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Horror to interior life and the philosophical novel Nausea/O horror a vida interior e o romance filosofico A Nausea.

Introducao

A explicitacao dos fundamentos filosoficos da critica de Sartre ao determinismo psicologico e a nocao de intimidade, bem como a apresentacao das caracteristicas do romance filosofico A nausea que o constituem como uma proposta alternativa de literatura, estao pautadas, no presente trabalho, em uma leitura interpretativa que se fundamenta metodologicamente a partir do conceito de vizinhanca comunicante (SILVA, 2004). Esta nocao se estrutura a partir de uma renuncia a interpretacao simplificadora das relacoes entre filosofia e literatura no pensamento de Sartre, segundo a qual a funcao da ultima seria ilustrar teses filosoficas (PERDIGAO, 1995; BORNHEIM, 1971) com o objetivo de torna-las mais acessiveis a um publico de nao filosofos, ao apresentar em concreto situacoes tratadas abstratamente pela teoria. Ora, considerando que as duas formas de expressao, filosofia e literatura, nao dizem as mesmas coisas, porem, ao mesmo tempo, que o Sartre filosofo e o ficcionista nao dizem coisas completamente diferentes, o principio da vizinhanca comunicante propoe que ha uma identidade profunda entre as duas instancias de expressao (SAINT-SERNIN, 1990), de tal modo que a diferenca entre a elucidacao da ordem humana, pela filosofia, e a descricao compreensiva de como os homens vivem, pela literatura, e ao mesmo tempo a identidade entre o nivel das estruturas descritas fenomenologicamente e o nivel das vivencias narradas historicamente. Desse modo, a identidade entre as duas instancias de expressao acima citadas aparece, no presente trabalho, na medida em que apresentarmos a teoria fenomenologica desenvolvida por Sartre acerca da consciencia e seu conceito de intencionalidade, bem como de que maneira ela fundamenta uma critica ao determinismo psicologico, e as suas consequencias para o ambito literario, uma vez que Sartre direciona sua critica a autores como Proust e Balzac. Alem disso, esta identidade aparecera ainda na medida em que apresentarmos as caracteristicas do romance filosofico A nausea que a constituem como uma proposta alternativa de literatura, uma possibilidade compreensiva da realidade humana, livre de pressupostos deterministas e da nocao de intimidade.

A critica ao determinismo psicologico e a nocao de intimidade.

Escrito entre 1934 e 1935, a redacao de A transcendencia do ego se inicia no periodo em que Sartre ainda permanecia como bolsista do Instituto frances em Berlim, desenvolvendo investigacoes acerca da fenomenologia husserliana (BEAUVOIR, 2009). O problema principal desta obra consiste em investigar a existencia de fato de um "Eu" na consciencia, uma subjetividade concreta (MOUTINHO, 1995). Como procedimento investigativo, visando este proposito, Sartre desenvolve uma linha argumentativa, inicialmente, negativa, caracterizada pela expulsao (1) de todo e qualquer conteudo da consciencia, uma vez que toma como principio o conceito husserliano segundo o qual a consciencia caracteriza-se pela intencionalidade, isto e, ja na particular concepcao (2) que Sartre toma desse conceito, significa que a consciencia, por natureza, esta voltada para fora de si (REIMAO, 2005), e sempre consciencia de um objeto transcendente. No segundo momento, seu procedimento se desenvolve enquanto fundamentacao, precisamente daquilo que nomeia de psiquico, campo transcendente a consciencia que aparece a esta enquanto um objeto. (MOUTINHO, 1995)

A hipotese de Sartre para resolver o problema acerca da existencia de uma subjetividade concreta e a proposta de uma estruturacao da consciencia em tres niveis. Segundo Sartre, ha uma consciencia irrefletida, anterior a qualquer ato de reflexao, caracterizada pela sua espontaneidade e por se determinar a existir por si mesma, sem que nenhuma outra consciencia possa toma-la como objeto. O segundo nivel e intitulado reflexionante ou reflexivo. Trata-se de uma consciencia que toma uma outra consciencia como objeto, de modo que esta ultima estabelece o terceiro nivel, o ambito refletido. Ora, convem ressaltar que esta consciencia de segundo nivel, qual seja, a reflexionante, e em si mesma consciente, ainda que de maneira nao posicional, nao tetica, pois a consciencia, para Sartre, e um absoluto que e plena translucidez.

