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Impressoes de 1968: contracultura e identidades.

Introducao

Para parafrasear Zuenir Ventura, 1968 foi "o ano que nao terminou". Historiadores, filosofos, sociologos e intelectuais continuam desenvolvendo analises para tracar as "causas" e "efeitos" dos acontecimentos desse ano que se constituiu, verdadeiramente, como um marco na historia mundial.

Falar dos acontecimentos de 1968 implica, sem exagero, recuperar um panorama de historia mundial, pois eles "aconteceram" em Paris, Praga, nos Estados Unidos, Brasil, Mexico, envolveram a Uniao Sovietica, Cuba, China, Vietna, e estenderam-se por diversos paises, sendo que seu alcance dificilmente sera precisado.

Enfrentamentos com a policia, "guerrilhas" urbanas e rurais, revolucoes comportamentais, surgimento da contracultura, revolucoes nas artes, expansao da industria cultural, eclosao dos movimentos sociais: estudantis, feministas, ambientais; uso de drogas, popularizacao da psicanalise, uso de anticoncepcionais e a revolucao sexual marcaram a historia de incontaveis paises. Seu significado historico, filosofico e sociologico dificilmente sera univoco, como explicita Jameson (1991, p. 86):
   O processo pode ser e tem sido descrito de varias maneiras, cada
   qual implicando uma determinada "visao da historia" e uma leitura
   tematica propria e exclusiva dos anos 60. Pode ser encarado como um
   capitulo completo e decisivo da concepcao crociana da historia como
   historia da liberdade humana; ou entendido como um processo mais
   classicamente hegeliano da conquista da autoconsciencia de si pelos
   povos oprimidos; ou explicado com base em uma concepcao da esquerda
   pos-luckacsiana, ou mais marcusiana da emergencia de novos
   "sujeitos da historia" que nao sao uma classe (negros, povos do
   Terceiro Mundo); ou finalmente esclarecido por alguma nocao
   pos-estruturalista, de inspiracao foucaultiana [...] da conquista
   do direito de falar com uma nova voz coletiva, nunca antes ouvida
   nos palcos do mundo, e da concomitante supressao dos intermediarios
   [liberais, intelectuais do Primeiro Mundo] que ate aquele momento
   se davam o direito de falar em seu nome; isto tudo sem esquecer a
   retorica propriamente politica da autodeterminacao ou da
   independencia, ou ainda aquela outra, mais psicologica e cultural,
   das novas "identidades" coletivas.


Desta "nebulosa teorica" cujos "efeitos historicos" necessariamente se relacionam, iremos destacar um dos pontos de vista, que nos parece particularmente mais influente e determinante: a emergencia de novas identidades coletivas, ou de novos sujeitos da Historia.

A emergencia da contracultura e a explosao das identidades

Segundo Jameson (1991, p. 86) e essencial "[...] relacionar o surgimento dessas novas categorias sociais e politicas [o colonizado, a raca, a marginalidade, o genero e similares] a algo como uma crise daquela categoria mais uniforme que mais entao parecia subsumir todas as variedades de resistencia social, qual seja, a concepcao classica da classe social". Mas o autor destaca que esta relacao deveria ser entendida em sentido institucional e nao intelectual, ou seja, ao inves de supor uma crise da ideia abstrata de classe social ou da concepcao marxista de luta de classes como responsavel pela emergencia destas novas forcas sociais, "o que se pode notar e uma crise das instituicoes atraves das quais uma real politica de classe conseguira, embora imperfeitamente, se expressar" (JAMESON, 1991, p. 86).

Esta questao parece ser o pano de fundo do texto autobiografico que Eric Hobsbawm destina aos anos 60 em seu livro Tempos Interessantes: particularmente quando menciona sua visao pessoal dos fatos: "Para os esquerdistas de meia-idade como eu, maio de 1968, e na verdade, toda a decada de 1960 foram tempos extraordinariamente bem-vindos e extraordinariamente desconcertantes" (HOBSBAWM, 2002, p. 277).

