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Images of nature in the newspapers Folha de S. Paulo and O Estado de S. Paulo/Imagens de natureza nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo.

Notas iniciais

Este estudo toma como objeto de analise as imagens de natureza em textos jornalisticos impressos, pelo caminho das articulacoes transdisciplinares entre os campos da Antropologia, Sociologia e Jornalismo. E tem como objetivo visualizar na imprensa alguns conjuntos de imagens que estao orientando ou expressando, nas ultimas tres decadas, o pensamento da sociedade brasileira a respeito da natureza, do mundo natural. Tal como algumas abordagens sociologicas e antropologicas, interessa neste estudo de jornalismo a dimensao imaginaria das atividades humanas, mais especificamente a investigacao sobre a circulacao de imaginarios na midia noticiosa e, neste artigo, sobre imagens de natureza na imprensa escrita.

Parto de alguns pressupostos que ja vem sustentando trabalhos anteriores que desenvolvi. E preciso repassa-los aqui antes de apresentar a pesquisa realizada sobre imagens de natureza nas edicoes impressas de dois jornais diarios de circulacao nacional, Folha de S. Paulo (1995-2012) e O Estado de S. Paulo (1995-2012).

Primeiramente, o pressuposto de que ha manifestacoes sensiveis e emocionais, simbolicas e miticas do mundo imaginario que estao presentes rotineiramente nas tematicas diversas da cobertura jornalistica e que devem ser levadas em conta pela Teoria do Jornalismo (Silva, G., 2010).

Depois, o de que, ao tratar de imagens arquetipicas, metaforas de base, imagens-matrizes, a imagem seja compreendida como modalidade sensorial e manifestacao sensivel do abstrato ou do invisivel--algo proximo de imagem literaria, afetada pela psique, pelo consciente e inconsciente, pelos devaneios e sonhos, e nao apenas como imagem pictorica, acoplada a suportes iconograficos.

Outra premissa vem de uma explicitacao de Michel Maffesoli: "Nao e a imagem que produz o imaginario, mas o contrario. A existencia de um imaginario determina a existencia de um conjunto de imagens. A imagem nao e o suporte, mas o resultado" (Maffesoli, 2001, p. 76). Em complementacao, trago a observacao, feita por Juremir Machado Silva, de que o imaginario deve sempre ser entendido como algo mais amplo que um conjunto de imagens. "O imaginario e uma rede eterea e movedica de valores e sensacoes partilhadas concreta ou virtualmente" (Silva, J. M., 2006, p. 9). O imaginario nao seria um mero album de fotografias mentais nem um museu da memoria individual ou social. Nem se restringiria ao exercicio artistico da imaginacao sobre o mundo. Tampouco, nas palavras de Legros e coautores, seria

uma forma social escondida, secreta, inconsciente que vive sob as fibras do tecido social. Ele nao e o reflexo, o espelho deformado, o mundo revirado ou a sombra da realidade, uma sociedade subterranea que cruzara profundamente os esgotos da vida cotidiana, mas ele estrutura, no fundo, o entendimento humano (Legros e outros, 2007, p. 111).

Como quarto pressuposto, o entendimento de que os sentimentos, a memoria e as producoes simbolicas excedem a esfera do individual e do privado e se estendem para os dominios sociais, coletivos. O imaginario circula, entao, atraves da historia, das culturas e dos grupos sociais, como um fenomeno coletivo, social e historico (Legros e outros, 2007, p. 10). Portanto, na relacao entre imaginario e jornalismo interessa o aspecto coletivo, a manifestacao social do imaginario, uma vez que o fenomeno da comunicacao noticiosa e de natureza igualmente social e coletiva.

E, alem de coletivo, o imaginario transita no tempo, entre passado e futuro. Nos termos de J. M. Silva (2006, p. 9, 11 e 12), ele seria reservatorio e motor. Como reservatorio, o imaginario agregaria imagens, sentimentos, lembrancas, experiencias, visoes do real, leituras de vida e, atraves de um mecanismo individual/grupal, sedimentaria um modo de ver, de ser, de agir, de sentir e de estar no mundo. Como motor, elemento propulsor, o imaginario retorna ao real, seria um sonho que realiza a realidade, funcionando como catalisador, estimulador e estruturador das praticas. Assim, afirma o autor, todo individuo submete-se a um imaginario preexistente e todo sujeito e um inseminador de imaginarios (Silva, J. M., 2006, p. 9, 11 e 12).

E ainda em termos de ordem temporal, para Durand, o imaginario, longe de aparecer como um momento ultrapassado na evolucao da especie, manifesta-se como elemento constitutivo e instaurativo do comportamento especifico do Homo sapiens (Durand, 1997, p. 429). Alem disso, o imaginario nao e tomado aqui como categoria antitetica do racional, uma vez que ambos pertencem ao universo das imagens. O imaginario nao seria nem abstrato nem concreto, nem racional nem irracional, ele e sempre ambos (Silva, G., 2009, p. 213). Esta compreensao nos leva a tomar as noticias como um exercicio de producao de sentido e de entendimento do mundo que responde nao so a demandas pragmaticas--apreender a realidade objetiva e rotineira--mas tambem a demandas subjetivas--nos elevar "para alem do imediato diario" e nos situar "dentro de 'imensos edificios de representacao simbolica'" (Silva, G. 2005, p. 101). Maffesoli entende que os jornalistas estao cada vez mais atentos a estas questoes da trama social e seu cotidiano, concedendo, ao lado de rubricas politicas, economicas, um lugar nao negligenciavel as chamadas "ocorrencias" (fr. "faits divers"). Eu diria que, para alem dos simples cliches jornalisticos, convem dar um estatuto teorico a esse conjunto de "ocorrencias'. Isso pode ser feito se a observacao for concedida a dignidade que lhe e de direito (Maffesoli, 1998, p. 123-124).

Por fim, como mais um dos pressupostos, o entendimento de que o jornalismo nao deve ser tratado somente como uma forca conservadora e inercial, associando as simbologias-miticas presentes no noticiario a um dispositivo de criacao de consensos, de fechamento de sentidos e de afirmacao das visoes de mundo vigentes (Silva, G.; Maia, F. D., 2011). Diferentemente, a opcao desta pesquisa se fundamenta no potencial da simbologia mitica para atuar em processos de transformacoes socioculturais e historicos.

