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INIGO RUIZ ARZALLUZ (coord.), Estudios de Filologia e Historia en Honor del Profesor Vitalino Valcarcel.

INIGO RUIZ ARZALLUZ (coord.), Estudios de Filologia e Historia en Honor del Profesor Vitalino Valcarcel, 2 vols., edicao de Alejandro Martinez Sobrino, Maria Teresa Munoz Garcia de Iturrospe, Inaki Ortigosa Egiraun e Enara San Juan Manso, Bilbau, Universidad del Pais Vasco, 2014 (Anejos de Veleia--Series Minor; 32). 1144 pp. ISBN 978-84-9082-048-3

Esta obra, que homenageia o Professor jubilado Vitalino Valcarcel, da Universidade do Pais Basco, reune setenta e um contributos, distribuidos por dois volumes, de colegas e amigos que fizeram questao de assim obsequiar um academico por eles estimado e respeitado.

No Prologo, da autoria do coordenador da obra, Ruiz Arzalluz, recorda-se o labor do Professor Valcarcel como um dos fundadores da Universidade do Pais Basco e o seu empenho no campo da Filologia Latina, tendo obtido o grau de professor catedratico em 1990. Assinalando a sua inigualavel competencia na literatura hagiografica latina da Idade Media, Ruiz Arzalluz lista os trabalhos publicados pelo homenageado que considera mais relevantes nesse campo, bem como alguns estudos nas areas da historiografia latina e biografia, bem como na de Filologia Latina, que nunca deixou de acarinhar.

Uma vez que a ordem escolhida para a organizacao da obra foi a alfabetica dos apelidos dos colaboradores, cabe-nos aqui ensaiar uma apresentacao tematica que de conta das principais areas tratadas nos capitulos.

Dos estudos filologicos, cinco tratam da ars gramatica: C. Codoner estuda os pronomes possessivos na primeira pessoa em Plauto, Cicero e Seneca; I. Igartua dedica-se a reorganizacao da flexao nominal no latim tardio, em funcao do genero gramatical, comparando o seu processo de evolucao com o verificado em outras linguas indo-europeias, nomeadamente as eslavas; R. Miguel Franco analisa as formas de traducao do participio presente latino para a lingua castelhana no seculo XV, numa epistola do pseudo Bernardo; J. Carracedo Fraga estuda a influencia dos livros sagrados da Vulgata e da Vetus Latina na Ars Grammatica de Juliao de Toledo; e E. Tarrino Ruiz discorre acerca do uso dos verbos de movimento eo e uenio na Peregrinado Aetheriae.

Alguns trabalhos sao dedicados a lexicografia: o academico basco J. Gorrochategui propoe a correccao do lexico constante de um grafito parietal do Museu Arqueologico de Narbona, contendo uma lista de alimentos para uma merenda, em substituicao da leitura (inexacta, segundo este autor) oferecida pela editio princeps de 1997; M. Perez Gonzalez disserta acerca do vocabulo bastonarius em diplomas medievais de Leao, defendendo que, mais do que um problema lexicografico, se esta perante uma questao filologica; G. Hinojo Andres estuda a origem e evolucao do vocabulo latino parabola, propondo uma explicacao para o facto de em seu favor se ter preterido o lema verbum, que antes era habitualmente utilizado para significar "palavra"; e J. Alturo i Perucho estuda um novo fragmento (que reproduz em tres imagens), encontrado em Manresa, de um Liber glossarum escrito na Catalunha em fins do seculo IX/inicios do X, aventando a hipotese de a sua origem remontar ao bispo Ansileubo, e publica o texto que resta no fragmento seguindo os criterios dos editores do Glossarium Ansileubi siue Librum Glossarum. Por sua vez, M. Vasquez Bujan, trabalhando no mesmo Glossario na sua edicao de Heiberg, faz um estudo das fontes que deram origem as glosas medicas nele contidas.

