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IN THE DEEPEST BOWELS OF THE CITY: IMAGES AND SPATIALITIES OF THE LANES IN THE HISTORIC CENTER OF RECIFE/NO MAIS ENTRANHADO DA CIDADE: IMAGENS E ESPACIALIDADES DOS BECOS NO CENTRO HISTORICO DO RECIFE/EN LAS ENTRANAS MAS PROFUNDAS DE LA CIUDAD: IMAGENES Y ESPACIALIDAD DE LAS CALLEJAS EN LO CENTRO HISTORICO DE RECIFE.

Introducao

A aproximacao do tema deste artigo se deu a partir de pesquisa sobre a dinamica do mercado imobiliario em centros historicos brasileiros, especialmente o Centro Historico do Recife (1). A relevancia social do estudo esta calcada no fato de, recentemente, ocorrer um aceleramento na dinamica de revalorizacao dos antigos bairros das grandes cidades brasileiras, com resultados ainda imprevisiveis sobre a conservacao de determinadas formas no interior dos perimetros tombados. Ressalta-se que entre meados dos anos 1970 e os anos 1990, aconteceu um forte processo de degradacao infraestrutural nesses centros, com o deslocamento de populacao e atividades para as novas centralidades urbanas que foram impulsionadas pelas politicas nacionais de habitacao e, simultaneamente, pelas politicas de conservacao patrimonial, densamente concentradas nos reconhecidos centros de origem dessas cidades (BERNARDINO; LACERDA, 2015).

Ao adentrarmos na realidade do Recife, evidencia-se o tracado marcante de parte dessa urbe historica que remonta a um acumulo de tempos desde a Cidade Mauricia (2) do seculo XVII, atraves das ruas, becos e patios dos bairros de Sao Jose e Santo Antonio. Supomos que esse tracado espacial imprima uma logica de "situacao" que se reverte atualmente em renda de monopolio para os sujeitos envolvidos no mercado imobiliario, o que gera um mapa de precos pouco encontrado em outras areas consideradas historicas da cidade do Recife. Essa logica de situacao, para alem das questoes do mercado imobiliario, confere uma base para diversas espacialidades construidas na historia, com diferencas sociais, materiais e imageticas.

A partir da diversidade morfologica da urbe historica--numa classificacao geral: ruas, pontes, patios e becos--optamos por entender os becos em sua espacialidade e imagem. Tal escolha sustenta-se, primeiro, pela hipotese de que no espaco dos becos o metro quadrado tenha um preco mais elevado no mercado imobiliario de aluguel de comercio e servicos proporcionalmente comparado ao valor de areas e predios localizados nas ruas. Consideramos que isto se deve ao intenso fluxo de pessoas que ali circulam, condicao primordial em termos do giro do capital comercial e que interfere no aumento da concorrencia por espaco entre os comerciantes (formal e informal). A possibilidade dos becos se apresentarem como um dos espacos mais valorizados na dinamica do mercado imobiliario desse centro urbano-historico nos causou inquietacao por constatarmos um processo paradoxal de invisibilizacao desse tipo de lugar no cenario do perimetro patrimonializado pelo Estado.

Alem dessa aparente contradicao valorizacao/invisibilizacao que aguca o impeto de pesquisa, tambem nos interessa compreender o carater de intenso movimento desse intersticio espacial. Espaco dos fluxos, uma paisagem do movimento com temporalidade definida: enquanto ha luz solar, diurna, e o horario comercial que dita o movimento--estamos de partida com interesse de pesquisa nesse intervalo do chronos, quando os bairros historicos sao densamente vivenciados pela populacao.

Ao abrirmos a escala de analise, percebemos que os becos em estudo estao inseridos num espaco que se conforma hoje como uma "ilha" formada a partir de intervencoes urbanisticas ao longo do seculo XX. Esse bloco, que guarda uma centralidade comercial e historica e uma paisagem cultural da cidade, pode ser afetado no sentido de mudancas em suas funcionalidades e morfologia, principalmente nas areas fora do perimetro de preservacao rigorosa (3), por grandes projetos urbanos privados os quais consideramos fronteiras emergentes de valorizacao do capital imobiliario. Assim sendo, reside ai uma urgente necessidade de pesquisa, e de pesquisa visual dos becos, para impulsionar a reflexao sobre a importancia da conservacao desses espacos quaseinvisiveis no contexto de areas onde incidem politicas de conservacao e preservacao historica.

Partindo do discurso contextual, o artigo apresenta o primeiro resultado da pesquisa atraves de um percurso que se esbocou, primeiramente, no entendimento dos becos como uma heranca espacial colonial. Para realizar tal percurso nos concentramos numa geografia historica imagetica do espaco em questao. Apos esse apanhado inicial, nos deparamos com o fato da ocultacao historica dos becos tanto no sentido social como no sentido de uma cena urbana que, ao nosso ver, e digna de nota. A partir dai, seguimos com o objetivo de compreender as espacialidades e imagens com a entrada conceitual de paisagem num sentido que foge ao debate consolidado de panorama, propondo a ideia de paisagem entranhada.

Com base na mobilizacao dessas reflexoes, alem da pesquisa documental textual e fotografica, realizamos analise a partir de producao fotografica autoral. Acionamos e propomos um jogo de olhares que faca aflorar novas cenas investigativas para a compreensao do objeto paisagistico "beco", considerando com Besse (2014) que a fotografia e um dispositivo e suporte concreto que provoca questionamentos sobre a relacao entre perceber e produzir imagens do mundo.

