica augusto-anjiana tem, portanto, dimensao de alegoria, cuja facies hippocratica e veladamente denunciar os destrocos de uma doutrina cientifica malograda e por eles intuir e esbocar o 'originario' como misterio do retorno a vida apos a morte. Como se da esse retorno? Ao retornar, como se da a experiencia? A obra de Augusto dos Anjos diz aquela profundidade inominavel do ser, da qual o ente se manifesta: a 'autoridade' do homem, pela qual ele se constitui no pro-jeto do ser, apropriando-se do que lhe e inominavelmente proprio. Assim, o Eu 'fala', e nao so usa a lingua.

Talvez o numero 'um' (numero da reuniao) seja a in-sistencia da poetica do Eu. Por um estilo 'unico', a obra e apenas 'um' livro resumido em palavra 'uma' que lhe serve de titulo monossilabico: Eu. Alias, no bojo do cientificismo (gramatica, lexico e estrutura), esse monismo tambem se plasmou em sua cosmogonia, subvertendo, na busca metafisica, os signos para o indagar (verbo-carne) da 'cosmo-agonia'. Como toda questao, obtem como resposta um redimensionamento, que pela linguagem poetica ganha uma representacao ficcional, isto e, uma 're(a)presentacao' no seu proprio bojo--a 'imagemquestao', como se le logo no primeiro poema:

   Na existencia social, possuo uma arma
   --O metafisicismo de Abidarma--
   E trago sem bramanicas tesouras,
   Como um dorso de azemola passiva,
   A solidariedade subjetiva
   De todas as especies sofredoras (ANJOS, 1994, p. 195).


E claro que essa existencia social, para um lancamento na experiencia da origem e da formacao--das coisas, dos seres e do universo--, se confunde com a metafisica (cosmologia/ontologia), recolocada, como visto, no proprio racionalismo biologico, materialismo cientifico ('azemola passiva', 'especies sofredoras'); este, ultrajado pelo 'para-doxo': 'o metaficismo de Abidarma'--a arma que desestabiliza o evolucionismo, que esta em nivel de superficie textual. Nesse univeralismo austero, tudo sou eu, e eu sou tudo; porque, afinal de contas, o carbono, o amoniaco, a sombra, o animal, o humano a mim pertencem, mas de la vim: eu sou o universo, e o universo sou eu--o alfa-omega, o inicio e o fim, vida e morte: logos primordial. Age por isso, no vigor da linguagem poetica, o apelo para o humano: a sede de justica, a solidariedade com os sofredores, a 'con-vocacao' do grito dos oprimidos--no verbo do 'porta-voz lirico'. Novamente redimensionado, o 'entre-lugar' de 'voce' (verbo), vocacao (destino, linguagem se fazendo) e convocacao (apelo), e experiencia do ser, em fusao animica, atraves da mesma dor das "especies sofredoras": "Jamais exprimiria o acerrimo asco / Que os canalhas do mundo me provocam!" (ANJOS, 1994, p. 214); "Na canonizacao emocionante, / Da dor humana, sou maior que Dante" (ANJOS, 1994, p. 333). Na assimilacao solidaria da dor humana, o 'territorio-intimo' se contamina pelos augurios, dando nova fisionomia ao mundo interior. Essa transformacao interna e traduzida poeticamente num soneto, cujo titulo diz muito com uma palavra.

   Vandalismo

   Meu coracao tem catedrais imensas,
   Templos de priscas e longinquas datas,
   Onde um nume de amor, em serenatas,
   Canta a aleluia virginal das crencas.

   Na ogiva fulgida e nas colunatas
   Vertem lustrais irradiacoes intensas
   Cintilacoes de lampadas suspensas
   E as ametistas e os floroes e as pratas.

   Como os velhos Templarios medievais
   Entrei um dia nessas catedrais
   E nestes templos claros e risonhos ...

   E erguendo os gladios e brandindo as hastas,
   No desespero dos iconoclastas
   Quebrei a imagem dos meus proprios sonhos!
   (ANJOS, 1994, p. 279).