Segundo Sartre, o Eu aparece na medida em que ha a operacao de uma consciencia de segundo grau, isto e, uma consciencia reflexionante que toma como objeto uma outra consciencia. E o caso, por exemplo, do ato reflexivo "eu estava lendo ha pouco". Para que um ato deste tipo seja possivel, e necessario que antes, no ambito transcendental, compreendido por Sartre como o campo das espontaneidades puras, uma serie de atos incessantes de consciencia ja tenham sido dados. (Sartre, 1966) (3)

Nesse sentido, a hipotese proposta por Sartre leva a duas consequencias que sao defendidas por ele enquanto teses, quais sejam, a tese segundo a qual o Eu e um objeto transcendente, que possui existencia relativa a uma consciencia reflexiva, e a tese de que a subjetividade concreta, problema posto inicialmente, diz respeito ao ambito da consciencia irrefletida, isto e, uma espontaneidade impessoal, sem sujeito (4).

O "Eu" caracteriza-se, desse modo, como um existente transcendente a propria consciencia, mas com uma existencia num plano diferente dos outros objetos correlatos da consciencia irrefletida pelo fato de nao aparecer espontaneamente, isto e, sua aparicao depende de um ato reflexivo. Este "Eu", diz Sartre, talvez nao tenha tanto uma funcao essencial intelectual que pratica. Seu papel, essencialmente, para alem de dar uma ilusao, no sentido de aparecer como unificador de nossas vivencias ou representacoes, e o de mascarar a propria consciencia a sua espontaneidade. Ora, assumir a tese da transcendencia do ego a partir do argumento dos tres niveis de consciencia anteriormente apresentados, leva Sartre a apontar as seguintes consequencias que aqui enumeramos:

1) Ha uma distincao entre duas esferas pertinentes a existencia humana, a saber, a esfera psiquica e a esfera transcendental. A primeira acessivel a psicologia pelo metodo introspectivo, caracteriza-se por ser uma regiao passiva e existencialmente relativa, pois so aparece pelo vies de uma consciencia reflexiva. A segunda, caracteriza-se por ser uma esfera de existencia absoluta, de espontaneidades puras que nunca sao objeto e que se autodeterminam a existir, regiao que corresponde a consciencia irrefletida (MOUTINHO, 1995) (5).

2) A psicastenia (6) passa a ter uma explicacao coerente como angustia da consciencia que se apercebe espontanea.

3) A ressignificacao do conceito husserliano de atitude natural, que e descrito por Sartre como um esforco que a consciencia faz para escapar dela mesma a medida que se projeta, isto e, se hipostasia em um 'Eu'.

4) A Epoche deixa de ser compreendida enquanto um metodo intelectual, um procedimento cientifico, no sentido husserliano do termo, e torna-se uma experiencia existencial de angustia que se impoe a nos e que nao se pode evitar. Trata-se ao mesmo tempo de um acontecimento puro de origem transcendental, pois aparece na medida em que a consciencia se da conta da "fatalidade de sua espontaneidade", e um acidente existencial sempre possivel na vida humana. (SARTRE, 1966).

Destas consequencias, interessa-nos abordar a distincao entre psiquico e transcendental na medida em que o 'Eu' aparece na primeira esfera como unidade dos estados e acoes. Ao analisar a constituicao do ego, Sartre examina como se constituem os estados, acoes e-facultativamente- as qualidades, bem como a maneira segundo a qual o 'Eu' aparece enquanto polo destas transcendencias. Importa-nos aqui expor apenas como sao constituidos os estados, pois e neste aspecto que pretendemos apontar a critica ao determinismo psicologico. O exemplo tomado por Sartre e o estado de odio:

Consideremos uma experiencia reflexiva de odio. Eu vejo Pedro, eu sinto como que uma alteracao profunda de repulsao e de colera no momento em que o avisto (ja estou no plano reflexivo): a alteracao profunda de repulsao e consciencia. Eu nao posso me enganar quando digo: experimento neste momento uma violenta repulsao por Pedro. Mas esta experiencia de repulsao e ela odio? Evidentemente que nao. Ela nao se da, alias, como odio. Com efeito, eu odeio Pedro desde muito tempo e eu penso que sempre o odiarei. Uma consciencia instantanea de repulsao nao saberia ser meu odio. (SARTRE, 1966, p. 45)