A perspectiva, ainda, e pensar com as imagens, segundo a presuncao de Gomes e Ribeiro (2013, p.28), tratando-as como elementos primarios da pesquisa, uma vez que "participam diretamente na construcao do pensamento geografico". Para esses autores, as imagens incorporam sempre uma expressao fisica ou suporte pelo qual tomam forma, jamais sendo puramente abstratas, adquirindo, portanto, um potencial de descoberta do mundo muito util para a demarche geografica, inclusive no campo da percepcao e descricao.

Gomes e Ribeiro propoem ao mesmo tempo o conceito de "reflexividade" (idem, p.31) para definir a especificidade da construcao das imagens em espacos publicos, denominando-a como a propriedade desses lugares de gerarem uma ilimitada e reciproca cadeia de observadores, cuja interacao e forjada primariamente em uma cena, a partir do cruzamento de olhares. A reflexividade seria inerente aos espacos livres como ruas e pracas, que se estruturariam mediante tais interseccoes. Consideramos valido levar em conta tal orientacao para discernir sobre o papel da producao fotografica na compreensao dos becos recifenses, pois suas imagens representativas se fazem num processo de necessario contato intersubjetivo com a paisagem (estar, observar, produzir). Como resultado pratico, esperamos ensejar a diminuicao das invisibilidades ali presentes e trazer a tona a importancia historica, economica e cultural desses lugares para a memoria da cidade.

Becos: heranca colonial, retratos e vasos comunicantes da vida na cidade

E por que nao falar tambem dos becos? Afigura-se-me que essas passagens estreitas nasceram de um imperativo de sociabilidade. Comunicacoes mais curtas e rapidas por necessidades de relacoes, de visitas, de comercio, de amores. Ia-se mais depressa por ali, por entre casas. E a passagem como serventia publica persistiu na paisagem urbana. Sua fisionomia, seu prestimo, sua figura popular veio a dar-lhe o nome. Beco da Viracao, do Serigado, da Luxuria, do Sarapatel, do Veras, do Calabouco, da Roda, do Quiabo, das Sete Casas... Cada denominacao dessas ressalta uma origem. E uma tela, e um retrato. Tem cor, tem cheiro, tem malicia... (SETTE, 1948, p. 16)

Pequenas ruas estreitas onde se concentram as classes menos abastadas, os becos sempre lograram um "papel secundario nos estudos da paisagem urbana recifense" (HALLEY, 2012, p.2), ainda que Mario Sette, nos anos 40 do seculo passado, ja indagasse sobre o porque de nao se estudar essas "beneficas passagens", posto constituirem convenientes atalhos que, devido a suas multiplas utilidades publicas, persistiram na paisagem urbana recifense (SETTE, 1948). Percebe-se uma marcada ambiguidade na maneira como o modesto tipo de arruamento e concebido pela sociedade, o que pode ajudar a explicar os paradoxos que envolvem sua permanencia incerta como elemento da morfologia e do imaginario de muitas cidades brasileiras.

Intelectuais e artistas, das mais diferentes partes do pais, imortalizaram a expressividade contraditoria do beco em suas obras. Por exemplo, na interpretacao de poetas, como a goiana Cora Coralina (1980), beco representa uma "paisagem ausente", sendo evocado como algo triste, tao estreito quanto o seu "destino resumido", abandonado, sujo e assombrado, constituindo-se num "lugar de gentinha" e de "mulheres da vida", embora possa ser ao mesmo tempo romantico e pecaminoso, espaco de drama e inspiracao, essencial a vida da cidade como meio de circulacao. Tambem para o pernambucano radicado no Rio de Janeiro, Manuel Bandeira (1961), beco remonta as "paixoes sem amanha", pecados, "rua de mulheres", tristezas, sonhos juvenis e lugar dos pobres, o que nao impede que seja decantado com carinho, orgulho e nostalgia, um espaco santo apesar de todas as quedas.

Os poucos geografos que se debrucaram sobre esse pedaco mais acanhado da urbe tambem ressaltaram suas dubiedades. Estudando o caso recifense, Bruno Maia Halley considerou que tais logradouros carregariam sentimentos antagonicos, sendo "alvo de depreciacoes no imaginario da cidade, e, outrossim, de vocacoes que emanam apego e afeto ao lugar de vivencia" (HALLEY, op. cit., p.2), conclusao que fez eco ao verificado em Fortaleza por Jose Borzacchiello da Silva, para quem a alma daquela cidade em crescimento vertiginoso seria mais forte e genuina em seus becos, tornando-a unica e plena de sentidos (SILVA, 2001, p.76).

A capital pernambucana, bem como outras metropoles que remontam ao tempo colonial, sofre com o estigma que paira sobre os becos, a exemplo de Porto Alegre que foi estudada pela historiadora Sandra Pesavento (2001) ao remontar a construcao do ideario historico espacial de um "mau lugar". Com o intento de percorrer as origens dos becos, que nao e a proposta central do presente estudo, Pesavento parte da premissa de serem eles, no final do seculo XIX e comeco do XX, espacos de enclave no centro da cidade, relegados a conotacao pejorativa. "Nesse momento de fim de seculo, o beco foi identificado como o reduto das sociabilidades condenadas, era um espaco maldito da cidade, frequentado pelos 'turbulentos' da urbe" (PESAVENTO, 2001, p. 98). Entretanto, em anos anteriores ao momento historico citado, os becos de Porto Alegre nao tinham essa conotacao pejorativa e abrigavam moradores de diferentes extracoes sociais. Para a referida autora, o momento em que os becos ganham a conotacao de mau lugar e no final do seculo XIX, situacao de mudancas urbanas significativas, pois a cidade se expande populacional e territorialmente, passando de 15 mil habitantes na metade do referido seculo para cerca de 73 mil habitantes em 1900 (4).

