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Illustration: the book in Vitrine and what Mais!?: The discourse about the book and the construction of images on subject-matter of Folha de S. Paulo/Ilustrando: O livro em Vitrine e o que Mais!?: o discurso sobre o livro e a construcao de imagens em materias da Folha de S. Paulo.

Introducao

Desde a Antiguidade ate os dias atuais, e consensual que o objeto "livro" sempre chamou muita atencao para si, pois quem possui um livro geralmente sabe ler e, em nossa sociedade, saber ler representa um determinado poder, poder este simbolizado pela primazia do livro como suporte da voz da razao e do saber, ou seja, como um demarcador do mundo da cultura e da erudicao.

Assim, poderiamos refletir tendo em vista o sistema dos livros como a expressao de uma vontade de verdade, definida nas palavras de Michel Foucault (2004, p.17) como sendo, possivelmente, o "[...] modo como o saber e aplicado em uma sociedade, como e valorizado, distribuido, repartido e de certo modo atribuido."

Desse modo, podemos inferir a constituicao de uma possivel ordenacao do discurso a partir da ordem apresentada pelos livros, uma vez que esta supoe toda uma cadeia em que estariam envolvidos elementos acerca da producao, da distribuicao, da comunicacao e, sobretudo, da recepcao e do acesso ao mundo dos livros, sendo relevante, portanto, uma analise nao so dos mecanismos que tocam a leitura, mas tambem um estudo a proposito do universo que a envolve e faz com que se desenvolva em suas diversas formas. (2)

Assim, e possivel observar que a midia de uma forma geral aponta como leitura exclusivamente a leitura de livros de literatura, sendo um bom leitor, portanto, o individuo que se aproprie dos textos dos grandes autores, das obras de referencia, ou seja, dos canones literarios.

Tendo em vista esse cenario e estabelecendo uma relacao por meio de uma abordagem de como a midia pensa e vislumbra o livro, e possivel afirmar que lhe e dado um tratamento "especial", seja no jornal, seja na revista, pois na grande maioria dos enunciados em que o "livro" e referenciado, lhe e atribuido um carater de entidade, de objeto sagrado.

A pesquisadora Isabel Travancas, em O Livro no jornal (2001), nos mostra as ligacoes entre esses objetos tao distintos e ao mesmo tempo tao proximos: o livro e o jornal. A autora aponta uma reflexao sobre a forma como o jornal se refere ao livro, ou seja, como um produto de uma sociedade de massa, um centro de noticia. Para realizar tal reflexao, faz uma comparacao entre quatro suplementos literarios--Ideias (Jornal do Brasil), Mais! (Folha de S. Paulo), Les Livres (Liberation) e Le Monde des Livres (Le Monde)--do Brasil e da Franca, paises formados por sociedades modernas, capitalistas, com uma industria cultura! dinamica e em que o livro possui grande valor simbolico. A autora afirma que

[...] os cadernos de livros dos quatro jornais podem ser vistos como uma categoria de apreensao da realidade. Como tal valorizam alguns aspectos do vasto universo dos livros, dos quais sao incentivadores e defensores. Um dos primeiros dados percebidos ao longo dessa analise e o lugar de destaque da literatura em geral e, nela, o romance e o genero predileto. (TRAVANCAS, 2001, p.61).

[...] Assim, os suplementos se tornam, por um lado, o lugar privilegiado de expressao do livro,--atingindo um publico especifico e segmentado, um publico considerado leitor em potencial dos livros ou 'ja leitor'-, e por outro o instrumento de transmissao de uma nocao particular da literatura e do livro de um modo geral. (TRAVANCAS, 2001, p.27).

Ela tambem observa que

[...] ainda que pareca obvio, o fato de o jornal defender o livro, lutar pela sua existencia e incentivar a leitura como ponto fundamental de crescimento de um pais, e por estar proximo a ele, ja que ambos sao fruto da escrita, importante aquisicao humana. [...] O livro e um objeto a ser 'protegido' e incentivado. (TRAVANCAS, 2001, p.66).

Motivados por esse breve panorama, passamos a observar os textos veiculados pelo jornal impresso de maior circulacao no Brasil, a Folha de S. Paulo, por meio de materias acerca de toda e qualquer referencia aos livros, publicadas principalmente em seu caderno de variedades, Ilustrada, e em seu suplemento literario, a epoca intitulado Mais!. Assim, pretendemos apresentar uma reflexao a partir da problematica proposta e debatida nos dominios dos estudos da Analise do Discurso de linha francesa (AD), tomando como referencia textos publicados pelo jornal em que o objeto "livro" e fonte de noticia. Os textos considerados aqui para analise foram veiculados no mes de marco de 2008.

Para realizar a analise vamos utilizar como referencial teorico conceitos debatidos por Dominique Maingueneau, a saber, aqueles relacionados as cenas de enunciacao. Procuraremos configurar nossos procedimentos de analise no intuito de perceber a construcao de imagens de leitores tomando como base o discurso sobre o livro em materias da Folha e projetando uma imagem de "leitor ideal" para cada tipo de caderno, supondo-se, neste momento ainda a priori, que o leitor do caderno Ilustrada e o do suplemento Mais! sejam, possivelmente, distintos. Essa percepcao nos conduz a pensar tal distincao a partir dos conceitos de ethos e pathos, representados, respectivamente, como a imagem do enunciador e a imagem do enunciatario, ambas determinadas pelo discurso.

Principios e procedimentos de uma analise discursiva: as cenas de enunciacao e a construcao de imagens pelo discurso--o ethos e o pathos

Considerando o breve cenario acima, passemos entao aos principios e procedimentos que nos ajudarao a refletir acerca de questoes que envolvem os nossos dados. Nosso referencial teorico esta definido a partir de categorias de analise elaboradas por Dominique Maingueneau. Segundo o autor, e por meio das formas literarias que se manifesta o pensamento que a literatura produz, lembrando que a literatura nao condiciona apenas um discurso sobre o mundo, mas produz, inclusive, sua propria presenca nesse mundo, no sentido em que

[...] a obra, por meio do mundo que configura em seu texto, reflete, legitimando-as, as condicoes de sua propria atividade enunciativa. Vem dai o papel crucial que deve desempenhar a 'cena de enunciacao' que nao e redutivel nem ao texto nem a uma situacao de comunicacao do exterior que se possa descrever. A instituicao discursiva e o movimento pelo qual passam de uma para a outra, a fim de se alicercar mutuamente, a obra e suas condicoes de enunciacao. Esse alicercar reciproco constitui o motor da atividade literaria. (MAINGUENEAU, 2006b, p.54).

Em outras palavras, o autor aponta ainda que

[...] 'vulgarizam-se', por exemplo, os enunciados cientificos, e nao os enunciados literarios. Para o comentario desses ultimos existe um conflito permanente entre duas instancias de legitimacao: os sabios, legitimados pela Escola, e os amadores, que reivindicam para si uma relacao privilegiada, pessoal com os textos. (MAINGUENEAU, 2006a, p.46).

Para caracterizar essa diversidade dos discursos, Maingueneau lanca mao de tres concepcoes de cenas de enunciacao: a cena englobante, a cena generica e a cenografia.

A cena englobante corresponde ao tipo de discurso, entendido como cenario mais amplo, em que teriamos os discursos: religioso, politico, publicitario, cientifico, literario, etc. E essa cena que permite nos situarmos para interpretar um texto, e e tambem responsavel por definir a situacao dos parceiros e de um determinado quadro espaco-temporal.

Ja a cena generica esta relacionada ao genero de discurso, em que cada genero define seus proprios papeis. Conforme exemplos mostrados pelo autor, em um panfleto de campanha eleitoral, o papel definido, quase que impositivamente, e de um candidato dirigindo-se a eleitores; ou em uma sala de aula, trata-se de um professor dirigindo-se a alunos.

Essas duas cenas, segundo o autor, irao nos conduzir a cenografia, responsavel por definir o espaco no interior do qual o enunciado adquire sentido, espaco esse determinado pelo tipo e pelo genero de discurso. Nesse sentido, a cenografia e uma constituicao discursiva e nao extradiscursiva:

Todo discurso, por sua manifestacao mesma, pretende convencer instituindo a cena de enunciacao que o legitima. [...] Com efeito, tomar a palavra significa, em graus variados, assumir um risco; a cenografia nao e simplesmente um quadro, um cenario, como se o discurso aparecesse inesperadamente no interior de um espaco ja construido e independente dele: e a enunciacao que, ao se desenvolver, esforca-se para construir progressivamente o seu proprio dispositivo de fala. [...] Desse modo, a cenografia e ao mesmo tempo a fonte do discurso e aquilo que ele engendra; ela legitima um enunciado que, por sua vez, deve legitima-la, estabelecendo que essa cenografia onde nasce a fala e precisamente a cenografia exigida para enunciar como convem, segundo o caso, a politica, a filosofia, a ciencia. (MAINGUENEAU, 2005, p.87-88).

Ainda, para Maingueneau (2005, p.229), e a cena enunciativa, "[...] com efeito, que desempenha o papel de pivo entre a organizacao linguistica do texto e o discurso como instituicao de fala e instauracao de um evento verbal no mundo." Afinal, para o autor, "[...] um texto nao e um conjunto de signos inertes, mas o rastro deixado por um discurso em que a fala e encenada." (MAINGUENEAU, 2005, p.85).

A caracterizacao dos discursos a partir da sua configuracao em diferentes cenas de enunciacao, tal como proposta por Maingueneau, mostra-se bastante apropriada para o tratamento dos dados que pretendemos focalizar. Alem disso, recorremos ainda a outras duas nocoes que nos ajudarao a empreender a analise desejada, a saber: as categorias de ethos e pathos discursivo.

Ainda que a nocao em torno do conceito de ethos seja, comumente, aquela proposta pela retorica aristotelica, revitalizada pela moderna retorica argumentativa, atualmente temos observado um novo dominio de configuracao deste termo dentro do campo da Analise do Discurso. O ethos, para a Retorica, se configura como um meio de persuasao, diferentemente do que se pode constatar em Analise do Discurso, em que ele e concebido como parte constitutiva da cena de enunciacao, uma instauracao progressiva de seu proprio dispositivo de fala, entendido como quadro e processo.

Desse modo, ainda segundo Maingueneau, a cenografia nao pode se configurar plenamente se nao puder controlar seu proprio desenvolvimento, assim como o ethos que dela participa, mantendo uma distancia em relacao a um co-enunciador, que nao pode agir imediatamente sobre o discurso, em que a fala, desde a sua emergencia, supoe uma certa cena de enunciacao que, de fato, se valida progressivamente por essa mesma enunciacao. Sao os conteudos desenvolvidos pelo discurso que permitem especificar e validar a propria cena e o proprio ethos, pelos quais esses conteudos surgem.

Corroborando as reflexoes desenvolvidas por Maingueneau, Fiorin (2008, p.139) tambem discute e opera com a nocao de ethos e afirma que
   [...] por conseguinte, o ethos explicita-se na enunciacao
   enunciada, ou seja, nas marcas da enunciacao deixadas no enunciado.
   [...] Trata-se de apreender um sujeito construido pelo discurso e
   nao uma subjetividade que seria a fonte de onde emanaria o
   enunciado, de um psiquismo responsavel pelo discurso. O ethos e uma
   imagem do autor, nao e o autor real; e um autor discursivo, um
   autor implicito.