Natureza: perspectiva teorico-epistemologica

Tais como os estudos do imaginario de forma geral, tambem os estudos das imagens de natureza que povoam a vida em sociedade passam por dimensoes sensiveis ou afetivas e, igualmente, nao escapam das clivagens do tempo em que se vive. Keith Thomas, em O homem e o mundo natural (1988), e Simon Schama, em Paisagem e memoria (1996), discutem, nas ocorrencias na virada do seculo XVIII para o XIX, as sutilezas e as ambiguidades da apreciacao dos homens ora pela natureza domesticada ora pela natureza selvagem. De acordo com esses autores, a concepcao de natureza decorre de uma construcao mental e social, cuja fundacao se da pela cultura e pela historia. Simon Schama volta as duas arcadias que se originaram naquele tempo e constituem a materia-prima do que fomenta ate hoje as visoes dicotomicas do mundo natural. Sempre houve dois tipos de arcadia, diz ele: tumultuada e tranquila; sombria e luminosa; um lugar de ocio bucolico e um lugar de panico primitivo. Mesmo que, levando-se em conta tanto as condicoes da urbanidade e da historicidade, as visoes do que e a natureza, por mais diversas, sao construcoes mentais, cujas significacoes vao sendo moldadas de acordo com interesses e necessidades, quer materialistas, quer espirituais (1).

Segundo Robert Lenoble, desde o marco historico da "Suma teologica" do seculo XVIII, inicio da luta entre o mecanicismo-racionalismo e o vitalismo, o conceito Natureza carrega varios sentidos (Lenoble, 1990, p. 284). Para o autor, a natureza toma sentidos completamente diferentes de acordo com as epocas e os homens. Distinguiriamos desde os tempos modernos, afirma Lenoble, a natureza observada do biologo da natureza sonhada do poeta, diferentemente do que acontecia na Idade Media, quando as duas eram, entao, a unica e mesma coisa, porque a propria realidade fisica era concebida como um simbolo do mundo religioso e moral (Lenoble, 1990, p. 217).

A ideia mesma da oposicao entre Homem e Natureza pode ser considerada uma construcao sociocultural, pois, embora estejamos habituados a situar natureza e percepcao humana em dois campos distintos, elas se mostram cada vez mais inseparaveis. Philippe Descola postula que a clivagem fundamental estabelecida pelo Ocidente entre natureza e cultura pode nada significar para outros povos que veem as plantas e os animais tambem como sujeitos sociais e nao como objetos. Diz que e preciso admitir que nossa concepcao sobre a natureza, herdada do seculo XVII, nao e mais operante.

Gracas ao crescimento das preocupacoes ecologicas, admitimos atualmente que plantas, animais, genes, desertos, correntes marinhas ou a quimica da atmosfera nao existem dentro de um universo a parte, justaposto ao nosso. Isso nao quer dizer que eles nao possam ser assunto de um conhecimento especializado. Isso significa somente que a divisao entre "natureza" e "sociedade", fundamento da cosmologia ocidental, nao percebe de forma adequada a organizacao do mundo (Descola in Passis-Pasternak, 2001, p. 114).

Muitos autores identificam no movimento ecologico a mais recente traducao do desejo humano de retorno a natureza. E mais, percebem nele tambem a manifestacao da vontade do homem de ressacralizar o mundo natural e, desse modo, conectar-se novamente a sacralidade divina. O proprio mito do paraiso nada mais e que o relato da perda da dimensao sagrada; e a busca incansavel por esse Eden ocorre, segundo Heinberg, no sentido de alcancar um estado em que todos os desejos e motivos humanos sejam incluidos dentro de um proposito criativo maior, "porque o desejo avassalador de todos os individuos e que o acordo consumado da Natureza e do Cosmos seja alimentado e mantido" (Heinberg, 1991, p. 297). Sheldrake (1997) tambem destaca os vestigios do sagrado na visao ecologica do mundo. Acredita que o movimento verde estimula o relacionamento espiritual com a natureza. Comentando sobre a qualidade transcendental de muitos parques nacionais, o autor diz que para muitos visitantes esses parques sao mais do que areas de recreacao, sao templos ou santuarios naturais.

Mas essa reviravolta filosofica e antropologica esta apenas dando seus primeiros sinais rumo a visao biocentrica do mundo. Na pratica historica, desde que a humanidade se posicionou como observadora distanciada e interventora do mundo natural, o ser humano tem dificuldade em se deslocar de sua visao antropocentrica. E seguimos em paroxismos. A mesma natureza tomada pela ciencia como sistema inanimado e mecanico, a ser explorado para o progresso humano, continua sendo percebida pela nossa intuicao como Mae Natureza, tanto a benevolente e sabia como a ameacadora e misteriosa. Lenoble reafirma que a Natureza surgiu no pensamento dos homens como construcao, sob regencia da reflexao e nao arbitrariamente. E acusa a artificialidade da separacao da ideia de Natureza em tres campos: cientifico, moral e estetico. Ele aponta a interferencia que a modificacao do conceito em um dos campos pode exercer nos outros e busca a ancora da historia: o "conceito de Natureza so na historia toma sentido: exprime menos uma realidade passiva apercebida que uma atitude do homem perante as coisas" (Lenoble, 1990, p. 200). Nesta mesma perspectiva, Schama, ao fazer uma arqueologia da paisagem, afirma que paisagem e cultura antes de ser natureza, um constructo da imaginacao projetado sobre mata, agua, rocha [...] cabe tambem reconhecer que, quando uma determinada ideia de paisagem, um mito, uma visao, se forma num lugar concreto, ela mistura categorias, torna as metaforas mais reais que seus referentes, torna-se de fato parte do cenario (Schama, 1996, p. 70).

