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INDUSTRIAL HERITAGE AS ELEMENT ON THE CULTURAL LANDSCAPE, AND THE CULTURAL LANDSCAPE CONFORMING THE INDUSTRIAL HERITAGE: A CONCEPTUAL RELATION/ EL PATRIMONIO INDUSTRIAL COMO ELEMENTO DEL PAISAJE CULTURAL Y EL PAISAJE CULTURAL EN CONFORMIDAD CON EL PATRIMONIO INDUSTRIAL: UNA RELACION CONCEPTUAL/ O PATRIMONIO INDUSTRIAL COMO ELEMENTO DA PAISAGEM CULTURAL E A PAISAGEM CULTURAL CONFORMANDO O PATRIMONIO INDUSTRIAL: UMA RELACAO CONCEITUAL.

Introducao

O presente trabalho discute as relacoes existentes entre os conceitos de paisagem cultural e o de patrimonio industrial. Trabalha-se com a ideia de que o patrimonio industrial e um elemento integrante da paisagem cultural, influenciando a sua conformacao. Ao mesmo tempo, a paisagem interfere na dinamica de constituicao do patrimonio industrial, expondo elementos que influenciam a sua caracterizacao.

As discussoes acerca da conceituacao de paisagem cultural encontram-se em destaque atualmente, atraves de conferencias e trabalhos realizados pela UNESCO e pela Convencao Europeia de Paisagem. De maneira geral, pode-se definir paisagem cultural como o meio natural ao qual o ser humano, em sua vivencia, deixou registro de suas acoes, sua forma de agir e se expressar. Por seu intermedio, se faz possivel remontar passados longinquos, tornando sua preservacao e estudo necessario. Nesta situacao, a paisagem cultural ganha status de patrimonio, tendo a necessidade de elaboracao de acoes especificas que visem sua salvaguarda.

No que tange ao patrimonio industrial, o desenvolvimento do seu conceito se deu principalmente na Europa pos Segunda Guerra Mundial. Com a destruicao que este evento ocasionou, ressaltou-se a necessidade de protecao desse bem. Seu estudo vai alem das grandes estruturas arquitetonicas, com expressivo valor estetico, ele representa a cultura de um povo, enfatizando o modo de produzir e a sociabilidade que dele deriva. Cabe destacar que os estudos do patrimonio industrial nao estao restritos ao periodo pos Revolucao Industrial. Entende-se que os processos produtivos anteriores a essa fase possuem elementos que podem ser considerados industriais (como a divisao do trabalho, utilizacao de ferramentas, uso de fontes de energia, etc.), logo, nao podem ficar a margem do debate.

Com estas perspectivas expostas, o artigo debatera os principais aspectos que norteiam esses conceitos, expondo suas principais caracteristicas, estruturando sua definicao, implementando as bases para a sua relacao, enfatizando a importancia da mesma para possiveis discussoes futuras.

Patrimonio: um conceito em construcao

O trato do patrimonio nos remete a heranca acumulada ao longo dos anos, tanto por individuos quanto por grupos, que reconhecem num determinado bem singularidades especiais, seja de valor economico, afetivo ou simbolico. Se tidos como uma representacao da coletividade sao tratados como uma resultante e um significante do processo cultural. Assim, conceder a algo o status de patrimonio e enfatizar a caracteristica peculiar de um grupo, ressaltando-a como uma representacao de sua dinamica.

A etimologia do patrimonio esta relacionada, originalmente, a heranca paterna, ou seja, aos bens materiais transmitidos de pai para filho. Proveniente do latim patrimonium, derivada de pater (pai) o termo guarda em si a ideia de propriedade, que no caso especifico, diz respeito aos pertences de uma nacao (CHAUI, 1992). Enquanto conceito, diversas foram as acepcoes construidas, variando de acordo com o contexto inserido. Sob a forma de heranca social o termo aparece na Franca pos-Revolucionaria, com os intelectuais imbuidos nos ideais iluministas, que atribuiram ao Estado o papel de tutelar e proteger os resquicios que representavam a historia da nacao (FUNARI e PELEGRINI, 2009; TEIXEIRA, 2006). Fez-se entao a nocao de que o patrimonio e de todos e como tal deve ser preservado para que as caracteristicas de um povo sejam protegidas, cabendo ao Estado o estabelecimento dos seus limites fisicos e conceituais (FONSECA, 2005).

Cabe ressaltar que a realizacao desta tarefa, ao longo da historia, gerou exclusoes, ja que ao definir um patrimonio, com determinadas caracteristicas, como nacional, outros ficavam as margens, tendo seus referenciais sobrepostos em funcao de algo comum a todos. Dessa maneira o processo de "patrimonializacao" torna-se uma acao politica, pois a escolha e classificacao dos bens que deveriam servir para representar toda nacao, passam a ser utilizado pelo Estado como uma ferramenta de afirmacao e reafirmacao de suas acoes (FONSECA, 2005). Assim, o patrimonio se torna uma construcao subjetiva, variando de acordo com o contexto, mudando de significado na medida em que diferentes valores forem acrescidos ao seu entendimento. Sobre este ponto Fonseca ressalta (2005):

Se os valores que se pretende preservar sao apreendidos na coisa e somente nela, nao se pode deixar de levar em consideracao o fato obvio de que os significados nela nao estao contidos, nem lhe sao inerentes: sao valores atribuidos em funcao de determinadas relacoes entre atores sociais, sendo, portanto, indispensavel levar em consideracao o processo de producao, de reproducao, de apropriacao e de re-elaboracao desses valores enquanto processo de producao simbolica e enquanto pratica social (2005; p.41).