A pesquisadora citada se deparou com a primeira referencia escrita em Porto Alegre sobre esses espacos em um documento da Camara datada de 1804, atraves de um requerimento de termo de propriedade, no qual descreveu-os como 'largos' e limpos e que teriam sido tracados pelo poder publico em perpendicular com as ruas principais. A partir dai Pesavento (2001) analisou plantas da cidade entre 1837 e 1888, e considerou ter encontrado uma "pista interessante" que vem a caracterizar morfologicamente e espacialmente os becos como ruas transversais em relacao as ruas principais. Essa de fato e a caracteristica mais contundente no sentido de definir a morfologia dos becos do centro historico, tendo em vista que a largura da via gera confusao no sentido de ter sido encontrado nas plantas da cidade ruas mais estreitas que os becos. Seriam eles vias de ligacao entre ruas principais. A autora considerou que os becos identificados sao fenomenos definidamente intra-urbano, centrais e de enclave dentro da urbe mais antiga de Porto Alegre. O carater de enclave esta relacionado com os becos do final do seculo XIX, quando eles se tornam locus da populacao mais pobre do centro.

Assim como mostrou a pesquisa de Pesavento, os becos objeto do presente artigo estao situados num espaco de centralidade historica e urbana da cidade do Recife e apresentam a mesma caracteristica de transversalidade. Na historia de ocupacao territorial desse espaco, que comecou pela estreita faixa de terra rente a desembocadura do rio Capibaribe, hoje Bairro do Recife, ja temos noticia da presenca de ruas estreitas e becos. Segundo estudos de Mota Menezes, a organizacao do povoado do Recife possuia um desenho simples decorrente da disponibilidade de terras para construcao, onde "as casas, armazens e a ermida foram distribuidos em linha, isto tendo uma rua por eixo. Um largo com uma ermida e ruelas transversais. Becos muito estreitos e ruas hierarquizavam e caracterizavam o tecido urbano." (MENEZES, 2015, p. 4).

Com a presenca holandesa de 1630 a 1654, a ocupacao territorial de carater urbana seguiu mais para o continente com um plano urbanistico para a ilha de Antonio Vaz, onde hoje temos os historicos bairros de Sao Jose e Santo Antonio. Perspectiva diferente de organizacao do espaco das cidades dos portugueses, os flamengos imprimiram a area ocupada um tracado retilineo e monumental, fruto de uma tendencia moderna renascentista europeia baseada numa ordem geometrica e racionalista (REZENDE, 2002). Depois da saida dos holandeses, a tradicao urbanistica portuguesa voltou a baila. Assim, temos ao longo dos seculos XVIII e XIX, atrelado ao aumento populacional nesse periodo, em que Recife passa de 26.000 habitantes, em 1810, para 70.000 em 1850 (MENEZES, 1993), o surgimento de uma cidade de becos e travessas, ruas estreitas e patios de igrejas.

Em analise do mapa do Recife de Douglas Fox, do ano de 1906/07, constatamos que os becos e travessas estavam concentrados tanto no Bairro do Recife como na Ilha de Antonio Vaz nas porcoes de terras ao sul. Na citada ilha, esse espaco meridional, que compreende o bairro de Sao Jose, foi planejado no periodo holandes para abrigar as pessoas menos providas de capital.

Nassau projetou construir, tambem, um bairro para os habitantes mais pobres da cidade: parece que essa era a finalidade de seu projeto pois os documentos se referem a essas construcoes chamando-as de "casinhas". Esse bairro estava localizado entre o canal que desembocava em frente a Barreta (ao lado da Igreja Francesa) e o Forte das Cinco Pontas (MELLO, 2001, p. 93).

Com isso, o bairro de Sao Jose comecou numa trajetoria de um espaco destinado as populacoes mais pobres. Espaco com parcelamento do solo intenso, residencias de planta baixa simples e insalubres, o tracado das ruas se afinou com a populacao ali residente, carente de espaco e de recursos para viver melhor. Essa configuracao do seculo XVII gerou uma estratificacao social do espaco da Ilha de Antonio Vaz que se expressou, no periodo holandes, como area residencial popular ao sul (coincidente com o bairro de Sao Jose), centro de atividades comerciais em torno da praca do Pole (hoje Praca da Independencia, conhecida como pracinha do Diario, no bairro de Santo Antonio), e o poder politico ao norte da ilha (bairro de Santo Antonio) (REYNALDO, 2017).

Nos anos 1930, quase 300 anos depois, o contexto de estratificacao social do periodo holandes ainda persistia, segundo Amelia Reynaldo (2017), ao estudar o ordenamento urbano dessa area central do Recife. Ao mesmo tempo, nessa mesma decada, as redes ferroviarias e os bondes eletricos fizeram o papel de tornar o espaco em questao um centro distribuidor de acessibilidade, o que mais tarde viria a impulsionar as atividades de comercio e servicos nos bairros de Santo Antonio e partes de Sao Jose, consolidando a centralidade urbana da area.

Ao longo do seculo XX, atrelado ao movimento de aprofundamento da centralidade urbana que segue com o processo de transformacao do Recife em cidade moderna, o seu espaco de genese passou a exigir um tratamento de centro antigo, que segundo Amelia Reynaldo (2017) se baseou na acentuada concentracao de edificios singulares, principalmente o Sobrado frente aos novos e modernos standards de edificacao. A partir da decada de 1970, principalmente com o Plano de Preservacao de Sitios Historicos (PPSH) de 1979, o tratamento das areas historicas passa de intervencionista a normativo (idem).