Nesse sentido, podemos, alem do ethos, apreender tambem a imagem do enunciatario, o pathos, afinal aquele que fala constroi aquele que ouve e e, ao mesmo tempo, construido por ele; assim, o ethos e o pathos nos sao dados no texto e pelo texto, conforme podemos verificar em Fiorin (2008, p.157):
   Por outro lado, o enunciatario adere ao discurso, porque nele se ve
   constituido como sujeito, identificando-se com um dado ethos do
   enunciador. A eficacia do discurso ocorre, quando o enunciatario
   incorpora o ethos do enunciador. Essa incorporacao pode ser
   harmonica, quando ethos e pathos ajustam-se perfeitamente [...] ou
   complementar, quando o ethos responde a uma carencia do pathos.
   [...] A eficacia discursiva esta diretamente ligada a questao da
   adesao do enunciatario ao discurso. O enunciatario nao adere ao
   discurso apenas porque ele e apresentado como um conjunto de ideias
   que expressa seus possiveis interesses, mas sim, porque se
   identifica com um dado sujeito da enunciacao, com um carater, com
   um corpo, com um tom. Assim, o discurso nao e apenas um conteudo,
   mas tambem um modo de dizer, que constroi os sujeitos da
   enunciacao. O discurso, ao construir um enunciador, constroi tambem
   seu correlato, o enunciatario.


Tendo em vista as nocoes de cenas da enunciacao e as de ethos e pathos discursivo, em desenvolvimento nos dominios da Analise do Discurso de linha francesa, propusemo-nos a confrontar as materias que tematizam o "livro" nos cadernos selecionados da Folha de S. Paulo.

Ilustrando: o livro em Vitrine e o que Mais!?

Em sua circulacao habitual, a Folha de S. Paulo, no periodo em que foram publicados os textos que aqui analisaremos--marco de 2008-, contava com uma diversidade de cadernos: o primeiro, que versava sobre questoes relacionadas a opiniao do jornal, bem como aquelas relacionadas ao "mundo do poder", com noticias nacionais e internacionais; um segundo, que focalizava assuntos economicos; um terceiro caderno, em que eram abordadas noticias do "cotidiano", alem de temas de divulgacao cientifica e de saude; um caderno sobre esportes; o caderno de variedades, denominado Ilustrada, basicamente constituido por textos de entretenimento, sobre cinema, musica, teatro, televisao, e tambem com noticias do mundo das celebridades; e um ultimo, que poderia ser definido como um suplemento literario. A epoca da realizacao de nossa coleta de dados, este caderno tinha como titulo Mais!; entretanto, por conta de uma reformulacao grafica e editorial do jornal, ocorrida em meados do ano de 2010, este caderno passou a se chamar Ilustrissima, e, de uma certa forma, ficou mais "forte" que antes, pois e possivel perceber que sao tratados, de maneiras diversas, assuntos relacionados a aspectos da cultura em geral, e nao apenas de temas relacionados ao mundo dos livros, sendo sua circulacao apenas aos domingos, tambem como acontecia em 2008.

Considerando a constituicao do jornal desse momento, podemos observar que, usualmente, a Folha publicava notas, resenhas, materias comentando o lancamento de livros, enfim, uma gama de textos de generos variados que forma o todo do jornal. No caderno de variedades da Folha, a Ilustrada, essa multiplicidade de materias e maior, ja que sua circulacao e diaria e seu publico leitor e bastante heterogeneo. Porem, as edicoes de sabado desse caderno dao uma atencao especial aos livros, pois nelas sao publicadas resenhas e uma serie de outros textos em que o objeto "livro" e o assunto principal.

Diferentemente da Ilustrada, o caderno Mais!, conforme ja mencionamos, no ano de 2008 circulava apenas aos domingos; tratava nao so de livros, mas de assuntos mais "densos", afinal muitos dos autores desses textos sao intelectuais e professores universitarios renomados. Podemos observar uma linguagem mais "apurada", mais rebuscada, seja na sintaxe seja na selecao lexical. Nesse sentido, apontaremos como exemplo um texto publicado no domingo, dia 02 de marco de 2008, na secao "Biblioteca Basica" desse suplemento.

Para cada epoca da vida, tive um livro mais importante: A Biblia, ' Crime e Castigo' (Dostoievski), 'O Ateneu' (Raul Pompeia), 'Clara dos Anjos' (Lima Barreto), 'Introducao a Revolucao Brasileira' (Werneck Sodre). Meu livro de longa duracao e 'Memorias do Carcere' [ed. Record], de Graciliano Ramos. Nao e ficcao, nao e memoria, nao e depoimento politico, e tudo isso.

O conteudo (a brutalidade da cadeia) so se revela por meio daquela forma. 'Memorias do Carcere' e a chave dos romances de Graciliano. A chave esta fora, embora tambem seja texto. Um fora dentro. (SANTOS, 2008).

O texto publicado pelo jornal foi reproduzido integralmente, para demonstrar como as materias desse tipo de secao apresentam a apreciacao de um intelectual ou pessoa de destaque sobre livros que deveriam compor a nossa "biblioteca basica".

Retomamos aqui a observacao feita pelo jornal: Joel Rufino dos Santos (2008) (autor do texto publicado pelo Mais!) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e elabora um breve comentario a respeito do livro Memorias do Carcere, de Graciliano Ramos (anexo 01). (3) E interessante observar que o professor autor cita o titulo de outras obras--a Biblia; Crime e Castigo, de Dostoievski; O Ateneu, de Raul Pompeia; Clara dos Anjos, de Lima Barreto; e ainda, Introducao a Revolucao Brasileira, de Werneck Sodre--e as retoma ao apresentar a obra que vai comentar. Desse modo, ao considerarmos o texto publicado pelo jornal, e possivel constatar que, mesmo em uma pequena extensao, e por meio de uma linguagem um pouco mais elaborada como o recurso a oximoros e antiteses, por exemplo--"nao e ficcao, nao e memoria, nao e depoimento politico, e tudo isso" ou "um fora dentro"--pode-se tecer um comentario nao tao simples, tendo em vista o suporte em que se veicula um texto e quem se espera que va ler esse texto.

Em um outro exemplo (anexo 02), tambem publicado nessa secao, no dia 09 de marco de 2008, o diretor da companhia teatral "Os Satyros", Rodolfo Garcia Vazquez (2008), tece uma analise sucinta do livro Etica contra estetica, da autora espanhola Amelia Valcarcel. Segundo Garcia Vazquez, em seu livro a autora aborda, a partir de uma relacao entre o "bem" e o "belo", aspectos "[...] das visoes dos pensadores classicos e sem dar uma resposta definitiva a esse combate de valores supremos.", que, na opiniao do diretor teatral, em um pais como o Brasil, uma reflexao como essa seria essencial aqueles envolvidos com o mundo das artes e da cultura de um modo geral.

Assim, por meio das palavras de Isabel Travancas e tendo em vista esses exemplos retirados do caderno Mais!, podemos considerar o suplemento literario como

[...] nao sendo mais um espaco de critica literaria, mas um lugar predominantemente jornalistico com contribuicoes mais ou menos frequentes dos academicos. Como tal estao mergulhados em uma logica jornalistica que define os cadernos a partir do conceito de noticia. (TRAVANCAS, 2001, p.16).

Por outro lado, notamos que em quase todos os textos publicados na Ilustrada ha, ao final da resenha, um pequeno quadro descritivo em que sao apresentadas informacoes acerca dos livros "noticiados": titulo, autor, tradutor (caso seja uma obra de literatura estrangeira), editora, valor (referencia ao preco), numero de paginas e, uma informacao extra para o leitor, uma avaliacao a proposito do livro, avaliacao essa que pode variar, apontando o livro como otimo, bom ou regular.

Na sua edicao do sabado, dia 08 de marco de 2008, a Ilustrada publicou um texto de autoria de Noemi Jaffe (2008) (anexo 03), que, em "colaboracao para a Folha", apresenta a coletanea de Historias para ler sem pressa, traducao de Mamede Mustafa Jarouche de trinta narrativas curtas produzidas entre os seculos 8 e 18, em que se pretende retratar, por meio da irreverencia, a sabedoria arabe. Sao textos retirados de fontes como "O Livro das Grandes Categorias" ou "O Livro dos Inteligentes", em que a sabedoria, assim como a inteligencia, e vista como virtude, desenvolvendo-se a partir da experiencia, e exigindo, portanto, tempo para se consolidar. Nas Historias, diz a articulista, os sujeitos sao representados pelos tipos ja conhecidos: o avarento, o ridiculo, ou o esperto que nao se da bem no final; assim como tambem estao presentes os justos, os generosos ... Jaffe afirma, ainda, que as passagens sao relatadas de forma simples, porem, sem permitir que o leitor seja encaminhado ao senso comum a respeito da boa moral e dos bons costumes.

Como ja mencionamos, ao final do texto nos deparamos com informacoes a respeito da obra resenhada: titulo; organizacao e traducao (nesse caso, por se tratar de uma coletanea de textos estrangeiros organizados e traduzidos por Mamede Mustafa Jarouche); a editora que esta publicando o livro; qual sera o preco do livro quando estiver a venda; numero total de paginas; alem de um conceito (avaliacao) do jornal sobre a obra que, nesse caso, foi considerada otima.

Vejamos ainda um outro texto desse mesmo fasciculo. Tambem em 08 de marco de 2008, foi publicada uma materia que noticiava a reedicao de duas obras de Joao Ubaldo Ribeiro: Sargento Getulio e Viva o povo brasileiro (anexo 04). Alem de anunciar o relancamento de titulos do autor baiano pela editora Alfaguara/ Objetiva, o colunista Manuel da Costa Pinto (2008) apresenta ao leitor o enredo dos livros, bem como caracteristicas do estilo de Ubaldo Ribeiro. Ao final da resenha, as obras Sargento Getulio e Viva o povo brasileiro sao, respectivamente, classificadas como otima e boa.

Abordando aspectos semelhantes, o caderno Mais! tambem publicava resenhas seguindo esse formato, entretanto nao apresentava informacoes tao explicitas no sentido de conduzir (ou nao) o leitor do jornal a leitura do livro que esta sendo resenhado. Quando da analise acerca do caderno Mais!, comentaremos esse tipo de resenha a fim de explicitarmos parametros possiveis de comparacao.

Na edicao de domingo, 09 de marco de 2008, o caderno Mais! veiculou um texto da jornalista Sylvia Colombo (2008) a respeito do lancamento, no Brasil, do livro Cartas a mae, em que estava sendo trazido a publico o depoimento da franco-colombiana Ingrid Betancourt, a epoca, mantida refem pelas FARCs ja ha seis anos (anexo 05). O livro tinha como texto principal a reproducao integral da carta que Betancourt destinou a sua mae, Yolanda, e aos filhos, Melanie e Lorenzo. A edicao brasileira trazia ainda um prefacio do Nobel da Paz, Elie Wiesel, e um posfacio de Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor da Universidade de Brasilia (UnB), alem de um texto resposta dos filhos da "prisioneira". Diferentemente dos textos da Ilustrada comentados acima, as informacoes a respeito do livro nao estao dispostas ao final da resenha, como uma especie de quadro, mas sim ao longo do corpo do texto de Sylvia Colombo, bem como nao ha mencao de qualquer tipo de avaliacao da Folha considerando o livro resenhado otimo, bom ou regular, como costuma ser a pratica do caderno de variedades Ilustrada ao final de suas resenhas.