Atualmente novas variaveis sao introduzidas no entendimento de um bem enquanto patrimonio. Por este motivo, seu sentido e ampliado, deixando de ser apenas o que se herda, mas tambem o que constitui e influencia a consciencia de um grupo, sendo campo de negociacoes, disputas, etc. Este processo ocorre atrelado ao processo de globalizacao (responsavel pela mudanca no ritmo das transformacoes sociais, as intensificando), fazendo com que, segundo Santos (2001), seja necessaria a tutela dos bens culturais de um povo, a fim de manter ressaltada sua identidade, evitando a supressao, dissipando a geracao antecedente. Alem disso, neste novo contexto, (consolidacao do processo de globalizacao - entendida nao apenas como a mundializacao do capital, mas sim como um processo que possibilita um maior contato entre diferentes comunidades, tornando as fronteiras tradicionais mais porosas) assuntos nacionais tendem a se tornar causas comuns da humanidade. Assim, a homogeneizacao e uniformizacao dos aspectos culturais tornam-se um risco cada vez mais presente na medida em que o contato e intensificado e acelerado, possibilitando a imposicao de modelos por parte dos centros criadores de consumo e detentores do poder (SANTOS, 2001).

Por outro lado, a particularizacao das culturas (tida como uma estrategia de fuga da homogeneizacao) tambem ganha um novo contorno no contexto da globalizacao. Neste ambito tem-se ressaltado a singularidade, a autenticidade e a particularidade do patrimonio. Essa estrategia faz com que as culturas se fechem, gerando um movimento de intensificacao dos processos de resistencias. Assim, o glocalismo se faz presente e busca nas caracteristicas do local uma forma de resistir ao contexto.

Contudo, ate mesmo a particularizacao do patrimonio, na nova fase de globalizacao, adquire funcao de mercadoria, podendo ser empacotado, fabricado e distribuido para ser consumido (CHOAY, 2003). Com isso, como afirma Harvey (2005), a cultura e transformada em commodities, onde o capital absorve as tradicoes locais e as inovacoes culturais, transformando-as em renda, gerando lucro. Para Chaui (1992) essa caracteristica fica evidente quando se percebe a disparidade existente entre a preservacao dos bens moveis e imoveis. Para essa autora, ao se proteger objetos de arte, colecoes de documentos privados, fotografias, mobiliario, etc. ha uma contribuicao para a valorizacao das mesmas perante as leis do mercado, devido a significancia que lhe e atribuida, ganhando o status de antiguidades. Porem, quando se aplica a legislacao aos bens imoveis ha uma desvalorizacao das mesmas. Essa situacao explicita o controle da classe dominante sobre o criterio e as praticas de preservacao, sendo materializada pelo cultivo do consumo sofisticado.

No Brasil, a visao elitista sobre o patrimonio se faz presente desde a constituicao das politicas de preservacao. Criado como secretaria durante o Governo Vargas, o Instituto do Patrimonio Historico Artistico Nacional (IPHAN) e o orgao federal responsavel pelo trato do patrimonio em nosso pais. Em sua genese tinha por finalidade a salvaguarda dos bens edificados de carater historico e artistico que representavam a nacao. Num primeiro momento, este orgao, baseado nas ideias de um determinado grupo de especialistas, preconizou a protecao dos remanescentes da arte colonial brasileira, afirmando que estas corriam riscos por conta do processo de urbanizacao que se acelerava, dos saques e comercializacao indevidos dos bens moveis. Neste periodo, suas acoes foram desenvolvidas visando a salvaguarda dos bens do seculo XVI, XVII e XVIII, ressaltando a arquitetura religiosa. Tal situacao representava o interesse das classes mais altas, ja que as mesmas consideravam que o modelo de civilizacao a ser seguido estava contido nos paises desenvolvidos estrangeiros e que a unica maneira de o Brasil crescer era copiando esses tipos externos (FONSECA, 2005).

Assim, percebe-se que a constituicao do patrimonio brasileiro e fruto de um jogo politico, com acoes que preconizavam a ideia de um grupo especifico, que consolidaram, nesse primeiro momento, uma perspectiva predominantemente estetica, nao tendo a preocupacao de incorporacao da historia nacional nos seus estudos (tanto que no SPHAN nao havia historiador no seu quadro de funcionarios). Na decada de 1960 esse quadro ganha novos contornos. Isto ocorre devido aos movimentos entorno da cultura popular, como resistencia a ditadura, levado adiante pelos estudantes e operarios e pelos avancos dos anos 70 em outras partes do mundo, sobretudo na Europa. Essa nova situacao influencia a criacao do Centro Nacional de Referencia Cultural--CNRC, que procurou ampliar o debate critico acerca do patrimonio cultural a esfera conceitual. Neste ambito o CNRC voltou sua atencao para o tratamento da cultura viva, dando enfase ao saber popular, tentando tornar mais nacional a cultura brasileira. Porem, ainda persistia a ideia que era de responsabilidade dos intelectuais a producao do conhecimento e valorizacao da cultura (FONSECA, 2005).

A partir da decada de 1980 ha uma mudanca no tratamento da politica cultural no Brasil. Com destaque para a atuacao de Aloisio Magalhaes, os debates acerca das politicas culturais de preservacao nacional ganham novos contornos, com a insercao da populacao nas discussoes, entendendo que este nao pode ser visto como um simples objeto de estudo, mas sim como co-autor do processo. Neste contexto, ha uma mudanca de perspectiva do patrimonio cultural brasileiro possibilitando a insercao de novos grupos ate entao marginalizados (Indigenas, negros, populacoes rurais, etc.). Essa nova perspectiva que norteia o patrimonio cultural nacional e refletida na Constituicao de 1988. Isso fica claro no artigo 215 quando registra-se que:

(...) o Estado garantira a todos o pleno exercicio dos direitos culturais e acesso as fontes da cultura nacional, e apoiara e incentivara a valorizacao e a difusao das manifestacoes culturais; protegendo as manifestacoes das culturas populares, indigenas e afrobrasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatorio nacional (BRASIL, 1988; art. 215).