O autor assume posicao necessariamente historica e por isso mesmo, como ele diz, menos universal, ja que "nem todas as culturas abracam natureza e paisagem com igual ardor, e as que abracam conhecem fases de maior ou menor entusiasmo" (Schama, 1996, p. 25). Mesmo levando em conta as variacoes, reconhece que "os mitos e lembrancas da paisagem partilham duas caracteristicas comuns: sua surpreendente permanencia ao longo dos seculos e sua capacidade de moldar instituicoes com as quais ainda convivemos"(Schama, p. 25-26). Este e, na verdade, o grande desafio: compreender a diversidade das ideias, sensibilidades e atitudes com relacao a natureza--elaboradas pelas diferencas de classe ou modificadas pelas condicoes historico-culturais--e o estofo comum que permanece, como heranca, por detras de tais diferencas.

Ao perseguir os rastros historicos da "conquista ou preservacao?" da natureza, Keith Thomas (1988) encontra fundamentos religiosos para explicar a defesa recente da protecao do mundo natural, na qual vamos encontrar sinais daquela persistencia de que falava Raymond Williams (1989) e das obsessoes identificadas por Simon Schama (1996). Ele argumenta que, antes de ganhar fundamento cientifico, a ideia atual do equilibrio da natureza teve base teologica e que foi a crenca na perfeicao do designio divino que precedeu e sustentou o conceito de cadeia ecologica (Thomas, 1988, p. 329).

Podemos dizer o mesmo sobre atitudes ecologicas dos ultimos 30 anos, tanto as mais radicais, que nao suportam a ideia da presenca de moradores dentro dessas catedrais, quanto as outras que lidam com "construcao" de parques urbanos, santuarios erguidos justamente para serem frequentados pelos homens. Independentemente da diferenca de propositos--uns mais animistas e amantes da vida agreste, e outros mais humanistas, antropocentricos e defensores da vida domesticada--essas atitudes dos ecologistas revelam resquicios da presenca do sagrado na relacao homem-natureza. E podem, num caminho inverso, realimentar este sagrado. E exatamente o que sugere Rupert Sheldrake (1997, p. 184): no decorrer das duas ultimas decadas, com a ascensao do movimento verde e a crescente consciencia da crise ecologica, membros de diferentes tradicoes religiosas tem se empenhado na redescoberta do seu relacionamento espiritual com o mundo vivo. Nao ha como discordar do autor quando afirma que moradores urbanos esquecem com facilidade as fontes naturais de sua subsistencia e, por isso, os movimentos verdes, ecologicos, cumprem importante papel de lembrar-lhes da finitude dos recursos, da destruicao provocada pelas demandas do homem e da problematica da poluicao e dos residuos gerados. Quanto mais a qualidade do urbano se deteriora, mais os habitantes da metropole trazem-na para a pauta do dia.

Em trabalho de 1994, Antonio Carlos Sant'Ana Diegues discute a questao ambiental a partir do que chama de "mito moderno da natureza intocada". O debate entre ambientalistas, como se pode verificar, se da justamente pela separacao entre preservacionistas e conservacionistas. A primeira corrente propoe o isolamento das areas naturais, onde o homem pode entrar apenas para apreciacao estetica e espiritual da vida selvagem. O ponto de vista e o urbano, de quem olha de fora--esse modelo de areas protegidas, criado nos Estados Unidos, tem sido muito adotado pelos paises de Terceiro Mundo. O segundo movimento, dos conservacionistas, pressupoe o uso criterioso e racional dos recursos naturais --modelo que admite a presenca de populacoes tradicionais, de pescadores, camponeses e indigenas, junto ao ambiente natural conservado. Ve-se a partir de dentro do lugar. Essas duas posicoes nada mais sao que novas versoes daquelas velhas e dicotomicas concepcoes da relacao homem-natureza. Em diferentes imagens. Arcades pre-selenicos ou virgilianos? Arcadia primitiva ou habitavel? Terra inculta ou cultivada? Civilidade e harmonia ou integridade e indisciplina? Animistas ou humanistas? Vitalistas ou culturalistas? Natureza ou homem?

Para investigar as imagens sobre a natureza nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, complexificamos essa colecao de imagens, nao de forma dicotomica ou estatica, mas como uma constelacao, em movimento e rearranjos, conforme propoe Gilbert Durand (1997). No contexto, questoes relevantes no repertorio das transformacoes e desafios na virada do seculo XX para o XXI, como cuidados com o meio ambiente, anseios por qualidade de vida, conquistas mercadologicas, avancos e riscos das novas tecnicas e produtos da biotecnologia, discussao sobre bioetica e o agucamento pendular entre fascinio e temor da humanidade diante das descobertas das ciencias. Todas elas presentes no nosso cotidiano. E sabendo que cotidiano e jornalismo vivem numa relacao simbiotica, considerou-se aqui a validade cientifica de se averiguar na cultura midiatica, a partir de uma 'observacao sensivel', a agencia do relato jornalistico na reproducao, atualizacao e potencializacao de imagens da natureza, a partir de um corpus de material jornalistico da imprensa escrita diaria, localizada no periodo das ultimas tres decadas, para a observacao de diferentes imagens de natureza.

Percurso metodologico

Pela perspectiva epistemologica da metodologia, adotou-se a combinacao adaptada de dois metodos de Gilbert Durand, a mitocritica e a mitanalise (Durand, 1983, 1984, 1998), proprios para serem aplicados a relatos, quer literarios ou sociologicos, e, como aqui proposto, a textos jornalisticos. A mitocritica se faz sobre uma obra literaria ou um autor (textos) e a mitanalise, mais abrangente, se faz em terreno social amplo (sociedade). Os estudos de seguidores do pensamento de Durand levaram a uma ampliacao da mitocritica para a mitanalise (2).

No caso do jornalismo, podemos inclui-lo como um dos bens desse inventario antropologico (Durand citado por Pitta, 2005, p. 102), pensado como uma topica sociocultural da expressao do imaginario social, com uma gramatica especifica e com uma dinamica que perpassa concomitantemente texto e sociedade, num continuum. Isso porque estamos tratando de materias jornalisticas, atravessadas por discursos diversos, que testemunham, criam e repercutem o imaginario de uma epoca nao so pela expressao de tendencias esteticas e/ou das impressoes de um autor/jornalista em especial, como pressupoe a mitocritica, mas tambem por meio do registro dos fatos, dos acontecimentos, dos eventos e da vida cotidiana, da comunhao social de momentos, experiencias e valores, da documentacao das disputas concretas e simbolicas que enredam a teia da historia e remetem, portanto, a um contexto historico amplo, compartilhado pela sociedade como um todo e exterior aos textos (Maia, 2011, p. 27).

