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Idioma-imagem na gravura de Magliani.

Magliani's prints

A artista brasileira Magliani (Maria Lidia dos Santos Magliani, Pelotas, 1946--Rio de Janeiro, 2012), deixou um vasto e rico legado artistico afirmado em uma linguagem visceral. Reconhecendo-se essencialmente pintora, Magliani transitou com liberdade por diferentes meios, produziu intensamente, recusou rotulacoes e limitacoes, tornando-se uma artista de referencia para toda uma geracao.

Nascida em Pelotas, mudou-se ainda crianca para Porto Alegre e em 1963, aos 17 anos, iniciou o curso de Artes Plasticas no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IA/UFRGS). Contou com o incentivo do professor Ado Malagoli com quem, posteriormente, especializou-se em Pintura. Ainda estudante comecou a expor e receber destaques por sua producao artistica. Teria sido a primeira aluna negra a formar-se no Instituto de Artes.

No Brasil, em 1964 um golpe havia destituido o governo e implantado uma ditadura militar, tendo sido bastante lento o processo de redemocratizacao do pais. Em 1985, por uma ironia do destino, em plena abertura politica, a ultima eleicao indireta do pais elegeu um presidente civil que veio a falecer antes de assumir o cargo, levando, novamente, um general ao poder. Vivendo sua juventude em plena ditadura militar brasileira, um momento marcado por censura, exilios, repressao policial, tortura e mortes, Magliani buscou seu caminho em diferentes frentes. Seu contato e amizade com o diretor de teatro Ivo Bender (Sao Leopoldo, 1936--Porto Alegre, 2018) em 1972 levou-a a interpretar Tiresias, o adivinho cego, na peca Antigona, de Sofocles, dirigida por Bender e acompanhada por um importante elenco, com Caio Fernando Abreu, Romanita Disconzi, Vania Brown e Alba Lunardon, entre outros. Bender recorda que Magliani "como atriz, era intuitiva e muito disciplinada" e que "Sua figura e interpretacao foram o momento mais impactante do espetaculo. Magliani era assim: transitava tranquila e eficiente das artes plasticas ao teatro, passando pelo canto nas rodas de amigos." (Ivo Bender apud Depoimentos, s/d).

Magliani teve sucessivas participacoes na cena teatral porto-alegrense integrando varias pecas. Protagonizou a montagem de O Negrinho do Pastoreio, uma lenda gaucha adaptada de conto de Simoes Lopes Neto, com direcao de Delmar Mancuso. Tambem criou numerosos cenarios e figurinos. Em 2010, questionada por Michele Rolim quanto a influencia do teatro em sua producao, Magliani declarou: "Estar no palco me trouxe uma nova maneira de perceber o espaco que passou a fazer parte do espaco na pintura." (entrevista a Michele Rolim, Jornal do Comercio, Porto Alegre, 2010. apud Entrevistas, s/d).

Conforme pontua o artista Julio Castro, Magliani "viveu intensamente as transformacoes sociais e politicas ocorridas entre os anos 60 e 70 do seculo passado, como a luta pelos direitos civis, a liberacao feminina etc.". Amigo pessoal da artista, Julio Castro tambem observa que: "Na Bienal de 67, Magliani vai pra Sao Paulo e fica impactada com os artistas pop americanos, entre eles, Jasper Johns, James Rosenquist, Andy Wharhol" (extrato de projeto de captacao confiado a autora).

Convive e aproxima-se do escritor Caio Fernando Abreu (Santiago, 1948--Porto Alegre, 1996) para quem, em 1974, faz ilustracoes para o livro O Inventario do Irremediavel. No mesmo ano ainda produz capas e ilustracoes para livros de Sergio Caparelli (Uberlandia, 1947). Produz intensamente atuando como ilustradora, e tambem como diagramadora em jornais como Folha da Manha e Zero Hora, de Porto Alegre, e Folha de Sao Paulo.