Um outro exemplo como esse e o texto de Eduardo Rodrigues da Cruz (2008), publicado na edicao de 16 de marco de 2008 do Mais! (anexo 06). Em "especial para a Folha", o professor do Departamento de Teologia e do Programa de Pos Graduacao em Ciencias da Religiao da PUC de Sao Paulo apresenta consideracoes a proposito da sua leitura do livro O espirito do ateismo, de autoria do filosofo Andre Comte-Sponville, que estava sendo lancado. Rodrigues da Cruz elabora um texto repleto de referencias a outros filosofos e pensadores no sentido de dialogar com o tema da obra a ser resenhada, terminando seu texto com a recomendacao da leitura do livro de Comte-Sponville e se desculpando por nao ter tido a oportunidade de comparar a traducao com o original em frances: "E um livro que vale a pena ser lido, nao so por apresentar o pensamento de um influente filosofo contemporaneo como por seu estilo agradavel, acessivel e eminentemente pessoal. Nao pude compara-lo com o original frances, mas a traducao nao parece apresentar problemas."

Tendo em vista esses dois textos focalizados, e possivel observar que, diferentemente do que acontece com a Ilustrada, nas indicacoes do Mais! geralmente nao ha um indicio de apreciacao do jornal sobre o livro em questao: ou seja, podemos inferir que, diante dos textos veiculados pelo suplemento, o leitor possuiria uma certa autonomia para saber se a sugestao lhe sera proveitosa ou nao, sem que seja necessaria a explicitacao da apreciacao do jornal a respeito. O que avalizaria a recomendacao da leitura, portanto, e o articulista e nao uma mencao didatica especifica do jornal.

Considerando ainda outros aspectos, lembramos que a primeira secao do suplemento literario Mais! era "Os Dez +" que, segundo a definicao do proprio jornal, se caracterizava como "uma selecao de livros e eventos culturais indicados pelo caderno". Nesse caso as indicacoes a respeito dos livros trazem sempre uma breve descricao da obra, alem de informacoes como preco, editora, numero de paginas, etc.

Na edicao de domingo, dia 09 de marco de 2008, por exemplo, essa secao anunciava a chegada de mais sete titulos ao mercado (OS DEZ..., 2008a) (anexo 07): um "combo" com dois livros de Joao Ubaldo Ribeiro, Sargento Getulio e Viva o povo brasileiro--obras essas que ja haviam sido tambem noticiadas pela Ilustrada; e, ainda, Kafka a beira-mar, de Haruki Murakami; Isto e biologia, de Ernst Mayr; uma reedicao do livro Abdias, segundo romance de Cyro dos Anjos; Para ler como um escritor, de Francine Prose; a coletanea de contos A femea da especie, de Joyce Carol Oates, e Putas assassinas, de Roberto Bolano.

Uma semana depois, no dia 16 de marco de 2008, essa mesma secao trazia como sugestao outros sete titulos (OS DEZ ..., 2008b) (anexo 08): A Republica, um ensaio do professor de filosofia da Universidade de Cambridge, Simon Blackburn, sobre a obra de Platao; O povo de Luzia--Em busca dos primeiros americanos, relato de Walter Neves e Luis Pilo sobre suas pesquisas em paleontologia; O mito individual do neurotico, reuniao de tres textos do psicanalista Jacques Lacan; A mulher que fugiu de Sodoma, reedicao do romance de Jose Geraldo Vieira; tambem uma outra reedicao, do livro Ascensao e queda do Terceiro Reich, de William L. Shirer; Nothing to be frightened of de Julian Barnes, e Vestigio, de Patricia Cornwell.

Ja na Ilustrada ha uma secao que tem como titulo "Vitrine", em que sao expostos os "produtos da semana", seguindo basicamente os mesmos principios que a secao "Os Dez +" do caderno Mais!. Os livros sao divididos entre ficcao e nao ficcao; sao apresentadas informacoes basicas como a editora e os seus precos. Porem, a "Vitrine" tambem traz uma breve biografia sobre o autor, uma pequena resenha sobre o tema abordado pelo livro e ainda, e principalmente, explicita a razao pela qual deveriamos ler os livros em destaque, como uma justificativa da indicacao dos titulos pelo caderno.

Na sua edicao do dia 08 de marco de 2008, temos como destaque os seguintes livros (VITRINE, 2008a) (anexo 09): A cidade inteira dorme, do escritor norte americano Ray Bradbury; La bodega, do consagrado escritor Noah Gordon; Creta, de Antony Beevor; e Por que as zebras nao tem ulceras?, do biologo e neurologista Robert M. Sapolsky. Na edicao de sabado, dia 29 de marco de 2008, por exemplo, temos informacoes sobre os seguintes livros (VITRINE, 2008b) (anexo 10): Particulas elementares, do escritor frances Michel Houellebecq; Toda poesia de Machado de Assis, de Machado de Assis; Descobertas perdidas, do autor norte-americano Dick Teresi; e Japoneses--A historia do Sol Nascente, de Marcia Yumi Takeuchi.

Por sua vez, o caderno Mais!, paralelamente a secao "Os Dez +", publicava uma outra coluna, a dos "+ Lancamentos". Nesta, porem, nao havia indicacao de eventos culturais, mas apenas sugestoes de livros, em que se divulgavam os lancamentos daquela semana, basicamente utilizando-se das mesmas informacoes da outra secao, conforme podemos constatar por meio dos exemplos publicados em 02 e 30 de marco de 2008, apresentados nos anexos 11 e 12, respectivamente.

Semanalmente, eram listados em torno de dez titulos. No sentido de ilustrar essa ocorrencia, mencionaremos aqui apenas seis, sendo os tres primeiros da relacao publicada no dia 02 de marco, e os outros tres, no dia 30: Brasil--Paisagens naturais, de Marcelo Leite; Hibridismos musicais de Chico Science e Nacao Zumbi, de Herom Vargas; Leitura, literatura infanto-juvenil e educacao, de Celia Regina Delacio Fernandes; A memoria, a historia, o esquecimento, de Paul Ricoeur; Escrever sobre escrever, de Claudia Amigo Pino e Roberto Zular, e Sotaques d'aquem e d'alem mar, de Manuel Carlos Chaparro.

Desse modo, ao compararmos as materias de cada caderno, podemos observar que ha uma certa predominancia de textos de divulgacao de literatura nas materias veiculadas pela Ilustrada, ou seja, os textos mais parecem anuncios, nos quais e possivel perceber a prescricao do livro e da leitura. Alem disso, por meio desse "discurso de divulgacao do livro", podemos apreender o espetaculo que envolve esse universo, afinal, e a recomendacao da Folha, projetada como voz da autoridade, que possui o conhecimento a respeito de determinada obra, que deve operar como o criterio relevante para o leitor nas suas escolhas.

Essa observacao pode ser comprovada tambem nos textos-anuncio acerca de alguns titulos disponibilizados a venda pelo proprio jornal, em uma colecao: a "Colecao Folha Grandes Escritores Brasileiros". A cada domingo, ao comprar o jornal, o leitor poderia levar consigo uma obra de destaque da literatura brasileira. Na edicao da Ilustrada do dia 02 de marco de 2008, esse "anuncio" tinha como foco o livro O sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade (COLECAO ..., 2008) (conforme anexo 13). Para tanto, e apresentado algo semelhante a um resumo do estilo do autor mineiro, alem de caracteristicas da obra que estava sendo anunciada, que, segundo o texto, seria o quarto livro da colecao que estaria a venda.

Em 30 de marco de 2008, noticiava-se a venda do livro da semana seguinte: Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (LIVRO..., 2008) (anexo 14). Assim como o exemplo anterior, esse tambem segue a mesma cenografia, a mesma estrutura das resenhas cujo objetivo nao era outro que nao o de servir de propaganda da propria Folha ao despertar o interesse de seus leitores para que pudessem se sentir motivados a adquirir a obra em destaque.

Tendo em mente o nome da colecao--"Colecao Folha Grandes Escritores Brasileiros"-, e considerando observacoes feitas pela pesquisadora Isabel Travancas,

[...] e como se existisse uma grande enciclopedia literaria sendo construida pela elite intelectual, que indica o que deve ser selecionado e o que deve ser excluido, apontando o que deve ser lido e permanecer para a posteridade. Muitas vezes os meios de comunicacao reforcam estas escolhas, apresentando e reapresentando estas obras para o consumidor, estimulando-o a gostar do ja conhecido e do ja visto. (TRAVANCAS, 2001, p.85).

Ainda no que concerne a comparacao entre os dois suplementos aqui focalizados, um outro aspecto a se observar diz respeito a autoria dos textos veiculados. Muitas vezes, na Ilustrada nao ha referencia ao autor da materia, que quase sempre vem apresentada como "da reportagem local"; enquanto que, no suplemento literario--Mais!-, alem de as materias serem frequentemente assinadas e o autor ter o seu nome revelado, elas exibem sempre a mencao "em colaboracao para a Folha", "em especial para a Folha", e raros sao os textos apresentados como "da redacao".

Dessa forma, tendo em vista alguns dos textos publicados pelo jornal, em que procuramos exemplificar a materialidade do discurso acerca da tematica que envolve os livros e que a Folha faz circular, retomando o conceito de cena de enunciacao proposto por Maingueneau, mais do que classificar as materias como cenas englobantes ou cenas genericas conforme a conceituacao proposta pelo autor, acreditamos que possa ser pertinente, ou ainda producente, considerar os textos veiculados pela Folha tendo em mente o conceito de cenografia, uma vez que esta cena nao e imposta apenas pelo tipo ou pelo genero de discurso, mas sim instituida pelo proprio discurso.

Consideracoes finais

Considerando os exemplos que apresentamos anteriormente, e possivel apreender cenografias distintas, dados os assuntos abordados e, principalmente, o caderno em que cada um desses textos e veiculado. A coluna "Vitrine" da Ilustrada, por exemplo, se constitui de maneira diferente da coluna "Os Dez +" ou daquela dos "+ Lancamentos", publicadas pelo suplemento Mais!. Ainda que tenhamos basicamente as mesmas informacoes em todas elas, o que as torna diferentes e justamente o carater de recomendacao, de prescricao do livro e da leitura, com construcoes do tipo "por que ler", presentes nas indicacoes do caderno de variedades, ou ainda com a divisao entre categorias como "ficcao", "nao ficcao" ou "romance", bem como por meio de informacoes de quem foi o autor, contextualizacao do tema abordado pela obra, etc., configurando, desse modo, uma cenografia "professoral", pedagogica.

Outra configuracao cenografica e a dos textos-anuncio, a proposito da venda de titulos consagrados da literatura brasileira pelo proprio jornal. Esses textos sao, na verdade, publicidade, uma vez que a intencao da Folha nao e, ou nao seria, promover determinado autor ou determinada obra, mas sim, basicamente, convencer o leitor de que o livro que sera disponibilizado naquela semana e interessante e, portanto, deveria ser adquirido, ja que se trata de um texto de um "grande escritor" nacional. Contudo, a cenografia e a que mimetiza a resenha literaria.

A principal cenografia configurada pelas materias do Mais! e a do ensaio academico ou da resenha critica, que se constituem como um discurso elaborado e dirigido a um interlocutor culto, capaz de assimilar e avaliar o seu teor. Assim constituido, esse tipo de discurso, de cenografia, projeta um ethos competente, academico: que atesta dominio, "expertise" sobre o assunto. Esse ethos discursivo e constituido tanto a partir das imagens projetadas pelas materias assinadas, quanto pela imagem do suplemento como um todo, bem como pela imagem de seu co-enunciador, o leitor projetado e considerado por esse discurso, o pathos do enunciatario: um leitor culto, ou interessado em cultura, com discernimento e capacidade de arbitrio.