Naturalmente, nos todos fomos apanhados por essas grandes lutas globais. Na decada de 60 o Terceiro Mundo trouxera de volta ao Primeiro a esperanca da revolucao. As duas grandes inspiracoes internacionais eram Cuba e o Vietna, triunfos nao apenas da revolucao, mas de Davis contra Golias, do fraco contra o todo-poderoso. "Guerrilha", palavra emblematica da epoca, tornou-se a chave quintessencial da mudanca do mundo. Os revolucionarios de Fidel Castro, reconheciveis como herdeiros de 1848 por sua juventude, seus cabelos longos, barbas e retorica -- pensemos na famosa imagem de Che Guevara -, quase poderiam ter sido projetados para ser simbolos mundiais de uma nova era de romantismo politico [...] Mais do que qualquer outra coisa, na decada de 1960 a grandeza, o heroismo e a tragedia da luta vietnamita emocionaram e mobilizaram a esquerda de lingua inglesa e reuniram suas duas geracoes e quase todas as suas seitas, que viviam em disputas (HOBSBAWM, 2002, p. 282-283).

Porem, se a Revolucao Cubana de 1959 e a resistencia vietcong frente a investida imperialista americana foram icones representativos para a construcao de um novo mundo, a divulgacao dos crimes de Stalin (desde 1956), bem como manifestacoes de autoritarismo, totalitarismo e personalismo nas experiencias chinesas, cubanas e sovieticas e indicios de crise economica do bloco comunista desencadearam uma critica, no mundo todo, das instituicoes comunistas. As teorias, as pessoas, os comportamentos, enfim, o mundo apresentava-se de forma polarizada, dicotomica, ordenado pela Guerra Fria.

Deste embate surgiram as forcas fundamentais para o que se concebeu como "maio de 1968". Eric Hobsbawm relaciona suas experiencias e visao de mundo com aquela dos jovens rebeldes, identificando suas principais divergencias que faziam com que apesar de "usar o mesmo vocabulario, [...] nao pareciamos falar a mesma lingua. Mais do que isso, ainda que participassemos dos mesmos acontecimentos [...] nao sentiamos o mesmo que eles" (HOBSBAWM, 2002, p. 277). A principal divergencia passou a ser percebida na ausencia, por parte dos jovens insurgentes, de um projeto politico central e mobilizador, voltado a mudancas ou substituicao do regime politico:

No entanto, seja o que for que levou aqueles jovens as ruas, nao era esse seu objetivo [...] nao seria realmente possivel ver utopia na antinomia geral de slogans como "E proibido proibir", que provavelmente se aproximava do que sentiam os jovens rebeldes -- tanto em relacao ao governo, como em relacao aos professores, aos pais ou ao universo. Na verdade, nao pareciam estar muito interessados num ideal social, comunista ou de outro tipo, distinto do ideal individualista de livrar-se de tudo o que se arrogasse o direito e o poder de impedir-nos de fazer o que nosso ego ou id desejasse fazer (HOBSBAWM, 2002, p. 277-278).

Neste contexto, portanto, e que a formula "o pessoal e politico" se estabeleceu com toda sua representatividade, conforme salienta Heloisa Buarque de Hollanda, ao analisar o contexto nacional, mas apresentando, de forma sintetica, um contexto comum: "A contracultura, o desbunde, o rock, o underground, as drogas e mesmo a psicanalise passam a incentivar uma recusa acentuada pelo projeto do periodo anterior" (HOLLANDA, 1980, p. 65). Em pouco tempo, ser marxista,

[...] passa a ser visto como um estigma, principalmente se vem acompanhado de alguma preocupacao de participacao politica mais efetiva, constituindo-se em demonstracao insofismavel de "caretice". E nessa linha que aparece uma nocao fundamental -- nao existe a possibilidade de uma revolucao ou transformacao sociais sem que haja uma revolucao ou transformacao individuais [...] a valorizacao da marginalidade urbana, a liberacao erotica, a experiencia das drogas, a festa, casam-se de maneira pouco pacifica, com uma constante atencao em relacao a certos referenciais do sistema e da cultura [...] a marginalidade e tomada nao como saida alternativa, mas no sentido de ameaca ao sistema; ela e valorizada exatamente como opcao de violencia, em suas possibilidades de agressao e transgressao. A contestacao e assumida conscientemente. O uso de toxicos, a bissexualidade, o comportamento descolonizado sao vividos e sentidos como gestos perigosos, ilegais e, portanto, assumidos como contestacao de carater politico (HOLLANDA, 1980, p. 65-68).