Vandalismo e mais uma morte do simbolismo do que sua manifestacao, pela opcao cientificista em detrimento da misticista, pela destruicao das imagens, pelo assassinio dos sonhos. Interessante perceber que existe, de fato, como apontou Lucia Helena (1977), uma organizacao conscienciosa dos poemas, compondo uma obra autorreflexiva, portanto. Note-se que o famoso poema Versos Intimos aparece em seguida, interligando-se, pelo tema, ao Vandalismo. Comentando a morte de seus sonhos, o 'eu-lirico' assim inicia um autodialogo:

   Versos Intimos

   Ves! Ninguem assistiu ao formidavel
   Enterro de sua ultima quimera.
   Somente a Ingratidao--esta pantera--
   Foi tua companheira inseparavel!

   Acostuma-te a lama que te espera!
   O Homem, que, nesta terra miseravel,
   Mora entre feras, sente inevitavel
   Necessidade de tambem ser fera.

   Toma um fosforo. Acende teu cigarro!
   O beijo, amigo, e a vespera do escarro,
   A mao que afaga e a mesma que apedreja.

   Se a alguem causa inda pena a tua chaga,
   Apedreja essa mao vil que te afaga,
   Escarra nessa boca que te beija! (ANJOS, 1994, p. 280).


O poema reitera a interdicao do sentimento. Alguma magoa intensa tomou conta do ser. A recusa de um final feliz extrapola a dimensao individual e aparece como fatalismo profetico, alertando que 'acostuma-te a lama que te espera!' e 'o beijo, amigo, e a vespera do escarro'. A felicidade, portanto, se existe para esse ser magoado, nao esta no sentimento, muito menos no sentimento amoroso, nem mesmo o consolo dos outros acontece; pelo contrario, ha um desprezo completo entre os envolvidos, ou uma extrema indiferenca dos alheios. A reclusao em si e tacitamente entendida como melhor opcao frente as amarguras dessa desumanidade: "se a alguem causa ainda pena a tua chaga, / apedreja esta mao vil que te afaga". Por isso, sob este angulo de visao, a austeridade de uma reprimenda autopunitiva ('essa mao vil que te afaga') e a 'companheira inseparavel'. Quer dizer, a propria 'Ingratidao--esta pantera'--esta autorrefletida no sujeito amargurado que tende a repelir a mao que afaga (unico consolo de si para si), pois e a mesma que apedreja (autocensoria, autopunitiva, autorreflexiva).

Seria, entao, o avesso do Simbolismo? Talvez, mas e certo que a timia augusto-ajiana e inversamente proporcional a do simbolista.

O interesse de Augusto dos Anjos, parece, e chocar e agredir o leitor: um poeta que, consciente, escolhe a desestruturacao nao pode esperar uma admiracao platonica e romantica de seu publico: na verdade, ja escreve conscio de construir identidade com um publico cansado da costumeira ladainha amorosa no lirismo tradicional:

   Idealismo

   Falas de amor, e eu ouco tudo e calo!
   O amor na Humanidade e uma mentira.
   E. E e por isto que na minha lira
   De amores futeis poucas vezes falo.

   O amor! Quando virei por fim a ama-lo?!
   Quando, se o amor que a Humanidade inspira
   E o amor do sibarita e da hetaira,
   De Messalina e de Sardanapalo?!

   Pois e mister que, para o amor sagrado,
   O mundo fique imaterializado
   --Alavanca desviada do seu fulcro--
   E haja so amizade verdadeira

   Duma caveira para outra caveira,
   Do meu sepulcro para o teu sepulcro? (ANJOS, 1994, p. 279).


A pergunta nao e desafiadora, apenas pede a confirmacao do leitor: e mister realmente que se morra para experimentar tanto a amizade verdadeira quanto o amor sincero--eis que o poeta argumenta e justifica sua antilira.