S. Lopez Moreda, dando exemplos dos humanistas Lorenzo Valla e Antonio de Nebrija, tece consideracoes sobre a questao intemporal dos neologismos, neste momento tao em voga. Partindo da definicao do vocabulo, lembra que a sua importacao pode ser feita por via culta (a partir do grego, latim ou mesmo de linguas modernas) ou por via vulgar, nao esquecendo o jargao tecnico que acompanha o progresso tecnologico/cientifico. Entre varios exemplos, extremamente interessantes tambem sob o ponto de vista historico, sublinha o condicionamento da pressao politica e da sua interferencia na questao da aceitacao (ou recusa) dos neologismos.

J. Puentes Romay apresenta um titulo abrangente para um estudo sobre "exemplos em textos gramaticais latinos", que mesmo nas curtas linhas do resumo nao sao identificados. E apenas nas consideracoes introdutorias que sabemos que esses exemplos sao retirados de quatro capitulos do primeiro livro da Institutio Oratoria de Quintiliano, dos tratados sobre a ortografia de Terencio Escauro e Velio Longo e da Ars Grammatica de Mario Vitorino.

A. Peris i Joan escreve, em lingua catala, acerca de um manuscrito do seculo XII, presente na Biblioteca Nacional de Paris (lat. 2152), que contem os Synonyma de Isidoro de Sevilha, fazendo a sua comparacao com o codex Sangallensis 226, do seculo VI, nos 24 folios conservados, com o fim de tentar restabelecer o texto deste ultimo. J. Gil, a partir de um manuscrito conservado na biblioteca do Seminario Diocesano de Vitoria, no pais Basco, relativo a Sevilha, oferece a primeira publicacao de duas cartas da correspondencia de Benito Arias Montano (uma que dirigiu a Oretano; outra que recebeu de Martin de Baya).

E. San Juan Manso, com base em manuscritos do seculo XV de textos das comedias de Terencio, analisa as glosas que mostram os processos de reelaboracao que terao sofrido os comentarios medievais relativos aquele dramaturgo, nomeadamente o Commentum Brunsianum. Apresenta aqui a edicao de tres textos com apontamentos de estudantes alemaes sediados no norte de Italia, que fundamentam as suas conclusoes. F. Moya e E. Gallego oferecem-nos a edicao critica de um inedito do humanista espanhol Juan de Fonseca y Figueroa, escrito em inicios do seculo XVII, que versa sobre criticas as tragedias de Seneca. E. Perez Rodriguez estabelece a primeira edicao critica de duas composicoes liricas nao liturgicas, dedicadas a Virgem Maria, do franciscano Juan Gil de Zamora (seculos XIII-XIV), a partir de manuscritos do seculo XIV. A autora efectuou um estudo das tres edicoes anteriores, nao criticas, dos textos que agora apresenta, cotejando-as com o conteudo dos manuscritos.

Os estudos literarios reclamam para si o maior numero de trabalhos presentes nesta obra. M. Conde Salazar analisa os incunabulos da obra de Suetonio De Grammaticis et Rhetoribus, pertencentes ao patrimonio bibliografico espanhol. M. Munoz Jimenez analisa o manuscrito 244 da Biblioteca de Santa Cruz de Valladolid, da autoria de Cristobal Garcia Guillen de Paz, catedratico da Universidade de Valladolid de inicios do seculo XVI, que consiste num florilegio de autores que vao de Plutarco a Erasmo, e tem como modelo Andre Rodrigues de Evora. Um estudo bibliografico, da autoria de G. Bilbao, cita obras de referencia latinas (enciclopedie rinascimentali) citadas no Gero de Pedro de Aguerre, conhecido como "Axular", que veio a ser considerado um dos maiores prosadores da literatura basca do seculo XVII. J. Escola Tuset analisa os textos em prosa das enciclicas atraves das quais os centros monasticos medievais comunicavam o falecimento de personagens de vulto, procurando as tradicoes literarias que os inspiravam. A. Moreno Hernandez escolhe um passo da Guerra das Galias (VI, 14, 4) de Julio Cesar para analisar a narrativa ali feita na primeira pessoa. J. Lorenzo comenta o papel desempenhado por um dos elementos do officium oratoris, a actio retorica, na narrativa de Tito Livio sobre o saque de Roma pelos Gauleses (5, 37-48). Ilustrando a poderosa descricao plastica de Livio, que transforma o verbo em pintura, o autor inclui no seu estudo duas figuras cujas referencias, contudo, nao identifica.