Segundo Larissa Menezes (2015), essa mudanca de postura nao agregou a questao do uso habitacional e da necessidade de contemplar os habitantes ainda existentes nos planos desenvolvidos. E, acrescentamos, que possivelmente nao tenha havido interesse por parte da administracao publica em garantir a permanencia dos moradores, tendo em vista que era a populacao pobre e preta, marginalizada, que habitava majoritariamente o bairro de Sao Jose. A desvalorizacao--tanto do espaco como dos seus habitantes--se mostra no discurso dos urbanistas; como exemplo citamos o engenheiro paulista Prestes Maia, autor do plano de avenidas de Sao Paulo, convidado pelo entao prefeito do Recife em 1936, que ao tecer analise sobre o centro considerou ser o bairro de Sao Jose a area mais deploravel da cidade, com ruas estreitas, habitacoes velhas, sujas e insalubres (REYNALDO, 2017). Tal desprestigio tambem se revela em imagens: ao analisarmos o acervo iconografico capturado por fotografos a servico da Prefeitura do Recife, que esta sob a curadoria do Museu da Cidade, contendo em torno de 10.000 fotografias encontramos apenas tres imagens dos becos.

Por fim, ha uma discriminacao toponimica, que se expressa historica e contemporaneamente na modificacao da nomenclatura de algumas vias, que passam de beco para travessa ou rua. Segundo o historiador Leonardo Dantas, o beco "Tornou-se uma denominacao em desuso por parte da propria Prefeitura do Recife, que preferiu denominar os tradicionais nomes em Rua Doutor Fulano de Tal" (JORNAL DO COMMERCIO, 2013). Conforme Raimundo Arrais (2004 apud HALLEY, 2012, p.7), a pratica do poder municipal de mudar os nomes de ruas e becos no Recife iniciou-se ja em meados do seculo XIX, com o objetivo de adaptar a cidade aos ditames do progresso, numa verdadeira "reconversao toponimica" do espaco publico. Halley sublinha que becos cujos nomes nao condiziam ao sentido do "proprio nacional" tiveram que mudar de alcunha a partir de 1866, inclusive devido a acao do recem-criado Instituto Arqueologico e Geografico Pernambucano.

Como quer que seja, o comercio e os servicos antes concentrados no bairro de Santo Antonio e timidamente na franja fronteirica deste com o bairro de Sao Jose, especialmente nas adjacencias do mercado de Sao Jose, desenvolveram-se em detrimento da habitacao, transformando a espacialidade dos usos numa parte da cidade que guarda marcas da identidade recifense. Nesse interim, alguns becos, cujo espaco era das habitacoes mais precarias e das pessoas mais marginalizadas da sociedade (como as prostitutas) consolidaram-se funcionalmente como passagens e atalhos, permitindo um intenso fluxo de pessoas entre as ruas principais. Tornaram-se tambem espacos de vivo comercio e servicos, inclusive de ambulantes que, sem capital para manter o aluguel de um imovel, se apropriam desse espaco publico. Assim, nos dias de hoje, no periodo diurno que contem a dinamica comercial e de servicos, a imagem com a tonica de mau lugar esmaeceu, pelo menos parcialmente.

Enfim, os becos sao uma heranca social e espacial colonial, caracterizados como vias transversais de ligacao entre ruas principais, locus da sociabilidade dos mais pobres, ocultados pela administracao publica e, transformados em espaco intenso de compras, servicos e fluxos. A partir dessas premissas nos mobilizamos para realizar a aproximacao do objeto in sito, privilegiando a atitude in visu, a partir da chave conceitual paisagem, num percurso investigativo alicercado no fazer fotografico.

Paisagem entranhada: um outro ponto de vista

Da janela do meu quarto em Morais e Vale podia eu contemplar a paisagem, nao como fazia do morro do Curvelo, sobranceiramente, mas por dentro dela [...] era o becozinho sujo: embaixo, onde vivia tanta gente pobre. (BANDEIRA: 1996, p.81).

Ao propormos a questao da contemplacao, valorizacao e registro de uma paisagem nao-panoramica, consideramos ser a imagem e o imaginario elementos importantes na compreensao da geografia dos becos. Pensar por este caminho nos aproxima da construcao identitaria de um espaco recondito e, ao mesmo tempo, nos auxilia no proprio descortinar do objeto de pesquisa em questao. Portanto, ao contrario de outras incursoes relacionando fotografia e paisagem (MACIEL; VASCONCELOS, 2016), desta feita colocamos em sursis a conotacao ampla e totalizante do olhar comumente pressuposta por esse conceitochave.

No sentido do apelo ao visual e imaginario, mobilizamos o conceito de paisagem, posto que se trata de uma das ferramentas de analise geografica que melhor possibilitam o reconhecimento simultaneo dos aspectos objetivos e subjetivos da realidade. Atraves da paisagem, a geografia tem buscado abarcar o senso ou saber humano total (formal e ordinario) do espaco em diversas perspectivas teoricas (MACIEL, 2004, p.66). De um ponto de vista interpretativo, e a luz do imaginario social, o senso paisagistico permite uma abertura as cosmovisoes dos outros, as quais tornamse objetos privilegiados nao so para a analise, mas tambem para as trocas de saberes. Como afirma Bernard Debarbieux "de uma maneira geral, a alteridade e fonte de imaginario. O alhures e antes de tudo uma imagem" (DEBARBIEUX, 1995, p.879).