E chegado o momento de recapitular os primeiros apontamentos sobre a 'rasura', o 'grotesco' e o 'paradoxo'. Porque, no envio da destruicao do sistema, esta a degluticao dos microbios e vermes; no envio do verbo-voz solidario, esta o grito dos oprimidos. Em outras palavras, a unicidade cosmoagonica do Eu funde, na sua amplidao, o agir do sujeito e dos 'seres inferiores' como o unico agir do 'eu-lirico'. Na aparicao dos seres prodromicos, da-se o homem enquanto possibilidade do ser: o universo poetico e 're-(a)presentacao' ficcional da relacao sujeito-entorno, como metafora mundificada. Isto da a sua obra uma dimensao ontologica e cosmologica representada na dimensao poetica: os seres simplorios, principalmente no tocante a sua degluticao, mensuram o 'porta-voz lirico', que igualmente os mensura. As qualidades dos biotipos simples aparecem travestidas de uma explicitacao do horrivel e pavoroso no ser humano.

Sendo a poesia arte expressa e manifesta pela linguagem verbal, cabe ressaltar, na obra de Augusto dos Anjos, o trabalho com a lingua que, a servico do pensar, se abre para o acontecer poetico, a obra de arte --e so por isto ha tensao entre forma (cientificismo) e conteudo (metafisica). Assim, apresenta periodos longos com fortes inversoes, hiperbatos e sinqueses, utilizados como facilitadores da desestruturacao, levada a cabo pela rasura, pelo grotesco, pelo paradoxo. Quanto as fontes artisticas, ha mencoes a Esquilo, Camoes, Dante, Rebrandt, Goethe etc. No plano significativo, a obra, esporadicamente, se alimenta de varias bases filosoficas de todos os tempos e lugares, privilegiadas como interferencia desafiadora da coerencia do cientificismo, estrutura em 'ruinas' e corpo putrefato. Verifica-se, desse modo, a presenca de orientalismos, exotismos e politeismos, a exemplo de livros sagrados: Phtah-Hotep, Rig-Veda, Biblia e Alcorao. Percebe-se, tambem, um pensamento filosofico influenciado por nomes como Abidarma, Anaximandro de Mileto, Spencer, Darwin, Haeckel, Schopenhauer etc. Isso o 'eu-lirico' transmite por estes versos:

   Agonia de um Filosofo

   Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
   Rig-Veda. E, ante obras tais, me nao consolo ...
   O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
   Com a eolica furia do harmata inquieto.

   Assisto agora a morte de um inseto! ...
   Ah! todos os fenomenos do solo
   Parecem realizar de polo a polo
   O ideal de Anaximandro de Mileto!

   No hieratico areopago heterogeneo
   Das ideias, percorro, como um genio,
   Desde a alma de Haeckel a alma cenobial! ...

   Rasgo dos mundos o velario espesso;
   E em tudo, igual a Goethe, reconheco
   O imperio da 'substancia universal'! (ANJOS,
   1994, p. 201, grifo do autor).


Essa 'substancia universal' aparece no poema anterior apontando uma reiteracao imagistica:

   Monologo de uma Sombra

   Sou uma sombra! Venho de outras eras,
   Do cosmopolitismo das moneras ...
   Polipo de reconditas reentrancias,
   Larva de caos telurico, procedo
   Da escuridao do cosmico segredo,
   Da substancia de todas as substancias! (ANJOS, 1994, p. 195)


Esses versos iniciam o poema-portico da obra, que antecede a Agonia de Filosofo e esclarece, desde o principio, o significado do Eu. Tal origem do sujeito, a 'substancia de todas as substancias', recorre a instancias ontologicas e cosmologicas--o individuo se afirma a propria criacao de todas as coisas--e sinaliza uma onipresenca de inspiracoes misticas e aspiracoes cientificas (mais biologicas). Por outro lado, ele se compara aos seres mais primitivos, fomentando impressoes de estaticidade e de movimento, que guardam uma sutil oposicao: a primeira forma um paradigma do estatico (seres que nao se movem ou o fazem com extrema dificuldade), enquanto a segunda organiza um paradigma do movel (caracteres dinamicos e voluveis).

Contudo, essa dialetica convive na mais profunda harmonia: nao ha choque e, na verdade, polos contrarios se atraem:

Na verdade, um espelho que pretende igualar (a criacao do) homem e (a criacao do) universo. O homem emana dos nomes concretos ou visiveis; enquanto o universo, dos nomes abstratos ou invisiveis. Mas o que e visto e sempre escuro e o nao visto supoese escuro tambem, entremesclando os dois paradigmas. Pelo lado representativo, as imagens convergem pela definicao ampla de substancia, ou seja, os dois ultimos versos cuidam em assegurar a alquimia necessaria para a conjuncao.