Nesse documento tem-se tambem uma ampliacao do /conceito de patrimonio cultural, onde o mesmo passa a ser definido como: (...) os bens de natureza material e vmatenal, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referencia a identidade, a acao, a memoria dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira (BRASIL, 1988: art. 216). Assim abre-se espaco para a valorizacao da cultura popular, com suas praticas, crencas e valores simbolicos, conferindo importancia a novos grupos sociais, possibilitando assim o exercicio da cidadania (FONSECA, 2005).

Quando trabalha-se com o Patrimonio Cultural aborda-se bens com diferentes caracteristicas. De maneira geral pode-se dividi-lo em material e imaterial, levando em consideracao as caracteristicas intrinsecas do bem. Mas tambem, podem ser agrupados nas categorias: Arquitetonico (e/ou Edificado), Natural (e/ou Ambiental), Arqueologico, Artistico e Religioso. Cabe ressaltar que esta classificacao nao e definitiva, podendo ser alterada de acordo com o ponto de vista utilizado ou de acordo com a especificidade do patrimonio em questao. Nesta divisao, aparece o Patrimonio Industrial, uma forma de patrimonializacao que vai muito alem do processo produtivo a partir de um periodo especifico e que merece ser ressaltado.

O patrimonio industrial: o desenvolvimento do conceito

Ao se definir o patrimonio industrial deve-se levar em consideracao que o mesmo nao trata apenas de grandes estruturas, com grande valor arquitetonico, maquinas antigas ou espacos ociosos que foram engolidos pela modernidade, onde se dava o funcionamento de determinada producao. Seu conceito vai alem, sendo parte constituinte da vida de homens e mulheres comuns, que lhe confere valor identitario e, atraves de seus estudos, faz-se possivel compreender o tipo de industrializacao (e tecnologia) de uma epoca, assim como o modo de vida da classe trabalhadora correspondente. Os vestigios materiais das atividades produtivas tais como, fabricas antigas, ferramentas e edificacoes que as abrigam, tem uma excepcional importancia nao so para o arquiteto, construtor e engenheiro, mas tambem para o historiador, sociologo, arqueologo, ou seja, todos os estudiosos que tenham o desenvolvimento da sociedade como foco de pesquisa, pois atraves destes testemunhos materiais se faz possivel compreender as transformacoes ocorridas em uma sociedade e a maneira pela qual estas se deram.

Assim, o estudo do patrimonio industrial refuta uma leitura exclusiva do local de producao enquanto edificio, limitado aos aspectos particulares, tecnologicos e artisticos, excluida de uma complexa rede coordenadora que o define historicamente. Este objeto se apresenta segundo uma serie de niveis de leitura, de aspectos ou de linguagens, todos intimamente relacionados, indispensavel para o entendimento do espaco material no qual se desenvolveu uma dada sociedade industrial.

Um ponto interessante que merece destaque acerca do patrimonio industrial esta relacionado a subjetividade que o envolve e pela caracteristica que apresenta, fazendo com que, por vezes, seja considerado um "patrimonio controverso" (MENDES, 2006). Esta situacao deriva de varios fatores, dentre os quais, pode-se destacar: a sua associacao ao trabalho e a producao industrial, que lhe da um aspecto pragmatico; alem de ter contra si o fato de nao estar, de maneira geral, ligado a eventos de indole politico-militar e religiosa que, ate recentemente, constituia o principal foco de estudo da Academia; e tambem pelo componente estetico que destoa dos gostos mais em voga entre os elementos dos grupos sociais dominantes.

Dessa maneira, Mendes (2006) afirma que a protecao ou reutilizacao do patrimonio industrial deve alicercar-se, principalmente, no seu o valor artistico, o valor de uso e o valor historico. No primeiro caso, o aspecto a ser ressaltado e a evolucao da arquitetura industrial, remetendo aos periodos das antigas oficinas e manufaturas, trazendo ate os dias atuais, enfatizando os detalhes das pequenas construcoes, feita inteiramente por processos manuais, que era comum no periodo que antecedeu a Revolucao Industrial.

No que tange ao valor de uso, ha de se levar em consideracao as necessidades da comunidade e, simultaneamente, procurando seu envolvimento e colaboracao nos projetos de preservacao e requalificacao. Sobre essa situacao Mendes ressalta que nao ha solucoes uniformes ou pre-estabelecidas para o problema, pois dependera do respectivo meio, suas necessidades e condicoes (MENDES, 2006).

Mas o que mais chama a atencao e o que diz respeito ao valor historico. Este leva em conta que determinada instalacao industrial, alem de ser considerada um monumento, e simultaneamente um documento, que se torna relevante nao apenas pelo seu aspecto exterior, mas tambem por ser o locus de uma serie de relacoes entre o ambiente fisico e humano, continuamente transformado pelo desenvolvimento industrial. Assim, independentemente do seu valor estetico, as estruturas industriais podem nos transmitir informacoes diversas, de grande valia para o entendimento das relacoes da fabrica com o seu entorno. Como exemplo temos as chamines, que sao destacadas na paisagem, constituindo um simbolo caracteristico da industrializacao, capaz de elucidar aspectos sobre o processo de transicao da oficina em fabrica, servindo de simbolo de prosperidade e relacionado tambem a aspectos negativos, como a poluicao.