Desta forma, os slogans e o comportamento dos jovens de 1968 nao deveriam ser vistos simplesmente como "a expressao de uma contracultura de alheamento, apesar de um evidente interesse em chocar a burguesia [...]. Queriam derrubar a sociedade e nao simplesmente escapar dela" (HOBSBAWM, 2002, p. 277). Como menciona Hobsbawm (2002, p. 282):
   Minha faixa etaria nao entendeu que as geracoes ocidentais de
   estudantes na decada de 1960 acreditavam, como antes haviamos
   acreditado, embora de maneira muito mais facil de especificar como
   "politica", que viviam em uma era em que tudo iria mudar por meio
   da revolucao, porque a sua volta tudo ja estava mudando.


Embora nao dedique especial atencao para o contexto, Stuart Hall, em "A Identidade Cultural na Pos-Modernidade", permite uma interpretacao diacronica sobre os efeitos decorrentes da decada de 60 acerca da emergencia de novos sujeitos. Para o autor, a partir de sucessivas rupturas, "o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estavel, esta se tornando fragmentado" (HALL, 2003, p. 12). Se anteriormente a identidade preencheria o espaco entre o "interior" e o "exterior", entre o mundo pessoal e o mundo publico, atualmente (e diriamos que especialmente apos a decada de 60) tal processo se modifica: o sujeito (pos-moderno) e entao visto como "composto nao de uma unica, mas de varias identidades, algumas vezes contraditorias ou naoresolvidas" (idem. ibid.). Aquela identidade fixa, essencial ou permanente, opoe-se certa "celebracao movel":

O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que nao sao unificadas ao redor de um "eu" coerente. Dentro de nos ha identidades contraditorias, empurrando em diferentes direcoes, de tal modo que nossas identificacoes estao sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento ate a morte e porque construimos uma comoda estoria sobre nos mesmos ou uma confortadora "narrativa do eu" (veja Hall, 1990). A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente e uma fantasia" (HALL, 2003, p. 13).

Tal processo seria decorrente, segundo Hall, da erosao da identidade de classe e da consequente emergencia de novas identidades, "pertencentes a nova base politica definida pelos novos movimentos sociais: o feminismo, as lutas negras, os movimentos de libertacao nacional, os movimentos antinucleares e ecologicos" (HALL, 2003, p. 21).

Assim, uma vez que a identidade passa a ser relacional e movel, nao mais e percebida como "automatica" e "imutavel", podendo ser perdida, conquistada ou atribuida (1). Este processo tornou as identidades politizadas, permitindo a eclosao das "politicas das diferencas".

Hall promove entao uma sintese que, embora esquematica, aponta relevantes pontos em comum entre diversos movimentos sociais, etnicos, estudantis, contraculturais, antibelicistas, feministas: sua oposicao tanto a politica liberal capitalista do Ocidente quanto a politica "estalinista" do Oriente; a afirmacao tanto das dimensoes "subjetivas" quanto das dimensoes "objetivas" da politica; a critica a todas as formas burocraticas de organizacao e favorecimento da espontaneidade e dos atos de vontade politica; a forte enfase na forma cultural (HALL, 2003).

Esses movimentos "refletiam o enfraquecimento ou o fim da classe politica e das organizacoes politicas de massa com elas associadas, bem como sua fragmentacao em varios e separados movimentos sociais" e apelavam para "a identidade social de seus sustentadores" (HALL, 2003, p. 44): o feminismo as mulheres; a politica sexual aos gays e lesbicas; as lutas raciais aos negros; o movimento antibelicista aos pacifistas. Para o autor, "isso constitui o nascimento historico do que veio a ser conhecido como a politica de identidade -- uma identidade para

cada movimento" (HALL, 2003, p. 45).