Substancia, na verdade, e o termo que iguala os dois extremos (homem e universo) que estao ligados pela imagem da escuridao. A eleicao da sombra como mais importante do que o universo revela que o 'eu-lirico' assume uma postura egocentrica: e 'a substancia de todas as substancias'.

Ainda nao se fez o dia, mas, diferentemente da Biblia, a distincao dos seres nao depende da luz, nem muito menos sao criados pelo Divino Artifice: ja sao 'dados em existencia' do 'caos telurico'. Essa concepcao de que os seres sao elementos simultaneamente existentes e pre-estabelecidos, incorporada ao egocentrismo, inicia a segunda estrofe do poema:

   A simbiose das coisas me equilibra.
   Em minha ignota monada, ampla, vibra
   A alma dos movimentos rotatorios ...
   E e de mim que decorrem, simultaneas,
   A saude das forcas subterraneas
   E a morbidez dos seres ilusorios! (ANJOS, 1994, p. 195).


Essa sombria monada leibniziana traduz, como imagem poetica, a vigencia do 'Uno', quer dizer da unicidade, como apelo de integracao sistemica para advir 'a substancia de todas as substancias', a fusao animica que amalgama a voz lirica e 'a morbidez dos seres ilusorios' no envio da rasura e do paradoxo--isto e, o proprio Eu, o 'Uno' mundificado no poema-obra. Nesse sentido, ha uma ambiguidade quanto a caracterizacao da sombra, a 'ignota monada'. Na primeira estrofe do poema, ela e 'larva de caos telurico', a 'escuridao do cosmico segredo'. Note-se que a sombra se confunde com seu originario, porem, enquanto larva (animal ou derrame?), ja nasce como 'forma' distinta da massa informe originaria, o caos telurico. Este e o obscuro heraclitiano donde o ser nasce: e o grande nada que precede a vida e a morte (o ser). Fundacao de tudo, repousa como poco do qual todas as oncas bebem agua, inclusive o homem, que 'sente, inevitavel / necessidade de tambem ser fera' (Versos Intimos). Autodeterminando-se como originaria, a sombra, na segunda estrofe, reclama para si o principio vital, a identidade do nada gerador.

Na obra angusto-anjiana, a nocao de vida parece estar ligada a movimento, especialmente o de organismos prodromicos, pois se movem minimamente. Parte dessa premissa pode ser comprovada ao enxergar a originariedade do caos cosmogonico no polipo e secundariamente na larva: o primeiro (quase) nao se movimenta; o segundo o faz com dificuldade. Os movimentos rotatorios confundem ainda mais esses seres praticamente acefalos, porem ao mesmo tempo trazem uma provavel evolucao das coisas. O 'eu-lirico' governa esse caos, pois nele mesmo vibra a alma desse movimento, gerindo a unicidade do sistema.

O antagonismo fundante do Eu--entre materia e evanescencia; cientificismo e metafisica; otimismo e pessimismo--vai ganhando, na obra de arte que ele mesmo e--cada vez mais forca e representatividade. Os pares sintagmaticos, vigentes como signos artisticos, trazem implicita uma antitese. Sao figuras hibridas que expressam, num amalgama, o antagonismo: a) sombra de outras eras; b) cosmopolitismo das moneras; c) polipo de reentrancias e d) larva de caos telurico. A sombra e elemento evanescente, enquanto as eras sao concretas, sobrepostas no mundo material. Cosmopolitismo e abstrato, mas esta atribuido a monera, ente palpavel. O polipo se alterna com reentrancias: o que os poe em conflito? Reentrancias, desde a raiz etimologica, traz o sentido de mobilidade; mas o polipo e sedimentado, quase nao se move. Interessante perceber que a monera tambem quase nao se move, quando muito e levada pela agua, pelo vento, pelo contato plasmatico. Mais interessante ainda e a correlacao entre cosmopolitismo e reentrancia, ambos dotados da ideia de movimento, agitacao.