Dessa maneira, como aponta Mendes (2006), ao conceituar o patrimonio industrial, ressalta que o mesmo vale essencialmente pelo meio em que se insere, pela paisagem em que se revela como icone, pelas relacoes que estabelece com o espaco e as memorias na diversidade de referencias. E esta caracteristica tem relacao direta com os debates que cercam o conceitual de paisagem, assim, cabe uma melhor elucidacao acerca deste conceito.

A paisagem cultural: um conceito em c onstruc ao

Ao trabalhar com o conceito de paisagem faz-se necessario sua delimitacao, dada a abrangencia do termo e as diferentes acepcoes disciplinares a ele relacionadas, oscilando de acordo com o interesse do objeto e da forma com a qual sera trabalhado. Silvestre (2009), exemplificando essa caracteristica, aponta algumas maneiras pela qual o termo e trabalhado. Para este autor, a paisagem pode ser tida como uma representacao (assim fazem os historiadores de cultura, humanistas, etc.); ou entao como um espaco social e humanizado (esta via e explorada principalmente pelos geografos culturais); ou como o resultado da experiencia vivida (como os filosofos fenomenologicos); ou a partir de uma perspectiva ativa, criativa e projectual, (assim como os paisagistas, arquitetos, etc.); ou utilizando como ponto de partida uma perspectiva naturalista, tendo-a como uma entidade objetiva (desta maneira trabalham os geologos, climatologos, ecologistas, etc.); Ou seja, inumeros sao os significados atribuidos a ela e isso deriva do fato dela ser composta nao so por aquilo que esta a frente de nossos olhos, mas sim, por aquilo que esta contido em nossas mentes (MEINIG, 2002).

A multiplicidade de significados da paisagem tambem pode ser explicitada historicamente. Segundo Holzer (1999) o termo surge no seculo XV, derivando de landschaft (palavra de origem alema que se refere a uma associacao entre o sitio e seus habitantes), que por sua vez, deu origem ao termo holandes landschap (landskip), que, em outro momento, fez surgir a palavra landscape na lingua inglesa. O termo holandes, apesar de seu significado ser igual ao correlato alemao, num primeiro momento, esteve associado as pinturas de paisagens naturais, percebida a partir de um determinado enquadramento, relacionando a paisagem a aquilo que se via atraves das janelas (CASTRO, 2005). Ja o termo em ingles e comumente definido como uma extensao de um cenario natural, percebido pelos olhos em uma so visao. Com isso, percebe-se que, em sua genese a paisagem esteve diretamente ligado ao estetico e perceptivel. Na lingua portuguesa o termo deriva de paysage, palavra francesa cujo significado esta atrelado as tecnicas renascentistas, tendo como origem o radical medieval pays, que significa, ao mesmo tempo, habitante e territorio (HOLZER, 1999; CLAVAL, 1999).

Diversos foram os sentidos atribuidos e varias foram as disciplinas que se dedicaram ao estudo da paisagem, porem, para a geografia ela e um conceitochave, pois serviu para o seu desenvolvimento, criando bases para sua consolidacao enquanto ciencia (HOLZER, 1999; CLAVAL, 2004). Os primeiros a avancarem nesse processo foram os geografos franceses e alemaes, no seculo XIX, ao destituirem o sentido puramente romantico do conceito. Neste momento, a paisagem alem de estetica passa a ter um aspecto conceitual passivel de reflexao e estudo empirico.

Na geografia alema os primeiros autores em destaque foram Alexander Von Humboldt (Cosmos), Carl Ritter (Geografia Comparada) e Friedrich Ratzel (Antropogeografia). Humboldt ganha notoriedade pela visao holistica que atribui a paisagem, trabalhando os elementos (naturais e humanos) que a constitui como um todo, sistematizando-os e transformando-a assim, em parte de uma atividade cientifica. Ritter, mesmo nao se dedicando diretamente a tematica, contribui de maneira significativa para o seu desenvolvimento, na medida em que da prosseguimento a metodologia proposta por Humboldt, sistematizando os elementos que compoe o local, organizando seus dados naturais e historicos, criando e consolidando uma ciencia de carater enciclopedista. Mas foi com Ratzel que os estudos relativos a paisagem ganharam notoriedade, na medida em que introduz uma visao antropocentrica ao conceito, apontando que a mesma e o resultado do distanciamento ocorrido entre as acoes humanas e o meio natural.

Mesmo com esses avancos, foi somente com a escola francesa que o conceito de paisagem passou a ser estruturado. Neste contexto destacam-se os escritos de Paul Vidal de La Blache. Para este autor, a paisagem deve ser tratada como um todo, onde seus elementos constituintes se encadeiam e se coordenam (LA BLACHE, 1954). Assim, cada genero de vida que a integra possui influencia na sua formacao, se adequando ao meio presente, formando uma paisagemtipo. Desta maneira, grupos sociais com diferentes caracteristicas cristalizam distintas formas na paisagem, transformando-a num objeto de investigacao. Nas palavras do autor:

Por suas obras e pela influencia que exerce sobre ele mesmo e o mundo vivente, o homem e parte integrante da paisagem. Ele a humaniza e a modifica de alguma forma. Por isso, o estudo de seus estabelecimentos fixos e particularmente sugestivo, visto que e de acordo com eles que se ordenam culturas, jardins, vias de comunicacao; eles sao os pontos de apoio das modificacoes que o homem produz sobre a terra. (...) eles representam um deposito que as geracoes anteriores deixam as seguintes, um fundo de valor que dispensa comecar (do zero) tudo de novo (VIDAL DE LA BLACHE, 1954; p. 150).