Artista inquieta, no inicio dos anos 80 do seculo XX, mudou-se para Sao Paulo. Posteriormente, morou seis anos em Tiradentes, Minas Gerais, e, a partir de 1998, no Rio de Janeiro. Com muitas idas e vindas a Porto Alegre, conforme a propria Magliani, seu sentimento era de estar sempre em movimento: "Nao mudei para o Rio; apenas estou aqui no momento, nao lembro desde quando e nem sei por quanto tempo, como estive em outros lugares. Gosto de pensar que vivo em movimento, em direcao a." (entrevista a Michele Rolim, Jornal do Comercio, Porto Alegre, 2010. apud Entrevistas, s/d).

Idioma-imagem

A obra de Magliani e visceral, quase um grito, ora em nuances taciturnas ou em dramaticos contrastes de preto e branco, ora em explosoes de cor, apresentando manchas e grafismos em representacoes de rostos e corpos dilacerados, amarrados, sufocados, martirizados, cabecas transformadas em serrotes, plantas, vasos, guarda-chuvas, entre outros.

Em conversa no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), em 1987, por ocasiao de sua exposicao individual Auto-retrato dentro da jaula, questionada por Milton Kurtz (Santa Maria, 1951-1996) sobre a racionalidade em seu trabalho, Magliani responde que, apesar de parecer um trabalho "intuitivo, impulsivo mesmo", e fruto de elaboracao e escolhas: "O que aparece como espontaneo na minha pintura e na verdade fruto de muita elaboracao plastica e grafica."

Na mesma materia, a artista, entrevistada pelo jornalista Joao Carlos Tiburski, editor do Boletim Informativo do MARGS, contesta o "falar tanto sobre uma linguagem que nao pertence ao mundo das palavras", declarando: "Nao entendo a necessidade da palavra autenticando ou explicando a imagem, uma linguagem dependendo de outra.". Comenta que ela traz questoes, nao as explica, e afirma: "Meu idioma e a imagem, a forma, a procura de um alfabeto proprio atraves da cor. O que eu penso e elaboro esta no meu trabalho, o que eu tentar decodificar e redundancia." (apud Entrevistas, s/d).

Muito antes disto, em 1977, em depoimento publicado em Boletim Informativo do MARGS, Magliani manifestara o desejo de trabalhar com gravura mas lamentava as dificuldades tecnicas implicadas (apud Entrevistas, s/d). Justamente, embora Magliani seja mais conhecida por sua pintura, sua producao foi proficua em pinturas, desenhos, gravuras e objetos e, dentre o expressivo volume de obras deixado pela artista, a producao em gravuras ocupa um espaco privilegiado, concentrando-se nos anos 1980 e a partir de 2009. Se, como salienta o jornalista Omar Barros Filho, em depoimento em 2016, "a variedade dos temas abordados por" Magliani indica "como os editores dos jornais locais trabalhavam naquela epoca", as ilustracoes que fez "para obras literarias, antes de tudo mostram os primeiros passos da artista e a profundidade de seu amor por aqueles que com ela dividiam suas melhores fantasias" (Omar Barros Filho apud Depoimentos, s/d).

A serie de linoleogravuras (Figura 1, Figura 2, Figura 3, Figura 4), de 1980, que serviram de capa e ilustracoes para o livro de poesias O Circulo do Suicida, de Eduardo San Martin (Porto Alegre, 1953), e uma verdadeira preciosidade. Trazendo elementos comuns a sua poetica, a serie de imagens de pequena dimensao e de cortes nervosos mas precisos foi impressa em delicado e fino papel de arroz. Nelas, com a dramaticidade do contraste do preto e branco, encontram-se representadas mesas de bar, amarras, gilete, expressoes de grito e figuras retorcidas em tormento.

Magliani realiza litografias, gravuras em relevo (linoleos e xilos) e gravuras de entalhe, explora diferentes formas e composicoes recortando fundos, dividindo e desdobrando espacos, como na xilogravura Da noite (Figura 5), de 2010, misturando elementos e, ocasionalmente, criando narrativas. Por vezes, os elementos parecem flutuar no espaco, como nas xilogravuras Sonhar I e Sonhar II (Figura 6 e Figura 7), de 2009, frente e verso de uma mesma imagem.