Os elementos 'forcas subterraneas' e 'seres ilusorios' sao mais complexos. A saude dos primeiros carrega uma ideia antitetica: as forcas subterraneas pertencem ao paradigma da doenca, pois infestam o corpo-cadaver de patologia, funcionando como agentes decompositores. Por isso, a morbidez dos segundos tambem deve cumprir uma funcao antitetica, pois a ordem das qualidades esta em relacao inversa a ordem dos seres, donde ocorre um quiasmo semantico:

No nivel estrutural, conserva-se a antitese (expressa nos diferentes sintagmas), mas no nivel semantico, prevalece a tendencia de unicidade paradoxal, reunindo as coisas pelo que possuem em comum: o caos telurico, o nada gerador, o originario. Isto acaba conformando a antitese numa atmosfera ontologica de tensao, donde surgira o verbum de criacao. Como narrativa desse momento cosmogonico, o universo poetico apresenta seres de carater prodromicos como passagem da materia inerte para a monera, isto e, a vida que esta no envio do que nao e vida, pois do nada ela surge.

Como se ve, o poema tem sua significancia propria, mas esta nao anula a conformacao do poema a um sentido integrado da obra como um todo: mistura a negritude das formas etereas e a suscetibilidade das formas concretas na mesma tensao material X espiritual, cientificismo X metafisica, presente em toda a obra. Nao podendo escapar dessa egide do sombrio, que metaforiza poeticamente o misterio originario, o Eu se articula no pessimismo, na imperfeicao e na patologia do humano, em niveis cosmogonicos e escatologicos. O flagrante da degenerescencia do homem encontra correspondentes imagisticos na podridao, na insalubridade e nos excrementos dos seres prodromicos, localizados na germinacao da vida, a partir do nada (caos telurico, escuridao do segredo).

Nessa linha escatologica de ressaltar o nojo-pustola, Os Doentes sao aldeaos entregues a todo tipo de patologia, mostrando ate que ponto pode chegar a insalubridade humana.

   Os Doentes (I)

   Como uma cascavel que se enroscava,
   A cidade dos lazaros dormia ...
   Somente, na mettropole vazia,
   Minha cabeca autonoma pensava!
   Mordia-me a obsessao ma de que havia
   Sob os meus pes, na terra onde eu pisava,
   Um figado doente que sangrava
   E uma garganta de orfa que gemia!

   Tentava compreender com as conceptivas
   Funcoes do encefalo as substancias vivas
   Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam ...

   E via em mim, coberto de desgracas,
   O resultado de bilhoes de racas
   Que ha muitos anos desapareceram!(ANJOS, 1994, p. 236).


Como se pode pressentir, na obra nao ha diferenca entre patogenese fisica e social: o corpo do Eu metaforiza, na mimesis de seu 'territorio-intimo', a humanidade que definha pelo signo geral da 'doenca': as enfermidades e os disturbios sociais, implicando-se mutuamente. Tal configuracao imagistica, o corpo infecto, se observado na articulacao de linguagem, sofre, enquanto estrutura logico-padronizada da ciencia medica, a corrosao por frases bombasticas, responsaveis pela sua putrefacao: "Caiam sobre os meus centros nervosos [...]"; "A queixada especifica de um burro [...]" (ANJOS, 1994, p. 236-237)--engrossando o texto de inadequacoes propositais, no intuito de plasmar o 'mau gosto'. Nao deve ser vista como incidental a insistente reiteracao dessas frases mirabolantes, mas como um procedimento consciente do autor, segundo confirma o poema a seguir:

   Minha Finalidade

   Turbilhao teleologico incoercivel,
   Que forca alguma inibitoria acalma,
   Levou-me o cranio e pos-lhe dentro a palma
   Dos que amam apreender o Inapreensivel!

   Predeterminacao imprescritivel
   Oriunda da infra-astral Substancia calma
   Plasmou, aparelhou, talhou minha alma
   Para cantar de preferencia o Horrivel!

   Na canonizacao emocionante
   Da dor humana, sou maior que Dante,
   --A aguia dos latifundios florentinos!

   Sistematizo, solucando, o Inferno ...
   E trago em mim, num sincronismo eterno,
   A formula de todos os destinos! (ANJOS, 1994, p. 333).