Sobre este aspecto, Sartre ressalta que o odio aparece por ocasiao de uma consciencia de segundo grau (reflexiva), portanto posterior ao ambito das espontaneidades proprio da consciencia irrefletida. Por ser um estado, caracteriza-se como passivamente constituido, isto e, sua existencia se da relativamente a consciencia reflexiva. Ora, convem questionar: que relacao esta constatacao em termos fenomenologicos tem com a critica estabelecida por Sartre a certos tipos de literatura ligadas a expressao de um 'Eu'?

O argumento que aqui pretendemos apontar, embora de maneira sucinta, e que a distincao fenomenologica entre regiao psiquica e esfera transcendental resultante da concepcao de ego enquanto uma transcendencia, fundamenta na obra de Sartre uma critica ao determinismo psicologico presente nas literaturas de tipo intimista (7), ligadas a expressao de um 'Eu', uma vez que elas propoem uma ideia compreensiva do homem a partir de uma certa "psicologia dos estados", como se uma forca interior determinasse a acao dos individuos ou como no caso do naturalismo, a partir de uma essencia predeterminada. Nesse sentido, escreveu Sartre:

Nao se diz, com efeito: 'Meu odio foi revelado ...'. 'Seu odio era combatido pela violencia do desejo de ..., etc.,'? As lutas do odio contra a moral, a censura, etc., nao sao figuradas como conflitos de forcas fisicas, ao ponto de Balzac e a maioria dos romancistas (por vezes o proprio Proust) aplicarem aos estados o principio da independencia das forcas? Toda a psicologia dos estados (e a psicologia nao fenomenologica em geral) e uma psicologia da inercia (SARTRE, 1966, p.50)

Na obra destes romancistas, segundo Sartre, o homem e explicado a partir do principio da independencia das forcas, como se os estados agissem sobre o individuo determinando a sua consciencia, sua acao e a sua existencia. Nesse mesmo sentido de critica, no artigo Uma ideia fundamental da fenomenologia de Husserl: a intencionalidade, Sartre volta a referir-se a Proust.

Nesse artigo, Sartre retoma a critica a chamada "psicologia subjetivista" (COOREBYTER, 2003), ressaltando agora a ideia de "vida interior", pela qual nutria verdadeiro "horror" (8), como lugar onde se manifestam as reacoes subjetivas defendidas pela literatura de Proust (9). Em sintonia com as analises fenomenologicas desenvolvidas em A transcendencia do ego, Sartre retoma aqui o conceito de intencionalidade enquanto necessidade da consciencia de existir como consciencia de outra coisa que nao ela mesma (SARTRE, 2003), com o objetivo de negar a existencia de uma "vida interior" habitada pelo que seriam nossas representacoes e emocoes tais como: amor, odio e temor (10). Nesse sentido, amar, odiar ou temer passam a ser maneiras de descobrir o mundo. "Odiar outrem e ainda uma maneira de explodir em direcao a ele", isto e, tal como aparece em A transcendencia do ego, uma espontaneidade impessoal (11).

A Nausea: uma experiencia narrativa atravessada pela contingencia.

Em A nausea, o personagem principal, Antoine Roquentin, instala-se numa cidade do interior da Franca chamada Bouville, a fim de pesquisar alguns documentos sobre a vida do Marques de Rollebon. Nas primeiras paginas de seu diario, no qual registra os acontecimentos da sua estada na cidade, Roquentin descreve uma impressao que tivera dias antes, ao pretender atirar pedrinhas ao mar, como alguns garotos o faziam na rua: "O que se passou em mim nao deixou tracos claros. Havia qualquer coisa que vi e que me repugnou, mas ja nao sei se estava a olhar para o mar ou para a pedra" (SARTRE, 1964, p.12)