Em algumas gravuras, como as da serie de xilogravuras que compoe o album Procura-se (Figura 8, Figura 9 e Figura 10), de 2012, com sua goiva, tao afiada quanto sua percepcao, Magliani apresenta composicoes em formato de retrato onde os torsos ostentam objetos variados a guisa de cabeca, quando nao uma cabeca virada, ou mesmo uma cabeca transpassada por um serrote. Sao gravuras enigmaticas e nao despidas de tensao.

Magliani nos indaga e confronta incessantemente. Seu traco, aliado aos elementos recorrentes em sua poetica, apresentam objetos contundentes, corpos amarrados, torcidos, perfurados, em linhas energicas e precisas e nao nos trazem qualquer conforto.

Deixando um legado artistico inestimavel, Magliani foi uma artista de seu tempo que marcou profundamente toda uma geracao. Certamente, nao foi facil ser Magliani, viver este periodo como artista, mulher e negra. Em 1977, no texto de introducao a entrevista com Magliani, a reporter previne: "Sua figura miuda por certo decepciona um pouco as pessoas que nao a conhecem senao atraves de seus trabalhos que, de tao fortes, quase sempre dao a impressao de terem sido feitos por um homem". Naquele momento Magliani, que alcancava projecao no cenario das artes, expressou surpresa ao ser questionada sobre as dificuldades que teria pelo fato de ser negra. Mesmo reconhecendo haverem dificuldades, logo encerrou o assunto declarando: "Minha cabeca nao tem cor." (Liane dos Santos, As mulheres gordas de Magliani: um espasmo corporal apud Entrevistas, s/d).

Dez anos depois, em 1987, com grande repercussao, Magliani realiza a mostra Auto-retrato dentro da jaula, no MARGS. Um encontro com a artista foi realizado e, com base neste, tambem uma entrevista com Joao Carlos Tiburski, Editor do Boletim Informativo do MARGS. Tiburski pergunta a Magliani sobre a negritude em sua obra, e Magliani reitera: "Ser uma pessoa de cor negra nao interfere em nada na minha pintura e nao entendo a sempre presente preocupacao das pessoas com este aspecto." (apud Entrevistas, s/d).

Em depoimento de 2017, o artista Mario Rohnelt (Pelotas, 1950--Porto Alegre, 2018), comenta de sua admiracao por Magliani, que conhecera por 1970, e pontua:
   A arte da Magliani era, sem duvida alguma, uma obra de resistencia
   social a gritar alto "as coisas nao estao bem". Alguns anos mais
   tarde, Magliani negaria que sua pintura estivesse a servico do
   protesto. Nao importa. Eu entendi esta negativa dela, nao como
   traicao a algum discurso rebelde, mas como um esforco para que sua
   pintura fosse vista como linguagem expressiva, uma sucessao de
   gestos fortes e contorcidos que configuravam personagens
   atormentados. Creio que ela gostaria que assim fosse descrito o seu
   trabalho. Como que almejando falar de uma condicao humana que
   extrapola a mesquinhez do dia-a-dia. Que sua obra fosse uma
   declaracao universal (e o e, certamente).


Rohnelt segue comentando que, para ele e Milton Kurtz, Magliani tinha "chegado la". Mas reconhece que isto era um engano, que ela "continuava heroica e firme enfrentando a precariedade da sua vida e de um sistema cultural com capacidade bastante limitada para reconhecer seus artistas.". Mesmo sabendo que Magliani nao concordaria com o uso do termo "heroica", ele declara: "Me perdoa Magliani querida, de onde estiver, mas poxa, e que tu enfrentastes [sic] muita coisa: ser mulher, negra e artista plastica. Tenho que reconhecer em ti o talento, mas tambem a forca heroica" (Mario Rohnelt apud Depoimentos, s/d).