E pelo esquecido reino subterraneo dos organismos decompositores que o misterio da vida transita; misterio que nao se esconde no carater antropofagico, mas no antropocentrico, pois, na monada solidaria e absoluta, todas as especies, mormente as sofredoras, encontrarao sua redencao. Esta e a essencia do 'entrelugar' da poesia de Augusto dos Anjos: ambiguidade entre cientificismo materialista e metafisica espiritualista--materia e forca transcendente.

Evidentemente, esse carater desperta no leitor o sentimento de nojo acerca do horrivel concebido por Augusto dos Anjos:

   O Deus-Verme

   Fator universal do transformismo,
   Filho da teleologica materia,
   Na superabundancia ou na miseria,
   Verme--e teu nome obscuro de batismo.

   Jamais emprega o acerrimo exorcismo
   Em sua diaria ocupacao funerea,
   E vive em contubernio com a bacteria,
   Livre das roupas do antropomorfismo.

   Almoca a podridao das drupas agras,
   Janta hidropicos, roi visceras magras
   E dos defuntos novos incha a mao ...

   Ah! Para ele e que a carne podre fica,
   E no inventario da materia rica
   Cabe aos filhos a maior porcao! (ANJOS, 1994, p. 209).


O soneto, com expressividade notavel, apresenta a maioria dos idearios da poesia de Augusto dos Anjos. O objeto de contemplacao nao e a mulher, musa inefavel, mas o verme, elevado a posicao de deus. O poema assinala as vantagens de ser um verme: e ele quem transforma as coisas; e filho direto da formacao do mundo (cosmogonia); vive na ojeriza ou na pobreza. O verme nao se preocupa com sua (assassina) funcao decompositora e vive em disputa com a bacteria. A vantagem em relacao aos homens e estar livre da condicao humana: aqui, um novo apoio ao pessimismo.

Numa reflexao mais detida, o poema traz um protesto contra a humanidade, porque, por tras da aparente nojeira, o verme nao comete as atrocidades praticadas pelo homem: cobica, usura, homicidios, demagogias etc.--apenas cumpre seu destino, sua missao. O desfecho do poema traz a solidariedade: o verme se preocupa com seus filhos (o pacto de geracoes ausente no homem, o antropofagico), o que o homem, para o 'eu-lirico', nao parece zelar ('haja so amizade duma caveira para outra caveira?')

Esta correlacao imagistica, determinando uma aproximacao semantica de degenerescencia e podridao, e uma das maneiras de expressar a integracao entre homem e agentes patologicos, num universo poetico que funde todas essas epifanias como 're-(a)presentacao' da unicidade delatora da 'ruina' sobre cujos destrocos (cadaver) se apresenta a desestruturacao do cientificismo (apodrecimento) pela forca metafisica (vigor da linguagem poetica). Diante da facies hippocratica, a pavorosa caveira, talvez se escute o apelo para a ascese: 'que o homem universal amanha venca/ O homem particular que eu ontem fui'.

Consideracoes finais

Destacamos na obra poetica de Augusto dos Anjos cinco entrelugares que assinalam a dissolucao do Eu no espaco poetico, em perfeita identidade:

--Entrelugar do enquadramento historiografico: a poetica de Augusto dos Anjos se afirma de maneira autonoma, visto que, por um lado, a metrificacao a aproxima das convencoes passadistas (classicas e oitocentistas), afastando-a do Modernismo, mas, por outro lado, o campo semantico a aproxima do Modernismo, afastando-a dos classicos e oitocentistas.

--Entrelugar das parcerias esteticas: certos ensaistas propuseram vincular a poetica de Augusto dos Anjos a estilos e escolas internacionais, a exemplo do art nouveau (Jose Paulo Paes) e do expressionismo alemao (Anatol Rosenfeld). Se por um lado desperta a curiosidade e abre caminhos reflexivos para melhor debate, essas pretensas conexoes se fragilizam pela ausencia de indicios biograficos que evidenciem se Augusto dos Anjos conhecia esses movimentos poeticos estrangeiros, restando entregar ao acaso a coincidencia estilistica.