Todas as sociedades pensam sua relacao cotidiana com o espaco, o que torna possivel a geografia aceder a esses saberes culturais mediante a expressividade da paisagem e sua razao metonimica (MACIEL, 2004; 2009). O seu potencial retorico metonimico reside na identificacao, eleicao e reproducao de geosimbolismos eloquentes, na escolha de cenarios e de argumentos descritivos que visam partir do visivel para chegar a um "como ver" especifico, de modo intencional ou pela forca do habito. Neste sentido, o beco sera mais eleito como geossimbolo pela praxe dos sujeitos que ali frequentam do que de modo intencional atraves, por exemplo, de politicas publicas que propaguem esse espaco como uma das imagens icones do ambiente patrimonializado.

O conhecimento geografico popular reflete-se na construcao de paisagens integrativas ou excludentes face a um territorio vivido, como no caso do Centro Historico do Recife, concebendo-se os diversos espacos da existencia num mosaico imperfeito que materializa a consciencia, a imaginacao e a experiencia de seus habitantes em correlacao com o contexto cultural englobante. A imagem social e espacial dos becos, como nao poderia deixar de ser, e "recheada" de idiossincrasias, mas resulta ainda da reflexividade inerente aos espacos publicos (GOMES e RIBEIRO, 2013). Desenha-se um esboco cotidiano da vida a partir de uma localidade constrita, incluindo como pontos de referencia objetos, formas urbanas e territorios simbolicos carregados de valores e sistemas de crencas por aqueles que habitam, usam ou passam por suas fendas.

Isto e, as imagens das ruelas do Recife e sua reputacao estao impregnadas desses pensamentos e saberes visuais entrecruzados pela populacao. Como toda percepcao e necessariamente fragmentada e parcial, "tudo dependera do lugar de onde observamos e da direcao e foco do olhar, em suma, do ponto de vista" (GOMES e RIBEIRO, 2013, p.31). E o ponto de mirada do beco, como temos buscado demonstrar, e bastante peculiar e orientado por sua natureza fissural e absconsa. Ao propormos o ponto de vista da paisagem do beco, elegemos uma moldura, uma escala e um modo de compor. Tal escolha "e uma colocacao em relacao das coisas que estao juntas, enquadradas e que produzem sentido uma vez que estao associadas pela posicao no espaco" (idem, p.32).

Entretanto, na paisagem cultural das cidades, as imagens panoramicas e fotografias postais de espacos iconicos e que cumprem, comumente, o papel de representantes geossimbolicos de primeira ordem, posto que buscam transmitir uma ideia de conjunto, facilitando o reconhecimento e a identificacao de uma fisionomia propria e integral dos lugares. Como lembra Mota Menezes (2011, p.199), ja as primeiras imagens fotograficas do Recife buscavam espacos amplos a partir de uma visao de cima para baixo, em um modelo que consagrou certo enquadramento e leitura do espaco. Ainda sobre o panorama na fotografia, afirma Sergio Burgi:

A fotografia se alinhava as formas de representacao visual ja estabelecidas e consagradas, como o desenho, a pintura e a gravura. [...] Esse processo, inicialmente, associou a pratica fotografica a descricao figurativa e ao tempo historico, ressaltando assim suas funcoes documentais e memorialisticas. Essas caracteristicas seriam objeto de critica e negacao pela fotografia contemporanea e moderna (autoral) e pos-moderna (conceitual) do seculo XX, apos o esgotamento, no seculo XIX, de sua funcao documental na epoca absolutamente revolucionaria e moderna (BURGI, 2012, p. 47-48).

Por outro lado, espacos mais reconditos e carregados de intimidade, como os becos e arruados, tambem integram a alma de algumas cidades, muito embora sejam relativamente de dificil estampa ou induzam a pontos de vista inusitados. O lugar do olhar a partir de uma rua estreita muda as possibilidades da integracao entre o adentro e o afora, seja do ponto de vista da materialidade espacial ou das impressoes da alma sobre a cidade. A fotografia moderna e autoral pode privilegiar, assim, miradas e perspectivas em outras escalas e aproximacoes.

Nara Boneti Foresti (2000), ao analisar no "Poema do Beco" o contraste entre o que oferecia a janela ao poeta Manuel Bandeira--o esplendor de icones da paisagem do Rio de Janeiro: a baia da Guanabara, o bairro da Gloria--e o que os olhos dele notavam na estreiteza de uma viela da Lapa, destaca tambem essa condicao contraditoria do espaco que aqui buscamos refletir, a qual pode corresponder a diferentes estados de espirito:

[...] o beco retem o poder de significar ao mesmo tempo um "dentro" e um "fora": na cidade, toma o lugar de um quarto fechado pelas paredes das construcoes, se poe como espaco interior; na presenca da rua, o beco e o exterior. Mas, o importante e que ele, o beco, nunca e um so espaco, mas sim a tensao entre eles, o dentro e o fora ao mesmo tempo (FORESTI, 2000, p.152, grifo nosso).

A tensao entre cerne e frontispicio tambem pode corresponder a diferentes dimensoes da paisagem dos bairros aqui estudados, com suas travessas e ruas historicas. Integrando uma janela peculiar, os becos possibilitam uma associacao especifica entre os ambientes semifechados e abertos que compoem o espaco publico.

Em suma, como representar e discutir a paisagem de espacos fissurais e "sem uma ampla fachada" como os becos? Uma das saidas e aceitar, com BeyaertGeslin (2005) que, acima de tudo, paisagem e um conceito muito mais complexo do que panorama--e, portanto, a paisagem de espacos reconditos e obstruidos como os becos nao cabe numa abordagem panoramica, convencional e redutora.