Alguns trabalhos tem por objecto a poesia. P. Farmhouse Alberto escolhe quatro poemas do bispo e poeta da Espanha visigotica Eugenio de Toledo, que ilustram o tradicional genero epigramatico para basilicas e outros edificios sagrados. J. Bilbao Ruiz coligiu, transcreveu e traduziu os escolios presentes na comedia de Aristofanes Acamenses contendo citacoes de poetas liricos. A. Martinez Sobrino propoe uma interpretacao alternativa para a obra do poeta satirico romano Persio a partir do poema de abertura (Cho. 5-6). G. Lopetegui Semperena remonta as fontes na origem de um poema anonimo do seculo XIII, nomeando a obra De Consolatione Philosophiae de Boecio, e faz a sua interpretacao alegorica. J. Maestre Maestre expoe a influencia da ecloga IV de Virgilio e de um epigrama de Marcial (6, 3) num poema composto em 1527 por Juan Sobrarias Segundo, para celebrar o nascimento do futuro rei Filipe II de Espanha. M. T. Munoz Garcia de Iturrospe estuda as composicoes poeticas funerarias escritas em lingua latina por Milton depois de 1926, indicando a marcada influencia de Horacio e Ovidio no trabalho do poeta ingles. Por sua vez, J. Velez Latorre tambem reclama a influencia sofrida por John Milton de um poema epico (De spiritalis historiae gestis) composto em inicios do seculo VI por Avito de Vienne, poeta latino que foi arcebispo daquela localidade, na Galia romana. O poema reelabora quatros temas biblicos, o pecado original, a expulsao do Paraiso, o diluvio e a travessia do Mar Vermelho. M. Mayer i Olive analisa a figura controversa de Cornelia, mae dos Gracos e filha de Cipiao Africano, partindo dos versos contidos na sexta satira de Juvenal. J. Siles propoe a leitura do carmen IV de Catulo a luz de uma sua alegada intencionalidade parodiante. F. Stella faz uma incursao pela poesia da Alta Idade Media em busca da presenca de mulheres biblicas do Antigo Testamento, anteriormente apresentadas pela tradicao patristica como simbolo das virtudes cristas ideais femininas. Finalmente, nao podia faltar a poesia homerica, que J. Signes Codoner pensa ter sido bem conhecida nos meios islamicos do seculo IX, nomeadamente pelos intelectuais abassidas ao servico do califado. A tal respeito, recorda a descoberta recente, no Mosteiro de Santa Catarina do monte Sinai, do mais antigo manuscrito da Iliada que chegou ate aos nossos dias.

A obra apresenta, tambem, alguns estudos na area da biografia: A. Dupla Ansuategui debruca-se sobre a figura de Marco Antonio, desde a sua caracterizacao na Antiguidade ate a sua recepcao na modernidade, manifestando a necessidade de uma releitura que faca justica ao triunviro, que considera maltratado pelos autores que o tem retratado. Como nao podia deixar de ser, nao falta a referencia ao grande defensor da figura de Antonio, o historiador Ronald Syme, falecido em 1989. M. Garcia Soler foca a sua atencao sobre a figura de Pericles na comedia grega antiga, de que realca a tradicao satirica que tinha como alvos as figuras politicas da epoca. F. Gonzalez Vega analisa a vida de Antonio de Nebrija a partir dos apontamentos de ordem pessoal inseridos em duas das obras deste humanista, propondo-se discernir a veracidade das informacoes ali contidas. E. Redondo Moyano fala sobre obras autobiograficas em lingua grega escritas durante a epoca imperial romana, dos seculos I a IV da era comum. A. Garcia Leal conta a vida do principe otomano Zizim e as aventuras e desventuras que lhe sucederam apos a morte do rei seu pai, Mehmet II o Conquistador (seculo XV), baseando-se na narrativa do escritor quatrocentista Guilherme Caoursin. J. Bartolome faz a comparacao do retrato de Cleopatra na obra de Lucano com o caracterizado pelos poetas latinos do tempo de Augusto.