--Entrelugar da estetica fragmentaria: variegados sintomas de diversas escolas literarias comparecem esporadicamente na obra de Augusto dos Anjos. Isoladamente, um poema pode trazer caracteristica de um estilo literario inusitado. O recorte imposto, como advertiu Sergio Gesteira, estara a servico de destacar o estilo mais interessante para o critico e pode induzir o leitor a considerar a totalidade da poesia augusto-anjiana como pertencente ao estilo ressaltado em poucos e raros poemas. Em sintese, a multiplicidade de estilos literarios ocasionais deve ser observada, assim como prevalencia de um estilo literario mais recorrente: decadentismo.

--Entrelugar da tensao forma-conteudo: embora transpareca uma forma rigida nos moldes metrificados, o campo semantico, inclinado a modernidade,--escatologia, podridao, verme, doenca--e extremamente alheio aos padroes classicos--amor, devocao, bonomia --aproximando-se de uma estrutura aparentemente romantica, ao conciliar metrificacao das formas fixas com temas grotescos. Em sintese, percebe-se um involucro classicizante para categorias negativas, num inesperado dialogo.

--Entrelugar das fisionomias contraditorias: a ambiguidade ou ambivalencia se mostra cada vez mais o fundamento da obra augusto-anjiana. Numa especie de "evolucionismo as avessas", ja assinalado, mas nao explicado por Jose Paulo Paes, o pessimismo vigente no campo semantico corroi a estrutura otimista do evolucionismo, de modo que uma gramatica de superficie sofre o principio-corrosao (rasura), resultando a carne da ruina ou o corpo putrefato em meio ao festejo da degluticao decompositora. Observado de outro angulo, essa ambiguidade e a parte semantica do paradoxo que se afirma essencia da obra de Augusto dos Anjos. O conteudo contrasta com o vocabulario, traduzindo o desajuste entre metafisica transcendental e cientificismo biologico. Esse contraste visto em si mesmo, e uma unidade dialetica, cifrada no titulo do livro: Eu, 'uma' palavra monossilabica para a 'unica' obra.

Outras conclusoes possuem igual relevancia:

--O 'eu-lirico' como porta-voz dos oprimidos, o que gera uma reacao impropria, porem factual, de identificacao entre publico leitor e autor.

--O vasto conhecimento enciclopedico demonstrado no vocabulario, especialmente as referencias ao Oriente e a culturas antigas ou remotas.

--A estrutura metalinguistica que amalgama o verbo como materia literaria (vox) e simbolo criacionista (fiat lux), relacionando poesia e poiesis, representacao e cosmogonia.

--O mau gosto, a nausea e o nojo que lhe renderam a alcunha de 'Poeta do Horrivel'.

--A deflagracao do definhamento da humanidade na metafora do individuo com seu corpo putrefato.

Doi: 10.4025/actascilangcult.v36i1.17310

Referencias

ANJOS, A. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Aguilar, 1994.

ARGAN, G. C. Arte e critica de arte. Lisboa: Estampa, 1995.

BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1973.

GESTEIRA, S. M. A carne da ruina: sobre a representacao do excesso em Augusto dos Anjos. Joao Pessoa: UFPB; Sao Luis: UFMA, 2000.

HELENA, L. A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977.

PAES, J. O art nouveau na literatura brasileira; Augusto dos Anjos e o art nouveau; do particular ao universal. In: PAES, J. (Ed.). Gregos e baianos. Sao Paulo: Brasiliense, 1985.

PEREIRA, J. S. C. Decadentismo e simbolismo na poesia portuguesa. Coimbra: Centro de Estudos Romanicos, 1975.

PROENCA, M. C. O artesanato em Augusto dos Anjos. In: PROENCA, M. C. (Ed.). Augusto dos Anjos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Grifo, 1973.

Received on May 20, 2012.

Accepted on October 8, 2013.

Camillo Cavalcanti

Departamento de Estudos Linguisticos e Literarios, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Estrada do Bem Querer, km 4, 45083-900, Vitoria da Conquista, Bahia, Brasil. E-mail: camillo.cavalcanti@gmail.com
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Author:Cavalcanti, Camillo
Publication:Acta Scientiarum. Language and Culture (UEM)
Date:Jan 1, 2014
Words:6692
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