Ja a cenografia apreendida pelos textos do caderno Ilustrada e aquela que remete a uma resenha jornalistica, com cunho puramente informativo, em que sao abordados aspectos que auxiliarao o leitor nas suas escolhas, ou ainda, que podem conduzi-lo na tomada de decisoes, de forma a elaborar assim seu ponto de vista. Os textos tem um forte carater de aconselhamento ou de recomendacao de leituras e de assuntos que deveriam ser do interesse do co-enunciador; nesse sentido adquirem um teor didatico, que contribui para configurar uma cenografia "professoral" nesse caderno.

Esses textos muito se assemelham aqueles presentes em uma revista semanal de variedades, com temas do mundo da cultura e do entretenimento, projetando a imagem tanto de um enunciador como de um enunciatario como o "descolado", semelhante a propria imagem projetada pelo jornal: seus interesses sao variados; seu envolvimento com as manifestacoes culturais sao diversas, interessando-se, inclusive, por aquelas tidas como alternativas.

Ainda que essa seja a imagem projetada do jornal e esteja subjacente aos discursos presentes nas materias de ambos os cadernos focalizados, a imagem que se apreende de cada um deles e perceptivelmente diferente, como se pode verificar pelas cenografias postas em jogo em cada um: uma tutelar, outra academica. Tambem o ethos projetado ai sera diferente e contribuira para consolidar a distincao ora apontada.

Observando-se entao as diferencas demarcadas, seja em relacao as cenografias preferenciais em cada caderno, seja em relacao a constituicao e assuncao do ethos e do pathos dos co-enunciadores, acreditamos fortemente que a diferenca nao so em relacao a linguagem utilizada na composicao dos textos, mas tambem na constituicao dos discursos sobre livros veiculados pelo jornal, deve-se, certamente, ao publico a que se destinam esses textos. Infere-se, entao, a partir da imagem de leitor projetada pelo ethos discursivo do enunciador da Ilustrada, um enunciatario que, muitas vezes, se constitui a partir e por meio da visao proposta pelo jornal, este um ethos projetado de autoridade maxima, de alguem dono de um saber douto sobre a questao, isto e, sobre a recomendacao de livros e leituras. Ao contrario, o leitor do Mais! e assumido como um leitor com formacao previa e que, ao se deparar com as indicacoes do caderno, se questiona sobre o seu interesse e serventia.

A analise demonstra que ha, basicamente, duas imagens de leitores consideradas pelos textos da Folha S. Paulo para a constituicao e projecao do ethos das materias em que aborda o objeto "livro". O ethos estabelecido pela Ilustrada seria o de um enunciador generoso, solidario com o seu publico, uma vez que, alem de apresentar inumeras informacoes acerca do mundo dos livros, recomenda aos leitores o que ler; esse ethos, segundo a caracterizacao classica da retorica, se configuraria como eunoia, que se constitui por meio da benevolencia, permitindo ao seu enunciatario uma imagem agradavel de si, afinal o orador nutre simpatia pelo seu auditorio. Ja a imagem que apreendemos a partir dos textos do Mais! e aquela em que vale a prudencia, o bom senso, a ponderacao, pois os textos nos permitem visualizar um enunciador competente, sensato, que nao precisa exprimir maiores informacoes, uma vez que seu interlocutor compartilha de um mundo proximo ao seu, ou seja, e tambem este um intelectual, um erudito ou mesmo um principiante nessas artes, um amador das letras; nesses casos a relacao que se estabelece e mais simetrica: temos entao um ethos baseado na phronesis, podendo ser classificado como ponderado. Ainda, conforme caracterizacao proposta por Fiorin (2008), poderiamos, inclusive, supor uma incorporacao harmonica, quando ethos e pathos ajustam-se perfeitamente, que seria a condicao apresentada pelo Mais!; ou complementar, que seria aquela vislumbrada pela Ilustrada, em que o ethos responderia a uma carencia do pathos.

Nesse sentido, podemos pensar que, ao tomar como base os discursos sobre o livro veiculados pela Folha de S. Paulo, tendo como cenario as materias publicadas na Ilustrada e no Mais!, teriamos a configuracao de, pelo menos, dois pathos, sendo o primeiro aquele leitor atribuido pela Ilustrada, que necessita das indicacoes do caderno e que, em certa medida, e persuadido pela opiniao do jornal. Ja o segundo seria aquele construido pelas imagens dos textos do Mais!, um leitor relativamente mais autonomo, tido, na verdade, como mais um de um grupo de pares, afinal, e possivel notar a seguinte caracteristica: os textos que encontramos no suplemento literario supoem que muitos dos temas que sao abordados, debatidos, ja sao de conhecimento do publico, sendo desnecessarias, portanto, informacoes de ordem mais basica, generica.

Por fim, podemos apontar que o objeto "livro" se constitui como "unidade de valor" nos cadernos de cultura da Folha de S. Paulo, seja o caderno de variedades, Ilustrada, seja o suplemento literario, Mais!. De qualquer maneira, esse assunto "valorizado", serio, nao e tratado do mesmo modo pelos dois cadernos, assim como tambem nao o e pelo ethos do proprio jornal. Dessa forma, entao, tal distincao so pode ser atribuida ao enderecamento que a materia tem, mesmo que consideremos a configuracao de diferentes cenografias, conforme as categorias analiticas desenvolvidas por Maingueneau que procuramos recuperar, e que pretendemos associar a composicao do jornal ao caracterizar a materialidade do discurso sobre o livro, sobre a prescricao de livros e leituras em suas paginas.

Nesse sentido, a causa, o responsavel por essa abordagem distinta dos temas relacionados ao mundo dos livros e o leitor, sendo possivel afirmar que o que define a diferenca do tratamento jornalistico, no caso em tela, e o pathos, ou ainda, a imagem do enunciatario, que e diferente para cada caderno, conforme pudemos apreender pelos textos que trouxemos a titulo de ilustracao.

Anexos

Organizados sob a forma de anexo, dispusemos aqui os textos publicados pela Folha de S. Paulo que foram apresentados no corpo do trabalho, no sentido de procurar demonstrar as recorrencias discursivas que privilegiamos em nossa analise.

Anexo 01:

Sao Paulo, domingo, 02 de marco de 2008 +mais!

Biblioteca Basica

Memorias do Carcere

JOEL RUFINO DOS SANTOS

ESPECIAL PARA A FOLHA

Para cada epoca da vida, tive um livro mais importante: A Biblia, "Crime e Castigo" (Dostoievski), "O Ateneu" (Raul Pompeia), "Clara dos Anjos" (Lima Barreto), "Introducao a Revolucao Brasileira" (Werneck Sodre). Meu livro de longa duracao e "Memorias do Carcere" [ed. Record], de Graciliano Ramos. Nao e ficcao, nao e memoria, nao e depoimento politico, e tudo isso.

O conteudo (a brutalidade da cadeia) so se revela por meio daquela forma. "Memorias do Carcere" e a chave dos romances de Graciliano. A chave esta fora, embora tambem seja texto. Um fora dentro.

JOEL RUFINO DOS SANTOS e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Esta lancando "Quem Ama Literatura Nao Estuda Literatura" (Rocco).

Anexo 02:

Sao Paulo, domingo, 09 de marco de 2008 +mais!

Biblioteca basica

Etica contra Estetica

RODOLFO GARCIA VAZQUEZ

ESPECIAL PARA A FOLHA

As relacoes entre o "belo" e o "bem" vem me tocando ha tempos, e "Etica contra Estetica" (ed. Perspectiva), da filosofa espanhola Amelia Valcarcel [foto], se propoe justamente a analisar as relacoes entre esses conceitos no mundo hoje. Ele o faz a partir das visoes dos pensadores classicos e sem dar uma resposta definitiva a esse combate de valores supremos, que, desde Platao, nunca chegaram a conviver bem. No pais de "Tropa de Elite", essa reflexao me parece fundamental para todos os artistas e pessoas de cultura.

RODOLFO GARCIA VAZQUEZ e diretor da companhia teatral Os Satyros, que encena "Vestido de Noiva" no Festival de Curitiba, em 23 e 24/3.

Anexo 03:

Sao Paulo, sabado, 08 de marco de 2008 IOLHA uc S.PAULO ilustrado

Livros--Critica/"Historias para Ler sem Pressa"

Textos irreverentes destacam a sabedoria da tradicao arabe

Coletanea apresenta 30 narrativas curtas produzidas entre os seculos 8 e 18

NOEMI JAFFE

COLABORACAO PARA A FOLHA

Conta-se que o padre Antonio Vieira escreveu, numa carta a alguem: "Desculpe, mas nao tive tempo de escrever-lhe uma carta mais curta". Algo semelhante acontece na leitura destas "Historias para Ler sem Pressa", traduzidas da antiga sabedoria arabe por Mamede Mustafa Jarouche.

Sao 30 historias, todas muito curtas, para ler com toda a lentidao possivel. A sabedoria, mais do que a inteligencia, e tambem uma virtude, proxima de outras como a prudencia, a tolerancia e a generosidade. E, como elas, desenvolve-se a partir de experiencia, intuicao, algum senso de espiritualidade e uma visao muito mais generalista do que particular. Tudo isso exige tempo.

De quem pronuncia a sabedoria e de quem a escuta, porque a sabedoria tem a ver com acao, juizo; e a "moral do equilibrista", como diz Andre Jolles no livro "Formas Simples". E a economia destas historias e justamente a economia modelar dos sabios, que, com algumas palavras exemplares solucionam revezes e abrem portas labirinticas.

Irreverencia

Sao 30 historias extraidas de fontes que vao do seculo 8 ao seculo 18, de textos com nomes como "O Livro das Grandes Categorias", "O Livro dos Inteligentes", "O Cumulo da Sagacidade nas Artes do Decoro" e "O Livro dos Idiotas e dos Nescios".

Nelas comparecem os famosos avarentos, os ridiculos ostentadores, o bobo necessario, o esperto que se da mal no final.

Todos eles desmoralizados por seus opostos, os justiceiros, os generosos, os incorruptiveis, os justos. Tudo com uma simplicidade e polaridade alentadoras para tempos de tantos relativismos, sem, entretanto, cair na austeridade dos juizos morais.

Ao contrario.

Quase todas as historias do livro sao irreverentes, algumas ate lembrando personagens brasileiros como o conhecido malandro. E e tambem surpreendente perceber como os valores da cultura arabe se diferenciam alegremente da moral crista: nestas historias, valores como culpa, pecado, punicao e vergonha surgem com pesos completamente diferentes daqueles que estamos acostumados a ler nas parabolas do cristianismo.

Verdade na forma

A verdade, as vezes, parece localizar-se muito mais na linguagem e na forma de dizer as coisas do que em alguma essencia ultima. Assim, quem sabe falar melhor muitas vezes se da melhor, como na historia do "Juiz Austero e do Juiz Ligeiro" ou em "Asnos por Testemunhas". E uma moral muito mais pragmatica, afinal de contas.

Trata-se de como e por que agir de determinadas formas, em determinadas circunstancias da vida cotidiana. E isso parece excluir o "ofereca a outra face" em favor de atitudes de mais desconfianca e cautela.

Por exemplo, diante de intrigueiros, sao necessarias algumas atitudes como "nao acreditar". Advertir o intrigante e toma-lo detestavel perante Deus. Afinal, sabedoria e juizo, e siso, mas se dizem que onde tem muito riso, falta o siso, nao e o caso deste livro, que, alem de fazer pensar, tambem nos faz rir.

HISTORIAS PARA LER SEM PRESSA

Organizacao e traducao: Mamede Mustafa Jarouche

Editora: Globo

Quanto: R$ 25 (80 pags.)

