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History lived, thought-out history/Historia vivida, historia pensada.

FALCON, Francisco Jose Calazans. Estudos de teoria da historia e historiografia. Volume I: teoria da historia. Sao Paulo: Hucitec, 2011, 206 p.

O professor Francisco Jose Calazans Falcon, referencia do pensamento historiografico e mestre de muitas geracoes, apresenta uma coletanea de textos de sua autoria que, certamente, fara parte da historia da historiografia brasileira, uma vez que, nela, mostra o desenrolar de seu pensamento sobre alguns dos varios temas por ele pesquisados e refletidos em sua pratica no oficio de historiador.

Resulta dificil sintetizar os inumeros temas trabalhados no espaco de uma resenha, dada a sua variedade. Nesse sentido, a opcao foi destacar questoes que sintetizam alguns dos problemas do conhecimento historico que sao, ao mesmo tempo, algumas das inquietacoes do autor. Trata-se de problematicas que permeiam todos os textos, dando interessante organicidade ao trabalho como um todo. Sao elas: 1) o duplo significado da palavra "historia"; 2) a crise da historia; 3) o realismo historico; 4) a pos- modernidade/totalidade-fragmentacao; 5) a identidade da disciplina e de seu artifice na contemporaneidade.

Anunciada no primeiro texto exposto, esta e uma das assertivas estruturantes das reflexoes: a aceleracao do tempo, evidencia assinalada pelos historiadores contemporaneos, complexifica a reflexao historica e a construcao do discurso historiografico. Um saber que se dedica a observar o que ja aconteceu defronta-se com a rapidez do acontecido, que da a sensacao de um presente eterno e torna fugidio tanto o proprio presente, quanto o pretendido passado. Dai a inquietacao: qual o (tempo?) "regime de historicidade" do historiador contemporaneo? A esse impasse, acrescentar-se-a a ambiguidade, na expressao do autor, da palavra "historia":

Entre a Historia concebida como processo ou acontecer real, especie de devir geral das sociedades, ou seja, realidade imanente, ou transcendente, e a Historia entendida como um processo de conhecimento, ao mesmo tempo atividade cognoscitiva e produto dessa mesma atividade que se materializa geralmente em "textos" [...] (FALCON 2011, p. 15).

Essa preocupacao, que e compartilhada por Falcon com Pierre Vilar, bastante citado nos textos, aparece em, praticamente, todas as reflexoes do autor nesta coletanea. O reconhecimento dos dois significados da palavra "historia" ganha enfase com a introducao da nocao de "representacao" no vocabulario historiografico. Essa introducao levanta uma indagacao a respeito do lugar do "real" no conhecimento historico, uma vez que o uso indiscriminado da nocao de representacao pode obscurecer o estatuto ontologico do passado. O recurso a essa ameaca esta na busca da concretude dos acontecimentos, ou seja, na busca da realidade extradiscursiva.

O ponto de partida da analise da mencionada crise e a expressao "vazio de ideias", trazida pelo intelectual portugues Eduardo Prado Coelho para explicar a situacao da cultura atual. A formula incita a polemica em torno da objetividade/verdade no conhecimento historico, ja que alude a uma indefinicao dos fundamentos que referenciam verdades, o que compromete o conhecimento historico, ameacando sua utilidade.

A ideia de "fim da historia" e mais uma das manifestacoes do que seria a crise do saber historico. Citando de maneira recorrente essa polemica, Falcon sugere sua posicao por meio de uma instigante pergunta, formulada nestas bases: quando se fala em crise da historia, de que historia esta se falando, da historia-materia ou da Historia-disciplina? A partir dai, o autor nega o fim da historia, atribuindo essa sensacao aos impasses encontrados pelo historiador atual a respeito da construcao de seu proprio conhecimento em funcao da passagem de um tempo de certezas para um tempo de indefinicoes:

[...] como bem sentimos e sabemos, a Historia nao chegou ao fim, se e que ela o possui. A Historia continua, pois os homens e suas sociedades continuam a existir. Nao devemos misturar as coisas; nao atribuamos a Historia problemas e perplexidades, insuficiencias, sobretudo, que sao exclusivamente nossos [... ] Em termos mais claros: os obstaculos que enfrentamos em relacao a Historia derivam quase que exclusivamente dos problemas e indefinicoes ora existentes dentro da Oficina do Historiador (FALCON 2011, p. 28).