Tambem a Historia chama a si um bom numero de contributos nesta Festschrift, em diferentes dominios. S. Valcarcel Martinez, dando relevo a biografia do renascentista espanhol Cieza de Leon, fala da sua actividade historiografica e da sua narrativa sobre as guerras civis do Peru. J. Sanchez Marin estuda a epistemologia historiografica e biografica na obra do humanista italiano G. A. Viperano. I. Ruiz Arzalluz visa descobrir a razao que tera causado o erro de Boccaccio (atribuindo-o a uma homenagem a Petrarca) em confundir o comediografo Publio Terencio Afro com o senador Terentius Culleo.

Dois dos contributos tem por objecto a toponimia: V. Yarza Urquiola privilegia a regiao basca da Guipuzcoa nos autores (nao mencionados no resumo) Estrabao, Plinio e Ptolemeu; e R. Martinez Ortega dedica breves consideracoes aos toponimos medievais presentes em edicao da Cronica do Imperador Afonso VII que, conquanto indicada como recente, parece ser a de A. Maya Sanchez, datada de 1990 (depois traduzida e comentada em 1997). Embora o resumo preconize o tratamento de alguns problemas de critica textual presentes na edicao, o trabalho foca sobretudo questoes relativas aos toponimos.

Encontramos tres estudos epigraficos: J. M. Anguita Jaen estuda a inscricao de um poema acrostico na catedral de Lugo, datada de finais do seculo X/inicios de XI, cujas linhas formam o nome do bispo Odoario de Lugo (seculo VIII e.c.), incluindo duas gravuras ilustrativas; J. Gonzalez Fernandez apresenta quatro inscricoes cristas ineditas (que reproduz em imagem), presentes em coleccoes privadas, provenientes de cidades da provincia romana da Betica, e J. Santos Yanguas recorda a necessidade de se fazer o estudo dos textos epigraficos no terreno, criticando o metodo estritamente teorico e apontando os erros mais comuns que este origina.

Sao tambem tres os contributos relativos a arte da parenetica. A. Alberte disserta sobre uma expressao latina encontrada no texto da introducao de uma ars praedicandi anonima do seculo XV, que considera um hapax', A. do Espirito Santo demonstra a profunda influencia de Cassiano no pensamento de Martinho de Dume, tomando por exemplo a sua obra Pro Repellenda Iactantia, que analisa detidamente, e A. Ferreiro, escrevendo em lingua inglesa, afirma-se pioneiro na sua analise do sermao de S. Vicente Ferrer dedicado a Tomas Becket, Arcebispo de Cantuaria, morto e canonizado no seculo XII.

P. Redondo contribui com uma pequena, mas interessantissima, analise da monografia do activista, pintor e escritor piemontes Cario Levi, Cristo si e Fermato a Eboli, um testemunho da experiencia do italiano quando exilado pelo regime de Mussolini na regiao que hoje e a Basilicata. Redondo mostra uma profunda compreensao dos estados de espirito do escritor e dos estadios que atravessou ate conseguir alcancar e entender a alma rural do sul de Italia, transcrevendo excertos do livro de Levi, plenos de poesia e humanidade, que ilustram a sua irmandade com as gentes que, na sua simplicidade cha, vivem o quotidiano "com a morte as costas". Embora afirme, quer no titulo, quer no texto, que Levi recusa o classico, todo o trabalho do italiano esta repleto de referencias classicas, desde a comparacao da cabra com um satiro, a referencia a Persefone quando menciona a Virgem negra de Viggiano, passando pelas actrizes de um teatro ambulante que compara com Juno e com as ninfas dos bosques. Centrado na Eneida e na mitologia virgiliana de Roma, o que Levi recusou foi a apropriacao totalitarista da narrativa mitologica da Eneida, propondo, segundo P. Redondo, uma mitologia alternativa para Roma e condenando firmemente o autoritarismo e o elitismo de Estado que mantinham sepultados na sua lonjura os "malditos da terra".