Por isso a sugestao da combinacao adaptada de mitocritica e mitanalise se da pelo entendimento de que o texto jornalistico transita entre sua propria linguagem codificada e o 'ouvir dizer que' no qual se fundamenta a producao jornalistica, por meio das rotineiras entrevistas com suas fontes, e pelo qual se da repercussao das noticias entre os receptores. Importante considerar o relato jornalistico (de qualquer materia jornalistica: hardnews, softnews, opinativa, sensacionalista etc.) como lugar de expressao (clara ou obscura, latente ou facilmente visivel) do imaginario social compartilhado por todos os sujeitos envolvidos no universo das noticias, sejam reporteres, leitores/receptores, fontes, publicitarios, proprietarios de veiculos noticiosos, editores, anunciantes. Insisto que ambos, produtores e receptores de noticias, compartilham imaginarios, e por isso e que podemos estudar esse mundo imaginal tanto no texto--como esta sendo feito aqui neste estudo--como tambem na observacao e coleta junto aos jornalistas, e na recepcao, junto a leitores, ouvintes, telespectadores e navegadores virtuais.

E pela perspectiva operacional da metodologia, tomaram-se como objeto empirico as edicoes impressas de dois jornais diarios de circulacao nacional, Folha de S. Paulo (periodo de 1995 a 2012) e O Estado de S. Paulo (periodo de 1995 a 2012). No total, 915 unidades noticiosas foram trabalhadas qualitativa e quantitativamente, seguindo esses passos metodologicos:

* fiz visitas as sedes dos dois jornais, para consulta em seus bancos de dados (3);

* para viabilizar o alargamento do corpus para edicoes de diversos anos, inclusive de decadas diferentes (anos 90, 00 e 10), decidi por buscas pela palavra natureza apenas nos titulos dos materiais (descartados os classificados, cartas do leitor, publicidades);

* nao houve distincao de editorias ou secoes, nem entre textos informativos e opinativos, uma vez que interessavam a pesquisa as imagens de natureza presentes nas mais diversas situacoes noticiosas, fosse em materia de economia ou turismo, noticia curta, artigo assinado ou editorial;

* por questoes tecnicas, o periodo demarcado para o corpus se deveu a viabilidade de acessar os arquivos eletronicos das materias/textos (4);

* em material bruto, coletado pela busca do termo 'natureza' nos titulos dos textos dos dois jornais, foram obtidas 1.440 unidades informativas. Descartamos os materiais repetidos, os titulos de cadernos (titulos de capa, vazios de conteudo) e os materiais em que o termo natureza nao estava vinculado ao mundo natural, mas sim a natureza humana (questoes mais filosoficas sobre a existencia do ser humano), a natureza da arte e a natureza das coisas (da guerra, do esporte, do samba, da arquitetura, da moda, natureza de signos do horoscopo etc.). Ao final, o corpus se consolidou em 411 unidades informativas da Folha e 504 do Estadao, num total de 915 unidades analisadas.

As concepcoes de natureza foram organizadas na forma de vinculos. A consolidacao das nocoes-vinculo exigiu muitas idas e vindas ao objeto Empirico (5), de modo a se chegar a uma percepcao da dominancia de uma imagem de natureza especifica em materias em que havia mais de uma imagem de natureza. Isso revela quao polifonica pode ser uma mesma materia, sobretudo quando envolve nao somente a intencao de quem escreve ou de quem titula, mas tambem a interpretacao subjetiva de quem a le, como ocorre no caso dos variados pesquisadores que a analisam.

As imagens de natureza em Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo

Os conjuntos de imagens identificados e sistematizados a partir do manuseio dos materiais empiricos foram os seguintes: (1) Cultuada; (2) Admirada; (3) Preservada; (4) Simbiotica; (5) Ameacada; (6) Domesticada; (7) Punidora e (8) Imprevisivel. Essa ordem de conjuntos se deve a intencionalidade de partir da imagem de natureza mais intocada, mais venerada, passando pela ideia de preservacao, pela do convivio harmonioso com o mundo natural, depois se dando conta das ameacas, em seguida a ideia de dominacao e domesticacao a natureza, para se chegar ao entendimento de que a natureza responde as violencias humanas e reage de modo vingativo ou punidor, e, por fim, a ideia de que nao dominamos a natureza, dona de grande forca e imprevisibilidade, como nos casos das catastrofes naturais que independem da acao da humanidade.

Cultuada

Mais do que bela, a natureza e majestosa e envolta em misterio, sendo considerada sagrada. A relacao com a humanidade nao se da em pe de igualdade: o homem aparece como pequeno, submetido as suas regras e silenciado perante sua grandiosidade. A superioridade e tao grande que ela deve permanecer intocada, os humanos devem apenas contempla-la. Os ambientes sao extraordinarios e qualquer interferencia na natureza prejudicaria a harmonia e a beleza presentes.

Admirada

A natureza e bela e deve ser admirada. O homem pode conviver, sem interferir ou danificar, aproveitar a dadiva que os ambientes proporcionam. A natureza e tambem acolhedora, um lugar de retorno ao qual os homens podem recorrer quando buscam ar puro, terra fertil, agua cristalina, alem de uma flora e fauna exuberantes. A natureza, em seus qualitativos, acaba sendo de certa forma instrumentalizada: sua calma, beleza e sabores adquirem valor e diversos servicos sao oferecidos, sobretudo de ecoturismo e gastronomia. A natureza pode assumir caracteristicas e virtudes humanas como a bondade, sabedoria, paciencia.

Preservada

A preservacao da natureza aparece segundo duas perspectivas: em favor de uma harmonia entre homem e natureza e para a protecao dos recursos naturais que mantem nossa especie viva. Embora a humanidade seja percebida como separada da natureza, ha o reconhecimento de que e preciso criar acoes que permitam um meio termo entre o que os humanos precisam e querem, aliando desenvolvimento com a preservacao dos ambientes naturais. As atitudes humanas buscam um equilibrio sustentavel que nao exceda os limites da natureza nem prejudique as proximas geracoes no suprimento de suas necessidades, propondo a criacao de produtos biodegradaveis, reciclagem e producao de energias renovaveis. A sustentabilidade e um valor.