Ha movimentos na historia produtores de fenomenos que marcam epocas, delimitam espacos, nominam situacoes vividas. As profundas transformacoes dos seculos XVIII e XIX, situadas em uma regiao que abrigou paises economica e politicamente dominantes, os pensadores chamaram "modernidade", denominacao emprestada de uma epoca anterior, classificada pela historiografia como Idade Moderna.

As praticas ou experiencias historicas reconheceram o conceito e aceitaram o significado. Algumas pessoas enxergaram, por exemplo, a industrializacao 1 como um fenomeno produtor de situacoes "modernas". Assim, justifica-se o uso dessa datacao--modernidade--pelo autor para discutir o que considera como contexto gerador de, pelo menos, duas possibilidades de abordagem disponiveis ao historiador: a analitico-explicativa e a hermeneutico-compreensiva.

A primeira constroi uma narrativa que obedece a logica da temporalidade cronologica, ao investigar os componentes da modernidade a partir de seus "comecos ou [...] origens na epoca que imediatamente a precede historicamente" (FALCON 2011, p. 40). A segunda "inverte a posicao da primeira", o que e explicado como sendo metodologicamente a busca, pelo historiador, do reconhecimento, identificacao e vivencia da modernidade "pelos proprios atores historicos (individuos ou grupos sociais) nela e por ela envolvidos" (FALCON 2011, p. 40). E Falcon infere que: "Neste caso, torna-se fundamental investigar a semantica historica, a producao literaria e artistica, o discurso politico e o discurso historiografico propriamente dito" (FALCON 2011, p. 40). Isso explica a formula por ele aplicada da abordagem "hermeneutico-compreensiva", o que abre a possibilidade de pensar a hermeneutica como um dos fatores responsaveis pela introducao da subjetividade e da sensibilidade no discurso historiografico, uma das conquistas metodologicas do saber historico do fim do seculo XX. Pode-se dizer, ainda, que e a perspectiva hermeneutica a que possibilita a historicizacao do fenomeno "modernidade", porque ela privilegia a existencia e a consciencia dos agentes historicos do fenomeno, os quais percebem a diferenca e/ou a especificidade do momento historico vivido. Ao estudar a modernidade, o autor estuda as metamorfoses na vivencia da temporalidade, na relacao dos agentes historicos com o tempo ("regime de historicidade") e no conceito de tempo no periodo situado no fim do seculo XVIII e no comeco do seculo XIX.

Pode-se dizer que o "realismo historico" e uma das grandes preocupacoes manifestadas, de uma forma ou de outra, nos textos aqui apresentados. Essa formula pode ser compreendida como uma aceitacao, se nao uma defesa, do estatuto ontologico da historia-vivida (ou historia-objeto, na expressao de Pierre Vilar). Esta contemplada nessa discussao a questao da "verdade" (que ja foi tratada, como visto, em outros momentos do texto) nos estudos historicos, negada por algumas tendencias historiograficas sob o argumento da impossibilidade de atingi-la em funcao do objeto analisado nao existir mais, porem seguidamente reafirmada pela maioria que a defende:

A escrita da historia, produto de fatores multiplos e complexos, como bem o sublinhou M. de Certeau, ao analisar a "operacao historiografica", nao renunciou, ate agora, a antiga intencao de ser um conhecimento verdadeiro, de "dizer a verdade sobre aquilo que foi", ou seja, ainda que se lhe possa questionar o carater "cientifico", a historia (disciplina) nao parece disposta a renunciar a sua diferenca em face do discurso ficcional (FALCON 2011, p. 167).

Isso nao implica a crenca de uma verdade absoluta e/ou a-historica; pelo contrario, o conceito de verdade, como todo fato cultural, foi sendo historicizado pelas reflexoes epistemologicas.

Uma vez aceita a premissa de que o historiador busca a verdade da historia, ficou cada vez mais estabelecido pela historiografia que o instrumento para atingi-la sao as fontes documentais. Falcon historiciza a relacao do historiador com as fontes e seu uso nos diferentes procedimentos metodologicos adotados, situando, inclusive, o realismo historico na tendencia historiografica que ele chama de "modernista".