No inicio do seculo XX, as discussoes acerca da influencia direta do homem no ambiente aumentam, efeito direto da consolidacao da Revolucao Industrial e das transformacoes que esta propiciava por todo o mundo. Neste contexto, a acao humana e ressaltada, tida como um fato geografico em si. Tal fato preteriu o conceito de paisagem, em funcao de outros como espaco, regiao, territorio e lugar (CORREA e ROSENDHAL, 1998). Porem, na segunda metade do seculo XX o conceito ganha forca novamente, gracas aos estudos da fenomenologia e da geografia cultural, quando passou a aceitar-se que o ser humano e o meio ambiente nao podem ser reconhecidos como elementos distintos e autonomos (TOGASHI, 2009).

Sendo assim, gradativamente, os estudos das paisagens deixam de se preocupar exclusivamente com as estruturas que compoe a superficie da Terra e incorporam a questao humana como elemento modificador do ambiente, tornando a paisagem cultural predominante sobre a natural, mas sem perder de vista as interacoes mutuas, pois o ponto de partida e o visual, ou seja, a observacao objetiva. Assim, a paisagem cultural vai ganhando destaque. No mundo em transformacao, onde os objetos e artefatos tomam o lugar do natural (SANTOS, 1997).

Desta forma o meio natural vai cedendo espaco ao meio tecnico (que se transforma em cientifico e informacional); o artificial predomina, preterindo o natural. Isso reflete tanto na constituicao quanto no entendimento da paisagem, na medida em que sua interpretacao leva em conta a modificacao dos sentidos de quem a vislumbra. Neste novo contexto, o homem, com suas intervencoes, seja intencional ou nao, e um elemento fundamental na analise da configuracao das diferentes paisagens. Isso porque cada sociedade tem sua maneira peculiar de viver, tem sua propria organizacao social, de producao, caracteristicas que, de certa maneira, sao plasmadas no local de vivencia.

Assim, da mesma maneira que ocorre nos estudos do patrimonio industrial, a paisagem assume papel de documento, representando caracteristicas da sociedade que lhe da vida. Sobre este conceito, apesar de abordagens distintas, os estudos de Sauer, Cosgrove e Berque merecem destaque.

Sauer (1998) faz da paisagem um elemento balizador e afirma que seus estudos devem buscar uma identidade baseada na constituicao do reconhecivel, enfatizando seu aspecto passivel de taxacao e classificacao, pois se apresenta como um organismo complexo, resultado das associacoes que podem ser analisadas. Ou seja, a paisagem possui forma, estrutura, funcionamento e posicao, sendo incluso num sistema, que esta sujeito a desenvolvimento, transformacao e aperfeicoamento. Para este autor, a paisagem pode ser considerada uma generalizacao oriunda da observacao de cenas individuais, estando a cargo do estudioso de geografia sua descricao, de maneira excepcional, seja como um tipo ou uma variante de um tipo, porem, sempre tendo por necessidade sua comparacao. Em suas palavras:

[A Paisagem] pode ser definida, por tanto, como uma area composta por uma associacao de diferentes formas, tanto fisicas como culturais. (...) A paisagem possui identidade que se sustenta na constituicao do reconhecivel, nos limites e na relacao com outras paisagens, constituindo um sistema geral. Sua estrutura e funcao estao determinadas por formas integradas e dependentes (SAUER, 1998; p. 95).

Assim, a paisagem geografica passa a ser considerada um conjunto de formas, naturais e culturais, interligadas a uma area, que deve ser analisada morfologicamente, levando em consideracao o grau de integracao entre as diferentes formas. Por esta perspectiva, tem-se a separacao da paisagem em dois tipos: as naturais (virgens), teoricamente intocadas ou sem significativos reflexos da acao antropica; e as culturais, que sao caracterizadas por possuirem tracos caracteristicos da acao humana, agindo como um agente da paisagem natural, que por sua vez passa a ser o resultado da acao cultural do grupo, acarretando transformacoes em funcao do uso de tecnicas e instrumentos.

Diversas foram as criticas feitas a Sauer, tendo como base, principalmente, o aspecto positivista que permeou seu trabalho. Contudo, ha um reconhecimento nas contribuicoes que ele traz para o debate. Tal aspecto e redesenhado e redefinido a partir das discussoes da Nova Geografia Cultural. Segundo Correa (1997), esta nao se apresenta em contraposicao as nocoes sauerianas, mas sim como um complemento, ampliando suas bases epistemologicas, introduzindo uma matriz nao positivista ao debate. Neste contexto, a paisagem passa a ser revestida de novos conteudos, fruto da incorporacao de nocoes como percepcao, representacao, imaginario e simbolismo ao seu conceito (CASTRO, 2005). Assim, ela deixa de levar em consideracao unicamente seu aspecto morfologico e passa a ter ressaltado sua simbologia e redes de significancia, possibilitando a adicao de novas perspectivas (HOLZER, 1999; CORREA, 1997).

Nesse contexto, o conceito passa ter ressaltado o seu aspecto simbolico, impregnado de significados, que sao passiveis de diferentes interpretacoes, sendo analisado a partir de diversas opcoes, pelos variados metodos de abordagem, pela natureza de sua teoria e interpretacao, cujo objetivo comum e a elucidacao das relacoes culturais presentes na sua configuracao (CASTRO, 2005).