A partir de entao o personagem passa a demonstrar duvida em relacao a diversos acontecimentos que o chocam, e que o poem a pensar se as mudancas acontecem com ele ou com as coisas que o rodeiam. A cada vez que e tomado pela sensacao de outrora, quando se propusera a atirar a pedra, as coisas do mundo parecem se tornar sem sentido, uma especie de desvelamento das coisas materiais se desdobra diante dos olhos de Roquentin. As ruas, as casas, as pessoas, tudo parece fazer parte de um grande caos onde nao ha determinismo, nem fundamento, pois a mesma possibilidade que algo tem para acontecer de certa maneira, revela-se para o personagem como possibilidade de acontecer doutra forma, ou mesmo de nao acontecer. E o que no ponto culminante da obra e revelado pela experiencia da nausea, ou seja, a vivencia da existencia do mundo, das coisas, das pessoas e da sua falta de fundamento, de justificativas (12). Tal experiencia, que permite o acesso ao ambito puramente humano, chamado por Sartre de condicao humana, culmina na constatacao da total contingencia (13) da existencia, isto e, como Sartre (1964, p. 172) coloca: "todo o existente nasce sem razao, prolonga-se por fraqueza e morre por encontro imprevisto". Ora, a descricao desta vivencia ou o que poderiamos chamar de "experiencia fenomenologica (14)", nao se trata de uma constatacao subjetiva, no sentido de um processo introspectivo que reconhece um estado subjetivo e que justifica as acoes do personagem, mas a descricao de um acidente sempre possivel na vida cotidiana, em outras palavras, um acidente existencial, razao pela qual esta diretamente ligado a critica ao determinismo psicologico presente nas literaturas de carater intimista, especificamente como uma proposta alternativa a essas literaturas, sobretudo por propor uma narrativa de reinvencao do homem, na qual ele se depara com a sua propria existencia, nao em um "retraimento" subjetivo, mas "na estrada, na cidade, no meio da multidao, coisa entre as coisas, homem entre os homens". Por essa razao, como bem coloca Silva (2004, p. 56), a narrativa do encontro do existente com a sua propria existencia e tambem a descricao da dor e do horror de existir.

Por fim, caso se considere a sugestao interpretativa proposta por La Capra (1978, p. 98), segundo a qual A nausea configura-se como um anti-romance, e ainda as invectivas de Sartre a ideia de "vida interior" pertinente ao romance proustiano, bem como pertencente a escrita diaristica de Henri-Frederic Amiel, pode-se afirmar que A nausea e um anti-diario intimo, pois Roquentin nao leva a cabo uma recherche interior acerca de seu "tempo perdido", tampouco esta a procura "dos mimos" de sua intimidade. Alias, se inicialmente busca esta dimensao, sua experiencia fracassa, "pois afinal de contas tudo esta fora, tudo, ate nos mesmos: fora, no mundo, entre os outros" (SARTRE, 2003, p. 89).

Referencia Bibliografica

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DOI: 10.12957/ek.2018.38299

Dndo. Rafael de Sousa Pinheiro

rafael.pinheiro2306@gmail.com

Universidade Federal da Bahia

Mnda. Bruna Santos da Silva

brunasanb@gmail.com

Universidade Federal da Bahia

(1) Em O ser e o nada, Sartre (2014, p. 22) novamente recorre ao conceito de intencionalidade para explicar que a consciencia nao e uma maneira particular de conhecimento, chamado sentido interno ou conhecimento de si: e a dimensao de ser transfenomenal do sujeito, isto e, que e condicao de desvelamento, razao pela qual a consciencia e caracterizada por Sartre sempre como uma "intuicao reveladora" de algo que ela nao e, quer dizer, de um transcendente. Ora, precisamente por esta caracteristica que podemos considerar uma necessidade ontologica, "o primeiro passo de uma filosofia deve ser, portanto, expulsar as coisas da consciencia e restabelecer a verdadeira relacao entre esta e o mundo, a saber, a consciencia como consciencia posicional do mundo."

(2) Autores como Reimao (2005, p. 55), Mouillie (2000, p. 13) e Thevenaz (1961, p. 298) apontam que ha certa "radicalidade" na apropriacao que Sartre faz do conceito de intencionalidade. Primeiro, porque ela passa a ter um carater ontologico, isto e, "a relacao originaria que une a consciencia com a realidade nao e uma relacao gnoseologica, mas sim ontologica". Segundo, ao considerar o principio da translucidez da consciencia, segundo o qual nao ha nela nenhum germe de opacidade, tudo nela se passa como se fosse "claro" e "lucido", Sartre nao admite a existencia de nenhum conteudo como pertencente a estrutura da consciencia, nem mesmo um ego transcendental.