Se o verbo contemplar aproxima paisagem e panorama, os espacos de dificil contemplacao totalizante solicitam outras entradas, que nao a de uma vista englobante e representativa de um vasto conjunto, como tem sido comum no "regime escopico" dominante. Ulpiano Meneses ressalta que tais regimes seriam modelos de apreensao de coisas, processos e eventos que permitem investigar a visualidade, ou seja, o conjunto de discursos e praticas que constituem distintivas formas de experiencia visual, historicamente circunstanciadas (MENESES, 2003, p.22 e 31). No caso do espaco em questao, o padrao de visualidade do sitio tombado de Sao Jose e Santo Antonio considera desimportante --quando nao ausente--a representacao pictorica dos seus becos e vielas.

Os geografos, um pouco pela forca do habito com suas origens no seculo XVI com a paisagem bruegheliana e a cartografia 'mundi', na qual a paisagem ganhou o carater de 'teatro do mundo' e para entende-la dever-se-ia se afastar ou se elevar (BESSE, 2006), tenderam a fazer corresponder o panorama a paisagem. Entretanto "se o uso tende a associar paisagem e contemplacao, a percepcao da paisagem nao se resume apenas a este modelo que engendra uma estrategia abrangente, que busca a totalidade [...] supondo uma visao distante e um acesso sem entraves" (BEYAERT-GESLIN, 2005, p.70).

Num movimento para alem da escala tradicional de uma geografia da paisagem contemplativa, prossegue a autora, apoiando-se em Ouellet (2000) e Fontanille (1999), com a ideia de que a paisagem nao e necessariamente contemplada como num panorama, podendo muito bem ser imaginada e delineada a partir de horizontes mais estritos, de outras escalas. Imaginar e esbocar a paisagem seriam atos correspondentes a apreciar um cenario distanciado, so que fornecido por um acesso dificil e obstruido: uma paisagem decorrente da "maneira pela qual uma vista se deixa discernir (visao de perto; acesso dificil, obstruida), examinar (visao de perto, de facil acesso, sem obstaculos) e, de forma mais simples, ver ou assistir, dois verbos que, de forma diferente, traduzem uma neutralidade de acesso ou de distancia" (Idem).

Portanto, a espacialidade propria dos becos e suas possibilidades de representacao na chave da paisagem nos levam a problematizar a relacao--tida como obvia na geografia--entre panorama e contemplacao, buscando tentativas de resposta desenhadas pela fotografia.

O descortinar nao panoramico a partir da experiencia fotografica: aberturas para problemas-imageticos

Ao realizarmos o percurso de investigacao imagetica, traduzindo-a textualmente no presente artigo, buscamos apontar novas possibilidades de se pensar a geografia dos becos, incluindo pontos de vista mais nuancados acerca de sua natureza complexa. Somente conseguimos chegar a tais reflexoes e proposicoes imaginadas e narradas a partir do esforco de pensar com as imagens. As imagens como fontes/dados para a compreensao dos becos foram buscadas em formato de narrativa textual, mapas, fotografias historicas (Acervo do Museu da Cidade) e fotografias autorais.

Numa miscelanea de ordem imagetica, destacamos o interesse metodologico nas fotografias autorais por considera-las ferramentas tao potentes como os mapas, ja consolidados no metier da pesquisa geografica. Imergimos no contato com os becos ao longo de seis trabalhos de campo no Bairro de Sao Jose, entre 2015 e 2016. Durante este periodo, ensaiamos produzir fotografias da area patrimonializada sob pontos de vista naoconvencionais, na busca de refletir acerca da construcao dos modelos de visao dos becos.

Muito mais do que propor respostas, levantamos questoes que expressam-se em "problemas imageticos" ou quebra-cabecas iconograficos que podem ser considerados para a analise de outros espacos que nao se apresentam necessariamente como panoramicos. Os quadros aqui trabalhados incitam-nos a remontar como as espacialidades dos becos podem ser retratadas, muito mais do que ilustradas por exemplos estanques, como costuma acontecer em tantos trabalhos de geografia.

Caso I

Consoante mencionado em topico anterior, ao buscarmos a heranca colonial do espaco em questao, nos deparamos com tres fotografias realizadas, nos anos 50, no ambito da administracao publica dos seguintes becos: 1. Beco do Viado Branco de Sao Jose, de 1956, foto de Severino Fragoso; 2. Beco do Sirigado, de 1958, foto de Cisneiros; 3. Beco do Marroquin, anos 1950, foto NDF Percebe-se nelas um afastamento dos sujeitos do territorio retratado e o interesse pelo tracado urbano visto de fora. Apresentam similitude por angulos e perspectivas na altura do "olhar humano", e tentam enquadrar os becos na abordagem da paisagem panoramica. A estrategia escolhida para ensejar o panorama pretendido revela-se nas fotografias lA e lB ao retratar os becos de fora para dentro, a qual prescinde de maior amplitude e profundidade - uma busca pelo horizonte. Escolha estrategica que leva a uma pretensa conotacao de neutralidade e distanciamento, como explicito na fotografia 1C na qual a mirada da foto foi de dentro do beco, contudo, em sua contingencia, a foto expressa a tensao de se buscar um fora estando dentro.

Pelo olhar distanciado do registro oficial impera um senso comum de becos como ruelas sem muita expressao no conjunto da cidade, fato denotado na propria quantidade de fotos do espaco em questao no acervo. Contudo, a importancia de partirmos deste tipo de pictorializacao dos becos deve-se a necessidade de se considerar o regime escopico que possibilitou--e, de certa maneira, continua a possibilitar--a construcao de tais representacoes espaciais. E, principalmente, sugere para a pesquisa outras entradas visuais para compreendermos essa paisagem entranhada a partir de seu proprio amago.