Sao bastantes os trabalhos dedicados a hagiografia, tambem porque, como foi dito no Prologo e um dos autores reiterou, o Professor Valcarcel aprecia especialmente o genero. J. E. Lopez Pereira discorre sobre a vida de Martinho de Dume para tentar estabelecer a tese de que, ao contrario do habitualmente afirmado, ele seria originario da Galia e nao da Panonia; M. Agudo Romeo propoe-se respigar os elementos hagiograficos contidos na Cronica do papa Bento XIII, escrita em latim pelo eclesiastico aragones Martin Alpartir na altura do cisma de Avinhao; W. Berschin faz a transcricao latina e respectiva traducao, em lingua alema, de um prefacio (recentemente descoberto) as vidas dos Santos Cipriano e Justina de Antioquia, escrito por Joao de Amalfi em inicios do seculo XII; A. Nascimento analisa a lenda quatrocentista relativa a Santa Iria, tentando estabelecer a caracterizacao desta santa portuguesa e explicar as circunstancias que rodeiam o seu culto; C. Perez Gonzalez, num trabalho que vem indicado como iniciando na pagina 761 mas que, efectivamente, comeca na pagina 781 (o lapsus impressionis esta presente nos indices dos dois volumes), analisa as producoes latinas que narram a vida do dominicano Vicente Ferrer, com incidencia no papel politico que este desempenhou no reino de Aragao. E. D'Angelo fala-nos do bispo do seculo XV/XVI Alessandro Geraldini, tracando breve nota biografica e elencando os seus escritos de hagiografia, dos quais apenas tera sobrevivido uma vida de Santo Alberto de Montecorvino, cuja edicao critica e aqui publicada. J. M. Diaz de Bustamante, em colaboracao com M. E. Lage Cotos, narra a vida da mistica do seculo XVIII Maria Antonia Pereira de Andrade, fundadora do convento das carmelitas descalcas de Compostela, cujo processo de canonizacao ainda esta a decorrer, abordando o aspecto concreto de eia afirmar que aprendeu a 1er e a escrever por si mesma, e que da mesma maneira aprendeu latim. C. Ferrero Hernandez narra a paixao e morte do martir beato Andre de Espoleto, morto em Fez no seculo XVI, a partir das suas edicoes latina e castelhana do mesmo seculo, e transcreve um prologo a edicao castelhana feito pelo franciscano Afonso da Ilha, bem como a paixao propriamente dita, em latim e em castelhano. A. Guiance Conicet estuda as diferentes reelaboracoes da vida do monge Santo Millan (Emiliano) de la Cogolla, escritas do seculo VII ao seculo XIII. P. Henriet e J. Martin-Iglesias, que escrevem em lingua francesa, publicam, a partir de um manuscrito da BNE, a primeira edicao critica de textos do corpus hagiografico do martir Zoilo de Cordova, vitima da perseguicao do imperador Diocleciano. E. Sanchez Salor estabelece a classificacao das narrativas biograficas que descrevem os sofrimentos dos martires cristaos, tipificando-as por tres epocas: a primeira, no tempo em que se verificaram os acontecimentos narrados, a segunda, entre os seculos VI e VII, tendente a utilizar mais recursos literarios, e a terceira pelo seculo XIII, quando passam a ser ilustradas com referencias biblicas e o apelo ao maravilhoso. J. Aragues Aldaz, por seu turno, fala dos chamados "milagres marianos" na obra de R. Llull, um maiorquino do seculo XII, que "inventa" toda uma serie de milagres ficcionados, em que a Virgem Maria aparece quer como personagem, quer ate como narradora. J. Martinez Gasquez comenta as alteracoes encontradas num manuscrito da BNE sobre a vida do profeta islamico Maome, tendentes a apresenta-lo a cristandade com uma imagem negativa. Embora esta narrativa fizesse parte da Historia Arabum de R. Jimenez de Rada (seculo XII/XIII), o manuscrito constitui um excerto independente.