Avaliacao: otimo

Anexo 04:

Sao Paulo, sabado, 08 de marco de 2008 FOLHADE DE S. PAULO ilustrada

Critica/"Sargento Getulio" e "Viva o Povo Brasileiro"

Ubaldo faz transicao do regional ao pos-moderno

"Sargento Getulio" e "Viva o Povo ..." iniciam reedicao das obras do baiano

MANUEL DA COSTA PINTO

COLUNISTA DA FOLHA

"Sargento Getulio" e "Viva o Povo Brasileiro"--romances que dao inicio ao relancamento da obra de Joao Ubaldo Ribeiro pela Alfaguara/Objetiva-sao os dois livros aos quais o escritor baiano deve seu lugar na historia da literatura brasileira.

Nao se trata de um lugar fixo, congelado nos compendios de critica e nos livros escolares. Cada nova edicao solicita ao leitor uma releitura e uma reavaliacao: seria ele o capitulo final da literatura regionalista ou, ao contrario, um dos primeiros autores a escreverem no Brasil uma prosa pos-moderna, com parodias de outros escritores e estilo camaleonico?

Os livros aqui em questao podem ser interpretados dessas duas maneiras. "Sargento Getulio", de 1971, narra a historia de uma missao politica que se transforma em fabula moral.

Getulio Santos Bezerra e o militar encarregado de levar um prisioneiro do sul da Bahia ate o Sergipe.

Durante o trajeto, chegam noticias de que, devido a mudancas na politica local, ele deve abandonar a tarefa e libertar o subversivo. Getulio resolve concluir sua tarefa, desafia as autoridades e torna-se, tambem ele, um insurgente.

Numa anotacao inicial, o autor alerta que a narrativa que vira a seguir "e uma historia de arete"-em referencia a palavra grega normalmente traduzida por termos como "virtude", "excelencia", "nobreza".

Ou seja, o romance contrasta uma realidade social marcada pelo autoritarismo e pelo concerto dos interesses politicos a uma conduta regida pelo orgulho, por uma nocao de virtude menos vinculada a etica crista (piedosa e privada) do que a uma ideia mediterranea de honra (viril e publica).

Valores arcaicos

A obstinacao de Getulio revela apego a valores arcaicos em litigio contra as instituicoes modernas e sua deformacao no ambiente agreste. Ocorre que o proprio sargento sofre tal deformacao, tratando seu prisioneiro com uma raiva homicida amplificada pela prosa de Joao Ubaldo-singular mistura de fluxo de consciencia e oralidade nordestina.

Ambientado nos anos 50, "Sargento Getulio" pode ser lido como espelho do Brasil dos anos de chumbo do regime militar; mas esse quadro socio-politico e atravessado por uma ideia de "desmedida" (no sentido da "hubris" grega, que precipitava o conflito nos epicos antigos) que lhe confere carater atemporal, apesar do enraizamento sertanejo. A viagem simbolica de Getulio se transforma, em "Viva o Povo Brasileiro" (1984), numa especie de alegoria na qual sao resumidos tres seculos de Brasil, desde a ocupacao holandesa ate o Estado Novo e o golpe de 64, com destaque para as guerras de Canudos e do Paraguai.

Vies satirico

Com vies mitopoetico e satirico, ambientado no Reconcavo Baiano, o romance segue o trajeto de "alminhas" que migram de geracao em geracao, encarnando personagens populares que permitem reescrever nossa historia a contrapelo e em cronologia descontinua. Esse tipo de recurso, amplamente utilizado pelos escritores do realismo fantastico (como o paraguaio Roa Bastos e o colombiano Garcia Marquez), tambem levou a comparacoes com Guimaraes Rosa, por seu sentido cosmologico-o que colocaria Joao Ubaldo como arremate de um ciclo da literatura latino-americana.

O romance, entretanto, faz uma celebracao do imaginario afro-baiano (orixas lutando na Guerra do Paraguai, um tom profetico que remete aos sermoes de padre Vieira) na qual a contestacao da historia oficial ganha cores euforicas.

Nesse sentido, o romance indica o caminho tomado por Joao Ubaldo: se "Sargento Getulio" identifica na violencia e na pulsao de morte uma invariavel da historia, "Viva o Povo Brasileiro" usa a historia para fazer variacoes de estilo, numa evidente opcao pelo entretenimento que sera confirmada nos livros seguintes.

SARGENTO GETULIO

Autor: Joao Ubaldo Ribeiro

Editora: Alfaguara/Objetiva

Quanto: R$ 29,90 (168 pags.)

Avaliacao: otimo

VIVA O POVO BRASILEIRO

Autor: Joao Ubaldo Ribeiro

Editora: Alfaguara/Objetiva

Quanto: R$ 64,90 (640 pags.)

Avaliacao: bom

Anexo 05:

Sao Paulo, domingo, 09 de marco de 2008 +mais!

'A morte seria um alivio'

"CARTAS A MAE" TRAZ O DEPOIMENTO DA POLITICA INGRID BETANCOURT, MANTIDA REFEM PELAS FARC HA SEIS ANOS SYLVIA COLOMBO DA REPORTAGEM LOCAL

A cada aniversario de algum de seus filhos, Ingrid Betancourt canta "Happy Birthday" diante de um prato de feijao com arroz, no meio da selva colombiana. No comeco, conta, os guerrilheiros permitiam que ela fizesse um bolo de aniversario, mas ja nao e mais assim. A integra da carta que a politica franco-colombiana, mantida ha seis anos como refem pelas Farc, escreveu em 24 de outubro de 2007, destinada a sua mae, Yolanda Pulecio, e aos filhos Melanie e Lorenzo, acaba de ser editada no Brasil.

"Cartas a Mae--Direto do Inferno" (ed. Agir, 87 pags., R$ 19,90) reproduz as doze paginas manuscritas por Betancourt, 46.

Juntamente com um video que foi amplamente divulgado pela midia-no qual Betancourt aparece magerrima e de olhar cabisbaixo-, ambos compoem o retrato de uma mulher desesperancada e em profunda depressao.

Quem acompanhou a libertacao feliz, mas controversa, de suas colegas de cativeiro, Clara Rojas e Consuelo Gonzalez, pode perceber como a saude e o estado psicologico de Betancourt estao fragilizados.

As primeiras exibiam desde a primeira imagem divulgada boa forma fisica e, de modo geral, nenhum indicio de terem sofrido traumas muito graves do ponto de vista mental.

Percepcao abalada

Ja Betancourt demonstra, na carta, que sua percepcao do mundo esta abalada. E que suas forcas se esvaem. Conta que anda com dificuldade e lhe custa acompanhar o grupo nas caminhadas pela floresta. Ate porque e obrigada a carregar seus poucos pertences quando isso acontece. Enumera seus pertences: um pequeno armario onde guarda uma mochila com roupas e a Biblia, que chama de "unico luxo".

No inicio, disse que fazia exercicios fisicos e ate nadava em alguns dos acampamentos. Mas, agora, nao sente vontade. Parou de comer, perdeu o apetite, enquanto seus cabelos caem copiosamente. Por fim, admite que sua morte "seria um alivio para todo mundo".

No prefacio do livro, o Nobel da Paz Elie Wiesel diz que os desejos da prisioneira sao "simples e perturbadores".

O texto comeca com o seguinte cabecalho: "Selva colombiana, quarta-feira, 24 de outubro, as 8h34, uma manha chuvosa, como a minha alma".

Sem politica

A partir dai, Betancourt se dirige a mae e aos filhos pedindo que eles nao deixem de mandar mensagens pelos programas de radio que chegam a selva.

Pede tambem que protejam John Frank Pinchao, policial colombiano que foi refem das Farc durante quase nove anos e que conseguiu escapar no ano passado. Era um dos principais companheiros de Betancourt nos ultimos tempos.

Cheia de mensagens pessoais a parentes e amigos, a carta pouco ou nada diz sobre politica. Nesse caso, duas explicacoes sao possiveis: ou as Farc nao a deixariam passar caso estivesse carregada de mensagens desse naipe ou a ex-candidata a Presidencia ja nao se preocupa mais com esse tema.

Quando menciona lideres internacionais relacionados com seu caso, mesmo dispares ideologicamente, como Chavez, Sarkozy ou Bush, apenas consegue elogia-los pelos "esforcos" em salvar os refens.

A edicao vem acompanhada de um texto-resposta dos filhos Melanie e Lorenzo Delloye Betancourt, assim como um posfacio de Francisco Carlos Teixeira da Silva, da Universidade de Brasilia.

Seja qual for o desenlace da atual crise na regiao, as cartas de Betancourt ficarao como um dos mais dramaticos documentos historicos desse episodio.

Anexo 06:

Sao Paulo, domingo, 16 de marco de 2008 +mais!

Fe na encruzilhada

Tolerante, "O Espirito do Ateismo", do filosofo Andre Comte-Sponville, rebate a religiao ao invocar o pensamento iluminista

EDUARDO RODRIGUES DA CRUZ ESPECIAL PARA A FOLHA

O novo livro de Andre Comte-Sponville, "O Espirito do Ateismo", tem como subtitulo "Introducao a uma Espiritualidade sem Deus" e e de fato uma introducao: curto, sem notas de rodape nem raciocinios tortuosos. E tambem autobiografico em estilo: o autor fala a partir de suas proprias experiencias e as compara com as tradicoes filosofica ocidental e oriental. O autor, como se sabe, faz parte de uma geracao de filosofos franceses "pos-68", que, sem ser pos-moderna, transcende o marxismo e o existencialismo de seus mestres. Esses filosofos sentem a necessidade de se colocar a questao de Deus e da religiao nos dias de hoje. Eles podem divergir em muitos pontos, mas se consideram proponentes de um humanismo no espirito das luzes e defensores do laicismo.

A presente obra, como nos sugere o titulo, e uma defesa da dignidade do ateismo. Ao contrario do biologo Richard Dawkins e outros "brights" de lingua inglesa, entretanto, nao faz disso uma cruzada anti-religiosa. E dentro do espirito de tolerancia que elabora sua defesa.

Tambem diferentemente desse segundo grupo, nao constroi seu apreco pelo ateismo em nome da ciencia moderna, mas, sim, de valores iluministas: tolerancia, liberdade, laicidade. Seu livro se divide em tres partes: o primeiro capitulo, intitulado "Pode-se Viver sem Religiao?", mostra, assim como muitos de seus contemporaneos, que e possivel uma vida plenamente humana e feliz sem professar uma religiao ou pertencer a uma igreja. Ao contrario da fe, propoe comunhao (seguindo Durkheim), fidelidade e amor.

O segundo capitulo e mais filosofico e se pauta pela pergunta "Deus existe?". Revisita as tradicionais "provas" da existencia de Deus e as refuta seguindo seis argumentos modernos tipicos. Mas, novamente, o central e considerar Deus como entrave a um autentico humanismo.

O terceiro capitulo, por fim, expoe sua proposta de uma vida espiritual-"Que Espiritualidade para os Ateus?". Fala aqui de suas experiencias e personalidade misticas, reiterando que Deus e a religiao barram a realizacao e a fruicao de tais experiencias.

Se os dois primeiros capitulos seguem padroes mais ou menos conhecidos, nos quais o autor evita polemizar com os teistas, o terceiro e bastante "sui generis" para o espirito moderno.

"Ateu cristao"

Michel Onfray qualifica Comte-Sponville como "ateu cristao" (em "Tratado de Ateologia", ed. Martins Fontes) e, com isso, indica uma fraqueza da posicao deste, mas nosso autor ve isso como favoravel a seu argumento.