Um dos principais responsaveis pelo que se conceituou como "descentramento conceitual do sujeito cartesiano" (2), promovendo uma verdadeira revolucao na "ideia do eu" para Hall foi o movimento feminista. Questionando a classica distincao entre o "privado" e o "publico" e politizando diversos ambitos da intimidade, o feminismo abriu caminhos para a contestacao politica em ambitos inteiramente novos na vida social:

A familia, a sexualidade, o trabalho domestico, a divisao domestica do trabalho, o cuidado com as criancas, etc. [...] enfatizou, como questao politica e social, o tema da forma como somos formados e produzidos como sujeitos generificados. Isto e, ele politizou a subjetividade, a identidade e o processo de identificacao [como homens/mulheres, maes/pais, filhos/filhas] [...] expandiu-se para incluir a formacao das identidades sexuais e de genero (HALL, 2003, p. 45-46).

De forma semelhante, os movimentos negros (sejam os mais pacifistas cujo icone e, sem duvida, Martin Luther King, os de orientacoes nacionalistas, ou mesmo os mais combativos como os Panteras Negras) apontam as diversas estruturas de dominacao, segregacao e preconceito vigentes nao apenas nos Estados Unidos, mas no mundo todo.

Os movimentos ambientais emergentes, denunciando as experiencias traumaticas da segunda guerra e em especial a bomba atomica, ganham progressiva legitimidade ao questionar a depredacao e exploracao da natureza, vista pelo sistema capitalista antes como fonte de recursos energeticos do que como condicao para a vida e perpetuacao da humanidade.

Nao se pode deixar de mencionar, no contexto da decada de sessenta, a expansao da industria cultural (ou como querem alguns autores: sociedade de consumo, sociedade pos-industrial, sociedade da midia ou do espetaculo), que Jameson sintetiza da seguinte forma:

[...] o capitalismo tardio em geral [e os anos 60 em particular] constitui um processo em que as ultimas zonas remanescentes [internas e externas] de precapitalismo -- os ultimos vestigios de espaco tradicional ou nao transformado em mercadoria dentro e fora do mundo avancado -- sao agora finalmente penetradas e colonizadas por sua vez (JAMESON, 1991, p. 124-125).

O conceito de industria cultural provem do texto homonimo dos autores Theodor Adorno e Max Horkheimer, da Escola de Frankfurt, movidos tanto pelos horrores da experiencia nazista alema como pela democracia de massa dos Estados Unidos e influenciados pelos escritos de Sigmund Freud (ADORNO; HORKHEIMER, 1985). Centrando seu argumento na ideia de racionalidade, os autores desembocaram "na irracionalidade que articula totalitarismo politico e massificacao cultural como as duas faces de uma mesma dinamica" (MARTIN-BARBERO, 2001, p. 77).

A medida que a logica da industria passa a operar na producao cultural, postulam os autores, a linha divisoria entre a arte e cultura e modificada. A cultura passa a ser vista como "mercadoria" e inserida no modelo de producao industrial, que homogeneiza suas peculiaridades para atingir um publico massivo ao mesmo tempo em que viabiliza a producao das "necessidades de consumo". A partir de entao a industria do entretenimento ira colonizar tambem a esfera do lazer, do imaginario e produzir desejos inesgotaveis de consumo cultural por meio de propaganda e demais mecanismos de comunicacao de massa.

Os autores da Escola de Frankfurt alertam para a degradacao da cultura em uma industria de diversao que age sobre o prazer e a sensibilidade do publico, criando o fetiche do consumo de obras banalizadas, que nada mais sao do que o simulacro, "formulas esvaziadas" de producoes autenticas (variam na aparencia, mas nao em sua logica ou conteudo). "O que de arte estara ai nao sera mais do que sua casca: o estilo, quer dizer, a coerencia puramente estetica que se esgota na imitacao. E essa sera a 'forma' da arte produzida na industria cultural: identificacao com a formula, repeticao da formula" (MARTIN-BARBERO, 2001, p. 80).