(3) "Por exemplo, eu estava absorvido um pouco antes em minha leitura. Eu vou procurar me lembrar das circunstancias de minha leitura, minhas atitudes, as linhas que lia. Eu vou desta maneira ressuscitar nao apenas estes detalhes exteriores, mas uma certa espessura da consciencia irrefletida, ja que os objetos nao puderam ser percebidos senao por meio dessa consciencia e que eles lhe permanecem relativos. Essa consciencia, nao e necessario a colocar como objeto de minha reflexao, e necessario, ao contrario, que eu dirija minha atencao para os objetos ressuscitados, mas sem a perder de vista, mantendo com ela um tipo de cumplicidade e inventariando seu conteudo de modo nao-posicional. O resultado nao e duvidoso: enquanto eu lia, havia consciencia do livro, do heroi do romance, mas o Eu nao habitava esta consciencia, ela era apenas consciencia do objeto e consciencia nao posicional dela mesma. Esses resultados tomados Mofeticamente faz com que eu possa agora fazer deles o objeto de uma tese e declarar: nao havia 'Eu' na consciencia irrefletida." (SARTRE, 1966, p. 30)

(4) E nesse sentido que Mouillie (2000, p. 5) reconhece a originalidade da tese de Sartre, na medida em que interpreta a sua teoria fenomenologica da consciencia como uma critica a ideia de um sujeito substancial em nome de uma "subjetividade sem sujeito". Por essa razao, afirma que uma filosofia da consciencia nao e nem diretamente e nem necessariamente assimilavel a uma filosofia do sujeito.

(5) Segundo Moutinho (1995, p. 42) "A liberacao da consciencia torna os campos transcendental e psiquico nitidamente separados, correspondendo a cada um uma disciplina particular, com seus metodos proprios. De um lado, 'uma esfera transcendental pura acessivel apenas a fenomenologia', atraves da 'reducao fenomenologica'. E uma esfera de existencia absoluta, isto e, 'de espontaneidades puras que nao sao jamais objetos e que se determinam a si mesmas a existir'. De outro lado, o psiquico enquanto objeto transcendente da consciencia reflexiva, esfera acessivel a psicologia. Enquanto objeto, valem aqui os metodos de observacao externa e de instrospeccao. Neste caso, 'posso colecionar fatos que me concernem e tentar interpreta-los tao objetivamente quanto se se tratasse de um outro'."

(6) A psicastenia e um diagnostico cunhado pelo neurologista frances Pierre Janet na obra Les obsessions et lapsycastenie. E um transtorno psicologico caracterizado pela ausencia de explicacoes etiopatologicas suficientemente elucidativas. Seus sintomas sao a producao de ideias fixas, obsessoes, impulsos, manias mentais, duvidas, tiques neurastenicos e sensacao de despersonalizacao.

(7) Em funcao do carater do presente trabalho, nao e nosso objetivo expor os pormenores das relacoes entre o pensamento fenomenologico de Sartre e a literatura, mas convem ressaltar a existencia de tres obras classicas extremamente relevantes a esse respeito, que estabelecem conexao, por exemplo, entre A transcendencia do Ego, Uma ideia fundamental da fenomenologia de Husserl: A intencionalidade e o romance filosofico A nausea, sao eles: Sartre, psicologia e fenomenologia de Luiz Damon S. Moutinho, Etica e literatura em Sartre de Franklin Leopoldo e Silva, e La premiere philosophie de Sartre de Alain Flajoliet. O primeiro, defende a ideia de que ha uma conexao entre a narratividade de A nausea e a analise fenomenologica de A transcendencia do ego pela ideia de inversao na genese da subjetividade, isto e, do mesmo modo como o ego e fenomenologicamente descrito enquanto objeto transcendente a consciencia no qual ela se hipostasia, o personagem Roquentin projeta um "Eu" fora de si e tenta toma-lo como causa e origem de si proprio, mascarando a sua angustia. (SILVA, 2004). Ja o trabalho de Moutinho explicita uma conexao entre o texto fenomenologico e o literario a partir do conceito de consciencia e contingencia. Para esse autor, a compreensao do conceito de consciencia enquanto "nada", campo transcendental vazio, presente no texto fenomenologico, so se torna inteiramente inteligivel a partir da nocao de contingencia vivida pelo personagem Roquentin de A nausea. (MOUTINHO, 1995). O trabalho de Flajoliet vai alem e defende a tese de que A nausea influencia a propria fenomenologia sartriana, especificamente no que diz respeito ao conceito de transcendental ressignificado por Sartre, isto e, o ambito da espontaneidade impessoal. (FLAJOLIET, 2007; FLAJOLIET, 2008).