Simbiotica

Ha o reconhecimento de que o homem, sua historia e sua cultura fazem parte da natureza. Ha uma conexao que envolve o respeito e o reconhecimento das diversidades, buscando o equilibrio e a harmonia com as demais formas de vida. A natureza e vivenciada como fonte de subsistencia e de conhecimento. O homem se adapta ao meio: o mundo natural nao e visto de fora, mas atraves de um sujeito que faz parte dele. Sao exemplos de atitudes simbioticas: respeitar o ritmo da natureza, favorecer metodos tradicionais de cultivo e criacao e o bemestar dos animais.

Ameacada

O homem, incessantemente, destroi a natureza, que e incapaz de se defender por conta propria. A natureza e martirizada, tem-se um cenario de pilhagem ecologica em que a humanidade, na marcha rumo ao progresso, armada pelo conhecimento cientifico, e indiferente aos efeitos de suas atitudes e ignora sua vitima. Existe tambem uma relacao paradoxal: em oposicao a destruicao causada pela acao humana, o homem se coloca como vigilante e protetor da natureza, que e uma vitima agonizante, precisando de ajuda.

Domesticada

O meio aparece como subjugado ao homem, sendo domesticado para atender as suas demandas. A natureza e vista como desprovida de valor proprio, existindo somente para servir, sendo explorada na forma de "recursos naturais". A natureza e dominada, ordenada, classificada, produzida artificialmente, a partir de um pensamento ligado ao racionalismo e cientificismo, cujo objetivo e o dominio do conhecimento. Os danos ambientais sao justificados pela missao civilizadora, pela necessidade do"fazer ciencia"e do progresso/desenvolvimento que tenta retirar dela todos os perigos e ameacas, dando poder, liberdade e conforto para a vida em sociedade. A propria sociedade opera de maneira coercitiva, lutando para sobrepor o racional ao instintivo. Assim, ha uma ruptura entre homem e natureza, a partir da visao utilitarista segundo a qual o mundo natural e um objeto e o humano o sujeito que usufrui dele.

Punidora

Quando destruida pelo homem, a natureza revida. Ao desrespeitar o equilibrio e o balanco natural, os humanos sao punidos severamente por uma natureza que e combativa, violenta, que intencionalmente causa desastres naturais e pragas. A natureza emerge como uma criatura complexa e impetuosa, que exige ser respeitada. Ha uma relacao de causa e consequencia: a acao destrutiva do homem seguida pela punicao colerica da natureza. Ela tambem assume caracteristicas humanas, como a furia e a vinganca.

Imprevisivel

A natureza age apesar da humanidade, de forma aleatoria e com causas desconhecidas. E percebida como inexoravel, indomavel, temida por sua forca e perigo eminentes. E o caso dos desastres naturais, incontrolaveis e marcados pela dificuldade ou impossibilidade de previsao, do ataque de pragas que consomem lavouras e de predadores, feras selvagens que agem de forma inesperada. O mundo natural e imprevisivel. Quando o ambiente age de forma a quebrar a expectativa que se tinha dele, o homem reconhece sua aleatoriedade e os perigos que enfrenta em um meio que nao consegue controlar.

Em termos quantitativos, encontramos os seguintes resultados, ano a ano nos dois veiculos analisados (Figura 1):
Figura 1: Conjuntos de imagens de natureza ano a ano em Folha de S.
Paulo e O Estado de S. Paulo (1995-2012)

FREQUENCIA Imagens de natureza em Folha de S.Paulo e O Estado de
S.Paulo (1995-2012)

IMAGENS         1995    1996    1997    1998    1999    2000    2001

Cultuada           7       1       3       2       6       1       5
Admirada          22      18      30      29      26      29      36
Preservada         3       2       5       3       8       8      15
Simbiotica         0       0       2       3       0       4       2
Ameacada           4       2       5       3      13      17      12
Domesticada        2       4       7       5       0       5       6
Punidora           2       2       0       2       0       1       1
Imprevisivel       1       3       3       3       0       7       4
TOTAL             40      32      55      50      53      72      81

IMAGENS         2002    2003    2004    2005    2006    2007    2008

Cultuada           5       3       1       2       5       2       3
Admirada          28      27      26      23      17      12      15
Preservada         9      11       5      14      13       7       7
Simbiotica         2       2       1       0       1       1       2
Ameacada           7       3       1       5       6       5       4
Domesticada        6       5       7       4       4      10       7
Punidora           1       0       4       3       0       1       1
Imprevisivel       6       4       1       5       2       3       4
TOTAL             64      55      46      56      48      41      43

IMAGENS         2009    2010    2011    2012    Total

Cultuada           6       0       2       1
Admirada          12      19      24      20        4
Preservada         6       8       7       3        1
Simbiotica         1       1       1       0
Ameacada           4       5       5       4        1
Domesticada        5       6       5       4
Punidora           1       2       0       3
Imprevisivel       6      11       6       1
TOTAL             41      52      50      36        9


Somando os totais dos anos e calculando suas porcentagens, temos abaixo (Figura 2) esses dados de modo mais visivel na ordem decrescente das frequencias:
Figura 2: Conjuntos de imagens de natureza em Folha de S. Paulo e O
Estado de S. Paulo

(1995-2012)

Imagens de natureza em FSP e OESP

IMAGENS           FREQUENCIA      %

Admirada                 413       45
Preservada               134       15
Ameacada                 105       11
Domesticada               92       10
Imprevisivel              70        8
Cultuada                  55        6
Punidora                  24        3
Simbiotica                23        3
TOTAL                    915    100,0


Com base na frequencia, observamos a predominancia da imagem admirada sobre as demais (representando 45% do total), uma admiracao da natureza entendida como "acolhedora, um lugar de retorno ao qual os homens podem recorrer quando buscam ar puro, terra fertil, agua cristalina, alem de uma flora e fauna exuberantes. A natureza, em seus qualitativos, acaba sendo de certa forma instrumentalizada: sua calma, beleza e sabores adquirem valor e diversos servicos sao oferecidos, sobretudo de ecoturismo e gastronomia".