O mito nao podia tambem deixar de estar presente como objecto de estudo: R. Jimenez Zamudio pensa ter encontrado um paralelismo acadico do mito de Faeton na historia de Adapa, filho do deus Ea; e C. Macias Villalobos compara, no famoso mito de Fedra, o Hipolito de Euripides com o da tragedia escrita por Miguel de Unamuno.

G. Rodriguez da um titulo extremamente sugestivo ao seu estudo, que nos induz a antecipar descricoes poeticas e musicais. O seu resumo, contudo, remete mais para o campo da parenetica e estrategias usadas nos seculos XV e XVI pelos monges jeronimos e, particularmente, pelos devotos marianos do Mosteiro Real de Guadalupe. O trabalho consta, de facto, do estudo de praticas e discursos religiosos, com testemunhos recolhidos de cativos "milagrosamente" libertados, nos quais predomina a "paisagem sonora" preconizada. Estes elementos sao reconstituidos a partir do corpus documental conservado no dito Mosteiro, nove codices intitulados Los Milagros de Guadalupe. Apos as consideracoes introdutorias sobre o codex dos milagres e seu conteudo, o autor passa ao discurso presente nos relatos dos cativos, realcando que no mundo ocidental, na epoca em consideracao, se privilegiava o sentido da vista, relegando-se todos os outros para segundo plano, o que explicara a escassez de trabalhos relativos a esta materia. Rodriguez passa a definir o conceito de paisagem sonora, que tera sido cunhado por um compositor/investigador canadiano para o estudo de um ambiente natural, com analise dos sons nele gerados pelas forcas da natureza e pelos seres vivos do respectivo habitat. Passando pela nocao mais recente da antropologia dos sentidos, o autor recorda que a percepcao dos individuos varia consoante a sua dimensao cultural, o que inevitavelmente conduz a uma polissemia das interpretacoes de cada individuo. No ambito da Historia social e da Historia das ideias, o autor sublinha que o papel a desempenhar pelo historiador e o de discernir as diversas interpretacoes e semanticas proprias das praticas sensorials de cada cultura. Passando a sua fonte, que afirma inedita--Los Milagros--, e sublinhando a devocao mariana ali presente, o autor justifica que as narrativas dela constantes constituem evidencia destas assercoes, sendo elaboracao doutrinai que, enquanto conta um determinado acontecimento, o "inventa", fixando-o assim na memoria colectiva religiosa, quando afinal a maioria dos participantes nessas recordacoes nao tiveram a experiencia dos "milagres" reportados. Martinez conseguiu um trabalho metodologicamente bem estruturado, num estudo que se pretende interdisciplinar, ao entretecer as diferentes areas que o compoem.

M. C. Sousa Pimentel elabora um periplo ilustrativo das gentes que pululavam pelo antigo mundo romano em itinerancia, enriquecido pelo vocabulario especifico evocado e pela profusao de colorido e de anotacoes, que nos dao ampla informacao sobre detalhes e sobre a literatura da epoca a consultar sobre a materia. C. Gonzalez Minguez propoe-se reflectir sobre a origem dos mercados e feiras medievais, dando o exemplo do mercado medieval de Vitoria, capital do pais basco, com a transcricao do documento do rei Henrique IV de Castela a oficializar a criacao de um mercado franco semanal na cidade, em 1466. M. Gonzalez Jimenez fala das varias expedicoes feitas, desde o seculo XIV, as Ilhas Canarias e do livro frances Le Canarien, que relata as aventuras de dois aventureiros normandos aquelas ilhas em inicios do seculo XV.

Devido ao seu grande numero, boa parte dos estudos apresentados e, naturalmente, pouco extensa, sendo curioso verificar que cerca de 40% deles se enquadram em projectos financiados por entidades nacionais espanholas. E-nos grata a sua publicacao, que constitui uma oportunidade para trazer a publico materiais que certamente contribuem para aprofundar as varias disciplinas ali tratadas.

MARIA FERNANDES

Centro de Estudos Classicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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Author:Fernandes, Maria
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2016
Words:3571
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