Caso II

Na realidade das tres fotografias colocadas no caso I temos instantes congelados do cotidiano e das coisas, situacao exposta, mesmo que talvez nao pretendida pelo testemunho dos fotografos (KOSSOY, 2014), que colabora com o entendimento das espacialidades dos becos. Por isso, antes de nos colocarmos dentro da janela dos becos, adentramos no procedimento de producao de fotos autorais tentando tecer algumas comparacoes com os espacos identificados nas fotos antigas: os mesmos becos em outra temporalidade expressos na figura 2. Inferem-se, entao, grandes diferencas na organizacao do espaco, ao mesmo tempo em que se desnudam alguns impasses resultantes dos artificios panoramicos mobilizados no passado para retratar aqueles (maus) lugares. A marcante presenca de pessoas e objetos que obstruem a visao, no presente, rebatem a pretensao de se tomar uma mirada de conjunto em cada viela, ao mesmo tempo em que sugerem a imersao, aproximacao e a bricolagem de pontos de vista como uma estrategia alternativa e mais eficiente. Dito de outra maneira, os becos hoje dificilmente se encaixam em representacoes panoramicas, a menos que sejam evacuados de homens e coisas. Por conseguinte, levanta-se a questao: como espacos tao densos e vivamente frequentados podem ser tao pobres de registros iconograficos publicos?

Caso III

Ainda na perspectiva do olhar "de fora para dentro", nos demos conta da condicao de imperceptibilidade atual de alguns becos ao fotografar o processo de entrada nos mesmos, explicito na figura 3. Espaco que abriga simultaneamente um campo de fora (visibilidade obstruida) e um campo de dentro (visibilidade aproximada). Ao penetra-los o sujeito vivencia a proximidade de corpos que incita a perceptibilidade de muitos elementos "por dentro da paisagem", como cogitou Manuel Bandeira (1996), e a uma sociabilidade assaz diferente das de ruas, pontes, pracas ou largos. Assim, a tensao entre observar e estar na paisagem (WYLIE, 2007) e fato marcante e quase que inevitavel neste tipo de espaco, cuja limitada amplitude de angulos possiveis de observacao oferece um enquadramento mais bitolado e uma experiencia de presenca em relativa reclusao.

Caso IV

Os problemas mais gerais apresentados nos casos anteriores precisam ser complementados pela verticalidade da luz e estreiteza de planos no interior das vielas. A partir de agora, no campo de dentro, propomos outros olhares expressos na figura 4 e 5, como reveladores das condicoes da experiencia de estar e representar becos, incorporando o incidental, as restias de luz, o incomum e inabitual que o confinamento daqueles espacos solicita de nossos sentidos e sentimentos. De fato, os becos se configuram como um espaco fissural que, em algumas situacoes, nos remetem a um canyon ou o interior de uma floresta tropical, cujos feixes de luz entram a partir de brechas deixadas entre as tendas dos ambulantes erguidas ao longo do trajeto.

Espaco confinado, por vezes topofobico, por, alem de se configurar como um lugar de frestas, ser densamente ocupado/usado, o que confere uma trama de territorios fixos e tambem fluidos, de tempo longo e tambem instantaneos. Espaco entranhado e intimo porque induz ao transeunte e aos sujeitos que ali trabalham a estarem muito proximos dos olhares, odores, ruidos e corpos uns dos outros, como sentido na figura 5. Espaco publico onde a proximidade e um imperativo.

Consideracoes finais

Apesar da importancia na cultura comercial e na historia do Centro Historico do Recife, os becos nao fazem parte da iconografia simbolica da cidade, fato que pode ser facilmente exemplificado pela dificuldade de encontrar ou imaginar quais seriam as fotografias iconicas das nossas vielas.

E provavel que isto tenha a ver com a historia espacial dos becos ligada as populacoes pobres e negras que, na cultura visual urbana brasileira, foram relegados aos espacos invisibilizados. Ambientes pouco aparentes, sujos, depauperados, perigosos, tal qual "entranhas" do espaco publico, no sentido de elementos comunicantes em partes labirinticas e intricadas das cidades. Por outro lado, revela-se a contradicao de que as ruelas perfazem ainda hoje aquelas conexoes mais curtas e rapidas entre os logradouros de que fala Mario Sette (1948, p.16), "por necessidades de relacoes, de visitas, de comercio, de amores".

Para o transeunte ou o comerciante a paisagem dos becos e uma bricolagem, dificilmente um panorama, mas sim um quebra-cabeca montado na sua presenca, no ato de passar por ele ou ali estar, com todas as suas limitacoes de distanciamento, obstaculos e dificuldades de pontos de vista. Paisagem angular, marcada pela verticalidade da luz, um objeto visivel, porem poli sensorial, onde o sujeito (seja passante ou plantado no lugar) necessita fazer um exercicio coerente de "montagem" de suas inumeras partes, as quais nunca se apresentam em conjunto.

Tal sugestao de procedimento metodologico para refletir sobre cenarios nao-panoramicos nos remetem, novamente, a inspiracao de Gomes e Ribeiro (2013, p.34) quando afirmam haver uma "pedagogia de educacao visual geografica", capaz reafirmar a experiencia de "pensar com as imagens". O regime de visibilidade (GOMES, 2013) dos becos e bastante especifico, assim como as possibilidades de torna-los perceptiveis de modo mais adequado ao seu melhor ajuste em politicas de patrimonializacao.