Em seu livro de referencia Dos meios as mediacoes, Jesus Martin-Barbero recorda que Edgar Morin, em O espirito do tempo II, analisa a crise sociopolitica de 1968 a partir da "redescoberta do acontecimento", valorizando a dimensao historica da acao dos sujeitos em detrimento da cultura reduzida a codigo e da historia a estrutura. Como menciona MartinBarbero, o acontecimento significa a "irrupcao do singular concreto no tecido da vida social" (MARTIN-BARBERO, 2001, p. 95) e neste sentido, a crise parece permitir a visualizacao dos conflitos latentes que definem o social. Por isso,

A crise de finais dos 1960 revelava "a irrupcao da enzima marginal" -- os negros, as mulheres, os loucos, os homossexuais, o Terceiro Mundo trazendo a tona sua conflitividade, pondo em crise uma concepcao de cultura incapaz de dar conta do movimento, das transformacoes do sentido do social [...] E a critica indicara a "sociedade do espetaculo" que, ao levar a relacao mercantil ate a cotidianidade, ate o sexo e a intimidade, acaba politizando-os, isto e, convertendo-os em espaco de luta contra o poder (MARTIN-BARBERO, 2001, p. 95-96).

Estes acontecimentos, bem como o dos revolucionarios franceses de 1968 chamados de situacionistas (cujo mais proeminente e sem duvida o autor de A Sociedade do Espetaculo) (DEBORD, 2002) serao pensados por Morin a partir da influencia de Michel Foucault em seus estudos que relacionam cultura, saber e politica. Sobre esta nova visao de poder, sintetiza Martin-Barbero (2001, p. 96-97):
   [...] embora o Estado permaneca no centro, o poder
   flui, porque nao e uma propriedade, mas algo que se
   exerce, e de uma forma especialissima, a partir disso
   que o Ocidente tem chamado de cultura. Nunca se
   tinha revelado tao problematica concepcao da cultura
   enquanto superestrutura como a luz dessa concepcao
   do poder como producao de verdade, de
   inteligibilidade, de legitimidade. O que nos remete
   ao coracao de nosso debate: a negacao de sentido e
   legitimidade de todas as praticas e modos de
   producao cultural que nao vem do centro, nacional
   ou internacional [...].


Posicionamentos como os aqui expostos permitem perceber como a contracultura, a construcao das identidades e eclosao dos movimentos sociais configuram uma nova visao do poder, bem como uma nocao diferenciada de oposicao e critica, apartada do modelo "classico" centrado na primazia das classes sociais.

Contracultura e identidades no Brasil

Como nos diz Marcelo Ridenti, "as manifestacoes brasileiras em 1968 estavam em sintonia com o que ocorria no mundo todo no periodo, mas tiveram a particularidade de inserir-se na luta contra a ditadura militar e civil que interrompera o processo democratico em 1964" (RIDENTI, 2009, p. 3). Apesar de toda complexidade do periodo, o autor destaca tres frentes de contestacao social e politica proeminentes: "o movimento estudantil, o movimento operario e a agitacao cultural promovida por intelectuais e artistas" (RIDENTI, 2009, p. 3).

Nas palavras de Zuenir Ventura, um dos escritores brasileiros que se notabilizaram por narrar o periodo:

Quando os militares deram o golpe em abril de 64, abortaram uma geracao cheia de promessas e esperancas. A esquerda, como acreditava Luis Carlos Prestes entao, nao estava no governo, mas ja estava no poder. As reformas de base de Joao Goulart iriam expulsar o subdesenvolvimento e a cultura popular iria conscientizar o povo [...] onipotente, generosa, megalomana, a cultura pre-64 alimentou a ilusao de que tudo dependia mais ou menos de sua acao: ela nao so conscientizaria o povo como transformaria a sociedade, ajudando a acabar com as injusticas sociais. Essa ilusao acabou em 64; a inocencia em 68 (VENTURA, 1988, p. 44).