Por uma leitura mais qualitativa, percebemos que grande parte dos materiais deste conjunto de imagens era da editoria de turismo, o que, na maioria das vezes, pressupoe que a natureza seja retratada de forma agradavel. Mas por que, na busca realizada, acabou-se por encontrar grande maioria de materias de turismo? Por um lado, a editoria pode ser, realmente, a que mais trata do assunto trabalhado. Por outro, pode ser que, enquanto o turismo foca a natureza como um algo mais idealizado e por isso da o destaque no titulo, outras materias tratam do assunto indiretamente, nao elegendo o termo para titular a peca. Isso porque, para relembrar, as noticias selecionadas para compor o corpus desta pesquisa responderam ao criterio de selecao da presenca da palavra natureza no titulo. E provavel que, no texto de uma reportagem de outras editorias, aparecam imagens de natureza. Mas o fato de termos limitado a busca as materias que continham a palavra natureza no titulo limitou a possibilidade de encontrar outras materias com outras tantas mencoes a natureza. Por exemplo, noticias cujas pautas tratassem de atitudes simbioticas, ou seja, das formas mais equilibradas de relacao do homem com a natureza, sem ter usado esta palavra no titulo nao foram selecionadas para a analise. Ou entao, em acontecimentos jornalisticos que tratassem de situacoes de riscos ou catastrofes naturais, os materiais noticiosos tenham recebido titulos mais sensacionalistas, nos quais a palavra natureza nao tenha sido utilizada e, por isso, tenham ficado invisiveis na acao de demarcacao do corpus.

Outra percepcao analitica diz respeito a segunda imagem com a segunda maior frequencia, a preservada (15%)--conforme a explicitacao desta categoria, "embora a humanidade seja percebida como separada da natureza, ha o reconhecimento de que e preciso criar acoes que permitam um meio termo entre o que os humanos precisam e querem, aliando desenvolvimento com a preservacao dos ambientes naturais. As atitudes humanas buscam um equilibrio sustentavel que nao exceda os limites da natureza nem prejudique as proximas geracoes no suprimento de suas necessidades, propondo a criacao de produtos biodegradaveis, reciclagem e producao de energias renovaveis. A sustentabilidade e um valor". Embora com diferenca marcante entre os dois jornais em separado, aqui, quando juntos, os materiais revelam o lugar de destaque que a ideia de necessidade de preservacao da natureza tem atualmente no nosso cotidiano.

Na sequencia, quase empatadas, aparecem as imagens ameacada (11%) e domesticada (10%). Analisando primeiramente a imagem ameacada, temos que, vindo logo apos o conjunto de imagens preservada, podemos dizer que a dupla preservada-ameacada costuma andar de par (ate mesmo em cada jornal elas ocorrem com a mesma proximidade). Em muitas materias essas duas imagens aparecem, com maior ou menor enfase, correlacionadas. Foi bastante comum, inclusive, encontrar referencias as duas imagens na mesma materia, por conta desse aspecto paradoxal que as une. Ou seja, na mesma medida em que o imaginario coletivo entende a natureza como ameacada, ele mobiliza esforcos e percebe a necessidade de preserva-la. Assim, o patamar alto de admirada seguido daqueles vinculados aos de preservacao ou de risco em busca de acoes preservacionistas revela a primazia dos qualitativos da natureza frente aos demais conjuntos de imagem que povoam nosso imaginario contemporaneo. Com relacao a domesticada, podemos entender que, apesar de perceber com admiracao a natureza e estar atenta a sua preservacao e as ameacas que sofre, a sociedade mantem sua visao pragmatica dos bens naturais, como origem de recursos necessarios para desenvolvimento das sociedades. Nesse material jornalistico, encontramos claramente a ideia explicitada na definicao que fizemos desta categoria/conjunto de imagens; a ideia de que "a natureza e dominada, ordenada, classificada, produzida artificialmente, a partir de um pensamento ligado ao racionalismo e cientificismo, cujo objetivo e o dominio do conhecimento. Os danos ambientais sao justificados pela missao civilizadora, pela necessidade do 'fazer ciencia' e do progresso/desenvolvimento que tenta retirar dela todos os perigos, dando poder, liberdade e conforto para a vida em sociedade. A propria sociedade opera de maneira coercitiva, lutando para sobrepor o racional ao instintivo. Assim, ha uma ruptura entre homem e natureza, a partir da visao utilitarista segundo a qual o mundo natural e um objeto e o humano o sujeito que usufrui dele".

A ocorrencia da imagem de natureza imprevisivel (8%), logo apos a da domesticada (10%), pode demonstrar a limitacao desse poder de dominar e controlar o mundo natural, uma vez que "o ambiente age de forma a quebrar a expectativa que se tinha dele" e o homem "reconhece sua aleatoriedade e os perigos que enfrenta em um meio que nao consegue controlar".

Com relacao as imagens de menor ocorrencia, temos cultuada (6%) e por ultimo, empatadas, as nocoes-vinculos simbiotica (3%) e punidora (3%). Interessante observar que essas tres sao as de maior carga mitica e antropologica: a cultuada, percebida como "mais do que bela, a natureza e majestosa e envolta em misterio, sendo considerada sagrada. A relacao com a humanidade nao se da em pe de igualdade: o homem aparece como pequeno, submetido as suas regras e silenciado perante sua grandiosidade. A superioridade e tao grande que ela deve permanecer intocada, os humanos devem apenas contemplala"; a simbiotica, com "o reconhecimento de que o homem, sua historia e sua cultura fazem parte da natureza" e com a "conexao que envolve o respeito e o reconhecimento das diversidades, buscando o equilibrio e a harmonia com as demais formas de vida"; e a punidora, pelo entendimento de que ao"desrespeitar o equilibrio e o balanco natural, os humanos sao punidos severamente por uma natureza que e combativa, violenta, que intencionalmente causa desastres naturais e pragas" e de que "ha uma relacao de causa e consequencia: a acao destrutiva do homem seguida pela punicao colerica da natureza", incorporando "caracteristicas humanas, como a furia e a vinganca".