E e neste processo que se destacam os escritos de Denis Cosgrove e Augustin Berque. O primeiro afirma que os estudiosos da geografia estao agindo de maneira incorreta nas analises das paisagens, pois estao despindo-se de suas paixoes e, com isso, deixando de lado significados importantes que possam nelas estar contidos. Dessa maneira, ha a necessidade de uma analise mais humana, utilizando-se de algumas habilidades interpretativas provenientes dos romances, do poema, do filme, do quadro, tratando-a como uma expressao humana intencional, composta de varias camadas de significados. Em suas palavras:

(...) as paixoes incovenientemente, as vezes assustadoramente poderosas, motivadoras da acao humana, entre elas as morais, patrioticas, religiosas, sexuais e politicas. Todos sabemos quao fundamentalmente estas motivacoes influenciam nosso comportamento diario. (...). Contudo, na geografia humana parecemos intencionalmente ignora-las ou nega-las. Consequentemente, nossa geografia deixa escapar muito do significado contido na paisagem humana, tendendo a reduzi-la a uma impressao impessoal de forcas demograficas e economicas (COSGROVE; 1998; p. 97).

Nesta perspectiva a paisagem apresenta-se como um texto, dada sua condicao de ser, ao mesmo tempo, produzido, contemplado, interpretado e por vezes consumido. Essa interpretacao revela as relacoes de poder existente, pois sua caracterizacao pode se converter num discurso ideologico, assim como sua reprodutibilidade nas mais diversas midias, fazendo com que o maior numero de pessoas seja atingidas pelo discurso pretendido (NAME, 2010). Assim, ela pode ser caracterizada como um produto da apropriacao e transformacao do homem sobre a natureza, constituindo um conjunto de significados impressos atraves da linguagem, dos simbolos e tracos culturais do grupo social em questao.

Para Cosgrove (1998), os distintos tipos de apropriacao e visao da paisagem relacionam-se, principalmente, com a questao do poder, revelando relacoes de dominacao e opressao, neste processo. Segundo o autor:

Um grupo dominante procurara impor sua propria experiencia de mundo, suas proprias suposicoes tomadas como verdadeiras, como a objetiva e valida cultura para todas as pessoas. O poder e expresso e mantido na reproducao da cultura. Isto e melhor concretizado quando menos visivel, quando as suposicoes culturais do grupo dominante aparecem simplesmente como senso comum. Isto e as vezes chamado de hegemonia cultural. Ha, portanto, culturas dominantes e subdominantes ou alternativas, nao apenas no sentido politico, mas tambem em termos de sexo, idade e etnicidade (COSGROVE; 1998; p.p. 104-105).

Neste sentido, o simbolismo da paisagem reproduz normas culturais vigentes, sendo preconizado os valores de grupos dominantes, que sao os que detem o poder. Porem, nao somente este grupo compoe a paisagem. Sobre a mesma tambem exerce influencia o grupo subdominante (alternativo), que molda o local de sociabilidade influenciado pela sua cultura e pela relacao de dominacao existente. Assim, a paisagem passa a ser plasmadas pela relacao de diferentes grupos que a influenciam. Entao, pode-se, a partir da leitura de Cosgrove, caracterizar dois tipos de paisagens que, apesar de distintos, sao complementares entre si: o da cultura dominante (que revela os meios pelos quais seu poder e exercido) e o das paisagens alternativas (criadas por grupos nao dominantes e que, por isso, apresenta menor visibilidade). Como fruto da relacao entre essas duas paisagens tem-se a paisagem residual. Esta pode ser considerada um hibrido destas duas, pois e composta de elementos da paisagem dominante e subdominante. A paisagem residual e caracterizada por permitir uma analise e reconstrucao do passado, tendo em conta/considerando que representa e expoe elementos que se fizeram presente no processo de conformacao do espaco.

Ha de se ressaltar que, para Cosgrove, a paisagem esta inserida, enquanto conceito, dentro de um campo academico, servindo de ferramenta analitica, buscando o entendimento do mundo e das sociedades, que a produzem e compartilham, dotando-as de simbolos e informacoes, passadas de geracao para geracao. Assim, os significados atribuidos nao sao estaticos, variando de acordo com o tempo e com os grupos sociais que se encontram enquanto dominante ou dominado.

Complementando esse debate, Augustin Berque, geografo frances, professor e diretor da Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris, contemporaneo aos autores da nova geografia cultural, em seus trabalhos desenvolve o conceito de paisagem, tratando-a como marca, na medida em que representa uma sociedade a partir de sua materialidade, sendo passivel de descricao e inventario, mas tambem como matriz, a partir do momento em que influencia na questao da percepcao, concepcao e acao (no que tange o aspecto cultural como um todo) do individuo, ou seja, ela e vista por um olhar, apreendida por uma consciencia, valorizada por uma experiencia, julgada e reproduzida por um padrao moral e estetico, gerado por um tipo de politica, etc. Conforme afirma o autor: a paisagem e marca, pois expressa uma civilizacao, mas e tambem uma matriz porque participa dos esquemas de percepcao, de concepcao e de acao --ou seja, da cultura (BERQUE, 1998; p.p. 84-85).

Para Berque (1998), a paisagem e uma abstracao que nao esta contida exclusivamente no objeto ou no sujeito, mas sim na interacao complexa entre esses elementos. Sendo assim ela possui a marca de uma cultura e tambem a influencia, ou seja, um processo simultaneo, a paisagem e captada por um olhar, mas tambem o determina; neste sentido se apresenta como um agente ativo, passivo e potencial. Em suas palavras a paisagem e o sujeito sao co-integrados em um conjunto unitario que se auto-produz e se auto-reproduz--e, portanto, se transforma (BERQUE, 1998; p. 86).