Roberto Schwarz em seu classico ensaio "Cultura e Politica, 1964-1969" destaca que a instalacao do regime militar no pais, de inicio nao afetou a producao intelectual de orientacao socialista. Para o autor, no periodo existia certa "hegemonia cultural da esquerda", presente nas livrarias das grandes cidades, no teatro, nos festivais de musica popular, concentrada nos grupos diretamente ligados a producao ideologica (estudantes, artistas, jornalistas, parte dos sociologos e economistas), mas cujas producoes engajadas destinavam-se antes para si mesmos do que para o grande publico. No periodo pos 1964, a intelectualidade socialista, temerosa, foi poupada, "Torturados e longamente presos foram somente aqueles que haviam organizado o contato com operarios, camponeses, marinheiros e soldados" (SCHWARZ, 2008, p. 72). Apesar de frear os canais de comunicacao com o povo, "o governo Castelo Branco nao impediu a circulacao teorica ou artistica do ideario esquerdista, que embora em area restrita floresceu extraordinariamente" (SCHWARZ, 2008, p. 72). Mas uma importante modificacao iria ocorrer no modo como o regime militar encaminhava a repressao:

Com altos e baixos esta solucao de habilidade durou ate 68, quando nova massa havia surgido, capaz de dar forca material a ideologia: os estudantes, organizados em semi-clandestinidade [...]. A importancia social e a disposicao de luta desta faixa radical da populacao revelam-se agora, entre outras formas, na pratica dos grupos que deram inicio a propaganda armada da revolucao. O regime respondeu, em dezembro de 68, com o endurecimento. Se em 64 fora possivel a direita "preservar" a producao cultural, pois bastara liquidar o seu contato com a massa operaria e camponesa, em 68, quando o estudante e o publico dos melhores filmes, do melhor teatro, da melhor musica e dos melhores livros ja constitui massa politicamente perigosa, sera necessario trocar ou censurar os professores, os encenadores, os escritores, os musicos, os livros, os editores -- noutras palavras, sera necessario liquidar a propria cultura viva do momento (SCHWARZ, 2008, p. 72-73).

Diversos foram os marcos de luta contra o regime militar: os protestos com a morte do primeiro estudante, Edson Luis, no confronto com a policia, e a movimentacao para seu velorio e missa de setimo dia; os enfrentamentos entre estudantes na rua Maria Antonia; as greves em Osasco e principalmente, a celebre Passeata dos Cem Mil.

Com a intensificacao da repressao, o numero de protestos deliberados tambem passou a se restringir. Em agosto de 1968, o principal lider estudantil carioca, Vladimir Palmeira foi preso e a Universidade de Brasilia foi invadida pela policia. Em outubro, o Congresso da Uniao Nacional dos Estudantes (UNE) no interior de Sao Paulo foi desmantelado e cerca de 700 participantes foram presos. O movimento estudantil brasileiro sofreu enorme derrota e varios de seus integrantes passariam a concentrar suas atividades na militancia politica clandestina contra a ditadura, em organizacoes de esquerda. Em dezembro de 1968, com o Ato Institucional numero 5 (AI-5), a violencia do regime militar chegou ao extremo:

Oficializou-se o terrorismo de Estado, que prevaleceria ate meados dos anos 70. O Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas estaduais foram colocados temporariamente em recesso e o governo passou a ter plenos poderes para suspender direitos politicos dos cidadaos, legislar por decreto, julgar crimes politicos em tribunais militares, cassar mandatos eletivos, demitir ou aposentar juizes e outros funcionarios publicos etc. Simultaneamente, generalizavam-se as prisoes de oposicionistas, o uso da tortura e do assassinato, em nome da manutencao da seguranca nacional, considerada indispensavel para o desenvolvimento da economia, do que se denominaria mais tarde "milagre brasileiro" (RIDENTI, 2009, p. 7).

Calados os intelectuais e os canais de informacao, o engajamento na America Latina passa a ter como principal canal de manifestacao as artes, expressando-se no teatro, cinema, musica popular, literatura e artes plasticas, como destaca Marcos Napolitano (2001). Marcelo Ridenti corrobora: "Nos anos 60, particularmente em 1968, manifestacoes culturais diferenciadas cantavam em verso e prosa a esperada 'revolucao brasileira', que deveria basear-se na acao das massas populares, em cujas lutas a intelectualidade de esquerda estaria organicamente engajada" (RIDENTI, 2009, p. 6).