Magliani participou de importantes exposicoes coletivas como o Projeto Co-Nexus--Museum of Contemporary Hispanic Art, Nova York, EUA; da Bienal Latino Americana de Arte sobre Papel, Buenos Aires, Argentina; de varias edicoes do Panorama da Arte Brasileira Atual--Museu de Arte Moderna de Sao Paulo; da XVIII Bienal Internacional de Sao Paulo; do VII Salao Nacional de Artes Plasticas--FUNARTE/Rio de Janeiro; alem de ter realizado numerosas exposicoes individuais, para citar algumas, apenas em 1987 Magliani expos nas Galerias Tina Zappoli, Porto Alegre; no Espaco Capital, Brasilia; na Paulo Figueiredo, Sao Paulo; e na Galeria Van Gogh, Pelotas, no Brasil. Sua obra encontra-se em importantes acervos e colecoes brasileiras.

Por quatorze anos, de 1998 a 2012, Magliani manteve vinculos e trabalhou no Estudio Dezenove, no Rio de Janeiro, coordenado por Julio Castro. Em 2013, Julio Castro, com anuencia dos herdeiros da artista, instituiu junto ao Estudio Dezenove o Nucleo Magliani que, desde entao, tem promovido diversas acoes buscando preservar a memoria, as obras, as documentacoes e a fortuna critica desta grande artista brasileira.

Referencias

Depoimentos (s/d) Nucleo Magliani. Estudio Dezenove. [Consult. 2018-11-05] Disponivel em URL: https://www. estudiodezenove.com/depoimentos.html

Entrevistas. (s/d) Nucleo Magliani. Estudio Dezenove. [Consult. 2018-11-05] Disponivel em URL: https://www. estudiodezenove.com/entrevistas.html

MARISTELA SALVATORI, Brasil, artista visual, professor.

Artigo completo submetido a 07 de Fevereiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

AFILIACAO: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Programa de Pos-Graduacao em Artes Visuais (PPGAV). Rua Senhor dos Passos, 246, CEP 90020-180, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: maristela.salvatori@ufrgs.br

Leyenda: Figura 1 * Magliani, sem titulo, xilogravura, 1980. Ilustracao para o livro O circulo do suicida, de Eduardo San Martin.

Fonte: Estudio Dezenove (https://www.estudiodezenove.com/ cronologia.html)

Leyenda: Figura 2 * Magliani, sem titulo, xilogravura, 1980. Ilustracao para o livro O circulo do suicida, de Eduardo San Martin. Fonte: Estudio Dezenove (https://www.estudiodezenove.com/ cronologia.html)

Leyenda: Figura 3 * Magliani, sem titulo, xilogravura, 1980. Ilustracao para o livro O circulo do suicida, de Eduardo San Martin.

Fonte: Estudio Dezenove (https://www.estudiodezenove.com/ cronologia.html)

Leyenda: Figura 4 * Magliani, sem titulo, xilogravura, 1980 capa do livro O circulo do suicida. Fonte: Estudio Dezenove (https://www. estudiodezenove.com/cronologia.html)

Leyenda: Figura 5 * Magliani, Da noite, xilogravura, 30,5 x 37,5 cm, 2010. Fonte: Estudio Dezenove.

Leyenda: Leyenda: Figura 6 * Magliani, Sonhar I, xilogravura, 19,2 x 28,7 cm, 2009. Fonte: Estudio Dezenove

Leyenda: Figura 7 * Magliani, Sonhar II, xilogravura, 18,5 x 28,1 cm, 2009. Fonte: Estudio Dezenove

Leyenda: Figura 8 * Magliani, do album Procura-se, xilogravura, 35 x 26 cm, 2012. Fotografia: DelRe_VivaFoto Fonte: Galeria Tina Zappoli (http://brasilartegaleria.com.br/)

Leyenda: Figura 9 * Magliani, do album Procura-se, xilogravura, 35 x 26 cm, 2012. Fotografia: DelRe_VivaFoto Fonte: Galeria Tina Zappoli (http://brasilartegaleria.com.br/)

Leyenda: Figura 10 * Magliani, do album Procura-se, xilogravura, 35 x 26 cm, 2012. Fonte: Estudio Dezenove (https://www.estudiodezenove.com/aacutelbuns-experiecircncia-muacuteltipla.html)
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Title Annotation:Artigos originais
Author:Salvatori, Maristela
Publication:GAMA
Date:Jan 1, 2019
Words:2413
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