Observando os resultados das frequencias com que as imagens aparecem nos materiais jornalisticos analisados, podemos concluir que, de modo geral, eles nos mostram a percepcao da natureza como um outro, algo externo a nos, humanos; num quadro de afastamento, como se o homem nao fizesse parte da natureza, seja a natureza tomada como um lugar prazeroso (admirada), exploravel (domesticada), em risco (preservada e ameacada) ou perigosa (imprevisivel). A natureza e admirada, domesticada, ameacada, preservada, cultuada, punidora e imprevisivel como um outro que nao e "nos". O fato de o imprevisivel apresentar tambem uma porcentagem consideravel pode querer nos dizer que o homem se mostra perplexo e por vezes assustado, pois, apesar de seus grandes esforcos, grande parte da natureza ainda e indomavel e assustadora. Tambem a ocorrencia da nocao-vinculo simbiotica ser tao baixa reforca a ideia de que a imagem mais forte no imaginario coletivo e a de uma natureza na qual o homem nao esta incluido, da qual nao faz parte, somente mora nela. A referencia quanto a sacralidade conferida a natureza e infima no corpus de pesquisa, como visto nos dados sobre natureza cultuada. A nao interferencia na harmonia natural parece muito distante de nos, inseridos que estamos na perspectiva hegemonica de desenvolvimento economico e tecnologico.

Para alem das frequencias, foi feita ainda uma analise dos movimentos temporais dessas imagens no decorrer dos 18 anos estudados, pela qual podemos perceber melhor o aumento ou a diminuicao de tais imagens no decorrer do periodo analisado. As variacoes das imagens de natureza entre 1995 e 2012 revelaram que a imagem admirada esta em patamar consideravelmente superior as demais (em 413 das 915 unidades--por forca da editoria de turismo como dito antes), com um pico no trienio 2001-2003, queda acentuada ate o trienio 2007-2009 e, finalmente, com uma subida significativa no ultimo trienio 2010-2012. Aqui seria necessaria outra investigacao para levantamento dos fatos ocorridos no ambiente/sociedade para compreensao mais profunda desse movimento temporal.

Outra questao relevante parece ser o crescimento do conjunto de imagens do conjunto imprevisivel no ultimo trienio, provavelmente em funcao do aumento de catastrofes ambientais--dados comparativos a serem levantados podem confirmar essa inferencia. Preocupante a queda constante de materiais jornalisticos em que a natureza preservada tem destaque na imprensa analisada. Se vinha em patamares mais altos, no ultimo trienio a nocao-vinculo preservacao voltou ao nivel dos registros do trienio inicial, ou seja, em 2010-2012 cai para o mesmo patamar de 1995-1997. Na correlacao temporal da cobertura jornalistica sobre natureza preservada ou que pede preservacao, tem-se a interferencia direta de ocorrencias de ligadas a catastrofes e crimes ambientais, como supostamente pode ser o caso do conjunto ameacada, que teve um pico no trienio 1998-2000--tambem aqui seria bem-vinda uma investigacao de conteudo/tematica para comprovar tal percepcao. Por fim, entre os destaques dessa analise temporal, podemos inferir que a percepcao da natureza como igual (simbiotica) e como superior ao homem (cultuada), alem de nao ser recorrente na sociedade, enfraqueceu-se no periodo analisado.

Nao ha como afirmar que tais movimentos, no decorrer dos 18 anos analisados, tratem de grandes tendencias. Talvez sejam fenomenos explicaveis por fatores externos a producao jornalistica (por exemplo, diminuicao ou aumento do numero de desastres naturais, divulgacao de estudos sobre o desmatamento etc.). O que se pode pensar de imediato e na propria fotografia que nos revelam os resultados de cada imagem em relacao umas as outras e, em alguns momentos, movimentos particulares de cada uma no passar dos anos.

Notas finais

Neste estudo, o que se buscou, de modo especifico, foi identificar e explicitar imagens de natureza na imprensa escrita brasileira, no intervalo de virada do seculo XX para o XXI, como bens de uma parcela especifica do inventario do imaginario coletivo e social--sem perder de vista a perspectiva historica, uma vez que a temporalidade e constitutiva do jornalismo. E sem ignorar tambem que os profissionais da imprensa adotam concepcoes de mundo de parte do seu publico justamente por estarem inseridos na mesma sociedade dos que consomem as noticias.

E, como objetivo mais amplo, procurou-se compreender a acao da imprensa nesse processo de producao, reproducao, criacao e circulacao de imaginarios. O jornalismo, tomado como uma "fonte que alimenta com imaginarios o cotidiano contemporaneo e, ao mesmo tempo, de imaginarios sociais alimenta a si mesmo" (Silva, 2010, p. 250), foi trabalhado aqui como um lugar de expressao do imaginario coletivo, um locus fecundo de observacao desses vestigios imaginais, uma vez que as noticias trazem toda a diversidade do mundo, da politica e da economia a arte e ao entretenimento, incluindo as proprias ocorrencias ordinarias, do dia a dia.

No que diz respeito diretamente as relacoes do jornalismo com as questoes da natureza e do mundo natural, eu diria que se trata de grande obrigacao academica, a de participar de problema tao central na sociedade contemporanea (6). Como bem explicitou a pesquisadora francesa Helene Houdayer, nos dias de hoje nos somos obrigados a trabalhar com uma nocao de ambiente olhando "nossos habitos de consumo, a maneira com que nos tratamos e percebemos os riscos (avalanches, inundacoes, climas, genericos etc.), o uso da tecnica", e isso, consequentemente, exige de nos uma nova postura de pesquisa, "pois nao se trata unicamente de descrever as relacoes com a natureza, mas inventar (ou reinventar) novos tipos de negociacao nas relacoes sociedade-natureza, novas praticas a partir das tecnicas e representacoes do meio natural" (Houdayer, 2017).