Alem da canalizacao dos protestos para a expressao artistica, os autores estao de acordo tambem no que se refere a um fracionamento artistico, de relevancia fundamental para a analise da atividade cultural de 1968 no pais: a polarizacao entre os nacionalistas que procuravam uma linguagem autenticamente brasileira e empenhavamse na luta que julgavam socialista, da afirmacao de uma identidade nacional-popular e os "vanguardistas" (cujo movimento tropicalista de Caetano Veloso e Gilberto Gil era o apice) que criticavam os primeiros, vistos como uma "esquerda festiva", e procuravam sintonizar-se as vanguardas, e em suma, a contracultura.

Para Ridenti em seu livro Em Busca do Povo Brasileiro, as lutas politicas e sociais que ocorreram nas artes poderiam ser chamadas de "romanticorevolucionarias", por buscarem, no passado, nas raizes culturais nacionais, elementos para a construcao da utopia do futuro. Para o autor, os artistas idealizavam o homem do povo (o campones bem como o migrante favelado que trabalhava nas grandes cidades), buscando "[...] no passado elementos que permitiam uma alternativa de modernizacao da sociedade que nao implicasse a desumanizacao, o consumismo, o imperio do fetichismo da mercadoria e do dinheiro" (RIDENTI, 2000, p. 25).

Napolitano e Villaca (1998) demonstra que o Tropicalismo adotava procedimento distinto, ao incorporar, com intencoes de critica cultural, os impasses e dilemas gerados pela modernizacao da sociedade brasileira, no universo do consumo. Valendo-se dos canais abertos pela consolidacao dos meios de comunicacao.

[...] o Tropicalismo se beneficiou das proprias clivagens da industria cultural que ele ajudou a problematizar [...]. Ao problematizar o consumo da cancao [e a cancao enquanto consumo], o Tropicalismo abriu um leque de novas possibilidades de escuta, que a diretriz ideologica do nacional-popular, ja em crise como genero reconhecivel pelo publico, nao mais comportava. Enquanto legado para a musica popular, o Tropicalismo ajudou a incorporar tanto o consumo do material musical recalcado, pelo gosto da classe media intelectualizada, como o do ruido, do exagero e arcaismos colocados lado a lado, em valor, aos sussurros e as sutilezas expressivas desenvolvidas pelas tendencias socialmente mais valorizadas da musica popular (NAPOLITANO; VILLACA, 1998, s/p.)

Esta significacao libertaria pode ser vista como contribuicao central da contracultura no pais, e sua expressao estetica nacional, o tropicalismo, constituiria um marco na historia nacional. Como destaca Heloisa Buarque de Hollanda,

Essa rejeicao do sistema e a descrenca com a esquerda ocorrem num momento de desilusoes com a politica, quando os movimentos de massa sao novamente derrotados pelo regime militar que decreta o AI-5, concretizando o que se chamou de "segundo golpe". Alem da intensificacao da repressao policial no pais, o quadro internacional sugere novas desilusoes; a invasao da Tcheco-eslovaquia nao deixa mais duvidas quanto ao totalitarismo sovietico, a atuacao do PCD em maio de 68 mostra-se totalmente reacionaria em sua politica de aliancas com o Estado, Fidel Castro intensifica a repressao e a censura as artes em Cuba, etc. A fe no marxismo como ideologia redentora e abalada pelo sentimento que a unica realidade seria o poder (HOLLANDA, 1980, p. 69).

E entao na dimensao da critica comportamental, na denuncia dos mecanismos de poder presentes no cotidiano e na intimidade, que a contracultura se coloca como expressao fundamental de critica a autoridade em seu sentido amplo: ao paradigma masculino, branco, ocidental, heterossexual. Esta forma distinta de reivindicacao, que marcaria os anos 1960 e particularmente 1968, produziu tambem no Brasil a mesma explosao "de forcas nao-teorizadas" a que se refere Jameson (1991, p. 125) ao tratar das minorias, do movimento estudantil, feminista, negro, das forcas etnicas, regionalismos. Tais reivindicacoes nao se enquadravam ao modelo marxista, nem ao rotulo de "luta de classes", mas permitiram uma nova visao da liberdade, das possibilidades humanas e abriram frente para novos processos identitarios.