Nao so ele se coloca em continuidade com a tradicao crista, respeitando-a (por exemplo, ao entender o melhor da religiao como "fidelidade" e "respeito ao passado") como tambem a evoca em defesa de sua espiritualidade. Suas fontes sao cristas e nao-cristas: Lao-tse e Agostinho, Pascal, Montaigne e Espinosa, Wittgenstein, Krishnamurti e Prajnanpad.

Desses autores, destaca o vies mistico e, para melhor caracterizar sua mistica, teologos como De Lubac e Brunner sao citados. Esta e estoicista, como ele reitera ao longo do texto. Afirma que sua metafisica (por exemplo, o real como perfeito) e sua postura (por exemplo, serenidade e aceitacao) nao levam a inacao politica, mas o argumento nao me parece muito convincente.

Consciencia critica

O autor parece ter sido afetado por uma disposicao muito comum na modernidade tardia: uma volta a espiritualidade, mas recusando o Deus cristao e sua igreja.

Busca fontes orientais, mas as traduz em termos de Ocidente, rejeita a metafisica, mas fala com desenvoltura do "absoluto", da "verdade" e de outros universais.

Mas isso pode ser uma vantagem para o leitor que nao dispensa uma consciencia critica. E um livro que vale a pena ser lido, nao so por apresentar o pensamento de um influente filosofo contemporaneo como por seu estilo agradavel, acessivel e eminentemente pessoal. Nao pude compara-lo com o original frances, mas a traducao nao parece apresentar problemas.

EDUARDO RODRIGUES DA CRUZ e professor no departamento de teologia e no programa de pos-graduacao em ciencias da religiao da Pontificia Universidade Catolica (SP).

O ESPIRITO DO ATEISMO

Autor: Andre Comte-Sponville

Traducao: Eduardo Brandao

Editora: WMF Martins Fontes (tel. 0/xx/11/ 3241-3677)

Quanto: R$ 32,50 (194 pags.)

Anexo 07:

Sao Paulo, domingo, 09 de marco de 2008 +mais!

Os Dez +

Uma selecao de livros e eventos culturais indicados pelo caderno

+ Literatura Joao Ubaldo Ribeiro

Uma caixa traz novamente dois sucessos do escritor, membro da Academia Brasileira de Letras: "Sargento Getulio" (1971) e "Viva o Povo Brasileiro" (1984), Ganhadores do Jabuti como "autor revelacao" e "romance", respectivamente. Objetiva/ Alfaguara (tel. 0/xx/ 21/2199-7824). 168 e 640 pags., R$ 64.

+ Exposicao Em Campinas ...

... o Atelie Aberto (tel. 0/xx/ 19/ 3251-7937) comemora seus dez anos com exposicoes de Tiago Rivaldo e Reginaldo Pereira. O primeiro apresenta, em video, dois homens transformando suas bicicletas em uma so. Pereira mostra a instalacao "Carta Branca", com paisagens marinhas em chave conceitual.

+ Arte Countdown

Em sua primeira exposicao individual no Brasil, o artista franco-americano Stephen Dean exibe iconografia pictorica por meio de videos, esculturas e pinturas. A Casa Triangulo (tel. 0/xx/11/ 3167-5621), em SP, apresenta sua metodologia artistica na serie de objetos customizados no terreo.

+ Narrativa Kafka a Beira-Mar

Romance de Haruki Murakami, um dos nomes mais populares da literatura japonesa atual. Fala de um adolescente que foge de casa e de um homem que consegue conversar com gatos. Trad. do japones de Leiko Gotoda. Ed. Alfaguara/ Objetiva (tel. 0/ xx/ 21/ 2199 7824). 572 pags., R$ 59,90.

+ Video Cinema de Corredor

O japones Koki Tanaka s e o convidado do projeto, com curadoria de Wagner Morales, no centro cultural b-arco (tel. 0/xx/11/3081-6986). Apresenta dez videos em que objetos do cotidiano, como lixeiras, caixas de leite, frutas e papel higienico recebem um olhar terno, sob uma nova perspectiva.

+ Ciencia Isto E Biologia

Um dos principais cientistas do seculo 20, o biologo Ernst Mayr (1904-2005) traca uma historia da disciplina desde os gregos e disserta sobre etica e evolucionismo, defendendo um "humanismo evolutivo". Trad. Claudio Angelo. Companhia das Letras (tel. 0/ xx/11/ 3707-3500). 440 pags., R$ 56.

+ Romance Abdias

Reedicao do segundo romance do mineiro Cyro dos Anjos (1906-1994), de 1945. O autor de "O Amanuense Belmiro" trata de um advogado e pai de familia que vai dar aulas num colegio de meninas e tem uma paixao platonica por uma aluna de 17 anos. Globo (tel. 0/ xx/11/ 3714-2920). 236 pags., R$ 29.

+ Critica Para Ler Como um ...

... Escritor", da critica literaria Francine Prose, autora de "A Vida das Musas", discute como grandes autores produziram suas obras e explora a importancia da leitura, em livro concebido inicialmente como guia. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Zahar (tel. 0/ xx/ 21/ 2108-0808). 320 pags., R$ 44,90.

+ Policial A Femea da Especie

Reuniao de nove contos da escritora americana Joyce Carol Oates, vencedora do National Book Award. As historias descrevem em tramas policiais mulheres de diferentes idades e origens, todas submetidas a provacoes e a sustos. Traducao de Paulo Reis. Record (tel. 0/xx/ 21/2585-2000). 256 pags., R$ 30.

+ Conto Putas Assassinas

Compilacao de narrativas curtas do chileno Roberto Bolano. Sem se ater a generos, o autor de "Os Detetives Selvagens" registra historias de personagens boemios ou marcados pelo exilio, como ele. Traducao de Eduardo Brandao. Companhia das Letras (tel. 0/ xx/11/ 3707 3500). 224 pags., R$ 38.

Anexo 08:

Sao Paulo, domingo, 16 de marco de 2008 +mais!

Os Dez +

Uma selecao de livros e eventos culturais indicados pelo caderno

+ Pintura

Oscar Oiwa

Com 12 pinturas ineditas retratando conflitos geopoliticos de forma ironica, o artista nissei faz sua quarta exposicao individual na galeria Thomas Cohn (tel. 0/xx/11/3083-3355), que comemora seus 25 anos. Em abril, ele faz uma retrospectiva de sua obra no Museu de Arte Contemporanea de Toquio

+ Arte

Pinturas para Peixes ...

... e Outras Pinturas" e a nova serie de Rodrigo Andrade, que utiliza oleo sobre tela sobre reproducao do americano Edward Hopper (1882-1967) e nas superficies internas de aquarios, com blocos de tinta em meio a pares de peixes vermelhos e alaranjados. Marilia Razuk (tel. 0/xx/11/ 3079-0853).

+ Exposicao

Instabile 2008

Conhecido por misturar a cultura popular com a erudita, o artista paraense Emmanuel Nassar homenageia Alexander Calder, criando uma versao brasileira dos "Mobiles" e "Estabiles" do escultor norte americano (1898-1976). Na galeria Millan (tel. 0/xx/11/ 3031-6007), em Sao Paulo.

+ Filosofia

A Republica

A colecao "Livros Que Mudaram o Mundo" traz ensaio do professor de filosofia na Universidade de Cambridge Simon Blackburn sobre a mais importante obra de Platao. Ele aborda o livro no contexto do seculo 20. Trad. Roberto Franco Valente. Zahar (tel. 0/ xx/21/ 2108-0808). 188 pags., R$ 29.

+ Paleontologia

O Povo de Luzia ...

... --Em Busca dos Primeiros Americanos" traz o relato dos pesquisadores Walter Neves e Luis Pilo sobre descobertas como a do fossil de mais de 10 mil anos encontrado em Lagoa Santa (MG), suscitando discussoes sobre os modos de vida de nossos ancestrais. Ed. Globo (tel. 0/xx/ 11/ 3714-2920).

+ Coletanea

O Mito Individual ...

... do Neurotico" reune tres textos de Jacques Lacan. O psicanalista aborda a funcao religiosa do simbolo e discute, a partir das ideias de Levi-Strauss, a relacao dos mitos com a estrutura das sociedades primitivas. Trad. Claudia Berliner. Zahar (tel. 0/ xx/21/ 2108-0808). 104 pags., R$ 29.

+ Romance

A Mulher que Fugiu ...

... de Sodoma", primeiro romance de Jose Geraldo Vieira (1897-1977), de 1931, ganha reedicao. Elogiado por autores como Manuel Bandeira e Erico Verissimo, Vieira cria uma ficcao urbana e carioca utilizando o jogo como pano de fundo. Ed. Leitura (tel. 0/xx/ 31/ 3379-0620). 420 pags., R$ 45.

+ Historia

Ascensao e Queda ...

... do Terceiro Reich", classico do jornalista americano William L. Shirer (1904-1993), apresenta os eventos da Segunda Guerra por quem acompanhou o conflito de perto. Traducao de Pedro Pomar e Leonidas Gontijo de Carvalho. Agir (tel. 0/xx/21/ 3882-8200). 880 pags. (vol. 1) e 768 pags. (vol. 2), R$ 89,90 cada.

+ Importado Nothing to Be ...

... Frightened of", ultimo livro de Julian Barnes, autor de "O Papagaio de Flaubert", acaba de sair no Reino Unido. O romance (Nada para Temer, ed. Jonathan Cape, 256 pags., 16,99 libras, R$ 58) e um misto de memorias familiares, ensaio sobre a morte e reflexoes acerca da obra do escritor frances Jules Renard.

+ Policial

Vestigio

Patricia Comwell, uma das principais autoras de romances policiais dos EUA, retoma sua personagem Kay Scarpetta. A medica legista tenta esclarecer agora o assassinato de uma garota de 14 anos. Trad. Otacilio Nunes e Claudio Carina. Cia das Letras (tel. 0/ xx/11/ 3707-3500). 448 pags., R$ 49.

Anexo 09:

Sao Paulo, sabado, 08 de marco de 2008 Folha uc FOLHA DE S. PAULO ilustrado

Vitrine

FICCAO

Contos/Ficcao Cientifica A Cidade Inteira Dorme RAY BRADBURY

Editora: Globo; Traducao: Deisa Chamahum Chaves; Quanto: R$ 27 (196 pags.)

SOBRE O AUTOR: Nascido em 1920, em Waukegan, Illinois, o escritor norte-americano e um dos principais nomes da ficcao cientifica. Publicou "As Cronicas Marcianas", "Algo Sinistro Vem Por Ai", "Uma Estranha Familia-Lembrancas de um Lugar do Passado" e "Fahrenheit 451" (adaptado para o cinema por Francois Truffaut), entre outras obras. Roteirista, assinou o texto de filmes como "Moby Dick" (1956), de John Huston.

TEMA: Reuniao de contos do renomado autor, incluindo alguns que ja tornaram-se celebres, como "O Pedestre", "O Lixeiro" e "O Homem Ilustrado".

POR QUE LER: A coletanea de narrativas curtas de Bradbury revela a grande habilidade literaria do autor, que passeia pelo terror psicologico, pelo fantastico e pela critica politica.

Romance

La Bodega

NOAH GORDON

Editora: Rocco; Traducao: Pinheiro de Lemos; Quanto: R$ 39,50 (328 pags.)

SOBRE O AUTOR: Nascido em 1926, o escritor norte-americano tem entre seus best sellers os livros "O Fisico", "O Rabino", "Xama" e "O Ultimo Judeu".

TEMA: Na Franca, no fim do seculo 19, depois de ir a guerra, jovem descobre a arte da producao do vinho. Apos a morte do pai, volta a Espanha natal. onde enfrenta problemas financeiros e conflitos familiares.