Nesses autores, a acao humana passa a ser ressaltada na paisagem, seja como um reflexo da mesma (com seus atos influenciados pelo local que esta inserido) seja como um agente transformador (na medida em que se apropria dos recursos disponiveis, moldando-a sua maneira). Por esse prisma, a paisagem e abordada como entidade espacial que se relaciona de maneira direta e dependente com a historia economica, cultural e ideologica, tendo sua acepcao variando de acordo com o contexto que se insere, sendo tratada como uma unidade portadora e representante das funcoes sociais. Nesta perspectiva, ela corrobora com os debates acerca do patrimonio industrial, pois por eles se faz possivel remontar as relacoes que se deram em um determinado tempo, agindo como um documento de suma importancia, em que sua leitura extrapola ao que esta exposto ao olho nu (mas tendo-o como caracteristica importante).

O patrimonio industrial e a paisagem cultural: a interacao dos conceitos

Como aponta Choay (2003), desde sempre as inovacoes tecnologicas exerceram influencia no cotidiano da sociedade e na formacao do ambiente vivido, atribuindo-lhes novas funcoes. Assim, transformacoes vao ocorrendo e resquicios gerados, sendo incorporados de duas maneiras distintas. Na primeira, edificios antigos, construcoes solidas adaptaveis a uma nova utilizacao sao incorporadas a dinamica vigente, recebendo novos usos e valores; na segunda situacao, os restos sao tratados como marcas anacronicas, sem valor de uso, entretanto com consideravel valor afetivo, pois ressalta a memoria daqueles que tinham neles seu territorio e local de sustento. Estes resquicios, fruto do processo de industrializacao, sao carregados de signos, se apresentando como patrimonio, na medida em que evidenciam a coletividade que o construiu (JEUDY, 1990). Com isto, o patrimonio industrial constituido possui um valor que vai alem do seu aspecto visivel, ressaltado essencialmente pelo meio em que se insere, pela paisagem que representa, pelas relacoes que estabelece com o espaco e, principalmente, pelas memorias que nele esta contida (ALVES, 2003). Como aponta Jeudy (1990):

Quando entramos num atelier onde estao reunidas maquinas que funcionavam ha algumas dezenas de anos atras, escutamos a explicacao dada sobre o trabalho e a vida dos operarios e assistimos a demonstracoes, nos deixamos levar pela evocacao dessa atmosfera imaginando os seres que la estiveram, que partilharam um destino comum, escutamos o barulho das maquinas, vozes ... (1990; p.49).

No mesmo sentido Choay (2003) afirma:

Que recordam entao os edificios antigos? O valor sagrado dos trabalhos que os homens de bem, desaparecidos e anonimos, realizaram para honrar o seu Deus, compor os seus lares, manifestar suas diferencas. Fazendo-nos ver e tocar o que viram e tocaram as geracoes desaparecidas, o mais humilde lar(2003; p.121).

De acordo com Jeudy (1990) no Patrimonio Industrial ficam retidos valores, modos de vida, memorias correspondentes a maneira de produzir de uma sociedade. Sendo assim sua preservacao e necessaria, pois possibilita a apreensao de caracteristicas importantes, num momento onde a mudanca e a ruptura de sentido sao constantes. Segundo o mesmo a cultura tecnica pode entao desempenhar um papel critico nas modalidades de analise da historia das sociedades (1990; p.102). Choay (2003) tambem ressalta essa caracteristica do Patrimonio Industrial. Para a autora o mesmo pode ser tratado como um documento, que por sua analise se faz possivel remontar caracteristicas importantes de um grupo. Em suas palavras:

[O Patrimonio Industrial] tem um valor de documento sobre uma fase da civilizacao industrial, documento em escala regional, que a memoria fotografica havera de conservar, mas cuja preservacao real parece ter se tornado ilusoria por suas proprias dimensoes, numa epoca de urbanizacao

e de regionalizacao de territorios (2003; p.219)

Da mesma maneira, a paisagem se apresenta. Atualmente, enquanto objeto de estudo, nao existe, a prion, como um dado da natureza (ou seja, somente em seu aspecto morfologico), mas somente em relacao a sociedade que a anima. Assim, ela e tratada como uma representacao, o que a torna inesgotavel, pois reproduz-se, renova-se e regenera-se, assim como a coletividade que lhe da vida. Neste sentido, a paisagem assume carater identitario na medida em que as sociedades recebem e percebem, constroem e reivindicam, representam e interpretam os lugares que estao inseridos. Deste modo, ela e considerada uma expressao concentrada da identidade coletiva, sendo um espelho acumulador que possibilita a representacao do real e a uniao em torno de algo comum, influenciando na formacao do ser (PISON, 2000). Com isso, criam identidades, que se reforcam em relacao a outras, sendo consideradas herancas, passiveis de preservacao. Dime el paisaje que vives y te dire quien eres (PISON, 2000; p.227).

Dotada de sentido e ancorada sobre uma base material, a paisagem pode ser vista como uma importante fonte investigativa, principalmente no que tange aos aspectos culturais de um determinado local. Pison (2000) afirma que ela passou a ser vista como marco de vida, pois da suporte ao seu desenvolvimento, sendo realidades fisicas individualizadas, inseridas em organizacoes (naturais ou culturais) dinamicas, dotadas de proprio sentido, se fundamentando na relacao direta de sua base (o aspecto estrutural), com a forma que se materializa (aspecto morfologico) e pela forma que se materializa (aspecto cultural social). Nas palavras do autor:

En este juego de interacciones el paisaje no aparece, pues, solo como un ente fisionomico y estetico, sino que constituye un complejo vivo de formas que cristaliza, se articula, late y reposa sobre un sistema de condiciones y relaciones geograficas, susceptible de analisis cualitativo y funcional mas alla de las apariencias. (...) es expresion de una civilizacion, tanto material como espiritual (PISON; 2000; p. 216).