(8) Segundo Beauvoir (2009, p. 128), Sartre "sempre tivera horror a 'vida interior' : ela achava-se radicalmente suprimida a partir do momento em que a consciencia se fazia existir atraves de uma superacao perpetua de si mesma para um objeto; tudo se situava fora: as coisas, as verdades, os sentimentos, as significacoes e o proprio Eu; nenhum fator subjetivo alterava, portanto, a verdade do mundo tal qual se dava a nos"

(9) Coorebyter (2003, p. 173) ressalta que e especificamente a psicologia subjetivista que Sartre recusa em Proust, pois ele interpoe imagens, fetos e lembrancas entre o mundo e nos, ao ponto de reduzir o amor a um "produto de nosso temperamento", "um estado mental", sem qualquer ligacao verdadeira com a pessoa amada.

(10) "O conhecimento ou 'pura representacao' e apenas uma das formas possiveis da minha consciencia 'de' tal arvore: posso tambem ama-la, teme-la, detesta-la, e essa superacao da consciencia por si mesma, que chamamos de 'intencionalidade', reaparece no temor, no odio e no amor." (SARTRE, 2003, p. 89).

(11) A teoria fenomenologica da emocao e desenvolvida por Sartre na obra Esboco para uma teoria das emocoes, publicada em 1939. Nesta obra, Sartre procura desenvolver a teoria do objeto psiquico esbocada em A transcendencia do ego, bem como defende a tese segundo a qual a emocao e primeiramente uma consciencia emocional irrefletida, isto e, antes de mais, uma espontaneidade impessoal (SARTRE, 2013).

(12) "Quero dizer que, por definicao, a existencia nao e a necessidade. Existir e estar presente, simplesmente, os existentes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca se podem deduzir. Ha pessoas, creio eu, que perceberam isto. Somente, tentaram dominar essa contingencia inventando um ser necessario e causa de si proprio. Ora, nenhum ser necessario pode explicar a existencia: a contingencia nao e uma ilusao de otica, uma aparencia que se possa dissipar; e o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita. Tudo e gratuito, este jardim, esta cidade e eu mesmo." (SARTRE, 1964, p.169)

(13) Segundo Sartre (1983, p. 168) a nausea e a apreensao existencial de nossa facticidade.

(14) A respeito da nausea como uma experiencia fenomenologica, o critico Edmond Jaloux afirmou: "Dir-se-a, talvez, que nao e um romance; mas que e um romance senao, antes de tudo, uma forma de ficcao contendo uma vasta experiencia?". (CONTAT & RYBALKA, 1991, p. 1703). Sartre agradece tal critica com uma carta onde diz que Edmond Jaloux foi o unico critico que apresentou A Nausea como uma experiencia fenomenologica. Esta mesma perspectiva de interpretacao e desenvolvida por Blanchot (1997, p. 191-192) quando afirma que "A nausea e uma experiencia narrativa de uma experiencia. Antoine Roquentin esta diante de um movimento que lhe escapa e a partir do qual, ele o sente, tudo vai escorregar. A aproximacao desse movimento e tao importante quanto a revelacao pela qual ele compreende o seu sentido, ou melhor, ele faz parte dessa revelacao, e essa revelacao [...] Quando Roquentin esta face a face com a existencia, quando a ve, compreende e descreve, na realidade ele nao possui nada mais e nada muda, a revelacao nao o ilumina, pois nao cessou de lhe ser dada, e ela nao poe fim a nada, porque esta em seus dedos que o apalpam, e em seus olhos, que veem, isto e, continuamente absorvida em seu ser, que a vive."
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Author:de Sousa Pinheiro, Rafael; da Silva, Bruna Santos
Publication:Ekstasis: Revista de Hermeneutica e Fenomenologia
Date:Dec 1, 2018
Words:4132
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