POR QUE LER: Lancado primeiro na Espanha, com tiragem inicial de 200 mil exemplares, livro esta nas principais listas de mais vendidos do pais. O autor estava afastado da ficcao ha oito anos.

NAO-FICCAO

Historia

Creta

ANTONY BEEVOR

Editora: Record; Traducao: Maria Beatriz de Medina; Quanto: R$ 55 (462 pags.) SOBRE O AUTOR: Educado em Winchester e na Academia Militar de Sandhurst, deixou o Exercito apos cinco anos para se dedicar a literatura e ja publicou livros de ficcao e nao ficcao, entre eles "Stalingrado" e "O Misterio de Olga Tchekova".

TEMA: A historia da rendicao da Grecia, na Batalha de Creta, e da resistencia cretense a invasao nazista, durante a Segunda Guerra Mundial.

POR QUE LER: Obra traz relatos de participantes-chave do confronto e recebeu criticas positivas de jornais como "The Independent" e "The Daily Telegraph", entre outros.

Medicina/Administracao

Por que as Zebras Nao Tem Ulceras?

ROBERT M. SAPOLSKY

Editora: Francis; Traducao: Ana Carolina Mesquita; Quanto: R$ 89 (592 pags.)

SOBRE O AUTOR: Biologo e neurologista, professor da Universidade Stanford, nos EUA, e tambem autor de "Memorias de um Primata".

TEMA: Resultado de pesquisa de mais de 20 anos, livro se debruca sobre os problemas ligados ao estresse, da insonia as doencas cardiacas.

POR QUE LER: Com ilustracoes e mais de cem paginas de notas, obra e um serio estudo cientifico e, no entanto, nao perde o vies bem-humorado.

Anexo 10:

Sao Paulo, sabado, 29 de marco de 2008 FOLHA DE S. PAULO ilustrado

Vitrine

FICCAO

Romance

Particulas Elementares MICHEL HOUELLEBECQ

Editora: Sulina; Traducao: Juremir Machado da Silva; Quanto: R$ 45 (296 pags.) SOBRE O AUTOR: Nasceu em 1958 na ilha Reuniao, no oceano Indico. Viveu em Argel (Argelia), indo em 1961 para Paris. Comecou carreira com poesia, passou para os romances e hoje tambem se dedica ao cinema. Do escritor, sairam no Brasil os livros "Extensao do Dominio da Luta" (Sulina) e "Plataforma" e "A Possibilidade de uma Ilha" (Record). TEMA: O biologo Michel sublima o declinio da sua sexualidade no trabalho, nas compras e no uso de tranquilizantes. Ja seu meio-irmao, Bruno, vive uma busca desesperada do prazer sexual.

POR QUE LER: Lancado originalmente em 1998 e publicado em mais de 30 paises, o romance polemico consagrou Houllebecq em todo o mundo. A reedicao vem por ocasiao do lancamento da versao para o cinema do diretor alemao Oskar Roehler.

Poesia

Toda Poesia de Machado de Assis

MACHADO DE ASSIS

Editora: Record; Quanto: R$ 85 (756 pags.)

SOBRE O AUTOR: Considerado um dos maiores escritores brasileiros, Machado de Assis (1839-1908) foi cronista, contista, poeta, novelista, romancista, critico e ensaista. Escreveu "Memorias Postumas de Bras Cubas" e "Dom Casmurro", entre outros.

TEMA: Cerca de 180 poemas de Machado de Assis, do primeiro soneto, "A Ilma. Sra. D.PJ.A." (1854), ao ultimo, "A Carolina" (1906). Organizacao de Claudio Murilo Leal.

POR QUE LER: A antologia faz parte das comemoracoes dos cem anos de morte do autor, cuja obra poetica e reunida pela primeira vez aqui em um so volume.

NAO-FICCAO

Ciencia

Descobertas Perdidas DICK TERESI

Editora: Companhia das Letras; Traducao: Rosaura Eichenberg; Quanto: R$ 59 (440 pags)

SOBRE O AUTOR: Escritor norte-americano, lancou obras como "The Dog Particle", entre outras. Colabora para as revistas "Discover" e "The New York Times Magazine". TEMA: Decisivas descobertas da historia da ciencia que foram desenvolvidas por maias, arabes e gregos, entre outros, mas que foram minimizadas pela leitura eurocentrica.

POR QUE LER: A apresentacao das "descobertas perdidas" feita por Teresi tem variados exemplos, escritos de forma bastante clara.

Historia

Japoneses--A Historia do Sol Nascente MARCIA YUMITAKEUCHI

Editora: Lazuli/Companhia Editora Nacional; Quanto: R$ 18 (152 pags.)

SOBRE A AUTORA: Historiadora com doutorado na USP (Universidade de Sao Paulo), e pesquisadora do Proin (Projeto Integrado Arquivo/ Universidade) e do Leer (Laboratorio de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminacao).

TEMA: Edicao de bolso que traz a historia da imigracao dos japoneses para o Brasil, que neste ano completa o centenario.

POR QUE LER: A serie "Imigrantes no Brasil" da Lazuli, coordenada pela professora Maria Luiz Tucci Carneiro, traz assuntos historicos com uma abordagem clara, mas nao superficial.

Anexo 11:

Sao Paulo, domingo, 02 de marco de 2008 +mais!

+ Lancamentos

Brasil--Paisagens Naturais

128 pags., R$ 25,90 de Marcelo Leite. Atica (av. Otaviano Alves de Lima, 4.400, CEP 02909-900, SP, tel. 0/xx/11/3990-1777). Doutor em ciencias sociais pela Unicamp, o colunista da Folha apresenta os seis biomas do Brasil, em livro ilustrado por diversas fotos. O prefacio e da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

As Obras do Amor

432 pags., R$ 66,70 de Soren A. Kierkegaard. Vozes (r. Frei Luis, 100, CEP 25689-900, Petropolis, RJ. tel. 0/xx/24/2231-4676). O teologo e filosofo dinamarques (1813-1855) analisa, nestas consideracoes de 1847, o mandamento do amor cristao comparado ao amor platonico e a amizade aristotelica.

Hibridismos Musicais de Chico Science e Nacao Zumbi

248 pags., R$ 33 de Herom Vargas. Atelie Editorial (estrada da Aldeia de Carapicuiba, 897, CEP 06709-300, Cotia, SP, tel./fax 0/ xx/11/4612-9666). Pesquisador de musica, cultura e linguagens da midia do CNPq, Vargas analisa a combinacao de tradicao e cosmopolitismo nos dois discos gravados antes da morte de Chico Science, em 1997.

Para Alem dos Direitos

384 pags., R$ 46 de Haroldo Abreu. Editora UFRJ (av. Pasteur, 250, sala 107, CEP 22290 902, RJ, tel. 0/xx/21/2542-7646). Professor da Universidade Federal Fluminense, Abreu busca reconstituir o conceito de "cidadania" como modo de pertencer ao ordenamento social, dentro da divisao capitalista do trabalho.

Os Bastidores do Second Life

288 pags., R$ 39,90 de Wagner James Au. Traducao de Fal Vitiello de Azevedo. Ideia & Acao (r. Cristiano Viana, 1216, CEP 05411-002, SP, tel. 0/xx/11 3873-2062). O jornalista narra a evolucao do site Second Life, aborda engenharia social, identidade, romances, codigo de etica e discute como organizacoes podem utilizar o ambiente virtual. Inclui glossario.

Homenagem--80 Anos de Evanildo Bechara

200 pags., R$ 29,90 Dieli Vesaro Palma, Maria Mercedes Saraiva Hackerott, Neusa Barbosa Bastos e Rosemeire Leao Silva Faccina (orgs.). Nova Fronteira (r. Bambina, 25, CEP 22251-050, RJ, tel. 0/ xx/21/ 2131-1111). Coletanea de ensaios que abordam o trabalho do gramatico e linguista Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras. Os textos discutem normas e prescricao linguistica, entre outros temas.

Racismo e Discurso na America Latina

384 pags., R$ 37 Teun A. van Dijk (org.). Contexto (r. Doutor Jose Elias, 520, CEP 05083 030, SP, tel. 0/xx/11/3832-5838. Traz ensaios de diversos autores analisando o que definem como formas de racismo embutidas nas sociedades de paises latino-americanos como Brasil, Argentina, Chile, Colombia e Guatemala.

Um Sete Um

112 pags., R$ 27 de Italo Ogliari. 7 Letras (r. Jardim Botanico, 600, sala 307, CEP 22461 000, RJ, tel. 0/xx/21/2540-0076). Em seu primeiro romance, o autor, mestre em literatura pela Pontificia Universidade Catolica--RS, narra a historia de um homem que resolve contar sua vida a um mendigo, a quem trata como se fosse seu pai.

O Poeta e a Consciencia Critica

216 pags., R$ 35 de Affonso Avila. Perspectiva (av. Brigadeiro Luis Antonio, 3.025, CEP 01401-000, SP, tel. 0/xx/11/3885-8388). Nesta coletanea de ensaios originalmente lancada em 1969, as tensoes entre consciencia critica e liberdade criativa, tradicao e vanguarda na literatura brasileira sao analisadas pelo poeta e critico literario mineiro.

Leitura, Literatura Infanto-Juvenil e Educacao

314 pags., R$ 45 de Celia Regina Delacio Fernandes. Editora da Universidade Estadual de Londrina (campus universitario, s/no., CEP 86051-990, Londrina, PR, tel. 0/xx/43/3371 4673). Professora e pesquisadora da Universidade Federal da Grande Dourados, a autora aborda o papel da escola como mediadora na divulgacao de livros voltados para o segmento infanto-juvenil.

Anexo 12:

Sao Paulo, domingo, 30 de marco de 2008 +mais!

+ Lancamentos

A Saude Publica no Rio de Dom Joao

120 pags., R$ 29,90 de Manoel Vieira da Silva e Domingos R. dos Guimaraes Peixoto. Senac Rio (av. Franklin Roosevelt, 126/604, CEP 20021-120, RJ, tel. 0/xx/21/2510-7100). No primeiro destes dois textos de epoca, Silva destaca a influencia do clima quente e umido sobre o solo e sugere o aterramento das areas pantanosas, que poderiam ser foco de doencas. No outro, Peixoto aponta a importancia da chegada da familia real para o avanco na saude publica.

A Memoria, a Historia, o Esquecimento

536 pags., R$ 82 de Paul Ricoeur. Trad. Alain Francois. Ed. Unicamp (r. Caio Graco Prado, 50, Cidade Universitaria, CEP 13083-892, Campinas, SP, tel. 0/xx/ 19/3788-7235). O filosofo frances (1913-2005) resume seus estudos sobre a memoria em tres partes. Na primeira, enfoca os fenomenos mnemonicos; na segunda, a epistemologia das ciencias historicas; na terceira, conclui com uma analise hermeneutica da condicao historica dos seres humanos.

Musica em Debate

256 pags., R$ 39 Samuel Araujo, Gaspar Paz e Vicenzo Canbria (orgs.). Faperj/Mauad (r. Joaquim Silva, 98, 5[degrees] andar, CEP 20241-110, RJ, tel. 0/xx/21/3479-7422). Nove ensaios, escritos por nomes como Flavia Camargo Toni e Henrique Gandelman, que enfocam temas como acervos fonograficos de musica em tradicao oral, direito autoral e as diversas formas de propriedade intelectual e as inter-relacoes musicais entre Africa e America.