Dito de outra maneira, se as imagens dos becos sao artefatos que nos permitem revelar determinadas coisas sobre o Recife, sobretudo a pouca visibilidade dos seus "maus lugares", como a producao fotografica de novos angulos, pontos de vista e composicoes podem alterar as proprias condicoes que regulam nossa percepcao sobre a espacialidade do seu Centro Historico? Ao refletir sobre formas, funcoes, eventos e processos inerentes a geografia dessas travessas, tentamos dar conta, imageticamente, de suas qualidades materiais e sociais intrinsecas: estreiteza, profundidade, vista obstruida, verticalidade de luz, proximidade corporal, rota de atalho com intenso movimento, dentro/fora, locus de comercio e servicos etc. Ora, sao tais condicoes que explicam, em grande parte, que num regime escopico dominante, o qual privilegia a paisagem panoramica, os becos permanecam apagados da iconografia geossimbolica. Apenas se aceitarmos e contemplarmos as morfologias, funcionalidades e naipes inerentes a espacialidade das vielas poderemos repensar maneiras de representa-las e integra-las a fisionomia iconografica dos bairros historicos do Recife.

Assim, esperamos contribuir para desvelar as imagens dos becos do centro recifense, produzindo uma reflexao a partir de e com base na producao de fotografias sobre estes eixos de fluxos tao vitais para a manutencao dos espacos patrimonializados, embora pouco integrados a uma imagem representativa do seu sitio historico. Num sentido que supera o estudo de caso, pretendemos ter contribuido para a reflexao sobre as relacoes entre paisagem, contemplacao e panorama atraves de praticas oriundas da arte de fotografar os espacos publicos mais exiguos e entranhados da cidade, superando posturas que tendem a reduzir aqueles conceitos e concepcoes a sinonimos patentes ou auto evidentes.

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PRISCILA BATISTA VASCONCELOS *

CAIO AUGUSTO AMORIM MACIEL **

NOTAS

* Geografa e bolsista pos-doutoral CAPES/PNPD, pelo Programa de Pos-Graduacao em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco- UFPE. Doutora em Geografia pela UFPE. Pesquisadora do Laboratorio de Estudos sobre Espaco, Cultura e Politica (LECgeo), em Recife.

** Geografo e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) onde conduz estudos sobre regiao, paisagem e espaco publico. Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), realizou estagio pos-doutoral na Universidade de Sussex, Reino Unido. Coordena desde 2008 o Laboratorio de Estudos sobre Espaco, Cultura e Politica (LECgeo), em Recife.

(1) A pesquisa intitula-se "Funcionamento do mercado imobiliario nos centros historicos das cidades brasileiras", sob a coordenacao da Professora Titular do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Posgraduacao em Desenvolvimento Urbano (MDU/UFPE), Norma Lacerda. Esse projeto envolve os centros historicos das seguintes cidades brasileiras: Recife e Olinda (PE), Belem (PA) e Sao Luis (MA). Financiada pelo CNPq/Capes.

(2) "Apos o incendio de Olinda, em 1631, o Recife deixa de ser apenas um porto e torna-se o centro politico do governo holandes no Brasil: torna-se a Cidade Mauricia ou Mauritsstad." (PONTUAL, 2001). "Na ilha de Antonio Vaz, o intervencionismo urbanistico incentivado por Nassau transformou a paisagem canalizando os bracos de rio, aplainando o terreno e fazendo erguer-se a Cidade Mauricia." (BREDA, 2007).

(3) No Centro Historico do Recife incide legislacao preservacao do patrimonio inscrito como 'Zonas Especiais de Preservacao do Patrimonio HistoricoCultural', definidas pela Lei de Uso e Ocupacao do Solo--LUOS (Lei no 16.176/1996): A area de estudo do presente artigo compreende a ZEPH 10 --Bairros de Santo Antonio e parte do Bairro de Sao Jose.

(4) "Em termos propriamente urbanos, houve um aumento da populacao na area central e uma expansao do perimetro urbano, incorporando o que ate entao eram suburbios e arraias. Os terrenos se valorizam, e os investimentos imobiliarios se incrementam a partir da disponibilidade de investimento daqueles que dispoem de recursos. Como ja se viu, havia a pratica de alguns capitalistas da praca de construirem habitacoes modestas para fins de aluguel nas novas vias publicas que se abriam, como no caso dos becos. Provavelmente os sobrados e casas de maior porte que la existiam foram abandonados por seus moradores e sublocados a novos inquilinos, devido a populacao de baixa renda que aumentava. " (PESAVENTO, 2001, p. 115).

Caption: Figura 1: Becos do Sao Jose, anos 1950 (Fotos: Acervo do Museu da Cidade do Recife, 2016.)

Caption: Figura 2: Comparacao espacial-temporal entre os anos 1950 e 2016 dos Becos do Veado Branco (2A e 2B) e do Sirigado (2C e 2D). (Fotos: Acervo do Museu da Cidade do Recife; Priscila Vasconcelos e Caio Maciel, 2016).

Caption: Figura 3: Um campo de fora (visibilidade obstruida--3A) e de dentro (visibilidade aproximada--3B). (Fotos: Priscila Vasconcelos e Caio Maciel, 2016)

Caption: Figura 4: 'Olhar' para cima e 'Olhar' para baixo. (Fotos: Priscila Vasconcelos e Caio Maciel, 2016).

Caption: Figura 5: Proximidade forcada e movimento. (Fotos: Priscila Vasconcelos e Caio Maciel, 2016).
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Author:Vasconcelos, Priscila Batista; Maciel, Caio Augusto Amorim
Publication:Espaco e Curtura
Date:Jan 1, 2016
Words:7456
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