Inumeros sao os exemplos desta "explosao", mas sem duvida, um dos mais representativos foi o movimento feminista, que teve sua maior expressao no pais na decada de 70 (muitas vezes apoiado por partes progressistas da Igreja e mais remotamente pelo Partido Comunista). Alem de sua recusa aos padroes sexuais, familiares e ao modelo de sexualidade e feminilidade patriarcal, o feminismo no Brasil encontrava-se tambem vinculado a outros movimentos populares, seja na oposicao a ditadura militar, seja na luta por melhores condicoes de vida, na reivindicacao da criacao de creches em fabricas e universidades, entre outras formas de ativismo politico e cultural. Marcos importantes para o desdobramento do movimento, que se espalhou e consolidou no pais na decada de 80, foram grupos politicos feministas como o Brasil Mulher, Nos Mulheres, o Movimento Feminino pela Anistia, em Sao Paulo, alem do Centro Brasileiro da Mulher e o Coletivo Feminista, do Rio de Janeiro (CORREA, 2001; RAGO, 2003).

Quanto ao movimento LGBT (lesbicas, gays, bissexuais e transexuais) marcos fundamentais foram o Grupo Somos de Afirmacao Homossexual em Sao Paulo e a criacao do Jornal Lampiao da Esquina, bem como a formacao dos Grupos Triangulo Rosa e Atoba no Rio de Janeiro no final da decada de oitenta.

No caso do combate ao preconceito racial, Petronio (2007) menciona o Centro de Cultura e Arte Negra fundado em 1972, a criacao dos jornais "Arvore das Palavras" e "O Quadro" em 1974 na cidade de Sao Paulo, o Grupo Palmares, formado em 1971 em Porto Alegre, a explosao do movimento soul, depois batizado de Black Rio, e a formacao do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras no Rio de Janeiro, bem como a formacao, em 1978 do Movimento Negro Unificado.

Consideracoes finais

Foram apresentados aqui alguns argumentos, selecionados entre tantos outros, sobre o porque de 1968 ter entrado para a historia como marco, como referencial, para o qual, passados 40 anos, ainda nao se esgotaram as hipoteses e possibilidades de interpretacao. Por isso, ainda continua atualissima a analise Umberto Eco, que afirmou, sobre esse ano: "Pode-se processa-lo, analisa-lo, condena-lo, mas nao cancela-lo como um fenomeno de loucura" (VENTURA, 1988, p. 14). Por outro lado, a antitese tambem tem proposito, ou nas palavras de Zuenir Ventura: "pode-se exalta-lo, romantiza-lo, contanto que nao se tente sacraliza-lo como um momento de inspiracao divina da Historia" (VENTURA, 1988, p. 14).

Received on August 12, 2009.

Accepted on May 10, 2010.

Referencias

ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialetica do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

CORREA, M. Do feminismo aos estudos de genero no Brasil: um exemplo pessoal. Campinas: Unicamp, 2001. (Cadernos Pagu, n. 16).

DEBORD, G. La sociedad del espetaculo. Valencia: Pre-textos, 2002.

ECO, H. Apocalipticos e integrados. Sao Paulo: Perspectiva, 1970.

HALL, S. A identidade cultural na pos-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

HOBSBAWM, E. Tempos interessantes. Sao Paulo: Cia das Letras, 2002.

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DOI: 10.4025/actascihumansoc.v32i2.7926

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(1) Este processo de "atribuicao de identidades" se constituiu como um dos principais dispositivos de estigmatizacao e reificacao de preconceitos frente a individuos ou determinados grupos sociais.

(2) Esta ideia teria vigorado ate a metade do seculo XX e concebia o sujeito como uma totalidade estavel, unica e fixa.

Caue Kruger

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Title Annotation:Texto en Portuguese
Author:Kruger, Caue
Publication:Acta Scientiarum Human and Social Sciences (UEM)
Date:Apr 1, 2010
Words:5671
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