Sartre e o Pensamento Mitico

248 pags., R$ 30 de Caio Liudvik. Ed. Loyola (r. 1.822, no. 347, CEP 04216-000, Sao Paulo, SP, tel. 0/ xx/11/6914-1922). Mestre em filosofia pela USP, o autor analisa a estreia de Sartre (1905-80) como dramaturgo, em 1943, com "As Moscas"-em que recria a tragedia grega "Oresteia" (Esquilo) sob a otica da ocupacao nazista da Franca.

Hegel e o Estado

656 pags., R$ 118 de Franz Rosenzweig. Traducao de Ricardo Timm de Souza. Perspectiva (av. Brigadeiro Luis Antonio, 3.025, SP, CEP 01401-000 tel. 0/xx/11/3885-8388). Considerada obra de grande importancia nas pesquisas sobre a filosofia de Friedrich Hegel (1770-1831), traz o conceito de Estado em sua obra. Prefacio do filosofo Roberto Romano.

Escrever sobre Escrever

216 pags., R$ 33 de Claudia Amigo Pino e Roberto Zular. WMF Martins Fontes (r Conselheiro Ramalho, 330, CEP 01325-000, SP, tel. 0/xx/11/3241-3677). Os autores descrevem as ferramentas proprias ao metodo da critica genetica-ou critica do processo, dedicada ao estudo dos manuscritos-desde seu surgimento, na efervescencia de 1968, em Paris.

Ritual, Risco e Arte Circense

316 pags., R$ 40 de Guilherme Veiga. Universidade de Brasilia (SCS, quadra 2, bloco C, no. 78, ed. OK, 1 andar, CEP 70302-907, Brasilia, DF, tel. 0/xx/61/ 3035-4211). Tese de doutorado em sociologia que aborda a performance e as fronteiras epistemologicas e conceituais entre a arte e o circo, alem de tracar o panorama do desenvolvimento do espetaculo circense.

Revolucoes de Independencias e Nacionalismos nas Americas

244 pags., R$ 30 Marco A. Pamplona e Maria Elisa Mader (orgs.). Traducao de Miriam Xavier e Patricia Zimbres. Ed. Paz e Terra (r. do Triunfo, 177, CEP 01212-010, Sao Paulo, SP, tel. 0/xx/ 11/3337-8399). Ensaios discutem a Independencia mexicana, o papel tradicional da mulher e a xenofobia nos discursos politico e religioso.

Sotaques d'Aquem e d'Alem Mar

240 pags., R$ 44,90 de Manuel Carlos Chaparro. Summus (r. Itapicuru, 613, 7 andar, CEP 05006-000, SP, tel. 0/xx/11/3872-3322). O doutor em comunicacao e professor de jornalismo na Universidade de Sao Paulo compara as classes de texto jornalistico de Brasil e de Portugal e propoe uma teoria dos generos.

Anexo 13:

Sao Paulo, domingo, 02 de marco de 2008 FOLHA DE S. PAULO ilustrado

Colecao traz Drummond dos temas sociais

"O Sentimento do Mundo", do escritor mineiro, e o quarto volume da serie Livro de 1940 que chega as bancas no proximo domingo revela acirramento de questoes politicas do poeta

DA REPORTAGEM LOCAL

Surgido na arena literaria em 1930 com o lancamento da coletanea "Alguma Poesia", Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) rapidamente firmou-se como um dos principais poetas brasileiros.

Na verdade, em seu territorio especifico-no qual se evidenciam a ironia e o distanciamento, a dialetica entre o pessoal e o social, uma antilirica assentada no raciocinio logico-, Drummond reina de modo absoluto em nossas letras.

"Sentimento do Mundo" (1940)-quarto volume da "Colecao Folha Grandes Escritores Brasileiros", que chega as bancas no proximo domingo-representa um acirramento das preocupacoes sociais do poeta, cujo auge se da em "A Rosa do Povo" (1945), ate hoje seu livro mais politico.

O tema social nao surge isolado, mas se vincula a um "eu" que se ve acacapado por um mundo que nao compreende e mal consegue suportar. Devemos lembrar que, no Brasil, vivia-se sob a ditadura do Estado Novo e, no cenario mundial, eclodia entao a Segunda Guerra Mundial.

Assim, o sentimento que o poeta tem do mundo e de algo descomedido e doloroso. "Esse amanhecer/mais noite que a noite", comeca. Adiante, confessa-se pequeno: "Nao, meu coracao nao e maior do que o mundo. E muito menor".

Embora observe que o mundo "nao pesa mais que a mao de uma crianca", nao acredita que um ser humano apenas, em seu arrepio existencial, possa fazer a diferenca: "porque nao podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan".

Se em "O Sentimento do Mundo" a acao ainda nao parece possivel, existe a esperanca na atividade poetica, aquela que aproxima o poeta de sua gente e de seu tempo: "Nao serei o poeta de um mundo caduco./ Tambem nao cantarei o mundo futuro. [...] O tempo e a minha materia, o tempo presente, os homens presentes,/ a vida presente".

Anexo 14:

Sao Paulo, domingo, 30 de marco de 2008 FOLHA DE S. PAULO ilustrado

Livro de Lima Barreto e o proximo da "Colecao"

"Triste Fim ..." estara a venda nas bancas no dia 6/4

DA REPORTAGEM LOCAL

Um major, subsecretario do Arsenal de Guerra, patriota exaltado que insiste para que o tupi-guarani seja decretado "lingua oficial e nacional do povo brasileiro", e o protagonista de "Triste Fim de Policarpo Quaresma", o oitavo volume da serie "Colecao Folha Grandes Escritores Brasileiros".

Trata-se do principal romance de Lima Barreto (1881-1922), escritor que nasceu pobre, viveu como pequeno funcionario e publicou artigos e romance em jornais, inclusive "Triste Fim ..." (lancado em folhetins, no "Jornal do Comercio", em 1911).

Nem o autor obteve sucesso, nem sua voz teve o credito merecido na conservadora sociedade do inicio do seculo 20.

Dado a crises de depressao, alcoolatra, Barreto internou-se duas vezes no Hospicio Nacional. Morreu de colapso cardiaco, com apenas 41 anos.

Durante algum tempo a critica se pautou em localizar indicios autobiograficos em sua ficcao, que tambem era acusada de nao exibir bastante sofisticacao artistica. Mas a verdade e que, como um todo, sua obra transcende essa conjuntura redutora.

Policarpo e mais do que Barreto. O personagem representa o nacionalista integro e ingenuo, que nao compreende as engrenagens que movem os interesses politicos e acabam por esmaga-lo.

Nesse sentido, Policarpo nao deixa de ser um sonhador nos moldes de Dom Quixote.

Como observou o critico Oliveira Sobrinho: "Ambos sao otimistas incuraveis, porque acreditam que os males sociais e sofrimentos humanos podem ser curados pela mais simples e ao mesmo tempo mais dificil das terapeuticas, que e a aplicacao da justica da qual um e outro se arvoraram paladinos".

Se ha muito de satira nos tracos e no comportamento de Quaresma, e esta convida ao riso, trata-se de um riso amargo, pois esbarra no estado melancolico que envolve o personagem, cujo destino parece ser o de todos os que creem em um ideal caduco ou impossivel.

Ao sair do hospicio, Quaresma se envolve na Revolta da Armada (1893) na condicao de defensor do presidente Floriano Peixoto, que chega a lhe dizer: "Voce, Quaresma, e um visionario ...".

Mas o presidente se revela um ditador, e seu admirador, sem que este ultimo saiba bem por que, acaba preso e condenado como traidor.

As palavras com que, em carta a irma, ele exprime seu desalento sao de um patetismo poucas vezes alcancado na ficcao brasileira. Lembram o monologo final de Macbeth, antes da queda de seu reino: "Esta vida e absurda e ilogica [...] Ninguem compreende o que quero, ninguem deseja penetrar e sentir; passo por doido, tolo, maniaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua brutalidade e fealdade."

O livro "Triste Fim de Policarpo Quaresma" estara a venda nas bancas no proximo domingo.

REFERENCIAS

COLECAO traz Drummond dos temas sociais. Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 02 mar. 2008. Ilustrada.

COLOMBO, S. A morte seria um alivio. Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 09 mar. 2008. +Mais!.

CRUZ. E. Fe na encruzilhada. Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 16 mar. 2008. +Mais!.

FIORIN, J. L. Em busca do sentido: estudos discursivos. Sao Paulo: Contexto, 2008.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. Traducao de Laura Fraga de Almeida Sampaio. 11.ed. Sao Paulo: Loyola, 2004.

GARCIA VAZQUEZ, R. Etica contra estetica. Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 09 mar. 2008. +Mais!, Biblioteca basica.

JAFFE, N. Historia para ler sem pressa. Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 08 mar. 2008. Ilustrada.

LIVRO de Lima Barreto e o proximo da "Colecao". Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 30 mar. 2008. Ilustrada.

MAINGUENEAU, D. Cenas da enunciacao. Organizacao de Sirio Possenti e Maria Cecilia Perez de Souza-e-Silva. Curitiba: Criar Edicoes, 2006a.

--. Discurso literario. Traducao de Adail Sobral. Sao Paulo: Contexto, 2006b.

--. Analise de textos de comunicacao. Traducao de Cecilia P. de Souza-e Silva e Decio Rocha. 4.ed. Sao Paulo: Cortez, 2005.

OS DEZ +: uma selecao de livros e eventos culturais indicados pelo caderno. Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 09 mar. 2008a. +Mais!.

OS DEZ +: uma selecao de livros e eventos culturais indicados pelo caderno. Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 16 mar. 2008b. +Mais!.

PINTO, M. da COSTA. Sargento Getulio e Viva o povo brasileiro. Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 08 mar. 2008. Ilustrada.

SANTOS, J. R. dos. Memorias do Carcere. Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 02 mar. 2008. +Mais!, Biblioteca basica.

TRAVANCAS, I. O livro no jornal: os suplementos literarios dos jornais franceses e brasileiros nos anos 90. Cotia: Atelie, 2001.

VITRINE. Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 08 mar. 2008a. Ilustrada.

VITRINE. Folha de S. Paulo, Sao Paulo, 29 mar. 2008b. Ilustrada.

Recebido em fevereiro de 2013.

Aprovado em maio de 2013.

Luiz Augusto ELY *

Ligia NEGRI **

* UFPR--Universidade Federal do Parana. Curitiba--PR--Brasil. 80.060-150--luizaugustoely@gmail.com

** UFPR--Universidade Federal do Parana. Departamento de Linguistica, Letras Classicas e Vernaculas. Curitiba--PR--Brasil. 80.060-150--lignegri@ufpr.br

(1) Este trabalho e resultado de analises realizadas em dissertacao de mestrado apresentada por Luiz Augusto Ely ao Programa de Pos-Graduacao em Letras, area de concentracao em Estudos Linguisticos, da Universidade Federal do Parana (UFPR), como parte das exigencias para a obtencao do titulo de Mestre em Letras, sob orientacao da Profa. Dra. Ligia Negri.

(2) O historiador Roger Chartier apresenta, de forma mais detalhada, aspectos a respeito desse fenomeno em obras como, por exemplo, A aventura dos livros: do leitor ao navegador. Sao Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista: Imprensa Oficial do Estado, 1999; e A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os seculos XIV e XVIII. Brasilia: Editora da Universidade de Brasilia, 1994.

(3) Os textos integrais das materias da Folha de S. Paulo que aqui comentamos estao dispostos ao final do trabalho, sob a forma de anexo.
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Ely, Luiz Augusto; Negri, Ligia
Publication:Alfa: Revista de Linguistica
Date:Jul 1, 2014
Words:13567
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