Se a "historiografia moderna", para usar a nocao do autor, acreditou na correspondencia entre discurso e elementos extradiscursivos, ou seja, na relacao entre historia-pensada e historia-vivida, a visao pos-moderna trabalha em sentido contrario. Para os pos-modernos, a representacao historiografica nao pode referenciar-se em algo fora dela, porque o passado e sempre imaginado, uma existencia ausente, ele proprio uma representacao. Poder-se-ia dizer que, nesse sentido, portanto, o discurso historiografico e uma metarrepresentacao. Assim, deixa de ter sentido a inquietacao em torno do binomio real/representacao, dada a impossibilidade de acesso ao que seria o real, o que leva a renuncia da busca da verdade historica por ser considerada desnecessaria e inutil.

A linguistica vem sendo apontada como um dos principais fatores dessas metamorfoses na epistemologia da historia. A expressao "giro linguistico" e indicativa do surgimento de um verdadeiro campo de reflexao, dada a importancia das questoes colocadas pela surpreendente relacao da historia com a linguistica.

Nao e mera coincidencia a simultaneidade entre o surgimento de posturas pos-modernas e a fragmentacao do discurso historiografico. Pelo contrario, este conjunto de transformacoes ontologicas e epistemologicas que se entende como pos-modernidade incide sobre a escrita da historia.

Duas questoes chamam a atencao, dentre os muitos fatores analisados por Falcon para explicar a fragmentacao da historiografia: a rejeicao da ideia de totalidade, fechando, neste aspecto, a era do iluminismo e o retorno do sujeito, agora observado cuidadosamente na realidade e descrito detalhadamente no discurso. Ainda ha, segundo o autor, nessa volta do sujeito como agente historico, a revalorizacao do papel do historiador na composicao de seu discurso, o que reforca a mencionada fragmentacao:

A hipertrofia do sujeito-historiador torna-o a unica instancia de decisao a respeito da validade de um tema de pesquisa e do tipo de discurso mais adequado: problemas, metodos e resultados sao sempre da exclusiva alcada do historiador: logo a fragmentacao e inevitavel (FALCON 2011, p. 177).

Francisco Falcon considera que nao foi a diversidade de objetos investigados o que comprometeu a identidade do saber historico, mas a grande especializacao dos campos construidos para investigacao. O resultado foi que cada tematica busca sua propria legitimacao no universo da pesquisa. Poder-se-ia acrescentar que essa busca se faz, dentre outras formas, pelas diferentes parcerias da historia com outros saberes, o que resulta na multiplicacao de procedimentos metodologicos. Essas multiplas articulacoes provocam tensoes e disputas, trazendo uma dupla hesitacao: em relacao ao fazer historico e em relacao a identidade do historiador:

Em face de tantas variacoes sobre o mesmo tema--a Historia--os conflitos sao de certa maneira inevitaveis uma vez que cada tendencia constitui um microcosmo cuja visao do oficio do historiador raramente se ajusta as demais. Logo, e a propria identidade do historiador que se fragmentou (FALCON 2011, p. 68).

Pelos limites de uma resenha, este levantamento de questoes visou apenas a apresentar algumas das reflexoes de um autor cuja obra sempre revela o "estado da arte" nos estudos historicos e que, ha muito, orienta os caminhos da historiografia brasileira. A importancia das questoes analisadas e a plenitude das reflexoes sobre elas sao um convite a leitura deste livro, que aparece para enriquecer o estudo da escrita da historia.

Keywords

Historic knowledge; Historian; Historiography.

Palavras-chave

Conhecimento historico; Historiador; Historiografia.

Enviado em: 14/11/2012

Aprovado em: 26/11/2012

Marcia Mansor D'Alessio

mardalessio@uol.com.br

Professora livre-docente

Universidade Federal de Sao Paulo

Av. Higienopolis, 794/122

01238-000--Sao Paulo--SP

Brasil
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Title Annotation:FALCON, Francisco Jose Calazans. Estudos de teoria da historia e historiografia. Volume I: teoria da historia
Author:D'Alessio, Marcia Mansor
Publication:Historia da Historiografia
Article Type:Resena de libro
Date:Apr 1, 2013
Words:1812
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