Por ela, a memoria produtiva de uma sociedade pode ser apreendida, complementando e fazendo parte dos estudos do patrimonio industrial. Para Meinig (2002), a paisagem e caracterizada por ser dual, sendo resultado da observacao e fruto de um processo cognitivo, mediado pelas representacoes do imaginario social, repleto de simbologia. Em cada periodo o imaginario coletivo varia e com ele a concepcao social do natural, traduzidas em artefatos (materiais e simbolicos) que possibilitam a melhor vivencia no espaco. Essas mudancas sao percebidas na paisagem, pois alem de ser um conceito abstrato de compreensao do meio, se apresenta tambem como materialidade pela qual os individuos enquanto seres sociais se organizam. Sendo assim, este conceito se apresenta como a melhor maneira de estudar essas transformacoes, pois e portador de sentido, representando tanto a variacao quanto a ideologia que ha por detras (LUCHIARI, 2001).

As paisagens construidas e valorizadas expoem a estrutura social vigente e dao contorno a lugares, pois ela e a materialidade que permite a representacao simbolica. Sendo assim, ela e socialmente configurada, edificada em torno de instituicoes sociais dominantes e ordenada pelo poder das mesmas (CASTRO, 2005). Pison (2000) ressalta que a caracteristica acumuladora torna a paisagem um documento que retem as particularidades de quem (ou o que) a influencia de maneira dominante e com isso e capaz de mostrar conteudos e o modo de vida daqueles que lhe dao forma. Por seu intermedio pode-se apreender, interpretar e ler as caracteristicas produtivas de uma sociedade e toda a estrutura que foi montada para o seu sucesso. Por seu intermedio, pode-se mapear a cultura e o poder que a conforma, na medida em que as politicas implementadas tem por objetivo a preservacao da condicao social, cedendo beneficios a elite vigente, que ostenta seu poder na suntuosidade de suas construcoes (CORREA, 2003). Desta maneira, ela auxilia os estudos relativos ao patrimonio industrial, dando maior significado ao mesmo.

As paisagens que contem elementos industriais servem de documento, possibilitando a apreensao de aspectos importantes, pois agem como um testemunho e sao referencias, na medida em que explicita a cultura que lhe deu forma, expondo os simbolos, sua representatividade tecnica e social. Nelas ficam plasmadas o resultado da constante transmissao de habilidades, inovacoes tecnologicas, modos de vida que estao em constante contato. Assim, atua como uma forma de conservacao das memorias coletivas que foram sobrepostas nesse intenso intercambio. O patrimonio industrial possui qualidades que o ressaltam enquanto objeto de estudo. Por seu intermedio apreende-se questoes importantes que compoe a sociedade, como a dominacao, hierarquizacao, etc., estando estas representadas nao somente no campo material, mas tambem na dimensao imaterial (DEZEN-KEMPTER, 2011). Nele, o social se acha repensado e reinterpretado pela cultura tecnica correspondente a um determinado modo de vida, nao servindo apenas como um objeto de reconstituicao ou de evocacao, mas sim ressaltando o vies critico, explicitando as ideologias que foram responsaveis pela sua composicao.

O local de producao industrial remete a algo externo (valores, ideais, imaginario). Assim, no meio da desestruturacao do espaco que se insere, ele funciona como marca, pois apresenta especificidades que sao construidas pelas diversas formas que e retratado, formando um imaginario multifacetado (DEZEN-KEMPTER, 2010). Os resquicios materializados pelo monumento, pelos sitios ou pelas ruinas permitem a extracao de informacoes que servem para a construcao de sua historia. Entretanto, mesmo tendo diferentes interpretacoes, o seu aspecto material e incontestavel. Nao se pode negar que ele esta la, nao podendo, portanto, perde-lo e depois encontra-lo. O que pode acontecer e seu abandono e esquecimento. E esse e o destino das forjas, olarias e fabricas deixadas a propria sorte, que gradativamente vao se decompondo, tendendo ao desaparecimento (JEUDY, 1990).

Desenvolver um estudo tendo como base a relacao destes conceitos possibilita o entendimento e protecao de caracteristicas importantes de uma populacao, que imprimiu na sua maneira de produzir aspectos que retratam sua memoria enquanto grupo. Nos dias de hoje, com grandes e intensas transformacoes, os individuos, conforme aponta Choay (2003), perderam a capacidade de apreenderem informacoes relevantes, pois sua memoria e constantemente substituida e influenciada por informacoes enciclopedicas e limitada. Assim, deixam de lado o valor historico do bem, preterindo seu vies historico construido pela memoria. Essa situacao tem que ser revertida, pois e na memoria que os individuos procuram abrigo e por ela se unem, agindo enquanto sujeito inserido no grupo.

Notas

* Doutorando em Geografia pelo Programa de PosGraduacao em Geografia da Universidade Federal do Espirito Santo (UFES); Mestre em Politicas Sociais pelo Programa de Pos Graduacao em Politicas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF); Licenciado em Geografia pelo Instituto Federal Fluminense e Bacharel em Ciencias Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense. Atualmente sou Professor EBTT do Instituto Federal Fluminense, lecionando no curso de Licenciatura em Geografia.

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Author:Mesquita, Zandor Gomes
Publication:Espaco e Curtura
Date:Jul 1, 2016
Words:7248
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