Para concluir, a umas das incontaveis problematicas de Kate Soper, em seu livro Whats is nature?:

A natureza tambem carrega uma carga simbolica imensamente complexa e contraditoria; e objeto de ideologias muito contrarias; e vem sendo representada em uma enorme variedade de maneiras diferentes. Em tempos recentes, passou a ocupar um lugar central na agenda politica como resultado da crise ecologica, onde os numeros sao um conceito geral atraves do qual somos convidados a repensar nosso uso atual de recursos, nossas relacoes com outras formas da vida, nosso lugar ai dentro e nossas responsabilidades em relacao ao ecossistema (Soper, 2000, p. 2, traducao nossa (7)).

O desafio em pensar respostas se da no enfrentamento da ruptura primordial entre natureza e cultura, entre homem e mundo natural. Nossa visao antropocentrica e, consequentemente, nossas acoes dificultam nosso entendimento do que e a natureza. Ate mesmo quando altamente admirada parece estar a servico do humano. Logo, nao ha nada de casual na configuracao das imagens de natureza produzidas e reproduzidas pela imprensa brasileira. Ha responsabilidades politicas e eticas. Foi isso o que se pretendeu discutir neste estudo.

DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2018.3.29126

Referencias

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Recebido em: 11/11/2017

Aceito em: 7/4/2018

Dados da autora:

Gislene Silva | gislenedasilva@gmail.com Universidade Federal de Santa Catarina

Pos-Doutora pela Escola de Comunicacao e Artes da Universidade de Sao Paulo (ECA-USP) (2009) e Universidad Complutense de Madrid (2016). Professora do Programa de Pos-Graduacao em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGJOR-UFSC) e Lider do Grupo de Pesquisa Critica de Midia e Praticas Culturais.

Endereco da autora:

Programa de Pos-Graduacao em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina Campus Universitario, s/no.--Trindade 88.040-970--Florianopolis (SC)--Brasil

Gislene Silva

Programa de Pos-Graduacao em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianopolis, SC, Brasil ORCID: 0000-0002-8105-5024

<gislenedasilva@gmail.com>

(1) As reflexoes deste topico estao mais aprofundadas e bem mais detalhadas na tese da autora sobre o imaginario rural e leitores urbanos (SILVA, G., 2009).

(2) Este modo de trazer no artigo o pensamento de Gilbert Durand para pensar imagens de natureza, mais metodologico, e diferente da maneira como a pesquisadora francesa Helene Houdayer discutiu Durand e natureza em sua conferencia num evento na PUCRS, Porto Alegre, no ano de 2015 (texto foi publicado na Revista Famecos, em 2017). Houdayer explica em Durand a engrenagem dos tres eixos dirigentes das imagens (postural, copulativo e digestivo) e dos dois regimes de significacoes (diurno e noturno) para problematizar diretamente a negociacao sociedade-natureza. Tambem eu, no livro O sonho da casa no campo: jornalismo e imaginario de leitores urbanos, trabalhei com textos de Durand de modo similar ao da pesquisadora francesa. No caso deste estudo aqui, busquei em Durand sua proposicao metodologica de mitocritica e mitanalise para pensar, no ambito da cobertura jornalistica sobre natureza, o transito entre textos especificos e discursos sociais alargados.

(3) Foi realizado, antes, um exercicio-piloto junto ao banco de dados do jornal Folha de S. Paulo, no qual se verificou no total das edicoes do ano de 2011 a ocorrencia da palavra 'natureza' em 1.200 textos; se considerada apenas a presenca do termo 'natureza' nos titulos desses materiais, havia o registro em 39 vezes e tambem outros 29 titulos com a palavra 'natural.

(4) Embora a Folha de S. Paulo tivesse em formato eletronico ate aquele momento as edicoes desde 1995, O Estado de S. Paulo havia comecado no ano de 1996--para viabilizar a juncao dos dados totais dos dois veiculos, foi criado o ano artificial de '1995' para o Estadao a partir da media de dois anos proximos (1996 e 1997), de modo a construir equilibradamente graficos com dados trienais. A opcao pela leitura em trienios para elaborar os graficos se deveu ao grande volume de unidades analisadas que, se dispostas anualmente, dificultavam a visibilidade dos dados nos graficos, como se poluido por tantas linhas e pontos.

(5) Importante registrar que participaram da manipulacao dos materiais empiricos os graduandos Luisa Tavares e Gabriel Shiozawa Coelho (bolsistas de Iniciacao Cientifica), a mestranda Danielle Sibonis (bolsista Capes) e Jeana Santos, em estagio pos-doutoral (bolsista Capes).

(6) Em sua dissertacao, Flavia Dourado Maia, por mim orientada, estudou nas edicoes da revista Globo Rural de 1985 a 2010 as transformacoes pelas quais as imagens e o imaginario de natureza passaram durante essas decadas e encontrou imagens muito diversas entre o imaginario antropocentrico e o biocentrico. A coexistencia de imagens tao contrastantes colocou em evidencia a permeabilidade da simbologia mitica as conjunturas historicas ou, em outras palavras, a historicidade do imaginario (MAIA, 2011). Isadora Ribeiro, mestrando tambem por mim orientada, pesquisou as representacoes sociais da ruralidade brasileira na revista Globo Rural de 1985 a 2015, verificando alteracoes, permanencias ou exclusoes nestas ou destas construcoes simbolicas ao longo das decadas. Igualmente ai, os resultados revelaram a grande variedade de imagens antropocentricas, tecnocentricas e biocentricas do mundo rural, onde a natureza tem destaque (RIBEIRO, 2017). Debate semelhante pode ser encontrado na dissertacao de Danielle Ferreira Sibonis, tambem defendida no Posjor/Ufsc e por mim orientada, sobre as representacoes socioculturais dos animais no jornalismo impresso brasileiro (SIBONIS, 2015).

(7) No original: "Nature also carries an immensely complex and contradictory symbolic load; it is the subject of very contrary ideologies; and is has been represented in an enormous variety of differing ways. In recente times, it has come to occupy a central place on the political agenda as a result of ecological crisis, where is figures as a general concept through which we are asked to re-think our current use of resources, our relations to other forms of life, and our place within, and responsabilities towards to the eco-system" (Soper, 2000, p. 2).
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Title Annotation:JORNALISMO; texto en portugues
Author:Silva, Gislene
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Date:Sep 1, 2018
Words:7898
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